terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer


O Anjo Exterminador
(El Ángel Exterminador, 1962)


Luís Buñuel e a invenção do Big Brother



Muitos atribuem ao livro “1984”, de George Orwell, a grande inspiração para a criação do famigerado programa televisivo “Big Brother”, amado por muitos e odiado por outros tantos, e é verdade que o nome da atração foi retirada da citada obra ficcional. Entretanto, o seu formato, colocando os participantes confinados em uma casa, obrigados a conviver com outras pessoas, por vezes bastante distintas em personalidade (muito embora todas tenham em comum o fato de gostar de se expor), remete com maior propriedade a “O Anjo Exterminador” (El Ángel Exterminador, 1962), filme que constitui uma das obras máximas do cineasta espanhol Luís Buñuel, certamente o maior nome do Surrealismo cinematográfico e um dos mais ferozes críticos da classe burguesa. Afinal, neste longa-metragem extremamente original, último fruto de sua fase mexicana (iniciada após a sua saída da Espanha, com a guerra civil nos anos 30), vemos um grupo de burgueses confinados em um casarão logo após um jantar de gala, realizado a convite do proprietário. O mais curioso é que não se sabe o porquê desta imobilidade. Não há sequer uma porta trancada no imóvel e o grupo simplesmente se resigna a passar horas, dias e semanas restritos àquele ambiente, situação que os leva à animalização do comportamento, caindo todas as máscaras condicionadas pela moral burguesa.

Na realidade, talvez o porquê da situação sui generis nem seja exatamente importante. O próprio Buñuel chegou a afirmar, em uma entrevista, que o filme seria uma espécie de estudo sobre a natureza da vontade, procurando analisar o que leva uma pessoa a realizar atividades prosaicas como andar, rir ou mexer um braço. No entanto, a síntese oferecida pelo diretor esconde sua intenção de dissecar os costumes e artificialidades burguesas. Em verdade, Buñuel desfere um tiro certeiro na apatia e futilidade de uma classe ociosa e distante da realidade. Não por acaso, no desenrolar do roteiro (escrito pelo próprio diretor), os empregados da mansão sentem um desejo irrefreável e inexplicado de deixá-la imediatamente, como se soubessem que algo de muito ruim estivesse para acontecer ali. O único dentre estes que permanece é o mordomo, justamente aquele mais adaptado e inserido no modo de vida da outra classe, um tipo de “bruto domesticado”. Da mesma maneira, os únicos presentes ao jantar que são poupados do “martírio” se resumem a um idoso que vê com olhos críticos o evento e um casal de apaixonados que, apesar de tudo, se colocam acima dos demais por terem a capacidade de nutrir amor. Ou seja, Buñuel reserva sua tortura psicológica apenas àqueles contaminados pela moral burguesa.


O longa se inicia com uma espécie de apresentação dos personagens, recurso semelhante aos usados em filmes de tragédias ou aeroportos, onde são mostrados os integrantes da fauna social que vivenciará a narrativa. É nessa primeira parte que percebemos a superficialidade daquelas pessoas, como na fala marcante da personagem que diz que ficou mais consternada ao ver um príncipe morto do que diante de uma tragédia onde viu várias pessoas esmagadas por um trem, alegando para tanto que “os pobres sentem menos dor”. A anfitriã, por seu turno, possui um urso de estimação, algo totalmente non sense, mas que certamente denota uma pontada nas excentricidades que costumam povoar o comportamento de classes mais abastadas, pois que carentes de objetivos maiores na vida. Outra personagem marcante é a de Valquíria (papel da famosa atriz mexicana Silvia Pinal, que já havia trabalhado com Buñuel em “Viridiana”), que todos afirmam ainda ser virgem, mas desconfiam da veracidade dessa condição. Descobrimos, também, que o adultério é uma constante no comportamento do grupo, assim como a inveja e a desfaçatez, vícios humanos que ficam cada vez mais expostos à medida que o tempo passa. Com a angústia crescente no ambiente, atitudes tipicamente humanas afloram, como procurar um culpado para a situação, o que acaba sobrando para o anfitrião, justa e ironicamente um dos mais lúcidos e bem intencionados do grupo. E eis que a situação dos “aprisionados” começa a despertar a atenção dos moradores da cidade, o que nos remete mais uma vez ao citado programa televisivo. Uma multidão se aglomera pelas redondezas e começa a tentar acompanhar e saber os passos dos convidados, mas em nenhum momento a polícia chega a invadir o local para “salvá-los”, aguardando passivamente que eles resolvam sair.


Todas essas circunstâncias narrativas são mostradas com o tradicional poderio imagético de Buñuel, neste aspecto, até por ser herdeiro da tradição surrealista, um dos cineastas mais criativos em todos os tempos. A cena em que os convidados quebram as paredes em busca das tubulações de água para matar a sede é de uma mistura de drama e comédia que só poderia ter partido de uma mente genial. Ademais, Buñuel mais uma vez pontua a narrativa com imagens surreais que representam os pesadelos dos confinados, quase todos já no limite entre lucidez e insanidade, algo que nos remete ao “Ensaio Sobre A Cegueira” de Saramgo/Meirelles, ou, mais ainda, a Franz Kafka com suas ideias de situações limítrofes e inexplicáveis. Embora não seja este o filme em que Buñuel mais acentua sua veia anticlerical – este posto cabe ao mencionado “Viridiana”, seu filme imediatamente anterior (1961) – ele reserva para o desfecho as suas ferroadas na Igreja, mas este ponto fica para você realizar sua própria apreciação quando tiver a oportunidade de ver o longa.

O cineasta repetiria um mote semelhante em “O Discreto Charme da Burguesia” (Le Charme Discret de La Bourgeoisie, 1972), filme posterior de sua fase francesa, mas este “O Anjo Exterminador” é, de certa forma, mais acessível aos não iniciados na sua filmografia e, certamente, mais original. Luís Buñuel se revela, mais do que nunca, um profundo conhecedor das limitações humanas, além de se mostrar algo profético ao conceber a situação de seres humanos confinados em um ambiente por vontade própria (ou falta dela). Se estivesse vivo para acompanhar o sucesso dos reallity shows, é provável que ele desse boas risadas e ficasse envaidecido ao constatar que ele possuía inteira razão nas conclusões que tirou a partir de seu exercício criativo. Hoje, o Big Brother é a tradução moderna e rasteira desta obra singular do mestre espanhol, mas, claro, sem a arte desta.


Cotação:

Nota: 10,0
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6 comentários:

renatocinema disse...

Amo esse filme. O melhor do diretor em minha visão.

Celo Silva disse...

Pô, to com esse filme aqui a algum tempo, mas ainda não vi, do Buñuel gosto muito de VIRIDIANA e DISCRETO CHARME DA BURGUESIA, mas dizem q ANJO EXTERMINADOR é sua obra maxima, quero conferir para escrever sobre ele ainda esse ano. Teu texto me instigou bastante. Abração parceiro!

Película Criativa disse...

Ótima seleção!

Mas meu filme preferido do cineasta é O Discreto Chame da Burguesia.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Foi o primeiro Buñuel que vi. Fiquei impressionado.

O Falcão Maltês

Júlio Pereira disse...

Amo O Anjo Exterminador, meu Buñuel favorito. É impressionante como ele, ao confinar pessoas em uma sala estreita, expõe todas as hipocrisias da burguesia, retira sua máscara, revelando seus lados animalescos. Imagino Buñuel adaptando O Processo de Kafka... http://www.lumi7.com.br/2011/12/o-gato-de-botas.html

Lumi 7 disse...

tenho adoração por "O Anjo Exterminador", considero-o meu Buñuel favorito! ótimo texto. parabéns!
Wilson Antonio

www.lumi7.com.br