sexta-feira, 18 de julho de 2008

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Continuando a série, um clássico de Roman Polanski:

O Bebê de Rosemary
(Rosemary's Baby)

Muitos devem lembrar de Januário de Oliveira, narrador esportivo que fez sucesso na Bandeirantes dos anos 90, quando esta emissora passava todos os jogos de futebol que era humanamente possível transmitir (desde a final de uma Copa do Mundo até um desimportante Botafogo x Olaria ou Palmeiras x Mogi-mirim). Januário criou bordões futebolísticos que até hoje estão na memória dos amantes deste esporte, sendo os mais conhecidos o “Crueeeeeeeeeeeeeelllllll!!! Muiiito Crueeeeeellll”, quando um jogador marcava um gol ou fazia uma grande jogada e o “Siniiiiisssstro!!!! Muuuuuuuiiiiiiiiiitoo sinistro!!!!!!!!!!”, quando alguém perdia um gol feito ou realizava um jogada bisonha (dia desses fiquei chocado quando soube que o Januário perdeu as pernas e é por isso que ele deixou a narração de jogos...). Bem, mas por que começo esta resenha falando sobre algo tão distinto do cinema? Ora, porque a primeira palavra que me veio à cabeça quando acabei de assistir a “O Bebê de Rosemary” foi justamente o adjetivo “sinistro”! Não no sentido irônico e cômico usado pelo antigo narrador, mas em seu sentido literal. Esse filme é mesmo sinistro, muito sinistro!

Produção de 1968, “O Bebê de Rosemary” acabou se tornando um marco do gênero terror, estabelecendo um novo parâmetro para as produções posteriores. Dirigido por Roman Polanski, em seu primeiro filme no cinema americano, ele apresenta um viés extremamente psicológico que perturba e angustia o espectador. É tão psicológico que parece muitas vezes se afastar do “terror” para entrar no “suspense”, ao melhor estilo Hitchcock. Essa nova dimensão veio enriquecer largamente o gênero. Suas influências são sentidas, por exemplo, em “O Exorcista”, que apresenta também uma temática “demoníaca” e com nuances psicológicas muito bem trabalhadas; em “O Iluminado”, de Kubrick, onde também sentimos seus ecos (tal como o edifício onde Rosemary vive, o hotel onde Jack vai passar o inverno com sua família é mais um personagem da trama); ou mesmo em “A Hora do Pesadelo” de Wes Craven, com seus sonhos assustadores e canções infantis tenebrosas.

Baseado no romance de Ira Levin, o roteiro, também de Polanski, nos fala de um jovem casal que está de mudança para um novo apartamento em Nova York. O edifício onde ele se situa, no entanto, tem má fama, sendo conhecido na cidade por casos de assassinato e bruxaria que teriam acontecido anos atrás (na “vida real”, o edifício usado foi o famoso Dakota Building, que dispensa apresentações). Logo quando se instalam no novo lar, eles conhecem um outro casal, bem mais idoso, que se mostra bastante solícito e simpático (simpáticos até demais) e não tardam em oferecer um jantar aos novos moradores do prédio. Ao voltar para seu apartamento, Rosemary percebe uma estranha “empolgação” de seu marido - que é um ator ambicioso, mas cuja carreira parece destinada ao fracasso - em freqüentar o idoso casal, afinal eles são “ótimos vizinhos”. A partir de então, alguns fatos estranhos começam a acontecer. Primeiro, seu marido consegue um papel que já estava perdido porque o ator que estava escalado perde repentinamente a visão...(?!?!). Mas isso não parece importar, pois o que ela quer mesmo é realizar o sonho de ser mãe. Após uma noite de pesadelos estranhos, Rosemary se descobre grávida. A partir daí, ela própria começa a apresentar um comportamento estranho, que muitas vezes parece ser resultado das dúvidas e sensações de uma mãe de primeira viagem, mas em outras oportunidades parecem ir muito além disso.

É exatamente esta dúvida que permeia todo o filme: será que Rosemary está tendo abalos psíquicos conseqüentes da grande ansiedade da gravidez ou há algo realmente de errado com o filho que espera? A suposição de que seus vizinhos são bruxos merece crédito ou é apenas uma paranóia decorrente de sua gestação complicada?

Polanski nos conduz ao longo de toda a narrativa sem desfazer essa dúvida, que só é elucidada nos últimos minutos de projeção e isso sem que se utilize de artifícios como criaturas sobrenaturais, espíritos, monstros etc. Há apenas uma única cena em que uma criatura “estranha” aparece na tela e, mesmo assim, praticamente vemos apenas os seus olhos. Ou seja: “O Bebê de Rosemary”, como bem definiu o desenhista de produção Richard Sylbert, é “um filme de terror sem terror”. Portanto, não é bom vê-lo esperando se deparar com uma série de imagens sanguinolentas ou cheias de criaturas sobrenaturais. Todo o horror da situação nos é apresentado tendo em vista as sensações e impressões da personagem central.

É importante ressaltar também os aspectos técnicos da obra. Como dito acima, o edifício é mais um personagem da trama. O filme não seria o mesmo sem o Dakota, isso é uma verdade (fico até imaginando como John Lennon e Yoko Ono conseguiam morar nesse endereço). Ele por si só transmite um ar de mistério e sobrenatural que suplanta um monte de efeitos visuais realizados hoje em dia. O elenco está muito bem, com destaques para Mia Farrow (curiosidade: ela era a então Sra. Sinatra), ainda uma principiante no papel central, e Ruth Gordon, que faz a sempre solícita e atenciosa vizinha, trabalho que inclusive lhe rendeu o Oscar de atriz coadjuvante. O único que deixa um pouco a desejar é John Cassavetes, que faz o esposo de Rosemary. Não que ele esteja ruim, mas sua interpretação fica um pouco abaixo das demais, tendo alguns momentos que, sob um olhar rigoroso, soam como “excessivos” (e ficamos mais frustrados quando imaginamos que Jack Nicholson foi bastante cotado para o papel). Mas nada que prejudique significativamente o resultado final. E a trilha sonora conta com uma canção de ninar, a qual abre e fecha o filme, que é simplesmente sinistra (para repetir mais uma vez esse adjetivo). Aliás, esse “lá lá lá” é uma das coisas mais perturbadoras e quando o filme termina ele parece ficar ressoando na sua cabeça, dando a impressão de ter sido criado realmente para ninar o filho do tinhoso (vamos bater três vezes na madeira: Toc! Toc! Toc!).

Lembro que, a primeira vez que vi essa película, eu tinha então 15 anos e passou em um Domingo Maior (salvo engano), na Globo. Fiquei morrendo de medo e nem consegui dormir direito. O tempo passou e, mesmo mais velho, com muito mais barba no rosto, o filme continua impressionando. A seqüência final, então, é mesmo de arrepiar! O que mostra que essa é daquelas obras que não envelhecem, se perpetuam no tempo. E continua sinistra, muito sinistra!!!


Cotação:

Nota: 10,0
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3 comentários:

Luciana disse...

Oi, Fábio!! Menino, eu vi "Batman" ontem. Adorei!!! O roteiro, os atores, os efeitos... tudo!! Quero uma resenha, heim!!! rs

Bjus!

Luciana disse...

Ah, que pena que não foi o Jack Nicholson. Não sei se era intenção, mas ator de 'O Bebe de Rosemary' parecia um bobo sem personalidade facilmente influênciável. Se era a intenção, JN iria ter que se superar pq ele já tem sobrancelhas naturalmente maliciosas. hehehe

Fábio Henrique Carmo disse...

Oi,Luciana, obrigado por visitar e postar no meu blog! :)

Está aí a resenha de Batman! Ficou gigantesca!Hehehehhehehhehehe! Só para abreviar: o filme é sensacional, totalmente perturbado, do jeito que eu gosto! Impactante! Beijo!