sábado, 25 de maio de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

A Árvore da Vida
(The Tree Of Life, 2011)


Amor e Inteligência


Terrence Malick é um sujeito meio esquisito. Nos anos 70, desabrochou para o mundo cinematográfico com dois longas primorosos que se tornaram bastante influentes. São eles “Terra de Ninguém” (Badlands), realizado em 1973, e “Cinzas do Paraíso” (Days Of Heaven), de 1978. Depois disso, quando parecia que iria se tornar um dos grandes diretores do cinema norte-americano, simplesmente desapareceu de Hollywood sem deixar vestígios. Passou 20 anos sumido da vida pública e sem dirigir nada até 1998, quando retornou às telas com “Além da Linha Vermelha” (The Thin Red Line), filme de guerra com elenco estelar que o levou de volta aos holofotes. Indicado a sete Oscars, venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Mas ele não passou esse tempo todo sem fazer nada ou meditando em algum monastério budista. Na verdade, ele estava em Paris e se dedicou a escrever roteiros. Entre estes, começou a rascunhar um projeto para a Paramount que foi então denominado de “Q”, tendo por temática a origem da vida na Terra. Tratava-se do embrião daquele que seria o seu quinto longa-metragem: “A Árvore da Vida”, lançado quase quatro décadas depois.

Para entender a obra de Terrence Malick, faz-se necessário apontar alguns traços de sua personalidade e biografia que vão além de seu caráter misantropo. Ele é formado em Filosofia pela Universidade de Harvard e chegou a cursar doutorado em Oxford. Foi professor do Massachusetts Institute Of Technology, mais conhecido como MIT. Ou seja, Malick é um homem de sólida formação intelectual que usa o cinema como um modo de elaboração de suas ideias e teorias acadêmicas. Portanto, não é por acaso que seus filmes sejam tão reflexivos ou “filosóficos”, para usar um termo comumente adotado para designar o seu cinema. Não espere, portanto, que seus longas sejam fáceis, daqueles feitos na medida para comer pipoca no fim de semana. Ao que parece, muita gente imaginava isso aqui no Brasil durante o (curto) período em que “A Árvore da Vida” esteve em cartaz. Por contar com astros como Brad Pitt e Sean Penn no elenco, é possível que vários incautos tenham imaginado que se tratava de mais um blockbuster ou filme para levar a namorada e curtir uma sessão romântica, pois que, segundo circulava na internet, boa parte do público abandonava a sessão na metade.



O mais intrigante é que, após assistir ao filme recentemente, pude constatar que ele não é cansativo ou entediante, o que me faz pensar o quanto o público médio das salas de cinema está desacostumado a pensar minimamente. Tudo bem, há longas sequências puramente imagéticas, sem diálogos, sublinhadas apenas por uma trilha sonora que pode ser classificada como canto gregoriano pós-moderno. Contudo, é bom lembrar que “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odissey), do genial Stanley Kubrick (uma das nítidas influências de Malick), foi um sucesso de bilheteria quando de sua estreia em 1968 e talvez seja um filme ainda mais imagético do que “A Árvore da Vida”. A conclusão a que chegamos é a de que o público vem sofrendo um processo, desculpem-me a palavra, de emburrecimento continuo. Anda tão mergulhado nos baldes de pipoca que qualquer obra que fuja do lugar-comum causa estranheza e enfado. Uma pena isso acontecer diante de uma película que traz questionamentos e reflexões tão relevantes quanto perenes.

A narrativa se inicia com uma espécie de epígrafe, um trecho do Livro de Jó, um dos mais conhecidos textos da obra basilar da cultura judaico-cristã ocidental: a Bíblia. Como deve ser do conhecimento de muitos, o texto bíblico narra uma espécie de desafio proposto pelo diabo a Deus, qual seja, testar a fé de Jó, impingindo-lhe sofrimentos mil para que sua crença esmoreça. Jó era um homem justo, de bom coração e temente a Deus e não mereceria passar por tantas agruras, mas é o que sucede e, mesmo assim, sua fé permanece inabalável. Por mais que possa parecer nonsense a ideia de que Deus iria se prestar a uma espécie de um joguinho com o demônio, o Livro de Jó possui rara beleza por nos lembrar uma verdade irrefutável: as agruras da vida atingem não apenas os maus, mas também os bons e justos. Não existem “eleitos” livres do sofrimento. É justamente sobre esta verdade que, na trama engendrada por Malick, se debate a família O’Brien, a qual perdeu um filho com 19 anos. Como poderia Deus permitir que um jovem virtuoso morresse de uma forma estúpida? Como Ele pode faltar àqueles que sempre procuraram viver de acordo com suas palavras? Ou será que males acontecem a todos porque, em verdade, Deus não existe?

Estas são perguntas eternas da humanidade e que nunca serão respondidas plenamente, porém Malick não se furta a tentar respondê-las. Logo após a leitura do citado trecho bíblico, uma outra ideia surge e será central na película. A Sra. O’Brien (Jessica Chastain, ótima!), em seus pensamentos, relembra as palavras de uma freira, ensinando-lhe que na vida existem dois caminhos: o da natureza, que se propõe a suprir tão somente suas necessidades físicas e instintivas; e o da Graça, que se contrapõe ao primeiro e renega a satisfação egoísta de instintos para a vivência do amor altruísta. Na visão de Malick, os dois caminhos se complementam e são duas faces do mesmo Deus. Durante a narrativa, a estrutura da família O’Brien é posta de maneira arquetípica, passando-se no Texas dos anos 50, época em que ainda predominava a família de base fortemente patriarcal. O pai (Brad Pitt, em uma de suas melhores atuações), com sua dureza e disciplina, é visto pelos filhos com reverência, temor e, por vezes, revolta e amargor. Por sua vez, a mãe amorosa, afável e compreensiva é adorada pelos seus filhos. Em planos mais claros, o Sr. O'Brien representa a face mais dura e inflexível de Deus, o amor severo, enquanto a Sra. O'Brien é o espelho de seu amor terno, benevolente. O primeiro é natureza e a segunda é a Graça. Entre os dois lados, destaca-se o filho Jack (Hunter McCracken na infância e Sean Penn na fase adulta) como figura representativa da humanidade, cometendo o pecado original da desobediência ao fugir das regras estabelecidas pelo Pai.

Por outro lado, o diretor transporta esta perspectiva familiar para um contexto mais amplo. Toda a película é permeada por longas sequências em que a natureza mostra toda a sua indiferença e força inexorável. Acompanhamos toda a evolução do universo, até chegarmos a nós, macacos de cérebro crescido. Ao colocar a natureza de forma tão exuberante no longa, Malick parece questionar: “onde está a Graça?”. A Graça só pode surgir dentro de nós, humanos, os únicos seres com a capacidade de amar, de nutrir algo que vai além de meros instintos. Nós é que devemos representar a face afável de Deus, trazendo o Amor (assim, com letra maiúscula) a um mundo que pela própria essência já é muito áspero e indiferente. Dentro de cada ser humano sempre haverá o embate entre os caminhos da natureza (satisfações próprias, necessidades instintivas) e o da Graça (amor altruísta) e somos, irremediavelmente, produtos deste conflito. Tais indagações, ao contrário do que muitos talvez esperem, são sublinhadas por imagens incríveis (como de hábito nos filmes de Malick), resultado da fotografia deslumbrante de Emmanuel Lubezki e ainda auxiliada por uma trilha sonora que induz à reflexão (com seu teor de “canto gregoriano modernoso”, como dito mais acima), em um deslumbre visual e sonoro condizente com o contexto. Tipo de filme que já valeria à pena somente pelas imagens. Ademais, conta com elenco estelar em grandes interpretações. Até mesmo os garotos, intérpretes dos três filhos dos O’brien se mostram bastante naturais.


Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2011, “The Tree Of Life” talvez não seja “a” obra-prima de Terrence Malick (eu ainda gosto mais do citado “Além da Linha Vermelha”), mas certamente está entre os melhores filmes dos últimos anos. Instigante e distante de superficialidades, mostra mais uma vez o talento de um diretor-filósofo que busca usar a Sétima Arte como debate e expressão de ideias. Ou seja, seu cinema é primordialmente arte, um artigo que anda em falta no mercado. Importante ressaltar que as interpretações expostas acima são algumas dentre várias outras possíveis. E só filmes que nos atingem enquanto autênticas expressões artísticas são capazes de gerar múltiplas leituras. É possível que o verdadeiro intuito do cineasta ao elaborar uma obra tão permeada de interrogações seja justamente o de nos lembrar que somos muito além do que dinossauros, meros animais à deriva na natureza. Como humanos, somos, antes de mais nada, amor e inteligência.


Cotação:



Nota: 10,0
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2 comentários:

Maxwell Soares disse...

Olá, Fábio. Quanto tempo, rapaz? O trabalho, aqui, tem tomado por demais meu tempo. Tendo, também, que me dedicar a outras leituras.Vi esse filme. Fiquei, sim, encantado. A beleza dos efeitos são monstruosos. Concordo com você quando diz que o filme valeria, apenas, pelas imagens. No mais um abraço...

Celo Silva disse...

Excelente texto, meu caro. Realmente o cinema de Malick rende muita reflexão. Mas como você bem disse, boa parte do público anda muito preguiçosa. Uma pena.