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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Argo

De volta aos anos 70 (ou como Hollywood gosta de se ver no espelho)


Hollywood é reconhecida no mundo inteiro como uma fábrica de sonhos e ilusões, tanto no bom quanto no mal sentido da expressão. Pois bem. Com “Argo”, o ator que virou diretor Ben Affleck nos mostra que a indústria do cinema norte-americano é tão eficiente com sua ficção que já chegou até a enganar a vigilância de um país inimigo dos Estados Unidos para salvar alguns compatriotas que lá se encontravam. Um feito ocorrido no fim dos anos 70/início dos 80 e que foi revelado pelo governo norte-americano apenas em 1997, durante o mandato de Bill Clinton, e que realmente possui todos os ingredientes para se transformar naquilo em que Hollywood é a maior especialista do mundo em fazer: filmes.

Affleck retomou aqui um gênero cinematográfico que teve seu auge nos anos 70: o thriller político, dos quais são exemplos icônicos “Todos os Homens do Presidente” (All The Presidents Men, 1976), de Alan J. Pakula, e “Três Dias do Condor” (Three Days Of Condor, 1975), de Sidney Pollack, gênero este que perdeu espaço nas últimas décadas, principalmente nos anos 80 e 90, quando a população mundial, contaminada pelo estilo yuppie de ver o mundo, deixou-se submergir por uma apatia política que parece ter sido sacudida apenas depois dos eventos do 11 de setembro de 2001 e, mais recentemente, pela grave crise econômica global iniciada a partir de 2008. Nos anos 70, principalmente depois que o studio system sofreu fortes abalos com o advento dos jovens da “Nova Hollywood” e seu cinema autoral, a contestação politica e social era praticamente a regra, não a exceção. Neste longa, Affleck já optou por realizar, no início da projeção, uma autocrítica explícita raramente vista em filmes ianques ao passar em resumo a história recente do Irã, um dos países que mais sentiram o resultado desastroso do intervencionismo imperialista norte-americano. Ao apoiar o governo ditatorial do Xá Reza Pahlevi, como uma reação à nacionalização do petróleo promovida pouco antes pelo primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, os Estados Unidos, em boa medida, contribuíram diretamente para a posterior ascensão do Aiatolá Khomeini ao poder em 1979, durante a chamada “Revolução Islâmica”, o qual acabou por instaurar no país um regime teocrático avesso à cultura e modelos sociopolíticos ocidentais.


Foi durante os eventos de 1979 que a embaixada estadunidense acabou sendo tomada por revoltosos iranianos, fazendo como reféns os diplomatas e funcionários que lá se encontravam. Seis destes, contudo, conseguiram escapar e passaram a viver escondidos na embaixada canadense. Era preciso arrumar um forma de resgatá-los, mas a situação era complicadíssima. Várias ideias (ruins) surgiram, mas Tony Mendez (Ben Affleck no filme), um agente da CIA especialista em situações como esta, surgiu com uma ideia mirabolante: fingir a realização de um filme de ficção científica chamado “Argo” (daí o título do longa). A “produção” procuraria locações no referido país do Oriente Médio e o integrantes da “equipe” seriam justamente os seis enclausurados, que posteriormente deixariam o Irã como “cineastas”. Um plano tão maluco que não levantaria suspeitas. “Melhor do que fingirem ser professores ou fugir de bicicleta ao longo de muitos quilômetros”, disse Mendez. Para tanto, ele contou com a ajuda de verdadeiros profissionais do cinema, entre eles o maquiador vencedor do Oscar John Chambers (no filme vivido por John Goodman) e o produtor Lester Siegel (o sempre ótimo Alan Arkin), os quais se empenharam ao máximo em fazer com que a produção tomasse ares de verdade, realizando coletivas de imprensa, festa de lançamento do projeto, divulgando cartazes e outros procedimentos afins.

Vale ressaltar que Affleck resolveu fazer um filme setentista não apenas no gênero e no tema, como também em vários outros aspectos, como a fotografia granulada (de Rodrigo Prieto) e a trilha incidental, que nos recorda bandas poderosas como o Led Zeppelin. Interessante como ele vem mostrando bem mais competência como diretor do que como ator, ofício onde sempre apresentou desempenhos limitados. “Atração Perigosa” (The Town, 2010), seu longa anterior, já demonstrava uma direção segura e com ótimo ritmo, virtude que se mostraram ainda mais amadurecidas em “Argo”. A tensão é constante ao longo dos 120 minutos de projeção, fazendo com que o espectador se pegunte o tempo inteiro como terminará aquele plano. Astuto, Affleck soube inserir humor nos momentos certos para quebrar o clima tenso, jogando até piadas ácidas dirigidas ao sistema hollywoodiano do qual faz parte. Uma pena que dito sistema acabe por dominar a última terça parte do longa-metragem. Como é de conhecimento até do mundo mineral, Hollywood adora romancear histórias reais, talvez por acreditar que o público não se interessaria por essas mesmas histórias caso elas não fossem maquiadas ou hiperbolizadas. E aqui o jovem diretor também caiu na armadilha, transformando o desfecho do filme em uma correria típica de filmes de ação. Ademais, o final se apresenta permeado daquele patriotismo característico das terras de Tio Sam, algo que se mostra até contraditório diante do seu referido prólogo repleto de autocríticas.



Mesmo diante desses deslizes, “Argo” é um mais um passo adiante na carreira de Ben Affleck como cineasta. O longa já vem sendo cotado como um dos prováveis candidatos ao prêmio Academia de Hollywood e, acredito, ela não deixará passar sem estatuetas essa história surpreendente de como a indústria do cinema contribuiu decisiva e participativamente na resolução de um delicado problema diplomático que poderia ter consequências desastrosas nas relações dos EUA com o Oriente Médio. Como pudemos ver no ano passado, com a premiação de “O Artista” em várias categorias, Hollywood adora se ver na tela, mesmo quando são estrangeiros que a retratam. Que dirá quando é um dos seus próprios rebentos a traçar esta imagem positiva, narrando um dos seus feitos mais mirabolantes e até então desconhecido do grande público. O cinema norte-americano, como qualquer “Narciso”, adora se olhar no espelho.


Cotação:


 

Nota: 9,0

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer


O Mensageiro do Diabo
(The Night Of The Hunter, 1955)


O Bem, o Mal e o Bicho-papão


“O Mensageiro do Diabo” (The Night Of The Hunter), o único filme dirigido pelo respeitado ator Charles Laughton, é uma daquelas obras que fazem parte de um rol especial: as que não foram reconhecidas no seu tempo, ganhando respeitabilidade e sendo descobertas anos depois de seus lançamentos. Isso acontece com uma certa frequência no mundo artístico – não apenas no cinema – bastando lembrar de casos como o do gênio da pintura Vincent Van Gogh ou da obra literária de Franz Kafka. E é uma pena que, tal como estes famosos exemplos, Laughton não tenha vivido o suficiente para ver sua obra alcançar os elogios que sempre mereceu. Contrariamente, viu sua carreira como diretor ser interrompida devido ao fracasso financeiro da produção, não conseguindo mais levar adiante nenhum projeto. Levado à depressão, transformou-se em coadjuvante de luxo dali em diante, em papeis que não lhe exigiam grande esforço. Uma tremenda injustiça histórica com este longa-metragem impressionante, uma espécie de fábula que transmuda para a tela os mais assustadores pesadelos infantis e que nos apresenta um dos mais inesquecíveis vilões da história da Sétima Arte, interpretado por um Robert Mitchum no melhor momento de sua carreira.

Estruturado como uma alegórica batalha entre o Bem e o Mal, o roteiro se baseia em um romance de Davis Grubb adaptado para as telas por James Agee, responsável pelo script de “Uma Aventura Na África” (The African Queen, 1951) e então no auge da fama e respeito em Hollywood. A trama se concentra na figura do falso pastor Harry Powell (Mitchum), um psicótico que já havia matado diversas viúvas que julgava pervertidas, em uma missão que considerava que lhe havia sido atribuída por Deus. Uma vez preso por outro delito de menor importância, conhece durante os dias na prisão o condenado à morte Ben Harper (Peter Graves), o qual acaba revelando ao primeiro que havia deixado escondida com sua família uma grande quantia em dinheiro fruto de um assalto a banco. Quando libertado, Powelll sai em busca do dinheiro e, para alcançá-lo, aproveita-se da fragilidade emocional da viúva de Harper, Willa (Shelley Winters), casando-se com ela e buscando ganhar a confiança dos dois filhos, o primogênito John (Ben Chapin) e a garotinha Pearl (Sally Jane). O menino, contudo, percebe as intenções nefastas do padrasto, recusando-se a colaborar e tornando os irmãos alvos da ira do falso pregador.


Um dos grandes trunfos engendrados pelo roteiro e a direção de Laughton é justamente a sensação de total desproteção enfrentada pelo personagem de John, um verdadeiro terror infantil ainda mais acentuado para o espectador porque muitos dos fatos são vistos segundo a perspectiva das crianças. John é o único que percebe o lado malévolo de Harry Powell, sofrendo a angústia de ser desacreditado pelos adultos à sua volta, a começar pela sua mãe, e não poder contar nem com a própria irmã, já que ela, menor e mais inocente, é facilmente enganada pelo “reverendo” psicopata. Nesta linha, Powell se coloca como a verdadeira encarnação da “velha-debaixo-da-cama”, do “bicho-papão” ou qualquer outro ser imaginário e nefasto que tanto perturbam a imaginação infantil. Algumas sequências, inclusive, possuem um forte tom onírico que reforçam o caráter de fábula da narrativa, tal como a belíssima e estranha sequência dos garotos fugindo pelo rio Ohio ou a aparição de Powell montado em um cavalo visto à distância por John, o que leva este a se perguntar: “ele nunca dorme?”. Como contraponto à força do Mal representada pelo personagem de Mitchum, surge a Sra. Rachel (a lendária Lilian Gish, famosa pelas atuações nos filmes de D. W. Griffith), uma mulher que acolhe crianças órfãs em sua espaçosa propriedade. É ela que protege os irmãos e irá enfrentar diretamente Harry Powell em uma sequência memorável em que impede a entrada do psicopata enquanto este ronda a residência tal como uma raposa espreita um galinheiro.

Aliás, cenas marcantes em “O Mensageiro do Diabo” são mesmo uma constante, dado o brilhantismo da fotografia do veterano Stanley Cortez (que já havia trabalhado, por exemplo, com Orson Welles em “Soberba”) e seus enquadramentos inusitados que remontam ao Expressionismo alemão, por sinal uma das influências assumidas de Laughton, resultando em uma experiência imagética inesquecível. Laughton, inclusive, estabeleceu uma iconografia inimitável na concepção de Powell com suas roupas pretas e brancas, além do uso de tatuagens com as palavras “Amor” e “Ódio” nos dedos das mãos. A queda de braço realizada pelo personagem em uma cena em que explica o embate atemporal entre o Bem e o Mal, cena esta em que as duas mãos com as referidas palavras se abraçam, é simplesmente memorável e brilhante. Uma maneira simples, direta e inteligentíssima de resumir toda a temática do longa. Vale destacar, também, o ritmo de suspense com leves pitadas de humor, onde Laughton parece revelar influências de Hitchcock.


Outro ponto altíssimo é o elenco. Todos os atores entregam grandes performances, incluindo o elenco infantil. Curioso que havia um mito de que Laughton não gostava de trabalhar com crianças e que teria sido Mitchum o responsável por orientá-las nas filmagens. Essa teoria caiu por terra depois que foram descobertos negativos escondidos na velha casa de Laughton nos quais há imagens do mesmo orientando o elenco e que, ao contrário do que se falava, ele dedicava especial atenção aos pequenos. Talvez o maior trabalho para Laughton tenha se dado com Shelley Winters, pois que a mesma teve dificuldades em incorporar o necessário sotaque sulista de Willa Harper e também de encontrar o tom certo para a sua fragilidade. Lilian Gish, como era de se esperar, está perfeita como a citada Sra. Rachel, personagem muito carismática e que, como dito mais acima, representa a grande antagonista de Harry Powell. Um belo retorno após alguns anos de afastamento das câmeras. Entretanto, é mesmo Robert Mitchum, um dos atores mais injustiçados de Hollywood, quem domina as atenções. Em uma composição impecável, ele empresta um ar a só tempo misterioso, ameaçador e sedutor a Powell, criando um vilão perturbador e único. Ademais, jamais sabemos o quanto ele acredita ou não nas palavras religiosas que profere, nunca ficando exposto o quanto há de hipocrisia em seu comportamento. Laurence Olivier havia sido convidado para o papel, mas a escolha final por Mitchum não poderia ser mais acertada.

Contando com várias citações bíblicas que só enriquecem as metáforas e analogias propostas ao longo de sua projeção (é bom lembrar que Laughton era famoso por suas declamações das Escrituras), “The Night Of The Hunter” é uma experiência singular que com certeza se coloca entre aquelas que você tem de ver antes de morrer. Um filme que não parece com nada que você já viu, talvez até porque ele tenha ficado esquecido por vários anos e Charles Laughton não tenha tido oportunidade de continuar como cineasta. Uma pena. De qualquer forma, você cinéfilo tem a obrigação de reparar este erro histórico e fazer com que este longa-metragem recupere cada vez mais o status que lhe é próprio dentro da Sétima Arte, qual seja, o de autêntica obra-prima.


Cotação e nota: Obra-prima.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Contágio



Thriller hipocondríaco televisivo



Em “Traffic” (2000), Steven Soderbergh usou do recurso das narrativas paralelas que apresentam pontos de interseção para tentar dissecar o porquê da quase impossibilidade de erradicação do tráfico de drogas internacional. Contando com elenco estelar e competente, o qual incluiu Michael Douglas, Catherine Zeta-Jones, Benício Del Toro e Don Cheadle, “Traffic” impressionou não apenas por mostrar os meandros da máfia das drogas, como também por conseguir construir sólidos dramas através de personagens muito bem desenvolvidos mesmo dentro de um mosaico de narrativas. A experiência foi tão bem sucedida que rendeu a Sodebergh o Oscar de melhor diretor naquele ano e, diga-se de passagem, com bastante justiça.

Aparentemente, foi procurando repetir o êxito do citado longa-metragem que Soderbergh concebeu este “Contágio” (Contagion), usando dos mesmos recursos de narrativas paralelas que se interligam e elenco de astros tarimbados para situações de forte apelo dramático – além de capazes de levar o público às salas apenas por sua presença na tela. Estão lá Matt Damon, Jude Law, Laurence Fishburne, além das oscarizadas Kate Winslet, Marion Cotillard e Gwyneth Paltrow, cuja morte da respectiva personagem revelada ainda no trailer chegou a causar uma certa polêmica. Afinal, como um material promocional poderia trazer um spoiler dessa magnitude? A verdade é que não se tratou de um spoiler, uma vez que a personagem de Gwyneth, Beth Emhoff, morre logo no início da trama, vítima de um vírus misterioso e altamente contagioso que poderá levar à morte milhões de pessoas ao redor do planeta. Já se percebe, desta forma, que Gwyneth não tem muito tempo em cena, sendo sua participação quase que reduzida a pontas.

Talvez o maior problema de “Contágio” seja o fato de que não apenas a personagem da esposa de Chris Martin tenha um tempo reduzido na tela, mas que praticamente todos os papeis quase se limitam a isso. Tantos são os personagens e ações distintas que não há tempo na projeção nem profundidade no roteiro para que o espectador nutra interesse ou empatia por alguns ou mesmo apenas um deles. Isso acaba resultando, inclusive, em atuações apagadas de todos os envolvidos e acredito que não por culpa dos mesmos, mas, como dito, do roteiro (escrito por Scott Z. Burns, que já havia trabalhado com Soderbergh em “O Desinformante”) excessivamente fragmentado e dispersivo, induzindo o próprio público à dispersão. Tamanho é o emaranhado engendrado que algumas pontas da narrativa ficam simplesmente sem desfecho, como no caso da personagem de Cottilard, a qual some a certa altura da película e depois resta simplesmente esquecida. Sucede que apenas um personagem tem começo, meio e fim, o marido da citada Beth, Mitch Emhoff, mas mesmo este, interpretado por um Matt Damon no piloto automático, é caracterizado com incoerências graves. Ele é aparentemente imune ao novo e letal vírus, mas mesmo assim ninguém se preocupa em estudar seu DNA ou qualquer coisa que o valha. Entretanto, vale dizer que nele se concentra o único núcleo que traz algum interesse dramático, possuindo uma filha adolescente que não pode se relacionar com os rapazes de sua idade devido ao perigo de transmissão da doença. Um outro que ainda aparece com um certo destaque é Jude Law ao interpretar um blogueiro que desafia as autoridades - personagem este que lembra Julian Assange e o seu Wikileaks. Aliás, se ainda sentimos alguma empatia pelos tipos na tela é porque já conhecemos seus intérpretes de longa data, o que facilita bastante uma maior aproximação com o público.


Por outro lado, em um aspecto o filme se mostra bastante eficiente: o de gerar a paranoia na plateia. Com closes em mãos e rostos, além de um roteiro que faz questão de ser didático em esclarecer as formas de transmissão de doenças viróticas, “Contágio” se coloca como um verdadeiro thriller da hipocondria, fazendo cada um da sair da sala de cinema com medo até de passar as mãos no rosto ou apertar a mão de um conhecido (principalmente diante do desfecho que realça à enésima potência a nossa fragilidade). Neste ponto termina lembrando bastante “Epidemia” (Outbreak), longa de Wolfgang Petersen lançado em 1995 (que também contou com astros como Dustin Hoffman e Morgan Freeman) realizado na esteira do pânico gerado pelo Ebola, um outro vírus letal e ainda mais agressivo que o H1N1 que inspirou o trabalho de Soderbergh, não sendo por acaso que o vírus do enredo é denominado MEV-1. Ou seja, parece que essas epidemias cíclicas e inevitáveis acabam gerando sempre algum correspondente cinematográfico disposto a explorar a neurose mundial que sempre vem com elas.

E é também na análise das consequências de uma pandemia desenfreada que reside um dos trunfos do longa, sendo Soderbergh muito feliz em mostrar que certos vícios da sociedade, como o egoísmo e a corrupção, são ainda mais acentuados em situações limite como as apresentadas. E que, mesmo diante do caos, ainda há aqueles que conseguem manter a sanidade e doar seus esforços para a coletividade. Claro, está longe da profundidade de um “Ensaio Sobre a Cegueira” (principalmente da obra literária de José Saramago), mas não se pode negar que há interesse nos conflitos e ideias presentes na narrativa, mesmo que às vezes um tanto rarefeitas.

Muitos afirmam hoje que Steven Soderbergh é um diretor superestimado e que esse seu novo trabalho seria mais um exemplo disso. Não chego a tanto. É inegável que Soderbergh é realmente um ótimo cineasta (seu passado que o diga). Porém, talvez devido ao seu caráter prolífico, acaba por denotar uma visível irregularidade e este “Contágio” faz parte de um dos pontos baixos do eletrocardiograma que se tornou sua carreira. Um produto com uma premissa que poderia render bem mais que o resultado mediano que se vê na tela, o qual, mesmo que não chegue a ser chato, por vezes faz lembrar um filme produzido para a TV. E, sim, tal afirmação significa que não precisa pagar caro para vê-lo no cinema, a menos que você faça o gênero hipocondríaco que sinta prazer em ver suas neuras radiografadas na telona.


Cotação:

Nota: 7,0

sábado, 12 de março de 2011

Inverno da Alma



Sobre coragem e convicções


Curioso que, entre os filmes indicados ao prêmio máximo da Academia de Hollywood este ano, dois deles tenham uma premissa similar, embora não idêntica. “Bravura Indômita”, dos irmãos Joel e Ethan Coen, narra a trajetória de uma adolescente em busca de vingança pela morte de seu pai, assassinado por um bandoleiro, enfrentando um ambiente hostil e violento que retrata muito das entranhas da nação norte-americana. “Inverno da Alma”, longa dirigido por Debra Granik (em seu segundo longa-metragem), também tem o ponto de partida em uma garota que, vivendo em um ambiente hostil dos rincões ianques, busca não uma vendeta, mas encontrar o pai desaparecido há dias para que, obtendo sucesso, consiga salvar a residência da família das mãos de credores hipotecários. A semelhança chega até mesmo às surpresas do elenco. Se no filme dos irmãos Coen tivemos o destaque para a novata Hailee Steinfeld no papel principal (sua indicação ao Oscar como coadjuvante soa bastante estranha), a desconhecida Jennifer Lawrence, como a protagonista Ree em “Inverno da Alma” também se mostra uma grata revelação. Ambas têm enorme sucesso ao interpretar meninas fortes que têm de superar o medo e enormes adversidades para alcançar seus respectivos objetivos.

Entretanto, as semelhanças param por aí. Se o filme dos Coen se desenvolve como um típico western comercial (o mais comercial dos longas dos irmãos cineastas), com desenvolvimento da trama e caracterização dos personagens aptos a agradar ao grande público, o filme de Debra Granik se desenrola em um ritmo típico de produções independentes destinadas a circuitos mais alternativos, embora flertando com o suspense concomitantemente. Seus personagens e circunstâncias são apresentados lentamente e sem qualquer sensacionalismo que invoque a empatia imediata do espectador. Vamos descobrindo, assim, que Ree tem uma mãe com problemas mentais e dois irmãos mais novos dos quais tem de cuidar, já que seu pai está envolvido com o tráfico de drogas na região. Ambientado nas montanhas Ozark, no estado do Missouri, a atmosfera densa logo preenche o roteiro (baseado em romance de Daniel Woodrell) e percebemos que a comunidade na qual Ree está inserida, boa parte delas formada por parentes próximos ou distantes, lhe oferece pouco acolhimento.

É neste ponto que o longa fisga o espectador. É difícil não se sensibilizar com a via crucis de uma garota de 17 anos para salvar o próprio lar, sofrendo ameaças de pessoas das quais seria de esperar ao menos uma mão estendida. Nesse aspecto, vale frisar que o longa chega a flertar com o noir, tendo em vista a dubiedade presente em quase todos as personagens, à exceção da protagonista. É aqui que, com já frisado acima, que se sobressai a atuação de Lawrence, talentosíssima em sua juventude. Impressionante como ela utiliza de poucas expressões (quando seria de se esperar até caretas de colegas menos talentosas) para transparecer emoções, externando sentimentos como medo, revolta, solidão e desesperança como grande simplicidade. Da mesma forma, John Hawkes (indicado ao Oscar como coadjuvante), empresta verdade ao titubeante e escorregadio tio Teardrop, um homem também dominado pelo vício, mas que não esquece seus vínculos familiares. A oposição entre essa maldita circunstância familiar e a aversão que Ree sente pela mesma é mostrada de forma contundente na sequência em que Teardrop lhe oferece droga e ela recusa peremptoriamente, afirmando que nunca provará disso.

Por outro lado, a película também funciona como um thriller policial (mais uma vez invocando o noir), trazendo tensão e dúvida em diversas passagens, principalmente em seu clímax (de arrepiar), além de possuir elementos técnicos muito bem trabalhados, como a bela e ao mesmo tempo soturna fotografia. Interessante constatar que “Winter’s Bone” poderia facilmente ganhar circuitos comerciais, fugindo do rótulo de “filme de festival” (ele recebeu prêmios tanto em Sundance quanto em Berlim). Isso talvez mostre que um cineasta não deve abandonar suas convicções (tal como Ree não foge às suas no longa), sendo que agradar ao público deve ser sempre consequência e não o objetivo de um trabalho. No fim das contas, Granik, em sua fotografia de um lado da sociedade americana, se sai mais feliz do que os Coen em sua mais recente obra, cuja nuance comercial foge às características da dupla. Um retrato sem convicção é um retrato falso. Talvez por isso “Inverno da Alma” nos atinja no coração de maneira mais contundente. Vendo o filme, não deixei de lembrar de uma certa frase de Guimarães Rosa, a qual poderia lhe servir como epígrafe: “"A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."


Cotação:

Nota: 9,5

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer



A Conversação
(The Conversation)



Dúvida e obsessão



Não há dúvidas que Francis Ford Coppola é um dos diretores mais importantes de todos os tempos, apesar de sua fase pouco inspirada dos últimos anos. Um dos precursores da “Nova Hollywood”, movimento que mudou a cara do cinema norte-americano para sempre, e responsável pela trilogia absoluta de “O Poderoso Chefão” (cujos dois primeiros filmes são obras-primas indiscutíveis), além de “Apocalypse Now”, outra obra de arte soberba, muitos não se recordam de algumas de suas “pequenas” pérolas. Talvez o melhor exemplo destes filmes de Coppola pouco lembrados seja “A Conversação”, um estudo sobre os meandros da mente humana quando carregada de culpa e dúvida.

No seu auge criativo, o diretor realizou o filme entre as duas primeiras partes da trilogia do Chefão, em 1974 (o que talvez explique seu relativo “esquecimento”). Extremamente provocativo, o longa representa muito bem a nascente paranoia estadunidense com o então recente caso de Watergate. Neste longa, Coppola narra a história de Harry Caul (com interpretação perfeita de Gene Hackman), um especialista em escutas investigativas. Em um de seus trabalhos, ouvindo o diálogo de um casal repleto de ruídos, ele acaba se deparando com a possibilidade de um iminente crime. Só que, para chegar a tal conclusão, ele não conta apenas com seu apuro profissional, mas também com sua imaginação, já perturbada por um caso anterior em que sua atuação possibilitou evento similar.

O mais instigante no desenvolvimento do roteiro e na condução de Coppola é que esses elementos não são jogados com facilidade para o espectador. Aos poucos vamos descobrindo a personalidade e as motivações de Harry, percebendo que o mesmo, talvez devido ao seu ofício, é um homem solitário, hermético, de poucos amigos, que parece ter como única diversão tocar o seu saxofone sozinho no seu apartamento. Ou será que foi sua personalidade que o levou a buscar um trabalho em que interage com as pessoas sem precisar se expor? Sem dúvida, um personagem misterioso e tridimensional. Seu pouco tato em relacionamentos se mostra de forma ainda mais clara quando é enganado por uma mulher em uma situação de fácil percepção. Além disso, à medida em que Harry progride em sua investigação, ele se afunda cada vez mais em seu isolamento, afastando até mesmo seu único amigo, Stan (interpretado por John Cazale, falecido precocemente), bem como imerge em uma dúvida terrível sobre a verdade do fatos que está acompanhando.


A solidão de Harry Caul, ademais, é realçada de forma brilhante pela direção de Coppola. Ele realiza aquele tipo de trabalho extremamente visual, onde a narrativa flui essencialmente através das imagens. O velho Hitchcock já ensinava que a melhor forma de provocar suspense é pelo meio imagético. Mas se enganam aqueles que podem pensar que os sons e diálogos assumem uma importância menor na trama. Afinal, é justamente a partir de sons captados que se estabelece o vértice do filme. Interessante como, ao longo da película, escutamos um mesmo diálogo repetidas vezes, mas, tal como o protagonista, jamais nos cansamos de ouvi-lo, além de também sermos instigados a descobrir a verdade por trás daquelas palavras. Por seu turno, a trilha sonora, de David Shire, se mostra melancólica, brilhante e marcante. São raros os filmes em que a trilha se encaixa tão bem na temática abordada, ressaltando ainda mais a solidão e obsessão do protagonista.

Visto hoje, décadas depois de seu lançamento, percebe-se o quanto este longa-metragem (que recebeu a Palma de Ouro em Cannes) não envelheceu. Afinal, voyeurismo e invasão de privacidade são temas mais do que nunca atuais. Suas influências são sentidas mesmo em obras recentes, como no também ótimo “A Vida dos Outros” (do alemão Florian Henckel von Donnersmarck). Estas obras perenes, que se lançam no tempo sem perder a sua atualidade, costumam ser fruto de talentos geniais. Inegavelmente, Francis Ford Coppola é um destes talentos.


Cotação:

Nota: 10,0

domingo, 14 de março de 2010

Ilha do Medo

Um filme de Martin Scorsese!

Creio que é dispensável realizar um apanhado da importância de Martin Scorsese para o cinema. Ele é um dos grandes gênios ainda em atividade no cinema norte-americano atual, provavelmente sendo igualado apenas por Clint Eastwood e Steven Spielberg (alguns poderiam citar Francis Ford Copolla, mas a verdade é que este há muito tempo não realiza uma grande obra). Scorsese é como um vinho de qualidade: o tempo passa e só refina as suas nuances. Não concordo com aqueles que afirmam que Scorsese teve a sua melhor fase nos idos dos anos 70 e 80. É verdade que “Taxi Driver” e “Touro Indomável” são obras-primas viscerais e essenciais. Entretanto, são filmes que não dialogam com o grande público, requerendo um paladar mais apurado para que sejam devidamente apreciados. Talvez uma das características adquiridas por Scorsese, nos tempos em que se dedicou a ganhar um Oscar, tenha sido justamente uma maior facilidade de atingir as massas. E não acredito que isto trouxe malefícios à sua carreira. Pelo contrário. Realizar filmes autorais admirados por milhões deve ser o sonho de ouro de qualquer cineasta.

Este “A Ilha do Medo” é um perfeito exemplar do que se pode chamar de um filme autoral com apelo popular. Estão lá presentes vários dos motes que marcaram a trajetória do diretor: a solidão do indivíduo diante de uma realidade inóspita; as dúvidas sobre sua própria sanidade; as suas convicções que desafiam as convenções postas. Todos os personagens de Scorsese, antes de tudo, são grandes solitários. Basta lembrar de alguns de seus longas mais conhecidos para constatar essa assertiva (seja nos já citados “Taxi Driver” e “Touro Indomável”, seja nos longas mais recentes com Di Caprio, como “O Aviador” e “Os Infiltrados”). E solidão é um dos elementos identificadores de Teddy Daniels (Leonardo Di Caprio, cada vez melhor), policial federal que, procurando solucionar um crime, acaba indo à ilha Shutter, na qual se localiza um sanatório para doentes mentais criminosos. Acompanhado do parceiro policial Chuck Aule (Mark Ruffallo, sempre eficiente), ele também está buscando explicações para fatos que envolvem sua vida pessoal, especialmente a morte de sua esposa, Dolores (Michelle Williams). Teddy mergulha então num emaranhado de estranhos acontecimentos que vão levá-lo a dúvidas sobre a veracidade do que está acontecendo. Será tudo verdade ou obra de sua mente, que parece, em várias ocasiões, vacilante?

Engenhosamente, o roteiro, baseado no livro de Dennis Lehane e adaptado por Laeta Kalogridis, mergulha o espectador também nessa dúvida. Há várias passagens na projeção em que não sabemos se estão ou não acontecendo realmente na trama. E essa dúvida, bem como a tensão constante do filme, são realçadas com a direção magistral de Scorsese, o qual, desde o princípio, já estabelece o clima desejado através de uma trilha sonora sinistra e marcante. Este início, por sinal, remete bastante ao princípio de “O Iluminado”, de Kubrick, e as referências são uma constante no trabalho. É sabido que Scorsese é um dos mais profundos conhecedores do cinema mundial e que suas obras sempre possuem vários elementos pesquisados com afinco na história da 7ª arte. E, além das auto-referências, é possível encontrar ecos do cinema noir neste “Ilha do Medo”, com especiais momentos de Jacques Tourneur. Interessante notar, ademais, como cada sequência, cada quadro, parece ter sido milimetricamente pensado para gerar alguma reação no espectador e nunca neguei que a força do cinema imagético causa especial impressão em mim. Várias são aquelas cenas que remetem a pesadelos, mesmo quando o personagem de Teddy não está sonhando. A atmosfera lúgubre é complementada por uma fotografia adequada e a edição sempre precisa de Thelma Schoomaker, a velha colaboradora de Scorsese.

Por outro lado, se em seus últimos trabalhos o diretor havia se dedicado a traçar as linhas de formação de sua nação, os Estados Unidos, aqui sua grande preocupação parece ser as angústias e tormentos de um homem, muito embora também esteja latente a insinuação de que tais angústias podem ser fruto de um sistema (comparações com campos de concentração acabam se tornando claras). O personagem de Teddy empreende uma busca para saber se os fatos que redundam em suas desventuras na ilha do título são fruto de sua imaginação, consequência de seus atos ou uma elaboração daqueles que detêm o poder na ilha. Tal busca/investigação, que é o cerne da trama, é mais interessante do que as possíveis conclusões.

Alguém já disse que a formulação de uma pergunta é mais importante do que sua resposta e a verdade é que, diante das muitas perguntas com as quais se pode sair da sessão, somente uma merece realmente ser respondida: “Ilha do Medo” é um ótimo filme, trazendo um Scorsese em sua melhor forma, um suspense que via além do mero susto para trazer questões pertinentes. Creio que você não permanecerá indiferente a essa bela experiência.


Cotação: * * * * * (cinco estrelas)
Nota: 10,0

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Fim da Escuridão


Mel Gibson: o retorno


Dois motivos me despertaram o interesse por “O Fim da Escuridão”, filme atualmente em cartaz no circuito comercial brasileiro. O primeiro deles, a presença de Mel Gibson em tela, depois de 8 anos sem atuar dedicando-se apenas à direção (nesses anos, dirigiu “A Paixão de Cristo” e “Apocalypto”). O segundo, a direção de Martin Campbell, o responsável pelo excelente “Cassino Royale”, o melhor longa da franquia “007” desde “Goldfinger”. A união dos dois talentos sugeria um bom resultado e a verdade é que, embora não seja excepcional, “O Fim da Escuridão” é um filme inteligente, muito embora deixe a sensação de que poderia ser melhor.

A trama, repleta de nuances políticas e teorias da conspiração (Gibson parece adorar este tipo de roteiro, basta lembrar que estrelou “Teoria da Conspiração” ao lado de Julia Roberts), narra a história de Thomas Craven, um policial da divisão de homicídios de Boston. Viúvo, sua grande alegria é a filha, Emma (Bojana Novakovic), que acabou de se formar no MIT e está estagiando na empresa de pesquisa nuclear Northmoor. Durante uma de suas folgas, Emma vai visitar o pai. A garota não se sente bem e, quando ambos estão saindo para o hospital, ela é assassinada por um homem misterioso que apenas grita “Craven”. Será que o tiro era mesmo dirigido à garota ou seria ao pai?

A narrativa vai se desenvolvendo a contento durante a primeira metade da projeção. Contudo, a partir de certo ponto, o roteiro de William Monahan (roteirista de “Os Infiltrados”, o que já denota que o mesmo adora uma remake) e Andrew Bovell, adaptado de uma premiada minissérie inglesa (que foi dirigida pelo próprio Campbell), descamba para a previsibilidade quando passamos a conhecer, antes da hora, os verdadeiros responsáveis pela morte da garota - e é bom não mencionar muito mais do que isso, sob pena de colocar spoilers gigantes que estragariam qualquer prazer na sessão. O longa se torna, a partir daí, um drama de vingança meio que dentro de um estilo “Desejo de Matar” dos velhos tempos do Charles Bronson. Aliás, essa também é uma característica de Gibson, cujos filmes em que ele procura uma vingança são uma constante em sua carreira (só para citar dois exemplos clássicos: “Ma Max” e “Coração Valente” se encaixam nessa linha). Contudo, mesmo nesta parte, o filme não se torna ruim, tendo em vista o conhecido talento de Campbell para dirigir cenas ação com sua técnica perfeita e momentos que ainda rendem alguns sustos que resultam de uma edição muito bem realizada.

Por outro lado, o texto só não descamba totalmente para a ação devido às presenças tanto de Gibson quanto de Ray Winstone, o qual faz o papel do misterioso Jedburgh, personagem contratado para limpar a sujeira que parece sair do controle. Os momentos em que os dois estão em cena são ótimos, com diálogos bem escritos e ótimas caracterizações. Entretanto, é inegável que todo o potencial de crítica ao sistema, com seus meandros e podres desconhecidos por 99% dos cidadãos, acaba se diluindo e perdendo a força e, ao término da sessão, temos a sensação apenas de termos visto um thriller bem engendrado e com a marcante figura de Mel Gibson. Afinal, Hollywood, na grande maioria dos casos, acaba diminuindo a qualidade dos projetos originais que resolve adaptar para o modelo palatável aos americanos. Um filme que poderia causar bem mais impacto não fosse a mediocridade dos produtores ianques. Gostinho de “poderia ser melhor” vai ficar na sua boca.


Cotação: * * * (três estrelas)
Nota: 7,5