sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Na Estrada

Viagem cansativa


De antemão, vou avisando que nunca li “On The Road”, a obra literária de Jack Kerouac agora adaptada pelo nosso Walter Salles para o cinema. Imagino que seja um bom livro, afinal nada nessa vida é impune e seu sucesso e respeito ao longo de décadas deve ter os seus méritos. Vamos falar aqui, portanto, apenas da obra cinematográfica, o filme enquanto filme, abstraindo o fato de ser uma adaptação. Sob esta ótica, posso dizer que o resultado final é, no mínimo, bastante discutível.

É verdade que Francis Ford Copolla, detentor dos direitos de adaptação para o cinema desde os anos 70, esperou todo esse tempo para por em prática o seu projeto porque nunca havia encontrado o diretor ideal (o que nos levar a imaginar que ele próprio se achava incapaz para a tarefa) até assistir a “Diários de Motocicleta” (2004), o road movie (ótimo, é bom lembrar) dirigido por Walter Salles que narra as viagens feitas por Ernesto Guevara de La Serna em sua juventude, ou seja, antes de ser mundialmente conhecido como “Che” Guevara. De fato, Salles mostrou-se um grande diretor de filmes de estrada não apenas por este trabalho, mas também por “Central do Brasil”, longa que tornou seu nome famoso ao receber duas indicações para o prêmio da Academia de Hollywood – melhor filme estrangeiro e melhor atriz (Fernanda Montenegro). Além disso, sempre foi um artista de grande sensibilidade, demonstrada ainda em outras obra como “Abril Despedaçado” (2001) e “Linha de Passe” (2008, juntamente com Daniela Thomas). Ao lado de Salles, outros nomes que figuram nos créditos de “Diários de Motocicleta” foram levados para o projeto, entre eles o roteirista Jose Rivera e o diretor de fotografia Eric Gautier. Adicione-se que o longa ainda conta com um baita elenco, salpicado por vários nomes famosos e competentes que fariam a alegria de qualquer diretor. Com tanta gente boa junta, este poderia ser considerado um projeto que não tinha como dar errado. Infelizmente, as coisas não correram tão bem assim. 


Não se pode negar que a fotografia de Gautier é muito bonita e que existe toda uma contextualização da vida daqueles jovens, integrantes da famosa geração “Beatnik,” que deve ser observada. Eles cresceram durante a Segunda Guerra Mundial e acabaram por desenvolver um visão de mundo existencialista bastante influenciada por nomes como Jean-Paul Sartre e Albert Camus. É nítido que suas viagens são a busca de um sentido para a vida, ou a crença na falta de tal sentido para a mesma. As drogas e o sexo transgressor, portanto, não são gratuitos na tela, assim como o fato de Sal Paradise (Sam Riley), alter-ego de Jack Kerouac, enxergar no inconsequente Dean Moriarty (Garrett Hedlund) um exemplo libertário soa, até certo ponto, natural. O problema é que, mesmo entendendo perfeitamente o contexto, o filme de Salles se mostra quase tedioso, uma sucessão sem fim de bebedeiras, viagens alucinógenas e orgias que não nos levam a qualquer empatia com os personagens.


A sensação de tédio pode ser realçada pelo caráter episódico da narrativa, a qual relata as viagens de Sal ao lado de Dean e a maluquete Marylou (Kristen Stewart, estranhamente bem no papel), numa relação que às vezes parece remeter a “Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois” (Jules et Jim, 1962), uma das grandes obras de François Truffaut. Vamos de viagem em viagem, de lá para cá, do Leste para o Oeste e vice-versa e acabamos com a impressão de que estamos vendo as mesmas cenas, principalmente diante dos injustificáveis 137 minutos de projeção. Sal, o protagonista, muitas vezes parece um maria-vai-com-as-outras, sempre seguindo Dean nas suas aventuras. Entretanto, não se pode negar que diante de tantas loucuras, surgem algumas sequências bem divertidas e alguns dos tipos que vão aparecendo são inegavelmente interessantes, como Old Bull Lee (que na realidade seria o escritor William S. Burroughs), interpretado com boa presença por Vigo Mortensen, ou Camille (Kirsten Dunst, ótima), que acaba se tornando esposa de Dean Moriarty. Da mesma forma, o desfecho se revela bem elaborado (imagino que bem adaptado), colocando em evidência as decepções de Sal com o seu amigo “libertário”, mas que no fundo vai se mostrando tão somente um irresponsável compulsivo, incapaz de levar qualquer relacionamento de forma madura, sendo levado a tomar toda e qualquer atitude tendo como único referencial o próprio ego.

Entretanto, suas virtudes acabam se mostrando poucas para um filme baseado em uma obra tão aclamada. Talvez a culpa seja do próprio livro, que muitos consideravam como inadaptável. Na película, são visíveis os esforços de todos os envolvidos no projeto para captar a essência, o espírito da obra de Jack Kerouac, mas tais esforços de mostraram aparentemente frustrados. Aparentemente, trata-se da primeira vez em que Walter Salles realmente errou a mão. Ou será que o livro adaptado é chatinho mesmo? Com a palavra, aqueles que já tiveram a oportunidade de ler suas páginas.



Cotação:
  


Nota: 6,5
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3 comentários:

Celo Silva disse...

Otima crítica. Realmente Na Estrada, como filme, deve muito. Redundante, tedioso, nunca chega a, de fato, empolgar. Alguns acusaram como o distanciamento imposto por Salles, mas acredito que esse nem seja o problema verdadeiro, acredito mais em uma narrativa falha, que não capta com eficiência o momento.

Marcia Moreira disse...

Olá, Fábio.
Seu blogue é um ótimo trabalho. Parabéns.
No meu blogue, tem um selinho esperando por você.
Um grande abraço.

Alan Raspante disse...

Você não é o primeiro a falar que o filme tedioso. Opa, todo mundo achou isso, rs

Ainda não vi, mas tenho curiosidade por conta do elenco e por conta do próprio Salles.

Verei, mas sem pressa.

Abs ;)