terça-feira, 1 de outubro de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Era Uma Vez Em Tóquio
(Tôkyô Monogatari, 1953)


Profundamente japonês, humano e universal


Em recente eleição realizada pela revista britânica “Sight & Sound”, “Era Uma Vez em Tóquio” foi considerado, entre os cineastas votantes, como o melhor filme de todos os tempos, desbancando o tradicionalmente escolhido “Cidadão Kane”, de Orson Welles. Muitos podem discordar, mas o resultado mostra o quanto o cinema asiático ainda precisa ser visto e descoberto no Ocidente. Fora do círculo cinéfilo, este filme é praticamente desconhecido, por exemplo, pelo público brasileiro e o nome de seu diretor, Yasujiro Ozu, pode ser entendido como o de um E.T. Quando muito, algumas pessoas conhecem o nome do mais popular diretor japonês, Akira Kurosawa, famoso pelo estupendo “Os Sete Samurais” (Shichinin no Samurai, 1954). Entretanto, apesar de ser comumente visto como um diretor de cinema “de arte” (eu detesto essa expressão), os filmes de Ozu são muito acessíveis, centrados em narrativas sobre o cotidiano de famílias da classe média baixa do Japão, principalmente do período pós-guerra. Ozu é o maior representante de um gênero nipônico denominado shomin-geki, cuja principal característica era justamente a abordagem do dia a dia dessas famílias, causando uma quase imediata identificação com o espectador.

Nascido em 1903, Yasujiro Ozu começou sua carreira ainda no cinema mudo, mas foi na produção sonora que realizou suas grandes obras-primas, entre elas “Era Um Vez Em Tóquio”, longa de extrema percepção das relações humanas e que não precisa de uma trama intricada ou grandiosa para nos levar às mais perspicazes reflexões. Toda a película trata sobre a viagem de um casal da cidade japonesa de Onimichi a Tóquio. É a primeira vez que eles vão até à capital do País, com o intuito de visitar os filhos que lá trabalham. Entretanto, decepcionam-se com a acolhida dos mesmos, os quais não têm tempo para lhes dar atenção e consideram a visita dos genitores como um fardo. Apenas a nora Noriko (Setsuko Hara), esposa do filho já falecido na guerra, trata os idosos com o devido respeito e cuidado. A partir desse enredo simples, Ozu desenvolve uma belíssima análise das relações familiares e, importante frisar, válida para qualquer tempo ou cultura. Aliás, ao assistir a “Era Uma Vez em Tóquio” tive a sensação de estar a ver um filme concluído ontem, dada a sua temática extremamente atual, plena de contemporaneidade. Vivemos uma era em que os indivíduos possuem cada vez menos disposição para as relações interpessoais, embriagados de egoísmo e consumismo, buscando objetivos materiais em detrimento do convívio e disso Ozu já tratava em 1953, quando o Japão vivia um acelerado ritmo de industrialização.


Esse choque entre a modernidade e a tradição, entre o industrial e o humano, é contraposto por Ozu não apenas por meio da interação entre os personagens, mas também a partir dos elementos imagéticos do longa. As ações são frequentemente interrompidas por cenas de trens em movimento, bem como navios e outros símbolos de industrialização. O cineasta parece sempre comentar, através das imagens, que uma nova era, como novos valores, está substituindo a anterior. Contraposição essa que também se percebe na relação entre os idosos (os antigos valores) e os jovens filhos (os novos paradigmas). Na visão de muitos, Ozu revela a cada fotograma o seu conservadorismo, não apenas no aspecto estético, mas também ideológico, o que não deixa de ser verdade. Há uma certa rejeição ao novo em seu cinema, no qual reside latente uma perene crítica à ocidentalização do Japão no período pós-guerra. Aliás, a famosa qualificação de Ozu como “o mais japonês dos cineastas japoneses” não deixa de realçar esse lado de extremo apego às suas raízes. Entretanto, seria errado imaginar Ozu como uma espécie de anti-Kurosawa, pois o mestre Akira se valia da influência do Ocidente em sua estética, é bem verdade, mas suas temáticas são tão profundamente japonesas quanto as de Ozu.


Nas imagens de Ozu, até mesmo sua estética é peculiar. A câmera é estática, com os personagens entrando e saindo de cena em quadros fixos, além de posicionada próxima ao chão (a famosa “câmera baixa”), na mesma altura em que os japoneses costumam fazer suas refeições, técnica que iria influenciar até mesmo Steven Spielberg em “E.T. - O Extraterrestre” (E.T – The Extra-Terrestrial, 1982), o qual a utilizou como uma forma de vermos os acontecimentos a partir do ponto de vista das crianças. Ozu também usava como poucos a técnica de campo e contracampo, principalmente em passagens de diálogos, quando vemos os personagens de frente para a câmera, como se estivéssemos conversando com eles. Por outro lado, sabia usar a trilha sonora para acentuar a melancolia do drama, mas sem torná-la invasiva ou excessiva. Ademais, era um ótimo diretor de atores, extraindo deles o seu melhor, vide o ótimo desempenho de Chishu Ryu, como o pai Shukishi Hirayam, que conseguiu interpretar com inteira veracidade um tipo 20 anos mais velho do que a sua verdadeira idade à época. Outro destaque é, Chieko Higashiyama, como a mãe idosa e doente, além de Setsuko Hara, como a dedicada nora Noriko e Haruko Sugimura, como a antipática e vazia filha Shige.

Contudo, para além de questões estilísticas, a maior relevância do cinema de Ozu é seu caráter profundamente humano, que inclusive nos faz repensar nossas próprias relações familiares. Como diz o cineasta Aki Kaurismaki, no documentário “Conversando com Ozu” (que acompanha a edição brasileira de “Era Uma Vez em Tóquio”, recém-lançada pela Versátil), comparando o cinema o cinema de Ozu ao predominante nos Estados Unidos: “Em seus filmes, Ozu fala de tudo que é essencial ao ser humano sem exibir nenhuma cena de violência”. Mesmo que trate eminentemente da cultura japonesa, este gênio consegue ser universal, o que me remete a uma outra frase, esta do mestre literário Liev Tolstói: “Se queres ser universal, começas por descrever a tua aldeia”. E é essa a síntese do cinema de Ozu. A partir da abordagem de um Japão em processo de rápidas transformações sociais e culturais, ele toca em temas e acontecimentos que dizem respeito a todos os seres humanos, sem exceções.


Cotação e nota: Obra-prima.
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3 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Tocante.

http://ofalcaomaltes.com/

BRENNO BEZERRA disse...

Acho que o cinema oriental deveria ser mais propagado do que é.

Rato disse...

Embora prefira Mizoguchi a Ozu, há que realçar a importância deste filme na cinematografia japonesa. Mas não mais do que isso.