quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Herbert de Perto


Vida e Apredizado

Se você viveu os anos 80 deve guardar com muito carinho as memórias da três bandas mais representativas do período em que ocorreu a grande explosão do rock nacional. Eram elas a Legião Urbana, os Titãs e os Paralamas do Sucesso. A primeira era a banda que aglutinava multidões em torno da aura messiânica de Renato Russo, o grande porta-voz da geração 80, aquele que soube traduzir melhor em canções as esperanças, angústias e frustrações dos jovens do seu tempo (e talvez de qualquer tempo). Já os Titãs desenvolveram um rock mais pesado e de grande contestação social, atuando como uma espécie de metralhadora giratória (a polícia, as religiões, a televisão: tudo foi alvo da língua ferina de seus integrantes). E os Paralamas formavam a banda com o tom mais leve que, embora não abandonasse a crítica social, explorava o lado mais leve e romântico da juventude e, principalmente, constituía o grupo com maior virtuosismo musical. Os três integrantes estão entre os melhores do Brasil em seus respectivos instrumentos. Contando com esse talento, os Paralamas souberam fazer uma ótima fusão entre rock, música brasileira e jamaicana, sob influência de grupos como o Clash, precursor deste tipo de trabalho com seu álbum “London Calling” (e, diga-se de passagem, pelo menos aos meus ouvidos, os Paralamas sempre soaram melhores que o Clash). E é na figura mais conhecida dos Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna, que é centrado este documentário dirigido e roteirizado por Pedro Bronz e Roberto Berliner.

A primeira boa ideia deste longa-metragem é contrapor momentos de passado e presente do famoso cantor e compositor. Uma das primeiras imagens, em que Herbert, ainda nos seus vinte e poucos anos, dá declarações presunçosas e imaturas é logo confrontada com outra, em que o Herbert maduro assiste a tal entrevista e logo exclama: “que é que esse cara tá falando?”. São baseados nessa contraposição que os diretores vão construindo o caleidoscópio que nos possibilita entender a história e a pessoa de um dos músicos mais importantes dos anos 80. Passamos pela sua infância, em que o pequeno Herbert já mostrava um talento diferenciado para tocar violão. Em seguida, vemos o mesmo, já na cadeira de rodas pós-acidente, tocando no seu primeiro violão, o qual guarda com carinho até hoje. É assim que sua vida é mostrada.

Passamos também pelos depoimentos dos parentes e amigos (obviamente com muitas falas de seus parceiros Bi Ribeiro e João Barone) sobre o compositor, recurso sempre necessário a um documentário sobre um personagem específico. E vamos descobrindo que os Paralamas, ao contrário do que muita gente pensa, não foi uma banda formada em Brasília, mas no Rio de Janeiro. Também vamos vislumbrando os elementos que compunham o cenário musical da época: a explosão da Blitz, que possibilitou e estimulou as gravadoras a investirem no pop-rock brasileiro; a importância de espaços como o Circo Voador, no Rio de Janeiro, verdadeiro objetivo de qualquer banda iniciante (“meu sonho era tocar no Circo Voador”, diz Herbert em certa passagem); e a grande explosão no Rock In Rio, show que acabou levando a banda a excursões em que chegava a realizar dois shows na mesma noite. Os aspectos mais pessoais também foram merecedores de fortes tintas, mostrando seu envolvimento e casamento com Lucy Needham, mãe de seus filhos e falecida no acidente com o aeroplano pilotado pelo próprio Vianna. Neste momento, vale dizer, os realizadores pegam uma veia emocional que deve sensibilizar a todos, sejam ou não fãs. O depoimento de Dado Villa-Lobos sobre as circunstâncias do acidente é mesmo consternador.

Contudo, numa visão mais atenta, percebe-se que o longa não é apenas sobre o líder de uma banda de rock ou sobre um momento musical de determinada época. Há muito no documentário sobre o amadurecimento do personagem, mostrando que o mesmo soube aprender com os tropeços da vida. O que, por extensão, mostra o quanto o ser humano pode evoluir e se adaptar às mais diversas possibilidades e dificuldades. Em determinado momento, um dos depoentes menciona que quase todas as músicas de Herbert tratam de seu amadurecimento, do constante evoluir, das novas perspectivas que vida traz a cada momento. Há verdade nisso, assim como há muita verdade neste “Herbert de Perto” (embora possa-se acusá-lo de ser “chapa branca” até certo ponto), película obrigatória não apenas para os fãs da banda ou do rock oitentista, mas para todos aqueles que desejem acompanhar uma bela trajetória de vida.


Cotação: * * * * (quatro estrelas)
Nota: 9,0
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2 comentários:

Luciano disse...

O filme pode ser nota 9, mas seu texto é nota 11. Excelente. Fiquei com vontade de assistir ao documentário.

Fábio Henrique Carmo disse...

Ah, nem tanto amigo Luciano. Agora, relendo-o,vejo que poderia melhorar alguns pontos. Mas obrigado pelo elogio!