segunda-feira, 18 de junho de 2012

Prometheus


Cinemão feminista


Ainda me recordo bem da primeira oportunidade em que assisti a “Alien – O Oitavo Passageiro” (Alien, 1979), filme de Ridley Scott que se tornou um dos precursores na mistura de ficção-científica, suspense e terror ao narrar a trama de um monstro extraterrestre que trucida todos os integrantes da tripulação da nave rebocadora Nostromo. A única que sobrevive é a tenente Ripley, papel mais marcante da carreira de Sigourney Weaver. A exibição foi na famigerada Rede Globo e lembro de vê-lo juntamente com meu pai, lá com os meus 11 ou 12 anos, e acredito que ele nem imaginava o quão sinistro e violento aquele filme iria se mostrar par um menino nessa idade. O clima sombrio e extremamente tenso da película me deixaram impressionado e lembro de ter morrido de medo na famosa sequência em que o Alien surge pela primeira vez, “nascendo” do abdome de um dos tripulantes. A verdade é que tanto eu quanto quanto meu pai adoramos o que vimos e acompanhamos todos os outros capítulos da franquia (passando também pelo fraco “Alien – A Ressurreição”, de 1997).

Naquela época, devido à minha reduzida idade, eu não percebi o que a película tentava transmitir através de suas entrelinhas. Quando analisada com atenção, toda a série “Alien” se revela uma metáfora para a luta feminina em um mundo dominado por homens. Afinal, o Alien do filme de Scott (e dos restantes dirigidos por James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet) é um invasor de corpos, em outras palavras, um estuprador, um ser que procura inseminar suas presas através da violência. Este subtexto de violência sexual é tão importante para a franquia assim como o é fisionomia macabra e assustadora do alienígena, oposta a dos extraterrestres amigáveis concebidos por Steven Spielberg em “E.T. - O Extraterrestre” (E.T. - The Extra-Terrestrial, 1982) e “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (Close Encounters Of The Third Kind, 1977). E essa conotação feminista é tão forte que Scott, retornando à franquia desde seu primeiro epísódio, não pôde fugir dela neste “Prometheus”, o prequel da série concebido agora em 2012. Aliás, é possível afirmar que o subtexto feminista talvez nunca tenha estado tão presente em toda a série como aqui, onde de maneira explícita (SPOILER) vemos uma mulher retirar do seu interior um feto indesejado. É sintomático que seja novamente uma mulher a única sobrevivente da carnificina e que até mesmo a concepção estética de suas roupas íntimas seja destituída de feminilidade, como que a denunciar que para sobreviver naquele ambiente hostil seja necessário assumir um comportamento masculinizado (FIM DE SPOILER).


Mas é claro que a franquia Alien é, antes de tudo, concebida como thrillers de suspense e este novo episódio não poderia fugir à regra. A tensão presente em Prometheus é constante, desde o primeiro até o último fotograma, apesar de suas ambiciosas pretensões filosóficas ao expor uma narrativa que tem como norte a origem da vida humana. É em busca dela que uma expedição é enviada a uma lua de um planeta de certo e longínquo sistema solar. A partir de uma descoberta arqueológica em uma caverna na Terra, a cientista Elizabeth Shaw (Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da versão sueca de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”) acredita que humanoides denominados como “Engenheiros” seriam os responsáveis pela criação da vida humana em nosso planeta e que eles teriam deixado uma espécie de “convite” para que a humanidade viajasse até essa longínqua galáxia e descobrisse suas verdadeiras origens. Como é de se imaginar, entretanto, a coisas não correm exatamente como o esperado, fugindo do controle e descobrindo-se que a missão não seria exatamente um passeio de encontros de pacíficos.

Com fez no primeiro longa da série, Scott soube muito bem trabalhar as relações e características dos personagens tripulantes da Prometheus, a nave que dá título à produção e que é responsável pela viagem em busca da origem da vida, item essencial para que haja uma empatia do público com a narrativa. E assim, além da citada Elizabeth Shaw, também conhecemos Meredith Vickers (Charlize Theron), executiva que representa a empresa financiadora da expedição, além do robô David (Michael Fassbender, o ator da moda), autômato no melhor estilo “Blade Runner” (outro filme de Scott), criado como imitando a imagem e semelhança dos humanos porque estes se sentem “melhor interagindo com outros seres da mesma espécie”. Por outro lado, essa estrutura muito semelhante àquela da película de 1979, gera uma sensação de filme repetido, fazendo-nos esperar por uma sucessão de eventos que levarão à inevitável dizimação da tripulação.


Todavia, como já ressaltado, a tensão engendrada é angustiante, fazendo jus ao longa pioneiro. Scott sabe, como poucos, entregar uma atmosfera sombria e sufocante, deixando o espectador sempre com sensação de que algo terrível vai acontecer a qualquer momento. A fotografia (de Darius Wolski) contribui para tanto, assim como a trilha sonora se mostra eficiente em carregar dita atmosfera. O elenco, por seu turno, é oscilante. Se Charlize Theron desta vez apenas contribui com sua beleza, Noomi Rapace tem ótimos momentos (principalmente na citada sequência da “cesariana”). Mas é mesmo Michael Fassbender quem rouba a cena (mais uma vez) com o seu robô David, o mais intrigante dentre todos os personagens.

Ao final, o que posso afirmar é que este novo Ridley Scott me fez sentir muito do gostinho daquela primeira e já distante experiência com a franquia (é, estou ficando velho). Não atinge o nível de brilhantismo do pioneiro, carecendo obviamente da originalidade nele presente, além de possuir um argumento um tantinho pretensioso. Contudo, é impossível não se deixar envolver por este suspense, apto a agradar aos fãs e não fãs da franquia, possivelmente a mais feminista do cinemão hollywoodiano, mesmo que muita gente nem se dê conta disso.


Cotação:

Nota: 9,0


Obs.: O 3D do filme é bem dispensável. Acabei me arrependendo de ter pago mais caro.
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7 comentários:

Gabriel França disse...

Não gosto muito do Ridley Scott, mas quero ver esse filme por causa da Theron e Fassbender.

http://monteolimpoblog.blogspot.com.br/

renatocinema disse...

Estou ansioso por esse filme. Muito.

Celo Silva disse...

Otimo texto Fábio, mas eu esperava um pouco mais do filme. Se quer ser pretensioso, que se sustente. Achei, em certos momentos, um filme acomodado, mas enfim, passa muito longe de ser ruim.
Abs.

Marcelo disse...

Fala Fábio!

Otima resenha! Gostei muito do seu trabalho no blog e gostaria de uma parceria. Abraços!

fridencult.blogspot.com

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Já está na minha lista. Adoro ficção-científica.

O Falcão Maltês

Júlio Pereira disse...

Esse é o segundo texto que leio abordando o lado feminista de Prometheus (o outro é do Hessel, do Omelete). Rapaz, isso é ótimo. Ler um texto diferente, que analisa esse subtexto esquecido nos filmes. E concordo: Prometheus é muito feminista, divertido e tenso. E só. Não cumpre o que promete (com o perdão do trocadilho).

railer disse...

ótimo texto, fábio. eu não tinha pensado por este lado.