terça-feira, 22 de novembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Quase Deuses
(Something The Lord Made, 2004)


Quase lá...


Não nego que tenho um certo preconceito com filmes feitos para a televisão. Aliás, não só filmes. As atualmente tão enaltecidas séries de TV também não contam com a minha simpatia. Por razões comerciais, geradas pelo público médio que acompanha as produções televisivas, jamais veremos um produção feita para TV atingir o nível artístico de um filme de Fellini ou Antonioni, de um Bergman ou Kubrick. Sei que “jamais” talvez seja um termo muito forte e claro que muitos vão citar o “Decálogo” de Kieslowski como exemplo de que isso é possível, mas esta é uma rara exceção e as exceções confirmam a regra. E isso por um simples motivo: mesmo uma empresa como a HBO, famosa por supostamente ter produtos diferenciados, mais “refinados” ou “adultos”, tem de estar adstrita ao gosto do seu espectador, mormente o norte-americano, o que pode até terminar resultando em um entretenimento inteligente, mas nunca em uma autêntica obra de arte. Dito isto, resolvi assistir neste domingo a um filme que minha noiva me deu de presente há algum tempo, longa-metragem que ela havia gostado muito e que sempre me cobrava: “você ainda não viu aquele?” *. Trata-se de “Quase Deuses” (Something The Lord Made, 2004), filme produzido pela citada HBO e dirigido por Joseph Sargent. A verdade é que o longa representa o que talvez se possa fazer de melhor dentro da perspectiva comercial do meio televisivo, ou seja, uma obra correta, que prende a atenção do espectador, toca em assuntos sobremaneira relevantes, mas que não consegue alcançar patamares artísticos mais elevados, permanecendo na área do entretenimento inteligente ou mesmo comovente.

A trama, como normalmente sucede em produções para a televisão (e como isso me faz lembrar o Supercine, nossa...), trata da história real dos médicos Alfred Blalock (interpretado aqui por Alan Rickman) e Vivien Theodore Thomas (Mos Def), responsáveis por importantíssimos avanços na área de cirurgia cardíaca, precursores na técnica que leva à cura de bebês de aparência cianótica, os chamados “bebês azuis”. Blalock era um pesquisador ousado, realizando suas experiências com cachorros, embora também, como geralmente sucede com cientistas, um tanto arrogante e por vezes prepotente. Para cuidar do canil das cobaias, ele contrata o recém desempregado Vivien Thomas, um carpinteiro vítima da crise econômica mundial dos anos 30 que, além de ficar sem trabalho, perdera todas as economias que havia feito para cursar a faculdade de medicina, uma vez que o banco depositário faliu (qualquer semelhança com fatos recentes ou atuais do capitalismo globalizado mão é mera coincidência). Destarte, Blalock vai percebendo que Vivien tem uma enorme facilidade em aprender os conceitos médicos e, além disso, usa o instrumental cirúrgico com grande desenvoltura. A parceria entre os dois gera grandes frutos, mas há um detalhe muito relevante a ser apontado, além da ausência de formação acadêmica de Vivien: ele é negro, isso em uma época em que os afro-americanos sequer podiam sentar perto de um branco dentro de um ônibus. Ou seja, além das limitações impostas pela ausência de formação, ele ainda sofre extremo preconceito, principalmente quando ele e Blalock passam a trabalhar no conceituado hospital universitário Johns Hopkins, onde acaba vítima de ridículas discriminações, como receber o mesmo salário de uma faxineiro devido à cor da sua pele.


Em verdade, mesmo que seja um longa multifacetado em que vários temas são apresentados, acredito que o foco central de “Quase Deuses” é mesmo a questão racial. Afinal, muito mais do que sua condição social, é a circunstância racial que acaba se colocando como maior obstáculo ao pleno desenvolvimento das faculdades de Thomas. Entretanto, o filme também se mostra ótimo ao delinear a amizade entre os dois, frequentemente colocada à prova diante dos obstáculos e, em igual medida, em razão dos ataques de vaidade e arrogância de Blalock, que em alguns momentos custa a admitir o quanto Thomas lhe é importante não apenas do ponto de vista profissional, como também emocional. Para tanto, a atuação dos atores é essencial e, se Alan Rickman se mostra competente na caracterização de Alfred (muito embora escorregue em alguns momentos com suas tradicionais caretas), Mos Def entrega uma grande atuação como Vivien, emprestando a força e carisma necessários ao personagem. Em outro sentido, o longa deve entusiasmar estudantes da áreas médicas ao detalhar os procedimentos cirúrgicos e as ideias que levaram ao sucesso das experiências, mostrando-se também como um libelo em defesa do progresso da ciência, mesmo que em diversas situações esta possa se apresentar fria e indiferente, mormente no que diz respeito à utilização de cobaias nos estudos (os apaixonados por cachorros poderão sentir especiais calafrios em algumas sequências).


Interessante como Sargent exibe uma direção segura, sem acelerar ou alongar a narrativa, que se estende através de enxutos 109 minutos sempre despertando o interesse do espectador, muito embora algumas cenas específicas, onde há um uso acentuado de termos técnicos, possam se tornar entediantes para o público leigo. A reconstituição de época também é muito bem feita, principalmente se pensarmos nos detalhes que uma produção assim exige, uma vez que apresentar instrumentos médicos antigos requer um enorme trabalho de pesquisa. Contudo, há algumas derrapadas típicas de um produto que procura, antes de tudo, agradar, como a utilização equivocada de uma trilha sonora que parece sempre querer dizer ao espectador quais os momentos emocionantes, como se este não tivesse inteligência suficiente para tanto. Ademais, sua conclusão é repleta de momentos catárticos, realizados de forma a enaltecer a mensagem de superação e dignidade que é o cerne do filme.

De qualquer forma, é importantíssimo destacar: funciona. À parte as limitações geradas por suas pretensões comerciais, “Quase Deuses” tem passagens realmente comoventes e a história da dupla de médicos, principalmente do prático Vivien Thomas, é indubitavelmente inspiradora. Há uma passagem, inclusive, em que o pai de Thomas, relembrando que seu avô era escravo e que o rapaz agora tinha a oportunidade de estudar em uma universidade, profere uma frase sábia ao afirmar que “as coisas mudam, devagar, mas mudam”. Hoje, ao vermos que um negro é presidente do Estados Unidos, percebe-se o quanto há de verdade em dita afirmação. Pois é, as coisas mudam, e quem sabe um dia a televisão deixa de lado os aspectos mercadológicos para se concentrar apenas no valor artístico que suas obras possam ter? Aqui, ela quase chegou lá.


Cotação:

Nota: 8,5

* Te amo, minha Linda :=)
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4 comentários:

Celo Silva disse...

Falam muito bem desse filme, mas ainda não assisti. Tenho q admitir q seu texto me deixou mais curioso ainda.

SCB disse...

Belo ensaio sobre o filme! Parabéns e obrigado.
Wagner Woelke

Sandra disse...

Olá, meu amor!!!

Finalmente, assistiu ao filme, hein? Na época em que assisti, ele me tocou por tratar de um assunto infelizmente tão atual como o preconceito. Seja ele racial, financeiro ou de qualquer gênero, é interessante a abordagem do tema... É um filme para refletir...
No mais, meu noivo Lindinho, estou sempre acompanhando o blog e só hoje estou a comentar, pois bem sabe o quanto essa semana foi corrida para mim. Um beijo no coração... Te amo muito :=)

Fábio Henrique Carmo disse...

Oi, minha Linda!

Sim, finalmente vi o filme, um longa que trata de temas bem relevantes e que tem mesmo qualidade, apesar de feito para a TV.

Os nossos dias têm sido corridos mesmo, meu Bem! Vem sendo uma arte encontrar tempo para atualizar o blog. Seus comentários aqui são mais que especiais e bem-vindos, vc sabe disso! Te amo muito também! Um beijo na na sua alma!