sexta-feira, 26 de abril de 2013

Meu Pé de Laranja Lima

Sem sorrisos


Ainda lembro do meu prazer infantil ao ler “Meu Pé de Laranja Lima”, romance de teor fortemente autobiográfico publicado por José Mauro de Vasconcelos em 1968. As travessuras do protagonista Zezé, um menino traquino que a família e vizinhança afirmavam “ter o diabo no corpo”, traziam-me aquele sorriso aberto que só as crianças possuem e chegavam a me “inspirar” para as próprias traquinagens a serem praticadas em casa ou na escola. Ao mesmo tempo, sua páginas me faziam chorar, pois que a história de Zezé possuía contornos pra lá de tristes, capazes de gerar lágrimas em qualquer um, sendo criança ou não. Um livro marcante e bastante imaginativo, apto a cativar qualquer garoto e que também possuía um relevante contexto social que não escapava nem mesmo à minha apreciação imatura. O travesso protagonista era um garoto pobre, filho de um pai alcoólatra e desempregado que lhe batia com frequência. As diabruras do menino eram, mais do que qualquer outra coisa, uma forma de chamar a atenção para a sua carência. E o “pé de laranja lima” do título era o amigo que alçava a imaginação do garoto para além dos limites sofridos de sua realidade.

È verdade que o livro sempre foi visto com reservas pela crítica, a qual o acusava de apelar para o sentimentalismo. De forma inversa, foi um grande sucesso de público, alçando números de best-seller e logo sendo alvo de adaptações para outras mídias. Sua primeira versão cinematográfica, dirigida por Aurélio Teixeira, data de 1970 e no mesmo ano acabou virando novela na extinta TV Tupi, sendo ainda levado à televisão mais duas vezes, em 1980 e 1998, ambas na TV Bandeirantes. O sucesso editorial aliado à diversidade de veículos fez com que “Meu Pé de Laranja Lima” acabasse por ser assimilado pelo inconsciente coletivo brasileiro. Pelo menos entre as pessoas da minha geração, é difícil encontrar alguém que nunca tenha sequer ouvido falar do romance. Contudo, a ausência na mídia nas últimas duas décadas fez com que a história de Zezé se tornasse desconhecida pelas novas gerações, uma falha que precisava ser corrigida e que a produtora Kátia Machado e o diretor e roteirista Marcos Bernstein (eles escreveu o roteiro de “Central do Brasil”) resolveram suprir.



É possível afirmar que essa adaptação de 2013 foi bem sucedida, apesar de possuir um tom que destoa do original e que, até certo ponto, acabou me incomodando. Na trama, vemos o autor do livro (vivido na fase adulta por Caco Ciocler), já com este lançado comercialmente, viajar até sua cidade natal e relembrar os dias que o inspiraram a escrever sua obra. Assim, em flashback, vemos o dia a dia sofrido do garoto Zezé que, além de viver nas limitações da pobreza, ainda levava surras constantes não só do pai (viciado em álcool, como já mencionado), mas também da mãe e irmã mais velha. Sua grande amiga é a fruteira do título, para quem faz confidências e viaja por mundos imaginários, férteis em sua mente infantil. Uma amizade real é posteriormente estabelecida com o português Manuel Valadares, o “Portuga” (papel de José de Abreu), um homem solitário que vê no garoto a oportunidade de resgatar sentimentos paternais. Não vou revelar mais do enredo para quem não o conhece, mas um dos temas centrais da obra de Vasconcelos é a perda. Perder alguém, seja de que forma for, através da morte ou por desentendimentos ou desencontros da vida, é algo que nunca será fácil de lidar, ainda mais na infância. Claro que isso significa afirmar que a narrativa em questão possui contornos inegavelmente tristes, como já sublinhado ateriormente, mas Bernstein exagera na pegada dramática, tornando a trajetória de Zezé um sofrimento quase sem fim, divergindo das cores lúdicas presentes no texto de Vasconcelos. Por outro lado, não se pode negar que o longa emociona no seu último terço, tal como aconteceu com gerações de leitores e espectadores de suas adaptações.

Vale ressaltar, porém, que este é apenas o segundo longa-metragem dirigido por Bernstein (o anterior foi “O Outro Lado da Rua”, de 2004), o qual também escreveu o roteiro em parceria com Melanie Dimantas. Para um diretor ainda “verde”, Bernstein demonstra segurança, imprimindo um bom ritmo, muito embora ainda falhe em alguns aspectos, principalmente na condução do elenco ou talvez até na escolha dele. O ator mirim que interpreta Zezé, João Guilherme Ávila, desenvolve uma atuação bastante oscilante, alternando boas cenas com outras realmente medíocres, o que me leva a acreditar que sua escolha para o papel teve como origem o fato dele ser filho do cantor Leonardo. Não se quer aqui dizer que o garoto é um desastre. Ele tem boa presença nas cenas mais dramáticas e esse é justamente o maior problema, uma vez que não consegue ser expressivo nas sequências que pedem mais leveza, contribuindo decisivamente para o mencionado tom carregado da narrativa. Em contrapartida, José de Abreu está ótimo na pele do grande amigo português de Zezé, destacando-se como a melhor presença cênica. Tivesse um elenco mais homogêneo, fatalmente a película poderia atingir níveis de excelência.



Embora se mostre um saudável respiro em relação ao padrão “Globo Filmes” que costuma dominar o circuito comercial brasileiro, o caráter excessivamente dramático desta nova versão de “Meu Pé de Laranja Lima” possivelmente irá afugentar aquele público que deveria ser o seu maior alvo, o infantil, mas isso também não significa falta de qualidade. A força da obra literária permanece em boa medida e as travessuras e desventuras de Zezé tocarão o público, mesmo que seja o adulto. Destarte, essa circunstância provavelmente levará a produção a se tornar um fracasso de bilheteria, uma vez que muitos adultos poderão deixar de pagar o ingresso por imaginar se tratar de um filme para crianças. Uma pena que o resgate de um livro tão bem quisto na cultura nacional esteja fadado a passar em brancas nuvens nas salas de exibição.


Cotação:



Nota: 8,0
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2 comentários:

Renato Hemesath disse...

Primeira resenha que leio sobre o filme. O aguardava, realmente. Inclusive fui ver Therese na semana passada e ao ver o cartaz do filme fiquei me perguntando o quanto poderia ou não ser similar a versão da novela, que inclusive nem lembrava que foi em 1998, pensava que era mais antiga.

Lembro-me da história com este teor dramático realmente, a questão da perda e do apego do menino a "objeto-árvore" como uma possível via de ajuda para suportar aqueles anos.

Ótimo resenha! Abraços

Jefferson C. Vendrame disse...

Fábio, desde minha infância, sempre estive muito ligado a obra de JOSÉ MAURO DE VASCONCELOS, que ao meu ver, foi um excelente autor brasileiro e sem seu merecido reconhecimento. Além dessa obra aqui em destaque, VASCONCELOS tem ainda um porção de outros belos títulos que renderiam ao cinema nacional grandes filmes, como por exemplo BANANA DA TERRA, BARRO BLANCO e RUA DESCALÇA.
Quanto ao Meu pé de Laranja Lima, já assisti a primeira versão para o cinema de 1970 e a novela de 1980 da TV Bandeirantes através de um reprise no final dos anos 90. A novela por sinal, eu não perdia um dia e me marcou muito... Estou bem curioso para ver essa nova versão, que eu nem sabia que havia sido feita...

Parabéns pelo texto Fábio!
Abração!