sábado, 6 de agosto de 2011

Cinemúsica



Os Reis do Iê Iê Iê
( A Hard Day's Night, 1964)


O registro documental e surreal de uma revolução


Não é tarefa fácil dimensionar a importância de “A Hard Day's Night” para a cultura pop contemporânea. Sua influência vai muito além da sétima arte. Aliás, no âmbito meramente cinematográfico sua relevância nem é tão acentuada, muito embora também seja responsável por inovações estilísticas também nessa área. A verdade é que o filme, para além de uma mera película, transformou-se na catarse de uma geração, poucas vezes sintetizada de forma tão brilhante. Sua irreverência, tradução visual de uma característica da própria banda que é o foco da produção, se coloca como oposta a todo o status quo vigente. Nada mais jovem. E, de forma impressionante, o filme se mostra muito mais jovial do que muitos longas voltados para esse público nos dias atuais. A banda em questão, The Beatles, foi o maior fenômeno pop de todos os tempos. Sucesso de público e crítica mesmo décadas depois de sua separação, naquele momento (1964) se desenhava a explosão da beatlemania. Uma febre de juventude varria o mundo por meio daqueles quatro rapazes cabeludos de uma cidade portuária da Inglaterra. Um estouro que iria resultar não apenas em cerca de 2 bilhões de discos vendidos. Afinal, os Beatles foram bem além de um mero fenômeno mercadológico.

Por outro lado, aqueles eram também tempos mais puros, uma época em que os Fab Four ainda não haviam sido apresentados às drogas por Bob Dylan, fato que os levariam a experiências lisérgicas que proporcionariam ainda uma outra revolução que a ser cristalizada nos álbuns “Revolver” e “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, verdadeiras obras primas musicais e símbolos de uma nova forma de percepção da realidade. “Os Reis do Iê Iê Iê” (título brasileiro para o original de difícil tradução) é o recorte do tempo em que John, Paul, George e Ringo viviam correndo da enxurrada de fãs que os acompanhavam em qualquer nova parada de suas turnês, ainda com seus terninhos bem comportados, um grupo de garotos ainda surpresos com a fama gigantesca que estavam alcançando com sua música atordoante.

É possível que a felicidade na apreensão dessa atmosfera se deva ao fato de que Richard Lester, diretor do longa-metragem, também era ainda um jovem à época da produção. Ele contava apenas 32 anos quando assumiu a batuta, tendo sido escolhido por John Lennon, o qual havia gostado muito de um dos seus curtas anteriores, “The Running Jumping & Standing Still Film”, estrelado por ninguém menos que Peter Sellers. Natural, então, que houvesse por parte dele uma maior facilidade para entender aquele espírito libertário. Lester concebeu algo que foi além de uma mera peça publicitária de uma banda da moda. Realizou uma espécie de documentário-non-sense sobre o dia a dia de estrelas do rock no auge do sucesso, alcançando uma espécie de realismo-surreal (se é que podemos definir algo de forma tão paradoxal). Para tanto, utilizou-se de uma humor refinado e ao mesmo intuitivo, inspirado nos Irmãos Marx, bem de acordo com aquele destilado pelo quarteto de Liverpool em suas entrevistas para a imprensa, sempre respondendo às bobagens perguntadas por esta com a mais fina ironia (não à toa há uma sequência no filme apenas com o grupo respondendo a perguntas tolas dos jornalistas). O filme pode até parecer a muitos uma comédia de absurdos, dado o alto número de situações non-sense apresentadas, boa parte capitaneadas pelo ator Wilfrid Brambel, experiente profissional com boa carreira na TV inglesa e interpretando aqui o avô “muito limpo” de Paul McCartney. É de seu personagem que saem conselhos no melhor estilo “carpe diem”, insuflando-os a jogar os livros fora e aproveitar a juventude que lhes resta. E é seguindo esses conselhos que Ringo se mostra o melhor ator da trupe, meio que encarnando o espírito irônico e anárquico da banda em sequências sensacionais, como aquela em que ele sai vagando pelas ruas sem saber ao certo o que fazer *.


O próprio título do longa está longe do convencional. Em verdade, ele foi criado por Ringo (mais uma vez ele), de forma involuntária, ao se queixar de que eles estavam trabalhando duro dia e noite. Ao ouvir a frase “it's been a hard day's night”, Lester afirmou que ela tinha de ser o título do filme e que os artistas deveriam compor uma canção em cima da mesma. A sessão de gravação da faixa durou apenas três horas, tempo necessário para que o grupo inventasse o poderosíssimo acorde que abre a música - e que acabaria também por abrir o filme. Impressionante como esse acorde parece ser a síntese de toda a explosão da beatlemania e a primeira sequência do longa também se apresenta em igual medida, traduzindo em imagens o fervor de uma época (os figurantes da cena foram fãs de verdade, recrutados pela produção). E vamos, então, ouvindo e vendo uma sucessão de petardos dos Beatles, como “I Should Have Known Better” (composição de John inspirada no estilo de Dylan), “And I Love Her”, “Can't Buy Me Love”, entre outras, e culminando em um show no teatro Scala de Londres ao fim da projeção **. É importante sublinhar, ademais, o “ouvindo e vendo” do período anterior, já que “Os Reis do Iê Iê Iê” se transformou em uma espécie de marco zero do que seria conhecido mais tarde como videoclipe. A sua associação de música e imagem tornou-se a base desse produto do pop.

Quase cinco décadas depois, “A Hard Day's Night” surge ainda como uma película sui generis, difícil de classificar como um musical, um documentário ou uma comédia (talvez seja tudo isso junto) e com o bônus extraordinário de vermos e ouvirmos a maior banda de todos os tempos em ação. Interessante que Lester não obteria um resultado tão feliz no filme seguinte com o quarteto, “Help”, de 1965. Talvez porque neste último os próprios Beatles já não tenham contribuído muito, uma vez que nesta segunda ocasião já estavam mais preocupados em fumar ervas e se encontravam-se chapados demais para levar as filmagens a sério. Sim, aqui eles já haviam sido apresentados às drogas por Dylan, o que os levaria a outros caminhos, uma nova fase se anunciava. Mas o registro de sua primeira fase com “A Hard Day's Night” é mesmo definitivo.


Cotação e nota: Já me esforcei muito para tentar escrever um texto com certo distanciamento. Não peça que um fã dos Beatles estabeleça uma “nota” ou “estrelas” para esse filme. Abstenção!

* Segundo declarações dos próprios integrantes da banda, Ringo estava com uma baita ressaca durante as filmagens desta sequência.

** Um dos figurantes da plateia no teatro era Phill Collins, com apenas 13 anos.

Obs. Resenha escrita ao som do álbum "A Hard Day's Night"!
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3 comentários:

Celo Silva disse...

Fabio, excelente texto! Adoro esse filme tb, alias adorei seu blog. Vou linkar no meu e acompanhar seus posts. Se quiser da uma conferida:
http://umanoem365filmes.blogspot.com/

Grande abraço.

Fábio Henrique Carmo disse...

Celo, bom saber que este espaço tem mais um leitor. Apoveite ao máximo! Obrigado pelos elogios e até a próxima!

Rato disse...

Um dos filmes mágicos da minha meninice - é que eu não me considero apenas fã dos Beatles, vou muito mais além visto eles terem sido responsáveis pelo meu crescimento (tinha 10 anos em 1963...), mais até do que os meus próprios pais.
Também já dei conta da minha paixão por este filme que você pode conferir no blogue do Rato.

Saudações cinéfilas (e musicais...)
O Rato Cinéfilo