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domingo, 15 de dezembro de 2013

Os Suspeitos

Prenda a respiração e reflita


Como é possível perceber pela data da última postagem, “O Cinema com Pimenta” anda meio, digamos assim, “parado”, com um baixo número de atualizações. Isso se deve, em boa parte, ao trabalho, que está consumindo quase todo o meu tempo nos últimos meses e tem me deixado com pouca disposição para escrever. Entretanto, o marasmo do blog também se deve à correria em que eu e minha esposa nos encontramos no preparo da chegada do nosso primeiro filho, prevista para o próximo mês de março. Sim, já sou um papai dedicado que vê seu tempo cada vez mais tomado por essa criaturinha que ainda nem nasceu, mas que eu já amo muito. Bem, de qualquer forma, em meio ao corre-corre dos últimos dias, encontrei um tempinho na última sexta-feira para assistir a um dos filmes que se transformaram em sensação no presente ano de 2013. Trata-se do ótimo suspense “Os Suspeitos”, que não é o de Bryan Singer (produzido em 1995), mas o do canadense Dennis Villeneuve (será que ele tem parentesco com a família de pilotos de F1?), o mesmo diretor do premiado “Incêndios” (Incendies, 2010), longa que não tive a oportunidade de assistir, mas do qual já ouvi ótimas referências.

Não sei no caso do citado “Incêndios”, mas em “Os Suspeitos” Villeneuve deixa transparecer uma acentuada influência do trabalho de um dos mais cultuados diretores da atualidade: David Fincher. Ao logo das quase duas horas e meia de projeção, sentimos aquele clima opressor e um tanto sombrio de suspenses como “Seven – Os Sete Crimes Capitais” (Se7en,1995) ou “Zodíaco” (Zodiac, 2007). Até a paleta de cores usada na fotografia (de Roger Deakins), dessaturada e repleta de sombras, remete aos filmes de Fincher. Contudo, seria leviano afirmar que Villeneuve se limita a ser uma espécie de “imitador” de Fincher. Através de uma trama que poderia render apenas alguns minutos de suspense para o público, Villeneuve desenvolveu uma perspicaz alegoria para abordar uma antiga questão e caráter ético e moral: os fins justificam os meios? Por mais nobres e justificáveis que sejam nossas motivações, será que podemos nos valer de qualquer forma para atingirmos nossos objetivos? É uma pergunta difícil, mas que Villeneuve não se furta a responder de maneira satisfatória ao término do longa.


Para tanto, ele se vale de um roteiro (escrito por Aaron Guzikowski) que estabelece dois protagonistas, quase antagônicos. Um deles é Keller Dove (Hugh Jackman, ótimo), um carpinteiro pai de dois filhos que vê sua rotina virar de ponta cabeça quando sua caçula é sequestrada juntamente sua melhor amiga. É a deixa para que desperte seus instintos paternais de proteção, levando a busca pela menina até às últimas consequências, incluindo extrema violência em relação aos suspeitos. O outro protagonista é o detetive Loki (Jake Gyllenhaal, que não é o irmão do Thor), um policial que se torna obsessivo na busca pelos criminosos responsáveis, mas que jamais ultrapassa a fronteira ética em suas investigações. Nas entrelinhas, Villeneuve parece realizar uma crítica a expedientes espúrios costumeiramente usados pelo Estado (mormente o norte-americano) ao procurar culpados por delitos, principalmente os relacionados ao terrorismo, quando não são respeitados os mais elementares direitos dos acusados.



De qualquer forma, à parte o mencionado subtexto, “The Prisoners” funciona perfeitamente enquanto filme de suspense, daqueles de tirar o fôlego, deixando o espectador em estado de tensão praticamente ao longo de toda a projeção do longa. Mais um mérito do roteiro, que não entrega nada de mãos beijadas ao público, fazendo-o pensar e se interrogar sobre a verdadeira trilha a ser percorrida. Além da já mencionada fotografia soturna, contribui ainda a ótima edição de Joel Cox e Gary Roach, dando ritmo a uma narrativa que poderia se tornar massante devido à longa duração da película. Outro ponto alto são as atuações. Hugh Jackman tem uma de suas melhores presenças ao interpretar o desesperado pai à procura de sua filha, trabalho que possivelmente lhe renderá outra indicação ao Oscar. Entretanto, creio que aquele que mais merece ser lembrado pela Academia é Jake Gyllenhaal como o detetive Loki. Em uma atuação contida e introspectiva, ele rouba as cenas em que aparece mesmo quando não fala muito. Também se destacam pelo apuro na composição dos seus respectivos personagens Paul Dano, na pele do suspeito que é alvo preferencial da obsessão de Keller Dove, que tem uma presença memorável em cena, assim como Melissa Leo, praticamente irreconhecível como uma velha senhora que perdeu uma filha vítima de câncer. É uma pena que as premiações estejam ignorando o primoroso trabalho do elenco. O Sindicato de Atores não lembrou dos intérpretes em nenhuma categoria entre os seus indicados, assim como o Globo de Ouro. Mas o que dizer de premiações que chegaram ao cúmulo de indicar Daniel Brühl, de “Rush – No Limite da Emoção”, na categoria de melhor ator coadjuvante se ele interpreta o personagem central do filme? Nem preciso falar mais nada, né?

Não é o fato de ser ignorado pela temporada de prêmios que vai fazer de “Os Suspeitos” um filme menor. Com certeza, é um dos melhores longas de 2013 e não por acaso foi aplaudido no Festival de Toronto. Bem, ganhando ou não prêmios, a qualidade de “The Prisoners” continua intacta, sendo um dos melhores filmes de 2013, sem dúvida. Não sei se chego a essa conclusão por viver um momento em que estou prestes a me tornar pai e a temática do longa, desta forma, me atingiu de maneira especial. É possível que sim, mas, diante da chiadeira geral que surgiu devido ao seu esquecimento na temporada de prêmios, percebo que ele vem agradando em muito ao público. Há tempos não aparecia um suspense tão interessante entre produções hollywoodianas. Para prender a respiração durante e refletir depois da projeção.


Cotação:



Nota: 9,0

terça-feira, 16 de julho de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Acossado
 (À Bout de Souffle, 1960)


O filme do Godard


“O Eduardo sugeriu a lanchonete, mas a Mônica queria ver o filme do Godard”. Foi através dessa frase de “Eduardo e Mônica”, famosa canção de Renato Russo, que, ainda garoto, ouvi falar pela primeira vez em um tal de “Godard” ("Mas quem é esse cara?"). Alguns anos mais tarde, descobri que o tal Godard da música era um importante diretor de cinema francês, que havia dirigido um filme chamado “Acossado”, uma obra considerada revolucionária que haveria de influenciar todo o cinema posterior. Mais alguns anos depois, já barbado, o primeiro filme que vi de Jean-Luc Godard não foi “Acossado”, mas “Alphaville” (1965), uma ficção científica distópica que influenciaria até Stanley Kubrick em “2001 – Uma Odissseia no Espaço” (2001 - A Space Odyssey, 1968). Devo dizer que foi uma experiência diferente, bem mais até do que eu esperava. No entanto, a curiosidade de ver “Acossado” ainda perdurava e, enfim, neste último sábado consegui saciá-la. E, tal como aconteceu com o citado “Alphaville”, o longa-metragem ainda trouxe mais do que era esperado. Finalmente entendi por que todos o consideravam uma “revolução”.

Em “Acossado” nada é convencional. Impressionante que, mesmo com mais de cinco décadas, o longa ainda continue moderno, original, contemporâneo, mais até do que 90% dos filmes que enchem as salas de cinema nos finais de semana. Decididamente, em “Acossado” nada envelheceu. E não estou fazendo tais afirmações para reverenciar Jean-Luc Godard. Aliás, ele nem precisa disso, tamanha a sua inegável importância para a história do cinema. Eu sou daqueles que não elogiam um filme apenas por ser um clássico. Por exemplo, considero “Juventude Transviada” (Rebel Without A Cause, 1955), do genial Nicholas Ray, um filme datado, mesmo com a presença de James Dean em cena. Já no longa primogênito de Godard, cada cena parece destinada a receber o adjetivo “cool”, à revelia da passagem do tempo.


A cada novo filme que vejo da Nouvelle Vague, passo a alimentar ainda mais a convicção de que este foi o movimento mais importante no cinema em todos os tempos. De fato, não se pode negar que foram aqueles jovens críticos da revista Cahiers du Cinéma os principais responsáveis por inaugurar uma era em que o cinema restou imbuído de plena subjetividade, uma mudança decorrente da prática da teoria do autor, a qual eles próprios haviam elaborado exercendo a crítica no referido periódico. Com a Nouvelle Vague, os diretores ganharam espaço na eterna luta com os produtores pelo controle criativo da película, um embate que, se ainda perdura, hoje, não se pode negar, apresenta ligeira vantagem para os diretores. Afinal, basta lembrar quantas oportunidades vamos ao cinema porque queremos ver o novo trabalho de Woody Allen, Steven Spielberg, Martin Scorsese ou Michael Haneke. Aliás, os três primeiros citados são crias da Nova Hollywood, aquele período da cinematografia norte-americana entre a segunda metade dos anos 60 até o final dos 70 que foi diretamente influenciado pela “nova onda” francesa.

Contudo, dentre vários cineastas e filmes inovadores da Nouvelle Vague, Godard e “À Bout de Souffle” merecem um destaque especial. Trata-se de um marco para uma nova perspectiva da narrativa cinematográfica. Até então, todos os planos e sequências de uma película tinham finalidade utilitarista, servindo unicamente para mostrar os fatos que compunham a narrativa. “Acossado” trouxe uma nova perspectiva, lançando a ideia de que o diretor poderia inserir planos na projeção apenas por considera-los belos ou interessantes, sem necessariamente acrescentar algum elemento importante ao entendimento do enredo. É a imagem pela imagem, desvinculando o cinema de sua perspectiva pragmática. Se Godard, em boa parte do longa, realiza close ups apaixonados no rosto de Jean Seberg, não é porque isso é importante para o desenrolar do roteiro, mas tão somente porque o belo rosto da atriz lhe agrada e ele busca que o espectador sinta o mesmo encantamento. Assim, somos envolvidos na trama a partir de uma perspectiva inteiramente vinculada ao olhar do diretor. É a execução perfeita do cinema autoral.


Outro expediente do diretor na sua elaboração foi a ideia da “edição brusca”, algo que não era inteiramente original, mas que aqui ganha contornos diferenciados. Saltamos de uma cena a outra sem aquela sensação de continuidade, de “virada de página”, como ocorre na edição tradicional. Tal recurso transmite uma significativa urgência, algo que certamente contribui para o caráter atual que o filme ainda exala. Essa edição abrupta teria sido uma sugestão de Jean-Pierre Melville, um dos poucos cineastas franceses que eram admirados pela trupe da Cahiers du Cinéma. Um pitaco importante que ajudou em muito no processo criativo de Godard, assim como a trilha sonora jazzística de Martial Solal, praticamente onipresente em todo a projeção e que contribui para estabelecer o clima noir que reina em “Acossado”.

Sim, pode-se afirmar que “Acossado” é um noir modernizado. Godard, assim como os demais cineastas da Nouvelle Vague, era fã do cinema estadunidense e, na sua obra, usou e abusou de elementos hollywoodianos. Na trama, cujo roteiro foi elaborado em parceria com o amigo François Truffaut (anos mais tarde eles romperiam a amizade devido a divergências criativas), Jean-Paul Belmondo (em papel que lhe rendeu a fama) interpreta Michel Poiccard, um escroque que vive de furtar carros e outros pequenos delitos. Em certa oportunidade, quando perseguido pela polícia, acaba assassinando um dos policiais, o que o transforma em procurado. Paralelamente, ele mantém um romance com Patricia Franchini, a personagem da bela Jean Seberg (a qual nunca atingiria o mesmo sucesso posteriormente), uma norte-americana que vive em Paris vendendo jornais. O relacionamento entre os dois tem aquele caráter modernoso que se tornaria padrão no cinema francês, colocando-se como mais um incremento do longa que desafia a passagem do tempo.


 É na relação entre ambos que surgem os melhores diálogos, longos e repletos de referências culturais. Não, não é por acaso que você está lembrando de Quentin Tarantino. Ele realmente deve muito ao cinema de Godard e não apenas na forma de elaboração dos diálogos. Godard também criou o cinema autorreferencial. Basta lembrar da cena em que Poiccard olha fixamente o pôster de um filme com Humphrey Bogart e perceber que vários dos seus trejeitos são imitações daqueles criados pelo astro hollywoodiano. É o cinema declarando amor ao cinema, algo que mais tarde seria latente em toda a obra de Tarantino.

É possível que todas a linhas escritas acima signifiquem apenas chover no molhado. Isso costuma acontecer quando tratamos de filmes que fizeram história no Cinema. Chovendo ou não no molhado, posso dizer que agora realmente entendo porque “Acossado” é considerado revolucionário, um marco cultural ainda cheirando a novo e, da mesma forma, porque o seu diretor é tomado como um dos mais importantes não apenas do cinema francês, mas da cinematografia internacional. Tão relevante que seu nome é citado até em música popular como sinônimo de cinema de arte. E isso é para poucos.


Cotação e nota: Obra-prima.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Faroeste Caboclo

A música é melhor


“Ei, Fábio, tem alguma notícia sobre o filme de Faroeste Caboclo?”. Ao longo de vários anos (nem me lembro exatamente quantos) ouvi muitas vezes essa frase de um amigo que, como eu, adorava a Legião Urbana e costumava me perguntar sobre a possível adaptação da música do saudoso Renato Russo para as telas de cinema (abraço, Luciano!). Na maioria das oportunidades, eu simplesmente não tinha informação nenhuma para dar e imaginava que esse era um projeto que nunca iria sair do papel. Cheguei a pensar que se tratava apenas de um boato divulgado pelo global Video Show, no tempo em que este programa ainda divulgava algumas notícias de conteúdo interessante e não apenas abobrinhas e futilidades sobre novelas e celebridades (faz uma tempão, né?). Pois bem, o tempo passou, meu amigo nem mora mais em Natal (como andam as coisas em Curitiba?) e, enfim, a canção-quase-roteiro da Legião estreou nos cinemas.

Composta ainda nos anos 70, durante a fase “Trovador Solitário” de Renato Russo (saiba mais assistindo a “Somos Tão Jovens”), o qual desejava fazer algo no estilo das canções de Bob Dylan (uma de suas maiores influências), “Faroeste Caboclo” só passou a ser conhecida do grande público com o álbum “Que País é Este?”, lançado pela Legião Urbana em 1987. Com seus quase 10 minutos de duração, ninguém imaginava que ela iria se tornar um hit radiofônico, mas foi o que sucedeu. Parece algo impensável, mas, diante dos pedidos dos ouvintes, a faixa era reproduzida inteira nas rádios, uma proeza ainda maior em uma época em que para ouvir música de graça só mesmo escutando as emissoras, as quais detinham um poder enorme sobre o que deveria ou não fazer sucesso. Se lembrarmos que a música não possui refrão, é pontuada por palavrões e não tem nada de politicamente correta – no contexto de um país que ainda estava desacostumado com a liberdade de expressão – o feito se torna ainda mais impressionante. Entretanto, realmente se trata de uma composição ímpar na música brasileira, narrando a ascensão e queda de um retirante que se torna traficante na Capital da República sob um pano de fundo sociopolítico aguçado.


 A direção do longa coube a René Sampaio, o qual se mostra bem competente para um diretor estreante. Ele sabe manter o ritmo e tem ótimas referências imagéticas, como o clímax no duelo entre João do Santo Cristo (Fabrício Boliveira) e o traficante Jeremias (Felipe Abib), onde usa das marcas do genial Sergio Leone, contrapondo closes e planos abertos para estabelecer a tensão do momento. Há também muito do estilo tarantinesco, com uma certa dose de hiperviolência que acaba soando pertinente diante do universo de criminalidade abordado. Contudo, o roteiro (de Marcos Bernstein, o mesmo de “Somos Tão Jovens”, e Victor Atherino, com participação de Paulo Lins, o autor de “Cidade de Deus”) realiza alterações no texto original que me incomodaram bastante.

Primeiramente, nota-se que a adaptação quase eliminou da narrativa as origens de João do Santo Cristo. Não sabemos quase nada sobre sua infância, restando apenas as informações de que vivia na miséria e o pai foi morto a tiros por um policial. Só. Seus sonhos e expectativas com uma vida diferente da que levava, tão bem delineados por Renato em sua letra, são podados do enredo do longa, o que é uma pena. Afinal, a trama concebida pelo músico é uma versão pop da velha história do retirante que busca na cidade grande uma vida melhor, onde suas aspirações podem se tornar realidade. A partir desta concepção, o fim de João, em um duelo televisionado, torna-se ainda mais trágico e irônico. Algo semelhante ao fim de Zé do Burro em “O Pagador de Promessas”, a peça de Dias Gomes mais tarde transformada em filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes por Anselmo Duarte, o qual sempre me pareceu ser uma das fontes em que Renato bebeu para conceber o texto de “Faroeste”. É a tragédia do homem simples transformada em espetáculo midiático. Ao retirar de João o seu passado e sua ingenuidade, uma vez que no roteiro da película ele não vai a Brasília para “falar com o presidente”, Sampaio praticamente o coloca tão somente como um bandido comum, alguém que entrou na criminalidade por mera ambição e oportunidade, empobrecendo o personagem. É possível imaginar que a opção de diretor e roteiristas foi atribuir um tom menos fantástico que desfecho original, este talvez com um efeito poético condizente apenas com a linguagem musical e que causaria estranheza nas telas. Contudo, pensar de tal forma apenas resulta em estabelecer limites artificiais à linguagem do cinema, fronteiras estas que na realidade não existem (já imaginaram se Fellini ficasse adstrito a “padrões”?).


Se João não se torna apenas mais um lugar-comum entre os criminosos de filmes de gangster, isso se deve em muito à atuação de Fabrício Boliveira. Ele está ótimo, conferindo uma aura introspectiva ao emigrante e, tendo em vista que se trata de um ator negro, contribuindo para que a questão racial se torne ainda mais forte no filme do que na música (e isso é um elogio), já que o tema étnico é apenas pincelado por Renato na sua letra. Aliás, não só Boliveira, mas todo o elenco se apresenta com garra e competência. Ísis Valverde encarna Maria Lúcia com alma, mostrando que pode ir muito além dos papeis de “periguetes” que fizeram a sua fama recentemente na TV. Além disso, temos as boas participações de Antônio Calloni, como um policial corrupto, e Marcos Paulo como o senador pai de Maria Lúcia, em uma de suas últimas aparições nas telas, seja do cinema ou da televisão. Somente Felipe Abib, no papel de Jeremias, destoa do restante do elenco, trazendo alguns excessos a um tipo que tem muito do Tony Montana de “Scarface” (1983, de Brian De Palma).

Nos créditos finais, quando finalmente ouvimos a canção adaptada, a impressão que tive foi a de que Renato Russo conseguiu contar melhor a história de João de Santo Cristo em 10 minutos de música e letra do que René Sampaio em 105 minutos de projeção. Advirto que não estou querendo ser irônico ou afirmando que o longa-metragem seja uma droga, mas, se sobra verve ao elenco e técnica na direção, faltou abordar com mais apuro a riqueza de um personagem que encarna várias facetas do povo brasileiro. Depois de tantos anos de espera, o gostinho de “poderia ser melhor” acabou deixando um certo incômodo.


Cotação:



Nota: 7,5

domingo, 12 de maio de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

Mother - A Busca Pela Verdade
(Madeo, 2009)


Suspense hitchcockiano sobre a maternidade


Ultimamente, ando afastado do cinema asiático. Um descaso bastante reprovável, tenho ciência disso, o que me levou a procurar resolvê-lo assistindo a algum representante do crescente e elogiável cinema coreano, considerado pela crítica internacional como o maior celeiro de criatividade atual. Confesso que, entre os representantes da produção coreana recente, eu havia visto apenas “Old Boy” (2003), a perturbadora saga de vingança concebida pelo diretor Chan-wook Park. Diante da proximidade do dia das mães, o que estava me motivando a postar algum texto relacionado à data (tudo bem, até o Cinema Com Pimenta às vezes acaba contaminado por essas datas que, no fundo, são comerciais), acabei optando pelo longa-metragem “Mother – A Busca Pela Verdade”, cujo diretor Bong Joon-Ho é um dos mais incensados da atual cena da Coreia do Sul. Ele é o mesmo cineasta de “O Hospedeiro” (Gwoemul, 2006), filme conhecido pela mistura de diversos gêneros, passeando do terror até a comédia e crítica social. Não vi “O Hospedeiro”, mas, a julgar por este “Mother”, o ecletismo parece mesmo ser uma marca do trabalho de Joon-Ho.

Em “Madeo” (título original do longa), o diretor consegue misturar com precisa eficácia gêneros como drama, suspense e policial, trazendo um resultado original e, até certo ponto, surpreendente. Um modo diferente de abordar uma narrativa que questiona até onde pode ir o amor materno. Na trama, Hye-Ja (papel da excelente atriz Kim Hye-Ja), comerciante que também realiza sessões de acupuntura clandestinamente, é mãe solteira de Do-Joon, uma rapaz que tem já os seu vinte e poucos anos, mas que tem um significativo retardo de desenvolvimento mental, comportando-se como uma criança. Após uma noite de bebedeira, Do-Joon acaba se tornando o principal suspeito do brutal assassinato de uma jovem de seu bairro. A super protetora Hye-Ja fará, então, de tudo para provar a inocência do filho, em um caminho tortuoso onde terá de enfrentar uma polícia ineficiente e advogados negligentes. Um percurso com surpresas e situações de choque e que levarão o espectador tanto ao espanto quanto à reflexão.


A estrutura básica de “Madeo” é a de um “whodunit”, aquele tipo de filme cujo mote central é descobrir quem cometeu um crime. Joon-Ho desenvolve o mistério utilizando estruturas inspiradas em Alfred Hitchcock, como a famosa premissa do “homem errado”, tão frequente na filmografia do cineasta britânico. Além disso, realiza uma interessante mistura de tons de suspense com elementos cômicos, uma das especialidades do velho Hitch. Contudo, se este utilizava uma superfície de mistério e suspense para realizar análises acerca da relação homem-mulher, dissecando a sedução e dominação presentes nos envolvimentos amorosos, Joon-Ho tenta entender aquela que talvez seja o mais instintivo, visceral e, ao mesmo tempo, belo e comovente dos sentimentos: o amo materno. A trajetória de Hye-Ja para proteger sua prole alcança pontos em que certos limites éticos e morais são ultrapassados, levando-nos a refletir sobre a aceitabilidade de suas condutas, além de fazer-nos questionar o quanto do ser humano pode ser condicionado pelos nosso instintos mais primitivos. Joon-Ho, todavia, não oferece julgamentos, seja condenando ou absolvendo a protagonista e está longe de enquadrá-la em uma visão santificada ou que procurasse ao menos justificar suas atitudes. De outra ponta, Joon-Ho demonstra uma forte preocupação em exibir a realidade da Coreia capitalista, muitas vezes vista nos Ocidente como exemplo de país que soube sair do subdesenvolvimento. A Coreia que vemos nos filme é repleta de semifavelas e demonstra possuir uma sociedade bem menos rica e pujante do aquela que a mídia globalizada costuma divulgar.


Tais questionamentos nos são trazidos por meio de um roteiro muito bem construído, atento a minúcias e com pistas falsas, muito embora algumas de suas reviravoltas, mormente a principal delas, se mostrem uma tanto previsíveis. Apesar de tais previsibilidades, a narrativa não deixa de ser envolvente e não só porque o roteiro é bem construído. As atuações contribuem poderosamente para o ótimo resultado final da película. O jovem intérprete do filho Do-Joon, o ator Bin Won, realmente convence como uma rapaz com problemas de desenvolvimento mental, em uma atuação muito natural. Além dele, Ku Jin, intérprete do amigo Jim-Tae, também trabalha com competência na construção de uma personalidade dúbia. Contudo, é mesmo Kim Hye-Ja que arrasa em sua performance como a mãe protagonista. Uma atuação perfeita que certamente levaria indicações e prêmios Oscar caso ela tivesse trabalhado em um longa hollywoodiano.

“Mother-A Busca Pela Verdade” tornou-se quase uma unanimidade perante a a crítica internacional e não impunemente. Trata-se de uma obra que demonstra, de fato, porque o cinema coreano é considerado o mais criativo da atualidade, abordando temas complicados de forma inteligente, mas sem tem medo de ser incômodo. Interessante, inclusive, constatar como a produção coreana consegue fugir do politicamente correto e até chocar o público, mas sem nunca deixar de envolvê-lo, em uma mistura de forma e substância à qual é impossível ficar indiferente. E Bong Joon-Ho é, indubitavelmente, um dos grandes representantes dessa escola cinematográfica singular, sendo “Mother” uma ótima forma de começar a conhecê-lo. Não sei se é exatamente uma longa para ser visto no dia das mães, mas que é um baita filme, isso é.


Cotação:



Nota: 9,0

sábado, 6 de abril de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

À Beira do Abismo
(The Big Sleep, 1946)


Divertidamente confuso


O Noir é o gênero cinematográfico que provavelmente mais desperta a curiosidade e atenção dos cinéfilos ao longo das décadas. Se é que podemos definir o “noir” como um gênero, é importante ressaltar. Talvez seria mais correto defini-lo como um estilo de criação cinematográfica, já que alguns filmes ditos “noir” pendem mais para o drama, outros para o policial, suspense e até comédia. De qualquer forma, a iconografia do cinema noir, com seus personagens fumantes, vestindo sobretudos ou vestidos provocantes, envoltos em tramas geralmente misteriosas, é algo que já faz parte do inconsciente coletivo mundial e, em boa medida, serve de atestado da força do cinema Hollywoodiano na cultura popular. Entretanto, dentro da fluidez do conceito de cinema noir – na verdade uma definição elaborada pela turma francesa da Nouvelle Vague – existem aqueles filmes que se aproximam mais ou menos de seus padrões característicos. “À Beira do Abismo!, longa-metragem dirigido pelo mestre Howard Hawks em 1946, com certeza está entre aqueles que mais realçam os traços roteirísticos e imagéticos desse estilo tão estudado, charmoso e idolatrado.

Baseado em um romance policial de Raymond Chandler, o filme tem fama de possuir um roteiro muito confuso, dado o excesso de nomes e reviravoltas que vão acontecendo no seu desenrolar. É verdade. Tanto que o próprio Raymond Chandler admitiu que seu livro era confuso e, ao terminarmos de assistir à adaptação cinematográfica - que teve o roteiro assinado por ninguém menos que William Faulkner (Nobel de literatura em 1949) - a sensação é de não termos entendido boa parte do que se passou. Entretanto, isso nem de longe significa afirmar que “À Beira do Abismo” é um filme ruim. Sua narrativa complicada, repleta de diálogos ágeis e personagens que vão entrando e saindo sem que se perceba sua real importância, não deixa de ser muito divertida, espirituosa e inteligente. Aliás, em geral são assim os filmes dirigidos por Hawks, um daqueles cineastas que, mesmo dentro do chamado “studio System”, quando os diretores não tinham muito controle sobre a obra, conseguia imprimir aspectos autorais em seus trabalhos.


Aqui, ele repetiu a dose com o casal central, interpretados por Humphrey Bogart e Lauren Bacall, os mesmos de “Uma Aventura na Martinica” (To Have and Have Not, 1944), realizado dois anos antes. A dupla tinha efeito enorme sucesso junto ao público, dada a ótima química em cena. Na verdade, a química entre os dois era tão boa que eles já estavam vivendo um romance também fora das telas e se casariam apenas seis meses depois da filmagens de “The Big Sleep”. Com o respaldo da boa bilheteria, Hawks então se sentiu à vontade para deixar fluir os diálogos espirituosos e insinuantes entre a dupla, além de preencher os vários coadjuvantes com tipos característicos de sua filmografia. As mulheres, por exemplo, são as costumeiras “atiradas”, comuns nos longas de Hawks. Philip Marlowe, o detetive interpretado por Bogart, é alvo de “cantadas” mais ou menos diretas de praticamente todas as mulheres que surgem ao longo da narrativa, até mesmo de uma motorista de táxi e da proprietária de uma livraria (esta última sendo uma ótima presença de Dorothy Malone). Essas fêmeas pró-ativas de sua obra, que atingiriam o ponto máximo com Marilyn Monroe em “Os Homens Preferem as Loiras” (Gentlemen Prefer Blondes, 1953), possivelmente representam as fantasias do cineasta, denotando que este era o seu perfil preferido de mulheres.

Mas não é só no campo das metáforas que está presente a mão do diretor. O longa é imageticamente impecável e, como já frisado mais acima, apresenta todos os elementos estéticos típicos do cinema noir. Desde os créditos iniciais os cigarros estão presentes, destoando completamente do perfil antitabagista da Hollywood contemporânea. O detetive Marlowe passa quase toda a projeção vestindo sobretudo; a trama se passa praticamente inteira durante o período noturno e a fotografia em preto e branco de forte contraste complementa o tom soturno da projeção, a qual, no fundo, gira em torno de uma menina mimada, Carmen Sterwood (Martha Vickers), a dor de cabeça do pai, o General Sternwood (Charles Waldron). É o general que contrata Marlowe, um detetive acostumado a enfrentar o submundo, para investigar Arthur Geiger, credor de enorme quantia em dívidas de jogo assumidas por Carmen. Na mesma oportunidade, ele é abordado por Vivian Rutledge (Bacall), irmã mais velha de Carmen, a qual acredita que a origem dos problemas está no desaparecimento de um empregado e amigo do pai, um tal de Shawn Regan. A partir de então, sucedem-se assassinatos, charadas e romances que se misturam, deixando o espectador ligado em um enredo divertidamente confuso.


Como frisado mais acima, Bogart e Bacall sustentam um ótimo jogo amoroso ao longo da projeção. Ele com seu estilo cínico, sempre dono da situação, e ela com seu olhar e maneiras imponentes, os quais a faziam parecer mais bonita do que realmente era. Todavia, cabe apontar que o elenco coadjuvante é bastante eficiente. Alguns afirmam, inclusive, que boa parte das cenas de Martha Vickers teriam ficado de fora da edição final devido à competência de sua interpretação para Carmen Sternwood, ofuscando o brilho da estrela Lauren Bacall. Não vi a versão do diretor presente na edição brasileira lançada pela Versátil e, sendo assim, não pude aferir a veracidade de tal afirmação. De qualquer forma, na versão original exibida nos cinemas, Martha Vickers realmente rouba as cenas das quais participa, mesmo que não sejam muitas, atribuindo uma condição perturbada à personagem de Carmen. Outro ponto relevante é a trilha sonora de Max Steiner (o mesmo compositor das trilhas de nada mais, nada menos que “Casablanca” e “...E o Vento Levou"), conferindo um boa dose de suspense nos momentos-chave da trama.

É possível que você, leitor, ao assistir “À Beira do Abismo”, fique com sensação de não ter entendido muita coisa. Por outro lado, também é provável que deseje repetir a experiência para tentar montar esse quebra-cabeças. É assim que o longa de Hawks deve ser encarado: um quebra-cabeças que lhe trará 114 minutos de diversão, auxiliado pela presença luxuosa de dois grandes astros do cinema norte-americano, complementada pela direção sofisticada e inteligente desse grande cineasta. Além, claro, de se ter uma bela aula sobre o que foi o cinema noir, com seus mistérios, mulheres fatais e detetives durões.


Cotação:



 Nota: 9,0

sábado, 26 de novembro de 2011

Eu Quero Esse Pôster #17


Eu estava vagando pela net em busca de um pôster interessante quando encontrei este bastante peculiar de "Indiana Jones e A Última Cruzada", último episódio da trilogia original de um dos meus personagens favoritos das telas. Nunca tinha visto antes! Trata-se de um trabalho do designer Olly Moss, um dos "tampas de Crush" na área atualmente. Abaixo, seguem mais dois exemplos da capacidade desse artista, com seu material para "Sindicato de Ladrões" e "Robocop". Genial!


domingo, 14 de agosto de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer



Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas
(Bonnie & Clyde, 1967)


Violento, ro
mântico e precursor de uma era


Reza a lenda que Warren Beatty chegou a se ajoelhar aos pés de Jack Warner, o então todo-poderoso da Warner Bros., implorando para que ele aprovasse a produção de “Bonnie & Clyde”. Não se sabe se o relato é verdadeiro (o ator até hoje nega que o seja), mas ele se traduz em uma ótima maneira de ilustrar a odisseia enfrentada por Beatty para realizar esta obra seminal, em verdade muito mais sua do que de Arthur Penn, responsável pela direção. Beatty era ainda um jovem intérprete que vivia muito mais da imagem de astro conquistador-mulherengo do que efetivamente do seu talento. Despontando como sensação em “Clamor do Sexo” (Splendor In The Grass, 1961), de Elia Kazan, Beatty nunca mais havia feito nada de realmente relevante em sua carreira e a ideia corrente de que seria apenas mais um galã sem real talento vinha lhe incomodando bastante (já o citado Jack Warner achava que ele estava desperdiçando a carreira com “filmes de arte”). Ele estava ansioso por mostrar que era subestimado e que possuía uma visão inovadora para o cinema norte-americano, muitos mais alinhada com o frescor do então pujante cinema europeu, vivendo o auge com a Nouvelle Vague francesa e a melhor fase da produção italiana.

Não por acaso, François Truffaut foi o primeiro diretor a assumir o projeto, mesmo que por pouco tempo, chegando a desenvolver o roteiro originalmente concebido por David Newman e Robert Benton. Foi a partir de Truffaut, por sinal, que Beatty tomou contato com o projeto. O famoso diretor francês acreditava que o jovem ator seria perfeito para o papel de Clyde Barrow, famoso assaltante de bancos durante a depressão econômica dos anos 30, e ele não havia se enganado. Entretanto, Truffaut abandonou o projeto para se dedicar a “Farenheit 451”, deixando o longa dos famosos gangsteres do meio-oeste americano sem diretor. Foi aí que Beatty recorreu a Arthur Penn, um cineasta que, como o ator, ambicionava por maior reconhecimento. Ele vinha dos fracassos “Um de Nós Morrerá” (1956) e “Mickey One” (1965) e estava relutante em aceitar o encargo. Mas Beatty sempre foi um sujeito persistente e não admitiu a negativa de Penn.

(ATENÇÃO: o parágrafo abaixo contém spoilers!)

Mesmo com a saída de Truffaut o filme não perdeu a influência da Nouvelle Vague, alternando momentos de grande apelo dramático, com outros de tom claramente cômico. Estabelece, inclusive, uma forte ironia ao pontuar sequências de violência com uma trilha caraterizada pela presença do banjo, instrumento típico da cultura norte-americana e normalmente usado em músicas festivas. No mesmo sentido, torna-se interessante observar que “Bonnie & Clyde” possui um início e um final abruptos, sem prólogo ou epílogo. A narrativa se inicia a partir do momento em que os dois se conhecem, sem sabermos absolutamente nada dos seus respectivos passados, e tem seu término com o fim da dupla, secamente, sem que seja mostrada qualquer repercussão de suas mortes. Ou seja, trata-se de um recorte específico do relacionamento do casal, constituindo-se, antes de ser um filme sobre gangsteres, em um longa-metragem acerca de um romance entre dois fora-da-lei. Um romance pontuado por muita violência, claro. E a violência jamais havia sido exibida em cores tão vibrantes quanto aqui. Muitos críticos torceram o nariz para o filme, quando de seu lançamento, justamente devido a este aspecto, acusando-o de banalizar a violência e glamorizar o crime. A verdade é que, com a exposição dos “tiros e suas consequências” de forma bastante gráfica, algo que em geral ficava escondido nas produções até ali realizadas, a violência adquiriu novos contornos no cinema, causando um impacto bem mais significativo no espectador. E isso não é exatamente ruim, já que, gerando choque, é mais fácil que o assistente se oponha a métodos violentos para alcançar objetivos, levando-o a entender que o fins não justificam os meios.


Em contrapartida, é indubitável que “Bonnie & Clyde” promove uma certa glamorização do crime. Em determinada cena, Clyde Barrow (papel de Beaty) apresenta a ele e Bonnie Parker (Faye Dunaway, belíssima e esbanjando talento) falando “nós assaltamos bancos”. Momentos como este aliados ao fato de que o filme se coloca como anti-establishment, principalmente diante de uma geração de jovens ansiosos por quebrar regras, com uma nova visão de mundo e que se colocava de maneira cada vez mais veemente em oposição à Guerra do Vietnã, levaram o longa-metragem a se tornar, mesmo que lentamente (já que seu início foi desastroso, principalmente em razão da má vontade de Jack Warner com a distribuição), um grande sucesso comercial e mesmo comportamental (a boina da personagem de Faye se tornou moda entre as garotas). A película se coloca, portanto, como um dos precursores de uma novidadeira forma de se fazer cinema, agora antenada com um mundo que já estava longe de ser aquele que existia no auge da chamada Velha Hollywood. Estava surgindo um cinema disposto a quebrar paradigmas, abandonando o antigo código que estabelecia as regras da produção cinematográfica (o denominado Código Hays) e estabelecendo como limite apenas a criatividade de cada cineasta, de cada artista.

Mas “Bonnie & Clyde” não é apenas um filme que quebrou barreiras. Ele é, em si mesmo, uma ótima película em seus aspectos técnicos e artísticos. O roteiro, além de narrar com constante interesse a história dos dois criminosos e seu bando, possui diálogos memoráveis, além de inserir, com perfeita naturalidade, elementos inovadores sem parecer forçado. Benton e Newman (com a contribuição não creditada de Robert Towne), à parte inserirem vários elementos que destoaram da história verídica, fizeram de Clyde um impotente sexual, surgindo esta característica como possível fator a explicar sua vida bandida. Ademais, chega a ser brilhante a maneira como os escritores fizeram Bonnie se apaixonar por Clyde. Ao colocarem o criminoso falando para a então garçonete que ela merecia ser muito mais do que aquilo e que, aos seus olhos, ela era uma estrela de cinema, resta claro porque ela embarca numa estrada de delitos e jamais abandona o seu amado. Por outro lado, só roteiristas, com grande perspicácia fazem os protagonistas se relacionarem com as respectivas famílias, demonstrando como as relações familiares acabam irremediavelmente por afetar os relacionamentos amorosos.


Em outra vertente, percebemos da mesma forma uma sensacional riqueza nas interpretações, não só de Beatty e Dunaway (nascidos para seus respectivos papéis), como também de Michael J. Pollard na pele de C.W. Moss e o então quase desconhecido Gene Hackman como Buck, o irmão de Clyde. Mas quem acaba roubando a cena entre os coadjuvantes é Estelle Parsons, intérprete de Blanche Barrow, a cunhada de Clyde, alvo do desafeto de Bonnie devido à sua constante histeria - e também o jeitão caipira, que aparentemente fazia Bonnie se lembrar de suas origens. Não à toa, Parsons acabou levando o Oscar de atriz coadjuvante, juntamente com Burnett Guffey, responsável pela fotografia (e estes seriam os dois únicos prêmios das 10 indicações que a produção recebeu).

Embora não tenha sido um sucesso imediato principalmente entre a crítica, “Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas”*, acabou por ser reconhecido como um marco da sétima arte, um dos filmes responsáveis pelo invenção do cinema contemporâneo. Não por acaso, a famosa Pauline Kael considerou o longa um marco cultural através de sua famosa crítica de mais de 9.000 palavras na revista “The New Yorker” (muitos atribuem a essa sua crítica a “virada” que o longa daria nas bilheterias dali em diante). Sua influência pode ser notada em toda a geração de cineastas que surgiu no fim dos 60 e início dos 70 (os integrantes da “Nova Hollywood”), e mesmo nomes como Quentin Tarantino ainda reverberam hoje os seus ecos. Um filme que talvez não seja precisamente uma obra-prima, mas sem dúvida foi precursor de uma nova era.


Cotação:

Nota: 10,0

* Os brasileiros adoram colocar subtítulos, muitas vezes desnecessários, mas nesse caso ficou ótimo!

domingo, 24 de julho de 2011

Assalto ao Banco Central



Transtorno de personalidade


O cinema brasileiro tem uma antiga tradição de filmar a criminalidade. “O Bandido da Luz Vermelha”, passando por “Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia”, até os mais recentes “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” são exemplos do apreço tanto do público quanto dos realizadores pela temática do marginal, daqueles que estão fora da ordem estabelecida. Talvez só o cinema norte-americano possua também uma afinidade tão grande com os fora-da-lei (não à toa, lá surgiu o gênero do “filme de gângster”). Contudo, é óbvio que, diante da quantidade, a qualidade de tais produtos acaba oscilando na mesma proporção. Se o mencionado “Cidade de Deus” se mostra como exemplo primoroso da tendência, causando impacto não apenas no âmbito nacional, mas também internacional, “Salve Geral”, filme que chegou a ser escolhido para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro representando o Brasil, se mostra como um claro fracasso recente.

Eis que surge agora este “Assalto ao Banco Central”, longa baseado no fato verídico do assalto ao banco do título em Fortaleza - CE, um dos mais espetaculares crimes não só da história do Brasil, mas também do mundo. Os R$ 164,7 milhões levados pelos bandidos foram alcançados de forma incrível, através de um túnel que desembocava no único ponto cego existente dentro do cofre repleto de câmeras de segurança. Além disso, a maior parte dos seus autores não foi presa até hoje, assim como a maior parcela do montante furtado não foi recuperada – busca até mesmo dificultada por se tratar de notas antigas que haviam sido recolhidas pelo BC junto à rede bancária. Ou seja, o fato por si só já é praticamente um filme pronto. E com um forte aliado por se tratar de uma história verídica, pois que, sendo assim, já supera a necessidade da “suspensão de descrença” tão arduamente buscada por produções semelhantes, mas apoiadas exclusivamente em elementos ficcionais.

A adaptação de tais fatos para telona, porém, caiu em mãos inexperientes, as do global Marcos Paulo, conhecido ator e diretor de telenovelas, mas assumindo aqui sua primeira empreitada cinematográfica. Talvez devido a essa inexperiência com o cinema, o diretor acabou por utilizar tiques característicos dos trabalhos globais, já que novelas costumam apresentar acentuadas oscilações de tons, ora pendendo para o drama, ora para a comédia, como maneira de agradar a uma massa que anseia por mera distração durante a noite. Só que o cinema é um veículo bem mais exigente e certos tropeços de roteiro e direção até mesmo ignorados pelo público da televisão não são relevados pelos espectadores da sala escura – e muito menos pela crítica especializada. A impressão que fica aqui é de que o filme sofre de algum transtorno de personalidade, já que em nenhum momento se sabe ao certo o que ele pretender ser.

Possivelmente o maior sintoma de tal afirmação foi a declaração do próprio Marcos Paulo durante a coletiva no último festival de Paulínia (que foi encerrado com a exibição do longa em comento). Ele mencionou que apenas na fase de edição percebeu o acentuado lado cômico que certas sequências possuíam, o que o levou a selecioná-las para a versão final da produção. Ou seja, aparentemente nem o próprio Marcos Paulo sabia o que queria do seu filme, sendo provavelmente levado a deixar algumas passagens cômicas na montagem na ânsia de agradar ao público médio brasileiro. Além disso, também é clara no filme a sua vontade de se tornar o próximo “Tropa de Elite”, obra que gerou bordões populares como o famoso “pede pra sair”. Contudo, se o filme de José Padilha sabe equilibrar perfeitamente sua pesada trama com alívios cômicos, “Assalto ao Banco Central” transforma esse pretenso equilíbrio em verdadeira bipolaridade. Ficamos sem saber se estamos assistindo a um filme policial ou a uma comédia.


Mas seria injusto deixar o fardo do insucesso exclusivamente nas costas do diretor. O roteiro, escrito por Renê Belmonte, também não é dos mais felizes. Mostra-se como um mistura de “O Plano Perfeito”, de Spike Lee, e “Onze Homens e Um Segredo”, de Steven Sodebergh. Do primeiro, retira sua estrutura não linear, exibindo momentos da elaboração e execução do crime intercalados por outros onde o mesmo já é investigado pela Polícia Federal. Do segundo, procura trazer a estrutura de apresentação dos personagens, com a busca dos parceiros de empreitada por um líder que é o cérebro das ações. Entretanto, nenhuma das duas ideias funciona a contento nesta produção nacional. O vai-e-vem temporal deixa a narrativa por vezes confusa e a apresentação de tipos não funciona exatamente porque os personagens, em sua maioria, são mal caracterizados. Além disso, as falas em diversas passagens são repletas de clichês, com um nível quase amador, o que acaba se tornando uma forma de humor bastante involuntária. Certos recursos, ademais, como colocar o líder do bando jogando xadrez para, assim, denotar sua inteligência, se mostram primários, como que duvidando da inteligência do espectador.

A pobreza dos diálogos só não se faz tão assustadora devido à competência do elenco escalado. Milhem Cortaz está ótimo como Barão, o líder do grupo, assim como Giulia Gam como a policial federal (lésbica) que investiga o assalto. Outro destaque é Tonico Pereira como o comunista que participa da ação como engenheiro, alegando que posteriormente irá dividir o produto com os trabalhadores. Mas quem rouba mesmo a cena é Lima Duarte. Seu delegado Amorim é o personagem mais tridimensional da narrativa e ele parece estar inteiramente à vontade no papel. A verdade é que o elenco acaba se mostrando o principal motivo do fato de que o longa, apesar dos seus flagrantes defeitos, não se torna chato de assistir. Vale ressaltar que há realmente boas sequências, principalmente aquelas com o referido tom cômico (e as risadas frequentes durantes a sessão me fizeram perceber que elas realmente agradaram). Ademais, o diretor soube fugir das composições imagéticas da televisão e utilizar uma linguagem realmente cinematográfica no que diz respeito a enquadramentos (não há aquele excesso de closes característicos da TV) e ritmo da narração.

“Assalto ao Banco Central” não é um desastre, mas o que fica deveras perceptível é que o seu resultado poderia ser muito superior caso tivesse sido levado adiante por mãos mais experientes, principalmente se considerarmos o material quase pronto e acabado que lhe deu origem. Talvez na sua próxima experiência, Marcos Paulo se lembre que filmes necessitam de uma unidade, nunca deixando o público na dúvida de estar assistindo a uma comédia ou a um filme policial. Afinal, filme não é novela, é bom sempre lembrar.


Cotação:

Nota: 6,5

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sidney Lumet : 1924- 2011


No último sábado, 09 de abril, perdemos Sidney Lumet, um diretor excepcional e que foi injustiçado na mesma proporção. Mesmo com dois dias de atraso, o Cinema Com Pimenta presta aqui sua h0menagem a este grande cineasta. Sempre que lembro de Lumet, dois filmes logo me vêm à mente. No video logo abaixo, você confere a recomendação do crítico Marcelo Janot para o longa "12 Homens e Uma Sentença", o primeiro de Lumet, iniciando sua carreira com uma autêntica obra-prima.




E a seguir, veja o trailer de "Um Dia de Cão" (cuja resenha você pode conferir aqui), uma obra febril e impactante que se tornou uma das referências da "Nova Hollywood". Por sinal, Al Pacino em estado de graça!




Ao saber da morte de Lumet, disse Woody Allen: "conhecendo Sidney, ele terá mais energia morto do que a maioria dos vivos." Que Deus o receba em paz e que lhe faça a devida justiça, Sidney Lumet!

domingo, 14 de novembro de 2010

Para Ver em Um Dia de Chuva



Um Dia de Cão
(Dog Day Afternoon)


Tensão e crítica social com Sidney Lumet

Se você quer imaginar um diretor que deveria ser mais reconhecido do que de fato o é, este diretor sem dúvida é Sidney Lumet. Este cineasta é o responsável por filmaços inesquecíveis desde sua estreia, em 1957, com “12 Homens e Uma Sentença”, um trhiller que se passa inteiramente dentro de uma sala onde 12 jurados estão confinados para decidir o destino de um acusado em certo julgamento. E o que parece impossível acontece. Mesmo com esta limitação de espaço, Lumet consegue manter o ritmo do início ao fim, unindo um roteiro com diálogos afiados a uma edição primorosa (e também contando com ótimos atores, como o astro Henry Fonda).

Lumet parece mesmo se dar muito bem com microcosmos estabelecidos em pequenos ambientes onde a tensão reina e os personagens parecem ser levados a confrontar os seus limites. Este também é o mote explorado por ele no intenso “Um Dia de Cão”, o qual também se insere entre seus filmes “nova-iorquinos” (afinal, não são apenas Woody Allen e Martin Scorsese que usam continuamente Nova York para retratarem seus dramas). Baseado numa reportagem publicada pela revista “Life” (muito embora o roteiro, escrito por Frank Pierson, tenha levado o prêmio de melhor roteiro original da Academia de Hollywood) sobre um assalto a banco realizado por um certo John Wojtowicz, o longa metragem de 1975 se passa quase que inteiramente dentro de uma agência bancária, onde assaltantes e reféns são cercados pela polícia ao longo de um dia quente de verão. Os assaltantes, totalmente inexperientes no “ramo”, chamam-se Sonny (Al Pacino) e Sal (John Cazale, ator talentosíssimo que faleceu aos 42 anos, vítima de câncer). Sonny é um ex-combatente do Vietnã e ex-bancário, sendo que sua motivação para o crime é bastante peculiar: conseguir dinheiro para que seu namorado Leon (Chris Sarandon) realize uma operação de mudança de sexo.

Pode-se afirmar, antes de tudo, que “Um Dia de Cão” é um dos típicos produtos do que se convencionou chamar como “Nova Hollywood”, movimento surgido na segunda metade dos anos 60 e que foi responsável pela projeção da figura do diretor no cinema americano em contraposição ao studio system, o qual teve seu auge até o fim dos anos 50. Contraditoriamente, foi essa nova forma de enxergar a maneira de se fazer cinema que tirou os estúdios da bancarrota (“O Poderoso Chefão”, por exemplo, salvou a Paramount da falência). Devido ao seu perfil autoral (adotando o pensamento difundido pela Nouvelle Vague francesa), estes jovens diretores inseriam em seus filmes temas polêmicos e visões heterodoxas sobre os mesmos, algo que, até então, era realizado de forma mais tênue devido à ingerência dos produtores no resultado final. Outro fator que também contribuiu foi o abrandamento das normas de classificação etária nos EUA, com o fim do código de normas que as produções eram obrigadas a seguir.

A temática abordada pelo longa de Lumet só poderia mesmo surgir e ser bem aceita em um ambiente de contestação do establishment, onde falsos pudores foram jogados pela janela, substituídos por um retrato mais fiel da sociedade. Sociedade esta atônita com o horror da guerra do Vietnã e com a corrupção na política, representada de forma lapidar com o escândalo de Watergate. A cinematografia dos anos 70 tornou-se, desta forma, a mais contestadora da história do cinema americano, expondo a sujeira escondida debaixo do tapete do moralismo ianque. Com um público ávido por enfrentar as situações postas, a história de Sonny acabou se tornando um sucesso de bilheteria. Afinal, Sonny era um desempregado que, num ato de amor e desespero, resolve fugir às regras sociais para realizar o sonho daquele que amava. Uma inadequação do indivíduo ao meio ainda mais potencializada por sua homossexualidade, poucas vezes mostrada de forma tão aberta até então.

O inconformismo e a crítica para com o status quo vigente são ainda representados pela menção ao massacre de Attica, uma prisão onde poucos anos antes havia acontecido um massacre de detentos promovido pela polícia de Nova York (uma espécie de “Carandiru” local), muito embora este seja um aspecto que torna o longa datado e, principalmente, causa estranheza àqueles que não conhecem o evento mencionado.

Outro aspecto importante levantado por Lumet na projeção é a espetacularização realizada pela mídia e o surgimento das celebridades instantâneas. É nítido que vários dos personagens, seja os reféns, seja a população que acompanha de perto os acontecimentos, se satisfazem com a ideia de se tornarem conhecidos a partir de então. “Vou aparecer na TV” ou “sou um astro”, são falas que sublinham a narrativa e, de certa forma, antecipam os dias atuais onde a previsão dos 15 minutos de fama feita por Andy Warhol parece cada vez mais factível.


Toda esta abordagem densa e crítica, entretanto, é conduzida por Lumet de forma extremamente envolvente. Com uma edição brilhante (indicada ao Oscar), o ritmo do longa jamais cai e a sensação de tensão acompanha cada fotograma exibido. O clima tenso, por outro lado, não teria sucesso não fosse a contribuição extraordinária do elenco. Pacino (que cogitou abandonar o projeto antes começarem as filmagens) está brilhante na pele do protagonista, repetindo aqui a parceria de sucesso com Lumet iniciada dois anos antes em “Serpico” (outro dos filmes nova-iorquinos do diretor). Com uma atuação visceral, o ator transformou Sonny em um personagem inesquecível, tendo recebido elogios do próprio John Wojtowicz. Cazale também leva brilhantismo ao seu desequilibrado Sal, personagem dos mais instigantes (memorável a cena em Sonny lhe pergunta para que país ele gostaria de fugir e o mesmo responde “Wyoming”). Ademais, buscando maior realismo, Lumet determinou que todo o elenco deveria utilizar roupas próprias nas gravações, substituindo as tradicionais roupas de estúdio. Aliando esses detalhes a uma improvisação nas falas dos atores, o resultado se mostra bastante naturalista, algo ainda mais necessário em história que se baseia em fatos reais.

“Dog Day Afternoon”, com seu senso de urgência, mostra-se, desta maneira, como um filme bastante contemporâneo, apto a agradar o público impaciente dos dias atuais (mesmo considerando alguns elementos datados, como mencionado mais acima). Por outro lado, revela um olhar contundente acerca da moral e valores do meio social estadunidense, capaz de levar à reflexão o espectador mais exigente, longe da infantilidade que parece dominar as salas de cinema nos dias de hoje. Além disso, é, antes de tudo, um belo exemplo das capacidades técnicas e artísticas de Sidney Lumet, um diretor que, decididamente, merece ser mais conhecido e, principalmente, reconhecido por seus pares e amantes do cinema.

Cotação:

Nota:9,5

sábado, 9 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2



Doa a quem doer!


Desde “Cidade de Deus” a temática da violência urbana se tornou lugar-comum na produção cinematográfica nacional. Uma profusão de “filmes mundo cão” dominou as salas de cinema e, devido à enorme quantidade, faz-se necessário separar o joio do trigo. Se o citado longa-metragem de Fernando Meirelles causou impacto não apenas no Brasil como também internacionalmente, tivemos, por outro lado, bombas como “Última Parada 174”. Entre os pertencentes ao primeiro grupo, está “Tropa de Elite”, longa de José Padilha que, em 2007, fez o País discutir a criminalidade e a forma de combatê-la. Não é à toa que acabou levando o Urso de Ouro no Festival de Berlim, evento que costuma premiar produções vanguardistas ou que trazem à baila discussões sociais relevantes. Ademais, transformou em ícone o Capitão Nascimento, personagem interpretado magnificamente por Wagner Moura (na minha opinião, o melhor ator brasileiro em atividade) e ainda gerou vários bordões que caíram na boca do povo (como o famoso “pede pra sair”). Três anos depois deste fenômeno pop, após recusar até mesmo realizar uma série para a poderosa Rede Globo (e depois de muito disse-não-disse) eis que Padilha nos traz a aguardada continuação “Tropa de Elite 2”. E a verdade é que o autor, agora, parece querer desencavar ainda mais as caveiras de burro que estão no fundo da criminalidade que assola não apenas o Rio de Janeiro, mas todo o Brasil. Ele, quase literalmente (e com perdão da expressão), joga a merda no ventilador.

Ao mostrar a passagem do agora Coronel Nascimento para um cargo burocrático na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, em decorrência de uma criticada ação do BOPE em uma rebelião dentro de Bangu I, Padilha chafurda na lama da corrupção existente no seio da própria polícia, um câncer responsável pela perpetuação da violência na mesma proporção do tráfico nas favelas. Se o foco do primeiro longa era a hipocrisia da classe média, a qual alimenta o tráfico com seus consumidores, aqui a mira se volta para aqueles que, antes de tudo, deveriam combater o crime, mas que no fundo se alimentam dele para assegurar a manutenção de seus interesses. Idolatrado pela população, para a qual “bandido bom é bandido morto”, mas criticado por grupos defensores dos direitos humanos e pela mídia, que o vêem com fascista, Nascimento (assim como muitos dos espectadores) vai descobrindo que o buraco é muito mais embaixo. Assim, “Tropa de Elite 2” transforma-se em uma peça ainda mais política do que sua antecessora, dona de um potencial explosivo ainda mais forte diante do quadro eleitoral em que o país vive.

Todavia, claro que o filme de Padilha sabe levar todo esse discurso politizado de uma forma palatável para as massas. Com acabamento mais uma vez hollywoodiano, o diretor dá uma verdadeira aula até mesmo aos ianques de como se fazer um filme policial. Dono de um ritmo que jamais oscila devido à edição brilhante de Daniel Rezende (indicado ao Oscar por “Cidade de Deus”), ele consegue discutir o complexo tema da violência urbana sem jamais cair na chatice, deixando o espectador grudado na cadeira ao mesmo tempo em que reflete as temáticas discutidas (sempre pontuadas, mais uma vez, pela narração em off de Nascimento). Com enquadramentos perfeitos, a fotografia também tem os seus méritos, ao mesmo tempo em que o roteiro, escrito pelo próprio José Padilha e Bráulio Mantovani, se desenvolve de forma precisa, redonda e sem concessões para possíveis finais felizes (e com uma violência talvez ainda mais brutal que na primeira parte).

Com relação ao elenco, tal como ocorreu no primeiro episódio, temos os seus pontos altos e baixos. O Milhem Cortaz, como o policial Fábio, continua canastrão como de hábito, muito embora o seu personagem seja um dos melhores da trama. Já André Ramiro, com o seu André Matias (que agora é capitão), mais uma vez tem participação destacada, mesmo que o foco desta oportunidade seja mais centrado em Nascimento. Falando neste último, o personagem adquiriu características ainda mais tridimensionais, principalmente na abordagem da relação com o seu filho, mostrando-se também como um pai que tem dificuldades de relacionamento com o garoto. Mostra-se também falível na sua profissão e na relação com os amigos, cometendo seus erros e omissões. Essa abordagem mais humana do personagem dá ainda mais espaço para o show habitual de Wagner Moura, que consegue imprimir uma verdade na tela poucas vezes vista na história do cinema (não só do cinema nacional). Insisto que, em certos momentos, sua atuação alcança níveis brandonianos. Seus diálogos com André Matias (com direito a closes que não permitem subterfúgios aos atores) são especialmente interessantes e memoráveis (uma em especial, que trata sobre a ida de Nascimento para a subsecretaria de inteligência, já está entre as melhore que vi esse ano). Além disso, André Mattos está hilário como apresentador e deputado Fortunato, garantindo alguns risos diante do clima tenso.

E assim, Padilha consegue desferir mais um soco no estômago dos brasileiros. Um soco dirigido para todos os lados, seja a sociedade, os governos (independente de posição partidária), políticos, mídia (há um momento em que esta é mostrada de forma realmente repugnante), polícia, ricos, pobres etc. Na realidade, a conclusão a que ele parece chegar é de que o verdadeiro embate a ser travado em nossa Nação não está entre esquerda e direita, partido A ou partido B, mas entre corruptos e não corruptos, entre os de caráter e os sem caráter. [SPOILER] Nesse ponto, é notável que coloque, ao fim do filme, do mesmo lado e com a mesma integridade, os personagens de Nascimento e do deputado defensor dos direitos humanos Flagra, em contraposição à antipatia e rivalidade primordial dos dois [FIM DE SPOILER]. Uma obra corajosa e apta a gerar ainda mais discussões do que o primeiro. Doa a quem doer!


Cotação:

Nota: 10,0

Obs. Mesmo que de forma tênue, creio que Padilha dá a entender suas posições partidárias por meio das gravatas de certos personagens. Fique atento(a)! ;=)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Tropa de Elite
Eu estava com essa carta na manga há algum tempo. Às vésperas da estreia nos cinemas de "Tropa de Elite 2", publico no "Cinema Com Pimenta" a resenha que escrevi para o filme original quando do seu lançamento, ainda inédita neste espaço. Só aviso que ela é beeeeeeeeemmm longa... Avisado(a)? Se desejar, continue abaixo!




Tropa de Elite osso duro de roer! Pega um, pega geral! Ela vai pegar você!!!!!!


Muito já foi debatido e questionado sobre “Tropa de Elite”, o filme brasileiro mais comentado do ano, não só pelo fato de ter sido amplamente pirateado, mas principalmente pela temática que carrega. Diante de tudo que já foi falado em todos os meios de comunicação (na “imprensa escrita, falada, televisionada e virtual”), não posso deixar de “meter o meu bedelho” nesta balbúrdia de opiniões que tomou a pauta nacional, seja no botequim, seja nos chamados “círculos acadêmicos”. Dada a complexidade do tema, preferi dividir este texto em duas partes distintas: na primeira, passarei a uma análise de “Tropa de Elite” enquanto obra cinematográfica. Em um segundo momento, passarei às repercussões sociais trazidos pelo longa. E vamos ao que interessa!

Tropa de Elite – O filme

Antes de adentramos especificamente na análise do filme de José Padilha, convém lembrarmos dos seus “ancestrais”, remotos e próximos, os quais parecem ter influenciado o diretor na construção de “Tropa”. Três podem ser citados como claros “avós” deste último.

O primeiro deles é Taxi Driver, obra do genial Martin Scorsese, um dos maiores diretores americanos vivos (ao lado de Clint Eastwood). Nele, Scorsese nos mostra a vida de um taxista novaiorquino, Travis Brickle, interpretado magistralmente por Robert De Niro. Travis é um pária social, um “esquecido”, ou “loser” como gosta de afirmar pejorativamente a sociedade americana. Em meio a uma Nova York pré Rudolph Giulianni, dominada por criminosos, Travis, gradualmente, vê-se imbuído de um sentimento misto de justiça e vingança, levando-o a cometer uma série de assassinatos, uma verdadeira “faxina” social. Em outras e mais claras palavras: justiça com as próprias mãos. Em sua época, suscitou reações diversas na sociedade americana, gerando discussões entre aqueles que apoiavam sua “limpeza”, e aqueles viam na sua atitude um caráter fascista. Como se pode observar, debate bem parecido com o que vivemos atualmente em nossas terras tupiniquins. Aliás, a influência é diretamente assumida por Padilha através da seqüência em o policial Neto “treina” em frente ao espelho em sua residência. Qualquer um que já tenha assistido a Taxi Driver lembrará imediatamente da cena em que Travis pratica pontaria em frente ao espelho. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Outra obra que vem à memória quando assistimos a “Tropa de Elite” é, sem dúvida, Apocalypse Now, dirigido por outro genial cineasta, Francis Ford Coppola. Em vários momentos, não pude deixar de associar a conduta obsessiva do capitão Nascimento com a paranóia do coronel interpretado por Robert Duvall, o qual gostava do cheiro de napalm pela manhã porque era “o cheiro da vitória”. Ou seja, vitória a qualquer custo, mesmo que para isso se valha estratégias imorais. No caso do coronel, a terrível arma química que atingia inúmeros inocentes; no caso de Nascimento, tortura e assassinatos para combater o tráfico. Este aspecto será melhor debatido no momento oportuno. De qualquer forma, a famosa frase do coronel Kurtz (este interpretado por Marlon Brando) parece cair como uma luva ao fim das duas obras: “O horror! O horror!”.

Em terceiro lugar, podemos citar mais um filme, de mais um cineasta absoluto: Stanley Kubrick. Em seu “Nascido Para Matar”, Kubrick nos mostra o processo de brutalização a que são submetidos os soldados preparados para guerra (no caso, a do Vietnã). Kubrick nos mostra que até os mais sensíveis são condicionados a se transformarem em máquinas de matar, tornando-se indiferentes ao sofrimento alheio (e, em alguns casos, ao próprio sofrimento). Está lembrando do treinamento dos soldados do BOPE? Sim, mais uma vez qualquer semelhança não é mera coincidência. Em vários momentos, o capitão Nascimento me fez lembrar o brutal sargento responsável pelo treinamento dos soldados no filme de Kubrick. E, vejam que curioso, dois filmes de guerra citados como referências para o longa de Padilha. Uma importante conclusão, que será também melhor explicitada mais abaixo, podemos tirar dessa “semelhança”: o BOPE vê a ação nas favelas como uma guerra, mesmo que não declarada oficialmente.

Por último, o que podemos chamar não de “avô”, mas de “pai” de Tropa de Elite é, obviamente. “Cidade de Deus”, o longa de Fernando Meirelles que causou impacto não apenas nacional, mas no mundo todo. Muitos até afirmam que “Tropa de Elite” é um “Cidade de Deus” da polícia. O mesmo tema visto através de olhos opostos. E isto, em parte, é verdade. Mas não apenas no campo temático.

Padilha utiliza vários dos artifícios usados por Meirelles para prender o espectador. Primeiramente, um roteiro muito bem amarrado, pensado em detalhes, com nuances de ação e comédia que envolvem o grande público. Seus aspectos técnicos também são de primeira linha: som e edição de som com qualidade hollywoodiana, fotografia vibrante e trêmula (embora menos “estética” que a de Cidade de Deus), montagem alucinante, fazendo com que o longa jamais perca o ritmo. Há, ainda, a narrativa em “off”, realizada por um personagem que parece ser o central da trama, mas que na realidade não é (em “Cidade”, Buscapé; em “Tropa”, o capitão Nascimento).

E é inegável que “Tropa de Elite”, com a direção segura de José Padilha, constitui ótimo cinema ,tal qual seu outro longa, o documentário, brilhante é importante ressaltar, “Ônibus 174”. É bem interessante, por sinal, fazer uma leitura de “Tropa de Elite” depois de ter visto “Ônibus”. Os dois podem soar até como contraponto um do outro. No documentário, somos levados a compreender as razões e circunstância que levaram Sandro do Nascimento a cometer aquele ato de loucura dentro de um ônibus de linha urbana na cidade do Rio de Janeiro. Constatamos a vida inteira de privações e abandono a que foi submetido (passando em resumo: Sandro não teve pai, viu sua mãe ser assassinada na sua frente, viveu nas ruas, teve seus amigos chacinados na Candelária, ele próprio escapando por pouco). É impossível não nos sentirmos todos culpados por aquela tragédia, ao fim do filme. Já em “Tropa” temos a visão dos policiais, como eles enxergam o tráfico e os motivos que levam os membros do BOPE a praticarem os atos de selvageria e desrespeito à garantias civis. Mas da mesma forma, desfere um “soco no estômago” das classes mais abastadas ao colocá-la como sócia do narcotráfico. Talvez a grande “mensagem” (para utilizar um termo clichê) de ambos os longas seja a de que não existem inocentes, todos temos responsabilidade pelo atual estado de medo e conflito que aflige nosso país.





Há ainda um aspecto fundamental a ser enaltecido para a eficiência de “Tropa de Elite” como cinema: o elenco. Muito bem escolhidos pelo cineasta (e com preparação de Fátima Toledo), todos estão bem. Tanto Caio Junqueira (Neto) como André Ramiro (Matias), mostram muita competência na interpretação dos soldados iniciantes do BOPE. Todavia, quem definitivamente rouba a cena, por meio de uma atuação realmente magnífica, é Wagner Moura. O seu Capitão Nascimento entrará, sem dúvida, para o rol dos personagens mais marcantes do cinema nacional, assim como entrou o Zé Pequeno de Luís Firmino da Hora. Aliás, boa parte dos sentimentos de apoio do público talvez não existisse se o personagem não tivesse sido interpretado por um ator deste nível de excelência. É mesmo uma atuação digna de um Robert De Niro, Jack Nicholson, ou mesmo um Marlon Brando. Fosse um ator norte-americano, provavelmente o Oscar estaria em suas mãos. Seu Nascimento é brutal, mas ao mesmo tempo detém uma autoridade que pode tornar inquestionáveis seus atos mais atrozes, geralmente vistos pelo próprio como um “mal necessário”.

A trilha sonora também conduz o espectador no ritmo do que é visto na tela. Muitos apontaram a trilha como um elemento “fascista” da obra, o que me parece idéia de gente que não tem o que dizer nem o que fazer. Scorsese, por exemplo, muitas vezes utilizou rock em sua trilhas, e nem por isso foi chamado de fascista (muito pelo contrário).

Em síntese: Tropa de Elite é, de fato, um filme excelente digno de palmas. Se você está querendo ver um bom filme, independente de qual corrente “ideológica” você pertença, pode assistir sem medo, pois verá um grande. Aliás, o só fato do longa de José Padilha gerar tanta discussão demonstra que algo de bom ele deve ter, afinal, filmes que geram discussões são cada vez mais raros no meio deste mar de mediocridade que ora impera em nossas salas de cinema. E é da discussão que trataremos na segunda parte desta análise.

Tropa de Elite – A Polêmica

Fascista. Este é o principal adjetivo que vem sendo atribuído ao filme ora em debate por seus críticos. Padilha vem sendo acusado sistematicamente de defender as ações brutais do Batalhão de Elite da polícia militar do Rio de Janeiro. Mas será que o adjetivo lhe cai bem?

Talvez seja um tanto exagerada. É bem verdade que somos apresentados aos fatos, durante a projeção, pela visão, um tanto de distorcida (pelo menos pra mim) do capitão Nascimento, através de sua narrativa em “off”. E isso induz a platéia, pelo menos a sua parcela mais “influenciável”, ou menos conhecedora da temática da criminalidade, ou simplesmente mais reacionária, a aceitar como necessários os métodos brutais, que incluem tortura e assassinatos, usados pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais – BOPE. Mas, se há verdade nessa afirmação, além da forma vibrante como o filme é narrado (o que pode fazer com que os mais exaltados saiam por aí gritando “faca na caveira”), também é falsa a afirmação de que a postura do capitão de não sentir “remorso”, de que o filme não retrata os conflitos psicológicos a que os soldados do batalhão são submetidos. Ora, o personagem do capitão, ao longo de toda a narrativa, procura justamente encontrar um substituto por não suportar mais o stress a que é submetido. Ademais, mostra-se que se sentiu culpado em ter matado um “fogueteiro” em uma de suas ações na favela. “Eu senti remorso e um policial do BOPE não pode ter remorso”, afirma a certa altura. Por outro lado, acusar Padilha de ser um radical de direita soa um tanto ridículo, principalmente ao lembrarmos de uma das feridas cutucadas pelo longa: a participação das classes altas como financiadora do tráfico. Olhando por este prisma, talvez alguns o considerem um “radical de esquerda”, pecha que lhe foi atribuída por muitos após “Ônibus 174”.

Na realidade, discutir se a obra cinematográfica é fascista, ou não, é de uma pobreza sem tamanho. Um artista expõe em sua obra a sua visão de mundo e o fato de alguns não concordarem com esta visão de mundo não diminui o valor da obra. Sergei Eisenstein era membro do partido comunista soviético e isso não impede que sua obra seja reconhecida como genial mesmo pelos norte-americanos. Da mesma forma, Leni Riefensthal fez documentários divulgadores do partido nazista e de sua tosca ideologia, o que também não impediu o mundo de reconhecer seus méritos cinematográficos.

Mais interessante que perquirir se o filme é ou não fascista, é perguntar se as idéias do capitão Nascimento, mostradas na tela, são ou não são válidas dentro da contingência atualmente enfrentada pela sociedade brasileira.

Para responder a esta pergunta, é necessário fazermos antes um novo questionamento: a sociedade brasileira vive hoje um estado de guerra? A pergunta é pertinente devido às conseqüências que uma resposta afirmativa pode gerar. Se admitirmos que vivemos uma situação de guerra poderemos admitir a suspensão de garantias individuais e encararmos os atos bárbaros do capitão da tropa como admissíveis (ou pelo menos uma destes atos), tendo em vista que uma guerra comporta medidas de exceção. Se, por outro lado, não reconhecermos a existência de um estado de guerra em nossas ruas, jamais poderemos admitir que o Estado (e os membros do BOPE são agentes do Estado, não podemos esquecer esse detalhe) atinja as regras que garantem a sua própria existência enquanto Estado democrático.

Todavia, se a resposta for “sim”, a suspensão dos direitos individuais não pode ser admitida apenas para “os outros”, para a parcela pobre e marginalizada da população, como parece defender o decepcionante apresentador Luciano Huck em seu lamentável artigo para a Folha de São Paulo. É bom lembrar o verdadeiro soco no estômago da classe média que é desferido pelo filme de José Padilha. Os extratos mais abastados da “hierarquia” social têm enorme responsabilidade pela manutenção do tráfico. Da mesma forma que a Coca-Cola tornou-se uma multinacional com sede em todos os lugares do globo porque tem muitos consumidores para o seu produto, o tráfico também só é um ramo muito “rentável” porque existe um enorme número de consumidores para as drogas, a maior parte deles de classes abastadas.

O “tapa na cara” dado na classe média é tão forte que muitos apressadinhos e pseudo-intelectuais de plantão já “colocaram na pauta” das discussões do país a descriminalização das drogas como “principal fator” para combater a violência reinante nas favelas. Nada mais hipócrita. Isso não passa de uma tentativa de, desculpem a expressão, livrar o rabo da classe média da seringa, pois ao comprar drogas de forma legal ela estaria se eximindo da responsabilidade pelo tráfico. Trata-se porém de uma falácia em várias vertentes. Fernandinho Beira-Mar jamais venderia sua droga pagando imposto, e a própria classe média não iria querer comprar sua droga mais cara. Eu fico estarrecido com argumentos como “o álcool é mais nocivo do que várias drogas ilegais”. Mentira! Um copo de vinho não faz mal a ninguém. O mesmo não pode se dizer de um cigarro de maconha ou de uma “carreira” de cocaína, como já muito divulgado pelos especialistas da área. É impressionante até que ponto pode ir a burguesia em defesa de seu hedonismo desmedido.

Vale dizer que, dentro das reações que o filme me despertou, não deixei de sentir uma certa satisfação ao ver o personagem de Matias dando uns tabefes nos playboyzinhos colegas no seu curso de Direito. São pessoas que possuem todas as escolhas, mas preferem se associar ao crime, chegando a alegações absurdas de que traficantes “possuem consciência social”. Eu sinto faltar toda a minha paciência, sendo bem sincero.

Assim, caso admitamos a existência do Capitão Nascimento temos que admitir que ele também invada nossas próprias casas e não apenas a do outro. Deveremos admitir também que ele torture nossos parentes, mesmo que talvez eles não saibam o paradeiro de determinado delinqüente. O que talvez exista de mais nefasto no Brasil não é a violência absurda que aparece todos os dias nas capas dos jornais e em filmes como este, mas maldita divisão da sociedade em castas, onde alguns parecem ser imunes a qualquer ação do Estado, por mais nocivo que seja seu comportamento. Como diz o lema da tropa, transcrito no início deste texto: “pega um, pega geral”. Nada de “discriminações”.

Talvez o que o longa de José Padilha queira mesmo nos passar seja exatamente essa idéia, já anteriormente presente em “Ônibus 174”: por favor, chega de hipocrisia! Somos todos integrantes de um grupo social e, portanto, responsáveis pelas mazelas deste grupo. Está na hora de encararmos nossas responsabilidades para que, assim, não precisemos mais de homens como o capitão Nascimento.

Ah, já quase me esquecia de dar a nota ao filme.


Cotação:

Nota: 10,0

Em tempo: Acho que vou chamar o Capitão Nascimento para pegar o Diogo Mainardi! Hahhahahhahahahhahhaha!