quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Cinemúsica


Amor, Sublime Amor
(West Side Story, 1961)


O avô de “Beat It”



Não sei se alguém já havia tocado neste ponto antes, mas vendo por esses dias o clipe de “Beat It”, um dos grandes sucessos do álbum “Thriller” do lendário Michael Jackson, acabei observando que ele traz uma síntese de boa parte da trama de “Amor, Sublime Amor” (West Side Story), clássico musical dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins em 1961 e um dos precursores em abordar a temática das gangues de jovens que hoje estão meio que fora de moda – no Brasil parecem ter sido substituídas pelas torcidas organizadas de clubes e nos EUA pelos lunáticos que atiram a esmo em escolas e cinemas (seria mais um sintoma do individualismo exacerbado?). Tanto no videoclipe como no longa-metragem vemos jovens desocupados que empregam seu tempo em promover rixas e atos de vandalismo ao som de músicas pop e dançando com ótimas coreografias. Não estou querendo dizer que Jackson copiou um dos baluartes do fim da era de ouro dos musicais, mas me pareceu evidente a sua influência, principalmente na sequência que vemos em ambos de líderes duelando com canivetes, o que talvez seja sintoma de que os videoclipes não existiriam sem os musicais.

Aliás, a própria narrativa de “Amor, Sublime Amor” é um bom exemplo de que no mundo pop a reciclagem de ideias é um recurso já bem antigo, não sendo exclusivo da Hollywood contemporânea, pois que o longa nada mais é do que uma atualização de “Romeu e Julieta”, peça de William Shakespeare conhecida por todos, para o ambiente da Nova York do fim dos anos 50/início dos 60. Saem as famílias dos Capuletos e Montecchios da narração shakespeariana e entram as gangues dos Jets e dos Sharks, os primeiros integrados por norte-americanos nativos, anglo-saxões, e os segundos formados por imigrantes porto-riquenhos. É no meio desse conflito de conotações xenófobas que surgirá o amor entre Tony (Richard Beymer) e Maria (Natalie Wood), ele primo de Riff (Russ Tamblym), líder dos Jets, e ela irmã de Bernardo (George Chakiris), líder dos Sharks. Cabe destacar, ainda, que o filme já é uma adaptação de um espetáculo musical da Broadway, de autoria de Arthur Laurents e encenado pelo próprio Jerome Robbins, o qual assinou aqui a codireção com Wise. Ou seja: a versão cinematográfica de “West Side Story” se constitui na adaptação da adaptação. E ainda dizem por aí (eu me incluo nesse coro) que o cinema dos anos 2000 está “carecendo de criatividade”.


Afirmar que o citado longa é “a adaptação da adaptação” não significa afirmar, entretanto, que ele é um filme ruim. Pelo contrário. “West Side Story” é uma obra poderosamente imagética, aliando a esta característica a música e a dança com muita competência. Desde a longa sequência de abertura, sem diálogos, percebemos que estamos diante de uma película diferenciada, com um padrão artístico elevado. Realmente, são várias as suas virtudes, como a criatividade das coreografias – dirigidas por Robbins, pois que para Wise ficavam as cenas com diálogos tradicionais – além de canções inspiradas como “Maria”, “Tonight” e “America” (algumas delas transcenderam o filme e passaram para a categoria de standards norte-americanos). E, mais relevante ainda, o roteiro (de Ernest Lehman) consegue tocar em muitos pontos relevantes e que nunca perdem a sua atualidade, como a citada xenofobia, a ilusão da imigração como panaceia para aqueles que buscam oportunidades, além da ausência da família na formação dos jovens, que acabam por traçar caminhos sem rumo e procuram preencher seu vazio com a violência. Um quadro que, em linhas gerais, não se apresenta muito destoante de hoje. Adicione-se a tais elementos uma produção impecável que fugiu do cenários de estúdio e realizou as filmagens em uma área abandonada de Nova York que estava prestes a sumir do mapa para posterior recuperação (a demolição da zona foi adiada a pedido da produção do filme).

Pena que nem tudo são flores, principalmente no que diz respeito à atuação do elenco, que se apresenta irregular, mormente o protagonista Tony. Richard Beymer é um ator fraco, quase inexpressivo (em entrevistas posteriores, o próprio Wise admitiria o erro na escolha), o que nos faz lamentar o fato de Elvis Presley não ter aceitado o papel, o que já de antemão ao menos conferiria maior presença ao personagem, além do que cantaria com sua própria voz, diferentemente de Beymer, o qual foi dublado na pós-produção. Além disso, colocar os porto-riquenhos falando inglês com sotaque até em conversas entre eles (não seria mais fácil falar em espanhol?) soa muito caricatural. Este recurso da dublagem, ademais, algo que era comum na Hollywood de então, soa meio que tosco para o público atual, acostumado a ver atores até dispensando dublês para cenas de risco, que dirá ter aulas de canto. Natalie Wood também foi vítima do procedimento e suas cenas cantadas resultaram com um forte gosto de artificialidade (ela foi dublada por Marni Nixon nas canções). Todavia, se Beymer foi um fracasso interpretativo, Natalie mais uma vez nos entregou uma performance apaixonada, como era do seu feitio. No mesmo nível desta estão as presenças de George Chakiris, no papel de Bernardo, e Rita Moreno como Anita, namorada de Bernardo e amiga de Maria. Não por acaso ambos foram agraciados com as premiações para atores coadjuvantes no Oscar, que me pareceram bastante merecidas.


Cheio de nuances trágicas - afinal, não custa lembrar que se trata de uma adaptação de Shakespeare - “Amor, Sublime Amor” surge como precursor mais distante de uma linguagem que une o visual ao musical voltada para o público jovem (um precursor mais imediato seria “ A Hard Day's Night”, com os Beatles), linguagem esta que acabaria por redundar nos videoclipes como os de Michael Jackson. Vencedor de 10 prêmios da Academia de Hollywood (além dos já mencionados pelas atuações, levou também de melhor filme, direção, figurino, direção de arte, fotografia, som, edição e, obviamente, trilha sonora), o longa permanece como uma referência pop relevante e um dos grandes representantes (mesmo diante de suas imperfeições) de uma era em que os musicais levavam um grande público às salas de exibição. Pouco tempo depois, musicais como este dariam espaço para os talentos da Nova Hollywood, onde os próprios jovens seriam responsáveis por externar suas dores e pensamentos.


Cotação:

Nota: 9,0
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9 comentários:

Jefferson C. Vendrame disse...

Amor Sublime Amor é um de meus filmes preferidos,Wood, Beymer e Moreno dão um show de interpretação.
Ótimo texto mais uma vez Fábio.

Grande abraço.


FOXX disse...

e se eu te contar que o Romeu e Julieta do Shakespeare é uma adaptação de um conto da mitologia grega Hero e Leandro?

Fábio Henrique Carmo disse...

Não vejo muita semelhança, Foxx. No mito grego, salvo engano, Leandro não comete suicídio e não há rivalidade entre famílias ou grupos opostos. Se eu estiver errado, alguém me corrija.

Maxwell Soares disse...

Oi, Fábio. Não sou muito fã dos músicais. Minha esposa, pelo contrário, é fascinada. Preciso ao poucos quebrar esta barreira. Afinal há músicais que envolvem temáticas sui generis. Parabéns pelo texto e pela indicação, Fábio.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Vigor, ótima trilha, coreografia inovadora, o talento de Rita Moreno... um belo musical... e sua resenha está ótima, Fábio.

O Falcão Maltês

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Celo Silva disse...

Otimo texto mesmo. Gosto desse filme, lembro como fiquei maravilhado a primeira vez q vi, decerto por influencia de minha avó fã de musicais. Natalie Wood belissima. Reza a lenda q Elvis faria o papel principal, será?

Abração.

railer disse...

eu sei, vergonha, mas ainda não vi este filme... vou correr atrás de acertar isso.

Cristiano Contreiras disse...

Esse filme me acompanha desde que sou criança. Lembro de sempre ouvi falar e por acaso consegui vê-lo no Corujão por volta de 1994, de lá pra cá se tornou uma "febre"...pontencializando quando comprei o dvd duplo, hoje raro, por volta de 2005. Recentemente, comprei o blu-ray numa edição de 50 anos, esperava mais, nem tem extras assim, mas vale pela restauração impecável da imagem e do som, em formato 7.1, dando vigor a esse forte musical.

Acredito que, ainda que seja visivelmente, adaptado ou inspirado em tramas já conhecidas, o filme tem um "senso" único e parece que a história é feita originalmente. Tony e Maria são amantes clássicos e predestinados. Ao meu ver, como apontou em seu texto, o filme é muito bom e só não é obra-prima não pela atuação de Beymer - que até gosto, apesar de se sair melhor em outros filmes, como no "O Diário de Anne Frank", por exemplo! -, mas sim da dublagem dele e de Natalie Wood. Pior que ela até se esforçou e nos extras do dvd diz que gravou todas as músicas, mas foi barrada na edição final, consideraram que era uma voz "fraca" para os padrões, até então. Hoje, sabemos que ambos poderiam ter cantado, mesmo com vozes "irregulares". Tantos musicais hoje são assim, né?

Quem brilha mesmo é Chakiris e Moreno, Oscars merecido.

No geral, o filme é mais inesquecível pra mim que tantos outros mais reconhecidos, como "Cantando na chuva" ou "a noviça rebelde".

ABS!

Adorei seu texto.