quinta-feira, 4 de julho de 2013

Universidade Monstros

Recuperando a boa forma


Pode parecer estranho, mas eu nunca assisti a “Monstros S.A.” (Monsters, Inc.), animação da Pixar datada de 2001. Apenas vi alguns trechos em exibições na TV. Portanto, minha experiência ao assistir ao prequel “Universidade Monstros”, atualmente em cartaz nos cinemas, foi praticamente “verde” com relação ao universo dos personagens apresentados. Eu só sabia que se tratavam de monstros encarregados de assombrar as crianças à noite, uma maneira engenhosa de brincar com aqueles medos dos pequenos. Além disso, tinha conhecimento de que os simpáticos monstrinhos da animação trabalham em uma espécie de indústria especializada em provocar sustos na garotada e assim gerar energia para a cidade de Monstrópolis. A nova prequela trata de mostrar como esses monstros chegaram à função que exercem no primeiro episódio da franquia, narrando a sua vida de estudantes universitários na “Universidade Monstros” do título. A verdade é que, ao fim da sessão, fiquei me perguntando porque nunca havia dado chance ao primeiro filme. Um tremendo erro cinéfilo, agora admito.

Interessante como a Pixar sabe trabalhar com sequências de seus filmes. Tudo bem, “Carros 2” foi um desastre, mas cabe afirmar que o primeiro já não era lá essas coisas (o ponto mais baixo de sua fase, digamos, “áurea”). O que poderia ser tomado como falta de criatividade, acaba se transformando em algo de qualidade indubitável. Conseguiu gerar uma obra-prima com “Toy Story 3” (2010) e se sai muito bem nessa empreitada com os camaradas de Monstrópolis, resultando em um longa superior ao anterior “Valente” (Brave, 2012) o qual, mesmo tendo levado o Oscar de melhor animação (bastante duvidoso) e com material inédito, não convenceu muito a crítica. E, como sempre, realizando uma obra que alcança tanto o interesse das crianças quanto dos adultos. Aliás, no caso de “Universidade Monstros”, arrisco dizer que é uma animação mais adulta do que infantil, uma vez que não será muito fácil para os pequenos entenderem e se familiarizem com a cultura universitária ianque, repleta de sectarismos e divisões calcadas em “irmandades” que só aceitam fulanos ou sicranos (parece que ainda estão no primário e não na faculdade), algo muito explorado no enredo do longa.


O filme usa o ambiente dos universitários estadunidenses para tecer uma saudável crítica à cultura de “vencedores” e “perdedores” típica das terras do Tio Sam. Ser um estudante do Programa de Sustos da Universidade Monstros é o objetivo de Mike Wazowski (voz em inglês de Billy Crystal) no desde pequeno, quando resolveu que o destino de sua vida seria o de fazer parte da equipe de assustadores que atormenta os sonhos infantis. Como não possui um talento nato para o susto, compensa suas limitações com muito esforço e estudo e é por suas altas notas que é aceito no curso. Já James Sullivan (voz de John Goodman) entra para a Universidade Monstros por ser de uma famosa e tradicional família de assustadores, muito embora não seja muito dado a esforços. Ou seja, está no programa de sustos “jogando com o nome”, para usarmos uma gíria tipicamente futebolística. Inicialmente, eles nutrem antipatia mútua, mas depois de uma série de eventos, acabam disputando lado a lado uma competição entre as irmandades do campus. Eles fazem parte da Oosma Kappa, a irmandade dos “losers” e esquisitões.

Destarte, o roteiro, escrito por Robert L. Baird, Daniel Gerson e Dan Scanlon (esse último também é o diretor), não se resume a criticar a cultura competitiva dos Estados Unidos. Multifacetado, também aborda a aceitação e complementação entre os diferentes, o valor da amizade e a perseverança na busca da realização dos nossos sonhos. Tudo isso, claro, com muito humor e diversão à prova de gostos. As melhores produções da Pixar conseguem essa proeza que é a de agradar a vários tipos de humor, algo difícil de ser alcançado (e que é o sonho de todo comediante). O longa também possui ótimo ritmo, não se tornando desinteressante em nenhum momento, um mérito da direção de Scanlon.


Contudo, o aspecto possivelmente mais interessante de “Universidade Monstros” é a sua fuga dos clichês. Em certas passagens, quando estamos praticamente convencidos de que o longa se rendeu às previsibilidades, ele nos reserva novos caminhos inesperados que trazem à luz até mesmo conflitos morais e éticos. Algo realmente alentador em animações, as quais, devido ao seu caráter lúdico, acabam, por vezes, a turvar o senso crítico, fazendo-nos tolerar certos clichês ou maniqueísmos por se tratar de um produto que inevitavelmente desperta nosso lado infantil. Essa tolerância à vezes nos faz superestimar algumas produções, a exemplo do aclamado “Procurando Nemo” (Finding Nemo, 2003), que é muito divertido, mas não se pode negar que é permeado de clichês.

“Universidade Monstros” não é tão emocionante como o citado “Toy Story 3”, não alcançando o patamar de uma obra-prima. No entanto, trata-se realmente de um retorno da Pixar à sua boa forma ao aliar inteligência e diversão em igual medida, recuperando aquele espírito de “filmar como uma criança” tão presente em suas produções mais icônicas. E, principalmente, lembra-nos que, por mais sinuosas que sejam as estradas na busca de nossos sonhos, sempre é possível atingi-los. O mais importante é nunca desistir deles.


Cotação:



Nota: 9,5

Obs. O curta "O Guarda-chuva Azul" vale à pena ser conferido. Portanto, não chegue atrasado(a) à sessão.
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2 comentários:

Alan Raspante disse...

Gostei do filme, mas nem tanto como você. Achei inferior ao primeiro, mas, claro... É um bom filme!

p.s.: Adorei o curta inicial!

Celo Silva disse...

Ainda não assisti esse, mas me parece ser mesmo bom. Acho o primeiro bem legal. Assim que tiver uma oportunidade, assisto esse.

Abração!