sábado, 6 de abril de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

À Beira do Abismo
(The Big Sleep, 1946)


Divertidamente confuso


O Noir é o gênero cinematográfico que provavelmente mais desperta a curiosidade e atenção dos cinéfilos ao longo das décadas. Se é que podemos definir o “noir” como um gênero, é importante ressaltar. Talvez seria mais correto defini-lo como um estilo de criação cinematográfica, já que alguns filmes ditos “noir” pendem mais para o drama, outros para o policial, suspense e até comédia. De qualquer forma, a iconografia do cinema noir, com seus personagens fumantes, vestindo sobretudos ou vestidos provocantes, envoltos em tramas geralmente misteriosas, é algo que já faz parte do inconsciente coletivo mundial e, em boa medida, serve de atestado da força do cinema Hollywoodiano na cultura popular. Entretanto, dentro da fluidez do conceito de cinema noir – na verdade uma definição elaborada pela turma francesa da Nouvelle Vague – existem aqueles filmes que se aproximam mais ou menos de seus padrões característicos. “À Beira do Abismo!, longa-metragem dirigido pelo mestre Howard Hawks em 1946, com certeza está entre aqueles que mais realçam os traços roteirísticos e imagéticos desse estilo tão estudado, charmoso e idolatrado.

Baseado em um romance policial de Raymond Chandler, o filme tem fama de possuir um roteiro muito confuso, dado o excesso de nomes e reviravoltas que vão acontecendo no seu desenrolar. É verdade. Tanto que o próprio Raymond Chandler admitiu que seu livro era confuso e, ao terminarmos de assistir à adaptação cinematográfica - que teve o roteiro assinado por ninguém menos que William Faulkner (Nobel de literatura em 1949) - a sensação é de não termos entendido boa parte do que se passou. Entretanto, isso nem de longe significa afirmar que “À Beira do Abismo” é um filme ruim. Sua narrativa complicada, repleta de diálogos ágeis e personagens que vão entrando e saindo sem que se perceba sua real importância, não deixa de ser muito divertida, espirituosa e inteligente. Aliás, em geral são assim os filmes dirigidos por Hawks, um daqueles cineastas que, mesmo dentro do chamado “studio System”, quando os diretores não tinham muito controle sobre a obra, conseguia imprimir aspectos autorais em seus trabalhos.


Aqui, ele repetiu a dose com o casal central, interpretados por Humphrey Bogart e Lauren Bacall, os mesmos de “Uma Aventura na Martinica” (To Have and Have Not, 1944), realizado dois anos antes. A dupla tinha efeito enorme sucesso junto ao público, dada a ótima química em cena. Na verdade, a química entre os dois era tão boa que eles já estavam vivendo um romance também fora das telas e se casariam apenas seis meses depois da filmagens de “The Big Sleep”. Com o respaldo da boa bilheteria, Hawks então se sentiu à vontade para deixar fluir os diálogos espirituosos e insinuantes entre a dupla, além de preencher os vários coadjuvantes com tipos característicos de sua filmografia. As mulheres, por exemplo, são as costumeiras “atiradas”, comuns nos longas de Hawks. Philip Marlowe, o detetive interpretado por Bogart, é alvo de “cantadas” mais ou menos diretas de praticamente todas as mulheres que surgem ao longo da narrativa, até mesmo de uma motorista de táxi e da proprietária de uma livraria (esta última sendo uma ótima presença de Dorothy Malone). Essas fêmeas pró-ativas de sua obra, que atingiriam o ponto máximo com Marilyn Monroe em “Os Homens Preferem as Loiras” (Gentlemen Prefer Blondes, 1953), possivelmente representam as fantasias do cineasta, denotando que este era o seu perfil preferido de mulheres.

Mas não é só no campo das metáforas que está presente a mão do diretor. O longa é imageticamente impecável e, como já frisado mais acima, apresenta todos os elementos estéticos típicos do cinema noir. Desde os créditos iniciais os cigarros estão presentes, destoando completamente do perfil antitabagista da Hollywood contemporânea. O detetive Marlowe passa quase toda a projeção vestindo sobretudo; a trama se passa praticamente inteira durante o período noturno e a fotografia em preto e branco de forte contraste complementa o tom soturno da projeção, a qual, no fundo, gira em torno de uma menina mimada, Carmen Sterwood (Martha Vickers), a dor de cabeça do pai, o General Sternwood (Charles Waldron). É o general que contrata Marlowe, um detetive acostumado a enfrentar o submundo, para investigar Arthur Geiger, credor de enorme quantia em dívidas de jogo assumidas por Carmen. Na mesma oportunidade, ele é abordado por Vivian Rutledge (Bacall), irmã mais velha de Carmen, a qual acredita que a origem dos problemas está no desaparecimento de um empregado e amigo do pai, um tal de Shawn Regan. A partir de então, sucedem-se assassinatos, charadas e romances que se misturam, deixando o espectador ligado em um enredo divertidamente confuso.


Como frisado mais acima, Bogart e Bacall sustentam um ótimo jogo amoroso ao longo da projeção. Ele com seu estilo cínico, sempre dono da situação, e ela com seu olhar e maneiras imponentes, os quais a faziam parecer mais bonita do que realmente era. Todavia, cabe apontar que o elenco coadjuvante é bastante eficiente. Alguns afirmam, inclusive, que boa parte das cenas de Martha Vickers teriam ficado de fora da edição final devido à competência de sua interpretação para Carmen Sternwood, ofuscando o brilho da estrela Lauren Bacall. Não vi a versão do diretor presente na edição brasileira lançada pela Versátil e, sendo assim, não pude aferir a veracidade de tal afirmação. De qualquer forma, na versão original exibida nos cinemas, Martha Vickers realmente rouba as cenas das quais participa, mesmo que não sejam muitas, atribuindo uma condição perturbada à personagem de Carmen. Outro ponto relevante é a trilha sonora de Max Steiner (o mesmo compositor das trilhas de nada mais, nada menos que “Casablanca” e “...E o Vento Levou"), conferindo um boa dose de suspense nos momentos-chave da trama.

É possível que você, leitor, ao assistir “À Beira do Abismo”, fique com sensação de não ter entendido muita coisa. Por outro lado, também é provável que deseje repetir a experiência para tentar montar esse quebra-cabeças. É assim que o longa de Hawks deve ser encarado: um quebra-cabeças que lhe trará 114 minutos de diversão, auxiliado pela presença luxuosa de dois grandes astros do cinema norte-americano, complementada pela direção sofisticada e inteligente desse grande cineasta. Além, claro, de se ter uma bela aula sobre o que foi o cinema noir, com seus mistérios, mulheres fatais e detetives durões.


Cotação:



 Nota: 9,0
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5 comentários:

renatocinema disse...

Texto perfeito.....delirante para os fãs do estilo Noir, como eu.

Pena que esse ainda não vi.

Pecado.

Celo Silva disse...

Tenho assistido a filmografia de Hawks gradativamente e até tenho feito um especial sobre o diretor no meu blog. Ainda não vi À Beira do Abismo, mas sei que existem duas versões, dizem que a extendida o filme é mais compreensível. Ótimo texto, para variar. Bogart é um dos meus atores favoritos.

Abração!

Jefferson C. Vendrame disse...

Grande Fábio, como vai tudo bem?
Sou louco para ver esse filme. A Warner lançou um box de Bogart anos atrás onde junto com ele ainda vinham PAIXÕES EM FÚRIA, O TESOURO DE SIERRA MADRE E CASABLANCA, infelizmente esse Box se esgotou e eu não consegui comprar,além disso o mesmo nunca mais voltou a ser lançado. Essa nova versão lançada no mercado nacional pela VERSÁTIL, tbm se esgotou antes que eu comprasse. Enfim....
Parabéns pela ótima postagem.

Abração

Suzane Weck disse...

Ola caro amigo,que bom receber tua visitinha.Continuas com tuas excelentes postagens.Este é um filme que por incrível que pareça ainda não assisti,mas com certeza o farei após ler este ótimo texto.Grande abraço.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Olá, parceiro, estou de volta, pronto para trocar comentários e seguir suas postagens. Fico feliz em ver que seu blog continua a todo vapor.
Cumprimentos cinéfilos!

O Falcão Maltês