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segunda-feira, 12 de março de 2012

Eu Quero Esse Pôster #19

A seguir, dois trabalhos do artista gráfico Ken taylor, dono de um estilo que remete à estética dos quadrinhos. O primeiro é do já clássico terror "Poltergeist".


E abaixo, o trabalho do artista para o badalado "Drive".

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O novo terror de Coppola


A imagem acima é de "Twixt", o novo terror de Francis Ford Coppola. A narrativa tratará de um autor de uma série de livros envolvendo bruxaria que, em meio a uma turnê no interior dos Estados Unidos para divulgar sua última obra, se depara com a história de um assassino serial que pode lhe render um novo trabalho.O elenco contará com Val Killmer ressurgindo-das-cinzas (e com bem mais peso também, como dá pra perceber). Interessante que Coppola declarou que teve a ideia do roteiro a partir de um pesadelo. Ele também afirmou que o filme presta homenagem a Edgar Allan Poe, um dos seus autores favoritos. Aguardando desde já! Veja o trailer abaixo.


quinta-feira, 28 de julho de 2011

Restaurando a Película



Suspiria
(Suspiria, 1977)


Sofisticado filme B



Muitos afirmam que o cineasta italiano Dario Argento está para os filmes de terror na mesma dimensão que Segio Leone está para o gênero western. Se este ressuscitou o mais conhecido gênero tipicamente hollywoodiano do ostracismo, chegando a alcançar patamares verdadeiramente artísticos, Dario Argento quase promoveu o mesmo com o terror. Digo “quase” porque acredito que a obra de Argento sempre esteve a um passo de descambar para o trash, mantendo-se em uma corda bamba entre o gosto apurado e o duvidoso. “Suspiria”, seu filme lançado em 1977 (e certamente o longa mais lembrado de sua carreira), talvez seja o exemplo mais claro desta afirmação.

A comparação com Leone não é gratuita ou meramente ilustrativa. Argento trabalhou como co-roteirista na obra-prima “Era Uma Vez No Oeste”, seguramente um dos melhores filmes da história do cinema e parece que aproveitou muito as verdadeiras aulas que o mestre Leone deve ter ministrado nos sets de filmagem. Como se sabe, este último foi o responsável por levar os paradigmas do western ao seu limite, procurando sintetizar em suas projeções tudo aquilo que o gênero poderia oferecer. Seus filmes são obras barrocas, onde se verifica um cuidado extremo com cada tomada e a trilha sonora tem um papel fundamental. O requinte traz um resultado até mesmo operístico. E parece que foi inspirado no método primoroso de Leone que Argento passou a conceber os seus filme de horror.

Destarte, Argento não é um mero imitador do estilo de Leone. Vale frisar, inclusive, que outro mentor fundamental em sua carreira foi Mario Bava, o grande mestre do horror italiano, responsável por inovações estilísticas que iriam influenciar gerações, como o seu travelling constante, recurso utilizado até hoje por nomes como Martin Scorsese. Ademais, é importante recordar que Argento foi (e ainda é) um dos expoentes do giallo, termo este usado para designar o gênero dos thrillers policiais italianos, com origens em meados dos anos 60 e obtendo grande sucesso popular nos 70. O giallo, com suas tramas geralmente centradas em assassinos seriais e estética crua, acabou influenciando o nascimento de um novo tipo de terror que predominaria no cinema americano durante os anos 80, os chamados slasher movies (a série “Sexta-feira 13” é referência bastante conhecida deste gênero). Assim, o terror na obra de Argento surge como o fruto de uma mistura de estilos, reunindo o apuro técnico e imagético a uma estética de gosto, por vezes, duvidoso, advinda do giallo.

Ao acompanharmos o desenrolar da narrativa de “Suspiria” podemos perceber em diversos momentos a presença de ditos elementos. O filme leva a extremos a iconografia do horror. Desde os seus créditos, já sublinhados pela sinistra trilha sonora composta pelo grupo de rock progressivo Goblin, o longa se mostra macabro. Parece não haver qualquer cena durante a exibição que não tenha sido pensada para trazer um calafrio ao espectador. A primeira sequência, mostrando a protagonista Susie Bannyon (Jessica Harper) chegando ao aeroporto de uma cidade alemã, se passa debaixo de uma tempestade com raios e trovões, denotando uma atmosfera tenebrosa que só irá crescer ao longo da narrativa. Susie está na Alemanha para estudar balé em uma conceituada escola de dança quando um série de assassinatos surreais começa a acontecer envolvendo integrantes da academia. Aparentemente cometidos por um serial killer, logo se percebe que as coisas não são bem assim. A tal escola na realidade é um antro de bruxas e fatos sobrenaturais começam a pipocar no enredo. Com essa trama simples e direta, sobra espaço para que Argento empregue seu virtuosismo técnico em cenas de grande impacto para a plateia. O primeiro dos assassinatos é um horror em todos os aspectos. E é exatamente do seu exagero gráfico que surge a impressão de que estamos diante de uma obra na corda bamba entre o requinte e o mau gosto. Haja estômago para acompanhar tanta sangria e temperos de crueldade. Mas não se pode negar que o conjunto soa original e, em várias passagens, perturbador.


E perturbador não apenas pela violência atordoante que pontua o longa-metragem em diversas sequências. Argento sabe explorar o poder imagético do horror até mesmo na utilização das cores, sempre fortes e vívidas durante toda a projeção. Poucas vezes o vermelho foi tão bem explorado para causar medo, assim como o verde, entre outras cores bastante vivas. E aqui se sente especialmente a citada influência de Mario Bava, um pioneiro na utilização do technicolor como forma de potencializar climas macabros. Ademais, Argento sabe se valer de referências a obras predecessoras, em um método que provavelmente influenciou Quentin Tarantino. É possível distinguir homenagens a filmes como “O Bebê de Rosemary” (de Roman Polansky) ou “Carrie, A Estranha” (de Brian De Palma). Além disso, a referida trilha composta pela banda Goblin cria uma textura sonora ímpar, minimalista e impressionante em igual medida (assim como as trilhas de Ennio Morricone tornavam as obras de Sergio Leone ainda mais belas e vívidas).

Embora tropece no roteiro em alguns pontos, como personagens que entram e somem sem maiores razões narrativas - talvez devido à grande preocupação do diretor com o lado virtuoso e imagético da produção - “Suspiria” não deixa de ser uma experiência realmente diferenciada, mesmo para a parcela do público acostumada com filmes de terror. Inegavelmente, tornou-se uma referência neste gênero, influenciando fortemente diretores como John Carpenter, o qual chegou a declarar que “assistir Suspiria é como estar preso em um pesadelo”. Enfim, um sofisticado filme B. Uma película para nervos fortes, mas necessária.


Cotação:

Nota: 9,0

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cisne Negro


Assistir é preciso


Quando observada com atenção, a carreira de um cineasta pode revelar algumas de suas obsessões, manias ou simplesmente temas que gosta de abordar. Interessante que uma das primeiras impressões que tive de “Cisne Negro” foi a de que seu diretor, Darren Aronofsky, possui uma certa cisma com autoflagelação. A personagem central, a bailarina Nina Sayers (Natalie Portman), é adepta inconsciente desta prática, assim como o protagonista Randy, de “O Lutador” (filme anterior do diretor), também era adepto da mesma, só que neste caso de forma consciente. Além disso, Nina pratica, ao longo de toda a projeção do longa indicado a 5 Oscars, uma espécie de autoflagelação psicológica ao se determinar a incorporar uma personagem distante de sua própria essência. Sua tortura, ademais, é complementada pelo controle da mãe super-protetora (Barbara Hershey) e consequentemente opressora, a qual também foi bailarina e vê na filha uma chance de sucesso que não conseguiu obter, e as imposições tirânicas e cínicas do diretor e produtor do balé, Thomas Leroy (Vincent Cassel).

É aqui, por outro lado, que reside o cerne deste trabalho perturbador de Aronofsky. Nina ambiciona o papel central da nova montagem de “O Lago dos Cisnes”, o clássico de Tchaikovsky que narra a estória de uma princesa transformada por um encanto em um cisne branco. Para libertá-la do feitiço, é necessário que um príncipe se case com ela. Entretanto, o príncipe acaba seduzido e casando com o cisne negro, irmã do cisne branco, levando esta última, em um ato de desespero, ao suicídio, atirando-se do penhasco. Só que, na montagem planejada pelo diretor Leroy, cisne branco e negro serão interpretados pela mesma bailarina. Para conseguir o papel de protagonista (após a aposentadoria forçada da principal integrante da companhia, interpretada por Wynona Rider-ressurgindo-das-cinzas), Nina então terá de despertar em si aspectos humanos que parecem não lhe pertencer ou estarem reprimidos ao longo dos anos.

Muitos podem atirar pedras na comparação que farei agora, mas essa temática do despertar do “lado negro” já se tornou um tanto cansada no cinema depois de toda a longa série “Star Wars”, que é por muitos vista apenas como filmes rasos que proporcionam uma boa diversão. A saga de Anakin Skywalker trata exatamente deste embate entre o bem e o mal que existe em cada ser humano, conflito este que, ademais, está na base de todas as religiões. Talvez a diferença entre Nina e Anakin esteja no fato de que a primeira deseja ardentemente despertar este seu lado adormecido, enquanto Anakin luta para dominá-lo, mas, eventualmente, acaba sendo vencido pelas circunstâncias que insuflam a sua vertente perversa.


Vale dizer, ademais, que Aronofsky flerta perigosamente com um certo conservadorismo ao deixar nítida a relação entre o lado obscuro e a sexualidade. Nina, possivelmente virgem, é recatada e infantilizada pela mãe (basta observar os detalhes de seu quarto rosa) e sua maior dificuldade em interpretar o cisne negro reside justamente em transmitir uma sensualidade necessária à sua interpretação na dança. A ideia de que sensualidade e maldade estão necessariamente ligadas parece percorrer toda a trama, como se não fosse possível Nina desenvolver melhor sua sexualidade sem despertar aspectos “nefastos” do seu ser. Essa posição de Aronofsky se torna ainda mais nítida com a inclusão da personagem Lilly (Mila Kunis), a rival na disputa pelo papel de cisne branco/negro. Ela se mostra como o natural “cisne negro” da narrativa, com uma sensualidade espontânea, mas também com um caráter dúbio e escorregadio, induzindo Nina, por vezes, a um hedonismo permeado por excessos. Aliás, se à primeira vista a narrativa se mostra confusa e quase indecifrável, com um olhar mais detido percebe-se que estamos diante de uma alegoria em que Leroy, o diretor da montagem, é o príncipe que irá retirar Nina se sua condição de “cisne”, uma bailarina de menor destaque, para a condição de “princesa”, ou seja, a estrela da companhia. Ela então se vê ameaçada por Lilly (teria alguma relação com Lilith, a primeira mulher de Adão?), “o cisne negro” que também quer a condição de princesa e usa suas armas de sedução par atingir tal objetivo. Ou seja, pode soar até como um paradoxo, mas Aronofsky resvala no maniqueísmo ao querer investigar as forças obscuras que existem nas entranhas de cada um.

À parte a existência de um determinado cansaço da temática e da abordagem dotada talvez de um rígido conservadorismo, Darren demonstra mais uma vez ser dotado de um talento ímpar para dirigir filmes. O longa-metragem é tecnicamente perfeito. A forma com a qual o roteiro é desenvolvido (escrito por Mark Heyman, Andres Heinz e John J. McLaughlin), auxiliado por suas fotografia e edição, imprime ao filme um ritmo e clima oníricos, fazendo o público muitas vezes ter dúvidas sobre o que está realmente acontecendo e estabelecendo um horror psicológico cujas raízes remontam a “O Bebê de Rosemary”, clássico de Roman Polansky. O aspecto fotográfico, de autoria de Matthew Libatique, talvez seja, deveras, o mais brilhante. Com alguns closes nos pés da bailarina durante a dança, além de seu rosto durante a execução da mesma, podemos ter a ideia, mesmo que limitada, do enorme grau de dificuldade de uma arte que exige precisão técnica nos passos ao mesmo tempo em que demanda um grande poder performático. Aliás, uma leitura alternativa possível pode levar o espectador a intuir que toda a trama de “Cisne Negro” é uma boa metáfora para a profissão de ator, a qual muitas vezes exige que seus profissionais lidem com emoções e sentimentos estranhos às suas próprias naturezas.


Neste ponto, é importante destacar que o filme não seria absolutamente nada sem a força das atuações. Todo o elenco está impecável (mesmo Vincent Cassel acaba deixando de lado sua tradicional canastrice). Entretanto, este é mesmo o papel da vida de Natalie Portman (pelo menos até agora, pois que ainda é bastante jovem), um daqueles trabalhos que serão lembrados mesmo após décadas. Imagino que ela deve ter-se sentido exaurida após um trabalho que exigiu uma dedicação gigantesca, não apenas no aspecto técnico (já que ela se dedicou verdadeiramente ao balé, emagrecendo vários quilos, mesmo que algumas cenas sejam realizadas por dublês), mas fundamentalmente no emocional. Caso venha de fato a receber o prêmio da Academia, será tão justo quanto foi a premiação de Marion Cotillard em “Piaf – Um Hino ao Amor”. Ela só terá que tomar muito cuidado de agora em diante, pois nem todo mundo é um Marlon Brando capaz de interpretar ao menos uns cinco papéis inesquecíveis ao longo da carreira. As comparações com ela própria serão inevitáveis a partir deste ponto. Aliás, Aronofsky parece mesmo ser um mestre em conceber longas que possibilitem aos atores estas “epifanias”, tal como também ocorreu com Mickey Rourke no citado “O Lutador”.

Com tantos aspectos primorosos, é inevitável que o espectador embarque na trama, deixando-se levar pelos transtornos de Nina, mesmo que não seja uma experiência fácil ou agradável. Afinal, várias são as sequências fortes e impactantes (como a já polêmica cena de lesbianismo), o que pode levar muitos a rejeitarem o filme, principalmente o público feminino. Se, por um lado, Darren Aronofsky parece apresentar um desgastado tema apenas sob uma nova roupagem (mais “cabeça”, digamos assim) e surgindo até simplório em alguns momentos (ao associar sensualidade com desvios de caráter), por outro não se pode negar a força do resultado desta obra que se mostra singular em muitos aspectos. A verdade é que impossível acompanhar a projeção e restar indiferente a ela. Interessante perceber as reações da plateia ao fim da sessão, quando observei que muitos na sala em que assisti saíram com sorrisos nervosos aliados a um grande burburinho que demonstravam que não sabiam dizer exatamente o que tinham visto e se haviam gostado ou não da experiência. Confesso que sou um deles e, desta vez, vou me abster de atribuir uma cotação ou uma nota a este longa peculiar. Há filmes que apenas necessitam ser vistos, mesmo que você venha a gostar deles ou não.


Cotação e nota: abstenção.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer


O Iluminado
(The Shining)


Violência domést
ica

Muitos consideram “O Iluminado” como o filme mais assustador da história do cinema. E é provável que o seja. Afinal, um filme de horror dirigido pelo gênio Stanley Kubrick só poderia mesmo resultar em algo fora do comum, memorável. Muito do terror, claro, resulta do talento do mestre, com seu perfeccionismo e domínio completo da linguagem cinematográfica, realizando tomadas com ângulos inusitados, clima de tensão crescente, sensação de claustrofobia e perda da sanidade mental. Além disso, Kubrick é um dos cineastas que mais conheciam a força imagética da 7ª arte, construindo cenas que já se eternizaram no inconsciente coletivo. Todavia, talvez a grande força aterradora do longa seja a ideia de ser ameaçado por alguém que, antes de tudo, deveria lhe proteger. Não deve haver maior terror do que uma violência partindo de alguém que você ama.

Esse é o conceito que Kubrick trabalha ao adaptar o livro homônimo de Stephen King. O escritor, aliás, sempre afirmou que sua obra era “um pequeno conto sobre bloqueio de autor” e, talvez por isso (e curiosamente), não tenha gostado da adaptação realizada por Kubrick. Este último, na realidade, procurou traduzir, nas telas, uma reciclagem das velhas estórias de “casa mal-assombrada” para retratar o assombro que muitos vivem diariamente no mundo real: a violência doméstica. Afinal, Jack Torrance, o pai de família interpretado por Jack Nicholson, é um escritor com problemas criativos e financeiros que se presta a trabalhar como zelador do Hotel Overlook, uma estância de verão nas montanhas rochosas do Colorado. O problema é que o serviço será prestado durante o inverno, quando todos os funcionários deixam o local, que fica praticamente isolado devido às fortes nevascas que se abatem sobre a região durante a estação fria. Ou seja, isolamento completo. Jack leva sua família com ele, a esposa Wendy (Shelley Duvall) e o pequeno Danny (Danny Lloyd), o tal “iluminado” do título, possuindo poderes mediúnicos que o alertam sobre eventos futuros e presenças malignas. Com problemas passados com o alcoolismo, Jack, desta forma, parece resumir as características de pais violentos, pois que se encontra em um momento profissional difícil e, influenciado pelo álcool mais uma vez, acaba por descontar na família as suas frustrações. A solidão que a família passa a viver no Overlook é muito representativo do isolamento social porque Jack passa, afinal ele é um “fracassado” (de acordo com a concepção tola criada pelos norte-americanos sobre “fracasso” e “sucesso”). Tais condicionamentos acabam por levá-lo a atos de violência que, no contexto do roteiro, são induzidos por fantasmas que há muito habitam o hotel, almas penadas vítimas de assassinatos extremamente violentos e que ali permaneceram para todo o sempre. Na realidade, uma alegoria para os fantasmas que rondam o inconsciente de pessoas que acabam perdendo o controle, atribuindo a culpa de seu fracasso a quem está mais próximo.



Todo esse processo é coroado, de maneira imageticamente poderosa, com a perseguição que Jack empreende de machado em punho contra sua esposa e filho, uma sequência digna realmente dos piores pesadelos. Não é à toa que já foi escolhida em eleições promovidas por publicações especializadas como a cena mais aterradora da história do cinema. Vale sublinhar que o terror visto em tela é resultado, em parte, do mencionado perfeccionismo de Kubrick, o qual levou sua equipe a repeti-la à exaustão (mais de 70 takes, segundo informações que constam do próprio making off do longa). Shelley Duval teria dito que sua expressão de horror já era fruto do estado nervoso em que estava, tamanha a obsessão do diretor (sabidamente um tirano nos sets). Contudo, algumas das seqüências que mais geram calafrios no público são aquelas do pequeno Danny vagando com seu velocípede pelos corredores do hotel. Impressionante como apenas o uso inteligente da câmera, que persegue o velocípede (a então novidadeira steadicam), além do uso do som do brinquedo, é capaz de produzir calafrios em qualquer um. Outra cena memorável é a do elevador jorrando sangue por todos lados, também digna de tenebrosos pesadelos. Aliás, essa sensação onírica parece percorrer toda a exibição desde o início, com as belas tomadas das paisagens da região, o que, de resto, parece ser algo sempre presente na filmografia de Kubrick (“Laranja Mecânica” e “De Olhos Bem Fechados” são outros exemplos que me vêm à mente). E, claro, como é ainda marcante nos filmes do diretor, as imagens são sublinhadas por uma trilha sonora poderosa (composta por Wendy Carlos e Rachel Elkind).



Se tudo isso ainda não convenceu você a assistir a “O Iluminado”, vale considerar ainda a presença transtornada de Jack Nicholson, em um papel que para sempre lhe renderia tiques interpretativos. Sabe-se que Nicholson não é lá um exemplo de pessoa “normal” e suas expressões extremamente marcantes, com aquela aparência de maluco-de-camisa-de-força ensandecido, com certeza farão você lembrar de Jack Torrance por muito tempo.

Ou seja, Stanley Kubrick, com sua genialidade ímpar, concebeu uma obra-prima do terror moderno. Muitos críticos não colocam este como um dos seus melhores trabalhos, talvez por considerá-lo apenas mais um filme de sustos. Longe disso, o longa faz uma análise de medos inconscientes e causa impacto por mostrar o horror dentro de uma família. Só não aconselho vê-lo antes de ir dormir. É provável que você não consiga mais cair no sono...


Cotação e nota: Obra-prima.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Atividade Paranormal

Mais um do cine-youtube

Na minha resenha sobre “Distrito 9”, mencionei que esta produção de ficção-científica tinha seu estilo inspirado em algumas obras recentes do gênero terror, as quais usavam um fórmula similar a um documentário para envolver o espectador e trazer novos ares para o susto. O precursor desta tendência foi “A Bruxa de Blair”, tendo continuidade em filmes como “[Rec]” e, agora, este “Atividade Paranormal”. O que se pode constatar, contudo, é que a fórmula já está se tornando desgastada e cada vez mais não me agrada.

Não agrada porque acredito ser essencial a um filme de horror todo aquele clima macabro que nos é dado não apenas por efeitos especiais competentes, mas também por uma direção segura que sabe utilizar os vários outros elementos da arte cinematográfica em prol deste intento. A trilha sonora, por sinal, é um destes elementos fundamentais e que se torna ausente nestes filmes “vídeo-verdade”. Alguns podem afirmar que isso é questão de gosto. Talvez seja, mas garanto que quem assim pensa não deve ter visto “O Iluminado”, o clássico de Stanley Kubrick que possivelmente é o filme mais assustador de todos os tempos.

Outro aspecto verdadeiro é que os filmes vídeo-verdade se escoram muito em campanhas massivas de marketing para se tornarem grandes bilheterias e “Atividade Paranormal” se tornou o grande exemplo disso. Dirigido e roterizado pelo amador Oren Peli, que se baseou em experiências próprias ao se mudar para uma casa em que eventos estranhos aconteciam, o longa custou a quantia ínfima de 15 mil dólares e já arrecadou cerca de 120 milhões de verdinhas apenas nos Estados Unidos, tornando-se provavelmente o filme mais lucrativo da história. Mas, provavelmente, isso nunca teria acontecido não fosse a participação de um padrinho muito forte na jogada. O longa vinha sendo exibido dentro do circuito alternativo, em festivais de cinema independente ou voltados especificamente ao gênero, quando caiu nas mãos de ninguém menos que Steven Spielberg. Obviamente, Spielberg percebeu todo o potencial pop do que tinha em mãos e logo se encarregou de promover uma ampla distribuição no circuito comercial. De antemão, encarregou-se de proferir comentários que deixariam qualquer um curioso, pois afirmou que tinha começado a ver o filme à noite em casa, teve muito medo e só concluiu na manhã seguinte. Também se encarregou de dar seus pitacos ao sugerir que o final fosse alterado e que a ordem de algumas seqüências fosse trocada (o que, por sinal, já deixa entrever que o orçamento da versão final que está nos cinemas deve ser bem maior que os tais 15 mil dólares). E o estúdio Paramount realizou um muito bem bolado trailer que se tornou sucesso no mundo virtual.

Entretanto, mesmo o melhor marketing não é capaz de produzir medo ou grandes sustos. A narrativa dos malassombros vividos por Katie e Micah (vividos pelos atores homônimos Katie Featherston e Micah Sloat, amigos do diretor, sendo ela especialmente boa atriz) assusta em alguns momentos, é verdade. Contudo, possui uma primeira metade bastante aborrecida, onde sobram conversas e faltam assombrações. A espera do público para que aconteça algo de realmente relevante é longa e isso complica o envolvimento do espectador. Ademais, algumas das ideias usadas no longa são tão claramente retiradas de outras produções que nos faz sempre ficar com a sensação de “dejá vu”. A encenação totalmente baseada na perspectiva da câmera usada por um dos protagonistas é o fio condutor do mencionado “[Rec]” (posteriormente refilmado em Hollywood com o título de “Quarentena”), só que este último tinha a justificativa plausível de toda narrativa mostrada estar sendo exibida em um programa de TV. Em “Atividade”, tal perspectiva soa falsa, já que a partir de determinado momento não haveria mais motivo para Micah continuar filmando e carregando sua câmera o tempo todo pra cima e pra baixo (a personagem de Katie em alguns momentos reclama disso e eu concordo: que cara chato!).

Recentemente, tivemos nas telas uma amostra de terror em sua versão mais clássica, o longa “Arraste-me Para o Inferno”, o retorno de Sam Raimi à suas origens com resultados muito mais assustadores do que este cine-youtube em questão. Lamentavelmente, com resultados em bilheteria muito mais modestos. O que demonstra que, para as grandes massas, até o medo agora é resultado de campanhas de marketing bem realizadas. Não há mesmo nada mais irritante que o capitalismo...

Cotação: * * ½ (duas estrelas e meia)
Nota: 6,5

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Terror independente no topo das bilheterias

E o terror "Atividade Paranormal" alcançou, após um mês de exibição, o topo das bilheterias norte-americanas no último de fim de semana. Um feito raro, já que o mais comum são as produções começarem no topo e irem gradativamente reduzindo seus ganhos. Mais raro ainda se lembrarmos que o custo da produção foi de meros e rasos 15 mil dólares... O filme é mais um daqueles no estilo video-verdade de "A Bruxa de Blair", baseado nas experiências do próprio diretor (novato) Oren Peli com barulhos estranhos ao se mudar para uma nova casa. Com os 22 milhões arrecadados no último fim de semana, o longa alcançou a quantia de 62,5 milhões no total. Que lucro, hein? A estreia no Brasil está prevista para 4 de dezembro. Confira o trailer abaixo.




segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Roman Polanski: os gênios também erram...

Ontem foi preso na Suíça Roman Polanski, o genial diretor de filmes icônicos como “O Bebê de Rosemary”, “Chinatown” e “O Pianista”. Como muitos devem saber, Polanski, em 1977, foi acusado de manter relações sexuais como uma menina de 13 anos, Samantha Geimer, além de tê-la drogado para atingir esse fim. Condenado pela justiça americana, Polanski, que admitia o sexo com a garota, mas sem o uso de drogas, jamais voltou a colocar os pés nos Estados Unidos desde então. Fiquei sabendo da notícia ainda ontem à noite, mas hoje, durante sua veiculação no “Bom Dia Brasil”, um cidadão suíço deu uma entrevista falando sobre o ocorrido que me levou a uma reflexão. Abre aspas: “Tenho vergonha do que o governo do meu país está fazendo. Polanski é um gênio! Não merece ser tratado assim por algo que já ocorreu há tanto tempo...”. Fecha aspas.

É verdade que o crime já tem mais de 30 anos. No Brasil, mesmo levando em consideração a interrupção da prescrição que ocorre com a propositura da ação penal (e mais algumas possibilidades que seriam desnecessárias mencionar aqui, por favor), dificilmente este crime não estaria prescrito (assim como a pretensão executória). No caso dos EUA, inclusive, está se discutindo por lá se a pretensão executória já estaria prescrita ou não*. Também é verdade que a vítima, mesmo reiterando que foi violentada, “perdoou” publicamente o cineasta pelo ocorrido. Entretanto, apesar dessas verdades que amenizam a importância do erro cometido por Polanski, será que, como disse o entrevistado suíço, a sociedade deveria relevar o erro do diretor pelo fato do mesmo ser um gênio?

Isso é uma afirmação perigosa. Aqui mesmo, no Brasil, estamos sempre a nos queixar que as leis são aplicadas com dois pesos e duas medidas, agindo com rigor com relação a uns e com pouca eficácia em relação a outros, principalmente quando os réus são poderosos/abonados/famosos. A relativização de regras que devem ser aplicadas indistintamente a todos acaba sempre sendo nociva para a democracia, a qual tem por base justamente a igualdade de todos perante a lei. Se a lei americana ainda determinar a aplicação da pena (caso em que a prescrição não ocorreu), creio que o melhor será mesmo executá-la, não sendo saudável que o presidente Barack Obama conceda o perdão presidencial, como já estão pugnando os governos da França e Polônia (Polanski é cidadão franco-polonês). Falo isso com dor no coração, pois eu concordo com o fã suíço: ele é um gênio. “O Bebê de Rosemary” e “O Pianista” podem entrar facilmente em listas de melhores de todos os tempos. Já passou por dramas terríveis, como a vivência em uma Polônia ocupada pelo horror nazista (sua mãe morreu em Auschwitz e, quando menino, era comum os soldados de Hitler atirarem em sua direção só para vê-lo com medo...) e o assassinato brutal de sua esposa Sharon Tate pelo fanático psicótico Charles Manson. Mas também os gênios são seres humanos como eu e você e cometem seus erros (no caso, um erro bastante grave, já que se pode até classificá-lo como um ato de pedofilia). E, como todos, devem suportar as suas consequências...

* Se alguém da área jurídica quiser discutir essa minúcias, fique à vontade. O fato é que estou de férias e sem vontade, no momento, de buscar um livro de Direito Penal apenas para escrever esse texto. Não é o intuito aqui descer a tantos detalhes.

sábado, 15 de agosto de 2009

Arraste-me Para O Inferno


O novo Trem-fantasma de Sam Raimi

Já havia bastante tempo que eu não assistia a um dos longas de terror de Sam Raimi, um dos grandes mestres deste gênero que é tido por muitos como “menor”(sem razão, diga-se de passagem). Mesmo a trilogia “Evil Dead” (ou “Uma Noite Alucinante”, como também é conhecida no Brasil) já se encontra um tanto apagada da minha memória (apesar de ter visto várias vezes o seu primeiro epísódio), o que dificulta um pouco observar, com um rigor mais crítico, o retorno de Raimi ao gênero depois de anos a fio dedicados exclusivamente à trilogia de um certo herói aracnídeo (ah, eu não vi “O Dom da Premonição”, de 2000, seu último longa de horror). Entretanto, a ausência de uma memória recente relativa ao tipo de trabalho que gerou a fama de Raimi também abre espaço para uma avaliação mais espontânea e livre de amarras.

A verdade é que Raimi retornou em grande estilo, realizando uma espécie de trem-fantasma vertiginoso com sustos para fazer qualquer um pular da cadeira quase que a cada minuto da projeção. Não faltam gosmas, imagens horrorosas, gente possuída, cenas de horror escatológico e mesmo humor, ou seja, tudo que lembra os clássicos do diretor, mesmo que você não tenha, tal como eu, uma lembrança viva de seus longas de horror. Se você tem coração fraco, problemas gástricos, alergia a gosmas e insetos, ou qualquer outro problema de saúde que lhe deixe suscetível a fortes emoções ou imagens horripilantes, é melhor não pegar a sessão de “Drag Me To Hell” (se for à noite, então...).

Um dado interessante é que Raimi é um péssimo espectador para filmes de horror. Ele mesmo diz que morre de medo e que, apesar de gostar muito do filme, não pretende ver uma segunda vez “Os Outros” nem tão cedo. Talvez seja exatamente por isso que ele consiga levar o público tão facilmente ao susto e que também lembre de fazer o espectador respirar com a inserção de um humor impagável em cenas trash-comédia que ajudam a aliviar a tensão. Tal fórmula, um dos segredos do sucesso de “Evil Dead”, é de novo implementada nesse novo longa.

A trama, como sempre, é básica. Alison Lohman (uma verdadeira rainha do grito) interpreta Chistine Brown, uma funcionária de banco responsável por financiamentos de imóveis que, no momento, objetiva uma promoção na carreira (creio que a atividade profissional dela não é por acaso...). Um belo dia, uma velha horrorosa com cara de bruxa (Lorna Raver) vai lhe pedir uma extensão de prazo para pagamento da hipoteca de sua casa. Dando uma de durona para impressionar o chefe, ela nega o financiamento, o que leva a velha bruxa a lhe rogar uma maldição: após três dias de tormento, a menina ambiciosa será levada ao inferno pelo demônio Lâmia. Ajudada pelo namorado (Justin Long), Chistine busca de todas as formas evitar a sua passagem para o reino do tinhoso, que lhe levará a peripécias várias que culminam em uma sequência no cemitério que já está fadada a se tornar clássica, tendo levado duas semanas de filmagens para ser concluída (Lohman teve reações alérgicas à lama artificial empregada, a qual acabou sendo substituída por um composto orgânico que,segundo ela, até fez bem à sua pele).

Percebe-se, pela síntese, que Raimi vale-se de elementos arquetípicos das histórias de horror. Estão lá a bruxa, a maldição, os demônios, os feitiços para tentar quebrar os feitiços, a mocinha que grita. Está também presente o caráter de punição que se tornou comum nos slasher movies (aqueles filmes de serial killers como “Sexta-feira 13”), substituindo apenas o pecado da luxúria pelo da ganância. Entretanto, mesmo utilizando tais elementos já tão manjados (para não dizer clichês), o horror flui com extrema eficiência. Afinal, o terror brinca com medos inerentes à condição humana: a morte, o desconhecido, o porquê de estarmos aqui, a eterna pergunta de se esta é ou não é a única realidade existente. E é por isso que tais elementos, embora possam, às vezes, soar repetitivos, jamais se tornarão ultrapassados.

Raimi sabe disso. E mostra que ele também não ficou ultrapassado, sendo capaz de provocar grandes sustos mesmo nos cético público do século XXI. Sem fugir de sua origem (por vezes temos a impressão é de estarmos vendo um autêntico filme B), o diretor mostra que ainda é capaz de obter qualidade fora dos blockbusters aracnídeos. Esse “Arraste-me...” foi realmente um ótimo exercício para manter a velha forma, além de cativar novos adeptos. Só lembre de uma coisa: evite pegar aquela última sessão, ok? Ou, então, arrisque-se a perder o sono...Quem avisa amigo é!

Cotação: * * * * (quatro estrelas)
Nota: 9,0

Obs: A trilha sonora dos créditos finais havia sido composta para o “O Exorcista”, mas seu diretor William Friedkin não gostou e descartou.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Continuando a série, um clássico de Roman Polanski:

O Bebê de Rosemary
(Rosemary's Baby)

Muitos devem lembrar de Januário de Oliveira, narrador esportivo que fez sucesso na Bandeirantes dos anos 90, quando esta emissora passava todos os jogos de futebol que era humanamente possível transmitir (desde a final de uma Copa do Mundo até um desimportante Botafogo x Olaria ou Palmeiras x Mogi-mirim). Januário criou bordões futebolísticos que até hoje estão na memória dos amantes deste esporte, sendo os mais conhecidos o “Crueeeeeeeeeeeeeelllllll!!! Muiiito Crueeeeeellll”, quando um jogador marcava um gol ou fazia uma grande jogada e o “Siniiiiisssstro!!!! Muuuuuuuiiiiiiiiiitoo sinistro!!!!!!!!!!”, quando alguém perdia um gol feito ou realizava um jogada bisonha (dia desses fiquei chocado quando soube que o Januário perdeu as pernas e é por isso que ele deixou a narração de jogos...). Bem, mas por que começo esta resenha falando sobre algo tão distinto do cinema? Ora, porque a primeira palavra que me veio à cabeça quando acabei de assistir a “O Bebê de Rosemary” foi justamente o adjetivo “sinistro”! Não no sentido irônico e cômico usado pelo antigo narrador, mas em seu sentido literal. Esse filme é mesmo sinistro, muito sinistro!

Produção de 1968, “O Bebê de Rosemary” acabou se tornando um marco do gênero terror, estabelecendo um novo parâmetro para as produções posteriores. Dirigido por Roman Polanski, em seu primeiro filme no cinema americano, ele apresenta um viés extremamente psicológico que perturba e angustia o espectador. É tão psicológico que parece muitas vezes se afastar do “terror” para entrar no “suspense”, ao melhor estilo Hitchcock. Essa nova dimensão veio enriquecer largamente o gênero. Suas influências são sentidas, por exemplo, em “O Exorcista”, que apresenta também uma temática “demoníaca” e com nuances psicológicas muito bem trabalhadas; em “O Iluminado”, de Kubrick, onde também sentimos seus ecos (tal como o edifício onde Rosemary vive, o hotel onde Jack vai passar o inverno com sua família é mais um personagem da trama); ou mesmo em “A Hora do Pesadelo” de Wes Craven, com seus sonhos assustadores e canções infantis tenebrosas.

Baseado no romance de Ira Levin, o roteiro, também de Polanski, nos fala de um jovem casal que está de mudança para um novo apartamento em Nova York. O edifício onde ele se situa, no entanto, tem má fama, sendo conhecido na cidade por casos de assassinato e bruxaria que teriam acontecido anos atrás (na “vida real”, o edifício usado foi o famoso Dakota Building, que dispensa apresentações). Logo quando se instalam no novo lar, eles conhecem um outro casal, bem mais idoso, que se mostra bastante solícito e simpático (simpáticos até demais) e não tardam em oferecer um jantar aos novos moradores do prédio. Ao voltar para seu apartamento, Rosemary percebe uma estranha “empolgação” de seu marido - que é um ator ambicioso, mas cuja carreira parece destinada ao fracasso - em freqüentar o idoso casal, afinal eles são “ótimos vizinhos”. A partir de então, alguns fatos estranhos começam a acontecer. Primeiro, seu marido consegue um papel que já estava perdido porque o ator que estava escalado perde repentinamente a visão...(?!?!). Mas isso não parece importar, pois o que ela quer mesmo é realizar o sonho de ser mãe. Após uma noite de pesadelos estranhos, Rosemary se descobre grávida. A partir daí, ela própria começa a apresentar um comportamento estranho, que muitas vezes parece ser resultado das dúvidas e sensações de uma mãe de primeira viagem, mas em outras oportunidades parecem ir muito além disso.

É exatamente esta dúvida que permeia todo o filme: será que Rosemary está tendo abalos psíquicos conseqüentes da grande ansiedade da gravidez ou há algo realmente de errado com o filho que espera? A suposição de que seus vizinhos são bruxos merece crédito ou é apenas uma paranóia decorrente de sua gestação complicada?

Polanski nos conduz ao longo de toda a narrativa sem desfazer essa dúvida, que só é elucidada nos últimos minutos de projeção e isso sem que se utilize de artifícios como criaturas sobrenaturais, espíritos, monstros etc. Há apenas uma única cena em que uma criatura “estranha” aparece na tela e, mesmo assim, praticamente vemos apenas os seus olhos. Ou seja: “O Bebê de Rosemary”, como bem definiu o desenhista de produção Richard Sylbert, é “um filme de terror sem terror”. Portanto, não é bom vê-lo esperando se deparar com uma série de imagens sanguinolentas ou cheias de criaturas sobrenaturais. Todo o horror da situação nos é apresentado tendo em vista as sensações e impressões da personagem central.

É importante ressaltar também os aspectos técnicos da obra. Como dito acima, o edifício é mais um personagem da trama. O filme não seria o mesmo sem o Dakota, isso é uma verdade (fico até imaginando como John Lennon e Yoko Ono conseguiam morar nesse endereço). Ele por si só transmite um ar de mistério e sobrenatural que suplanta um monte de efeitos visuais realizados hoje em dia. O elenco está muito bem, com destaques para Mia Farrow (curiosidade: ela era a então Sra. Sinatra), ainda uma principiante no papel central, e Ruth Gordon, que faz a sempre solícita e atenciosa vizinha, trabalho que inclusive lhe rendeu o Oscar de atriz coadjuvante. O único que deixa um pouco a desejar é John Cassavetes, que faz o esposo de Rosemary. Não que ele esteja ruim, mas sua interpretação fica um pouco abaixo das demais, tendo alguns momentos que, sob um olhar rigoroso, soam como “excessivos” (e ficamos mais frustrados quando imaginamos que Jack Nicholson foi bastante cotado para o papel). Mas nada que prejudique significativamente o resultado final. E a trilha sonora conta com uma canção de ninar, a qual abre e fecha o filme, que é simplesmente sinistra (para repetir mais uma vez esse adjetivo). Aliás, esse “lá lá lá” é uma das coisas mais perturbadoras e quando o filme termina ele parece ficar ressoando na sua cabeça, dando a impressão de ter sido criado realmente para ninar o filho do tinhoso (vamos bater três vezes na madeira: Toc! Toc! Toc!).

Lembro que, a primeira vez que vi essa película, eu tinha então 15 anos e passou em um Domingo Maior (salvo engano), na Globo. Fiquei morrendo de medo e nem consegui dormir direito. O tempo passou e, mesmo mais velho, com muito mais barba no rosto, o filme continua impressionando. A seqüência final, então, é mesmo de arrepiar! O que mostra que essa é daquelas obras que não envelhecem, se perpetuam no tempo. E continua sinistra, muito sinistra!!!


Cotação:

Nota: 10,0