Mostrando postagens com marcador Ação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ação. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Capitão Phillips

Contrastes


Já fazia tempo que Tom Hanks não tinha uma atuação digna de Oscar e confesso que estava com saudades do velho grande ator de outros tempos (mais precisamente dos anos 90, quando emplacava um sucesso após o outro e uma indicação ao Oscar depois da outra). Bem, enfim, depois de anos atuando no piloto automático, Hanks recupera a boa forma com este “Capitão Phillips”, novo longa do diretor Paul Greengrass que investe pesado na crítica da globalização, onde o capital navega sempre indiferente à realidade que o cerca.

Não é outra a impressão ao vermos o cargueiro Maersk Alabama, enorme e transportando uma quantidade considerável de bens de alto valor comercial, cruzar o paupérrimo litoral da Somália, onde os seus residentes dispõem, no máximo, de pequenas embarcações que parecem besouros quando comparados ao enorme navio comandado por Richard Phillips, personagem real que escreveu o livro adaptado para a tela. Assim, em verdade, trata-se aqui de um longa sobre contrastes, levando o espectador a se perguntar sobre a origem desses, mesmo que o filme não forneça elementos sobre as desproporções apresentadas na tela. Afinal, trata-se de um thriller que, se em boa medida leva à reflexão, tira o fôlego do público com um ritmo intenso, envolvente e cheio de realidade, lembrando muito um outro filme do próprio Greengrass, “Vôo United 93” (United 93, 2006), também baseado em uma história verídica.




A estrutura narrativa (com roteiro adaptado de Billy Ray, vencedor do prêmio do Sindicato de Roteiristas na categoria, o que o torna um favorito ao Oscar) é estabelecida a partir de contraposições entre a realidade do capitão Phillips e a do líder de um grupo de piratas somalis, Muse (interpretado por um ator que era até então motorista, Barkhad Abdi). Não apenas os barcos destoam em proporções. Se Phillips se preocupa com a correria do dia a dia e com quanto tempo vai levar a viagem, a preocupação primordial de Muse é conseguir recrutar parceiros que possam ajudar na ação pirata de sequestrar o cargueiro Maersk. Se Phillips se apresenta como uma liderança inconteste perante a sua tripulação, Muse está longe de ter controle sobre os seus recrutados, sempre contestando suas ordens. E assim seguimos uma série de contrastes que desnudam não apenas a realidade entre os dois sujeitos da narrativa, mas também a disparidade entre as realidades do Ocidente e da África miserável.




Contando com uma primorosa edição de Christopher Rouse, a trama se desenvolve naquele ritmo acelerado característico do “suspense cabeça” que fez a fama de Greengrass, e a tensão só aumenta ao longo de seus 126 minutos de projeção, mesmo que já saibamos o seu desfecho (afinal, como dito acima, o livro foi escrito pelo próprio capitão). Tudo para culminar em um clímax marcante, em uma cena que já entrou para aquelas que farão a história cinematográfica de seu intérprete, Tom Hanks. Seria justo se ele tivesse sido indicado ao Oscar apenas por essa sequência, o que não ocorreu. Mesmo figurando em todas as premiações que antecedem a festa da Academia, Hanks foi estranhamente esquecido no prêmio mais famoso do cinema. Será que ele anda perdendo prestígio? A pergunta fica ainda mais interessante se lembrarmos que Barkhad Abdi foi indicado como coadjuvante, um exagero, na minha opinião. Ele está bem no papel, mas me parece que sua indicação decorre apenas do fato de ser um principiante, além de haver algo de “politicamente correto” nela.

A maior virtude de “Capitão Phillips”, entretanto, não reside em seu elenco ou na direção precisa e intensa de Greengrass. Ela está em seu caráter despretensioso, pois em nenhum momento o longa se propõe a apontar dedos para possíveis culpados ou tentar elucidar as origens das disparidades retratadas na tela. As diferenças estão retratadas, mas cabe ao espectador tirar suas conclusões sobre as origens de tanta desigualdade. Em determinado momento, Phillips pergunta a Muse se não há outra opção para ele além de praticar a pirataria. Muse lhe responde: “talvez, na América”. Uma cena que se revela a síntese de toda a projeção e demonstra a aposta que Greengrass faz na inteligência do espectador. E filmes que não subestimam o espectador são sempre muito bem-vindos.

Cotação:




Nota: 9,0.

domingo, 20 de outubro de 2013

Elysium

Ainda uma promessa


O cinema do jovem diretor Neil Blomkamp pode ser resumido da seguinte forma: premissas muito inteligentes, execução ineficiente. É a conclusão a que podemos chegar a partir deste seu novo trabalho, “Elysium”, atualmente em cartaz no circuito brasileiro, o qual repete as mesma virtudes e defeitos do seu longa anterior, o interessante “Distrito 9” (District 9, 2009), responsável por tentar atribuir conotações político-sociais ao cinema pipoca do fim de semana. Nascido em Joanesburgo, África do Sul, ele impregnou “Distrito 9” de referências ao Apartheid ao elaborar uma trama onde seres de outro planeta são segregados pelos humanos em uma espécie de gueto. Entretanto, se o longa causa reflexão e sensação de inovação em sua primeira metade, a segunda se reduz a, basicamente, cenas de ação clichês que mais entediam do que envolvem o espectador. Um trabalho de altos e baixos que nos traz um frustrante resultado mediano, dadas as suas potencialidades.

Da mesma forma se desenvolve “Elysium”. Na sua premissa, vemos uma Terra superpovoada e esgotada em seus recursos naturais. Nela, residem as classes mais baixas, operários que lutam pela sobrevivência, enquanto os abastados vivem em uma espécie de satélite artificial denominado Elysium (obviamente, uma referência aos Campos Elísios, local que se pode definir como o paraíso da mitologia greco-romana), onde a qualidade de vida de tempos pretéritos foi preservada. Ou seja, o filme se presta a realizar uma alegoria da luta de classes, com direito a abordar detalhes como a questão da saúde pública, onde alguns têm direito à assistência médica e muitos não têm direito a sequer um atendimento básico. É o que ocorre com o personagem de Max da Costa (Matt Damon), operário de uma fábrica que sofre um acidente radioativo e deve morrer em poucos dias. Para se curar, ele precisa de um método de tratamento só existente em Elysium, mas não tem do dinheiro suficiente para comprar sua estada da fortaleza. Será necessário entrar clandestinamente e para isso contará com a ajuda de especialista em infiltrações, Spider (o nosso Wagner Moura).


Como se vê, o roteiro, escrito pelo próprio Blomkamp, tem um ótimo núcleo de ideias, o que torna o longa interessantíssimo em sua primeira metade, muito eficiente em retratar o drama das classes subalternas em um planeta cada vez mais duro. A ambientação, inclusive, lembra muito a realidade dos Estados Unidos de hoje, cada vez mais latinizado, onde em diversas regiões existe uma mistura de línguas, predominando o inglês e o espanhol. As características da cidade terrena também remetem a uma Cidade do México ou à própria Joanesburgo de Blomkamp (em um eficiente trabalho de direção de arte). Também se mostra perspicaz a escolha de Alice Braga, com sua aparência de latina, para ser o interesse romântico do herói, coadunando-se com caráter “globalizado” da produção. Entretanto, mais uma vez Blomkamp se perde em cenas de ação na segunda metade da projeção e o filme assume aquela perspectiva trivial de qualquer outro filme de ação, com destaque para o mote do “sacrifício” do herói, que também se fez presente no anterior “Distrito 9”. Em suma, “Elysium” se torna previsível até mesmo naquilo em que não pretende ser previsível.



Mas, como disse Wagner Moura em recente entrevista a uma famosa revista de caráter cultural, o maior diferencial do cinema estadunidense é o dinheiro, muito dinheiro, e isso invariavelmente dá destaque ao padrão técnico de seus filmes. Se o longa tem destaque, como dito acima, na sua ambientação, é claro que muito desse mérito se deve à direção de arte, muito eficiente não só na caracterização do planeta Terra, mas também na concepção do satélite Elysium, uma espécie de paraíso da imaginação judaico-cristã. Da mesma forma, o elenco de primeira contribui muito para tornar o longa algo mais envolvente. Matt Damon está inspirado na pele do protagonista e Jodie Foster consegue dar alguma alma à vilã unidimensional da trama, uma espécie de secretária de Estado da nave que nutre ambições maiores. Entre os brasileiros, todavia, há uma certa surpresa. Wagner Moura sofre com um personagem mal desenvolvido e que tem menos tempo de tela do que seria esperado. Assim, acaba que Alice Braga tem mais destaque como Frey, a namorada de Max que tem uma filha também precisando de assistência médica em Elysium, em uma atuação bastante competente.

Embora esteja longe de ser um filme ruim, “Elysium” se constitui em uma demonstração da imaturidade de Blomkamp como cineasta, muito embora, tal como “Distrito 9”,deixe entrever que o jovem tem potencial, ainda sendo uma promessa de grande diretor. Precisa desenvolver melhor suas ótimas premissas para que elas não gerem tão somente bons entretenimentos, mas filmes que sejam mais memoráveis do que as suas duas horas de projeção, ou seja, para que se tornem algo mais do que uma “diversão inteligente” para o final de semana.


Cotação:



Nota: 7,0

sábado, 21 de setembro de 2013

Rush - No Limite da Emoção

Quando pilotos foram heróis


Definitivamente, a Fórmula 1 já não é mais a mesma. Hoje, mesmo com carros superseguros, frequentemente encontramos pilotos sem gana de vencer, que se contentam em serem apenas meros assalariados de uma escuderia e, se for “necessário”, deixam o colega de equipe ultrapassar para ajuda-lo a ganhar um campeonato. Em suma, a F1 deixou de ser um esporte e se transformou em apenas uma mera exibição de montadoras, em busca de dividendos. A Fórmula 1 que conheci, em meados dos anos 80, era mais perigosa, mas ao mesmo tempo muito mais romântica, repleta de pilotos obstinados que buscavam, acima de tudo, a vitória para escrever seus nomes na história do esporte. Eram os tempos de Alain Prost, Nigel Mansell, Nelson Piquet e, claro, Ayrton Senna, aquele que considero o maior piloto ente todos. E falo isso de forma isenta, pois nunca fui um admirador da personalidade dele e detesto o ufanismo desmedido de um Galvão Bueno, mas a verdade é que Senna fez coisas na pista que jamais vi outro piloto fazer (como podemos recordar no documentário "Senna"). Também cheguei a ver, ainda bem garoto, o austríaco Niki Lauda disputando provas e me lembro de perguntar aos meus pais o que havia acontecido com o seu rosto. A resposta: “foi um acidente em que o rosto dele foi queimado”. Recordo, ainda, de considerá-lo um homem extremamente corajoso, pois tinha voltado a correr mesmo depois de um acidente tão grave.

Essa “era de ouro” da Fómula 1 é retratada brilhantemente por Ron Howard em seu novo trabalho, “Rush – No Limite da Emoção”, longa atualmente em cartaz no circuito comercial brasileiro. Na realidade, o filme aborda uma fase ainda anterior àquela que pude acompanhar, nos anos 70, quando os riscos do automobilismo ainda eram maiores do que na citada década oitentista. Para se ter uma ideia, a média de mortes de pilotos era de dois por temporada, ou seja, o risco de morrer a cada Grande Prêmio era muito elevado. Pertence a esse tempo o imaginário de que pilotos eram, antes de tudo, heróis. Foi nessa época que Lauda começou sua trajetória que culminaria em um futuro tricampeonato e na qual possuiu um grande rival, James Hunt, um britânico mulherengo e farrista que parecia ser o oposto do cerebral, concentrado e comedido piloto austríaco. Só em um ponto demonstravam similaridade: a obsessão pela vitória, encarando qualquer desafio para alcançá-la.



Essa rivalidade é o mote de “Rush”, mas Howard não coloca seu foco principal no que acontece nas pistas. Claro que há diversas sequências sensacionais com corridas, ultrapassagens e colisões, mas o longa não é sobre corridas, mas, sobretudo, personalidades. Howard se esmera em analisar a persona dos rivais, mostrando a origem de seus desentendimentos, suas evidentes diferenças e, de forma inteligentíssima, suas semelhanças. Para tanto, conta com um belíssimo roteiro de Peter Morgan, baseado no livro “Corrida Para a Glória”, de Tom Rubython, e que teve ainda a luxuosíssima consultoria do próprio Lauda. Mesmo que em certos momentos a trama acabe fazendo concessões ao esquema hollywoodiano de se adaptar biografias, ela é extremamente envolvente, fazendo com que o espectador tenha a sensação de realmente conhecer aqueles pilotos. Além disso, Howard tomou o cuidado de não transformá-los em “vilão e mocinho”, escapando da armadilha do maniqueísmo. Tanto Lauda quanto Hunt possuem tempos iguais na tela e são expostas suas várias facetas, tanto negativas quanto positivas. Se primeiro somos inclinados a simpatizar com Lauda devido à sua personalidade discreta, logo depois constatamos uma certa arrogância em seu temperamento, além de um jeito rude que acaba por torná-lo um tipo impopular entre os colegas. O oposto do popular Hunt, o qual primeiro desperta antipatia por seu estilo farrista e meio irresponsável, mas que depois demonstra seu lado humano e solidário, além de percebermos que muito do seu comportamento é um disfarce para seus medos e inseguranças. Há, ainda, um particular subtexto acerca da sedução exercida pelos pilotos sobre as mulheres. Mesmo o introvertido Lauda faz valer suas habilidades ao volante para conquistar aquela que seria sua esposa.


Os pilotos são interpretados com muita competência por ambos os atores. Chris Hemsworth, na pele de James Hunt, embora tenha um papel relativamente mais simples, demonstra que pode ir bem além do que faz como o Thor dos filmes da Marvel. Daniel Brühl (lembram dele em “Adeus, Lênin!”?), por sua vez, encarna um Niki Lauda perfeito (chegou a usar próteses dentárias para ficar mais parecido com o verdadeiro), mas, cabe ressaltar, seu trabalho foi facilitado pelo contato que teve com o original, hoje chefe da equipe Mercedes, enquanto Hemsworth não dispôs do mesmo privilégio, pois que Hunt faleceu com apenas 45 anos, vítima de um infarto. De qualquer forma, no duelo entre os dois quem ganha é o púbico e as atuações foram elogiadas por nomes como Emerson Fittipaldi, contemporâneo dos dois pilotos na F1 dos anos 70. Como não poderia deixar de ser, o espectador também é premiado com as fantásticas cenas de corrida, com suas ultrapassagens e acidentes precisamente reconstituídos, principalmente o famoso acidente em que Lauda quase perdeu a vida e teve boa parte do corpo queimado (show de efeitos especiais que não se fazem perceber), além de manter o ritmo e envolvimento ao longo de toda a projeção, um mérito da direção de Howard, cineasta com grande talento em prender o público e que parece ter especial apreço por biografias e tramas baseadas em eventos verídicos, como nos casos de “Uma Mente Brilhante” (A Beautiful Mind, 2001) e “Apollo 13” (1995). Vale o destaque ainda para a trilha sonora de Hans Zimmer, inspirada como há muito tempo não se ouvia nos seus trabalhos (muito superior ao que fez em “O Homem de Aço”).

O resultado é um filme de arrepiar, capaz de agradar tanto à crítica quanto ao público, este com potencial para ser bem mais abrangente do que os aficionados por automobilismo. Arrisco dizer que é o melhor trabalho de Ron Howard, superando o citado e oscarizado “Uma Mente Brilhante”. Aliás, falando em Oscar, não vou estranhar se o longa conseguir várias indicações na próxima edição do prêmio da Academia de Hollywood. Caso venha a obtê-las, será inteiramente justo. E termino pontuando: um dos melhores filmes sobre esporte já feitos.


Cotação:



Nota: 9,5

terça-feira, 30 de julho de 2013

Wolverine - Imortal

Preservando a essência


Já faz um bom tempo que li a histórica série de Wolverine, concebida por Chris Claremont e Frank Miller, que elevou o famoso mutante a novos patamares. Nela, Logan respirou ares diferentes em uma trama ambientada no Japão, tentando alcançar o autocontrole (algo quase avesso ao seu temperamento irascível) e conhecendo uma nova paixão com Mariko, deixando, desta forma, um pouco de lado seu eterno amor não correspondido por Jean Grey. O mais popular entre os X-Men atingia sua maioridade artística, arregimentando uma legião ainda maior de fãs que não parou de crescer, sendo hoje Wolverine um dos super-heróis mais populares da Marvel. Tão popular que já chegou ao seu segundo filme solo, mesmo diante das críticas negativas relativas a “X-Men Origens: Wolverine” (X-Men Origins: Wolverine, de 2009), com as quais eu nunca concordei inteiramente. É verdade que se trata de um filme com problemas, mas está longe de ser a “bomba” alardeada quando do seu lançamento. Por outro lado, se nas HQs o personagem foi alçado a níveis excepcionais com a citada história de Logan em terras nipônicas, “Wolverine – Imortal”, atualmente em cartaz no circuito comercial brasileiro, também eleva o mutante esquentado a outros patamares na telona do cinema.

Acredito não ser por acaso o sucesso, uma vez que este novo longa-metragem do herói foi inspirado na famosa HQ de Miller e Claremont, com o acréscimo de algumas outras nuances que vieram de sagas posteriores. Durante boa parte da projeção, sequer temos a sensação de estarmos assistindo a um filme de super-herói. Parece mais uma mistura de filme de ação tradicional com filme de artes marciais. Algo que lembra “Kill Bill”, de Quentin Tarantino, muito embora nosso herói tenha motivações mais nobres do que uma mera vingança e não há toda aquela sanguinolência explícita. Entretanto, o estilo samurai-fantástico se faz presente em várias sequências, dirigidas com muito apuro por James Mangold, o mesmo de longas como “Garota Interrompida” (Girl, Interrupeted, 1999) e “Johnny & June” (Walk The Line, 2005). Ou seja, um diretor de viés artístico, escolhido para colocar na película um maior peso dramático. Vale lembrar que a primeira escolha para a realização havia sido Darren Aronofsky, amigo de Hugh “Wolverine” Jackman, mas o diretor de “Cisne Negro” (Black Swan, 2010) acabou desistindo. De qualquer forma, a escolha se mostrou feliz (muito superior a Gavin Hood, diretor do primeiro filme solo do mutante), já que Mangold demonstrou capacidade não apenas de imprimir um teor dramático mais consistente à trama, mas também de entregar ótimas sequências de ação, como o sensacional embate de Logan com um mafioso da Yakusa em cima de um trem em movimento.



O roteiro, escrito por Scott Frank e Mark Bombak, mostra o mutante vivendo como um selvagem no meio da floresta – e mais agressivo do que nunca - até ser encontrado por Yukio (Rila Fukushima), uma japonesa que lhe traz uma mensagem de um antigo amigo, o Sr. Yashida (Hal Yamanouchi), militar que Logan salvou no trágico dia da explosão da bomba atômica em Nagasaki, durante a Segunda Guerra Mundial. Yashida está moribundo, vítima de câncer, e Logan viaja ao Japão para ouvir o que ele tem a dizer. Já em terras nipônicas, conhece Mariko, a neta de Yashida, e acaba por se envolver em uma trama que envolve a máfia Yakuza, além de outros mutantes, sendo que uma delas, a Víbora (Svetlana Khodchenkova), acaba por afetar o seu fator de cura, deixando o herói combalido para enfrentar seus perigosos inimigos.

Claro que há muita ação em “Wolverine - Imortal”, com algumas sequências realmente ótimas (como já frisado), imageticamente bem concebidas e com edição eficiente que permite ao espectador entender perfeitamente o que se passa na tela. Contudo, um dos seus maiores trunfos é a construção dos personagens, com destaque para Yukio, uma mutante com capacidade de prever o futuro, e Mariko, o novo amor de Logan, ambas, vale dizer, muito bem interpretadas por suas respectivas atrizes. O elenco como um todo se mostra bastante eficiente, mas é mesmo Hugh Jackman que mais uma vez mostra porque é o Wolverine definitivo. Alguns atores se encaixam tão perfeitamente em alguns papeis que sequer podemos imaginar outra pessoa interpretando-os. É o caso de Harrison Ford, por exemplo, como Indiana Jones. E é o caso de Hugh Jackman como o mutante de garras de adamantium.


Destarte, não se pode negar que o longa deixa a desejar no seu último terço, embarcando em alguns exageros dispensáveis que só contribuíram para enfraquecer a narrativa. Ademais, os fãs vão reclamar de algumas distorções em relação ao material original (principalmente com relação ao vilão Samurai de Prata, que dá as caras lá para as tantas). Todavia, mesmo com algumas ressalvas, a adaptação de Mangold preserva a essência do personagem, mesmo que Wolvie seja ainda mais violento e truculento nos quadrinhos. Aqui, devido às questões que envolvem um blockbuster, que, como sabemos, tem de gerar retorno financeiro, não é possível deixar a violência de forma muito gráfica na tela mas, de qualquer forma, está lá o Logan de temperamento arredio, quase um animal selvagem, lutando para domar seus instintos e superar o passado. Ou seja, encontramos o Wolverine que conhecemos e não um simulacro do herói, como aconteceu recentemente na nova adaptação do Homem de Aço para a telona. Enfim, saí da projeção desejando uma continuação e com vontade de recomendar “The Wolverine” para os interessados em curtir uma boa sessão no fim de semana.


Cotação:



Nota: 8,0

domingo, 21 de julho de 2013

O Homem de Aço

5 motivos para não gostar de “O Homem de Aço”


ALERTA: o  texto a seguir está cheio de spoilers. Portanto,  é melhor acompanhá-lo apenas se você já tiver assistido ao filme.


Este foi um dos filmes mais aguardados do ano e as grandes expectativas quase sempre geram decepções. Infelizmente, não consegui fugir a tal regra e saí do cinema frustrado após assistir a “O Homem de Aço” em uma sessão 3D (dispensável) completamente lotada. A pergunta que não calava na minha mente era justamente: “mas, afinal, onde está o Superman?”. Sim, porque, convenhamos, aquele personagem na tela tinha algumas semelhanças com o Kal-El que conheci nos quadrinhos e na franquia cinematográfica protagonizada por Christopher Reeve, mas não era ele. A seguir, em tópicos, vou discorrer sobre os motivos que me levaram a rejeitar essa nova adaptação, esse reboot tão desnecessário quanto o foi, ano passado, o reinício da franquia do Homem-Aranha.

1) O roteiro – A impressão que tive foi a de que os roteiristas David S. Goyer e Christopher Nolan, os mesmos da recente trilogia “O Cavaleiro das Trevas”, estavam de ressaca depois do seu trabalho com o homem morcego e as ideias acabaram não fluindo da forma esperada, pois o enredo de “Man Of Steel” é repleto de atropelos e incongruências. Há muitas circunstâncias mal explicadas, como o fato dos kryptonianos não mais se reproduzirem naturalmente (será que alguma saga recente dos quadrinhos criou essa ideia estapafúrdia?) ou a ida de Lois à Fortaleza da Solidão, assim, digamos, meio que por acaso, logo após ver Kal-El caminhando (hein?) no Ártico em busca de suas origens. De quebra, o roteiro ainda transformou o Superman em um assassino ao matar o General Zod. A desculpa de Zack Snyder, diretor do longa, é a de que “a inocência acabou”. Pois bem, Sr. Snyder, eu acredito que justamente no mundo de hoje estamos precisando de mais pureza, inocência, inspiração e o personagem do Super-Homem era justamente o mais eficaz em mostrar aos garotos uma inigualável retidão de caráter. E aqui, entramos no segundo problema.


2) A direção – Zack Snyder é o diretor, mas não se pode negar que “O Homem de Aço” possui a mão forte de Christopher Nolan no processo criativo. Com dito anteriormente, recém egresso da franquia de Batman, ele aparentemente confundiu os personagens, querendo atribuir à narrativa um tom sombrio que destoa do Superman. Podem me acusar de “purista” ou “saudosista”, mas sempre defendi que uma adaptação de HQ é bem-sucedida quando consegue captar a essência do personagem. É o que sucedeu com a referida trilogia do Cavaleiro das Trevas e também com a trilogia do Homem-Aranha comandada por Sam Raimi. O que ocorre em “O Homem de Aço” é justamente o oposto. Super-Homem transforma-se em uma pessoa cheia de complexos, sem autoconfiança sentindo-se um rejeitado-deslocado-excluído devido à sua condição de alienígena. Algo semelhante ao sentimento dos mutantes dos X-Men, mas o filme não é sobre Wolverine (o filme dele é outro). Ressalte-se que os humanos sentem mais medo do super-herói do que admiração. Aliás, o fato de Kal-El ser um alienígena já é conhecido por todos, assim, logo de cara, inclusive por Lois Lane. Sim, não existe nenhum mistério e riqueza no relacionamento entre os dois. Ela já sabe que Clark é Superman, sem rodeios. O romance resta mal desenvolvido e, em compensação, no último terço de projeção, temos meia hora de pancadaria desenfreada que chega a ser cansativa. Metrópolis é devastada praticamente inteira, sem dó nem piedade, umas três vezes. Ah, e tudo isso com uma fotografia que prima pelos tons escuros, como se a qualquer momento Clark Kent fosse entrar na Batcaverna.

3) O ator – Em geral, o elenco não compromete. Amy Adams convence como a repórter Lois Lane, conferindo-lhe aquele ar arrogante-petulante característico da personagem. O veterano Kevin Costner também se sai bem como Jonathan, o pai terráqueo de Clark, exalando aquela aura de sabedoria a que nos acostumamos ver tanto nas HQs quanto no cinema. Até Russel Crowe, que vivia péssima fase, convence como Jor-EL, o pai kryptoniano do herói. Entretanto, é justamente na peça central que mora o problema. Henry Cavill, ator britânico egresso da TV (participou da série “The Tudors”), realmente é um homem bonito, lembrando o ícone Christopher Reeve, tem porte atlético e jeitão de Superman. Contudo, como ator, não convence ninguém. Está sempre com o semblante fechado e, nos poucos momentos sorridentes, eles aparecem forçados, como em um comercial de pasta de dente. Assim, a empatia com o espectador resta diminuída, algo que prejudica demais em um filme de super-herói. Mas, vá lá, ele é melhor do que o completamente inexperessivo Brandon Routh, intérprete (?) do filme de Bryan Singer.


4) A pretensão – Tudo bem, uma das conotações mais notórias do Super-Homem é a sua similaridade com Jesus Cristo. Afinal, ele foi “enviado” para a Terra, onde deveria trazer esperança para a humanidade; foi criado por pais terrenos; usa um manto vermelho nas costas; é moralmente irrepreensível e por aí vai. Contudo, “O Homem de Aço” leva essa conotação messiânica ao extremo, chegando ao ponto de, em determinada cena, o herói abrir os braços como se estivesse para ser crucificado. É como se, de repente, estivéssemos estranhamente a assistir um filme religioso. Tal subtexto sempre vai existir nas histórias do Superman, mas não precisa exagerar tanto assim. Esses excessos só contribuíram para deixar o longa com uma jeitão pretensioso totalmente dispensável.

5) A trilha sonora – Esse é o pior trabalho de Hans Zimmer em muito tempo. Uma trilha sonora invasiva, constante e permanentemente tensa. Dá até a impressão de que foi concebida para um filme de suspense. Entretanto, ao contrário de causar tensão nos momentos certos, torna-se cansativa e é totalmente esquecível. Quando lembramos da trilha épica e icônica que John Williams concebeu para o filme de 1978... Bom, aí a comparação vira covardia.

“O Homem de Aço”, apesar de todos esses poréns, não chega a ser um desastre. É perfeitamente assistível (tem ótimos efeitos especiais, claro), desde que esqueçamos que se trata de um filme sobre o Superman e imaginemos que aborda um outro herói qualquer. Ademais, ser “assistível” é algo muito abaixo do que se esperava da produção e o que percebo, diante da grande bilheteria que o longa vem obtendo, é que o seu marketing foi muito bem realizado (e os preços da salas 3D também ajudam né?). Esperemos que a continuação (já confirmada pela Warner) traga progressos na construção do roteiro e, principalmente, não esqueça que Super-Homem e Batman são personagens diferentes. Como frisado acima, não há nada pior para uma adaptação do que fugir à essência do personagem transposto para a tela. E, lamentavelmente, foi o que aconteceu.


Cotação:



Nota: 6,5

terça-feira, 25 de junho de 2013

Eu Quero Esse Pôster # 23



Sim, o poster acima é interessante. Entretanto,  ainda no embalo do que vem acontecendo em nosso país, gostaria de tecer alguns comentários.

Tenho vista nas ruas a utilização da máscara do "Codinome V", do longa-metragem e HQ "V de Vingança" (V For Vendetta, 2006), de maneira indiscriminada. Ressalte-se que na internet estão pipocando informações que alguns grupos de extrema direita estão usando a máscara do personagem para esconder o rosto de agressores e vândalos. Não custa lembrar que a HQ foi escrita por Alan Moore durante os tempos sombrios do governo Tatcher na Inglaterra. É, antes de mais nada, uma reação ao conservadorismo. Interessante como a cultura pop por vezes começa a ser usada de maneira equivocada (ou maldosa mesmo) diante de situações atípicas como a que estamos vivendo como uma forma de trazer simpatizantes a causas duvidosas.

Ah, não, este blog não está se tornando um blog sobre política. É que o país está pegando fogo e não dá para ficar indiferente. Até a próxima!


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Star Trek - Além da Escuridão

A evolução da Jornada


Já faz quatro anos (como o tempo passa rápido) que J.J. Abrams, cineasta egresso da televisão que ficou famoso por séries como “Lost”, levou às telas o reboot da longeva série “Star Trek”, a qual, como já tive a oportunidade de mencionar na resenha publicada à época, nunca esteve entre minhas referências pop preferidas. De qualquer forma, Abrams fez um bom trabalho no reinício da franquia. Mesmo que o “Star Trek de 2009 não chegue à excelência, seu resultado foi bastante agradável, conferindo uma roupagem rejuvenescida aos personagens capaz de trazer novos adeptos ao universo concebido por Gene Rodenberry. E, para aqueles que duvidavam (como eu) que ninguém seria capaz de incorporar o Dr. Spock tão bem quanto Leonard Nimoy, Zachary Quinto calou a boca de todo mundo roubando todas as cenas em que aparecia, alguns degraus acima do Capitão Kirk de Chris Pine.

Com este “Além da Ecuridão”, Abrams demonstra que é, inegavelmente, o grande diretor do gênero ficção-científica atualmente em atividade no cinemão norte-americano, deixando para trás os seus ídolos, o aposentado George Lucas e Steven Spielberg, que vem se dedicando a outros gêneros nos últimos anos. Este novo episódio de Star Trek pode não ser tão bom quanto seu filme anterior, o ótimo “Super 8”, mas com certeza alcança uma evolução em relação ao reboot de 2009. O diretor, agora liberto da necessidade de apresentar os personagens ao um novo público, aprofunda-se em sua psicologia e nas relações entre eles, fazendo com que o longa, mais do que uma aventura, possa ser visto como uma história de amizade. E, vale dizer, amizade não só entre os dois protagonistas Kirk e Spock, mas também entre todos os integrantes da tripulação da nave Enterprise. Aqui, quase todos os membros da equipe possuem o seu momento de destaque e ações que ajudam no desenrolar da trama, fazendo o público enxerga-los não apenas como um amontoado de personagens, mas como uma verdadeira equipe, um time que joga de maneira coletiva e vence as adversidades e os inimigos.


Em entrevistas recentes, Abrams declarou que gostava de ver filmes sem muitas informações prévias sobre o roteiro e, de preferência, até sem ver trailers ou comerciais de TV, razão pela qual a produção desse novo episódio foi cercada de mistérios. Os próprios atores foram orientados a falar o mínimo possível sobre o longa durante as entrevistas. A precaução é justificável. Quanto menos se souber a respeito do verdadeiro papel que John Harrison (Benedict Cumberbatch) terá no desenvolvimento da trama, melhor. Basta apenas saber que ele é uma espécie de terrorista estelar cuja personalidade misteriosa será responsável por testar os limites da equipe da Enterprise. De qualquer forma, embora tenha alguns “solavancos” comuns aos filmes de ação, o roteiro (de Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof ) é bem estruturado, valendo destaque para os diálogos, muito mais inteligentes, fluidos e divertidos (várias são as tiradas que funcionam ao longo da projeção) que os do primeiro da série, o qual era repleto de frases pouco inteligentes e clichês, principalmente em sua primeira metade.


Além disso, é inegável que Abrams filma como poucos, com enquadramentos perfeitos para as cenas de ação (que são muitas, diga-se de passagem) e ótima dinâmica e edição (vou ser repetitivo e perguntar: viu, Michael Bay?). Filmar cenas de ação é uma arte e, talvez, apenas James Cameron supere hoje J.J. Abrams neste aspecto. O ritmo da película é tão bom que nem percebemos que ele tem 2h12min de duração. Entretanto, um ponto em que Abrams precisa melhorar é trilha sonora de seus filmes, geralmente esquecíveis e que pouco acrescentam à narrativa. Por outro lado, demonstra mais uma vez muita competência na direção de atores, o que é difícil em longas repletos de ação. Embora Benedict Cumberbatch tenha boa presença na pele do vilão John Harrison, não considero seu desempenho tão excepcional como alardeado por aí em alguns veículos midiáticos. Neste ponto, os maiores méritos ficam mesmo com a dupla protagonista. Chris Pine evoluiu bastante em relação ao primeiro longa, trazendo um Capitão Kirk muito mais tridimensional e que vai além de um mero garoto-irresponsável-que-precisa-amadurecer. Entretanto, Zachary Quinto, mais uma vez, rouba mesmo a cena com o seu Dr. Spock. Ele praticamente domina todas as sequências em que aparece e definitivamente calou a boca de muitos que julgavam que o rapaz não estaria à altura de Nimoy.

É verdade que “Star Trek” não chega a ser uma coca-cola gelada no deserto. Não atinge um nível de excelência como se tem propagado por aí, como de resto nenhum filme de J.J. Abrams, até hoje, pode ser classificado como “excelente”. Entretanto, “Além da Escuridão” está um degrau acima do seu antecessor, representando uma evolução da jornada. Ao mesmo tempo em que traz ação quase ininterrupta, consegue, como já frisado, aprofundar-se na psique e nas relações entre os personagens, algo que decididamente não é fácil. Isso me faz lembrar que Abrams será o diretor de Star Wars episódio VII, trazendo boas expectativas para uma franquia já desgastada. Convenhamos, diante do seu trabalho com “Star Trek” (série da qual ele nem era fã), será difícil que ele venha a cometer equívocos como “A Ameaça Fantasma” na franquia do Darth Vader.


Cotação:



Nota: 8,5

terça-feira, 16 de abril de 2013

Oblivion

A continuação de “Guerra dos Mundos”


Na atual crise de criatividade do cinema norte-americano, é um alívio assistir a um filme pipoca que não seja sequência ou remake de outro. Tudo bem, “Oblivion” é baseado em uma HQ, mas não é uma daquelas publicadas pela Marvel Comics, com seus super-heróis que, em boa medida, já estão cansando na tela (ou alguém está realmente empolgado com a breve estreia de “Homem de Ferro 3”?). A graphic novell adaptada é de autoria do próprio diretor do longa, Joseph Kosinski (que escreveu a HQ ao lado de Arvid Nelson) e, talvez por essa circunstância, a trama é salpicada de referências cinematográficas a outros longas de ficção científica, algo que, como demonstra a carreira do genial Quentin Tarantino, pode trazer ótimos resultados.

Vamos admitir: Kosinski não atinge o nível de excelência tarantinesco na sua mistura de referências, mas é prazeroso assistir a um filme que relembre aquele que telavez seja o melhor curta-metragem de todos os tempos, “La Jetée”, dirigido por Chris Marker em 1962. A sequência inicial de “Oblivion” remete a esse último e a lembrança de “La Jetée” me atingiu de tal forma que me distraiu um pouco das cenas subsequentes. Mas nada que viesse a comprometer o entendimento da trama, na realidade mais uma ficção pós-apocalíptica, só que desta vez os responsáveis pela destruição do planeta Terra foram os alienígenas. Afinal, vale lembrar que o mercado estadunidense pós-crise econômica está em baixa e Hollywood depende cada vez mais do mercado internacional para fechar suas contas. Portanto, não pega bem inventar guerras nucleares com altranos e sicranos (leia-se, russos, árabes e afins) que levariam a uma hecatombe. Nesse quadro, melhor atribuir o “fim do mundo” a perigosos micro-organismos (como no caso de “Eu Sou a Lenda”, de Francis Lawrence) ou a extraterrestres, muito embora, neste último caso, os alienígenas não deixem de representar a eterna xenofobia ianque.


Na trama, narrada em primeira pessoa e protagonizada por Tom Cruise (que está cada vez mais assumindo um perfil de astro de filmes de ação), Jack Harper é um dos poucos humanos sobreviventes após a guerra dos mundos que tornou boa parte da Terra inabitável, o que me leva a imaginar que “Oblivion” poderia ser uma continuação do “Guerra dos Mundos” de Steven Spielberg (até o ator é o mesmo). Enquanto a maior parte da humanidade não vive mais no planeta, residindo no espaço e na lua de Saturno chamada Titan, Harper e sua companheira Victoria (Andrea Riseborough) permanecem na Terra exercendo uma função de vigilância, evitando que os “saqueadores” - aliens ainda resistentes em solo terrestre - destruam os drones (robôs patrulheiros). Além disso, passa as horas vagas resgatando as “relíquias” de um passado glorioso da humanidade, como discos, bonecos e livros (remetendo bastante a “Wall-E”, famosa animação da Pixar vencedora do Oscar). As coisas começam a mudar quando a humana Julia (Olga Kurylenko) é encontrada por Harper em uma cápsula criogênica após a queda de uma nave na região que controla. Ela lhe desperta vagas memórias, de um passado que não sabe exatamente se viveu, e acabará por lhe trazer revelações e descobertas acerca de sua própria existência.

Eu não assisti a “Tron – O Legado” (Tron – Legacy, 2010), trabalho anterior de Kosinski, mas, a partir da experiência com “Oblivion”, percebe-se que ele sabe manter o ritmo da ação sem que haja pressa no desenrolar dos fatos e apresentação dos personagens. Fazer um filme de ação não significa que seu enredo tenha de ser mal contado e Kosinski demonstra entender muito bem tal aspecto, mesmo que sua mise-en-scène seja tradicional, não apresentando nem mesmo ângulos diferenciados. A trama resta bem contada e isso se torna um elogio ainda maior diante de algumas “reviravoltas” que ela apresenta em sua segunda metade. Pena termos que colocar a palavra “reviravoltas” entre aspas, já que várias delas são até esperadas. Os problemas do longa são justamente esses artifícios do roteiro, previsíveis em vários aspectos. Ademais, as citadas referências vão se tornando cada vez mais óbvias, chegando a tornar incômodas. É o que sucede no seu desfecho, quando “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odissey, 1968) é referenciado de forma tão ostensiva que chega a se tornar constrangedor (não vou contar como para não escrever um “spoiler” gigante). Outro problema é que a mencionada narração em primeira pessoa se perde ao longo da projeção, sendo quase que esquecida no seu último terço.


Entre as atuações, as mulheres, mesmo em minoria, mostram-se mais interessantes e comprometidas do que a ala masculina do elenco. Tanto Andrea Riseborough, intérprete de Victoria, quanto Olga Kurylenko, que encarna Julia, apresentam boas atuações. Já o superastro Tom Cruise não faz nada de significativamente diferente dos seus últimos papeis. Talvez esteja aqui um pouco mais “sério” do que de costume, com menos aparições do seu tradicional sorriso “colgate”, mas, de toda forma, seria estranho se um personagem de um mundo devastado ficasse abrindo sorrisos por qualquer coisa. Outro nome do primeiro escalão, Morgan Freeman, atua em piloto automático, tornando-se um coadjuvante de luxo.

O longa conta, ainda, com uma bela direção de arte (algo natural vindo de cineasta que é arquiteto por formação), fator que contribui bastante para a imersão do público, além de uma trilha sonora pop repleta de clássicos do Rock (de Led Zepellin a Procol Harum) Entretanto, não espere de “Oblivion” mais do que ele pode dar. Trata-se tão somente de uma boa diversão. Com neurônios, é importante frisar, mas nada mais do que isso. Para usar a comparação com o referido filme de Stanley Kubrick, “Oblivion” não irá gerar décadas de debates, estudos e discussões a respeito de suas verdadeiras pretensões e interpretações. A não ser no que se refere ao título. Terminada a projeção, eu não entendi por que a película leva esse nome. Será que minha surpresa com as referências a “La Jetée” me distraíram o suficiente para passar batido nesse detalhe?


Cotação:



Nota: 8,0

Em tempo: consultando o tradutor do Google acabei descobrindo que "oblivion" é um termo em inglês que significa "esquecimento" (não conhecia a palavra), o que possui, sim, relação com a trama. Ok. Então o erro foi da distribuidora no Brasil que decidiu permanecer com o título original, o que pode deixar nosso público voando.

___________________

Aviso: O "Cinema Com Pimenta" estará em recesso por cerca de 10 dias, pois este blogueiro curtirá um merecido descanso em uma das praias do litoral aqui do Rio Grande do Norte. Um abraço a todos e até a volta!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Django Livre

A escravidão segundo um artista pop


Não há dúvidas de que Quentin Tarantino é um cineasta controverso. Muitos o amam, alguns o odeiam, mas, em geral, este é o preço se paga quando se desenvolve um trabalho extremamente autoral. O adjetivo “controverso” também pode ser aplicado a nomes como Jean-Luc Godard, por exemplo. Contudo, mesmo os críticos de Gordard devem reconhecer a sua importância para a linguagem cinematográfica. E Tarantino, com o seu processo de reciclagem-liquidificador de referências cinéfilas, tem prestado um enorme serviço à Sétima Arte nas últimas duas décadas. Uma das críticas que pairam sobre a obra de Tarantino é seu o excesso de violência. Em alguns casos, acredito que a crítica é válida. Gosto de citar a famosa cena da orelha em “Cães de Aluguel” (Reservoir Dogs, 1992) como exemplo de violência gratuita em sua obra. Entretanto, cabe lembrar que este último foi o seu primeiro longa-metragem na direção, o que nos faz compreender alguns excessos da imaturidade. Por outro lado, em “Django Livre”, seu último filme já em cartaz no circuito comercial brasileiro, há muita violência, mas, pelo menos em boa parte da projeção, não me pareceu gratuita.

Apesar de ser uma mancha presente na história norte-americana, tal como na brasileira, o cinema ianque pouco filmou a escravidão negra, muito embora o tema do preconceito racial seja recorrente em suas produções (como no caso do recente “Histórias Cruzadas”). Uma elipse temática significativa, principalmente quando lembramos que o holocausto promovido pelos nazistas conta com inúmeras produções que retratam seus horrores, uma disparidade que provavelmente é resultado da influência que judeus e afrodescendentes exercem na indústria cultural hollywoodiana. Os primeiros possuem um enorme controle e influência sobre a produção cinematográfica ianque – basta lembrar que Steven Spielberg, por exemplo, é judeu - enquanto negros, em geral, são excluídos do processo de produção e criação, um óbvio reflexo duradouro do passado. Assim, “Django Livre” acaba por se revestir de uma importância bem maior do que de um mero faroeste repleto de tiroteios e cenas violentas. Mostra-se, antes de tudo, como uma tour de force do diretor e roteirista para nos deixar revoltados diante dos horrores da escravidão. Muitos se enganam ao pensar que Tarantino sempre faz cinema apenas sobre Cinema e este me parece o caso mais emblemático em sua carreira que atesta tal afirmação. “Django Unchained” é, primordialmente, um filme sobre escravidão, mesmo que esteja revestido pelo subgênero western spaghetti que tanto influenciou o cineasta.

Começando pelo título e nome do protagonista, o mesmo da película estrelada por Franco Nero em 1966, quase tudo no longa em questão remonta ao subgênero consagrado nas mãos de nomes como Sergio Leone, desde a trilha sonora, até as formas de enquadramento, elementos do roteiro, edição, fotografia e design de produção. Tarantino é fã confesso do faroeste spaghetti (ele já declarou em entrevistas que considera “Três Homens Em Conflito”, de Leone, como o filme mais bem dirigido de todos os tempos) e em ocasiões anteriores, mormente em “Kill Bill vols. 1 e 2” (2003, 2004), já havia demonstrado tal apreço, chegando agora o momento de realizar um trabalho específico do gênero. Se com o mencionado “Kill Bill” ele realizou o seu “filme de artes marciais” e com “Bastardos Inglórios” (Inglourious Basterds, 2009), nos presenteou com seu “filme de Segunda Guerra”, agora é a vez do western, misturando, além da ação típica do bang-bang, uma boa dose de romance.

Mais do que o desejo de liberdade, é o amor que leva Django (personagem de Jamie Foxx, ótimo) a sair da sua condição de escravo para mover montanhas em busca de sua amada. Ele é libertado por um caçador de recompensas, o alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz, impecável!), o qual se compromete a ajudá-lo a encontrar sua esposa, Brunhilde (papel de Kerry Williams), caso Django também o ajude a encontrar criminosos foragidos. Depois de um bom tempo, em que Django se torna um exímio pistoleiro, eles chegam às propriedades de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio, também excelente!), um tiranete obcecado por lutas mortais entres negros escravos, os chamados “mandingos”. É lá que está a sua Brunhilde e é de lá que eles tentarão salvar a moça e escapar com vida.

Curiosamente, o alemão Schultz é o personagem mais esclarecido em relação ao horror da escravidão, rejeitando a ideia de que homens sejam propriedade de outros homens. Além disso, Tarantino pescou referências na mitologia germânica para compor seus personagens. Na lenda alemã, Brunhilde é uma valquíria que foi isolada em uma montanha e de lá foi resgatada pelo bravo Siegfried. Seria uma aceno de Tarantino aos alemães depois de vilanizá-los no referido “Bastardos Inglórios”? Talvez, mas não deixa de ser também um atestado de suas múltiplas fontes de inspiração, que não se limitam apenas ao próprio cinema ou à cultura pop descartável. Ao mesmo tempo, Django se mostra um personagem que em nenhum momento se envergonha da própria altivez, possuindo uma consciência inata de que nada o difere dos homens de cor branca. Ele toma as rédeas de seu próprio destino, o que denota a visão do autor de que os negros não foram passivos na luta pela sua liberdade e igualdade, não constituindo suas conquistas apenas uma benesse dos brancos, como por vezes faz supor a ideologia tradicional.

A violência extrema, que exige bastante estômago em certos momentos, apresentada em algumas sequências parece funcionar, acima de tudo, como elemento catalisador que nos gera a consciência do absurdo do processo escravocrata. Todavia, é claro que Tarantino recheia seu filme de plástica, ação e seu peculiar humor, destilado, principalmente, através de seus costumeiros diálogos afiados. Nunca os tiroteios de um bang-bang cinematográfico jorraram tanto sangue na tela, mas também é provável que nunca tenha existido um personagem do gênero western com um discurso tão convincente e elaborado quanto o do Dr. Schultz. A mistureba típica de Tarantino acaba nos levando a uma montanha-russa de sensações, fazendo o público passar da tensão ao riso com facilidade. Pena que o longa acabe se perdendo um pouco no seu último terço. Seu clímax ocorre cerca de 30 minutos antes do fim da projeção, fazendo com que o seu desfecho reste apagado e descontinuado, uma espécie de enchimento de linguiça desnecessário.


Por outro lado, Tarantino mostra-se, como de costume, excelente na direção de atores. O elenco está coeso, entregando atuações memoráveis de Waltz (já premiado com o Globo de Ouro), DiCaprio, estranhamente esquecido pela Academia de Hollywood, e do protagonista Jamie Foxx, também deixado de lado nas premiações do ano. Entretanto, o caso mais estranho parece ser o de Samuel L. Jackson, antigo parceiro de Tarantino. Ele tem aqui sua melhor atuação em muitos anos, na pele de um repugnante caseiro que é o mais racista dentre todos os tipos da narrativa, vivendo na “casa grande” e oprimindo os demais escravos (aqui no Brasil, podemos traçar uma convergência com os feitores negros que perseguiam e torturavam escravos). Não obstante, sua atuação vem sendo pouco comentada até mesmo pela crítica. Uma injustiça que carece de boas explicações. No mais, Tarantino preenche a projeção, como de hábito, com participações especiais, como a de Jonah Hill (hilária, por sinal), e ainda a de Franco Nero, perguntando a Django como se pronuncia o seu nome. Dentre os aspectos habitualmente marcantes na obra do cineasta, a trilha sonora é a que se mostra menos inspirada, apesar de contar com o tema original de Ennio Morricone para o Django dos anos 60. Não que a trilha seja ruim, mas talvez estejamos mal acostumados com o uso excepcional da música em outras oportunidades, e aqui ela não se mostra tão especial.

“Django Livre”, com certeza, não é o melhor filme de Quentin Tarantino. Teria se saído melhor se tivesse sua metragem reduzida em uns 30 minutos como já destacado. Contudo, trata-se da obra em que o diretor deixa mais claro ao espectador sua verdadeira pretensão, que, no caso, é a de nos fazer lembrar que a escravidão foi uma passagem terrível da história da humanidade e, tal como os horrores da Segunda Guerra Mundial, jamais deverá ser esquecida. Tarantino pode ser um cinéfilo viciado, mas não um alienado que usa sua arte apenas para referenciar a própria cultura pop. Aqui, ele se revela um engajado cheio de talento. Um virtuose da imagem que retira a poeira de uma temática difícil em um país que, apesar de hoje ter um presidente negro, ainda precisa curar suas feridas.


Cotação:
Nota: 9,0

sábado, 5 de janeiro de 2013

Os 7 Melhores Filmes de 2012

Abaixo, segue a lista dos 7 melhores filmes exibidos no circuito comercial brasileiro em 2012, na opinião do Cinema Com Pimenta. Confesso que não considerei 2012 um bom ano e os filmes que seguem entraram na lista sem ser necessário fazer "escolhas de Sofia" para chegar a ela. Confiram.


7) 007 - Operação Skyfall (Skyfall, de Sam Mendes);



6) Argo (Idem, de Ben Affleck);



5) Os Descendentes (The Descendants, de Alexander Payne);



4) Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, de Christopher Nolan);




3) Moonrise Kingdom (idem, de Wes Anderson);



2) A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, de Martin Scorsese);



1) As Aventuras de Pi (Life Of Pi, de Ang Lee) - resenha em breve no Cinema com Pimenta.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Quero Ver Novamente #20


"007 - O Espião Que Me Amava" (The Spy Who Loved Me, 1977), dirigido por Lewis Gilbert, é considerado por muitos (eu me incluo no coro) como o melhor filme do agente 007 protagonizado por Roger Moore. Inegavelmente, é um dos melhores longas não só da "era Moore", mas de toda a franquia James Bond, o décimo episódio com o personagem desde o primogênito "Contra o Satânico Dr. No" (Dr. No, 1962). As sequências arrebatadoras de créditos iniciais sempre foram uma marca da série e a do filme em questão é uma das melhores, principalmente devido à canção interpretada por Carly Simon, "Nobody Does It Better". Curta abaixo. E que venham mais 50 anos de 007, o espião à prova do tempo.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

007 - Operação Skyfall

O velho e o moço


Pois é, já são 50 anos de James Bond nas telas de cinema. Ao logo dessas décadas, o agente 007 – os dois zeros antes do 7 significam que ele tem “permissão para matar” - tornou-se um ícone pop como poucos, um símbolo de masculinidade que foi se adaptando às mudanças dos costumes sociais e da própria profissão de espião, mas que continua povoando o imaginário popular e rendendo sempre ótimas bilheterias. Nos últimos anos, a franquia mais longeva do cinema vem passando por uma especial renovação, não apenas no que diz respeito ao ator que encarna o protagonista. Desde o reboot “Cassino Royale” (2006), o tom mais sisudo e realista, aliado a um estilo de ação influenciado pela trilogia Bourne, deu uma sacudida na série que agradou em cheio tanto o público quanto a crítica. Aliado a isso, veio o novo intérprete Daniel Craig, certamente o melhor James Bond desde o lendário Sean Connery. Eu mesmo me atrevo a dizer que Craig é tão bom quanto Connery, cada um fazendo o melhor pelo personagem em seus respectivos momentos históricos.

Para comemorar as bodas de ouro da franquia não haveria melhor opção do que mais um episódio com alto nível de qualidade. E, confesso, depois da experiência somente razoável de “Quantum Of Solace” (2008), dirigido por Marc Forster, temi pela escolha de Sam Mendes para assumir a direção. Gosto de Mendes, um grande diretor de filmes como “Beleza America” (American Beauty, 1999) e “Estrada Para Perdição” (Road To Perdition, 2002), mas ele não tinha experiência no comando de filmes de ação blockbuster como este. Contudo, ainda bem que minhas apreensões não se confirmaram. O que se vê em “007- Operação Skyfall” é realmente um dos melhores episódios da cinesérie, chegando próximo ao patamar do citado “Cassino Royale” e de clássicos como “007 Contra Goldfinger” (Goldfinger, 1964). E mais, o filme possui elementos da filmografia de Mendes que o tornam não apenas mais um longa em sua carreira, mas como verdadeiramente integrante de seu perfil autoral. Mendes desenvolveu com este “Skyfall” uma ótima metáfora do eterno conflito entre o novo e o antigo, entre as tradições e a vanguarda, um tema recorrente em suas obras que se encaixa à perfeição com o próprio momento da série do agente britânico, a qual, nos últimos episódios, vem justamente buscando um novo tom mais sintonizado com o mundo contemporâneo.


A trama desta nova película é uma das mais engenhosas concebidas para o espião. Nela, vemos Bond ser dado como morto logo no início da projeção, em consequência de uma atitude equivocada de M (Judi Dench)* no comando da missão. Diante de seus últimos insucessos e seguidas perdas de agentes em campo, o trabalho de M à frente da divisão de espionagem do Serviço de Inteligência britânico, o MI-6, começa a ser questionado por seus superiores, entre eles Gareth Mallory (Ralph Fiennes), que ameaça aposentá-la compulsoriamente. Para completar o quadro, a própria sede e sistema de dados do MI-6 são atacados por uma quadrilha de hackers comandada por Silva (Javier Bardem, sensacional!) um ex-agente que sentiu traído por M no passado, buscando vingança a qualquer custo. É nesse quadro que se coloca um especial desenvolvimento na relação entre Bond e sua superiora, em uma abordagem inédita na franquia. A partir desta linha principal, o longa é pontuado por vários momentos que emanam a questão da finitude. Uma das sequências, em que Bond se encontra com Q (agora interpretado pelo jovem Ben Whishaw) revela em poucas palavras e imagens o mote de toda a narrativa ao focar em uma pintura que retrata um velho navio de guerra prestes a naufragar. A própria relação de Bond com Q, o inventor das traquitanas tecnológicas que usa, reflete esse conflito entre “o velho e moço” (para citar uma música do Los Hermanos) que jamais cessará.


Mas não é só de papo-cabeça que vive “Operação Skyfall”. A ação está lá, quase desenfreada com sequências espetaculares muito bem dirigidas por Mendes (como é bom assistir a um filme de ação sem tremedeira na câmera!) e com um vilão certamente dos mais memoráveis da cinesérie, com motivações mais sinceras do que ideias mirabolantes de conquista e destruição do mundo. Impressionante como Javier Bardem não consegue atuar mal e rouba a cena em todas as circunstâncias. E olha que seu personagem, o tal Silva, só aparece lá para a metade da projeção. Outras boas atuações também são a de Judi Dench, finalmente com um espaço maior para desenvolver a sua M, e, claro, o próprio Daniel Craig, encarnando Bond de uma forma que hoje fica difícil imaginar o herói sem a sua imagem.

“Operação Skyfall”, entretanto, peca por uma certa previsibilidade a partir da metade da narrativa e suas duas bondgirls, tanto Naomie Harris como a francesa Bérénice Marlohe, não dizem muito a que vieram, neste ponto ficando a muitos quilômetros de distância da presença central e marcante da bondgirl de Eva Green em “Cassino Royale”. Mas é bom ressaltar que estes são problemas menores que, se contribuem para deixá-lo um pouco abaixo do nível obtido por Martin Campbell no longa de 2006, não chegam a realmente interferir em ótimos 146 minutos (que não se sentem) de apreciação. Sam Mendes, tal como Christopher Nolan com a franquia de Batman, mostra aqui que é possível, sim, colocar um viés artístico próprio mesmo em blockbusters feitos para levar milhões às salas. E, de quebra, ainda temos música de Adele ao longo dos ótimos créditos iniciais do longa-metragem. Tem coisa melhor do que comer pipoca com classe e inteligência? E que venha o próximo 007, como bem anunciado antes dos créditos finais.



Cotação:



Nota: 9,0



*Nota com SPOILER: corre a notícia de que o fim da personagem de M na franquia se deve a uma doença degenerativa nos olhos de Judi Dench que pode deixá-la cega.