sábado, 9 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2



Doa a quem doer!


Desde “Cidade de Deus” a temática da violência urbana se tornou lugar-comum na produção cinematográfica nacional. Uma profusão de “filmes mundo cão” dominou as salas de cinema e, devido à enorme quantidade, faz-se necessário separar o joio do trigo. Se o citado longa-metragem de Fernando Meirelles causou impacto não apenas no Brasil como também internacionalmente, tivemos, por outro lado, bombas como “Última Parada 174”. Entre os pertencentes ao primeiro grupo, está “Tropa de Elite”, longa de José Padilha que, em 2007, fez o País discutir a criminalidade e a forma de combatê-la. Não é à toa que acabou levando o Urso de Ouro no Festival de Berlim, evento que costuma premiar produções vanguardistas ou que trazem à baila discussões sociais relevantes. Ademais, transformou em ícone o Capitão Nascimento, personagem interpretado magnificamente por Wagner Moura (na minha opinião, o melhor ator brasileiro em atividade) e ainda gerou vários bordões que caíram na boca do povo (como o famoso “pede pra sair”). Três anos depois deste fenômeno pop, após recusar até mesmo realizar uma série para a poderosa Rede Globo (e depois de muito disse-não-disse) eis que Padilha nos traz a aguardada continuação “Tropa de Elite 2”. E a verdade é que o autor, agora, parece querer desencavar ainda mais as caveiras de burro que estão no fundo da criminalidade que assola não apenas o Rio de Janeiro, mas todo o Brasil. Ele, quase literalmente (e com perdão da expressão), joga a merda no ventilador.

Ao mostrar a passagem do agora Coronel Nascimento para um cargo burocrático na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, em decorrência de uma criticada ação do BOPE em uma rebelião dentro de Bangu I, Padilha chafurda na lama da corrupção existente no seio da própria polícia, um câncer responsável pela perpetuação da violência na mesma proporção do tráfico nas favelas. Se o foco do primeiro longa era a hipocrisia da classe média, a qual alimenta o tráfico com seus consumidores, aqui a mira se volta para aqueles que, antes de tudo, deveriam combater o crime, mas que no fundo se alimentam dele para assegurar a manutenção de seus interesses. Idolatrado pela população, para a qual “bandido bom é bandido morto”, mas criticado por grupos defensores dos direitos humanos e pela mídia, que o vêem com fascista, Nascimento (assim como muitos dos espectadores) vai descobrindo que o buraco é muito mais embaixo. Assim, “Tropa de Elite 2” transforma-se em uma peça ainda mais política do que sua antecessora, dona de um potencial explosivo ainda mais forte diante do quadro eleitoral em que o país vive.

Todavia, claro que o filme de Padilha sabe levar todo esse discurso politizado de uma forma palatável para as massas. Com acabamento mais uma vez hollywoodiano, o diretor dá uma verdadeira aula até mesmo aos ianques de como se fazer um filme policial. Dono de um ritmo que jamais oscila devido à edição brilhante de Daniel Rezende (indicado ao Oscar por “Cidade de Deus”), ele consegue discutir o complexo tema da violência urbana sem jamais cair na chatice, deixando o espectador grudado na cadeira ao mesmo tempo em que reflete as temáticas discutidas (sempre pontuadas, mais uma vez, pela narração em off de Nascimento). Com enquadramentos perfeitos, a fotografia também tem os seus méritos, ao mesmo tempo em que o roteiro, escrito pelo próprio José Padilha e Bráulio Mantovani, se desenvolve de forma precisa, redonda e sem concessões para possíveis finais felizes (e com uma violência talvez ainda mais brutal que na primeira parte).

Com relação ao elenco, tal como ocorreu no primeiro episódio, temos os seus pontos altos e baixos. O Milhem Cortaz, como o policial Fábio, continua canastrão como de hábito, muito embora o seu personagem seja um dos melhores da trama. Já André Ramiro, com o seu André Matias (que agora é capitão), mais uma vez tem participação destacada, mesmo que o foco desta oportunidade seja mais centrado em Nascimento. Falando neste último, o personagem adquiriu características ainda mais tridimensionais, principalmente na abordagem da relação com o seu filho, mostrando-se também como um pai que tem dificuldades de relacionamento com o garoto. Mostra-se também falível na sua profissão e na relação com os amigos, cometendo seus erros e omissões. Essa abordagem mais humana do personagem dá ainda mais espaço para o show habitual de Wagner Moura, que consegue imprimir uma verdade na tela poucas vezes vista na história do cinema (não só do cinema nacional). Insisto que, em certos momentos, sua atuação alcança níveis brandonianos. Seus diálogos com André Matias (com direito a closes que não permitem subterfúgios aos atores) são especialmente interessantes e memoráveis (uma em especial, que trata sobre a ida de Nascimento para a subsecretaria de inteligência, já está entre as melhore que vi esse ano). Além disso, André Mattos está hilário como apresentador e deputado Fortunato, garantindo alguns risos diante do clima tenso.

E assim, Padilha consegue desferir mais um soco no estômago dos brasileiros. Um soco dirigido para todos os lados, seja a sociedade, os governos (independente de posição partidária), políticos, mídia (há um momento em que esta é mostrada de forma realmente repugnante), polícia, ricos, pobres etc. Na realidade, a conclusão a que ele parece chegar é de que o verdadeiro embate a ser travado em nossa Nação não está entre esquerda e direita, partido A ou partido B, mas entre corruptos e não corruptos, entre os de caráter e os sem caráter. [SPOILER] Nesse ponto, é notável que coloque, ao fim do filme, do mesmo lado e com a mesma integridade, os personagens de Nascimento e do deputado defensor dos direitos humanos Flagra, em contraposição à antipatia e rivalidade primordial dos dois [FIM DE SPOILER]. Uma obra corajosa e apta a gerar ainda mais discussões do que o primeiro. Doa a quem doer!


Cotação:

Nota: 10,0

Obs. Mesmo que de forma tênue, creio que Padilha dá a entender suas posições partidárias por meio das gravatas de certos personagens. Fique atento(a)! ;=)
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7 comentários:

alan raspante. disse...

Nota 10, rapaz ?
Olha, estou fascinado com Tropa 2. É, difícil uma continuação superar o primeiro filme e pelo que vejo Topa 2 conseguiu com muitos méritos!
Que bom!
Vou rever o primeiro e depois ir no cinema ver este, claro!

...abs.

leo disse...

Olha eu não sou o maior entusiasta do 1°filme mas claro que admiro todas as qualidades que o filme possui e concerteza acho a atuação de Wagner Moura algo fora do normal.
E até então não estava tão curioso pra assistir a esse 2° filme,mas depois do seu texto empolgado,impossível ficar imparcial,quer ver.
Abraços

Fábio Henrique Carmo disse...

Amigos, talvez seja realmente melhor do que o primeiro, já que Padilha vai ainda mais fundo na discussão dos temas. Creio que um filme gerar tanta discussão já é um mérito enorme. Padilha é corajoso! Abraço!

BRENNO BEZERRA disse...

Não me agradei tanto com o elenco no 1º filme, mas irei vê-lo amanhã.

Robson Saldanha disse...

Os comentários e notas são os melhores possíveis, assim só aumenta minha expectativa.

Robson Saldanha disse...

Vi e gostei muito do que presenciei. Me surpreendi na verdade pq pra mim é raro uma continuação ser melhor do que o primeiro, acho que a veia mais crítica e política desse me cativou mais e me fez dá uma 10,0 também. Padilha dá um tapa na cara do brasileiro.

Fábio Henrique Carmo disse...

Realmente é raro, Robson! Mas este está fazendo jus a "O Império Contra-Ataca". Excelente!