terça-feira, 12 de junho de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer



Clamor do Sexo
(Splendor In The Grass, 1961)


Caráter controverso, talento indiscutível


O brilhante diretor Elia Kazan é uma das personalidades mais controversas da história de Hollywood. De origem grega (filho de gregos, nasceu em Constantinopla, então capital do Império Turco-Otomano), iniciou sua carreira como diretor de teatro na Broadway, migrando posteriormente para o cinema e levando para a tela grande uma direção de atores baseada no famoso Método Strasberg, orientando os atores a usarem vivências pessoais para dar maior verdade à composição dos personagens. Foi dirigindo “Uma Rua Chamada Pecado” (A Streetcar Named Desire, 1951) que ele atingiu o respeito no mundo cinematográfico e alçou Marlon Brando ao estrelato, fantástico no papel de Stanley Kowalski. Entretanto, a despeito de seu talento na direção, Kazan se tornou uma das figuras mais odiadas do meio artístico por ter delatado antigos companheiros do Partido Comunista ao funesto Comitê de Investigações de Atividades Antiamericanas durante o Macartismo. Não por acaso, durante a cerimônia do Oscar que lhe concedeu um prêmio honorário, vários dos presentes, como Jim Carrey, Nick Nolte e Ian McKellen se recusaram a aplaudi-lo (Sean Penn chegou a encabeçar uma moção de repúdio à decisão da Academia).

Apesar do caráter duvidoso, é inegável que o talento de Kazan rendeu obras inesquecíveis. Além do citado “Uma Rua Chamada Pecado”, são dele “Sindicato de Ladrões” (On The Waterfront, 1954) – cujo drama hoje soa como uma defesa de sua posição de delação – e “Vidas Amargas” (East Of Eden, 1955), onde levou James Dean ao estrelato ao dirigi-lo numa trama de conflito de gerações. E uma outra de suas obras mais marcantes é exatamente este “Clamor do Sexo” (título em português infeliz para “Splendor In The Grass”), sua película de 1961, a qual parece reunir, a um só tempo, as temáticas dos citados “Vidas Amargas” e “Uma Rua Chamada Pecado”, aliando a abordagem do conflito de gerações e carência afetiva à repressão sexual imposta pelos condicionamentos socioculturais.


Desde a primeira sequência, onde Bud Stamper (Warren Beaty, em seu primeiro papel de destaque) e Deanie Loomis (Natalie Wood) são vistos se beijando em frente a uma cachoeira, a temática da repressão sexual é colocada em foco. Já percebemos assim que os personagens terão seus destinos inteiramente afetados pelo seu desejo reprimido, mas estaríamos sendo reducionistas se enxergássemos apenas este ponto na ampla crítica social oferecida por Kazan e o ótimo roteirista William Inge. Herdeiro de um rico produtor de petróleo (Pat Hingle), além da frustração sexual o jovem Bud tem de enfrentar a imposição de seu pai que deseja formá-lo em Yale, adiando sua vontade de casar-se com Deani e realizar-se profissionalmente como fazendeiro. Por seu turno, Deanie quase enlouquecerá ao ver-se dividida entre dois estereótipos possíveis em 1928, ano em que se passa a ação da película (um anos antes da grande depressão econômica, portanto): o da virgem discreta e “séria”, que não cede aos próprios desejos sexuais, senão apenas depois do casamento e para satisfazer a lascívia do marido (“isso é coisa de homens”, ensina-lhe sua mãe); ou o da moça leviana-promíscua, encarnada no filme na figura de Ginny (Barbara Loden, ótima), irmã de Bud. Todavia, os personagens não são tratados de maneira maniqueísta e mesmo a severa mãe de Deanie tem seus momentos de absolvição.

Mas nem só de crítica social vive “Splendor In The Grass”. A riqueza de seus personagens passa longe do lugar-comum, o que era mesmo de se esperar de um filme de Kazan. Eles surgem para o espectador, antes de tudo, como pessoas reais, cujas vidas acabam tomando rumos diversos do esperado. E este, possivelmente, é o aspecto mais encantador da película, já que se torna impossível não compartilhar do seu drama. Afinal, todos nós já sentimos que a vida tomou rumos divergentes do que pretendíamos. Não que isso tenha ocasionado necessariamente vivências negativas (por diversas vezes ocorre justamente o contrário), mas certamente você já se pegou refletindo sobre os caminhos que teria tomado ao fazer escolhas diferentes das que fez no passado. Essa perspectiva é forte no longa de Kazan, tanto que o título da produção foi retirado de uma poesia de William Wordsworth que reflete exatamente sobre tais circunstâncias, afirmando que é do que passou que retiramos nossa força.


Importante elucidar que Kazan utiliza de formas novidadeiras para narrar o drama, aliando o estilo narrativo da Nouvelle Vague a uma maneira de abordagem que seria precursora da Nova Hollywood. Talvez tenha sido esta experiência com Kazan, inclusive, que tenha levado o novato Warren Beaty a acreditar que o cinema norte-americano precisava de uma sacudida e o tenha feito lutar pela futura produção de "Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas" (Bonnie & Clyde, 1967). Aliás, neste "Clamor do Sexo" ele está muito bem para um principiante, muito embora tenha começado aaqui a pecha de galã que o acompanharia ao longo de vários anos e que levaria os chefões dos estúdios a colocá-lo apenas em papeis do genêro (pelo menos até a realização do citado "Bonnie & Clyde"). Mas é Natalie Wood que tem, efetivamente, a atuação mais destacada da película. Ela incorpora os tormentos de Deanie como muita garra, em um trabalho que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz (o que invariavelmente acontecia com os dirigidos por Elia Kazan). Mas o diretor não era só bom com atores. Os inusitados e criativos ângulos de câmera mostram que ele sabia mexer com a ferramenta do cinema, estando seus longas longe de serem apenas uma espécie de "teatro filmado".

Ainda com uma trilha sonora belamente composta por David Amram, "Splendor In The Grass" é um daqueles filmes que vão crescendo em sua memória e que nos deixa enternecidos diante de seu desfecho, ao mesmo tempo belo, melancólico e verdadeiro (não à toa levou o Oscar de melhor roteiro original). A cada lembrança ele se torna melhor, mais relevante e memorável, lembrando-nos que muitas vezes podemos não gostar da pessoa de um artista, mas que isto não implica desconsiderar sua arte. Assim como o genial músico Richard Wagner tem uma obra de méritos artísticos inquestionáveis, mesmo diante do seu mau-caratismo, o mesmo deveria suceder com Elia Kazan, um homem de caráter deveras duvidoso, mas que possui uma filmografia de mestre.


Cotação:

Nota: 10,0
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7 comentários:

Gabriel França disse...

Vlw pela indicação, Fábio. Parece ser bem legal, mesmo. Vou procurar assistir. Abraços!!

http://monteolimpoblog.blogspot.com.br/

Maxwell Soares disse...

Parabéns pela lucidez, Fábio. Não conheço nenhum filme de Kazan. É um lacuna que preciso, agora, vê-la preenchida. Gosto de filmes conflituoso. Esse, Splendor In The Grass, tem todo esse aperitivo. Goste da maneira como você separou a obra da pessoa. Não se pode desconsiderar um talento por características particulares de sua própria personalidade. Mais uma vez, parabéns, pela maturidade em que expões suas ideias. Gosto disso, acredite. Um abraço, irmão...

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Obra-prima absoluta. A cena final é de cortar o coração (me lembra OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR).

O Falcão Maltês

Jefferson C. Vendrame disse...

Fábio acho Kazan um dos maiores diretores de Hollywood, Uma Rua Chamada Pecado, Vidas Amargas e Sindicato de Ladrões na minha opinião são seus melhores filmes. Já ouvi falar muito desse aqui em destaque mas nunca o encontro para comprar, vou tentar baixa-lo pq minha curiosidade e vontade de vê-lo só aumentou após seu post.
Ótima dica...

Grande abraço

Júlio Pereira disse...

É mesmo babaca o fato de ter sido um cagueta em vida, mas artistas o menosprezarem por isso e não reconhecerem sua arte (o Oscar é dado, afinal, por qualidade cinematográfica, supostamente, não por mérito político/pessoal). O mesmo para Polanski, oras, um gênio e suposto mau caráter. Isso só prova que Martin Scorsese é mesmo um cinéfilo apaixonado no Cinema: é um completo fã do Kazan. Enfim, é mesmo um gênio o Kazan, que revolucionou o cinema. Clamor do Sexo é uma ótima análise sexual da época, banhado com muita emoção, embora caia no melodrama barato ocasionalmente (vale ressaltar: isso não afeta muito a experiência final). Belíssimo texto!

renatocinema disse...

Esse preciso assistir mesmo. Falha imperdoável.

Sobre Billi Pig juro que foi Selton Mello. kkkk

Cristiano Contreiras disse...

Parabéns pelo texto, percorreu bem o senso provocador do filme. Acho um delicado filme, acima de tudo e que pauta a repressão de todas as formas, não só sexual, como o equivocado ou limitado título brasileiro induz. O filme pauta mesmo a juventude tendo que se privar de tanta coisa, principalmente de amar livremente. Interessante que eu não era fã de Beaty, tenho problemas com Bonnie e Clyde - acho que envelheceu mal e não tem força mais -, mas aqui ele está incrível. Contudo, como bem dito por ti, é Natalie Wood que se despe integralmente em um papel cheio de nuances e com um tom super emocional.

Gosto muito do filme.

Aposto que você comprou o dvd dele na Cultura, aquela edição bacana que sempre vende por lá, rs.

Abs!