sábado, 2 de março de 2013

Indomável Sonhadora

Uma flor no pântano


Uma das boas iniciativas da Academia de Hollywood tem sido a de pinçar filmes independentes para lhes conferir indicações importantes na festa anual do Oscar, dando assim uma maior visibilidade a produções, cineastas e atores que poderiam ficar restritos circuitos cinéfilos caso não tivessem seus nomes indicados àquele que é considerado o prêmio máximo do cinema. Nos últimos anos, para citar exemplos, tivemos “Pequena Miss Sunshine” (Little Miss Sunshine, 2006), “Juno” (idem, 2007), “Inverno da Alma” (Winter's Bone, 2010) e até mesmo “Guerra Ao Terror” (The Hurt Locker, 2008), longa de orçamento limitado e fracasso de bilheteria que levou os prêmios de melhor filme e direção para Kathryn Bigelow, debancando a favorita superprodução “Avatar” (idem, 2009), de James Cameron. E eis que surge este “Indomável Sonhadora” como mais um exemplar de cinema alternativo conduzido aos holofotes devido às suas indicações ao Oscar 2013.

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance, o longa dirigido pelo estreante Benh Zeitlin (indicado ao Oscar de melhor diretor) põe em foco um recente desastre natural que abalou os Estados Unidos: a passagem do furacão Katrina pelo estado da Louisiana, evento que expôs não apenas uma série de problemas ambientais da região, como também chagas sociais que colocaram em evidência as divisões de classe e etnia norte-americanas. Na trama, o Katrina termina por atingir um comunidade que vive na “Banheira”, uma ilha fictícia e pantanosa onde a água, já ordinariamente, costuma subir às canelas e casas dos moradores. É lá que vive a pequena Hushpuppy (a incrível garotinha Quvenzhané Wallis, atriz mais jovem a ser indicada ao prêmio da Academia de Hollywood em todos os tempos), órfã de mãe e cujo pai, Wink (Dwight Henry), é um teimoso alcoólatra que está definhando com cirrose hepática e não desiste de viver na situação precária da ilha. Diante do grave estado de saúde do pai e dos caos instalado pelo furacão, Hushpuppy passará por uma jornada de formação e autoconhecimento, vencendo os obstáculos com auxílio de sua fértil imaginação infantil.



Talvez o conceito mais interessante de “Beasts Of The Southern Wild” seja justamente o de misturar o retrato de uma realidade dura, que é aquela vivida pelos habitantes da “Banheira”, com a abstração da imaginação infantil, que transforma animais de pinturas rupestres em símbolos de adversidades, remetendo-nos à infância sem se tornar uma obra infantilizada, muito pelo contrário. Para um diretor estreante, Zeitlin soube muito bem fugir de armadilhas melodramáticas (sempre fáceis quando se trata de temas relacionados à infância) e teve uma ótima sacada ao colocar Hushpuppy como narradora, contribuindo para pintar o quadro da realidade pelo prisma lúdico da garota. Realidade essa que, é importante frisar, o diretor conhece de perto, pois que ele costumava viajar para a Louisiana com a família na adolescência. Ante mesmo de filmar “Indomável Sonhadora” ele tocou no mesmo tema do desamparo da vítimas do Katrina em seu curta-metragem “Glory At Sea” (2008). Ou seja, este é um tema que lhe é caro e que por isso foi por ele desenvolvido com tanta propriedade. O roteiro, escrito pelo próprio diretor ao lado de Lucy Alibar, ainda toca na questão ambiental de maneira inteligente e sem resvalar na ecochatice, fazendo um “marketing ecológico” possivelmente mais eficaz do que várias das ações de entidades como o Greenpeace.

Outro ponto interessante se constitui na ética e costumes próprios da comunidade em questão, os quais possuem códigos muitos particulares, algo que geralmente sucede em grupos marginalizados. Fortes e solidários, as adversidades do meio não permitem espaço para afloramento das emoções, algo que se revela até mesmo nos funerais, onde o choro parece ser proibido e o ritual de despedida dos mortos se assemelha mais a uma comemoração do que a um velório. Neste sentido, também se observa uma espécie de menosprezo à feminilidade, vista pelos moradores e ensinada na escola local como fraqueza, fazendo-nos lembrar o quanto a hostilidade do ambiente recrudesce o machismo. Não por acaso, em uma situação de dificuldade em que o pai já se mostra sem forças, Hushpuppy declara que agora ela é “o homem da casa”. Em situações limite, há pouco espaço para o feminino e o dia a dia do moradores da Banheira parece ser sempre o de uma situação limite.

Entretanto, o filme não seria o mesmo sem a presença de Quvenzhané Wallis, uma menina escolhida dentre várias concorrentes locais (aliás, o elenco é formado inteiramente por habitantes locais) que mentiu a idade para poder ganhar o papel (ela disse ter 6 anos, idade mínima para a concorrência, quando na realidade tinha 5), mas que demonstra uma assombrosa naturalidade em cena. Ela praticamente domina a tela sozinha ao longo dos 93 minutos de projeção, justificando inteiramente sua precoce indicação ao prêmio da Academia. Espero que não tenha o mesmo destino de tantos atros infantis que, quando crescem, acabam sendo relegados ao ostracismo pelo show businnes.

Não se pode dizer que “Indomável Sonhadora” seja uma película arrebatadora. Mesmo diante de sua curta duração (93 minutos, como já mencionado), o filme possui alguns problemas de ritmo, alternando ótimas sequências com outras mais cansativas. Chega-se a ter a sensação de que ele é maior do que realmente é. Por outro lado, mostra-se um ótimo début tanto para seu diretor Behn Zeitlin como para sua pequena estrela. Uma lufada de energia em um cinema cada vez mais entorpecido pelas regras da indústria e que se faz importante não somente por tratar de temas políticos em pauta (exclusão social, ecologia), como também para mostrar que não é necessário se fazer uma obra “realista” para se tratar da realidade. O que se passa na imaginação de Hushpuppy é tão ou mais relevante do que aquilo que se passa no seu exterior. Muito de nós pode ser resultado de nosso meio, mas não é o meio que ditará a nossa essência. Hushpuppy vive em um pântano, mas nem por isso deixa de ser uma flor.


Cotação: 



 Nota: 8,5
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3 comentários:

Celo Silva disse...

Faço do seu último parágrafo minhas palavras. Indomável Sonhadora é bom, mas parece ser mais do que realmente é. Abraço!

railer disse...

ainda não vi... ainda...

Morgan Nascimento disse...

Olá, parabéns pelo blog!
Ainda não assisti esse filme, mas pretendo.
Se você puder visite este blog:
http://morgannascimento.blogspot.com.br/
Obrigado pela atenção