segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer




Johnny Guitar
(Idem, 1954)


O Oeste das mulheres


Não se engane com o título deste longa-metragem de 1954 dirigido por Nicholas Ray, hoje um dos mais cultuados cineastas da Hollywood dos anos 50. O filme não tem como personagem central o pistoleiro-violonista interpretado por Sterling Hayden que chega a um lugarejo esquecido por Deus em que nem mesmo existe ainda uma estação de trem. O centro da narrativa encontra-se em Vienna (a estrela Joan Crawford), ex-namorada de Johnny e agora dona de um misto de saloon e cassino quase entregue às moscas, tendo a esperança de ver os negócios melhorarem com a possível chegada da ferrovia. Para se manter estabelecida na localidade, contudo, ela tem de enfrentar a oposição de Emma Small (Mercedes McCambridge), uma fazendeira manda-chuva cheia de ódio e ressentimento porque o homem que ama, Dancin' Kid (Scott Brady), não retribui seu sentimento e é, em verdade, apaixonado por Vienna. Enquanto esta é admirada e desejada pelos homens da cidade, Emma sente-se a rejeitada e nutre desejos de vingança. Vienna então contrata o antigo amor, Johnny “Guitar” Logan, para ajudá-la a enfrentar os obstáculos que surgirão para continuar com seu empreendimento.

Vê-se, já de antemão, que esta é uma obra bastante passional, em que as ações dos personagens são norteadas por amores e ciúmes, uma espécie de western-romance-tragédia singular e talvez nunca repetido na história da Sétima Arte. Não por acaso, era um dos filmes preferidos de François Truffaut e Ray foi um dos cineastas mais amados pelos nomes da Nouvelle Vague. E não impunemente. Afinal, uma das medidas do talento e da genialidade de um artista é a capacidade que tem a sua obra de manter-se atual mesmo depois de décadas de sua confecção. No caso, “Johnny Guitar” não somente se manteve atual como também esteve mesmo à frente do seu tempo, apresentando um modelo de comportamento feminino que só iria se tornar mais comum umas três décadas depois. Tanto Vienna quanto Emma são mulheres fortes e independentes ao redor das quais giram os tipos masculinos da narrativa, os quais parecem estar ali apenas para servi-las. A diferença entre as duas está no bom coração da primeira. Ou seja, o filme não envelheceu absolutamente nada. Pelo contrário, é até mais verossímil hoje do que quando do seu lançamento. Por outro lado, além desse seu lado “feminista”, digamos assim, há um subtexto político anti-Macarthismo presente na trama, mormente por meio do personagem de Turkey (Ben Cooper) que é obrigado à delação diante de uma verdadeira caça às bruxas promovida por Emma e asseclas. Situação similar foi vivida realmente pelo ator Hayden diante do malfadado comitê de atividades anti-americanas que aterrorizava artistas e intelectuais à época.


Outro aspecto marcante da película são os seus diálogos (aliás, uma constante nas obras de Ray), que atingem os personagens e os espetadores de maneira bem mais certeira que os tiros dos rifles e revólveres. Várias são as frases antológicas do longa, como a de que “um homem precisa apenas de um bom cigarro e um copo de café” ou “depois do incêndio costumam restar somente as cinzas” (proferida por Vienna ao se reportar ao seu antigo amor por Johnny). Escrito por Philip Yordan baseado no romance de Roy Chanslor - e com a participação não creditada de Ben Maddow, que fazia parte da lista negra do FBI (reforçando a perspectiva de crítica à perseguição dos comunistas) - o roteiro realmente é ímpar e capaz de levar os espectadores a passar horas apenas apreciando o brilhante jogo de palavras (como hoje muitos costumam fazer com os filmes de Quentin Tarantino). É claro que para o texto fluir de maneira eficiente é necessário um elenco competente e é isso que se vê na tela. Nem parece que ocorreram tantos atritos nos bastidores da filmagens, uma vez que Crawford e McCambridge também não se davam bem na vida real e tal circunstância fez com que elas se evitassem ao máximo nas gravações. Pensando bem, talvez seja até por essa antipatia mútua que tenha resultado uma rivalidade tão verossímil na projeção, com as duas atrizes entregando ótimas interpretações.


Outra vertente em que Ray subverte o gênero é na utilização das cores. Normalmente, o Western privilegia as paisagens como foco da fotografia, destacando a imensidão da natureza frente à insignificância dos homens como forma de acentuar ainda mais a coragem e persistência destes (John Ford foi um mestre nesse quesito). Aqui, entretanto, Ray, usando da tecnologia denominada Trucolor (que dava mais destaque ao colorido na captação das imagens), privilegiou as cores dos figurinos, geralmente fortes e contrastantes, os quais, em boa medida, traduzem os sentimentos dos personagens. Memorável a cena em que Emma e seu grupo, todos trajando preto, invadem o saloon como abutres procurando uma presa e encontram Vienna com um vestido inteiramente branco em contraste com a parede rochosa e vermelha ao fundo. Uma cena de acabamento barroco belíssima e memorável. Além disso, Ray privilegia aqui os cenários interiores, com longas sequências se passando em ambientes fechados – logo nos primeiros momentos, inclusive, temos uma bastante extensa (mas jamais cansativa) em que somos apresentados a todos os personagens e tomamos pé das situações, em um verdadeiro show de concisão e clareza de roteiro e edição.

Realizado com orçamento limitado pelos estúdios Republic (que iriam à falência 4 anos depois), “Johnny Guitar” revela-se um dos faroestes mais atípicos já filmados, tanto na forma como no conteúdo, estando bastante à frente do seu tempo, como já salientado, o que inevitavelmente já o coloca entre os melhores representantes do gênero. Seu resultado é tão belo quanto sua canção tema, composta por Victor Young e Peggy Lee (esta também intérprete), música que põe a cereja no bolo desta obra impecável do fantástico Nicholas Ray, um diretor que hoje costuma ser muito lembrado por seu trabalho em“Juventude Transviada” (Rebel Without a Cause, 1955). Eu, particularmente, considero este western não tão famoso até superior ao drama protagonizado pelo mítico James Dean, longa que hoje me parece um pouco datado. “Johnny Guitar”, inversamente, com suas mulheres fortes e homens apaixonados, parece ter sido feito ontem.


Cotação e nota: Obra-prima.

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12 comentários:

Rato disse...

Johnny: How many men have you forgotten?
Vienna: As many women as you've remembered.
Johnny: Don't go away.
Vienna: I haven't moved.
Johnny: Tell me something nice.
Vienna: Sure, what do you want to hear?
Johnny: Lie to me. Tell me all these years you've waited. Tell me.
Vienna: [without feeling] All those years I've waited.
Johnny: Tell me you'd a-died if I hadn't come back.
Vienna: [without feeling] I woulda died if you hadn't come back.
Johnny: Tell me you still love me like I love you.
Vienna: [without feeling] I still love you like you love me.
Johnny: [bitterly] Thanks. Thanks a lot.

Aqui fica o meu diálogo favorito, que praticamente define este filme magnífico. Gostei do comentário, que realça os aspectos fundamentais do filme.

O Rato Cinéfilo

Fábio Henrique Carmo disse...

Gostei também do seu comentário, Rato. Diálogo brilhante dentre os vários ótimos diálogos desse filme único! Abraço!

Lumi 7 disse...

É uma perfeita desconstrução do gênero, que é permeado por homens, principalmente. Uma figura feminina fantástica, forte e independente. Acho interessante a antítese trabalhada entre o universo masculino altamente machista e uma mulher imponente. Também acho Johnny Guitar superior a Juventude Transviado, que considero um filme bom, mas superestimado!

Júlio Pereira disse...

É uma desconstrução perfeita do gênero. Nada de ação, cheio de romance e diálogos. Uma personagem forte, que fica difícil não torcer. Acho interessante a antítese trabalhada: o mundo machista e uma mulher que se impõe no meio dele. Também considero Johnny Guitar superior ao superestimado Juventude Transviada.

Jefferson Clayton Vendrame disse...

Oi, acabei de conhecer seu Blog, cara muito bom, já estou seguindo e estarei sempre por aqui...
Quanto a esse Post, ótimo texto e claro, ótimo filme, Johnny Guitar é um de meus faroestes preferidos....

Aguardo sua visita.... abração

Fábio Henrique Carmo disse...

Lumi 7 e Júlio,

Sim, realmente "Johnny Guitar" se mostra um filme superior a "Juventude Transviada". Este último, na verdade, foi um dos clássicos que me decepcionaram. É um bom filme, mas eu esperava mais quando fui vê-lo.

Jefferson,

Obrigado pelos elogios e seja bem-vindo a este espaço. Sinta-se à vontade para comentar sempre. Abraço!

Celo Silva disse...

Fabio, um texto muito instigante. Sou fã de gênero e uma produção que se mostra transcender o proposito da temática parece surpreendente. Ainda não assisti, mas vai ser boa pedida para 2012. Abs!

Suzane Weck disse...

Ola Fabio,Que bela postagem sobre "Johnny Guitar.A musica realmente é excelente ,e por sua sugestão vou assim que possa,tentar colocar uma cereja neste delicioso bolo que estas nos oferecendo.Quando eu fizer a postagem talvez seja interessante fazer um link para o seu blog ,pois a sinopse já esta brilhantemente apresentada.Que achas? Grande abraço.

Júlio Pereira disse...

Haha, postei, sem querer, os comentários iguais. Desculpa aí!

Bruno S disse...

Pretendo nessas férias conferir mais dos trabalhos do Ray, e com certeza Johnny Guitar é um deles! Acredito que essa adoração pelo Ray seja por que ele tenha mesmo marcas autorais, principalmente no que se refere aos personagens...
Mas é praticamente impossível ser melhor que "Juventude Transviada", que considero o melhor filme do século XX sobre a adolescência =)

Cristiano Contreiras disse...

Não conheço esse filme, curioso que nunca vi em locadora ou em dvd pra venda, aposto que você tem ele aí original e comprou na Cultura, rs! É isso mesmo? rs! Então, sou fã de Nicholas Ray e, apesar de você e da maioria, eu gosto muito do JUVENTUDE TRANSVIADA, acho um filme todo cheio de significado e reflexão. Além disso, tínhamos atuações fortes de James Dean e da Natalie Wood, gosto muito mesmo. Vou conferir esse filme dele, seu rico texto me deixou interessado! Abraço

Fábio Henrique Carmo disse...

Julio,

Não tem do que se desculpar! Abraço!

Bruno,

Realmente, Nicholas Ray é um dos cineastas mais autorais da antiga Hollywood. Confira logo Johnny Guitar!

Cristiano,

Tenho ele aqui, sim. Comprei a edição da Cult Classic, que não é um primor, mas é razoável. Mas não foi na Cultura, foi na DVD World! He he he! Eu gosto de "Juventude Transviada", mas quando vi esperava mais e hoje acho um pouco datado. Bem, veja "Johnny Guitar" e tire suas próprias conclusões! Abraço!