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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Universidade Monstros

Recuperando a boa forma


Pode parecer estranho, mas eu nunca assisti a “Monstros S.A.” (Monsters, Inc.), animação da Pixar datada de 2001. Apenas vi alguns trechos em exibições na TV. Portanto, minha experiência ao assistir ao prequel “Universidade Monstros”, atualmente em cartaz nos cinemas, foi praticamente “verde” com relação ao universo dos personagens apresentados. Eu só sabia que se tratavam de monstros encarregados de assombrar as crianças à noite, uma maneira engenhosa de brincar com aqueles medos dos pequenos. Além disso, tinha conhecimento de que os simpáticos monstrinhos da animação trabalham em uma espécie de indústria especializada em provocar sustos na garotada e assim gerar energia para a cidade de Monstrópolis. A nova prequela trata de mostrar como esses monstros chegaram à função que exercem no primeiro episódio da franquia, narrando a sua vida de estudantes universitários na “Universidade Monstros” do título. A verdade é que, ao fim da sessão, fiquei me perguntando porque nunca havia dado chance ao primeiro filme. Um tremendo erro cinéfilo, agora admito.

Interessante como a Pixar sabe trabalhar com sequências de seus filmes. Tudo bem, “Carros 2” foi um desastre, mas cabe afirmar que o primeiro já não era lá essas coisas (o ponto mais baixo de sua fase, digamos, “áurea”). O que poderia ser tomado como falta de criatividade, acaba se transformando em algo de qualidade indubitável. Conseguiu gerar uma obra-prima com “Toy Story 3” (2010) e se sai muito bem nessa empreitada com os camaradas de Monstrópolis, resultando em um longa superior ao anterior “Valente” (Brave, 2012) o qual, mesmo tendo levado o Oscar de melhor animação (bastante duvidoso) e com material inédito, não convenceu muito a crítica. E, como sempre, realizando uma obra que alcança tanto o interesse das crianças quanto dos adultos. Aliás, no caso de “Universidade Monstros”, arrisco dizer que é uma animação mais adulta do que infantil, uma vez que não será muito fácil para os pequenos entenderem e se familiarizem com a cultura universitária ianque, repleta de sectarismos e divisões calcadas em “irmandades” que só aceitam fulanos ou sicranos (parece que ainda estão no primário e não na faculdade), algo muito explorado no enredo do longa.


O filme usa o ambiente dos universitários estadunidenses para tecer uma saudável crítica à cultura de “vencedores” e “perdedores” típica das terras do Tio Sam. Ser um estudante do Programa de Sustos da Universidade Monstros é o objetivo de Mike Wazowski (voz em inglês de Billy Crystal) no desde pequeno, quando resolveu que o destino de sua vida seria o de fazer parte da equipe de assustadores que atormenta os sonhos infantis. Como não possui um talento nato para o susto, compensa suas limitações com muito esforço e estudo e é por suas altas notas que é aceito no curso. Já James Sullivan (voz de John Goodman) entra para a Universidade Monstros por ser de uma famosa e tradicional família de assustadores, muito embora não seja muito dado a esforços. Ou seja, está no programa de sustos “jogando com o nome”, para usarmos uma gíria tipicamente futebolística. Inicialmente, eles nutrem antipatia mútua, mas depois de uma série de eventos, acabam disputando lado a lado uma competição entre as irmandades do campus. Eles fazem parte da Oosma Kappa, a irmandade dos “losers” e esquisitões.

Destarte, o roteiro, escrito por Robert L. Baird, Daniel Gerson e Dan Scanlon (esse último também é o diretor), não se resume a criticar a cultura competitiva dos Estados Unidos. Multifacetado, também aborda a aceitação e complementação entre os diferentes, o valor da amizade e a perseverança na busca da realização dos nossos sonhos. Tudo isso, claro, com muito humor e diversão à prova de gostos. As melhores produções da Pixar conseguem essa proeza que é a de agradar a vários tipos de humor, algo difícil de ser alcançado (e que é o sonho de todo comediante). O longa também possui ótimo ritmo, não se tornando desinteressante em nenhum momento, um mérito da direção de Scanlon.


Contudo, o aspecto possivelmente mais interessante de “Universidade Monstros” é a sua fuga dos clichês. Em certas passagens, quando estamos praticamente convencidos de que o longa se rendeu às previsibilidades, ele nos reserva novos caminhos inesperados que trazem à luz até mesmo conflitos morais e éticos. Algo realmente alentador em animações, as quais, devido ao seu caráter lúdico, acabam, por vezes, a turvar o senso crítico, fazendo-nos tolerar certos clichês ou maniqueísmos por se tratar de um produto que inevitavelmente desperta nosso lado infantil. Essa tolerância à vezes nos faz superestimar algumas produções, a exemplo do aclamado “Procurando Nemo” (Finding Nemo, 2003), que é muito divertido, mas não se pode negar que é permeado de clichês.

“Universidade Monstros” não é tão emocionante como o citado “Toy Story 3”, não alcançando o patamar de uma obra-prima. No entanto, trata-se realmente de um retorno da Pixar à sua boa forma ao aliar inteligência e diversão em igual medida, recuperando aquele espírito de “filmar como uma criança” tão presente em suas produções mais icônicas. E, principalmente, lembra-nos que, por mais sinuosas que sejam as estradas na busca de nossos sonhos, sempre é possível atingi-los. O mais importante é nunca desistir deles.


Cotação:



Nota: 9,5

Obs. O curta "O Guarda-chuva Azul" vale à pena ser conferido. Portanto, não chegue atrasado(a) à sessão.

terça-feira, 5 de março de 2013

Curtindo o Curta #6


"The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore" foi a animação vencedora do Oscar de melhor curta-metragem em animação de 2012. Realizado usando diversas técnicas, como miniaturas, computação gráfica e o desenho tradicional, o curta se constitui em uma espécie de declaração de amor aos livros e à literatura, com seu grande potencial de nos fazer viajar sem sair do lugar. Os diretores Brandon Oldenburg e William Joyce (este também autor do roteiro) tiveram como inpirações declaradas para a concepção do curta o ator Buster Keaton, o furacão Katrina, o clássico "O Mágico de Oz" e, claro, o amor pelos livros. Interessante como a essa categoria do Oscar é menosprezada por muitos, mas, com frequência, ela nos revela ótimas experiências e talentos. Os 15 minutos do video abaixo não serão perdidos, caso você decida vê-los. Bom curta!



domingo, 20 de maio de 2012

Curtindo o Curta #4


O mundo dos curtas de animação vai bem além daqueles produzidos pela Pixar e exibidos juntamente com seus longas. Um belo exemplo é este "A Casa de Pequenos Cubinhos" (Tsumiki no ie, 2008), do diretor japonês Kunio Kato, o qual destronou o referido estúdio estadunidense no Oscar de 2009, levando o prêmio na respectiva categoria (a Pixar concorria com o também ótimo "Presto"). É difícil condensar emoções em pouco tempo, mas Kato conseguiu a proeza de fazer refletir e comover em apenas 12 minutos neste filme que mostra um homem idoso que mora em uma cidade praiana. Ao longo do tempo, o nível da água vai aumentando e, desta forma, ele tem que erguer ainda mais sua moradia, levantada tijolo por tijolo. Certo dia, ao realizar a mudança dos seus móveis para a parte acima do nível da água, seu cachimbo favorito cai da boca e vai parar no fundo do mar. A partir daí, decidido a recuperar o querido cachimbo, o idoso compra uma roupa de mergulho e vai de encontro às lembranças de sua vida, que se apresentam lenta e nostalgicamente nos níveis inferiores e submersos de sua casa. O curta é de uma sensibilidade ímpar e, além de tecer um bela metáfora sobre a vida e a passagem do tempo, de quebra ainda deixa um comentário sobre os efeitos das alterações climáticas em nosso planeta. Veja abaixo. Garanto que " A Casa de Pequenos Cubinhos" ficará na sua memória.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer



O Rei Leão
(The Lion King, 1994)


Hamlet para os pequenos



Ainda me recordo com detalhes da primeira oportunidade em que assisti a “O Rei Leão” (The Lion King), produção dos estúdios Disney lançada no ano de 1994 (o do Tetra e lá se vão 18 anos!). Eu não havia assistido à animação nos cinemas, apesar do seu grande sucesso. Com 16 anos, eu estava naquela fase de esnobar animações porque eram “coisa de criança” e, tentando dar uma de “rapaz-cabeça”, também não gostava de valorizar filmes por seu apuro tecnológico. Quem insistiu para que eu visse o longa foi um grande amigo meu (abraço, Hendrick!), o qual sempre o elogiava muito. “Além de imagens muito bonitas, ele tem um estória emocionante”, dizia o meu camarada. Depois de muita insistência, ele me convenceu a assistir em VHS (ainda estávamos longe do DVD, minha gente!), com as imagens ampliadas e som amplificado por meio das parafernálias tecnológicas que o pai dele possuía, contribuindo para alcançar uma sensação próxima à da sala escura. A verdade é que, depois da sessão caseira, fiquei de fato impressionado com a beleza imagética da película e, mais que isso, gostei verdadeiramente da trama narrada, emocionante em vários momentos (“eu não disse que era massa?!”, falou o meu amigo).

Anos depois, já nos tempos de faculdade, tive a oportunidade de ler “Hamlet”, uma das obras-primas de William Shakespeare e de toda a humanidade. Percebi, então, que o filme dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff é uma versão para os pequenos do mencionado clássico (com algumas liberdades, claro). Afinal, o leão Mufasa (no original, com a voz marcante de James Earl Jones), rei da savana, é assassinado por seu irmão, Scar (voz inspirada de Jeremy Irons), morte esta presenciada pelo pequeno príncipe Simba (Jonathan Taylor Thomas quando criança e Matthew Broderick quando adulto), filho de Mufasa. Após anos de exílio, quando adota a filosofia de deixar os problemas de lado representada na expressão “Hakuna Matata”, a qual lhe é apresentada pelos novos amigos Timão (voz de Nathan Lane) e Pumba (por Ernie Sabella), Simba não consegue mais fugir de seu destino e retorna para vingar seu pai e retomar o trono que lhe pertence. Ou seja, em linhas gerais, trata-se da mesma trajetória do príncipe da Dinamarca, mesmo que simplificada. Mas esta simplificação não significa que a trama tenha sido idiotizada. Estão lá os elementos imanentes à obra do bardo inglês, como a força da família sobre o indivíduo; a necessidade de uma identidade própria que não o afaste de sua herança e passado; a força inescapável deste passado sobre o presente, entre outras questões que dão pano para manga de teses e mais teses de mestrado ou doutorado. Em contrapartida ao drama, alguns personagens coadjuvantes ganham relevo para atribuir um tom mais leve à narrativa. Além dos citados Timão e Pumba, temos ainda o pássaro Zazu (com impagável voz de Rowan Atkinson), a leoa Nala (Moira Kelly), responsável pelo inevitável romance com o protagonista, e as atrapalhadas hienas asseclas de Scar (uma delas com voz de Whoopi Goldberg).


Por outro lado, é claro que a Disney iria colocar o seu toque para tornar a animação algo inesquecível. E ela conseguiu seu intento, atingindo, inclusive, o público adulto. Afinal, é preciso ter um coração de pedra para não se comover diante da sequência da morte de Mufasa – a Disney, vale lembrar, adora explorar esse tipo de situação, vide a morte da mãe de Bambi no clássico de 1942. Também é praticamente impossível não restar impactado diante de sua fabulosa sequência de abertura, durante a qual somos apresentados tanto ao habitat cenário do enredo, quanto à família real que será o centro do mesmo, numa perfeita solução imagética capaz de situar e embevecer o espectador, preparando-o para o espetáculo que se seguirá. O estúdio utilizou, no caso, uma pioneira técnica de fusão de animação tradicional com recursos digitais que vinha aprimorando desde de “A Pequena Sereia” (The Little Mermaid, 1989) e teve continuidade com “A Bela e a Fera” (Beauty And The Beast, 1991), o primeiro longa de animação a ser indicado (com justiça, diga-se de passagem) ao Oscar de melhor filme. Um processo que ainda continuou com “Alladin” (1992) e que atingiu seu ápice com este “O Rei Leão”.

Com tais recursos, a Disney atingiu um patamar de autêntico deslumbre artístico e que ainda não foi igualado nem mesmo pela Pixar (talvez por esta se valer apenas de recursos digitais), que hoje, vale lembrar, é uma subsidiária do conglomerado da Casa do Mickey. Além do visual, é necessário dar um destaque especial à trilha sonora, cujas canções contaram com a contribuição de um Elton John deveras inspirado, com uma delas levando o prêmio da Academia de melhor canção (“Can You The Love Tonight” acabou por ser tornar um standard na carreira do músico). Frise-se, ademais, que este foi o último grande sucesso do estúdio dentro da sua antiga fórmula para animações, cheias de mensagens edificantes e números musicais entrecortando as ações. Suas tentativas posteriores, como “Pocahontas – O Encontro de Dois Mundos” (Pocahontas, 1995) e “Mulan” (1998) fracassaram diante da nova proposta, mais leve e menos formulaica, trazida pela citada Pixar com seu “Toy Story” (1995).


A despeito de tais fórmulas, “The Lion King” se coloca como um dos grandes momentos de uma das melhores fases dos estúdios Disney, detentor de uma estória de apelo atemporal. Revendo agora em blu-ray, percebi que o filme não chega a ser uma obra-prima, já que sua resolução me soou um tantinho apressada (a película tem apenas 88 minutos e uns 10 minutos a mais seriam bem-vindos) e alguns personagens terminam sendo pouco explorados e mal aproveitados (como a mãe de Simba). Todavia, tais problemas são pequenos diante da força emocional da narrativa e do impacto visual de suas cenas. Não por acaso, quando do relançamento em 3D nas salas dos Estados Unidos, o filme acabou atingindo uma surpreendente arrecadação, chegando mesmo a ocupar o topo das bilheterias. Uma manobra evidentemente comercial que serviria muito mais para divulgar o lançamento do blu-ray no mercado varejista, mas que com certeza deve ter feito muitos pais levarem seus filhos para conhecer essa animação tão cara à memória afetiva de toda uma geração. Sem dúvida, é certo que, diante de tal clássico instatâneo, vários destes pequenos tenham saído das salas de cinema tão empolgados como seus pais um dia saíram...


Cotação:

Nota: 10,0

domingo, 22 de janeiro de 2012

As Aventuras de Tintim - O Segredo do Licorne



Aquele velho (e ótimo!) gosto de aventura


Durante boa parte de minha vida (até os tempos da faculdade, mais ou menos), fui um consumidor voraz de quadrinhos. No entanto, devo confessar que, até devido a limitações financeiras, acabei muito adstrito às HQs de origem estadunidense, as quais sempre tiveram preços mais acessíveis que as edições de quadrinhos europeus como “Astérix” ou “Tintim”. Com relação ao herói gaulês acabei por ter mais acesso ainda garoto devido a um vizinho e amigo que me emprestava suas edições. Já o jovem jornalista criado em 1929 por Hergé (pseudônimo de Georges Prosper Remi) só se tornou mais familiar mais tarde, quando passei a ganhar meu suado dinheirinho de estagiário. Mas essa foi uma fase em que já estava me desprendendo da Nona Arte para aumentar meu interesse e conhecimento em livros e na Sétima Arte. Ou seja, a verdade é que não me aprofundei muito na obra de Hergé, mesmo que ainda tenha visto eventualmente algumas animações do seu herói na TV Cultura.

Digo isso para informar que talvez eu não seja o melhor conhecedor do personagem para avaliar se a sua adaptação para as telonas realizada por Steven Spielberg, em exibição nos cinemas, é ou não é fiel à obra gráfica do autor belga, até mesmo porque não passei por aquele encantamento infantil frequentemente tão importante para que um personagem more em nossos corações para o resto da vida. Portanto, minhas impressões vão se pautar quase exclusivamente pelo resultado na projeção. O que posso afirmar é que, enquanto cinema, “As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne” é um exemplar de primeira linha, trazendo-nos um frescor do Spielberg “aventureiro” que ele não havia conseguido recuperar com o seu “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008), o qual resultou apenas mediano, longe da empolgação da trilogia original do Dr. Jones.

É bom mencionar que Spielberg também não foi um fã infantil de Tintim. Ele descobriu o personagem a partir de comentários realizados por críticos à época do lançamento de “Os Caçadores da Arca Perdida” (Raiders of the Lost Ark), em 1981, afirmando que a ação de Indiana Jones tinha semelhanças com o tom aventureiro da HQ belga. O que era verdade, não somente no aspecto da ação, como também no teor colonialista presente em ambas as obras, as quais externam nas entrelinhas aquela visão arrogante tanto de europeus quanto de norte-americanos de que fazem parte do que se denomina “civilização”, o que lhes outorgaria o direito espoliar os “selvagens” de outros continentes (o que inclusive valeu a Hergé acusações de racismo em suas HQs, principalmente levando em consideração suas simpatias fascistas). Bem, de qualquer forma desde então o genial cineasta norte-americano nutria o desejo de realizar uma adaptação para o cinema, mas algo prático acabava impedindo suas intenções. O público ianque, em geral mergulhado no próprio umbigo, não conhece o personagem e isso quase inevitavelmente levaria a um fracasso nas bilheterias. Contudo, nesse meio tempo o mundo e o mercado cinematográfico sofreram significativas alterações. Hoje, o mercado norte-americano está perdendo a importância vital que havia para o sucesso ou fracasso de um filme e o meio internacional está adquirindo uma relevância cada vez maior. Boa parte das produções hollywoodianas hoje se pagam ou dão lucro com o que é arrecadado fora dos EUA e foi esse fator que certamente levou Spielberg, associado com outro mago do cinema atual, Peter Jackson, a acreditar na possibilidade de realizar o filme e ao menos não gerar prejuízos com a empreitada. E as perspectivas se confirmaram: enquanto nos EUA o longa só arrecadou US$ 60 milhões até agora, no mercado internacional a bilheteria já ultrapassou os US$ 350 milhões (foi um grande sucesso na Europa), já praticamente garantindo a continuação (quando Spielberg e Jackson deverão inverter os papeis como produtor e diretor).


A verdade é que o longa-metragem do aventureiro jornalista e do seu fiel escudeiro, o cachorrinho Milu, é mesmo divertidíssima e um espetáculo para os olhos. Desde a sua sequência inicial de créditos (que lembra bastante a de “Prenda-me Se For Capaz”, uma pérola despretensiosa do diretor), o filme impressiona tanto pelo visual como pelo ritmo de ação incessante. Filmado através da técnica de captura de performance que se tornou famosa desde a trilogia “O Senhor dos Anéis”, havia um temor de que as animações resultassem “sem vida”, com aquele vazio nos olhos ocorrido em trabalhos como “O Expresso Polar” (“The Polar Express”, de Robert Zemeckis). Todavia, felizmente não foi o que aconteceu. A técnica evoluiu muito e o resultado é realmente fantástico. Depois de 10 minutos de projeção chegamos a esquecer totalmente que se trata de uma animação, tamanho o realismo visto. A mais, a ideia de se realizar o longa-metragem de forma animada se mostrou feliz para dar vida a uma trama rocambolesca sem perder o espírito lúdico da HQ (o roteiro é do trio Steven Moffat, Edgar Wright e Joe Cornish, o mesmo de “Scott Pillgrim”). Nela, uma mistura das estórias de “O Caranguejo das Tenazes de Ouro” e “O Segredo do Licorne”, Tintim (Jamie Bell) passa a ser perseguido após comprar, em uma feira de antiguidades, uma réplica de um antigo navio que naufragou com um imenso tesouro a bordo. Pego pelo rico colecionador Sakharine (Daniel Craig), é então levado a um navio onde esbarra com o beberrão Capitão Haddock (Andy Serkis, ator que já se tornou especialista na captura de performance), um descendente do antigo capitão do navio afundado e que é o único que pode desvendar o mistério. Juntos, passarão por inúmeras peripécias, contando ainda com o cachorro Milu e a ajuda dos policias Dupont e Dupond (Nick Frost e Simon Pegg).


É sensacional observarmos uma animação guiada pela mão de um dos grandes diretores do cinema contemporâneo. Os ângulos das tomadas; o ritmo intenso, mas sem deixar que isso prejudique o entendimento da trama; as influências de outros cineastas (há uma sequência em uma biblioteca típica de Alfred Hitchcok); os travellings, os cortes inusitados e superposições de imagens... Todas as características que fazem um grande diretor estão presentes nesta aventura, que aparece aqui muito mais moderna que nos quadrinhos. Spielberg parece um pinto no lixo voltando a um território que talvez nenhum outro cineasta tenha dominado tão bem. Ademais, conhecido por suas concessões ao politicamente correto (como a famosa exclusão digital das armas em “E.T. - O Extraterrestre”), o diretor se mostrou ousado ao não suprimir o alcoolismo do Capitão Haddock – tipo muito divertido, por sinal, que sempre me fez lembrar do Mussum dos Trapalhões – e ao permitir que o protagonista use armas de fogo, principalmente se recordarmos que uma animação por si só já possui um forte apelo junto às crianças. Adicione-se a isso um outro destaque técnico. Esta foi a primeira experiência dele com o formato 3D. Eu não sou fã do 3D (como já externei em outras ocasiões), mas confesso que aqui ele realmente fez diferença, gerando uma imersão significativamente maior do que seria no formato tradicional. Ademais, John Williams se mostrou inspirado com a trilha sonora, marcante e sempre muito bem colocada ao longo dos 104 minutos de duração. Destarte, como em 90% das produções do gênero, há alguns aspectos do roteiro que ficam explicados às pressas e a sua conclusão em aberto, que serve de gancho para o futuro segundo episódio, é algo que sempre me incomoda. A quase ausência de personagens femininas(não há uma relevante em toda a narrativa) também foi algo que me incomodou, característica que deixa o longa com uma talvez excessiva cara de “filme de menino”.

Muitos afirmam que, entre os dois quase simultâneos lançamentos de Steven Spielberg, este “As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne” se mostra bastante superior a “Cavalo de Guerra” (War Horse). Não posso confirmar, pois o filme do equino simplesmente ainda não foi exibido na minha cidade, mas asseguro que a adaptação dos quadrinhos de Hergé se saiu de maneira muito satisfatória, altamente propensa a resgatar a aquele gostinho antigo das aventuras que Spielberg nos entregou há algumas décadas. Se eu fosse um garoto de 10 anos provavelmente teria saído maravilhado da sessão e admito que, ao fim da projeção, voltei um pouco a ser menino, já ávido pela próxima aventura do garoto-jornalista, seu cachorro Milu e o Capitão Haddock.


Cotação:

Nota: 9,0

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Curtindo o Curta #2


O conto de Charles Dickens "A Christmas Carol" já foi adaptado para a tela várias vezes, como em "Os Fantasmas de Scrooge" (2009), animação em 3D dirigida por Robert Zemeckis. No entanto, a mais antiga lembrança que tenho desta bela estória natalina se deve ao curta de animação "Um Conto de Natal do Mickey" (Mickey's Christmas Carol), realizado pelos estúdios Disney em 1983 e sempre reprisado pela Rede Globo na época em que lembramos o nascimento de Cristo (ao menos no meu tempo de criança era uma atração certa na programação de fim de ano). Nele, Ebenezer Scrooge, o velho ranzinza e mesquinho que não compreende sentimentos como amor e solidariedade, está na pele do Tio Patinhas, enquanto o seu empregado oprimido e mal tratado é vivido por Mickey. Scrooge receberá a visita de três espíritos na noite de Natal que o procurarão mudar a sua visão de mundo. Abaixo, segue o curta (que foi inclusive indicado ao Oscar como melhor curta de animação) dividido em 3 videos (são 25 minutos ao todo). Esta é a forma do "Cinema Com Pimenta" desejar um feliz Natal para todos, repleto de paz e harmonia, mesmo para aqueles que eventualmente não acreditem em Jesus Cristo. Que Deus abençoe a todos!






sexta-feira, 28 de outubro de 2011

7 robôs marcantes do cinema

Com a estreia de “Gigantes de Aço”, longa onde robôs ocupam o lugar dos humanos nos ringues, o Cinema Com Pimenta publica uma lista (mais uma delas) destes seres artificiais responsáveis por momentos marcantes na Sétima Arte. Como sempre, a lista segue com 7 itens. Confira abaixo, sem ordem de preferência.


HAL 9000 – Sem dúvida, o personagem mais marcante de “2001 – Uma Odisseia No Espaço”. Kubrick foi um dos pioneiros na abordagem da inteligência artificial no cinema e HAL se consagrou como o ícone máximo do embate homem-máquina, mostrando que não apenas possuía inteligência, mas também sentimentos! (???). Paranoico que só ele, HAL ameaça a tripulação da nave Discovery após descobrir que será desativado. Inesquecível a sequência em que ele implora a Dave para não ser desligado, tentando se fazer de inocente e apelando para a compaixão do astronauta. Momento genial de um filme que é inteiramente genial.


R2-D2 – O robozinho querido de todo fã da série “Guerra nas Estrelas”, em contraposição ao chatíssimo C3PO. Por sinal, o que seria de Luke Skywalker sem ele?


Wall -E – Outro robô diminuto, mas inesquecível. Wall – E, habitante de um planeta Terra transformado em lixão, é mais humano que a maioria dos seres humanos. Um robô com alma de artista, protagonista do filme que leva seu nome. A Pixar atinge aqui um dos seus melhores momentos!



Rachael – A replicante interpretada por Sean Young em “Blade Runner – O Caçador de Androides” encanta Deckard (personagem de Harrison Ford) e o público com sua sensibilidade e a angústia de descobrir que é um ser artificial e não uma humana. Filosofia pura naquele que talvez seja o melhor filme de Ridley Scott! Bom, “Alien – O Oitavo Passageiro” também fica no páreo, mas “Blade Runner” é obra-prima.



David – Protagonista de “A.I. - Inteligência Artificial”, um garoto robô (papel de Haley Joel Osment) que deseja ser um menino normal e pede à Fada Azul que realize o seu sonho. O filme seria perfeito se terminasse justamente com David pedindo à Fada que o transformasse em um menino de verdade. Mas Spielberg, com sua tendência ao sentimentalismo, tratou de nos oferecer aquele final com jeito de comercial de amaciante Fofo. Uma quase obra-prima com um deslize grande no fim;



T-800 – Arnold Schwarzenegger já havia despontado para os holofotes em “Conan, o Bárbaro”, mas foi como o androide caçador de John Connors em “O Exterminador do Futuro” que ele se transformou em um grande astro. O filme teve mais três continuações, com outros robôs com a missão de destruir o futuro líder da resistência dos humanos contra as máquinas, mas nenhum foi tão carismático quanto o personificado por Arnoldão!



Maria – A precursora de todos os robôs do cinema é a imagem mais marcante e icônica de “Metrópolis”, o clássico da ficção-científica dirigido por Fritz Lang em 1927. Na verdade, a robô Maria é a contraparte malévola da personagem de mesmo nome que funciona como uma líder dos trabalhadores oprimidos pelo Mestre na cidade onde se passa a trama. Filme para ser visto e revisto e que eu estou precisando rever!

Bem, imagino que você deva ter os seus preferidos. Fique à vontade para discordar ou concordar aí nos comentários. Afinal, listas só servem para isso mesmo...

sábado, 22 de outubro de 2011

Aguardando por Tintim


Eu já estou em grande expectativa pela estreia de "As Aventuras de Tintim - O Segredo do Licorne". O ótimo personagem saído das HQs de Hergé terá sua adaptação, como muitos já devem estar sabendo, dirigida por Steven Spielberg e produzida por Peter Jackson. Já estão previstas mais duas sequências. No próximo filme, as posições serão invertidas, com Jackson assumindo a direção. Para o terceiro, existe a possibilidade de que James Cameron fique com a batuta. Os trailers do primeiro episódio, um dos quais você pode ver abaixo, são bem estimulantes, onde percebemos que Spielberg está no seu terreno mais caro ao abordar uma aventura à moda antiga (no melhor estilo Indiana Jones). Só uma coisa me incomoda: as animações realizadas em motion capture aparentemente ainda não conseguiram resolver o problema da expressão dos olhos, que à vezes parecem de bonecos, algo que não acontece nos filmes em live action, como prova o mais recente "Planeta dos Macacos". Por que será?


quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Brave": poster e teaser trailer


Enquanto o primeiro grande fiasco da Pixar está em exibição nos cinemas (preciso dizer que se trata de "Carros 2"?), foram divulgados o primeiro poster e o primeiro trailer de sua próxima produção, "Brave". Aparentemente, o filme promete honrar o nome do estúdio de John Lasseter e fazer o público esquecer desse tropeço de 2011. A trama do novo longa se passará nas místicas montanhas da Escócia, onde Merida é a princesa do reino governado pelo Rei Fergus e a Rainha Elinor. Filha rebelde e ótima arqueira, Merida acaba por fazer escolhas erradas que colocam o reino e os seus pais em perigo. Ela vai ter que lutar contra as forças da natureza, magia e uma antiga maldição, tudo para poder salvar o seu reino. O poster você já viu acima e o trailer você pode conferir logo abaixo. Aguardando!


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Para Ver em Um Dia de Chuva


Akira
(Akira)


Adolescência apocalíptica


Já havia algum tempo, o DVD de “Akira”, a obra máxima do japonês Katsuhiro Otomo, se encontrava na minha estante de filmes, em meio às dezenas de outros longas-metragens aos quais eu ainda não havia assistido, e isso apesar da minha grande curiosidade em vê-lo. Pois bem, eis que finalmente decidi apreciá-lo e, atendendo às minhas expectativas, o filme, em boa parte, não decepciona, se mostrando surpreendentemente atual em várias de suas facetas e, mesmo nos aspectos técnicos da animação, ainda dotado de muita beleza.

Antes de tudo, “Akira” procura traduzir em imagens o turbilhão de emoções à flor da pele que é a adolescência. Seus protagonistas, Kaneda e Tetsuo, integrantes de uma gangue de motociclistas, são espelho tanto da inconsequência, quanto da revolta e sentimento de inadequação que caracterizam esta fase da vida. Tetsuo, o garoto que é alvo de uma experiência que potencializa os poderes de sua mente, é a síntese destes conflitos, ainda mais agravados pelo fato do mesmo ser uma vítima de bullyng e sempre precisar da ajuda se seu amigo Kaneda, uma espécie de irmão mais velho, para escapar das enrascadas em que se envolve. Imaginar um adolescente ressentido com poderes telepáticos quase infinitos, capazes de promover a destruição de tudo que se encontrar no caminho é algo assustador e nos lembra até mesmo de fatos recentes, como o do atirador da escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, ou dos estudantes que abriram fogo no Instituto Columbine, nos EUA, há alguns anos. Por outro lado, essa abordagem não deixa de refletir o temor que a sociedade japonesa tem de seus jovens. Extremamente conservadores e tradicionalistas, é difícil para os japoneses aceitarem qualquer forma de iconoclastia e isso se traduz no receio com relação às gerações mais novas, o que redunda em uma repressão que conduz vários desses jovens ao suicídio.

Os japoneses, ademais, costumam expressar seus medos coletivos de forma bastante explícita em seus meios artísticos. O cinema, ao longo de décadas, tem servido de divã para esses temores, como bem demonstra o excepcional “Sonhos”, do mestre Akira Kurosawa, onde o horror nuclear aparece em mais de um dos sonhos (contos) que constituem as diversas narrativas do filme. Otomo, não fugindo à regra, também manifesta esses medos de maneira acentuada nesta obra, que foi primeiramente um manga de sucesso escrito pelo próprio diretor. Afinal, a trama de Akira, é importante explicar, insere-se em um contexto pós-apocalíptico, quando a terceira guerra mundial já haveria ocorrido, com a antiga cidade de Tóquio varrida do mapa. Em seu lugar, foi construída Neo-Tóquio, uma metrópole sombria e turbulenta dominada por jovens delinquentes e grupos políticos anarquistas. Neste contexto, os militares se impõem como força da ordem e adquirem poderes quase ilimitados, seqüestrando pessoas para servirem de cobaias no projeto Akira (daí o título do filme). O nome do projeto se refere a um garoto especialmente poderoso que, com seus talentos fora de controle, teria sido o responsável pela destruição da antiga Tóquio. É de tais experiências que Tetsuo é cobaia, como já mencionado no início deste texto, logo após esbarrar, durante uma das brigas de gangues, em uma das crianças especiais que havia escapado das instalações militares. Kaneda, então, se empenha em sua busca, tendo de contar, para tanto, com a ajuda dos grupos paramilitares anarquistas.



Toda essa apoteose de paranoias nipônicas tem uma ambientação cyberpunk que remete a longas de ficção-científica anteriores, como o inevitável “Blade Runner”. Mas seria leviano afirmar que Otomo se limita a realizar um pastiche de obras predecessoras. Seu universo possui uma inegável originalidade que influenciou vários outros autores, até mesmo em suas características imagéticas (em determinadas sequências, “Ronin”, uma das grandes HQs de Frank Miller, me veio à mente, percebendo assim a influência de “Akira” em obras ocidentais). Entretanto, e aqui vai uma ressalva, tal universo em diversos momentos se apresenta muito hermético para os não iniciados nos mangas e animes japoneses. Sua conclusão, bastante abstrata e que, por vezes, parece sugerir que o espectador conheça previamente a obra em quadrinhos, é um exemplo claro desta afirmação (muito embora seja distinta da escrita para o manga).

Em aspectos técnicos, Akira também foi responsável por uma enorme evolução, principalmente no âmbito da produção japonesa. A fluidez alcançada pelas técnicas empregadas só era comparável à qualidade dos estúdios Disney (o que, inclusive, deixou a Casa do Mickey de orelhas em pé), estando muito além dos recursos utilizados nos animes até então. A perfeita sincronia entre as vozes e os gestos faciais foi surpreendente, assim como a ampla gama de cores utilizadas, as quais contribuíram em muito para dar vida e um clima diferenciado à cidade de Neo-Tóquio.

Dotado de uma violência gráfica talvez nunca antes vista em uma animação, é preciso alertar que “Akira” não é uma experiência que agrade a todos, mas é bom lembrar que o próprio gênero da ficção-científica não é uma unanimidade. Contudo, se estiver procurando uma experiência cinematográfica diferente do feijão com arroz cotidiano, a jornada do perturbado Tetsuo se apresenta como uma opção bastante interessante e, com certeza, obrigatória para os interessados na cultura nipônica, além de expor muito do inconsciente coletivo desta sociedade e, porque não, também da sociedade ocidental, hoje repleta de jovens enfurecidos dispostos a extravasar de maneira violenta seus ressentimentos.


Cotação:

Nota: 9,5

sábado, 9 de abril de 2011

Rio



Nossas contradições


Nós, brasileiros, costumamos nos entusiasmar e enaltecer nossos compatriotas que alcançam destaque internacional, seja no esporte, na música, na literatura, nas ciências naturais ou, como no caso de que trata este texto, no cinema. O carioca Carlos Saldanha, um dos grandes diretores da área de animação na Hollywood atual, é hoje o espelho para os nossos cineastas ao lado de nomes como Fernando Meirelles e Walter Sales, encarnando esse nosso desejo de aceitação pelos mais “ricos” ou “desenvolvidos”. Um sentimento, vale dizer, herdado da nossa condição de colônia e que insiste em se perpetuar (realmente, aspectos culturais de uma nação são muito difíceis de mudar). Em seu novo trabalho, Saldanha, de uma certa forma, não foge dessa necessidade de aceitação. “Rio”, a aventura de uma arara azul pela Cidade Maravilhosa, possui aqueles elementos que muitos poderiam classificar como “Brasil pra gringo ver”. Estão lá o carnaval, as praias, o samba, nossa fauna e flora. E também as favelas e a criminalidade, já que estas passaram a fazer parte do imaginário estrangeiro sobre nossa terra desde “Cidade de Deus”.

Mas é interessante que, mesmo trabalhando a partir de estereótipos, o diretor consegue construir um todo que foge da caricatura, obtendo um resultado positivo com relação à imagem de nosso país ao mesmo tempo em que não se esquece de abordar alguns de nossos sérios problemas. A começar pelo motor da trama: o tráfico de animais silvestres. É devido a ele que a pequenina arara azul Blu (voz de Jesse Eisenberg no original) vai parar no estado norte-americano e friorento de Minnesota, onde acaba sendo criado pela tímida Linda (Leslie Mann) ao longo de muitos anos. Devido à proteção e à distância de seu habitat natural, Blu acaba por não desenvolver uma das principais características de um pássaro: ele não sabe voar. Sua vida confortável, entretanto, é abalada pela chegada de Túlio (voz de Rodrigo Santoro), um pesquisador brasileiro que vê em Blu a chance de salvar a espécie da araras azuis por meio de seu acasalamento com a fêmea Jade (voz da atual queridinha de Hollywood Anne Hathaway). Blu e Linda partem, então, para o Rio de Janeiro, onde Blu deverá acasalar-se com Jade. O casal de araras, contudo, acaba sequestrado por traficantes de aves e, em seguida, vivendo uma série de peripécias ao lado de outras aves nacionais, como um tucano, um canário e um galo-de-campina. Nota-se, durante a projeção, que há uma preocupação em expor nossas contradições sociais, como no contraste de imagens que mostram a favela em contraposição à belíssima paisagem da metrópole que se avizinha mais abaixo. Ademais, o personagem de um garoto favelado está ali posto para não nos esquecermos que a pobreza é, em boa parte, responsável pela criminalidade.

À parte a exposição de nossa terra, percebe-se que a trama (com roteiro de Don Rhymer) se desenvolve como o amadurecimento de um filho muito protegido que precisa encontrar seus próprios caminhos. Não há metáfora mais clara para tanto do que um pássaro que precisa aprender a voar, embora acredite que não consegue. Na realidade, Blu estava acomodado em um ambiente de conforto e proteção e tem de passar pelo processo de amadurecimento, de deixar o lar “materno” para construir o seu próprio. Claro que tudo isso de forma leve e recheada de humor. Saldanha, como demonstrou na série “A Era do Gelo”, é um mestre nas gags e há várias em “Rio” que desmontarão mesmo o mais ranzinza dos espectadores. O mais interessante neste ponto é que o diretor soube se utilizar de elementos típicos da cultura brasileira para fazer soltar as risadas, como nossa paixão por futebol e até mesmo o desfile das escolas de samba na Sapucaí. Saldanha sabe usar, ainda, referências cinematográficas, como a ideia de Blu e Jade andarem acorrentados, remetendo a “Os 39 Degraus”, um dos filmes da fase inglesa de Alfred Hitchcock. Ademais, a animação tem uma belíssima “fotografia” do Rio de Janeiro, não deixando em nada a dever às paisagens que, sabemos, são tão ou até mais bonitas que na tela. A trilha sonora também sabe explorar várias nuances de nossa música, passando por samba, bossa nova e até mesmo o funk, muito embora a utilização de “Mas Que Nada”, de Sérgio Mendes (que fez parte da equipe musical do longa), em determinada sequência, tenha caído no banal. Todavia, certos buracos no roteiro incomodam. Embora a mencionada cena dos desfiles na Sapucaí seja muito bem realizada em termos técnicos, ela se encaixa muito mal no desenvolvimento do roteiro, perecendo que foi colocada a fórceps porque havia a necessidade de inseri-la em qualquer parte da trama. Da mesma maneira, o desfecho do longa soa apressado e contando com uma espécie de videoclipe de propaganda do Rio de Janeiro.

“Rio” tem lançamento com recorde em número de salas no Brasil (1008, mais precisamente) e a Fox gastou cerca de 74 milhões de dólares com o marketing do filme em todo o mundo. Isso revela um pouco da importância que o País vem assumindo tanto como mercado consumidor como quanto expoente cultural. “O Brasil está na moda”, dirão alguns, o que não deixa de ser verdade. Basta acompanharmos o noticiário não só nosso como do exterior para percebermos que não somos mais vistos com um “vira-latas” entre as nações (há pouco tempo uma propaganda republicana contra Barack Obama colocou o Brasil entre os maiores credores dos EUA, só para ter uma noção). Resta a nós mesmos nos livrarmos dessa síndrome. O filme de Carlos Saldanha se situa, nesse contexto, a um meio termo. O diretor reflete que temos orgulho de nosso país, mesmo com os seus problemas, mas ainda sentimos necessidade de mostrar um Brasil para os gringos verem. E isso, observem bem o paradoxo, por meio de um dos maiores estúdios do cinema norte-americano. E lá vamos nós, lotar os cinemas para ver o Brasil da Fox. Mesmo que merecidamente (afinal, o longa é mesmo divertido e apto a agradar toda a família), tal circunstância acaba se colocando como mais um exemplo de nossas velhas contradições.


Cotação:

Nota: 8,5

domingo, 20 de março de 2011

Rango


Western Spaghetti animado


O tempo passa e cada vez mais demonstra o tamanho da influência que um certo cineasta italiano exerceu e ainda exerce sobre o imaginário do cinema hollywoodiano e mundial, por extensão. Nos anos 60, o diretor Sergio Leone reinventou o gênero western com a trilogia do “Homem Sem Nome”, protagonizada por um ator que mais tarde se transformaria em uma lenda da sétima arte: Clint Eastwood. Ao longo dos anos, vários foram os outros cineastas que prestaram tributo em suas obras aos filmes seminais de Leone, sendo Quentin Tarantino o exemplo mais forte dessa vertente.

Talvez inspirado por Tarantino, Gore Verbinski também resolveu prestar sua homenagem ao western spaghetti com “Rango”, primeira incursão tanto do diretor quanto do estúdio Paramount no terreno das animações. Anteriormente, Verbinski já mostrava afinidade em trabalhar no universo das “aventuras de época”, tendo em vista o sucesso da franquia “Piratas do Caribe”, comandada pelo mesmo (o que inclusive explica a escolha de Johnny Depp para a voz do protagonista na versão original em inglês). E não seria de estranhar que também obtivesse sucesso no mundo animado, já que sempre demonstrou trabalhar bem o lado do humor nos seus longas, cheios de tiradas espirituosas e gags criativas que nunca resvalam no mau gosto. Este “Rango”, é bom ressaltar, não foge à regra.

Divertido e inteligente, sua premissa demonstra uma originalidade incomum na mesmice do cinema norte-americano atual. A narrativa mostra a saga de um camaleão que vive em um aquário de família, ensaiando com seus amigos inanimados (um peixinho de plástico, um busto de boneca, um inseto morto e um coqueiro artificial) no sonho de um dia se tornar um grande ator. Devido a um acidente, ele é jogado pra fora do automóvel em que a família viaja, vendo-se assim às margens de uma auto-estrada e diante de um imenso deserto. Mais tarde, acaba chegando à cidade de Poeira, onde acaba se tornando o xerife local após a população acreditar em sua persona inventada de grande pistoleiro que veio do Oeste. O maior problema de Poeira é a escassez de água, cuja quantidade restante fica depositada no banco local, e seus habitantes começam a ver no forasteiro uma espécie de messias que trará de volta o precioso líquido para a região.

É interessante perceber como Hollywood vem se tornando politizada, fazendo críticas abertas ao sistema até mesmo em animações. Não só banqueiros como governantes são diretamente criticados ao longo da trama e esta também não deixa de servir de alerta ambiental, já que, obviamente, a escolha da água como bem escasso e essencial como mote do seu desenrolar não pode ser à toa. Contudo, não se pode negar que o foco de “Rango” (o nome adotado pelo herói acaba sendo uma homenagem tanto a Durango Kid, cowboy de cine-série da Columbia nos anos 40, quanto a “Django”, filme e personagem imortalizado por Franco Nero) é mesmo a jornada do herói sem passado, o “homem sem nome” imortalizado por Eastwood, como acima mencionado. Assim, nada mais adequado, para tanto, que a figura de um camaleão para representar alguém sem identidade definida. A busca dessa identidade é que se torna a grande saga de Rango e o leva a se encontrar com o Espírito do Oeste em busca de uma resposta (representado por uma versão animada do próprio Clint Eastwood, o qual foi convidado para fazer sua voz, mas acabou recusando a proposta).

Toda a narrativa, por sinal, é pontuada por uma série de referências a clássicos do cinema como “Apocalypse Now”, passando por “A Felicidade Não Se Compra” e chegando até mesmo a (pasmem) “Morangos Silvestres”. Entretanto, embora faça a festa dos cinéfilos, tais recursos acabam por trazer um possível hermetismo ao filme, já que a maior parte dos espectadores não perceberá as referências e muito menos os pequenos, os quais sempre serão consumidores das animações, por mais que estas estejam cada vez mais repletas de elementos para o público adulto. Por outro lado, o roteiro (escrito por John Logan, James Ward Byrkit e o próprio Gore Verbinski) se desenvolve muito bem em seu início, com uma ótima apresentação de personagens, cada um com suas características pitorescas, como Feijão, a lagarta que acaba se tornado o interesse romântico do herói. Todavia, acaba por pecar em seu desfecho, o qual se torna apressado, deixando no ar a explicação para alguns acontecimentos do fim da trama (muito embora possua uma sequência final de créditos excelente).

Talvez o grande problema de “Rango” seja justamente o fato de se limitar a ser uma homenagem a um gênero, o que retira uma boa parcela de sua originalidade e o deixa previsível em muitos pontos. Assim, o que era para ser diferente acaba se tornando clichê e o filme, que poderia até se tornar memorável, acaba sendo uma ótima diversão, mas tão somente isso. Verbinski acaba por abdicar da originalidade para se colocar apenas numa posição de reverência. Assim, o sabor diferente da primeira metade do longa transmuda-se, ao seu final, em uma considerável sensação de dejá vu. Em consequência , “Rango” se coloca tão somente como um bom e divertido western spaghetti, só que desta vez animado.


Cotação:

Nota: 8,0

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Pinóquio
(Pinocchio)


Uma fábula atemporal



É muito provável que você já tenha escutado uma canção chamada “When You Wish Upon A Star”, a qual se tornou um clássico do cancioneiro popular norte-americano (se não ouviu, basta clicar no display ao fim desta resenha). Pois bem, ela recebeu o Oscar de melhor canção (com justiça) em 1941, ajudando a consagrar o filme do qual é tema, “Pinóquio”, o segundo longa-metragem em animação dos estúdios Disney.

Após o estrondoso sucesso de “Branca de Neve e Os Sete Anões”, a primeira animação em longa metragem do cinema, realizada em 1937 e que, até hoje, serve como patamar de referência para os estúdios de animação, seria difícil para Walt Disney igualar o nível de sua empreitada pioneira. A começar pelo material básico. O conto “Pinocchio” de Carlo Collodi (de 1883) era muito sombrio e Disney teve que determinar à sua equipe algumas alterações para que ele se tornasse mais palatável ao grande público. Os personagens também não se mostravam tão carismáticos quanto os de “Branca de Neve”, o que levou a equipe a inserir alguns outros, como o Grilo Falante. Além disso, a trama apresentava desafios técnicos enormes, tais como a sequência envolvendo a fuga de uma baleia em alto mar. Entretanto, Disney sempre afirmou que sua grande meta era quebrar barreiras e desta vez não foi diferente. Mesmo tendo uma estreia difícil, com uma bilheteria abaixo do esperado (o mundo estava em guerra quando foi lançado), a animação, ao longo dos anos, cresceu junto aos olhos da crítica e do público, fazendo jus ao esforço de seu idealizador.

A narrativa trata de um boneco de madeira construído pelo artesão Gepeto que adquire vida por obra da Fada Azul, atendendo a um pedido do velho solitário. A partir de então, o grande desejo de Pinóquio é se tornar um menino de carne e osso. Todavia, para conseguir seu objetivo, deverá mostrar valentia, dedicação, lealdade e disciplina, entre outras virtudes necessárias. Seu objetivo começa a sofrer atropelos quando é assediado por João Honesto, um larápio que o convence de que pode ser um grande ator, apesar da insistência em contrário do Grilo Falante, o qual possui a missão de ser a sua “consciência” (e foi primeiro personagem da Disney a falar diretamente com os espectadores). O intuito de João Honesto, na verdade, é vendê-lo para o saltimbanco Stromboli, dono de um show de marionetes que vagueia pelas redondezas. É aqui que começa o lado sinistro da narrativa e percebemos o quanto o longa ainda permanece atual. A exploração da inocência continua tão frequente quanto em outros tempos (talvez tenha até aumentado) o que torna “Pinóquio” até mesmo um filme necessário, hoje, para os pequenos. Os noticiários estão repletos de casos de crianças desaparecidas, sequestradas ou abusadas sexualmente e as cenas que mostram o menino de madeira preso a uma gaiola podem, infelizmente, retratar a realidade de muitos inocentes no presente momento.


É interessante notar, ademais, como Pinóquio retrata com perfeição o comportamento infantil, mesmo levando em consideração a “esperteza” das crianças de hoje. Toda criança, em determinada fase, mente aos adultos para esconder suas peraltices e isto é mostrado com rara eficiência na clássica sequência em que o nariz de Pinóquio cresce a cada mentira que conta para a Fada Azul. A indisciplina infantil também é retratada de forma perfeita nas desventuras de Pinóquio na Ilha dos Prazeres. Mal influenciado pelo garoto Espoleta (demonstrando o quanto as más influências podem ser nocivas ao comportamento das crianças), o protagonista se entrega a toda sorte de prazeres proibidos aos pequenos, como fumar, jogar ou se entupir de guloseimas. A consequência é que os garotos, aos poucos, vão se transformando em burros, numa analogia clara com os resultados que a falta de estudo ou dedicação ao trabalho podem trazer. A passagem na Ilha dos Prazeres também possui tons bastante sinistros (tal como no cativeiro de Stromboli), mas é importante ressaltar que a equipe (com direção de Hamilton Luske e Ben Sharpsteen) soube realmente minorar o lado sombrio para torná-lo palatável ao público (principalmente às crianças).

O caráter técnico, por sua vez, é realmente impressionante. Várias sequências são de extrema beleza , com um apuro técnico capaz de impressionar até os dias hoje, dominados pela computação gráfica. Verdadeiras pinturas animadas surgem na tela, com texturas e cores que mesmo as animações produzidas atualmente dificilmente igualam (uma das cenas, inclusive, em que Gepeto procura Pinóquio em meio a uma tempestade, teve chuva real acrescentada à imagem). Custa a acreditar que essa produção é de 1940. Isso sem falar na trilha sonora, belíssima e que foi também vencedora do Oscar.

Todos esses elementos fariam de “Pinóquio” uma estória atemporal, mas há outro que talvez seja ainda mais relevante. O cerne da trama diz respeito à concretização dos sonhos, mesmo os quase impossíveis. Ao transformar-se em um garoto de verdade, Pinóquio se torna o personagem ícone da realização dos nossos mais profundos desejos, mesmo que para tanto tenhamos que trilhar, invariavelmente, caminhos dolorosos. A força de sua mensagem é tão intensa que ela reverbera ao longo das décadas, influenciando nitidamente tramas “modernas” como a de “Inteligência Artificial”, longa de Steven Spielberg. Uma fábula que não perderá jamais a sua força, soando cada vez mais contemporânea.


Cotação e nota: Obra-prima.

Abaixo escute "When You Wish Upon A Star"!


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um feliz Natal para todos!

Uma das lembranças mais caras relacionadas ao Natal que trago da minha infância é a de ver, todos os anos, uma animação em Stop Motion chamada "Rudolph, A Rena do Nariz Vermelho". Feito para a televisão em 1964, o longa narra a estória de uma renazinha que nasce com um pequeno "defeito" congênito que você já deve ter entendido pelo título. Rudolph sonha em ser uma das renas do trenó do Papai Noel, mas ele se sente discrimiando pela sua condição "diferente". Durante anos, o filme foi sempre reprisado na noite de Natal (e eu sempre assistia com o mesmo entusiasmo), mas as redes de TV em geral estão cada vez mais ridículas e esquecendo no fundo do baú os produtos de qualidade. Segue abaixo um trecho da animação para matar as saudades de muita gente. Além disso, aproveito o ensejo para desejar um feliz Natal para todos, cheio de muita saúde, paz e harmonia com a família e os amigos. E que o nascimento de um certo menino em Belém, há cerca de de 2000 anos, nos sirva de inspiração não apenas no dia 25/12, mas ao longo de todos os dias do ano. Um grande abraço!


domingo, 17 de outubro de 2010

A Lenda dos Guardiões


Lendas precisam ser bem contadas


Zack Snyder vem sendo reverenciado por parte da crítica especializada de forma um tanto incompreensível. Diretor das adaptações das HQs para o cinema “300” e “Watchmen”, alguns conseguem enxergar em seus longas-metragens algo de “revolucionário”, “inovador”, que este que vos escreve sinceramente não consegue. Ou será que sua câmera-lenta seguida de câmera-acelerada é algo tão especial assim a justificar tais adjetivos? Sinceramente, não acredito que seja. Os dois filmes citados são bons, mas nada que justifique uma grande ovação. Talvez a maior virtude de “300”, pegando o exemplo, seja sua fidelidade quase canina ao material que lhe deu origem (os quadrinhos de Frank Miller já eram suficientemente cinematográficos, o que facilitou bastante o trabalho do diretor), o que, de resto, já havia sido feito por Robert Rodriguez em “Sin City”. Já a adaptação da HQ de Alan Moore resultou rasa diante do potencial reflexivo da obra original, transformando-se muitos mais em uma trama de ação/super-herói do que em algo que faça o espectador pensar.

E é dentro deste nível bom-mas-nem-tanto que foi realizado este “A Lenda dos Guardiões”, animação com técnicas de CGI que impressiona pelo realismo, mas que possui uma trama sem muita novidade. Ela conta a estória da jovem coruja Soren, que passou a vida toda ouvindo as lendas contadas por seu pai sobre os Guardiões de Ga’Hoole, um grupo de corujas responsável por manter a paz em toda a floresta, paz esta que, no presente, é ameaçada pelo grupo dos Taitos, o qual sequestra e realiza uma espécie de lavagem cerebral nas jovens corujinhas para que estas passem a servi-los como autômatos. Soren é uma destas corujas, que ainda não aprenderam a voar, que são sequestradas pelos Taitos. Nesse processo, ele conhece a corujinha Gylfie, ao lado de quem escapará das prisões dos Taitos e buscará a ajuda dos Guardiões (que antes imaginava ser mesmo apenas uma lenda). Daí em diante, eu não vou falar o que acontece, mas também não difícil imaginar.

O roteiro (escrito por John Orloff e John Collee, baseados na série literária de Kathryn Lasky), além de previsível, possui alguns furos e questões mal resolvidas. Por exemplo: os Taitos escravizam as corujinhas para que seu trabalho alimente uma espécie de campo energético cuja origem e finalidade carecem de maiores explicações. Alguns momentos do longa também se mostram muito apressados. Parece haver sempre uma pressa em seu desenrolar, talvez porque a narrativa de cunho épico exigisse mais tempo para ser bem desenvolvida. O problema é que isto exigiria, por outro lado, uma paciência maior da faixa etária alvo do longa, o que não é uma característica típica da idade. O filme também tem um tom muito sério, o que não é necessariamente um defeito. Nem sempre crianças querem apenas rir ao ir ao cinema. Querem também viajar com aventuras e estórias de heroísmo. Contudo, para que essa viagem aconteça é necessário que a estória seja bem contada, o que, como dito, não é o caso do presente longa. Talvez isso seja resultado da direção via teleconferência inventada por Snyder, que estava no Canadá durante boa parte da produção (mas é interessante como, mesmo à distância, ele não esqueceu de inserir suas cenas câmera-lenta-e-acelerada).

Os aspectos técnicos, entretanto, são realmente impressionantes. Em várias sequências parece que estamos diante de corujas de verdade, tal o realismo com que foram concebidas. Para tanto também contribui muito a recusa de se atribuir características antropomórficas às corujas, algo muito comum em animações, e que acabou exigindo maior empenho da equipe na busca por soluções de movimentos. A expressão dos olhos, algo essencial para enxergarmos realidade nas emoções dos personagens (ainda mais em se tratando de corujas), também é muito bem realizada. Assim, a empatia com Soren e seus amigos é facilmente obtida com os pequenos.

Narrativas de transição e amadurecimento como esta de “A Lenda dos Guardiões” são necessárias para a infância, sendo importantes para ajudar os pequenos a ter referências de conduta. É assim desde os primórdios da humanidade, quando essas lendas eram transmitidas de geração em geração. Contudo, é necessário que o contador de estórias seja bom, garantindo a atenção dos pequenos. Em uma próxima experiência, é importante que Snyder se lembre dessa necessidade, dando atenção ao roteiro tanto quanto dá à técnica empregada.


Cotação:

Nota: 7,0

sábado, 18 de setembro de 2010

Trilha Sonora #13


"O Rei Leão" é, com certeza, uma das melhores animações de todos os tempos! A versão para crianças (ou não!) da tragédia shakespeariana "Hamlet" até hoje ainda impressiona pela beleza de suas imagens e enorme carisma de seus personagens, muito bem adaptados para o grande público. Memorável ainda a sua canção tema, vencedora do Oscar, uma das grandes composições de Elton John. Ouça abaixo e viva a nostalgia!


terça-feira, 13 de julho de 2010

Shrek Para Sempre


Síndrome de Toy Story


Em 2001, a Dreamworks criava uma nova fórmula para as animações. Dirigido por Andrew Adamson e Vicky Jenson, “Shrek” era uma divertidíssima e inteligente paródia do gênero do conto de fadas, criando um universo todo especial com aqueles personagens conhecidos de todos, como a princesa presa na torre, Pinóquio, o burro falante, além de outras figuras presentes em tais estórias. Tudo se tornava ainda mais interessante e divertido com a sacada do protagonista: um ogro mau-humorado que fazia as vezes do príncipe encantado, salvando a princesa da torre onde estava confinada. O longa foi um sucesso gigantesco de público e crítica e, inevitavelmente, gerou mais duas continuações - com um ótimo segundo episódio e uma fraca terceira parte. E eis que surge agora um quarto episódio da franquia (que prometem ser o último). Eu mesmo fui ao cinema não acreditando muito no que veria, esperando o mais do mesmo em que já tinha se transformado a série. Contudo, tive uma boa surpresa.

Não que “Shrek Para Sempre” (dirigido por Mike Mitchell, que saiu dos filmes live action para as animações) tenha aquela centelha de brilhantismo do início da série, mas com certeza conseguiu recuperar uma boa parte do seu humor afiado. Várias foram as seqüências que me arrancaram risadas e, de fato, a premissa é interessante. O roteiro, de Josh Klausner e Darren Lemke, mostra o nosso conhecido ogro na sua feliz vida em família no reino de Tão Tão Distante, com sua amada Fiona e os rebentos ogrinhos. O problema é que Shrek está tendo dificuldades de se adaptar à rotina de pai de família, sentindo uma enorme falta de seu tempo de ogro mau-comportado. No dia do primeiro aniversário de seus filhos, Shrek se descontrola e fala besteira para Fiona. O maior problema, contudo, é que o duende trapaceiro Rumpelstiltskin vê o ocorrido e traça um plano ardiloso: ele faz uma proposta “vantajosa”, pela qual Shrek voltará a ser o ogro de outros tempos durante 24 horas. Em troca, Rumpelstiltskin terá o direito de apagar um dia da vida do Shrek. E esse dia acaba sendo justamente o do nascimento do ogro. Ou seja, depois das 24h, Shrek se vê em um mundo em que ele nunca existiu.

Acredito que qualquer semelhança com o clássico “A Felicidade Não Se Compra” não é mera coincidência. Há muitos pontos de identidade com o filme de Frank Capra, restando clara a fonte de onde beberam os roteiristas. Afinal, Shrek vê as consequências do simples fato de nunca ter existido e, tal como na citada obra-prima, elas não são nada positivas. A diferença é que, em vez de um anjo temos Rumpelstiltskin como responsável por essa viagem a um mundo alternativo, além de, obviamente, termos um texto recheado de humor, desta vez muitíssimo eficiente. Diz o ditado que piada velha não tem graça, mas é interessante como algumas tiradas da série, principalmente envolvendo o Burro e o Gato de Botas, ainda se mostram muito eficientes. Ademais, a trama aventureira se resolve muito bem. Alguns críticos têm apontado a ideia dos mundos alternativos como confusa demais para crianças, o que não é verdade. Eu mesmo, quando garoto, lia as HQs da DC Comics, com toda a sua profusão de dimensões paralelas, sem muita dificuldade. Não vejo porque agora, quando as crianças estão ainda mais espertas que em outros tempos, isso seria um problema.

Talvez o grande problema deste “Shrek Para Sempre” seja o fato de ser lançado nos cinemas logo após “Toy Story 3”, uma espécie de obra-prima definitiva da Pixar. Quando comparamos as duas animações, vemos que “Shrek”, por maior que seja sua eficiência no quesito diversão, fica pálido e comum diante de mais este triunfo dos estúdios Pixar (pra mim, até o momento, o melhor filme do ano). Entretanto, acho que a comparação é válida entre todos os filmes de ambos os estúdios. Parece que todos os filmes da Dreamworks se conformam em apenas trazer algumas horas de entretenimento para o grande público. Os longas da Pixar, por seu turno, sempre trazem um lado artístico mais trabalhado e capaz de emocionar a plateia, fugindo de apenas ministrar algumas doses de humor no dia do espectador, tornando-se, desta forma, memoráveis.

De qualquer forma, mesmo que vítima desta síndrome de Toy Story, “Shrek Para Sempre” vale a ida ao cinema, nem que seja para sair da sala falando “é divertido, mas Toy Story 3 é melhor”.

Obs. Não vi o filme em 3D, portanto não posso opinar sobre este aspecto técnico.


Cotação:

Nota: 8,0

domingo, 27 de junho de 2010

Até o Andy!

Matéria interessante exibida ontem no Jornal Hoje, da famigerada Rede Globo. Confira abaixo e veja que até Andy, o garoto dono dos bonecos da série "Toy Story", torce pela seleção brasileira! Em uma cena de "Toy Story 3" lá está ele com a camisa da seleção canarinho! Está na hora dos selecionados de Dunga mostrarem realmente a que vieram nesta competição! Pra frente, Brasil!


segunda-feira, 21 de junho de 2010

Toy Story 3

Filmar como criança


O gênio Pablo Picasso é autor de uma frase célebre, afirmando que o grande objetivo de sua vida era o de “pintar como uma criança”. Ao assistir ao terceiro episódio da série “Toy Story” chego à conclusão que este deve ser o lema da Pixar Animation Studios, substituindo apenas o “pintar” por “filmar”. É impressionante como a equipe comandada por John Lasseter parece ter uma criatividade infinita, somente comparável à dos pequenos. E também é de cair o queixo a capacidade da Pixar em gerar emoções em uma película somente comparáveis àquelas que sentimos na “aurora da vida”.

Toda a estrutura de “Toy Story 3” lembra a de uma grande brincadeira. É como se a trama, de fato, tivesse sido elaborada por uma criança ao brincar com seus bonecos. A sequência inicial, a qual mostra uma fantasia do menino Andy com seus antigos brinquedos (os nossos velhos conhecidos Woody, o cowboy, e Buzz Lightyear, o astronauta) entre outros, é uma perfeita síntese do que será todo o filme. Ao mesmo tempo, o longa toca num tema muito caro para todos nós: o fim da infância, a chegada da idade adulta e a necessidade de crescer, por mais dolorido que seja esse processo. No roteiro, escrito por Michael Arndt (o mesmo de “Pequena Miss Sunshine”, outro filme ótimo), vemos que Andy já é uma rapaz de 17 anos, prestes a entrar na faculdade e que, por intimação de sua mãe, precisa dar um destino aos antigos brinquedos que enfeitam seu quarto. Há 3 opções: o lixo, o sótão ou doá-los para uma creche. Devido a alguns equívocos, a velha turma acaba na creche Sunnyside, ficando na ala das crianças menores, na faixa de 2 a 4 anos, que possuem aquela peculiar forma de brincar: despedaçando e babando os brinquedos. Quem pode salvá-los é Woody, o único que escapou desse trágico destino, mas que jamais abandonará seus amigos à própria sorte.

A verdade é que a narrativa se desenvolve da mesma maneira redonda a que a Pixar nos acostumou. E, na minha apreciação, talvez este seja o episódio em que o humor está mais afiado e bem encaixado. Nenhuma tirada soa gratuita ou deslocada e as referências ao próprio cinema, tão comuns nos longas do estúdio, além de menos óbvias, jamais se apresentam forçadas. É bom ressaltar que todos os longas da Pixar possuem diversos clichês. Mas também é importante dizer que sempre esses clichês aparecem reformulados. Afinal, todas as estórias já foram contadas. O que vai torná-las especiais é a forma de contá-las. E, neste aspecto, a Pixar parece se superar a cada novo longa de animação que estreia nos cinemas.

Este, inclusive, é o primeiro episódio da série em 3D. Mas vou logo alertando: vi em 2D, pois creio que a tecnologia 3D nada tem a acrescentar aos filmes, a não ser distração. E devo, assim, dizer que este novo “Toy Story” me tocou e impressionou muito mais do que outros longas a que assisti usando aqueles óculos desconfortáveis (inclua-se nessa lista o tão badalado “Avatar”). O que importa, primordialmente, é a trama que lhe envolve, as técnicas de direção usadas para potencializar a narrativa, a identificação que o filme pode alcançar com o espectador. E, pelo menos no cinema contemporâneo, não há qualquer outra equipe que atinja tanto sucesso nestes aspectos, de forma tão reiterada, quanto aquela comandada por Lasseter. Não importa se você assistirá ao longa em 2D ou 3D. Pode ter certeza que você se emocionará da mesma forma.

Falando em direção, Lee Unkrich não brinca em serviço. Ele mostra uma enorme competência, comandando uma trupe que constroi a trilha adequada, as tomadas engenhosas , a inserção de subtramas que tornam ainda mais dinâmica a narrativa.

Bem, diante de tantas trilogias por aí, devo dizer que esta possui em seu terceiro episódio o melhor de todos. E talvez isto seja inédito na história do cinema. Basta lembramos que mesmo a trilogia “O Poderoso Chefão” possui na terceira e última parte o seu elo mais fraco. Pois bem, a Pixar quebra este paradigma (quebrar paradigmas parece ser sua especialidade) e nos presenteia com um belíssimo filme capaz de fazer escorrer a lágrima no mais duro dos corações. E o mais interessante de tudo é que tais lágrimas provavelmente rolarão com maior abundância no rosto dos crescidos e não dos pequenos.

Ao final, deixando a sala de projeção, saímos com o forte desejo de que as mentes que fazem a Pixar continuem assim: sempre buscando filmar como crianças...


Cotação:

Nota: 10,0


Obs. Chegue cedo para conferir o curta “Dia e Noite”. Vale à pena!

Obs. 2. Mesmo que você não tenha conferido os outros dois episódios, poderá assistir a este terceiro sem o menor problema.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Princesa e o Sapo

Reciclagem Divertida


Quando os estúdios Pixar lançaram, em 1995, a animação “Toy Story”, uma polêmica começou a tomar conta das rodas de discussão voltadas para a arte e o entretenimento. Os mais puristas torciam o nariz para a nova forma de confeccionar animações trazidas pelos estúdios de John Lasseter. Nela, o emprego da tecnologia digital era completo, sendo todo o processo de elaboração realizado por computadores, e não apenas algumas etapas de finalização, como acontecia com as animações da Disney. Alegavam os puristas que isso diminuía o valor artístico da obra, já que a elaboração artesanal da mesma, por si só, já agregaria um valor que não estaria presente nos desenhos criados por meio de pixels. Os adeptos da nova tecnologia argumentavam com as novas e quase infinitas possibilidades que se vislumbravam, principalmente com o maior realismo que cada cena poderia ter, além de efeitos especiais nunca dantes vistos.

Com o passar do tempo, a discussão mostrou-se estéril. Se a companhia de Lasseter conseguia cada vez mais aumentar suas bilheterias e o respaldo da crítica com tramas divertidas e inteligentes, além de cativar o público com a emoção, o japonês Hayo Miyasaki continuava deslumbrando o mundo com suas obras de arte geradas no modelo artesanal de animação (um exemplo já clássico é “A Viagem de Chihiro”). O que estava ficando claro é que a Disney estava passando por uma crise criativa, incapaz de produzir longas que acertassem no humor característico das novas gerações ou atingissem aquele status de arte tão característico dos filmes de Miyasaki. Com os sucessivos tombos, a Casa do Mickey adotou o procedimento mais típico do capitalismo moderno: se não pode vencer o inimigo, compre-o. E assim, colocou a Pixar como mais uma subsidiária do seu enorme conglomerado, assumindo John Lasseter a função de diretor criativo não apenas do estúdio que criou, mas de toda a divisão de animações da Disney.

E Lasseter mostra, com este a “A Princesa e o Sapo” (em que atua como produtor executivo), que, realmente, o mais importante não é a forma, mas o conteúdo da obra levada às telas. Trata-se da primeira produção da Disney em anos no formato artesanal e, ademais, retoma ainda um dos seus temas mais gratos: o conto de fadas envolvendo príncipe e princesa. Todos conhecemos as mais clássicas animações do estúdio que, aproveitando contos já famosos, passaram a fazer, de forma irremediável, parte do inconsciente coletivo. Afinal, qual a menina que nunca se encantou com a estória de “Cinderela” ou de “A Branca de Neve”? Mesmo nos tempos modernos, com a toda revolução feminina, estes mitos continuam poderosíssimos, mesmo que muitas mulheres não percebam e até neguem isso. Contudo, o que torna “A Princesa e o Sapo” uma animação a ser vista é atualização empreendida por seus mentores a este mito do príncipe-princesa-que-vivem-felizes-para-sempre.

Antes de mais nada, Tiana, a tal princesa do título, não faz o padrão de garota que tem como grande objetivo na vida encontrar o “príncipe encantado”. Seu grande objetivo é realizar o sonho de seu pai e abrir um restaurante de fina gastronomia. Para tanto, trabalha arduamente, de sol a sol, nunca saindo com os amigos para se divertir, nem muito menos namorar. Por seu turno, Naveen, o príncipe que foi transformado em sapo, encontra-se também um pouco distante dos príncipes das antigas lendas, sempre virtuosos e destemidos. Ele faz o estilo playboy, que nunca trabalhou para sobreviver, preocupado apenas com festas e namoradas. Entretanto, seu pai lhe corta a mesada e, para não ser forçado a trabalhar, ele tem de encontrar uma rica solteira para se casar. Outro fator de inovação é a ambientação. Saem os castelos e vielas medievais de outras eras e entram as ruas de Nova Orleans, a boêmia cidade americana onde surgiu o jazz, a única onde se comemora o carnaval (muito embora de uma forma um tanto distinta da brasileira). A própria cultura da cidade serve de mote para o desenrolar da trama, uma vez que é um feiticeiro vodu o responsável por transformar Naveen em um sapo, feitiço que só poderá ser quebrado se ele for beijado por uma princesa. Tiana acaba beijando o príncipe anfíbio, só que, como não é princesa, ela acaba também se transformando em um anfíbio. É a partir disso que os dois vão, juntos, tentar desfazer o encantamento.

Os diretores John Musker e Ron Clements tiveram, a partir de então, a sacada de utilizar o velho artifício das comédias românticas, o casal que se detesta e depois acaba se amando, para desenvolver a trama (que teve roteiro dos próprios diretores juntamente com Rob Edwards). E isso, dentro de um contexto de conto de fadas, soa inusitado e não apenas repetitivo, como no acima mencionado gênero. O uso de coadjuvantes saídos da cultura e ambiente de Nova Orleans, como o crocodilo trompetista Louis (numa clara homenagem a Louis Armstrong), também é uma boa ideia, ajudando no clima leve e divertido do longa. A utilização de uma trilha sonora de tom bastante jazzístico é uma ótima sacada, distanciando esta animação do clima choroso e meloso das trilhas sonoras de filmes anteriores da Disney.

O resultado final aparece como uma renovação para uma ideia já batida e, principalmente, mostra que o essencial não está na forma, mas na essência do que é mostrado. Não foram as animações de estilo clássico e artesanal que se tornaram ultrapassadas, mas a ideias da Disney que estavam distantes de um novo público. Aqui, tal como acontece nos longas característicos da Pixar, não apenas os pequenos, mas também os mais velhos poderão ser fisgados. E o conto de fadas de princesas e príncipes mostra-se perfeitamente reciclado e divertido. Não há história que ainda não tenha sido contada. O que existe são formas batidas de se contar essas histórias. Felizmente, aqui os estúdios Disney não voltaram a incorrer neste erro.


Cotação: * * * ½ (três estrelas e meia)
Nota: 8,5