domingo, 18 de janeiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button

O tempo que nos resta


David Fincher ficou conhecido por filmes violentos e perturbados como “Seven – Os Sete Crimes Capitais” e “Clube da Luta”, obras estas que se tornaram cultuadas e contaram com a participação do astro Brad Pitt,o ator preferido de Fincher. Com o perdão do trocadilho, mas é bem curioso que Fincher retorne aos holofotes ao repetir a parceria neste “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Curioso não apenas pelo fato do diretor acabar obtendo seus melhores resultados sempre com Pitt (afinal, parcerias com esta são até freqüentes no cinema, basta lembrar o exemplo clássico de Martin Scorsese e Robert De Niro), mas principalmente por uma mudança significativa na maneira de conduzir o filme, bem como no que diz respeito à temática.

O clima soturno de seus longas anteriores simplesmente desaparece em “Benjamin Button”. Embora ainda utilize, em certos momentos, uma fotografia um tanto escura que remonta à suas origens, o clima reinante é de uma melancólica fábula, antes de tudo recheada de componentes humanos. Não que seus projetos anteriores sejam destituídos de tais componentes. Muito pelo contrário. Fincher é exímio investigador da alma humana, de suas angústias. Contudo, se em outras ocasiões ele procurou explorar o nosso lado mais “perverso”, aqui ele explora os elementos que nos tornam diferentes das outras espécies que habitam o planeta. E é neste sentido que aqui uso a palavra “humano”.

Baseada em um conto de F. Scott Fitzgerald, a narrativa nos mostra a vida de um estranho bebê que nasceu velho, com uma idade física equivalente a mais de 100 anos e, aos poucos, ao contrário do que sucede com todos os outros seres humanos, rejuvenesce. Órfão de mãe (que morreu no seu nascimento) e abandonado pelo pai, que o vê como uma aberração, Benjamim é acolhido por uma empregada de um asilo de idosos, bastante religiosa e que tem dificuldade para ter filhos. Ainda com 7 anos (mas aparentando ter uns 90), Benjamin conhece Daisy (que na idade adulta é interpretada com a competência de sempre por Cate Blanchett), neta de uma das senhoras que vivem no asilo, garota que amaria pela vida inteira. Em dado momento, as idades se encontram e eles finalmente vivem esse amor.

O roteiro, escrito por Eric Roth (o mesmo de Forrest Gump), flui com leveza e emoção, sem jamais perder a sobriedade. Ao mesmo tempo, à medida que Benjamim se torna “mais jovem”, vários momentos históricos são capturados, desde a Primeira Guerra Mundial até a inundação provocada pelo Katrina (a cidade de Button é Nova Orleans). Também interessantes os pequenos “contos paralelos” que permeiam a projeção, como o do construtor do relógio da estação de trem, que contribuem para o clima de “realismo fantástico” presente. Aliás, fosse apenas um exercício de originalidade, Fincher já teria retirado Hollywood do torpor que vem se instalando em suas entranhas nos últimos anos.

Algo que logo chamará a atenção, mesmo do espectador médio, são os aspectos técnicos do longa. A fotografia, de Claudio Miranda, presenteia o assistente com imagens belíssimas no decorrer das 2h46min de duração da película (que passam sem qualquer enfado), assim como a direção de arte, que também é de encher os olhos, e a trilha sonora de Alexandre Desplat, ótima para os ouvidos. Mas, em meio a tantas virtudes técnicas, os efeitos visuais se mostram como um caso à parte. É sabido que Pitt interpretou o personagem em todas as suas fases. Assim, as imagens da velhice de Benjamin acabam sendo um show à parte, dada a perfeição do trabalho de envelhecimento em computação gráfica, auxiliada pela maquiagem impecável. Trata-se de um daqueles louváveis casos em que a tecnologia é colocada a serviço da trama, não como um fim sem si mesmo. Será inteiramente justo se este filme levar vários prêmios Oscar nestas categorias (é bom dizer que o longa já coleciona 11 indicações ao Bafta, o equivalente britânico).

Por outro lado, Brad Pitt mais uma vez mostra que não é apenas o Sr. Jolie e nos brinda com uma atuação inspirada. Fincher realmente sabe extrair o melhor deste competente ator, muitas vezes visto apenas como um galã devido à sua aparência boa-pinta. Vale dizer que todo elenco está bem. Tilda Swinton, como uma mulher casada que é ex-nadadora e com quem Button se relaciona, mostra disposição na sua caracterização. Já Blanchett, como dito acima, sempre confere às suas personagens uma aura de verdade difícil de ser imitada, e todos os demais coadjuvantes encaram seus papéis com dedicação (especialmente Taraji P. Henson, que faz a mãe adotiva de Benjamin).

O mais relevante, entretanto, é notar o significado de toda a trajetória do personagem central. Independente de ter nascido velho e rejuvenescer, Button enfrenta todas as experiências que todos os seres humanos atravessam. Estão lá as inseguranças, frustrações, solidão e necessidades presentes nas vidas humanas. O fato de tornar-se mais novo a cada dia, com menos rugas, não faz de Benjamin mais ou menos feliz. No fim de sua existência, ele, tal como muitos que alcançam idades avançadas, também teme tornar-se um peso para aqueles que ama (afinal, ele acabará transformando-se em um bebê). Aliás, é emblemático o fato de Button ter como lar, no início e no fim de sua vida, um asilo de idosos. O que se revela, portanto, é que não importa o fato de sermos mais ou menos jovens, de estarmos envelhecendo ou rejuvenescendo, mas continuarmos hoje e sempre, jovens cheios de energia ou quando o corpo parece não mais atender aos nossos comandos, em busca de nossos sonhos, de nossas realizações. Como mostra Fincher em determinado ponto, algumas pessoas nascem para serem relojoeiros, especialistas em Shakespeare, fabricantes de botões, para nadar, dançar ou ser mães. O tempo está aí para aproveitarmos e nos realizarmos. Sejamos crianças ou um velhinho com mais de 100 anos, façamos algo de valor com as horas que nos restam.

Cotação: ***** (cinco estrelas)
Nota: 10,0.
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2 comentários:

Bruno disse...

Olá,

começo dizendo que gostei do blog, a primeira vez que venho aqui, e você escreve mto bem.

No entanto, estou mais do lado do Pablo Villaça na opinião deste filme, que não me emocionou nem impactou. De qualquer forma, parabens.

Fábio Henrique Carmo disse...

Bem, obrigado pelos elogios, Bruno. E apareça sempre por aqui. Quanto ao filme, você tem todo o direito de discordar.

E parabéns também pelo seu blog, você também escreve muito bem.