domingo, 25 de março de 2012

Restaurando a Película


O Fio da Navalha
(The Razor's Edge, 1946)


Um bom clássico com “Tirone Pouer”



Diante da quantidade gigantesca de filmes que se tem a explorar, é inevitável que mesmo um cinéfilo acabe deixando de lado a filmografia de algum cineasta ou astros renomados. São os “pecados” que muitas vezes não gostamos de admitir nem para nós mesmos, mas aqui vou assumir publicamente um deles. Este clássico “O Fio da Navalha” (The Razor's Edge) é o primeiro longa-metragem a que assisti com o famoso ator Tyrone Power, um dos astros da Hollywood dos anos 30 e 40 e que, infelizmente, faleceu muito cedo, com apenas 44 anos, vítima de um infarto fulminante (o mal era de família, pois que seu pai morreu da mesma forma). Curioso que a primeira vez que vi alguma referência ao nome do ator foi ainda bem moleque, na HQ “Batman – O Cavaleiro da Trevas”, mais precisamente em um trecho em que Bruce Wayne recordava o assassinato dos seus pais logo após uma sessão de “A Marca do Zorro”, filme estrelado por ele, Tyrone Power, o qual para mim, com os meus parcos conhecimentos de inglês àquela altura, era o “Tirone Pouer”. Os anos passaram, eu me tornei um cinéfilo-que-escreve, mas ainda não havia apreciado qualquer atuação do astro e isso já vinha se tornando um verdadeiro fantasma assombrando minha vida de amante do cinema. De toda forma, sempre podemos ao menos tentar recuperar o tempo perdido e eis que me inicio nos trabalhos de Power com o longa-metragem de 1946 dirigido pelo inglês Edmund Goulding.*

Goulding foi, tal como Douglas Sirk, um grande diretor de melodramas, o que importa dizer que sua linguagem e ritmo cinematográficos possuem uma fácil comunicação com o público – linguagem esta que depois seria piorada e utilizada à exaustão pelas telenovelas. É comum se deixar envolver por suas narrativas, normalmente em termos maniqueístas, ondem mocinhos e mocinhas enfrentam megeras e indivíduos sem caráter. Alguns melodramas, entretanto, se colocam acima da média justamente por fugirem a esses lugares-comuns. Ao levar para as telas a adaptação da obra de Somerset Maugham, Goulding foi além de meras situações que fariam o público torcer pela moça desamparada. À exceção do protagonista Larry Darrell (encarnado por Tyrone Power), praticamente todos os outros personagens possuem um caráter imperfeito, aproximando-se, desta maneira, das tintas do cinema noir. Entretanto, mesmo Larry é um tipo incomum para o cinema de então. Afinal, ele nos é apresentado como um homem que não compartilha dos valores da sociedade capitalista, atenta apenas ao possuir e ao trabalho como uma forma de auferir maiores riquezas (e não como maneira de realização pessoal). Ex-combatente da 1ª Guerra Mundial, ele não se enxerga mais como um homem que se realize como empresário, advogado ou qualquer outra carreira tradicional. Entediado e deslocado diante dos valores da vida burguesa, Larry parte para a Europa em uma jornada de autoconhecimento que, posteriormente, o levará ainda até a Índia. Mas é claro que suas escolhas também importarão em perdas (afinal, assim é a vida). A mais significativa delas é a noiva Isabel Bradley, interpretada pela belíssima Gene Tierney, uma estrela em seu tempo, mas que hoje anda pouco lembrada. Filha de família abastada, ela não consegue compreender a angústia de Larry e muito menos concebe viver com recursos limitados. É uma mulher do seu tempo, que espera do marido todos os esforços para que tenham uma vida confortável. Entretanto, não conseguimos enxergá-la como uma pessoa exatamente ruim, mas tão somente limitada diante dos conceitos socioculturais dominantes.


É exatamente esta riqueza dos personagens o maior trunfo de “O Fio da Navalha”, característica que não se restringe ao mencionado casal central. Ao redor deles gravitam vários tipos interessantes e marcantes. Clifton Webb (que já havia trabalhado ao lado de Tierney no clássico do noir “Laura”, de 1944) interpreta Elliott Templeton, tio de Isabel, um aristocrata esnobe que tenta esconder sua própria decadência. Outro que marca boa presença é John Payne como o bom caráter Gray Maturin, além de Herbert Marshall encarnando o próprio escritor Somerset Mugham, em um recurso de metalinguagem do longa. Entetanto quem acaba mesmo roubando a cena é Anne Baxter (que mais tarde seria “A Malvada” do filme estrelado por Bette Davis) como a sofrida Sophie McDonald, uma mulher intensamente feliz até perder o marido e o filho em um trágico acidente, fato que a leva ao alcoolismo e a um estado de semiprostituição. A entrega de Baxter ao papel lhe rendeu um merecido Oscar de atriz coadjuvante (Clifton Webb também foi indicado como ator coadjuvante).


Por outro lado, além da ótima direção de atores, Goulding consegue estabelecer um ritmo que prende o espectador e faz com que este nem sinta os 145 minutos do longa. Isso se deve muito também à fluidez do roteiro, uma boa adaptação levada a cabo por Lamar Trotti, muito embora fosse possível explicar melhor os traumas vividos por Larry no conflito mundial, que são apenas referidos em um diálogo entre ele e Isabel. Também é possível afirmar que o filme carece de uma maior força imagética, fragilidade possivelmente decorrente das preferências de Goulding, que não gostava de filmar em locações, mania talvez proveniente de suas origens teatrais. A trilha sonora de Alfred Newman, mesmo que muito bonita, por vezes soa com um certo sensacionalismo, com tons meio exagerados. No entanto, há bons momentos com canções incidentais, as quais lançam um bem-vindo teor naturalista às sequências.

E Tyrone Power? Merece mesmo o adjetivo de “grande astro” do cinema? Bem, embora ele não tenha me parecido exatamente um Marlon Brando, não se pode negar que tinha muito carisma. Era um bom ator, cujo tipo físico lembrava o de James Stewart, mas que parecia sempre precisar de um bom diretor de atores para realizar um trabalho mais marcante, como foi o caso aqui. Contudo, talvez até melhor do que finalmente conhecer o “Tirone Pouer”, foi descobrir que “O Fio da Navalha” é uma obra bastante interessante e que anda por aí injustamente relegada ao esquecimento. Até poucos dias, eu nunca nem sequer tinha ouvido falar desta película (que até foi indicada ao Oscar de melhor filme também) e agora eu já trago boas memórias dele. Clássicos: é por essas e outras que é essencial vê-los!


Cotação:

Nota: 8,5


* O filme foi uma sugestão da colega blogueira Suzane Weck. No seu espaço você poderá conferir a, como sempre, ótima interpretação dela para "Mam'selle", uma das canções ouvidas no longa! Não deixe de acessar!
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8 comentários:

renatocinema disse...

Imperdoável: não assisti a esse clássico.

Jefferson Clayton Vendrame disse...

Grande Fábio,
Parabens pelo Post, esta fantástico. É um bom filme, Anne Baxter esta ótima em seu personagem de alcoólatra. Tyrone Power realmente um grande ídolo dos anos 30 e 40. Você começou bem pois esse filme é um dos melhores dele. Gosto muito também de O Beco das Ilusões Perdidas, Na Velha Chicago e A Marca do Zorro, todos ótimos e que você deve ver..

Abração

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Muito bom, Fábio. Vi "O Fio da Navalha" no tempo em que a Globo exibia esse tipo de filme. Fiquei apaixonado e procurei o livro(melhor ainda!). Recentemente voltei a ver o filme e fiquei novamente encantado, embora perceba algumas limitações. O elenco é brilhante. Power está bem, mas o Larry não é o tipo de papel que o marcou. Você precisa vê-lo em "Sangue e Areia", "A Marca do Zoro" e "O Cisne Negro". São ótimos filmes e Tyrone está iluminado.

O Falcão Maltês

Suzane Weck disse...

Ola,chegando com um pouco de atraso..... Tua matéria esta com nota 1000.Texto não podia ser melhor,pode-se sentir todo filme através dele.Parabéns meu caro amigo.Espero que gostes de minha musica,"I'll do my best".Abraço grande. Su.

Alan Raspante disse...

Eu também admito, rs Eu, na verdade, nem conhecia o filme!

Vou procurar ver!

Gabriel França disse...

Iaí Fábio, tudo bem? Há quanto tempo, não.

Já estou baixando esse filme só por causa de seu post. abraços!

http://monteolimpoblog.blogspot.com.br/

Alan Raspante disse...

Sim, Fábio... Se eu não me engano, o filme "Jovens Adultos" chega aos cinema no dia 06 de Abril...

Valeu pelo comentário!

Wilson Antonio disse...

Depois desse grande texto, juntamente com a versão da Suzane, impossível não procurar o filme e assisti-lo correndo
abraço
parabéns pelo texto