quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

A Terra Média sucumbe ao mercado


Este filme já havia se tornado uma lenda urbana, tamanhas foram as idas e vindas ao longo de seu processo de produção, o qual passou por conflitos com os interesses dos herdeiros de J.R.R. Tolkien, a falência da MGM, detentora dos direitos de adaptação, além da troca no comando criativo do filme, uma vez que inicialmente a direção estava nas mãos de Guillermo del Toro e acabou passando para as de Peter Jackson, já sabidamente veterano nas transposições do universo de Tolkien para a tela grande (Del Toro acabou assinando como co-roteirista). A novela , enfim, foi concluída e tivemos sua estreia em circuito comercial na última sexta-feira 14, numa clara intenção de concorrer às estatuetas da Academia de Hollywood. Se a expectativa por prêmios é normal, já que a trilogia “O Senhor dos Anéis” abocanhou nada menos que 17 carecas dourados, desta vez, contudo, ela não deverá ser correspondida. “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” (The Hobbit: An Unexpected Journey) não está à altura de seus predecessores, infelizmente, e acredito que tal circunstância se deve principalmente a razões mercadológicas.

Afinal, foi devida às tais razões de mercado que ocorreu a divisão da trama em três episódios, algo incongruente com o material original, o primogênito dos livros de Tolkien, cuja primeira edição data de 1937 e que possui menos páginas do que qualquer um dos volumes da trilogia dos anéis. O material, entretanto, como é de conhecimento até das plantas, é uma mina de dinheiro e não quiseram perder a oportunidade de iniciar mais uma trilogia para arrancar grana dos fãs. O resultado dessa ideia é que aquele que poderia ser mais um belo filme baseado na obra de um grande escritor, tornou-se um longa arrastado, sem ritmo e que, se ainda consegue em alguns pontos envolver e tocar o espectador, é por mérito quase exclusivo do material original. Sim, quase exclusivo porque, como era de se esperar, a película tem aquele famoso impacto visual característico da saga dos anéis, o que se deve, indiscutivelmente, à notória competência de Peter Jackson nesse quesito. Vale frisar que aqui ele trouxe mais uma inovação, os tais “48 quadros por segundo”, a nova tecnologia que confere à película o dobro de resolução - já que tradicionalmente se usam 24 quadros por segundo (ou seja, fotos por segundo) para que o olho humano tenha a ilusão de movimento na tela. Essa inovação está sendo prometida como “a nova revolução no cinema” (mais outra), mas, devo registrar aqui, não gostei. Tive a oportunidade de ver o resultado em uma sala de exibição local e a sensação que tive foi a de estar vendo um making off, pois o excesso de resolução em um longa repleto de maquiagens e efeitos especiais não contribui para que vejamos os personagens como reais. Fica a impressão de estarmos enxergando exatamente efeitos especiais e trabalhos de maquiadores (algo “fake”, vamos dizer assim) e também não senti que afetou a sensação de imersão no 3D (continuo com a opinião de que a “A Invenção de Hugo Cabret” foi o longa-metragem que melhor usou, até hoje, o potencial das três dimensões).


Mas é claro que a trama tem seu encanto, principalmente para aqueles já conhecedores do universo de Tolkien. Não deixei de me envolver com a estória do hobbit Bilbo (Martin Freeman, quando jovem, e Ian Holm, quando idoso), tio de Frodo (Elijah Wood). É para este que Bilbo, já idoso, irá relatar a aventura que viveu 60 anos antes, quando o mago Gandalf (Ian Mckellen) chegou na porta da sua casa porque havia lhe escolhido para ajudar o anões a retomar o seu antigo lar, a Montanha Solitária, tomado dos mesmos pelo dragão Smaug. Em sua “jornada inesperada”, Bilbo, acostumado à pacata rotina dos hobbits, passará por diversos perigos ao lado do novos amigos e irá se deparar com um famoso anel e um outro personagem adorado pelos fãs que mais tarde seria conhecido como Gollum. Entretanto, mesmo que você não seja um “iniciado”, compreenderá perfeitamente toda a narrativa. Como já dito acima, este foi o primeiro romance de Tolkien a tratar da Terra Média e o fatos nele narrados são, logicamente, anteriores àqueles de “O Senhor dos Anéis”. Ademais, tudo é muito bem explicadinho, fazendo com que nenhum expectador se perca, sendo ele familiarizado ou não com a obra. Não é o esse teor, digamos, “didático” que incomoda, mas a extensão de certas sequências (a reunião de anões na casa de Bilbo poderia ser cortada pela metade) e mesmo a presença de algumas delas (totalmente dispensável toda a sequência com os trolls).


Há alguns momentos chave, todavia, que despertam emoção e nisso Jackson continua o mesmo, sabendo dosar sentimento e aventura como se estivéssemos realmente ouvindo uma história contada por nossos avós. Vale ressaltar, ademais, que o elenco (boa parte dele já familiarizado com seus papéis) está afinado, além de ser sempre um prazer rever Chritopher Lee (com mais de 90 anos!) como o mago Saruman e Cate Blanchett na pele de Galadriel. Howard Shore mais uma vez demonstra muita competência no elaboração da trilha sonora. A fotografia (de Andrew Lesnie), então, é um caso à parte. Nunca a Terra Média (Nova Zelândia, na realidade) foi tão linda e se tem algo em que os 48 frames ajudam é justamente no deslumbre das paisagens. Dá vontade de ir morar na terra dos hobbits.

O que se pode concluir é que a ambição de construir uma nova franquia foi o fator realmente determinante para que este novo longa não tenha apresentado o resultado brilhante dos anteriores. Tivessem feito apenas dois filmes, ou simplesmente reduzido a duração de cada um (quem disse que todos os filmes baseados na obra de Tolkien devem necessariamente ter cerca de 180 minutos de projeção?), e teríamos mais um provável vencedor de muitas estatuetas da Academia – algo que não deve acontecer agora em 2013, a não ser em óbvias categorias técnicas. De qualquer forma, este é o típico filme à prova de críticas, como bem demonstra a bilheteria que vem obtendo mundo afora (nos EUA, teve a maior estreia da história para o mês de dezembro). Eu mesmo, que considero a trilogia original como a melhor obra cinematográfica do presente século XXI , jamais deixaria de conferir “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” porque um metido a crítico de um blog qualquer disse que este é um filme “lento” e “sem ritmo”. “Que cara mais implicante!”.


Cotação:



Nota: 8,0
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3 comentários:

Celo Silva disse...

Ótimo texto, Fábio. Concordo quando vc diz: metido a crítico de um blog qualquer disse que este é um filme “lento” e “sem ritmo”. “Que cara mais implicante!”.

Sim, existe mesmo muita gente com má vontade com o trabalho de Jackson. Enfim, uma pena mesmo.

Abração!

renatocinema disse...

Perfeito......adorei sua visão.

A ambição foi um degrau a mais do que o ideal. Dois filmes mais curtos e teríamos uma obra inesquecível.....

Aprovo a nota 8

Jefferson C. Vendrame disse...

Adorei esse filme, apesar de achar que os efeitos em 3D ficou um pouco a desejar (eu particularmente não aguento mais aqueles óculos 3D e prefiro os filmes sem eles)o filme em si é muito bom, estou muito curioso agora para o próximo, em 2013...

Parabéns pelo texto!

Abração