quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Marty
(Marty, 1955)


Apologia do homem simples


Alguns dias atrás, estava eu naquele clima de preguiça, com o controle remoto da TV na mão, passeando pelos canais até que parei em um programa matinal de notícias. Poucos minutos depois, o telejornal exibe uma matéria sobre os “novos comportamentos” contemporâneos e mostra que os homens românticos hoje têm dificuldade de arrumar namoradas, enquanto os “galanteadores” acabam sendo preferidos pela “maior parte” das mulheres, porque, segundo uma das entrevistadas no interior de um bar, elas hoje preferem homens mais “práticos”. Na realidade, dizer que esse comportamento é “moderno” me parece ser ideia de quem não tem nada a dizer ou coisa de jornalista querendo extrair matérias das obviedades. Qualquer rapaz que já tenha passado pela adolescência na vida sabe que a maior parte das mulheres sempre preferiu os galanteadores, os descolados e populares, enquanto os românticos sonhadores e introvertidos acabam sozinhos nas festas, bailes, bares, baladas ou seja lá o que for. Em 1955, décadas atrás portanto, um filme denominado “Marty”, dirigido pelo pouco conhecido diretor Delbert Mann e protagonizado pelo eterno coadjuvante Ernest Borgnine, arrebatou 4 Oscars (filme, diretor, ator e roteiro) ao tratar de um desses “rejeitados”, um desses caras que não são especialmente agraciados com um tipo físico generoso ou não têm a autoconfiança necessária no jogo da conquista, mas que por dentro são bem mais interessantes do que os descolados das redondezas.

Uma das cenas da dita reportagem mostrava um homem, que já contava por volta dos seus 35 anos, sozinho no bar, ignorado pelas mulheres que por ali se achavam. Uma imagem que imediatamente me remeteu a Marty Piletti, o personagem do título, um homem de família italiana que mora apenas com a mãe (Esther Minciotti) em uma casa que já se tornou grande demais para os dois. Aos 34 anos, ele é o único entre os irmãos que ainda não se casou e é questionado diariamente por sua mãe quando irá arranjar um esposa. Ou melhor, não apenas por sua mãe, pois que todos lhe perguntam o mesmo, até as matronas que lhe compram carne no açougue onde trabalha. O único que não lhe faz tal questionamento é seu companheiro de noites solitárias de sábado, Angie (Joe Mantell), com quem divide a “falta do que fazer” ou vontade de não fazer nada. Na realidade, Marty está cansado de rejeições, está farto de não conseguir pares nos bailes ou de levar foras a cada oportunidade em que telefona para convidar alguma garota para ir ao cinema. Prefere não mais sofrer a tentar e passar por mais uma rejeição. Contudo, devido à insistência da mãe, ele acaba por ir a uma casa de dança da vizinhança, “um lugar cheio de gatinhas”, diz ela. E é lá que ele encontra Clara (personagem de Betsy Blair), uma garota que também possui um histórico amoroso bastante frustrado por não ser especialmente atraente no que se refere à beleza. E é partir de então que a vida ambos estará destinada a mudar.



Este é o único filme relevante de Delbert Mann, um diretor egresso da televisão e que adaptou para a tela grande esta apologia do homem simples oriunda de uma peça escrita para a TV por Paddy Chayefsky, em uma iniciativa dos produtores Harold Hecht e Burt Lancaster (Lancaster, inclusive, usou o seu prestígio apresentando o trailer da produção). Aliás, este é um dos raros casos em que um longa adaptado da televisão acabou levando um Oscar de melhor filme e, de quebra, direção. Mas é bom que se diga que o longa-metragem “Marty” está longe das perspectivas caricatas ou unidimensionais comuns na tela pequena. Sem melodrama acentuado, apenas percebemos que ele não tem sucesso com as mulheres e anda desiludido com a sua situação, sentindo-se socialmente deslocado. O roteiro (escrito e adaptado pelo próprio Chayefsky) não se esforça para que tenhamos “pena” do protagonista, aliás, não há nem tempo para tanto, dados os seus enxutos 91 minutos de duração, concentrando-se em mostrar ao espectador como o protagonista se livra dos seus medos e pressões para buscar a sua felicidade. Olhando para o contexto dos anos 50, quando se vivia a neurose da Guerra Fria, o drama propõe o relevante comentário de que a felicidade das pessoas comuns vai bem além de questões político-sociais, passando, antes disso, por sentimentos simples como o de sentir-se aceito na comunidade em que vive.



Interessante ressaltar que a própria carreira de Ernest Borgnine reflete muito do tema do longa. Talentoso, Borgnine pouco exerceu papéis centrais nas películas em que atuou, geralmente sendo relegado a personagens coadjuvantes. Tal circunstância nitidamente está relacionada com sua aparência física, pois que não era especialmente bonito e tinha um biótipo acima do peso considerado adequado pelos padrões de beleza vigentes. Ou seja, Borgnine foi uma espécie de “Marty”entre os atores, rotineiramente relegado a um segundo plano por motivos ligados a superficialidades. É importante frisar, ainda, que o Oscar de melhor ator lhe foi muito bem entregue, posto que seria fácil cair em exageros de caracterização e fazer de Marty um “coitadinho”. Ao contrário, Marty nunca perde a sua dignidade e Borgnine não apela para olhos chorosos ou outros recursos banais. Basta compará-lo à performance de Betsy Blair para vermos a diferença entre um grande ator e uma atriz apenas esforçada. Blair, embora não comprometa o conjunto, passa boa parte das suas cenas como o olhar marejado, quando não chorando mesmo, o que confere à sua Clara o ar de “coitadinha” que não está presente no protagonista.

Uma pérola que não perdeu sua atualidade, “Marty” é um filme tão especial que conquistou não só o prêmio da Academia de Holllywood, como também a Palma de Ouro no Festival de Cannes e, é bom esclarecer, uma produção levar esses dois prêmios é algo bem raro de se ver (por mais irônico que isso possa parecer). O fato de ter encantado tanto europeus quanto norte-americanos nas suas mais caras premiações é uma bela demonstração da força universal deste pequeno conto sobre um homem simples, seus sentimentos e sonhos, que nada mais são do que ter a vida justamente de uma pessoa comum, com um cônjuge, um lar e filhos para cuidar. Essas pequenas coisas que muitas vezes esquecemos de sua importância, mas que, na verdade, são as que nos tornam plenos.


Cotação:



Nota: 10,00
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5 comentários:

renatocinema disse...

Um pecado ainda não ter assistido esse filme. Sempre ouvi falar bem.

Bacana seu link do filme a carreira do ator Ernest Borgnine.

Bem sacado.

Abraços

Cecilia Barroso disse...

Nossa, fiquei com tanta vontade de rever que vou fazer isso agora.
Belo texto!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Fábio, você me convenceu, tenho esse filme há anos e sempre vou adiando o momento de assisti-lo, talvez por não entender como um canastrão como Borgnine levou o Oscar. Do diretor, gosto de "Desejo", "Crepúsculo de uma Paixão", "Vidas Separadas" e principalmente o sofisticado e divertido "Carícias de Luxo".

O Falcão Maltês

Fábio Henrique Carmo disse...

Confesso que não conheço outros filmes de Delbert Mann, este foi o primeiro e único do qual já tinha ouvido falar antes. Gostei de suas dicas, Nahud, só não concordo que Borgnine seja canastrão. Acho que o problema é que quase sempre deram o mesmo papel para ele.

Abraço!

Maxwell Soares disse...

Eis um filme que peco por, ainda, não tê-lo visto. Tentarei sanar essa feriada, urgentemente. Não quero morrer antes. Um abraço, Fábio...