terça-feira, 25 de setembro de 2012

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Jogos Vorazes 
(The Hunger Games, 2012)



Ação cabeça


Exercício interessante poder avaliar um sucesso de bilheteria algum tempo depois do seu lançamento. É possível que, ao escrever sobre um filme logo quando da sua estreia nas salas de exibição, acabemos por nos deixar influenciar pelo “oba-oba”, seja por parte dos críticos ou mesmo do público. Claro que vendo o filme em video, podemos perder o impacto que uma obra pode causar na tela grande, ambiente mais adequado para uma apreciação cinematográfica, mas vê-lo longe de influências de opiniões na internet ou de amigos pode ser tão produtivo quanto. É o que aconteceu comigo ao assistir, após 6 meses de seu lançamento, este “Jogos Vorazes”, sucesso com Jennifer Lawrence, uma das novas queridinhas de Hollywood (merecidamente, é bom frisar).

Trata-se de mais uma franquia inaugurada no cinema, baseando-se na trilogia juvenil da escritora Suzanne Collins (que continua com os volumes “Em Chamas” e “A Esperança”) e que busca, obviamente, arrebatar mais um horda de fãs que sustentem suas prováveis continuações com muito lucro. Mas é importante destacar logo que “The Hunger Games” está longe de ser uma obra anencéfala, muito embora suas premissas não sejam exatamente originais. Alguns anos atrás, o conceito de jovens gladiadores que lutam entre si até a morte em um futuro próximo já havia sido sucesso no Japão com “Batalha Real”, livro de Koshun Takami posteriormente adaptado para mangá e cinema. Há ainda um certa pitada de “O Sobrevivente” (The Running Man ,1987), filme com Arnoldão então no auge de sua popularidade oitentista. É possível ainda apontar semelhanças com “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, escrito por Aldous Huxley. Entretanto, embora traga uma nítida influência destas obras predecessoras, é possível afirmar que “Jogos Vorazes” possui uma identidade própria que o distingue de livros e produções com temáticas semelhantes.

Nesta distopia dirigida por Gary Ross (um outro filme dele é “Seabiscuit – Alma de Herói”), temos uma América do Norte dividida em treze“regiões”, sendo elas a Capital e 12 distritos. Devido a uma revolução mal sucedida no passado, os doze distritos são obrigados anualmente a enviar dois jovens entre 12 e 18 anos (um homem e uma mulher) à Capital para a disputa de um reallity show macabro onde eles deverão se digladiar até restar apenas um vencedor. Katniss Everdeen (Lawrence), protagonista da trama, é a representante feminina do distrito 12. Ela se coloca como voluntária para livrar suas irmã menor do fardo, já que esta havia sido sorteada para a participação. Com ela irá também Peeta Mellark (Josh Hutcherson), um rapaz que parece nutrir por ela uma especial afeição, muito embora sua postura se apresente constantemente ambígua.

Talvez o ponto que mais salte aos olhos quando do início da narrativa é a semelhança que a personagem de Lawrence tem com seu outro papel em “Inverno da Alma” (Winter's Bone, 2010). Em ambos o casos, ela interpreta uma jovem forte que age de maneira corajosa a fim de proteger sua família. Uma heroína na defesa da mais forte e longeva das instituições sociais, portanto. Porém, se a abordagem de “Inverno da Alma” é mais intimista, aqui a história de Katniss serve como mote para reflexões acerca de controle social e espetáculo midiático, mormente a forma como este último serve à manutença do primeiro, agindo como um dos elementos importantes da ideologia que nos faz enxergar a realidade por meio de um “filtro” que nos deixe domesticados. É justamente esse status quo que será posto em xeque a partir das atitudes de Katniss, as quais acabam por levar os responsáveis pelos jogos a mudar suas regras. É inegável que o longa induz o espectador a vários questionamentos, principalmente ao aproveitar situações recorrentes nos reality shows do dia a dia, como as conhecidas associações momentâneas entre os concorrentes visando eliminar outros tantos oponentes.


Além de sua vertente questionadora, a película também impressiona por trazer a brutal violência entre adolescentes. Mesmo que não seja uma ideia exatamente original, como dito mais acima, ela não deixa de ser incômoda e o diretor Gary Ross se sai muito bem ao mostrar as agressões de maneira menos gráfica, mas sem que ela perca seu impacto. Para tanto, utilizou-se de uma edição elíptica que em outros filmes poderia ser vista como defeito, mas aqui se transforma em virtude. Ross também empreende à narrativa um ótimo ritmo, jamais tornando-se cansativa e que conta ainda com um elenco de peso. A escolha de Jennifer Lawrence para o papel foi perfeita. Ela é uma das jovens atrizes mais promissoras do cinema norte-americano atual, aliando à sua beleza um talento indiscutível. Impressionante como ela consegue nos fazer torcer por seu destino desde o início do filme. Josh Hutcherson também entrega boa atuação como o dúbio Peeta, emprestando veracidade a um personagem que nunca sabemos quais são suas verdadeiras intenções. Juntando-se a eles, ainda temos nomes como Woody Harrelson, Donald Shuterland e Stanley Tucci, todos com boa presença. O ponto fraco fica para presença de Lenny Kravitz como o figurinista Cinna, um do mentores de Katniss, personagem que merecia um intérprete melhor. Outros pontos negativos infelizmente ainda podem ser apontados. O desenrolar do roteiro (escrito pelo diretor Ross e Billy Ray juntamente com a própria autora dos livros ) por vezes se mostra previsível demais, sendo possível antecipar várias das suas ações. São muitas pistas que são deixadas e o espectador termina por antever muito do que está por vir. A película também possui uma trilha sonora esquecível, que nada contribui para o clima de tensão (mais marcante nos seus silêncios), além de uma caracterização um tanto infeliz para os moradores da Capital, normalmente com um visual bastante afetado., em alguns casos beirando o ridículo.

Por outro lado, é inegável que “Jogos Vorazes” é um filme que instiga e estimula o espectador à reflexão, tanto que mal sentimos seus 137 minutos passarem. Lembrando que o seu público é principalmente o jovem, uma franquia como esta se mostra muito bem-vinda, uma vez que possui um inegável viés político e contestador. Uma aventura cabeça que por vezes nos leva à impressão de ser na verdade uma crítica com verniz de filme de ação do que um longa de ação com nuances contestadoras. A diferença entre os dois casos não é pequena, como pode parecer, e ver que uma produção com tais conotações alcançou um grande êxito nas bilheterias é revigorante. Que venham logo os próximos episódios.


Cotação:
 Nota: 8,5
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6 comentários:

Celo Silva disse...

Tb gostei do filme, consegue transcender o simples entretenimento e causar alguma reflexão. Espero que a continuação mantenha a mesma pegada. Abraço.

Cristiano Contreiras disse...

Sinceramente, a premissa é muito boa, mas o filme (leia-se, adaptado do livro que não precisamos ler, afinal o filme é lançado para um público que não precisa ser necessariamente um fã) é extremamente fraco. Não me convenceu em momento algum, de voraz nada tem. Acredito que outras abordagem promovem uma reflexão mais significativa sobre o poder do reality-show, da questão de como a humanidade pode ser "condicionada" aos olhos da mídia que manipula e dita tudo, etc etc. Mas, o filme é fraco, muito mesmo. Ainda que bem executado na direção e com atuação forte de Lawrence (atriz de grande talento, verdade seja dita), o filme é até imaturo, teme, tem receios...parece ter medo de ser mais explícito por conta de uma censura, daí chega ao nível de um filme bem blockbuster e superficial. Ao meu ver, deveriam ter ousado no sangue (a violência aqui é necessária), poderia ter tido um maior aproveitamento nas situações dos personagens de Lawrence e Hutcherson - nossa, não aguentava mais as cenas repetitivas na "floresta". Não tem jeito, acho que o livro, de fato, seja mais detalhado e que a trama transpareça uma maior reflexão nesse "viés político e contestador" dito por você, Fábio. Não costumo ser exigente assim, mas não entendi a fama do filme "Jogos Vorazes", achei bem fraco mesmo...esperava bem mais, mais articulações, mais desenvolvimento...até a duração do filme me deixou entediado. Enfim, não gostei e não comprei a ideia...quero só ver como vão aproveitar isso nos próximos. abs!

renatocinema disse...

Rapaz....tenho um preconceito absurdo com esse filme. Não consigo tirar ele do peito.

Adorei o seu título Para Ver Em Um Dia de Chuva, parece que verei o filme com chuva na rua. kkk

railer disse...

eu li a trilogia e gostei muito do primeiro filme. o livro é todo em primeira pessoa e foi legal o modo como fizeram pra mostrar algumas coisas que só estavam na cabeça da katniss.
também achei alguns recursos legais, como a cena inicial de luta na arena, em que o diretor tirou todo o som, pra diminuir o impacto.
que venha 'em chamas' e 'a esperança'!

Gabriel França disse...

confesso que tb tinha um preconceito com este filme por causa da semelhança com Crepusculo, o lance do triangulo amoroso destinado a jovens... mas o filme me surpreendeu, achei muito bom!

E sim, Fábio, eu estou de volta! kkk
http://monteolimpoblog.blogspot.com.br/

Jefferson C. Vendrame disse...

Estava no Shopping com alguns amigos e eles decidiram ver esse filme, eu como nunca tinha ouvido falar fui ver junto porém com o pé atrás, kkk
Não é que gostei? e olha que é muito difícil eu sair do cinema satisfeito, a última vez tinha sido em 2010 com AVATAR.
Agora é aguardar o próximo, EM CHAMAS? é isso né?

Abração