sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Vá e Veja
(Idi i Smotri, 1985)


Triste e verídico pesadelo


O cinema norte-americano, ao longo das últimas décadas, costumou impregnar nossas mentes com uma visão romântico-heroica da Segunda Guerra Mundial. Mesmo obras ditas realistas, como “A Lista de Schindler” (Shindler's List, 1993) e “O Resgate do Soldado Ryan” (Saving Private Ryan, 1998), ambas de Steven Spielberg (cineasta que, por sua origem judia, é sempre levado a sério nas suas abordagens sobre o tema), acabam enveredando por esse caminho ao focar personagens que terminam por abraçar sentimentos idealistas ou de sacrifício em prol do coletivo. Hollywood nunca deixa de ser uma fábrica de fantasias, mesmo ao tratar de temas extremamente sérios, o que acaba levando a nós, ocidentais embebedados em sua cultura, a vermos o conflito mais marcante da história da humanidade com um certo ar infantilmente “nostálgico”, como se viver nos anos 40 fosse experimentar um romance como o de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em “Casablanca” (sem querer desmerecer ou atacar esse lindo clássico do cinema) ou tomar atitudes hercúleas no campo de combate que garantissem ao sobrevivente as láureas quando do regresso ao lar. Dentro desta perspectiva, “Vá e Veja”, obra do cineasta bielo-russo Elem Klimov (1933 – 2003), pode ser posicionado como o filme de guerra mais anti-Hollywood já concebido. Nesta obra de extremo impacto para o espectador, realizada durante o declínio da antiga URSS, sobra verdade, realidade e brutalidade em cores e sons que jamais o cinema norte-americano poderia retratar.

Primeiramente, é importante ressaltar que este longa-metragem é uma espécie de sessão de análise do diretor Klimov, cuja infância foi marcada pelos horrores da invasão nazista no Leste Europeu durante o mencionado conflito. A guerra no lado oriental da Europa costuma ser, inclusive, bastante ignorada pela sua parcela ocidental, fato que se deve notoriamente a décadas de Guerra Fria. Lá morreram cerca de 20 milhões de russos, mais 5 milhões de ucranianos e mais alguns milhões de bielo-russos, um outro holocausto de proporções ainda mais aviltantes do que o ocorrido com os judeus. Assim, a visão apresentada do conflito é extremamente pessoal, sendo que o personagem que nos guia na narrativa, o adolescente Florya (o ator se chama Aleksei Kravchenko, responsável por uma interpretação meio que transcendental), funciona como o alter-ego do cineasta diante dos horrores que desfilam um após o outro.


Praticamente não há estória em “Vá e Veja”. O protagonista Florya se junta aos partisans, grupo de resistência aos invasores nazistas e, após ser deixado em uma floresta antes de uma batalha por ser muito novo para combater, acaba encontrando uma outra jovem, Glasha (Olga Mironova, também em uma atuação no mínimo impressionante). Os dois retornam à aldeia de Florya apenas para descobrir que ela foi destruída pelos nazistas e sua população, incluindo a família do rapaz, quase totalmente dizimada. A partir deste ponto o que vemos é uma sucessão de cenas tão realistas que beiram paradoxalmente o surreal, tamanho o horror com que nos deparamos.


É relevante destacar que o poder imagético de “Idi i Smotri' é um dos mais impressionantes já vistos, o que potencializa ainda mais a referida barbárie na tela. Com um fantástico uso da steadycam (aquela câmera sem solavancos que acompanha um personagem em uma cena), muitas vezes usada do ponto de vista do protagonista, a sensação que temos é de estar testemunhando in loco aquela violência. Talvez só Stanley Kubrick – em “O Iluminado” - tenha usado tão bem este recurso quanto tanto Klimov o faz aqui. Desta maneira, a concepção visual do longa nos rende imagens tão fortes quanto inesquecíveis, tais como a de Florya e Glasha tentando atravessar um pântano; a dos corpos empilhados na aldeia de Florya; a impressionante sequência em que o garoto tenta se proteger de uma rajada de balas atrás do corpo de uma vaca agonizante; ou ainda a de um homem quase inteiramente queimado pelos alemães. Aliás, difícil encontrar um fotograma neste filme que não seja melancolicamente memorável.


Mas não é apenas de imagens que vive o longa de Klimov. O som, sem qualquer exagero, é um dos mais incríveis da história da Sétima Arte, complementando a experiência de imersão do espectador pretendida pelo diretor. Em certa passagem, uma bomba cai próxima de Florya e o consequente zumbido, que o deixa quase surdo, toma conta da projeção, a qual se alonga por mais de meia hora desta forma. Ficamos, assim, quase surdos como o personagem, ouvindo o perturbador barulho e quase não escutando as vozes daqueles que se dirigem a ele. Há ainda sequências em que ouvimos o barulho constante de aviões alemães, transmitindo-os a sensação de angústia em estar exposto a um possível ataque. Fosse uma produção em língua inglesa, certamente teria levado os prêmios da Academia nas categorias de som e efeitos sonoros. Mas, como sabemos, o Oscar é um prêmio voltado para promover o cinema hollywoodiano... A montagem, como frequentemente ocorre no cinema russo (vale relembrar que Sergei Eisenstein praticamente criou a edição tal como a vemos nas produções contemporâneas), é outro capítulo à parte, sendo inclusive um aspecto que gerou uma das mais lembradas sequências deste longa-metragem. Nela, Florya atira contra um cartaz com a imagem de Adolf Hitler enquanto, em rápidos cortes, vemos também passagens documentais do conflito e da ascensão do nazismo na Alemanha, uma contraposição de ficção e realidade que influenciaria o citado Steven Spielberg nas suas mencionadas obras sobre a guerra. Ou melhor, se o espectador observar com ao menos um pouco de atenção a película, perceberá o quanto Spielberg bebeu dessa fonte para a concepção de seus filmes ("Império do Sol", de 1987, parece ser uma versão “light” deste filme depois de tê-lo visto).

O perfeccionismo de Klimov em retratar o horror foi tamanho que ele se valeu de um especialista para hipnotizar o jovem Kravchenko e assim extrair do ator o seu máximo interpretativo sem que este corresse o risco de ficar com traumas psicológicos. Até mesmo a maquiagem sobre o garoto nas últimas cenas nos dá a impressão de que ele envelheceu décadas em alguns dias. Obsessão? Exagero? É possível que muitos enxerguem desta forma, mas o resultado alcançado foi mesmo assombroso. Não foi por acaso que o título escolhido para a produção é um trecho do livro bíblico do Apocalipse. Nada mais adequado para sintetizar uma experiência ímpar que, indubitavelmente, se coloca entre os melhores filmes do gênero já realizados, mostrando em imagens que na guerra não há heróis, apenas sobreviventes. Um retrato de um pesadelo tristemente verídico.


Cotação e nota: obra-prima.
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5 comentários:

Celo Silva disse...

Fabio, não conhecio esse filme, mas fiquei tentado, excelente texto! Vou até procurar para baixar e aplicar no meu blog. Dever ser um filme dos mais contudentes e uma visão sem ser hollywoodiana sempre é bem vinda. Abração!

disse...

Olá! Adorei seu blog, muito criativo! Também tenho um blog e gostaria que vc desse uma olhada. O endereço é: http://www.criticaretro.blogspot.com/ Passe por lá! Lê ^_^

Levi disse...

E aí Pepper, é o Levi. Tudo OK? Legal seu blog, e sobre essa resenha, eu adoro documentarios sobre as duas grandes guerras, principalmente a segunda. E vc disse tudo. Conhecemos mais o lado ocidental "dos mocinhos" e não mensuramos a catástrofe que foi a guerra para a URSS. Vou tentar encontrar esse filme. E nosso fórum, acabou mesmo? Abraços.

Fábio Henrique Carmo disse...

Grande Levi. Muito bom ver um comentário seu aqui, amigo!

Procure encontrar sim. É um ótimo filme. Vale muito à pena. Existe uma edição brasileira dele, pela Lume Filmes, com boa qualidade.

Ah, e sobre o o fórum, não sei como anda. Já faz um bom tempo que não acesso. Perdi o link, inclusive. Das últimas vezes que acessei estava paradão, sem posts. Acho que terminou de vez!

Bem, grande abraço e apareça sempre por aqui!Até a próxima!

Maxwell Soares disse...

Excelente filme, Fábio. Não conhecia. Mas fiquei, agora, com uma enorme vontade de vê-lo. Os filmes Hollywoodiano realmente tem uma área bem nacionalista e capitalista por mais que retratem temas contundentes como bem você frisou. Estarei procurando,aqui, em minha cidade. Parabéns pelo domínio do texto e do belo e invejado conhecimento cinematográfico. Acabei de postar, lá, também... Um abraço