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sábado, 25 de janeiro de 2014

Blue Jasmine

Em plena forma

Depois do inesquecível “Meia-Noite em Paris” (Midnight In Paris, 2011), aparentemente seria difícil Woody Allen repetir o sucesso de crítica e público em pouco tempo. O seu longa imediatamente posterior, o apenas mediano “Para Roma, Com Amor” (To Rome With Love, 2012), deu ênfase a tal impressão. Entretanto, sem que a maioria perceba, Allen está vivendo um dos melhores momentos de sua carreira. E prova isso através do seu mais recente trabalho, “Blue Jasmine”, filme que vai fundo na crítica a uma sociedade baseada em superficialidades e aparências e onde nos entrega uma de suas melhores personagens femininas, vivida com brilhantismo pela excelente Cate Blanchett.

Entretanto, se no citado “Meia-Noite em Paris” predomina o tom leve e bem-humorado, aqui ele se distancia um pouco da comédia para narrar a história de uma socialite que vê o seu luxuoso mundo ruir após a a prisão do seu marido Hal (Alec Baldwin), um investidor da bolsa fraudador. Sem dinheiro, sem marido, ela acaba indo morar com sua irmã, Ginger (Sally Hawkins, ótima!), em San Francisco. Uma irmã que, na realidade, ela sempre desprezou e escondeu, pois era “cafona” demais para frequentar o seu círculo social. E não resta a Jasmine outra alternativa a não ser se adaptar a um mundo cheio de limitações, em busca de um recomeço. Contudo, o problema de Jasmine é que ela não sabe como recomeçar. Está perdida, sem encontrar caminhos que possa trilhar, até mesmo porque, em boa medida, ela nem mesmo sabe quem ela é. Sabe apenas que iria se formar em antropologia quando se tornou noiva de Hal e largou os estudos para virar dondoca. Mesmo assim, não sabe se gosta da área de sua quase-formação. “Blue Jasmine” se mostra, portanto, como um ensaio de Allen sobre a identidade, um tema recorrente em sua filmografia (“Zelig”, de 1983, talvez seja o maior exemplo do tema em sua carreira). Muitos deixam de lado suas verdadeiras identidades em troca de se verem felizes e inseridas no sistema. E, quando a ilusão em que vivem desmorona, esquecem do que foram um dia ou do que almejavam ser. Constroem uma vida de aparências e mentiras, inclusive com aquelas da pior espécie, que são as mentiras para si próprio.


Mesmo que o diretor evite uma olhar piedoso sobre a protagonista, sempre expondo suas frugalidades, preconceitos e leviandades (até o seu nome esconde um disfarce, no fundo), é inevitável sentirmos pena de Jasmine, circunstância que não apenas se deve a um texto muito bem elaborado por Woody (como sempre, ele também escreveu o roteiro, indicado ao Oscar de melhor roteiro original), mas, na mesma porporção, à excelente atuação de Cate Blachett, provável ganhadora do Oscar no próximo dia 02 de março (já venceu o Globo de Ouro e o Sindicato de Atores nos últimos dias). Ela domina todas as cenas, passando das neuroses típicas do personagens de Woody Allen, para a fragilidade, arrogância, sinceridade, falsidade e outras tantas facetas humanas que foram condensadas na protagonista. Já entrou para o panteão das grandes personagens femininas do autor, ao lado da Annie Hall de Diane Keaton e da Cecilia de Mia Farrow (em “A Rosa Púrpura do Cairo”). De qualquer forma, méritos há, ainda, para os demais integrantes do elenco, principalmente Sally Hawkins como a irmã adotiva de Jasmine.


Outro aspecto relevante é a estrutura da narrativa, pontuada por saltos temporais que vão revelando os fatos que levaram a protagonista a terminar morando na casa da irmã. A edição de Alisa Lepselter encanta pela fluidez e precisão (e eu nunca tinha ouvido falar nela), jamais confundindo o espectador, apesar das diversas idas e vindas do enredo. Além disso, trata-se de um filme com “pegada”, fisgando o espectador já nos primeiros cinco minutos. Por outro lado, Allen raramente entrega um drama reto, sem resvalar na comédia e esse é bem o tom aqui. É possível classificar “Blue Jasmine” como um drama, mas um drama ao melhor estilo de Allen, com um tanto de cenas bem humoradas (mais um mérito para a atuação de Blanchett, que transita com facilidade entre cenas cômicas e dramáticas). Todavia, apesar dos alívios cômicos, predomina um tom melancólico ao longo da projeção, tendo seu ápice na conclusão em aberto, mas inteiramente coerente com o conjunto e as pretensões do diretor.

Uma parte da crítica apontou esse trabalho como sendo tão somente uma abordagem tardia de Allen sobre a crise econômica norte-americana, mas seria leviano dizer que se trata apenas disso. Mais do que uma mera crítica social, “Blue Jasmine” também passeia pelo existencial, perguntando a cada espectador se ele realmente é feliz, autêntico e com força suficiente para seguir os próprios caminhos, tragam ou não os retornos materiais valorizados pela sociedade. Mesmo que caia um pouco no seu último terço, perdendo o foco ao dar ênfase a uma subtrama envolvendo a irmã de Jasmine, Allen conseguiu, mesmo aos 77 anos e com uma média impressionante de um filme a cada ano, entregar mais um pequena pérola capaz de agradar, tal como sucedeu com “Meia-Noite em Paris”, não só aos seus admiradores, mas também àqueles que não são exatamente fãs de sua obra. Como dito acima, muitos não percebem, mas Woody Allen está em plena forma.


Cotação:




Nota: 9,0

domingo, 15 de dezembro de 2013

Os Suspeitos

Prenda a respiração e reflita


Como é possível perceber pela data da última postagem, “O Cinema com Pimenta” anda meio, digamos assim, “parado”, com um baixo número de atualizações. Isso se deve, em boa parte, ao trabalho, que está consumindo quase todo o meu tempo nos últimos meses e tem me deixado com pouca disposição para escrever. Entretanto, o marasmo do blog também se deve à correria em que eu e minha esposa nos encontramos no preparo da chegada do nosso primeiro filho, prevista para o próximo mês de março. Sim, já sou um papai dedicado que vê seu tempo cada vez mais tomado por essa criaturinha que ainda nem nasceu, mas que eu já amo muito. Bem, de qualquer forma, em meio ao corre-corre dos últimos dias, encontrei um tempinho na última sexta-feira para assistir a um dos filmes que se transformaram em sensação no presente ano de 2013. Trata-se do ótimo suspense “Os Suspeitos”, que não é o de Bryan Singer (produzido em 1995), mas o do canadense Dennis Villeneuve (será que ele tem parentesco com a família de pilotos de F1?), o mesmo diretor do premiado “Incêndios” (Incendies, 2010), longa que não tive a oportunidade de assistir, mas do qual já ouvi ótimas referências.

Não sei no caso do citado “Incêndios”, mas em “Os Suspeitos” Villeneuve deixa transparecer uma acentuada influência do trabalho de um dos mais cultuados diretores da atualidade: David Fincher. Ao logo das quase duas horas e meia de projeção, sentimos aquele clima opressor e um tanto sombrio de suspenses como “Seven – Os Sete Crimes Capitais” (Se7en,1995) ou “Zodíaco” (Zodiac, 2007). Até a paleta de cores usada na fotografia (de Roger Deakins), dessaturada e repleta de sombras, remete aos filmes de Fincher. Contudo, seria leviano afirmar que Villeneuve se limita a ser uma espécie de “imitador” de Fincher. Através de uma trama que poderia render apenas alguns minutos de suspense para o público, Villeneuve desenvolveu uma perspicaz alegoria para abordar uma antiga questão e caráter ético e moral: os fins justificam os meios? Por mais nobres e justificáveis que sejam nossas motivações, será que podemos nos valer de qualquer forma para atingirmos nossos objetivos? É uma pergunta difícil, mas que Villeneuve não se furta a responder de maneira satisfatória ao término do longa.


Para tanto, ele se vale de um roteiro (escrito por Aaron Guzikowski) que estabelece dois protagonistas, quase antagônicos. Um deles é Keller Dove (Hugh Jackman, ótimo), um carpinteiro pai de dois filhos que vê sua rotina virar de ponta cabeça quando sua caçula é sequestrada juntamente sua melhor amiga. É a deixa para que desperte seus instintos paternais de proteção, levando a busca pela menina até às últimas consequências, incluindo extrema violência em relação aos suspeitos. O outro protagonista é o detetive Loki (Jake Gyllenhaal, que não é o irmão do Thor), um policial que se torna obsessivo na busca pelos criminosos responsáveis, mas que jamais ultrapassa a fronteira ética em suas investigações. Nas entrelinhas, Villeneuve parece realizar uma crítica a expedientes espúrios costumeiramente usados pelo Estado (mormente o norte-americano) ao procurar culpados por delitos, principalmente os relacionados ao terrorismo, quando não são respeitados os mais elementares direitos dos acusados.



De qualquer forma, à parte o mencionado subtexto, “The Prisoners” funciona perfeitamente enquanto filme de suspense, daqueles de tirar o fôlego, deixando o espectador em estado de tensão praticamente ao longo de toda a projeção do longa. Mais um mérito do roteiro, que não entrega nada de mãos beijadas ao público, fazendo-o pensar e se interrogar sobre a verdadeira trilha a ser percorrida. Além da já mencionada fotografia soturna, contribui ainda a ótima edição de Joel Cox e Gary Roach, dando ritmo a uma narrativa que poderia se tornar massante devido à longa duração da película. Outro ponto alto são as atuações. Hugh Jackman tem uma de suas melhores presenças ao interpretar o desesperado pai à procura de sua filha, trabalho que possivelmente lhe renderá outra indicação ao Oscar. Entretanto, creio que aquele que mais merece ser lembrado pela Academia é Jake Gyllenhaal como o detetive Loki. Em uma atuação contida e introspectiva, ele rouba as cenas em que aparece mesmo quando não fala muito. Também se destacam pelo apuro na composição dos seus respectivos personagens Paul Dano, na pele do suspeito que é alvo preferencial da obsessão de Keller Dove, que tem uma presença memorável em cena, assim como Melissa Leo, praticamente irreconhecível como uma velha senhora que perdeu uma filha vítima de câncer. É uma pena que as premiações estejam ignorando o primoroso trabalho do elenco. O Sindicato de Atores não lembrou dos intérpretes em nenhuma categoria entre os seus indicados, assim como o Globo de Ouro. Mas o que dizer de premiações que chegaram ao cúmulo de indicar Daniel Brühl, de “Rush – No Limite da Emoção”, na categoria de melhor ator coadjuvante se ele interpreta o personagem central do filme? Nem preciso falar mais nada, né?

Não é o fato de ser ignorado pela temporada de prêmios que vai fazer de “Os Suspeitos” um filme menor. Com certeza, é um dos melhores longas de 2013 e não por acaso foi aplaudido no Festival de Toronto. Bem, ganhando ou não prêmios, a qualidade de “The Prisoners” continua intacta, sendo um dos melhores filmes de 2013, sem dúvida. Não sei se chego a essa conclusão por viver um momento em que estou prestes a me tornar pai e a temática do longa, desta forma, me atingiu de maneira especial. É possível que sim, mas, diante da chiadeira geral que surgiu devido ao seu esquecimento na temporada de prêmios, percebo que ele vem agradando em muito ao público. Há tempos não aparecia um suspense tão interessante entre produções hollywoodianas. Para prender a respiração durante e refletir depois da projeção.


Cotação:



Nota: 9,0

domingo, 20 de outubro de 2013

Elysium

Ainda uma promessa


O cinema do jovem diretor Neil Blomkamp pode ser resumido da seguinte forma: premissas muito inteligentes, execução ineficiente. É a conclusão a que podemos chegar a partir deste seu novo trabalho, “Elysium”, atualmente em cartaz no circuito brasileiro, o qual repete as mesma virtudes e defeitos do seu longa anterior, o interessante “Distrito 9” (District 9, 2009), responsável por tentar atribuir conotações político-sociais ao cinema pipoca do fim de semana. Nascido em Joanesburgo, África do Sul, ele impregnou “Distrito 9” de referências ao Apartheid ao elaborar uma trama onde seres de outro planeta são segregados pelos humanos em uma espécie de gueto. Entretanto, se o longa causa reflexão e sensação de inovação em sua primeira metade, a segunda se reduz a, basicamente, cenas de ação clichês que mais entediam do que envolvem o espectador. Um trabalho de altos e baixos que nos traz um frustrante resultado mediano, dadas as suas potencialidades.

Da mesma forma se desenvolve “Elysium”. Na sua premissa, vemos uma Terra superpovoada e esgotada em seus recursos naturais. Nela, residem as classes mais baixas, operários que lutam pela sobrevivência, enquanto os abastados vivem em uma espécie de satélite artificial denominado Elysium (obviamente, uma referência aos Campos Elísios, local que se pode definir como o paraíso da mitologia greco-romana), onde a qualidade de vida de tempos pretéritos foi preservada. Ou seja, o filme se presta a realizar uma alegoria da luta de classes, com direito a abordar detalhes como a questão da saúde pública, onde alguns têm direito à assistência médica e muitos não têm direito a sequer um atendimento básico. É o que ocorre com o personagem de Max da Costa (Matt Damon), operário de uma fábrica que sofre um acidente radioativo e deve morrer em poucos dias. Para se curar, ele precisa de um método de tratamento só existente em Elysium, mas não tem do dinheiro suficiente para comprar sua estada da fortaleza. Será necessário entrar clandestinamente e para isso contará com a ajuda de especialista em infiltrações, Spider (o nosso Wagner Moura).


Como se vê, o roteiro, escrito pelo próprio Blomkamp, tem um ótimo núcleo de ideias, o que torna o longa interessantíssimo em sua primeira metade, muito eficiente em retratar o drama das classes subalternas em um planeta cada vez mais duro. A ambientação, inclusive, lembra muito a realidade dos Estados Unidos de hoje, cada vez mais latinizado, onde em diversas regiões existe uma mistura de línguas, predominando o inglês e o espanhol. As características da cidade terrena também remetem a uma Cidade do México ou à própria Joanesburgo de Blomkamp (em um eficiente trabalho de direção de arte). Também se mostra perspicaz a escolha de Alice Braga, com sua aparência de latina, para ser o interesse romântico do herói, coadunando-se com caráter “globalizado” da produção. Entretanto, mais uma vez Blomkamp se perde em cenas de ação na segunda metade da projeção e o filme assume aquela perspectiva trivial de qualquer outro filme de ação, com destaque para o mote do “sacrifício” do herói, que também se fez presente no anterior “Distrito 9”. Em suma, “Elysium” se torna previsível até mesmo naquilo em que não pretende ser previsível.



Mas, como disse Wagner Moura em recente entrevista a uma famosa revista de caráter cultural, o maior diferencial do cinema estadunidense é o dinheiro, muito dinheiro, e isso invariavelmente dá destaque ao padrão técnico de seus filmes. Se o longa tem destaque, como dito acima, na sua ambientação, é claro que muito desse mérito se deve à direção de arte, muito eficiente não só na caracterização do planeta Terra, mas também na concepção do satélite Elysium, uma espécie de paraíso da imaginação judaico-cristã. Da mesma forma, o elenco de primeira contribui muito para tornar o longa algo mais envolvente. Matt Damon está inspirado na pele do protagonista e Jodie Foster consegue dar alguma alma à vilã unidimensional da trama, uma espécie de secretária de Estado da nave que nutre ambições maiores. Entre os brasileiros, todavia, há uma certa surpresa. Wagner Moura sofre com um personagem mal desenvolvido e que tem menos tempo de tela do que seria esperado. Assim, acaba que Alice Braga tem mais destaque como Frey, a namorada de Max que tem uma filha também precisando de assistência médica em Elysium, em uma atuação bastante competente.

Embora esteja longe de ser um filme ruim, “Elysium” se constitui em uma demonstração da imaturidade de Blomkamp como cineasta, muito embora, tal como “Distrito 9”,deixe entrever que o jovem tem potencial, ainda sendo uma promessa de grande diretor. Precisa desenvolver melhor suas ótimas premissas para que elas não gerem tão somente bons entretenimentos, mas filmes que sejam mais memoráveis do que as suas duas horas de projeção, ou seja, para que se tornem algo mais do que uma “diversão inteligente” para o final de semana.


Cotação:



Nota: 7,0

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Gravidade

Beleza, solidão e revolução


Inicio esta resenha com uma afirmação que pode ser precipitada, mas que reflete inteiramente minhas impressões ao fim da sessão de “Gravidade”: trata-se do melhor filme de ficcção-científica desde “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odyssey, 1968), talvez tendo apenas como rivais “Alien – O Oitavo Passageiro” (Alien, 1979) e “Blade Runner – O Caçador de Androides” (Blade Runner, 1982). Este é um daqueles filmes que, ao terminar de vê-lo, já sentimos algo diferente, sabemos que estamos diante de uma obra que  será lembrada ao longo dos anos, que influenciará inúmeros longas posteriores e, provavelmente, deixará sua marca  na cultura pop como um todo, tornando-se um fenômeno em várias mídias. E não estou exagerando. Na realidade, eu sempre desconfio de filmes com muito “hype”, como nos casos de “Avatar” (2009) - longa que trouxe inovações apenas no uso do recurso 3D, mas que possui uma trama meio rasa e clichê – e “A Origem” (Inception, 2010), um ótimo thriller dirigido por Christopher Nolan, mas que não chega a ser (e o tempo vem mostrando isso) nenhuma obra-prima. Pelas mesmas razões (gato escaldado tem medo de água fria), estava antevendo que havia um certo exagero com relação ao novo longa do diretor mexicano Alfonso Cuáron (de “E Sua Mãe Também!” e “Filhos da Esperança”), o qual vem sendo incensado pela crítica. Felizmente, desta vez eu errei em minhas previsões.

Já fazia muito tempo que eu não via um longa-metragem com tanta força imagética, profundidade na abordagem dos nossos mais instintivos, fortes e belos sentimentos e, ao mesmo tempo, conseguir prender a respiração dos espectadores até o último frame da projeção (talvez Ang Lee tenha feito algo igualmente relevante com o seu “As Aventuras de Pi”, mas não é um filme tão intenso quanto este). Tudo isso em enxutíssimos 91 minutos e com apenas três personagens na tela. E vale dizer que um desses morre logo no início do longa (isso não é um spoiler). Ou seja, Cuáron, também autor do roteiro em parceria com seu filho Jonás Cuáron, conseguiu criar uma obra que alcança o perfeito equilíbrio entre substância e tensão, gerando um filme capaz de entusiasmas crítica e público e isso, convenhamos, é um feito que poucos conseguiram na história do cinema. De quebra, ainda teve a percepção de filmar com o intuito de colocar o espectador na pele dos astronautas, contando com o auxílio da tecnologia 3D. É possível que nunca uma câmera em primeira pessoa tenha atingido um nível tão elevado de subjetividade quanto aqui. Em várias sequências temos a sensação de estarmos na pele da astronauta Ryan Stone (Sandra Bullock), em busca da sobrevivência. Não é por acaso que muitos vêm atribuindo ao filme o adjetivo de “revolucionário” e, desta vez, não é de forma gratuita.


A trama é minimalista, por assim dizer. Nela, vemos a referida Dra. Ryan Stone em uma missão para operar reparos no telescópio Hubble, na qual é acompanhada por dois outros astronautas, um deles o piloto Matt Kowalski, que está prestes a se aposentar (interpretado pode George Clooney). Quando estão efetivamente realizando o serviço, uma onda de destroços de uma satélite destruído pelos russos atinge o telescópio e a nave dos engenheiros e começa, então, uma batalha pela sobrevivência no ambiente mais inóspito que existe para o ser humano: o espaço. Principalmente a Dra. Ryan, que é lançada no vácuo com apenas 10% de oxigênio restando no reservatório do traje espacial. Mas se engana quem pensa que isso resultará apenas em uma correria desenfreada. O foco de Cuáron é o espírito humano. Ao mesmo tempo em que somos tão pequenos diante da imensidão e perigos do universo, temos força suficiente para vencermos esses desafios e nos mantermos vivos diante de um ambiente tão áspero ao ser humano. E, por mais que tenhamos motivos para, quem sabe, nos entregarmos, como no caso da Dra. Stone, viver sempre será a melhor escolha.

Convém ressaltar que a Terra nunca esteve tão bonita no cinema. As imagens concebidas pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubeski são simplesmente lindas. Chega a dar o gostinho de realmente estarmos a contemplar a Terra, privilégio que só cabe a mais do que restrita classe dos astronautas. Aliás, a sensação de estarmos vendo o espaço como ele de fato é só se equivale àquela vista no citado “2001”. Um espetáculo de realismo em algo tão difícil de reproduzir quanto é a realidade fora do nosso planeta. Em similar competência mostra-se a trilha sonora de Steven Price, a qual se faz sentir com ainda mais vivacidade após os contínuos momentos de silêncio engenhosamente concebidos para nos passar o clima do ambiente. Por outro lado, o filme não seria tão bom sem a sensacional atuação de Sandra Bullock, no melhor momento de sua carreira, incontestavelmente. Ela nunca havia conseguido transmitir tanta força e concomitante fragilidade a uma personagem. Será até uma piada se ela não levar o Oscar de melhor atriz, já que anos atrás acabou sendo premiada por um trabalho bem menos relevante (em “Um Sonho Possível”).


“Gravidade” é um filme repleto de imagens marcantes, daquelas destinadas a se tornarem icônicas, indicando que Cuáron poderá ser conhecido no futuro como um dos grandes estetas do cinema. A cena das lágrimas flutuantes da astronauta, por exemplo, é uma delas. Ainda mais se você assistir em 3D. Aliás, procure realmente ver em uma sala 3D, pois este é um dos raros casos em que o recurso se mostra realmente como um diferencial (e quem costuma ler meus textos sabe o quanto eu sou exigente para considerar que um filme precisa ser visto em 3D). Em dado momento da película, a simbiose de emoção e beleza me impressionaram tanto que, faço aqui uma confissão, algumas lágrimas furtivas brotaram dos olhos. E é nesse ponto que reside a principal diferença entre “Gravidade” e o clássico “2001”. Se o filme de Kubrick instiga a reflexão, levando-nos a questionamentos sobre quem somos e para onde vamos, o longa de Cuáron é visceral, procurando despertar o nossos mais básicos e essenciais sentimentos. Fala, sobretudo, da solidão de cada ser humano, cada qual constituindo um universo à parte em meio à imensidão que nos cerca. Diante de tantas “revoluções” que são alardeadas com uma estranha frequência no cinema, mas que logo em seguida se revelam no máximo obras competentes (vide os exemplos dos citados “Avatar” e “A Origem”), talvez neste caso o termo esteja, enfim, sendo usado de maneira apropriada. Só o tempo irá dizer se tal impressão é verdadeira, mas foi a que tive quando surgiram os créditos finais, logo após a linda sequência que conclui este clássico imediato.


Cotação:



Nota: 10,0

sábado, 21 de setembro de 2013

Rush - No Limite da Emoção

Quando pilotos foram heróis


Definitivamente, a Fórmula 1 já não é mais a mesma. Hoje, mesmo com carros superseguros, frequentemente encontramos pilotos sem gana de vencer, que se contentam em serem apenas meros assalariados de uma escuderia e, se for “necessário”, deixam o colega de equipe ultrapassar para ajuda-lo a ganhar um campeonato. Em suma, a F1 deixou de ser um esporte e se transformou em apenas uma mera exibição de montadoras, em busca de dividendos. A Fórmula 1 que conheci, em meados dos anos 80, era mais perigosa, mas ao mesmo tempo muito mais romântica, repleta de pilotos obstinados que buscavam, acima de tudo, a vitória para escrever seus nomes na história do esporte. Eram os tempos de Alain Prost, Nigel Mansell, Nelson Piquet e, claro, Ayrton Senna, aquele que considero o maior piloto ente todos. E falo isso de forma isenta, pois nunca fui um admirador da personalidade dele e detesto o ufanismo desmedido de um Galvão Bueno, mas a verdade é que Senna fez coisas na pista que jamais vi outro piloto fazer (como podemos recordar no documentário "Senna"). Também cheguei a ver, ainda bem garoto, o austríaco Niki Lauda disputando provas e me lembro de perguntar aos meus pais o que havia acontecido com o seu rosto. A resposta: “foi um acidente em que o rosto dele foi queimado”. Recordo, ainda, de considerá-lo um homem extremamente corajoso, pois tinha voltado a correr mesmo depois de um acidente tão grave.

Essa “era de ouro” da Fómula 1 é retratada brilhantemente por Ron Howard em seu novo trabalho, “Rush – No Limite da Emoção”, longa atualmente em cartaz no circuito comercial brasileiro. Na realidade, o filme aborda uma fase ainda anterior àquela que pude acompanhar, nos anos 70, quando os riscos do automobilismo ainda eram maiores do que na citada década oitentista. Para se ter uma ideia, a média de mortes de pilotos era de dois por temporada, ou seja, o risco de morrer a cada Grande Prêmio era muito elevado. Pertence a esse tempo o imaginário de que pilotos eram, antes de tudo, heróis. Foi nessa época que Lauda começou sua trajetória que culminaria em um futuro tricampeonato e na qual possuiu um grande rival, James Hunt, um britânico mulherengo e farrista que parecia ser o oposto do cerebral, concentrado e comedido piloto austríaco. Só em um ponto demonstravam similaridade: a obsessão pela vitória, encarando qualquer desafio para alcançá-la.



Essa rivalidade é o mote de “Rush”, mas Howard não coloca seu foco principal no que acontece nas pistas. Claro que há diversas sequências sensacionais com corridas, ultrapassagens e colisões, mas o longa não é sobre corridas, mas, sobretudo, personalidades. Howard se esmera em analisar a persona dos rivais, mostrando a origem de seus desentendimentos, suas evidentes diferenças e, de forma inteligentíssima, suas semelhanças. Para tanto, conta com um belíssimo roteiro de Peter Morgan, baseado no livro “Corrida Para a Glória”, de Tom Rubython, e que teve ainda a luxuosíssima consultoria do próprio Lauda. Mesmo que em certos momentos a trama acabe fazendo concessões ao esquema hollywoodiano de se adaptar biografias, ela é extremamente envolvente, fazendo com que o espectador tenha a sensação de realmente conhecer aqueles pilotos. Além disso, Howard tomou o cuidado de não transformá-los em “vilão e mocinho”, escapando da armadilha do maniqueísmo. Tanto Lauda quanto Hunt possuem tempos iguais na tela e são expostas suas várias facetas, tanto negativas quanto positivas. Se primeiro somos inclinados a simpatizar com Lauda devido à sua personalidade discreta, logo depois constatamos uma certa arrogância em seu temperamento, além de um jeito rude que acaba por torná-lo um tipo impopular entre os colegas. O oposto do popular Hunt, o qual primeiro desperta antipatia por seu estilo farrista e meio irresponsável, mas que depois demonstra seu lado humano e solidário, além de percebermos que muito do seu comportamento é um disfarce para seus medos e inseguranças. Há, ainda, um particular subtexto acerca da sedução exercida pelos pilotos sobre as mulheres. Mesmo o introvertido Lauda faz valer suas habilidades ao volante para conquistar aquela que seria sua esposa.


Os pilotos são interpretados com muita competência por ambos os atores. Chris Hemsworth, na pele de James Hunt, embora tenha um papel relativamente mais simples, demonstra que pode ir bem além do que faz como o Thor dos filmes da Marvel. Daniel Brühl (lembram dele em “Adeus, Lênin!”?), por sua vez, encarna um Niki Lauda perfeito (chegou a usar próteses dentárias para ficar mais parecido com o verdadeiro), mas, cabe ressaltar, seu trabalho foi facilitado pelo contato que teve com o original, hoje chefe da equipe Mercedes, enquanto Hemsworth não dispôs do mesmo privilégio, pois que Hunt faleceu com apenas 45 anos, vítima de um infarto. De qualquer forma, no duelo entre os dois quem ganha é o púbico e as atuações foram elogiadas por nomes como Emerson Fittipaldi, contemporâneo dos dois pilotos na F1 dos anos 70. Como não poderia deixar de ser, o espectador também é premiado com as fantásticas cenas de corrida, com suas ultrapassagens e acidentes precisamente reconstituídos, principalmente o famoso acidente em que Lauda quase perdeu a vida e teve boa parte do corpo queimado (show de efeitos especiais que não se fazem perceber), além de manter o ritmo e envolvimento ao longo de toda a projeção, um mérito da direção de Howard, cineasta com grande talento em prender o público e que parece ter especial apreço por biografias e tramas baseadas em eventos verídicos, como nos casos de “Uma Mente Brilhante” (A Beautiful Mind, 2001) e “Apollo 13” (1995). Vale o destaque ainda para a trilha sonora de Hans Zimmer, inspirada como há muito tempo não se ouvia nos seus trabalhos (muito superior ao que fez em “O Homem de Aço”).

O resultado é um filme de arrepiar, capaz de agradar tanto à crítica quanto ao público, este com potencial para ser bem mais abrangente do que os aficionados por automobilismo. Arrisco dizer que é o melhor trabalho de Ron Howard, superando o citado e oscarizado “Uma Mente Brilhante”. Aliás, falando em Oscar, não vou estranhar se o longa conseguir várias indicações na próxima edição do prêmio da Academia de Hollywood. Caso venha a obtê-las, será inteiramente justo. E termino pontuando: um dos melhores filmes sobre esporte já feitos.


Cotação:



Nota: 9,5

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Cine Holliúdy

Cinema cearensês


Este é um daqueles fenômenos que surgem de tempos em tempos. Produções de baixo orçamento, com várias limitações, mas que terminam por atingir o público de uma forma especial, alcançando o sucesso principalmente através do boca-a-boca, sem grandes esquemas de marketing ou distribuição. No caso do Brasil, sem o apoio da Globofilmes, “entidade” dominante em nosso mercado e responsável por quase todos os nossos sucessos comerciais, obter uma boa bilheteria é um feito notável, principalmente se o longa-metragem em questão vem do Nordeste, região historicamente desprezada e vítima dos preconceitos do “Sul Maravilha”, além de economicamente periférica neste Brasil abençoado por Deus e bonito por natureza, mas até hoje extremamente injusto e hipócrita. Sucesso absoluto em Fortaleza, onde obteve na estreia uma excelente média de espectadores por sala (empatou com a média de “Titanic”!) e superou a marca dos 100 mil ingressos vendidos (somente na capital cearense, frise-se), batendo localmente a estreia de blockbusters como “Wolverine – Imortal” e “O Homem de Aço”, “Cine Holliúdy” surge como uma grata surpresa não só por ser uma produção nordestina que conquistou espaço em nosso circuito comercial, mas também – e principalmente – por trazer um sopro de inteligência dentro quadro raso das comédias habituais em exibição nas salas de cinema.

Dirigido por Halder Gomes (co-diretor de “As Mães de Chico Xavier”), também autor do roteiro, o longa é uma versão extendida do curta “Cine Holliúdy – O Artista contra o Caba do Mal” e possui declaradamente contornos da biografia do cineasta, que vivenciou a decadência das salas de cinema nas cidades do interior (no caso dele, em Senador Pompeu, Ceará), principalmente depois da chegada da TV em cores ao Brasil na década de 70, época em que se passa a trama. “Cine Holliúdy” tem muito da metalinguagem de filmes como “Splendor” (1989) e, para citar um exemplo mais famoso, “Cinema Paradiso” (Nuovo Cinema Paradiso, 1988), tendo como ponto central uma autêntica declaração de amor ao cinema, no caso, personificada pelo personagem Francisgleydisson (papel do ótimo ator Edmilson Filho), um sonhador que luta para manter vivas as salas de cinema em cidades do interior. Depois de vários reveses, sua derradeira tentativa será na cidadezinha de Pacatuba, uma das poucas em que ainda não há uma televisão na praça, para onde migra com a esposa (Miriam Feeland) e seu filho. Vários serão os seus desafios, desde a natural falta de recursos para reformar uma antiga sala, passando pelas dificuldades com a politicagem local e a precariedade de equipamentos e rolos de filme.



Em paralelo aos projetos de Francisgleydisson, Halder traça um colorido painel de costumes locais, apresentando personagens pitorescos, além de diálogos e situações dotadas de um humor ao mesmo tempo regional - uma vez que calcado em maneirismos cearenses - mas também universal, capaz de extrair sorrisos abertos de espectadores de qualquer cultura. A própria ideia de se fazer um longa falado em “cearencês” com legendas em português já é bastante espirituosa e acaba funcionando, inclusive, como marketing da produção. Ademais, trata-se de um trabalho com inegável apelo para as amantes da Sétima Arte. A sequência do discurso de Francisgleydisson na inauguração da sala, uma linda declaração de amor ao Cinema como poucas vezes se viu, é para fazer qualquer cinéfilo se emocionar. Ouso dizer, guardadas as diferenças temáticas e importância histórica, que está à altura do famoso discurso de Charles Chaplin em “O Grande Ditador” (The Great Dictator, 1940). Vale notar ainda a trilha sonora, com vários que temas que citam abertamente trilhas clássicas como as de “Tubarão” (Jaws, 1975) e “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odissey, 1968), além da ótima utilização do repertório brega-cult do cantor e compositor Márcio Greick. Destaque-se, ainda, o elenco extenso,mas homogêneo em suas boas atuações, mesmo que Edmilson Filho seja, irremediavelmente, o centro das atenções.


Entretanto, se Halder Gomes desenvolve a primeira metade do longa com criatividade e eficiência, a segunda cai bastante em ritmo e na qualidade do humor, o qual começa a se repetir e a se escorar em regionalismos excessivos. A enorme sequência da primeira sessão da sala é cansativa e perde o interesse já em sua metade. Salva-se a homenagem aos filmes de artes marciais dos anos 70, com especial reverência a Bruce Lee, o ídolo de Francisgleydisson. Contudo, possui um interessante desfecho que leva o espectador a questionar se são fatos ou apenas a imaginação do protagonista, um recurso interessante que enriquece a obra.

Como já frisado acima, “Cine Holliúdy”, apesar de suas falhas, traz algo além do que mera diversão escapista para um fim de semana, como em geral ocorre nas comédias nacionais. Constitui-se, antes de mais nada, em um resgate nostálgico de um cultura que feneceu após a popularização da televisão e, mais adiante, do home video, seja o antigo VHS, o DVD ou o moderno blu-ray. Em outros tempos, muitos frequentavam diariamente as salas de exibição. Hoje, como mencionado nas legendas antes dos créditos finais da película, apenas 5 municípios do Ceará possuem salas de cinema. No Rio Grande do Norte, eu nem sei se chega a tal o número de cidades (até onde tenho conhecimento, apenas Natal e Mossoró possuem salas). Uma pena que nos dias de hoje tão poucas pessoas tenham acesso a essa magia tão encantadora.


Cotação: 



Nota: 7,5

terça-feira, 30 de julho de 2013

Wolverine - Imortal

Preservando a essência


Já faz um bom tempo que li a histórica série de Wolverine, concebida por Chris Claremont e Frank Miller, que elevou o famoso mutante a novos patamares. Nela, Logan respirou ares diferentes em uma trama ambientada no Japão, tentando alcançar o autocontrole (algo quase avesso ao seu temperamento irascível) e conhecendo uma nova paixão com Mariko, deixando, desta forma, um pouco de lado seu eterno amor não correspondido por Jean Grey. O mais popular entre os X-Men atingia sua maioridade artística, arregimentando uma legião ainda maior de fãs que não parou de crescer, sendo hoje Wolverine um dos super-heróis mais populares da Marvel. Tão popular que já chegou ao seu segundo filme solo, mesmo diante das críticas negativas relativas a “X-Men Origens: Wolverine” (X-Men Origins: Wolverine, de 2009), com as quais eu nunca concordei inteiramente. É verdade que se trata de um filme com problemas, mas está longe de ser a “bomba” alardeada quando do seu lançamento. Por outro lado, se nas HQs o personagem foi alçado a níveis excepcionais com a citada história de Logan em terras nipônicas, “Wolverine – Imortal”, atualmente em cartaz no circuito comercial brasileiro, também eleva o mutante esquentado a outros patamares na telona do cinema.

Acredito não ser por acaso o sucesso, uma vez que este novo longa-metragem do herói foi inspirado na famosa HQ de Miller e Claremont, com o acréscimo de algumas outras nuances que vieram de sagas posteriores. Durante boa parte da projeção, sequer temos a sensação de estarmos assistindo a um filme de super-herói. Parece mais uma mistura de filme de ação tradicional com filme de artes marciais. Algo que lembra “Kill Bill”, de Quentin Tarantino, muito embora nosso herói tenha motivações mais nobres do que uma mera vingança e não há toda aquela sanguinolência explícita. Entretanto, o estilo samurai-fantástico se faz presente em várias sequências, dirigidas com muito apuro por James Mangold, o mesmo de longas como “Garota Interrompida” (Girl, Interrupeted, 1999) e “Johnny & June” (Walk The Line, 2005). Ou seja, um diretor de viés artístico, escolhido para colocar na película um maior peso dramático. Vale lembrar que a primeira escolha para a realização havia sido Darren Aronofsky, amigo de Hugh “Wolverine” Jackman, mas o diretor de “Cisne Negro” (Black Swan, 2010) acabou desistindo. De qualquer forma, a escolha se mostrou feliz (muito superior a Gavin Hood, diretor do primeiro filme solo do mutante), já que Mangold demonstrou capacidade não apenas de imprimir um teor dramático mais consistente à trama, mas também de entregar ótimas sequências de ação, como o sensacional embate de Logan com um mafioso da Yakusa em cima de um trem em movimento.



O roteiro, escrito por Scott Frank e Mark Bombak, mostra o mutante vivendo como um selvagem no meio da floresta – e mais agressivo do que nunca - até ser encontrado por Yukio (Rila Fukushima), uma japonesa que lhe traz uma mensagem de um antigo amigo, o Sr. Yashida (Hal Yamanouchi), militar que Logan salvou no trágico dia da explosão da bomba atômica em Nagasaki, durante a Segunda Guerra Mundial. Yashida está moribundo, vítima de câncer, e Logan viaja ao Japão para ouvir o que ele tem a dizer. Já em terras nipônicas, conhece Mariko, a neta de Yashida, e acaba por se envolver em uma trama que envolve a máfia Yakuza, além de outros mutantes, sendo que uma delas, a Víbora (Svetlana Khodchenkova), acaba por afetar o seu fator de cura, deixando o herói combalido para enfrentar seus perigosos inimigos.

Claro que há muita ação em “Wolverine - Imortal”, com algumas sequências realmente ótimas (como já frisado), imageticamente bem concebidas e com edição eficiente que permite ao espectador entender perfeitamente o que se passa na tela. Contudo, um dos seus maiores trunfos é a construção dos personagens, com destaque para Yukio, uma mutante com capacidade de prever o futuro, e Mariko, o novo amor de Logan, ambas, vale dizer, muito bem interpretadas por suas respectivas atrizes. O elenco como um todo se mostra bastante eficiente, mas é mesmo Hugh Jackman que mais uma vez mostra porque é o Wolverine definitivo. Alguns atores se encaixam tão perfeitamente em alguns papeis que sequer podemos imaginar outra pessoa interpretando-os. É o caso de Harrison Ford, por exemplo, como Indiana Jones. E é o caso de Hugh Jackman como o mutante de garras de adamantium.


Destarte, não se pode negar que o longa deixa a desejar no seu último terço, embarcando em alguns exageros dispensáveis que só contribuíram para enfraquecer a narrativa. Ademais, os fãs vão reclamar de algumas distorções em relação ao material original (principalmente com relação ao vilão Samurai de Prata, que dá as caras lá para as tantas). Todavia, mesmo com algumas ressalvas, a adaptação de Mangold preserva a essência do personagem, mesmo que Wolvie seja ainda mais violento e truculento nos quadrinhos. Aqui, devido às questões que envolvem um blockbuster, que, como sabemos, tem de gerar retorno financeiro, não é possível deixar a violência de forma muito gráfica na tela mas, de qualquer forma, está lá o Logan de temperamento arredio, quase um animal selvagem, lutando para domar seus instintos e superar o passado. Ou seja, encontramos o Wolverine que conhecemos e não um simulacro do herói, como aconteceu recentemente na nova adaptação do Homem de Aço para a telona. Enfim, saí da projeção desejando uma continuação e com vontade de recomendar “The Wolverine” para os interessados em curtir uma boa sessão no fim de semana.


Cotação:



Nota: 8,0

domingo, 21 de julho de 2013

O Homem de Aço

5 motivos para não gostar de “O Homem de Aço”


ALERTA: o  texto a seguir está cheio de spoilers. Portanto,  é melhor acompanhá-lo apenas se você já tiver assistido ao filme.


Este foi um dos filmes mais aguardados do ano e as grandes expectativas quase sempre geram decepções. Infelizmente, não consegui fugir a tal regra e saí do cinema frustrado após assistir a “O Homem de Aço” em uma sessão 3D (dispensável) completamente lotada. A pergunta que não calava na minha mente era justamente: “mas, afinal, onde está o Superman?”. Sim, porque, convenhamos, aquele personagem na tela tinha algumas semelhanças com o Kal-El que conheci nos quadrinhos e na franquia cinematográfica protagonizada por Christopher Reeve, mas não era ele. A seguir, em tópicos, vou discorrer sobre os motivos que me levaram a rejeitar essa nova adaptação, esse reboot tão desnecessário quanto o foi, ano passado, o reinício da franquia do Homem-Aranha.

1) O roteiro – A impressão que tive foi a de que os roteiristas David S. Goyer e Christopher Nolan, os mesmos da recente trilogia “O Cavaleiro das Trevas”, estavam de ressaca depois do seu trabalho com o homem morcego e as ideias acabaram não fluindo da forma esperada, pois o enredo de “Man Of Steel” é repleto de atropelos e incongruências. Há muitas circunstâncias mal explicadas, como o fato dos kryptonianos não mais se reproduzirem naturalmente (será que alguma saga recente dos quadrinhos criou essa ideia estapafúrdia?) ou a ida de Lois à Fortaleza da Solidão, assim, digamos, meio que por acaso, logo após ver Kal-El caminhando (hein?) no Ártico em busca de suas origens. De quebra, o roteiro ainda transformou o Superman em um assassino ao matar o General Zod. A desculpa de Zack Snyder, diretor do longa, é a de que “a inocência acabou”. Pois bem, Sr. Snyder, eu acredito que justamente no mundo de hoje estamos precisando de mais pureza, inocência, inspiração e o personagem do Super-Homem era justamente o mais eficaz em mostrar aos garotos uma inigualável retidão de caráter. E aqui, entramos no segundo problema.


2) A direção – Zack Snyder é o diretor, mas não se pode negar que “O Homem de Aço” possui a mão forte de Christopher Nolan no processo criativo. Com dito anteriormente, recém egresso da franquia de Batman, ele aparentemente confundiu os personagens, querendo atribuir à narrativa um tom sombrio que destoa do Superman. Podem me acusar de “purista” ou “saudosista”, mas sempre defendi que uma adaptação de HQ é bem-sucedida quando consegue captar a essência do personagem. É o que sucedeu com a referida trilogia do Cavaleiro das Trevas e também com a trilogia do Homem-Aranha comandada por Sam Raimi. O que ocorre em “O Homem de Aço” é justamente o oposto. Super-Homem transforma-se em uma pessoa cheia de complexos, sem autoconfiança sentindo-se um rejeitado-deslocado-excluído devido à sua condição de alienígena. Algo semelhante ao sentimento dos mutantes dos X-Men, mas o filme não é sobre Wolverine (o filme dele é outro). Ressalte-se que os humanos sentem mais medo do super-herói do que admiração. Aliás, o fato de Kal-El ser um alienígena já é conhecido por todos, assim, logo de cara, inclusive por Lois Lane. Sim, não existe nenhum mistério e riqueza no relacionamento entre os dois. Ela já sabe que Clark é Superman, sem rodeios. O romance resta mal desenvolvido e, em compensação, no último terço de projeção, temos meia hora de pancadaria desenfreada que chega a ser cansativa. Metrópolis é devastada praticamente inteira, sem dó nem piedade, umas três vezes. Ah, e tudo isso com uma fotografia que prima pelos tons escuros, como se a qualquer momento Clark Kent fosse entrar na Batcaverna.

3) O ator – Em geral, o elenco não compromete. Amy Adams convence como a repórter Lois Lane, conferindo-lhe aquele ar arrogante-petulante característico da personagem. O veterano Kevin Costner também se sai bem como Jonathan, o pai terráqueo de Clark, exalando aquela aura de sabedoria a que nos acostumamos ver tanto nas HQs quanto no cinema. Até Russel Crowe, que vivia péssima fase, convence como Jor-EL, o pai kryptoniano do herói. Entretanto, é justamente na peça central que mora o problema. Henry Cavill, ator britânico egresso da TV (participou da série “The Tudors”), realmente é um homem bonito, lembrando o ícone Christopher Reeve, tem porte atlético e jeitão de Superman. Contudo, como ator, não convence ninguém. Está sempre com o semblante fechado e, nos poucos momentos sorridentes, eles aparecem forçados, como em um comercial de pasta de dente. Assim, a empatia com o espectador resta diminuída, algo que prejudica demais em um filme de super-herói. Mas, vá lá, ele é melhor do que o completamente inexperessivo Brandon Routh, intérprete (?) do filme de Bryan Singer.


4) A pretensão – Tudo bem, uma das conotações mais notórias do Super-Homem é a sua similaridade com Jesus Cristo. Afinal, ele foi “enviado” para a Terra, onde deveria trazer esperança para a humanidade; foi criado por pais terrenos; usa um manto vermelho nas costas; é moralmente irrepreensível e por aí vai. Contudo, “O Homem de Aço” leva essa conotação messiânica ao extremo, chegando ao ponto de, em determinada cena, o herói abrir os braços como se estivesse para ser crucificado. É como se, de repente, estivéssemos estranhamente a assistir um filme religioso. Tal subtexto sempre vai existir nas histórias do Superman, mas não precisa exagerar tanto assim. Esses excessos só contribuíram para deixar o longa com uma jeitão pretensioso totalmente dispensável.

5) A trilha sonora – Esse é o pior trabalho de Hans Zimmer em muito tempo. Uma trilha sonora invasiva, constante e permanentemente tensa. Dá até a impressão de que foi concebida para um filme de suspense. Entretanto, ao contrário de causar tensão nos momentos certos, torna-se cansativa e é totalmente esquecível. Quando lembramos da trilha épica e icônica que John Williams concebeu para o filme de 1978... Bom, aí a comparação vira covardia.

“O Homem de Aço”, apesar de todos esses poréns, não chega a ser um desastre. É perfeitamente assistível (tem ótimos efeitos especiais, claro), desde que esqueçamos que se trata de um filme sobre o Superman e imaginemos que aborda um outro herói qualquer. Ademais, ser “assistível” é algo muito abaixo do que se esperava da produção e o que percebo, diante da grande bilheteria que o longa vem obtendo, é que o seu marketing foi muito bem realizado (e os preços da salas 3D também ajudam né?). Esperemos que a continuação (já confirmada pela Warner) traga progressos na construção do roteiro e, principalmente, não esqueça que Super-Homem e Batman são personagens diferentes. Como frisado acima, não há nada pior para uma adaptação do que fugir à essência do personagem transposto para a tela. E, lamentavelmente, foi o que aconteceu.


Cotação:



Nota: 6,5

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Universidade Monstros

Recuperando a boa forma


Pode parecer estranho, mas eu nunca assisti a “Monstros S.A.” (Monsters, Inc.), animação da Pixar datada de 2001. Apenas vi alguns trechos em exibições na TV. Portanto, minha experiência ao assistir ao prequel “Universidade Monstros”, atualmente em cartaz nos cinemas, foi praticamente “verde” com relação ao universo dos personagens apresentados. Eu só sabia que se tratavam de monstros encarregados de assombrar as crianças à noite, uma maneira engenhosa de brincar com aqueles medos dos pequenos. Além disso, tinha conhecimento de que os simpáticos monstrinhos da animação trabalham em uma espécie de indústria especializada em provocar sustos na garotada e assim gerar energia para a cidade de Monstrópolis. A nova prequela trata de mostrar como esses monstros chegaram à função que exercem no primeiro episódio da franquia, narrando a sua vida de estudantes universitários na “Universidade Monstros” do título. A verdade é que, ao fim da sessão, fiquei me perguntando porque nunca havia dado chance ao primeiro filme. Um tremendo erro cinéfilo, agora admito.

Interessante como a Pixar sabe trabalhar com sequências de seus filmes. Tudo bem, “Carros 2” foi um desastre, mas cabe afirmar que o primeiro já não era lá essas coisas (o ponto mais baixo de sua fase, digamos, “áurea”). O que poderia ser tomado como falta de criatividade, acaba se transformando em algo de qualidade indubitável. Conseguiu gerar uma obra-prima com “Toy Story 3” (2010) e se sai muito bem nessa empreitada com os camaradas de Monstrópolis, resultando em um longa superior ao anterior “Valente” (Brave, 2012) o qual, mesmo tendo levado o Oscar de melhor animação (bastante duvidoso) e com material inédito, não convenceu muito a crítica. E, como sempre, realizando uma obra que alcança tanto o interesse das crianças quanto dos adultos. Aliás, no caso de “Universidade Monstros”, arrisco dizer que é uma animação mais adulta do que infantil, uma vez que não será muito fácil para os pequenos entenderem e se familiarizem com a cultura universitária ianque, repleta de sectarismos e divisões calcadas em “irmandades” que só aceitam fulanos ou sicranos (parece que ainda estão no primário e não na faculdade), algo muito explorado no enredo do longa.


O filme usa o ambiente dos universitários estadunidenses para tecer uma saudável crítica à cultura de “vencedores” e “perdedores” típica das terras do Tio Sam. Ser um estudante do Programa de Sustos da Universidade Monstros é o objetivo de Mike Wazowski (voz em inglês de Billy Crystal) no desde pequeno, quando resolveu que o destino de sua vida seria o de fazer parte da equipe de assustadores que atormenta os sonhos infantis. Como não possui um talento nato para o susto, compensa suas limitações com muito esforço e estudo e é por suas altas notas que é aceito no curso. Já James Sullivan (voz de John Goodman) entra para a Universidade Monstros por ser de uma famosa e tradicional família de assustadores, muito embora não seja muito dado a esforços. Ou seja, está no programa de sustos “jogando com o nome”, para usarmos uma gíria tipicamente futebolística. Inicialmente, eles nutrem antipatia mútua, mas depois de uma série de eventos, acabam disputando lado a lado uma competição entre as irmandades do campus. Eles fazem parte da Oosma Kappa, a irmandade dos “losers” e esquisitões.

Destarte, o roteiro, escrito por Robert L. Baird, Daniel Gerson e Dan Scanlon (esse último também é o diretor), não se resume a criticar a cultura competitiva dos Estados Unidos. Multifacetado, também aborda a aceitação e complementação entre os diferentes, o valor da amizade e a perseverança na busca da realização dos nossos sonhos. Tudo isso, claro, com muito humor e diversão à prova de gostos. As melhores produções da Pixar conseguem essa proeza que é a de agradar a vários tipos de humor, algo difícil de ser alcançado (e que é o sonho de todo comediante). O longa também possui ótimo ritmo, não se tornando desinteressante em nenhum momento, um mérito da direção de Scanlon.


Contudo, o aspecto possivelmente mais interessante de “Universidade Monstros” é a sua fuga dos clichês. Em certas passagens, quando estamos praticamente convencidos de que o longa se rendeu às previsibilidades, ele nos reserva novos caminhos inesperados que trazem à luz até mesmo conflitos morais e éticos. Algo realmente alentador em animações, as quais, devido ao seu caráter lúdico, acabam, por vezes, a turvar o senso crítico, fazendo-nos tolerar certos clichês ou maniqueísmos por se tratar de um produto que inevitavelmente desperta nosso lado infantil. Essa tolerância à vezes nos faz superestimar algumas produções, a exemplo do aclamado “Procurando Nemo” (Finding Nemo, 2003), que é muito divertido, mas não se pode negar que é permeado de clichês.

“Universidade Monstros” não é tão emocionante como o citado “Toy Story 3”, não alcançando o patamar de uma obra-prima. No entanto, trata-se realmente de um retorno da Pixar à sua boa forma ao aliar inteligência e diversão em igual medida, recuperando aquele espírito de “filmar como uma criança” tão presente em suas produções mais icônicas. E, principalmente, lembra-nos que, por mais sinuosas que sejam as estradas na busca de nossos sonhos, sempre é possível atingi-los. O mais importante é nunca desistir deles.


Cotação:



Nota: 9,5

Obs. O curta "O Guarda-chuva Azul" vale à pena ser conferido. Portanto, não chegue atrasado(a) à sessão.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Star Trek - Além da Escuridão

A evolução da Jornada


Já faz quatro anos (como o tempo passa rápido) que J.J. Abrams, cineasta egresso da televisão que ficou famoso por séries como “Lost”, levou às telas o reboot da longeva série “Star Trek”, a qual, como já tive a oportunidade de mencionar na resenha publicada à época, nunca esteve entre minhas referências pop preferidas. De qualquer forma, Abrams fez um bom trabalho no reinício da franquia. Mesmo que o “Star Trek de 2009 não chegue à excelência, seu resultado foi bastante agradável, conferindo uma roupagem rejuvenescida aos personagens capaz de trazer novos adeptos ao universo concebido por Gene Rodenberry. E, para aqueles que duvidavam (como eu) que ninguém seria capaz de incorporar o Dr. Spock tão bem quanto Leonard Nimoy, Zachary Quinto calou a boca de todo mundo roubando todas as cenas em que aparecia, alguns degraus acima do Capitão Kirk de Chris Pine.

Com este “Além da Ecuridão”, Abrams demonstra que é, inegavelmente, o grande diretor do gênero ficção-científica atualmente em atividade no cinemão norte-americano, deixando para trás os seus ídolos, o aposentado George Lucas e Steven Spielberg, que vem se dedicando a outros gêneros nos últimos anos. Este novo episódio de Star Trek pode não ser tão bom quanto seu filme anterior, o ótimo “Super 8”, mas com certeza alcança uma evolução em relação ao reboot de 2009. O diretor, agora liberto da necessidade de apresentar os personagens ao um novo público, aprofunda-se em sua psicologia e nas relações entre eles, fazendo com que o longa, mais do que uma aventura, possa ser visto como uma história de amizade. E, vale dizer, amizade não só entre os dois protagonistas Kirk e Spock, mas também entre todos os integrantes da tripulação da nave Enterprise. Aqui, quase todos os membros da equipe possuem o seu momento de destaque e ações que ajudam no desenrolar da trama, fazendo o público enxerga-los não apenas como um amontoado de personagens, mas como uma verdadeira equipe, um time que joga de maneira coletiva e vence as adversidades e os inimigos.


Em entrevistas recentes, Abrams declarou que gostava de ver filmes sem muitas informações prévias sobre o roteiro e, de preferência, até sem ver trailers ou comerciais de TV, razão pela qual a produção desse novo episódio foi cercada de mistérios. Os próprios atores foram orientados a falar o mínimo possível sobre o longa durante as entrevistas. A precaução é justificável. Quanto menos se souber a respeito do verdadeiro papel que John Harrison (Benedict Cumberbatch) terá no desenvolvimento da trama, melhor. Basta apenas saber que ele é uma espécie de terrorista estelar cuja personalidade misteriosa será responsável por testar os limites da equipe da Enterprise. De qualquer forma, embora tenha alguns “solavancos” comuns aos filmes de ação, o roteiro (de Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof ) é bem estruturado, valendo destaque para os diálogos, muito mais inteligentes, fluidos e divertidos (várias são as tiradas que funcionam ao longo da projeção) que os do primeiro da série, o qual era repleto de frases pouco inteligentes e clichês, principalmente em sua primeira metade.


Além disso, é inegável que Abrams filma como poucos, com enquadramentos perfeitos para as cenas de ação (que são muitas, diga-se de passagem) e ótima dinâmica e edição (vou ser repetitivo e perguntar: viu, Michael Bay?). Filmar cenas de ação é uma arte e, talvez, apenas James Cameron supere hoje J.J. Abrams neste aspecto. O ritmo da película é tão bom que nem percebemos que ele tem 2h12min de duração. Entretanto, um ponto em que Abrams precisa melhorar é trilha sonora de seus filmes, geralmente esquecíveis e que pouco acrescentam à narrativa. Por outro lado, demonstra mais uma vez muita competência na direção de atores, o que é difícil em longas repletos de ação. Embora Benedict Cumberbatch tenha boa presença na pele do vilão John Harrison, não considero seu desempenho tão excepcional como alardeado por aí em alguns veículos midiáticos. Neste ponto, os maiores méritos ficam mesmo com a dupla protagonista. Chris Pine evoluiu bastante em relação ao primeiro longa, trazendo um Capitão Kirk muito mais tridimensional e que vai além de um mero garoto-irresponsável-que-precisa-amadurecer. Entretanto, Zachary Quinto, mais uma vez, rouba mesmo a cena com o seu Dr. Spock. Ele praticamente domina todas as sequências em que aparece e definitivamente calou a boca de muitos que julgavam que o rapaz não estaria à altura de Nimoy.

É verdade que “Star Trek” não chega a ser uma coca-cola gelada no deserto. Não atinge um nível de excelência como se tem propagado por aí, como de resto nenhum filme de J.J. Abrams, até hoje, pode ser classificado como “excelente”. Entretanto, “Além da Escuridão” está um degrau acima do seu antecessor, representando uma evolução da jornada. Ao mesmo tempo em que traz ação quase ininterrupta, consegue, como já frisado, aprofundar-se na psique e nas relações entre os personagens, algo que decididamente não é fácil. Isso me faz lembrar que Abrams será o diretor de Star Wars episódio VII, trazendo boas expectativas para uma franquia já desgastada. Convenhamos, diante do seu trabalho com “Star Trek” (série da qual ele nem era fã), será difícil que ele venha a cometer equívocos como “A Ameaça Fantasma” na franquia do Darth Vader.


Cotação:



Nota: 8,5