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domingo, 31 de março de 2013

Quero Ver Novamente #22



Em outra oportunidade, o Cinema Com Pimenta publicou uma lista de sete filmes religiosos essenciais. No topo estava "Rei dos Reis" (King Of Kings, 1961), longa-metragem dirigido por Nicholas Ray - um dos cineastas mais importantes de Hollywood - que narra, mais uma vez, a "maior história de todos os tempos" (para citar o título de uma outra produção sobre Cristo, esta de George Stevens). O diferencial de "Rei dos Reis", em relação a outras adaptações da vida de Jesus, é justamente a direção primorosa de Ray, responsável por uma impecável fotografia em cinemascope, além de ângulos diferenciados e uma bela condução do elenco sem grandes estrelas. Quando criança, eu vi e revi "Rei dos Reis" várias vezes durante a Semana Santa e nunca esqueci de sua belíssima passagem do famoso Sermão da Montanha. De fato, esta é, provavelmente, a melhor "pasagem-de-sermão-da-montanha" já filmada, impecável em sua fotografia e encenação. Abaixo, segue o vídeo com dita sequência em que Jesus (interpretado por Jeffrey Hunter), além de discursar, ensina seus seguidores a rezar, sendo a origem da oração do "Pai Nosso".

Aproveito para desejar uma Feliz Páscoa aos leitores. Que Deus ilumine a todos. Grande abraço!



sábado, 19 de novembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



A Canção de Bernadette
(The Song Of Bernadette, 1943)


Para os que creem e os que não creem



É bastante complicado abordar uma temática religiosa em uma obra cinematográfica. A religião é terreno fértil para polêmicas e radicalismos, não apenas por parte daqueles que creem, como também por aqueles que não acreditam (digo até por experiência própria, pois que já vi ateus bastante radicais e mesmo intolerantes). Exemplo já clássico e recente desta afirmativa é o longa-metragem “ A Paixão de Cristo” (The Passion Of The Christ, 2004), a super-violenta visão de Mel Gibson acerca do martírio de Jesus Cristo, filme este que foi acusado de antisemitismo e muito criticado pelo excesso de sangue na tela. De qualquer forma, para Gibson, um católico fervoroso adepto de uma da vertentes mais radicais da Igreja, não foi difícil estabelecer um tom para a narrativa, já que ele realizou uma obra extremamente pessoal onde quis e teve o direito de extravasar toda a sua religiosidade, por mais que ela soe distorcida aos olhos da maioria. Já Martin Scorsese sofreu o pão que o diabo amassou devido à sua visão pouco ortodoxa da vida de Jesus em “A Última Tentação de Cristo” (The Last Temptation Of Christ, 1988), obra que apresenta uma visão consideravelmente humana de um Salvador que se mostra o tempo inteiro suscetível aos desejos e falhas típicos dos homens. Contudo, para um cineasta que não deseje realizar um manifesto religioso ou questionar abertamente alguns dogmas, mas tão somente narrar um fato com significados místicos e sem cair em qualquer forma de proselitismo, encontrar o tom e forma corretos é um caminho deveras difícil.

Tal feito foi alcançado em boa parte com “A Canção de Bernadette” (The Song Of Bernadette) pelo diretor Henry King, cineasta de filmes como “Almas em Chamas” (Twelve O'Clock High, 1949) e o cultuado “Suplício de Uma Saudade” (Love Is A Many Splendored Thing, 1955), neste último dirigindo a mesma Jennifer Jones que alçou ao estrelato com esse trabalho de 1943. King não possui a mesma estatura de outros nomes da Hollywood clássica, como John Huston, Howard Hawks ou o genial John Ford, mas era um bom diretor que, neste caso, acertou em cheio na adaptação da história da aparição da Virgem Maria em Lourdes, cidade da França que até hoje é destino de peregrinação de católicos do mundo inteiro devido aos eventos lá ocorridos. Para tanto, ele utilizou de um tom refinado, sem cair em uma indesejável solenidade que acabaria por afastar emocionalmente o espectador e, ademais, na maior parte do filme, sem apelar para excessos melodramáticos, tentação fácil diante de um mote tão propício.


Talvez King tenha atingido esse resultado por focar a abordagem não nos fatos inusitados que levaram à crença nos milagres de Lourdes, mas nos personagens que vivenciaram a história. E, nesta aspecto, fez-se essencial encontrar em Jennifer Jones a atriz ideal para desempenhar o papel da jovem e frágil Bernadette Soubirous, uma menina de origem bastante humilde e com vários problemas de saúde que limitam, inclusive, o seu desenvolvimento escolar. Por outro lado, é uma pessoa de alma pura, pobre em espírito na melhor acepção da expressão e que, provavelmente devido a isso, é supostamente escolhida para servir como o canal de comunicação entre a Virgem e os moradores de Lourdes. Pertinente ressaltar que Bernadette em nenhum momento se considera santa ou pretende sê-lo. Pelo contrário, ambiciona apenas ter uma vida comum e simples como as moças de sua idade. Só que, obviamente, se nem Cristo agradou a todos não será ela que irá agradar, e a jovem passar a ser alvo não apenas das naturais dúvidas a respeito da veracidade de suas visões, como também da inveja e maledicência alheias, pois que muitos a julgam como uma aproveitadora que quer aparecer às custas da credulidade da comunidade.

Ao redor da protagonista, outros personagens são muito bem construídos, como o promotor Vital Dutour (Vincent Price), um dos líderes aristocratas da região que a princípio se sentem incomodados com a afluência de fiéis à gruta de Massabielle (local das aparições), mas que depois tentam auferir vantagens financeiras dos acontecimentos. Dutour, no entanto, parece ir além nas suas tentativas de desmascarar Bernadette, revelando uma faceta ateia ou agnóstica que não consegue admitir como milagres os fatos fora da normalidade que se verificam na pequena cidade. Ele é contraposto pelo deão da aldeia, o padre Peyramale (Charles Bickford), o qual, depois de sentir a veracidade nas palavras e ações de Bernadette, torna-se seu protetor e defensor. É em um dos diálogos entre o padre e os incrédulos que surge uma frase que se tornaria famosa: “para os que creem, nenhuma explicação é necessária; para os que não creem, nenhuma explicação servirá” - certamente retirada do livro de Franz Werfel no qual se baseou o roteiro de George Seaton.


Falando em bons personagens, não se pode deixar de lembrar algumas curiosidades que rodeiam a produção. O papel de Bernadette rendeu o Oscar a Jennifer Jones, realizando aqui sua primeira protagonista no cinema. Antes ela havia feito apenas algumas participações em filmes de menor orçamento ainda com seu nome verdadeiro, Phylis Isley (o nome com o qual se tornou famosa foi criado por David O. Selznick, produtor com que se casaria alguns anos mais tarde). Ela disputou a personagem com centenas de outras concorrentes, mas Henry King adorou o viés contido, doce e humilde que atribuiu a Bernadette. Todavia, se Jennifer aparece incontestável como protagonista, o mesmo não se deu com a seleção da atriz para encarnar a Virgem Maria. A escolha recaiu em Linda Darnell, atriz de péssima reputação (apesar de ironicamente costumar interpretar mulheres ingênuas nas telas) e que quase fazia o autor Werfel pedir a exclusão de seu nome nos créditos da película. Mas a verdade é que sua participação se limita quase que a pontas, pois que a Senhora (tratamento usado por Bernadette para a aparição) tem pouco tempo de cena.

Dono de uma fotografia excelente, que rendeu ainda o prêmio da Academia a Arthur Miller, além de uma bela trilha sonora do mestre Alfred Newman (que renderia a primeira versão em disco de uma trilha de filme a ser comercializada), “The Song Of Bernadette” apenas titubeia na sua conclusão, onde King acaba cedendo a alguns arroubos melodramáticos, além de parecer querer a chancela da Igreja ao incluir, sem mais nem menos, uma imagem da Basílica de São Pedro na última cena. Entretanto, são pequenos defeitos em uma obra ao mesmo tempo sóbria e comovente, certamente capaz até de sensibilizar mesmo os mais céticos. Afinal, para além da crença, Bernadette Soubirous foi um ser humano notável, um exemplo de humildade e plena convicção naquilo que acreditava. É de pessoas de coração puro como o dela que o mundo está carecendo, e nisso qualquer um há de concordar, seja ou não cristão, seja um fundamentalista como Mel Gibson ou um questionador como Scorsese, acreditando ou não em Deus.


Cotação:

Nota: 9,0

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Cinema e Religião: 7 filmes essenciais


Em todos os anos, quando chega o período da Semana Santa católica, vários canais de TV (principalmente aberta), inundam as telas com filmes de temática religiosa, geralmente narrando os últimos momentos da vida de Jesus Cristo ou o Êxodo dos Hebreus, rumo à terra prometida. No entanto, como em todo gênero, é necessário separar o joio do trigo e aqui me presto a fazer uma seleção das melhores obras de caráter religioso para ver nestes dias que antecedem a Páscoa, seja você cristão ou simplesmente um apreciador de ótimos filmes. Vamos a eles. Como sempre, a lista do Cinema Com Pimenta é composta de 7 obras.


7) A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, 2004) – O filme dirigido por Mel Gibson é polêmico em toda a sua concepção. Acusado por seu excesso de violência (a flagelação vem se mostrando uma obsessão do diretor ao longo dos anos) e um anti-semitismo subliminar (que pode ter lá o seu fundo de verdade, pois que Gibson já foi pego proferindo ofensas a judeus), não se pode negar, todavia, que o filme é pungente em várias passagens, além de contar com ótimas atuações e a virtude de ser falado na língua original dos personagens, se contrapondo à preguiça reinante em Hollywood de colocar o elenco falando em inglês, mesmo em longas com trama se passando na Idade Antiga. Mas o alerta continua valendo: é um filme que exige estômago forte, dado o realismo – e, por vezes, sensacionalismo – das cenas do martírio de Cristo. Um enorme sucesso (o mais bem-sucedido independente em todos os tempos), se estiver disposto(a), vale à pena, até mesmo para opinar sobre a polêmica que recai sobre esta produção;


6) O Príncipe do Egito (The Prince of Egypt, 1998) – Esta, sem dúvida, foi uma da animações mais ambiciosas já realizadas, tentando tornar mais acessível a história bíblica relatada no livro do Êxodo (e que já havia sido transposta para o cinema na superprodução “Os Dez Mandamentos”, de Cecil B. DeMille, da qual falarei mais adiante). E a empreitada é bem sucedida. Os personagens, tanto de Moisés quanto do faraó Ramsés, são muito bem construídos e a ideia de mostrar a relação de irmãos entre os dois é muito feliz, trazendo uma clara mensagem de paz aplicável ao Oriente Médio. Ademais, as imagens concebidas são belíssimas, principalmente a famosa cena da travessia do Mar Vermelho. Ainda considero a melhor animação da Dreamworks até hoje e recomendável tanto para crianças quanto para adultos. Se ainda não viu, veja logo;




5) Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments, 1956) – Nos anos 80, a Rede Globo sempre repetia esse filme nestes dias próximos à Páscoa e o vi diversas vezes (sabem como é criança, né?). O diretor Cecil B. DeMille era uma espécie de Steven Spielberg ou James Cameron do seu tempo, responsável por superproduções de encher os olhos. É o caso exatamente desta, seu último trabalho, a qual narra toda a vida de Moisés, desde quando foi encontrado nas águas do Nilo, passando pelo seu encontro com Deus, até levar a cabo a missão do qual foi incumbido: liderar o povo hebreu rumo à Terra Prometida. Na realidade, é uma refilmagem mais suntuosa do filme homônimo dirigido pelo próprio DeMille em 1923. Algumas de suas cenas já entraram para o inconsciente coletivo (como a passagem pelo Mar Vermelho) e Charlton Heston, o intérprete do protagonista, meio que se tornou a imagem oficial de Moisés no cinema. Apesar de possuir um certo exagero que hoje em dia pode ser visto como cafonice, constitui um longa-metragem obrigatório. Seus efeitos visuais (levou o Oscar neste quesito) ainda são eficientes mesmo para os padrões de hoje;



4) Irmão Sol, Irmã Lua (Brother Sun, Sister Moon, 1972) – Este não narra nem a história de Cristo nem a de Moisés. O filme é sobre a vida de Francisco de Assis (interpretado aqui pelo ator Graham Faulkner),o filho de um rico comerciante que larga toda sua vida de facilidades para se dedicar à imitação de Cristo, passando a ter a caridade e a solidariedade como nortes, além de defender a paz e o respeito à natureza (alguns afirmam que ele andava com extremo cuidado para não correr o risco de retirar nem mesmo a vida de um inseto). Dirigido por Franco Zeffirelli e roteirizado pelo mesmo em parceria com Lina Wertmüller (diretora de “Pasqualino Sete Belezas”) e Suso Cecchi D’Amico, é um longa bastante sensível e emocional, indicado para ver com a família. Tem ótimas canções e bela fotografia. Filme apto a agradar a todos os gostos;


3) A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ, 1988) – Se o acima citado “A Paixão de Cristo” causou polêmica, imagine este longa-metragem que retrata um Jesus Cristo humanizado, com dúvidas e fraquezas e até mesmo titubeante em algumas passagens. Baseado no romance de Nikos Kazantzakis e dirigido pelo genial Martin Scorsese, o filme foi considerado herético pela Igreja Católica e proibido em muitos países ao longo de vários anos (no Chile, só em 2003 ele foi liberado). Willem Dafoe (naquela que é a melhor interpretação de sua carreira) interpreta Jesus, mostrado com um marceneiro judeu responsável pela confecção das cruzes utilizadas pelos romanos para aplicar suas sentenças de morte. Detalhe especial para a tal “última tentação” do título, quando Jesus é tentado, na cruz e à beira da morte, a abdicar de sua responsabilidade para com a humanidade e do sacrifício como Messias e assumir para si a vida de um homem comum, simples, com esposa, filhos e uma perspectiva de envelhecer e morrer desta forma. Bem, como pode perceber, se sua visão da vida de Cristo é dogmática, este longa não é sua praia. Mas, se tiver disposição para visões diferentes da Bíblia, encontrará aqui um filme excepcional;



2) O Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo secondo Matteo, 1964) – Esta é, provavelmente, a adaptação da vida Cristo para as telas mais fiel ao texto bíblico. Ironicamente, foi realizada pelo comunista Pier Paolo Pasolini. Como se sabe, Pasolini sempre fazia de suas obras um manifesto, uma forma de criticar o status quo e mexer com a concepção tradicional de temas. E aqui não é diferente. Dedicado ao papa João XXIII, o filme não tem uma palavra sequer em seu texto que não tenha sido tirada do Evangelho de Mateus, demonstrando o quanto as ideias de Jesus tinham de socialistas, associando sua imagem a de um provocador social, um revolucionário. Filmado com não-atores, no melhor estilo do neo-realismo italiano, o longa muitas vezes lembra um documentário, sem enfatizar ou romancear os eventos da vida de Cristo. Ademais, Pasolini mexe em um vespeiro ao insinuar que ideologias sociais podem ter um parentesco próximo com doutrinas religiosas. É provável que não agrade a muitos, todavia possivelmente cairá nas graças dos cinéfilos de carteirinha. Em tempo: o filme ganhou chancela oficial do Vaticano;



1) O Rei dos Reis (King of Kings, 1961) – Esta é a versão mais emblemática da história de Jesus Cristo para o cinema. Dirigido pelo cultuado Nicholas Ray em 1961 e contando com a narração de ninguém menos que Orson Welles, o Cristo vivido pelo ator Jeffrey Hunter se tornou emblemático. Um blockbuster que fez enorme sucesso quando do seu lançamento, detentor de cenas belíssimas e, certamente, da melhor transposição da passagem do Sermão da Montanha de que se tem notícia. Quando garoto, era atração certa na Sessão da Tarde da sexta-feira da Paixão. A trilha sonora é linda e, se você é religioso, este filme é mais do que obrigatório. E se você não é, o longa é obrigatório. Imperdível!

Bons filmes e uma boa Páscoa a todos!



quarta-feira, 6 de abril de 2011

As Mães de Chico Xavier



Emoção e espiritismo


Hollywood sempre soube se aproveitar de segmentos de marcado que se mostram especialmente rentáveis. Citando um exemplo recente, o gênero dos super-heróis tem provocado uma enxurrada de blockbusters aptos a saciar o público adolescente masculino, um voraz consumidor de qualquer coisa que envolva seus personagens mais queridos. O cinema brasileiro não vem agindo diferente e é natural que assim seja. Afinal, boa parcela de nosso mercado ainda desconfia da qualidade dos produtos de nossa indústria cinematográfica. Uma demonstração recente foi a invasão dos filmes favela-mundo cão, nos rastro do sucesso de público e crítica “Cidade de Deus”. Agora, estamos vendo o segmento dos filmes espíritas conquistar uma fatia considerável do mercado. Possui um público fiel, uma vez que o Brasil é o maior país espírita do mundo, além de ter a simpatia de outras parcelas da população, já que mesmo os católicos praticantes muitas vezes possuem um pé na crença espírita. Por outro lado, também se torna inevitável que os resultados artísticos de tantos filmes com abordagem de temáticas similares oscilem. Assim, se fomos brindados com o ótimo “Chico Xavier”, de Daniel Filho, também tivemos o apenas mediano “Nosso Lar”. Mediano talvez seja a melhor maneira de designar este “As Mães de Chico Xavier”, em cartaz nacional desde a última sexta-feira, 01 de abril.

Dirigido por Glauber Filho e Halder Gomes, os mesmos de “Bezerra de Menezes” (o precursor do gênero espírita na Terra Brasilis), o roteiro trabalha com três narrativas paralelas (e que são baseadas em fatos reais e no livro "Por trás do Véu de Ísis", de Marcel Souto Maior). Duas delas mostram a difícil aceitação da perda por parte de pais que perderam seus filhos, enquanto outra trata de uma jovem grávida que está pensando em realizar um aborto. Interessante perceber que, no caso deste longa-metragem, a oscilação ocorre dentro de sua própria estrutura. Enquanto a trama dos pais Mário e Ruth (interpretados por Herson Capri e Via Negromonte) que têm um filho, Raul (Daniel Dias) vítima das drogas é bem contada, a da grávida Lara (papel de Tainá Müller) tem alguns furos e sua resolução se coloca muito apressada, meio que para entrar logo em sintonia com as demais. Já a narrativa dos pais Elisa e Guilherme, vividos por Vanessa Gerbelli e Joelson Medeiros, transcorre muito lenta, chegando a dar a impressão, por vezes, de que nada vai acontecer. Contudo, a despeito de suas falhas, o roteiro consegue um envolvimento emocional muito eficiente, principalmente no último terço da projeção. Neste ponto, mostra-se mais eficaz do que seu referido antecessor “Nosso Lar”, este último um longa que sempre me parece emocionalmente pálido. Em tal aspecto, o único pecado de “As Mães de Chico Xavier” é sua equivocada trilha sonora. Nada contra as composições de Flávio Venturini, mas elas foram mal selecionadas e mal encaixadas na projeção. Em diversos momentos, as músicas se tornam um elemento desnecessário às cenas, que já são suficientemente tristes, e sua inclusão acaba por gerar momentos excessivamente piegas.

Se o drama ainda funciona, a despeito dos defeitos apontados, é por virtude do elenco. Todo ele se encontra uniforme e ninguém descamba para a canastrice. Mas é claro que Nelson Xavier mais uma vez alcança destaque. Tal como o cinema norte-americano imortalizou a imagem de determinados personagens por meio da figura de alguns atores (como no exemplo clássico do Super-Homem encarnado por Christopher Reeve), a produção nacional está se encarregando de transformar Nelson na encarnação (com perdão do trocadilho) de Chico Xavier nas telonas, até mesmo pela sua semelhança física com o famoso médium.

Alguns poderão apontar o posicionamento religioso do longa, com estampada mensagem anti-aborto, como um sério problema, mas não vejo dessa forma. Qualquer cineasta, seja ele qual for, tem direito de expressar sua visão sobre determinado tema em sua obra, seja ela política, social, econômica ou mesmo religiosa. Seria o mesmo que dizer que “O Triunfo da Vontade”, o célebre documentário de Leni Riefenstahl, é um filme ruim por enaltecer o nazismo. Desta forma, os diretores não incorrem em qualquer erro ao defender suas posições e, se você não concorda, paciência, vivemos em uma democracia e todas as posições devem ser respeitadas. Ademais, esta película consegue se tornar bem mais palatável ao público não adepto da doutrina espírita do que seu antecessor “Nosso Lar” e, se não alcança o mesmo resultado artístico de “Chico Xavier”, ao menos constitui uma experiência cinematográfica com substância e que deve agradar tanto aos doutrinados quanto aos que buscam um drama comovente para assistir na sala escura.


Obs. Eu não sou espírita.


Cotação:

Nota: 7,5

domingo, 5 de setembro de 2010

Nosso Lar



Para iniciados


O cinema nacional vive, neste ano de 2010, uma onda de filmes com temática vinculada aos princípios do Espiritismo Kardecista, muito em virtude do centenário de nascimento de Chico Xavier, o médium mais querido do país (no plano televisivo, ainda podemos lembrar a atual novela das 18h da Rede Globo, “Escrito nas Estrelas”). Em abril, tivemos o lançamento de sua biografia cinematográfica, o bom “Chico Xavier”, com enorme sucesso de público e boa aceitação da crítica. Agora, temos este “Nosso Lar”, adaptação do livro que o mencionado Chico psicografou e é atribuído ao espírito de André Luiz, um médico brasileiro que teria tido sua última encarnação no início do século passado (alguns afirmam que ele teria sido um dos fundadores de um certo clube de camisas de cores vermelha e preta no Rio de Janeiro*).

Adianto, desde já, que nunca li a obra literária, o que, por um lado, é algo positivo, pois que me possibilita avaliar o longa tendo como referência apenas o que foi visto na tela. Tendo em vista tal circunstância, posso afirmar que o primeiro problema que se apresenta para um filme como esse é o do envolvimento do espectador. É inevitável que uma trama que mostra como seria “o outro lado da vida” acabe despertando reações diversas na plateia, dependendo da crença de cada um dos assistentes. Óbvio que aqueles que acreditam na doutrina espírita terão uma facilidade bem maior para se envolver com a narrativa, enquanto outros, céticos, poderão se mostrar indiferentes ou considerar tudo até uma grande bobagem.

O roteiro, escrito pelo próprio diretor Wagner de Assis de acordo com os conceitos espíritas, mostra a vida de André Luiz após ter desencarnado, sua passagem pelo Umbral (um tipo de purgatório) e sua chegada ao ambiente conhecido como Nosso Lar, uma espécie de cidade espiritual, que também possui a sua burocracia, seus hospitais, suas formas de locomoção etc. E onde também é necessário trabalhar para conseguir certos objetivos, mesmo que esses objetivos não sejam os mundanos “dinheiro-fama-poder”. Entretanto, na narrativa tudo se desenvolve de forma bastante expositiva, didática mesmo. Muitos afirmam que o livro realmente é desta forma, assemelhando-se a uma aula de como as coisas se passam no além-túmulo. O problema é que cinema possui uma outra linguagem, exigindo força narrativa maior para atingir em cheio o espectador. E, nesse propósito, o filme acaba falhando, pelo menos para aqueles que não são seguidores da doutrina. Uma solução interessante teria sido mostrar mais da vida de André antes de seu falecimento, para que assim pudéssemos conhecer melhor o personagem e estabelecer links emocionais a serem explorados com maior eficácia na segunda metade do longa. Da maneira como filmado, aquele que deveria ser o clímax não chega a funcionar a contento, apesar de constituir uma sequência bem realizada em termos dramáticos.

Outro aspecto que deixa a desejar é justamente este, o dramático. A produção optou pela escalação de um ator pouco conhecido, Renato Prieto, para o papel do protagonista André, o que acaba se tornando um equívoco. Renato se esforça, mas não tem o carisma suficiente para levar o filme nas costas, alternando bons (como a citada sequência do “clímax”) e maus momentos. Nem mesmo o elenco de apoio se sai bem, apesar de nomes como Othon Bastos, Paulo Goulart e Ana Rosa, pois seus personagens são praticamente destituídos de conflitos, servindo apenas para orientar André em suas novas vivências espirituais.

Entretanto, não se pode negar que o filme possui elementos que se constituem em uma evolução dentro do cinema nacional. Os R$ 20 milhões investidos na produção (o que a transforma na mais cara produção brasileira em todos os tempos) são vistos principalmente nos efeitos especiais (da empresa canadense Intelligent Creatures), responsáveis pela materialização da cidade espiritual, repleta de elementos futuristas. Os planos aéreos da comunidade são mesmo ótimos e convincentes, mas também é verdade que outros efeitos deixam a desejar, como a materialização dos espíritos na região do Nosso Lar quando vindos da área do Umbral. Contudo, há de se elogiar o esforço dos produtores em sair do comodismo e apatia reinantes no nosso cinema, reconhecidamente pouco ousado nesta seara técnica (a despeito dos figurinos me soarem equivocados, parecendo roupas de Krypton ou similares). Por sinal, outro aspecto técnico que desperta atenção é a trilha sonora, composta pelo badalado Phillip Glass. Com freqüência, as trilhas de Glass são invasivas, mas aqui até que ele se contém e não se pode negar a beleza de suas composições. Outro ponto que me agradou foi a caracterização do Umbral. Utilizando-se de poucos recursos especiais, ele se mostra bem realista em várias tomadas, mesmo que também muitas vezes lembre mais o inferno (“A Divina Comédia”, de Dante, vem logo à mente).

Todavia, todo este esmero técnico vai esbarrar na disposição do espectador em embarcar na crença na doutrina abordada. Se você é kardecista ou já leu ou livro, provavelmente não terá dificuldades de se envolver na proposta. Por outro lado, se é cético ou simplesmente não comunga da mesma crença, poderá considerar tudo uma grande perda de tempo. Desta forma, é um filme voltado para um público específico e vale dizer que, como peça a despertar interesse pela doutrina de Allan Kardec, o filme de Chico Xavier funciona bem melhor. Já “Nosso Lar” é muito mais uma obra para iniciados.


Cotação:

Nota: 7,0


* Se André Luiz fosse botafoguense não teria passado tanto tempo no Umbral!