sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Para Ver Em Um Dia de Chuva



   

O Segredo da Porta Fechada

(Secret Beyond The Door, 1947)


A “má fase” de Fritz Lang


A carreira do genial cineasta austríaco Friedrich Anton Christian Lang, mais conhecido pelo nome artístico Fritz Lang, é mais lembrada hoje pela sua fase europeia e expressionista, quando concebeu obras-primas como “Metropolis” (1927) e “M – O Vampiro de Dusseldorf” (M - Eine Stadt sucht einen Mörder, 1931) do que pela sua fase nos Estados Unidos, país para o qual emigrou fugindo do nazismo. Muitos o acusaram de ter se vendido a Hollywood, realizando películas de viés comercial e pouca relevância artística. Trata-se, contudo, de uma visão apressada e injusta, já que, em Hollywood, Lang ajudou a criar o que hoje se convencionou chamar “cinema noir”, o tipo de filme que dominou a produção média estadunidense durante os anos 40, onde heróis de caráter nem sempre exemplar se envolviam com mulheres fatais e tramas policiais ou misteriosas. Há ainda uma vertente mais feminina do noir, que alguns denominam de “gótico feminino”, onde normalmente mulheres apaixonadas se veem diante de situações misteriosas ou possuem comportamento obsessivo. É o caso de clássicos como “Amar Foi Minha Ruína” (Leave Her To Heaven, 1945), de John M. Stahl; e “Rebecca, A Mulher Inesquecível” (Rebecca, 1940), de Alfred Hitchcock. “O Segredo da Porta Fechada”* (Secret Beyond The Door) é um dos filmes de Lang que se encaixam nessa definição de “noir feminino” e demonstram que seu talento estava longe de algo que se possa adjetivar como “em baixa”.

Esta foi a segunda e última produção da Diana Productions, empresa criada por Lang, o produtor Walter Wanger, sua então esposa e estrela Joan Bennett (Diana era o nome da filha do primeiro casamento de Bennett) e Dudley Nichols. Devido ao fracasso comercial do longa, a produtora acabou falindo, mas é difícil entender os motivos de seu insucesso. Afinal, trata-se de uma obra com um roteiro elaboradíssimo e uma direção que constrói um clima extremamente tenso que nos deixa vidrados na tela e grudados na poltrona. Inspirado pelo citado “Rebecca”, Lang acabou gerando um suspense que não fica nada a dever aos do mestre Hitchcock. Com seu tom onírico e subtexto freudiano, “O Segredo da Porta Fechada” antecipou ainda em décadas os suspenses psicológicos que teriam em Roman Polanski um dos seus maiores expoentes em filmes como “O Bebê de Romary” (Rosemary's Baby, 1968). Ou seja, mais uma obra dentre tantas que sofreu da incompreensão tanto do público quanto da crítica, mas que merecia um destino melhor.


Na trama, Joan Bennett – bela e com atuação convincente - vive Celia, uma rica, mas insegura mulher muito protegida por seu irmão mais velho. O falecimento deste lhe deixa sem um porto seguro e ela acaba se apaixonando e casando rapidamente com Mark Lamphere (Michael Redgrave), um milionário charmoso, mas que aos poucos vai se demonstrando misterioso em igual medida. Ele possui a estranha mania de colecionar quartos de mulheres vítimas de assassinato, todos devidamente alocados na sua enorme mansão. Só que um deste quartos, o sétimo, encontra-se permanentemente trancado e Mark se recusa a revelar o que há no seu interior. O mais interessante é que Celia, ao contrário do que se poderia banalmente supor, não se move a tentar descobrir o que há por trás da tal porta apenas por uma mera curiosidade ou o temor de estar diante de um psicopata ou algo do tipo. Seu motor é o amor que sente por Mark e o desejo de ajudá-lo a superar possíveis traumas que o levariam a ter esse comportamento estranho. Tal contexto traz um ótimo diferencial para a personagem de Bennett, sendo ainda mais reforçado pela narração em off da própria Celia, demonstrando que várias de suas atitudes, que poderiam parecer bobas à primeira vista, são tomadas depois de muita reflexão e angústia. Ademais, o recurso faz com que mergulhemos na subjetividade da protagonista, envolvendo-nos com suas dúvidas cada vez mais inquietantes.

A narrativa também se mostra ideal para que Lang ponha em prática suas teorias sobre a essência do ser humano. Para ele, todo homem é um criminoso em potencial. Dizem que ele chegava mesmo a perguntar às pessoas se elas já não tinham desejado matar alguém e ficava frustrado diante de respostas negativas, acreditando serem mentirosas. O personagem de Mark é justamente a representação dessas ideias. Será ele um criminoso de fato ou somente no plano imaginativo? Para Celia, a melhor resposta não seria nenhuma das duas, claro, mas, com o desenrolar dos acontecimentos, a segunda opção aparece como relativamente confortável.


Vale dizer que o suspense psicológico não seria tão eficiente sem a interação com a fotografia e a trilha sonora. Stanley Cortez, o mesmo diretor de fotografia de obras-primas como “O Mensageiro do Diabo” (The Night Of The Hunter, 1955), apresenta aqui mais um trabalho brilhante em p&b. A sequência em que Celia está prestes a desvendar o tal segredo atrás da porta é uma verdadeira aula de enquadramento e utilização do contraste entre luz e sombras. Da mesma forma, a inspirada trilha de Miklós Rózsa garante o tom certo para cada sequência, principalmente as mais tensas. As atuações também não deixam a desejar, principalmente a da ótima Joan Bennett, perfeita como uma heroína romântica, mas ao mesmo tempo inteligente, proativa e angustiada.

É verdade que o filme deixa de atingir o status de obra-prima devido ao seu desfecho meio apressado e até certo ponto insatisfatório. Entretanto, isso não significa dizer que é uma obra menor dentro da filmografia de um referencial da Sétima Arte. Trata-se de um belíssimo representante de um quase gênero (sim, pois o noir é mesmo um gênero?) dos mais cultuados e estudados da história do cinema e do qual Fritz Lang foi um dos criadores. Trazendo da Europa seus conceitos expressionistas, ele misturou suas origens com o formato hollywoodiano para criar um novo jeito de fazer cinema que ainda encanta mesmo décadas depois. Pois é, esta é a “má fase” (para usar uma expressão consagrada no futebol) de Fritz Lang. Mais uma prova de que os críticos erram, e muito, em suas avaliações imediatistas.


Cotação:



Nota: 9,5

*O filme possui outras duas versões em português para o seu título. São elas “O Segredo Atrás da Porta” e “O Segredo da Porta Cerrada”. Preferimos adotar no texto a tradução usada na recente edição lançada em DVD no mercado brasileiro.
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3 comentários:

Celo Silva disse...

Olha, sou um leigo em Lang, só vi Metropolis mesmo. Esse parece interessante, mas quero acompanhar sua filmografia cronologicamente. Não sei quando, mas qualquer hora dessas começo. Parabéns pelo texto.
Abração!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Acredita que prefiro a fase norte-americana de Lang? A sua parceria om Joan Bennett é fantástica (quatro filmes). Gosto principalmente de ALMAS PERVERSAS.

O Falcão Maltês

Jefferson C. Vendrame disse...

Grande Fábio, Como vai?
Cara, seus textos como sempre, muito inteligentes e bem escritos. É sempre um prazer visitar sua página.
Estive visitando segunda feira de manhã o site da VERSÁTIL HOME VIDEO e fiquei surpreso com a quantidade de bons clássicos que eles vem lançando. Esse mesmo em destaque, que até então eu não conhecia, me despertou interesse e agora após ler seu texto fiquei mais interessado ainda. Estou fazendo uma compra para os próximos dias na 2001 vídeo e esse título já esta incluído...

Obrigado pela dica;

Grande abraço