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domingo, 20 de outubro de 2013

Elysium

Ainda uma promessa


O cinema do jovem diretor Neil Blomkamp pode ser resumido da seguinte forma: premissas muito inteligentes, execução ineficiente. É a conclusão a que podemos chegar a partir deste seu novo trabalho, “Elysium”, atualmente em cartaz no circuito brasileiro, o qual repete as mesma virtudes e defeitos do seu longa anterior, o interessante “Distrito 9” (District 9, 2009), responsável por tentar atribuir conotações político-sociais ao cinema pipoca do fim de semana. Nascido em Joanesburgo, África do Sul, ele impregnou “Distrito 9” de referências ao Apartheid ao elaborar uma trama onde seres de outro planeta são segregados pelos humanos em uma espécie de gueto. Entretanto, se o longa causa reflexão e sensação de inovação em sua primeira metade, a segunda se reduz a, basicamente, cenas de ação clichês que mais entediam do que envolvem o espectador. Um trabalho de altos e baixos que nos traz um frustrante resultado mediano, dadas as suas potencialidades.

Da mesma forma se desenvolve “Elysium”. Na sua premissa, vemos uma Terra superpovoada e esgotada em seus recursos naturais. Nela, residem as classes mais baixas, operários que lutam pela sobrevivência, enquanto os abastados vivem em uma espécie de satélite artificial denominado Elysium (obviamente, uma referência aos Campos Elísios, local que se pode definir como o paraíso da mitologia greco-romana), onde a qualidade de vida de tempos pretéritos foi preservada. Ou seja, o filme se presta a realizar uma alegoria da luta de classes, com direito a abordar detalhes como a questão da saúde pública, onde alguns têm direito à assistência médica e muitos não têm direito a sequer um atendimento básico. É o que ocorre com o personagem de Max da Costa (Matt Damon), operário de uma fábrica que sofre um acidente radioativo e deve morrer em poucos dias. Para se curar, ele precisa de um método de tratamento só existente em Elysium, mas não tem do dinheiro suficiente para comprar sua estada da fortaleza. Será necessário entrar clandestinamente e para isso contará com a ajuda de especialista em infiltrações, Spider (o nosso Wagner Moura).


Como se vê, o roteiro, escrito pelo próprio Blomkamp, tem um ótimo núcleo de ideias, o que torna o longa interessantíssimo em sua primeira metade, muito eficiente em retratar o drama das classes subalternas em um planeta cada vez mais duro. A ambientação, inclusive, lembra muito a realidade dos Estados Unidos de hoje, cada vez mais latinizado, onde em diversas regiões existe uma mistura de línguas, predominando o inglês e o espanhol. As características da cidade terrena também remetem a uma Cidade do México ou à própria Joanesburgo de Blomkamp (em um eficiente trabalho de direção de arte). Também se mostra perspicaz a escolha de Alice Braga, com sua aparência de latina, para ser o interesse romântico do herói, coadunando-se com caráter “globalizado” da produção. Entretanto, mais uma vez Blomkamp se perde em cenas de ação na segunda metade da projeção e o filme assume aquela perspectiva trivial de qualquer outro filme de ação, com destaque para o mote do “sacrifício” do herói, que também se fez presente no anterior “Distrito 9”. Em suma, “Elysium” se torna previsível até mesmo naquilo em que não pretende ser previsível.



Mas, como disse Wagner Moura em recente entrevista a uma famosa revista de caráter cultural, o maior diferencial do cinema estadunidense é o dinheiro, muito dinheiro, e isso invariavelmente dá destaque ao padrão técnico de seus filmes. Se o longa tem destaque, como dito acima, na sua ambientação, é claro que muito desse mérito se deve à direção de arte, muito eficiente não só na caracterização do planeta Terra, mas também na concepção do satélite Elysium, uma espécie de paraíso da imaginação judaico-cristã. Da mesma forma, o elenco de primeira contribui muito para tornar o longa algo mais envolvente. Matt Damon está inspirado na pele do protagonista e Jodie Foster consegue dar alguma alma à vilã unidimensional da trama, uma espécie de secretária de Estado da nave que nutre ambições maiores. Entre os brasileiros, todavia, há uma certa surpresa. Wagner Moura sofre com um personagem mal desenvolvido e que tem menos tempo de tela do que seria esperado. Assim, acaba que Alice Braga tem mais destaque como Frey, a namorada de Max que tem uma filha também precisando de assistência médica em Elysium, em uma atuação bastante competente.

Embora esteja longe de ser um filme ruim, “Elysium” se constitui em uma demonstração da imaturidade de Blomkamp como cineasta, muito embora, tal como “Distrito 9”,deixe entrever que o jovem tem potencial, ainda sendo uma promessa de grande diretor. Precisa desenvolver melhor suas ótimas premissas para que elas não gerem tão somente bons entretenimentos, mas filmes que sejam mais memoráveis do que as suas duas horas de projeção, ou seja, para que se tornem algo mais do que uma “diversão inteligente” para o final de semana.


Cotação:



Nota: 7,0

terça-feira, 30 de julho de 2013

Wolverine - Imortal

Preservando a essência


Já faz um bom tempo que li a histórica série de Wolverine, concebida por Chris Claremont e Frank Miller, que elevou o famoso mutante a novos patamares. Nela, Logan respirou ares diferentes em uma trama ambientada no Japão, tentando alcançar o autocontrole (algo quase avesso ao seu temperamento irascível) e conhecendo uma nova paixão com Mariko, deixando, desta forma, um pouco de lado seu eterno amor não correspondido por Jean Grey. O mais popular entre os X-Men atingia sua maioridade artística, arregimentando uma legião ainda maior de fãs que não parou de crescer, sendo hoje Wolverine um dos super-heróis mais populares da Marvel. Tão popular que já chegou ao seu segundo filme solo, mesmo diante das críticas negativas relativas a “X-Men Origens: Wolverine” (X-Men Origins: Wolverine, de 2009), com as quais eu nunca concordei inteiramente. É verdade que se trata de um filme com problemas, mas está longe de ser a “bomba” alardeada quando do seu lançamento. Por outro lado, se nas HQs o personagem foi alçado a níveis excepcionais com a citada história de Logan em terras nipônicas, “Wolverine – Imortal”, atualmente em cartaz no circuito comercial brasileiro, também eleva o mutante esquentado a outros patamares na telona do cinema.

Acredito não ser por acaso o sucesso, uma vez que este novo longa-metragem do herói foi inspirado na famosa HQ de Miller e Claremont, com o acréscimo de algumas outras nuances que vieram de sagas posteriores. Durante boa parte da projeção, sequer temos a sensação de estarmos assistindo a um filme de super-herói. Parece mais uma mistura de filme de ação tradicional com filme de artes marciais. Algo que lembra “Kill Bill”, de Quentin Tarantino, muito embora nosso herói tenha motivações mais nobres do que uma mera vingança e não há toda aquela sanguinolência explícita. Entretanto, o estilo samurai-fantástico se faz presente em várias sequências, dirigidas com muito apuro por James Mangold, o mesmo de longas como “Garota Interrompida” (Girl, Interrupeted, 1999) e “Johnny & June” (Walk The Line, 2005). Ou seja, um diretor de viés artístico, escolhido para colocar na película um maior peso dramático. Vale lembrar que a primeira escolha para a realização havia sido Darren Aronofsky, amigo de Hugh “Wolverine” Jackman, mas o diretor de “Cisne Negro” (Black Swan, 2010) acabou desistindo. De qualquer forma, a escolha se mostrou feliz (muito superior a Gavin Hood, diretor do primeiro filme solo do mutante), já que Mangold demonstrou capacidade não apenas de imprimir um teor dramático mais consistente à trama, mas também de entregar ótimas sequências de ação, como o sensacional embate de Logan com um mafioso da Yakusa em cima de um trem em movimento.



O roteiro, escrito por Scott Frank e Mark Bombak, mostra o mutante vivendo como um selvagem no meio da floresta – e mais agressivo do que nunca - até ser encontrado por Yukio (Rila Fukushima), uma japonesa que lhe traz uma mensagem de um antigo amigo, o Sr. Yashida (Hal Yamanouchi), militar que Logan salvou no trágico dia da explosão da bomba atômica em Nagasaki, durante a Segunda Guerra Mundial. Yashida está moribundo, vítima de câncer, e Logan viaja ao Japão para ouvir o que ele tem a dizer. Já em terras nipônicas, conhece Mariko, a neta de Yashida, e acaba por se envolver em uma trama que envolve a máfia Yakuza, além de outros mutantes, sendo que uma delas, a Víbora (Svetlana Khodchenkova), acaba por afetar o seu fator de cura, deixando o herói combalido para enfrentar seus perigosos inimigos.

Claro que há muita ação em “Wolverine - Imortal”, com algumas sequências realmente ótimas (como já frisado), imageticamente bem concebidas e com edição eficiente que permite ao espectador entender perfeitamente o que se passa na tela. Contudo, um dos seus maiores trunfos é a construção dos personagens, com destaque para Yukio, uma mutante com capacidade de prever o futuro, e Mariko, o novo amor de Logan, ambas, vale dizer, muito bem interpretadas por suas respectivas atrizes. O elenco como um todo se mostra bastante eficiente, mas é mesmo Hugh Jackman que mais uma vez mostra porque é o Wolverine definitivo. Alguns atores se encaixam tão perfeitamente em alguns papeis que sequer podemos imaginar outra pessoa interpretando-os. É o caso de Harrison Ford, por exemplo, como Indiana Jones. E é o caso de Hugh Jackman como o mutante de garras de adamantium.


Destarte, não se pode negar que o longa deixa a desejar no seu último terço, embarcando em alguns exageros dispensáveis que só contribuíram para enfraquecer a narrativa. Ademais, os fãs vão reclamar de algumas distorções em relação ao material original (principalmente com relação ao vilão Samurai de Prata, que dá as caras lá para as tantas). Todavia, mesmo com algumas ressalvas, a adaptação de Mangold preserva a essência do personagem, mesmo que Wolvie seja ainda mais violento e truculento nos quadrinhos. Aqui, devido às questões que envolvem um blockbuster, que, como sabemos, tem de gerar retorno financeiro, não é possível deixar a violência de forma muito gráfica na tela mas, de qualquer forma, está lá o Logan de temperamento arredio, quase um animal selvagem, lutando para domar seus instintos e superar o passado. Ou seja, encontramos o Wolverine que conhecemos e não um simulacro do herói, como aconteceu recentemente na nova adaptação do Homem de Aço para a telona. Enfim, saí da projeção desejando uma continuação e com vontade de recomendar “The Wolverine” para os interessados em curtir uma boa sessão no fim de semana.


Cotação:



Nota: 8,0

domingo, 21 de julho de 2013

O Homem de Aço

5 motivos para não gostar de “O Homem de Aço”


ALERTA: o  texto a seguir está cheio de spoilers. Portanto,  é melhor acompanhá-lo apenas se você já tiver assistido ao filme.


Este foi um dos filmes mais aguardados do ano e as grandes expectativas quase sempre geram decepções. Infelizmente, não consegui fugir a tal regra e saí do cinema frustrado após assistir a “O Homem de Aço” em uma sessão 3D (dispensável) completamente lotada. A pergunta que não calava na minha mente era justamente: “mas, afinal, onde está o Superman?”. Sim, porque, convenhamos, aquele personagem na tela tinha algumas semelhanças com o Kal-El que conheci nos quadrinhos e na franquia cinematográfica protagonizada por Christopher Reeve, mas não era ele. A seguir, em tópicos, vou discorrer sobre os motivos que me levaram a rejeitar essa nova adaptação, esse reboot tão desnecessário quanto o foi, ano passado, o reinício da franquia do Homem-Aranha.

1) O roteiro – A impressão que tive foi a de que os roteiristas David S. Goyer e Christopher Nolan, os mesmos da recente trilogia “O Cavaleiro das Trevas”, estavam de ressaca depois do seu trabalho com o homem morcego e as ideias acabaram não fluindo da forma esperada, pois o enredo de “Man Of Steel” é repleto de atropelos e incongruências. Há muitas circunstâncias mal explicadas, como o fato dos kryptonianos não mais se reproduzirem naturalmente (será que alguma saga recente dos quadrinhos criou essa ideia estapafúrdia?) ou a ida de Lois à Fortaleza da Solidão, assim, digamos, meio que por acaso, logo após ver Kal-El caminhando (hein?) no Ártico em busca de suas origens. De quebra, o roteiro ainda transformou o Superman em um assassino ao matar o General Zod. A desculpa de Zack Snyder, diretor do longa, é a de que “a inocência acabou”. Pois bem, Sr. Snyder, eu acredito que justamente no mundo de hoje estamos precisando de mais pureza, inocência, inspiração e o personagem do Super-Homem era justamente o mais eficaz em mostrar aos garotos uma inigualável retidão de caráter. E aqui, entramos no segundo problema.


2) A direção – Zack Snyder é o diretor, mas não se pode negar que “O Homem de Aço” possui a mão forte de Christopher Nolan no processo criativo. Com dito anteriormente, recém egresso da franquia de Batman, ele aparentemente confundiu os personagens, querendo atribuir à narrativa um tom sombrio que destoa do Superman. Podem me acusar de “purista” ou “saudosista”, mas sempre defendi que uma adaptação de HQ é bem-sucedida quando consegue captar a essência do personagem. É o que sucedeu com a referida trilogia do Cavaleiro das Trevas e também com a trilogia do Homem-Aranha comandada por Sam Raimi. O que ocorre em “O Homem de Aço” é justamente o oposto. Super-Homem transforma-se em uma pessoa cheia de complexos, sem autoconfiança sentindo-se um rejeitado-deslocado-excluído devido à sua condição de alienígena. Algo semelhante ao sentimento dos mutantes dos X-Men, mas o filme não é sobre Wolverine (o filme dele é outro). Ressalte-se que os humanos sentem mais medo do super-herói do que admiração. Aliás, o fato de Kal-El ser um alienígena já é conhecido por todos, assim, logo de cara, inclusive por Lois Lane. Sim, não existe nenhum mistério e riqueza no relacionamento entre os dois. Ela já sabe que Clark é Superman, sem rodeios. O romance resta mal desenvolvido e, em compensação, no último terço de projeção, temos meia hora de pancadaria desenfreada que chega a ser cansativa. Metrópolis é devastada praticamente inteira, sem dó nem piedade, umas três vezes. Ah, e tudo isso com uma fotografia que prima pelos tons escuros, como se a qualquer momento Clark Kent fosse entrar na Batcaverna.

3) O ator – Em geral, o elenco não compromete. Amy Adams convence como a repórter Lois Lane, conferindo-lhe aquele ar arrogante-petulante característico da personagem. O veterano Kevin Costner também se sai bem como Jonathan, o pai terráqueo de Clark, exalando aquela aura de sabedoria a que nos acostumamos ver tanto nas HQs quanto no cinema. Até Russel Crowe, que vivia péssima fase, convence como Jor-EL, o pai kryptoniano do herói. Entretanto, é justamente na peça central que mora o problema. Henry Cavill, ator britânico egresso da TV (participou da série “The Tudors”), realmente é um homem bonito, lembrando o ícone Christopher Reeve, tem porte atlético e jeitão de Superman. Contudo, como ator, não convence ninguém. Está sempre com o semblante fechado e, nos poucos momentos sorridentes, eles aparecem forçados, como em um comercial de pasta de dente. Assim, a empatia com o espectador resta diminuída, algo que prejudica demais em um filme de super-herói. Mas, vá lá, ele é melhor do que o completamente inexperessivo Brandon Routh, intérprete (?) do filme de Bryan Singer.


4) A pretensão – Tudo bem, uma das conotações mais notórias do Super-Homem é a sua similaridade com Jesus Cristo. Afinal, ele foi “enviado” para a Terra, onde deveria trazer esperança para a humanidade; foi criado por pais terrenos; usa um manto vermelho nas costas; é moralmente irrepreensível e por aí vai. Contudo, “O Homem de Aço” leva essa conotação messiânica ao extremo, chegando ao ponto de, em determinada cena, o herói abrir os braços como se estivesse para ser crucificado. É como se, de repente, estivéssemos estranhamente a assistir um filme religioso. Tal subtexto sempre vai existir nas histórias do Superman, mas não precisa exagerar tanto assim. Esses excessos só contribuíram para deixar o longa com uma jeitão pretensioso totalmente dispensável.

5) A trilha sonora – Esse é o pior trabalho de Hans Zimmer em muito tempo. Uma trilha sonora invasiva, constante e permanentemente tensa. Dá até a impressão de que foi concebida para um filme de suspense. Entretanto, ao contrário de causar tensão nos momentos certos, torna-se cansativa e é totalmente esquecível. Quando lembramos da trilha épica e icônica que John Williams concebeu para o filme de 1978... Bom, aí a comparação vira covardia.

“O Homem de Aço”, apesar de todos esses poréns, não chega a ser um desastre. É perfeitamente assistível (tem ótimos efeitos especiais, claro), desde que esqueçamos que se trata de um filme sobre o Superman e imaginemos que aborda um outro herói qualquer. Ademais, ser “assistível” é algo muito abaixo do que se esperava da produção e o que percebo, diante da grande bilheteria que o longa vem obtendo, é que o seu marketing foi muito bem realizado (e os preços da salas 3D também ajudam né?). Esperemos que a continuação (já confirmada pela Warner) traga progressos na construção do roteiro e, principalmente, não esqueça que Super-Homem e Batman são personagens diferentes. Como frisado acima, não há nada pior para uma adaptação do que fugir à essência do personagem transposto para a tela. E, lamentavelmente, foi o que aconteceu.


Cotação:



Nota: 6,5

terça-feira, 25 de junho de 2013

Eu Quero Esse Pôster # 23



Sim, o poster acima é interessante. Entretanto,  ainda no embalo do que vem acontecendo em nosso país, gostaria de tecer alguns comentários.

Tenho vista nas ruas a utilização da máscara do "Codinome V", do longa-metragem e HQ "V de Vingança" (V For Vendetta, 2006), de maneira indiscriminada. Ressalte-se que na internet estão pipocando informações que alguns grupos de extrema direita estão usando a máscara do personagem para esconder o rosto de agressores e vândalos. Não custa lembrar que a HQ foi escrita por Alan Moore durante os tempos sombrios do governo Tatcher na Inglaterra. É, antes de mais nada, uma reação ao conservadorismo. Interessante como a cultura pop por vezes começa a ser usada de maneira equivocada (ou maldosa mesmo) diante de situações atípicas como a que estamos vivendo como uma forma de trazer simpatizantes a causas duvidosas.

Ah, não, este blog não está se tornando um blog sobre política. É que o país está pegando fogo e não dá para ficar indiferente. Até a próxima!


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Star Trek - Além da Escuridão

A evolução da Jornada


Já faz quatro anos (como o tempo passa rápido) que J.J. Abrams, cineasta egresso da televisão que ficou famoso por séries como “Lost”, levou às telas o reboot da longeva série “Star Trek”, a qual, como já tive a oportunidade de mencionar na resenha publicada à época, nunca esteve entre minhas referências pop preferidas. De qualquer forma, Abrams fez um bom trabalho no reinício da franquia. Mesmo que o “Star Trek de 2009 não chegue à excelência, seu resultado foi bastante agradável, conferindo uma roupagem rejuvenescida aos personagens capaz de trazer novos adeptos ao universo concebido por Gene Rodenberry. E, para aqueles que duvidavam (como eu) que ninguém seria capaz de incorporar o Dr. Spock tão bem quanto Leonard Nimoy, Zachary Quinto calou a boca de todo mundo roubando todas as cenas em que aparecia, alguns degraus acima do Capitão Kirk de Chris Pine.

Com este “Além da Ecuridão”, Abrams demonstra que é, inegavelmente, o grande diretor do gênero ficção-científica atualmente em atividade no cinemão norte-americano, deixando para trás os seus ídolos, o aposentado George Lucas e Steven Spielberg, que vem se dedicando a outros gêneros nos últimos anos. Este novo episódio de Star Trek pode não ser tão bom quanto seu filme anterior, o ótimo “Super 8”, mas com certeza alcança uma evolução em relação ao reboot de 2009. O diretor, agora liberto da necessidade de apresentar os personagens ao um novo público, aprofunda-se em sua psicologia e nas relações entre eles, fazendo com que o longa, mais do que uma aventura, possa ser visto como uma história de amizade. E, vale dizer, amizade não só entre os dois protagonistas Kirk e Spock, mas também entre todos os integrantes da tripulação da nave Enterprise. Aqui, quase todos os membros da equipe possuem o seu momento de destaque e ações que ajudam no desenrolar da trama, fazendo o público enxerga-los não apenas como um amontoado de personagens, mas como uma verdadeira equipe, um time que joga de maneira coletiva e vence as adversidades e os inimigos.


Em entrevistas recentes, Abrams declarou que gostava de ver filmes sem muitas informações prévias sobre o roteiro e, de preferência, até sem ver trailers ou comerciais de TV, razão pela qual a produção desse novo episódio foi cercada de mistérios. Os próprios atores foram orientados a falar o mínimo possível sobre o longa durante as entrevistas. A precaução é justificável. Quanto menos se souber a respeito do verdadeiro papel que John Harrison (Benedict Cumberbatch) terá no desenvolvimento da trama, melhor. Basta apenas saber que ele é uma espécie de terrorista estelar cuja personalidade misteriosa será responsável por testar os limites da equipe da Enterprise. De qualquer forma, embora tenha alguns “solavancos” comuns aos filmes de ação, o roteiro (de Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof ) é bem estruturado, valendo destaque para os diálogos, muito mais inteligentes, fluidos e divertidos (várias são as tiradas que funcionam ao longo da projeção) que os do primeiro da série, o qual era repleto de frases pouco inteligentes e clichês, principalmente em sua primeira metade.


Além disso, é inegável que Abrams filma como poucos, com enquadramentos perfeitos para as cenas de ação (que são muitas, diga-se de passagem) e ótima dinâmica e edição (vou ser repetitivo e perguntar: viu, Michael Bay?). Filmar cenas de ação é uma arte e, talvez, apenas James Cameron supere hoje J.J. Abrams neste aspecto. O ritmo da película é tão bom que nem percebemos que ele tem 2h12min de duração. Entretanto, um ponto em que Abrams precisa melhorar é trilha sonora de seus filmes, geralmente esquecíveis e que pouco acrescentam à narrativa. Por outro lado, demonstra mais uma vez muita competência na direção de atores, o que é difícil em longas repletos de ação. Embora Benedict Cumberbatch tenha boa presença na pele do vilão John Harrison, não considero seu desempenho tão excepcional como alardeado por aí em alguns veículos midiáticos. Neste ponto, os maiores méritos ficam mesmo com a dupla protagonista. Chris Pine evoluiu bastante em relação ao primeiro longa, trazendo um Capitão Kirk muito mais tridimensional e que vai além de um mero garoto-irresponsável-que-precisa-amadurecer. Entretanto, Zachary Quinto, mais uma vez, rouba mesmo a cena com o seu Dr. Spock. Ele praticamente domina todas as sequências em que aparece e definitivamente calou a boca de muitos que julgavam que o rapaz não estaria à altura de Nimoy.

É verdade que “Star Trek” não chega a ser uma coca-cola gelada no deserto. Não atinge um nível de excelência como se tem propagado por aí, como de resto nenhum filme de J.J. Abrams, até hoje, pode ser classificado como “excelente”. Entretanto, “Além da Escuridão” está um degrau acima do seu antecessor, representando uma evolução da jornada. Ao mesmo tempo em que traz ação quase ininterrupta, consegue, como já frisado, aprofundar-se na psique e nas relações entre os personagens, algo que decididamente não é fácil. Isso me faz lembrar que Abrams será o diretor de Star Wars episódio VII, trazendo boas expectativas para uma franquia já desgastada. Convenhamos, diante do seu trabalho com “Star Trek” (série da qual ele nem era fã), será difícil que ele venha a cometer equívocos como “A Ameaça Fantasma” na franquia do Darth Vader.


Cotação:



Nota: 8,5

terça-feira, 16 de abril de 2013

Oblivion

A continuação de “Guerra dos Mundos”


Na atual crise de criatividade do cinema norte-americano, é um alívio assistir a um filme pipoca que não seja sequência ou remake de outro. Tudo bem, “Oblivion” é baseado em uma HQ, mas não é uma daquelas publicadas pela Marvel Comics, com seus super-heróis que, em boa medida, já estão cansando na tela (ou alguém está realmente empolgado com a breve estreia de “Homem de Ferro 3”?). A graphic novell adaptada é de autoria do próprio diretor do longa, Joseph Kosinski (que escreveu a HQ ao lado de Arvid Nelson) e, talvez por essa circunstância, a trama é salpicada de referências cinematográficas a outros longas de ficção científica, algo que, como demonstra a carreira do genial Quentin Tarantino, pode trazer ótimos resultados.

Vamos admitir: Kosinski não atinge o nível de excelência tarantinesco na sua mistura de referências, mas é prazeroso assistir a um filme que relembre aquele que telavez seja o melhor curta-metragem de todos os tempos, “La Jetée”, dirigido por Chris Marker em 1962. A sequência inicial de “Oblivion” remete a esse último e a lembrança de “La Jetée” me atingiu de tal forma que me distraiu um pouco das cenas subsequentes. Mas nada que viesse a comprometer o entendimento da trama, na realidade mais uma ficção pós-apocalíptica, só que desta vez os responsáveis pela destruição do planeta Terra foram os alienígenas. Afinal, vale lembrar que o mercado estadunidense pós-crise econômica está em baixa e Hollywood depende cada vez mais do mercado internacional para fechar suas contas. Portanto, não pega bem inventar guerras nucleares com altranos e sicranos (leia-se, russos, árabes e afins) que levariam a uma hecatombe. Nesse quadro, melhor atribuir o “fim do mundo” a perigosos micro-organismos (como no caso de “Eu Sou a Lenda”, de Francis Lawrence) ou a extraterrestres, muito embora, neste último caso, os alienígenas não deixem de representar a eterna xenofobia ianque.


Na trama, narrada em primeira pessoa e protagonizada por Tom Cruise (que está cada vez mais assumindo um perfil de astro de filmes de ação), Jack Harper é um dos poucos humanos sobreviventes após a guerra dos mundos que tornou boa parte da Terra inabitável, o que me leva a imaginar que “Oblivion” poderia ser uma continuação do “Guerra dos Mundos” de Steven Spielberg (até o ator é o mesmo). Enquanto a maior parte da humanidade não vive mais no planeta, residindo no espaço e na lua de Saturno chamada Titan, Harper e sua companheira Victoria (Andrea Riseborough) permanecem na Terra exercendo uma função de vigilância, evitando que os “saqueadores” - aliens ainda resistentes em solo terrestre - destruam os drones (robôs patrulheiros). Além disso, passa as horas vagas resgatando as “relíquias” de um passado glorioso da humanidade, como discos, bonecos e livros (remetendo bastante a “Wall-E”, famosa animação da Pixar vencedora do Oscar). As coisas começam a mudar quando a humana Julia (Olga Kurylenko) é encontrada por Harper em uma cápsula criogênica após a queda de uma nave na região que controla. Ela lhe desperta vagas memórias, de um passado que não sabe exatamente se viveu, e acabará por lhe trazer revelações e descobertas acerca de sua própria existência.

Eu não assisti a “Tron – O Legado” (Tron – Legacy, 2010), trabalho anterior de Kosinski, mas, a partir da experiência com “Oblivion”, percebe-se que ele sabe manter o ritmo da ação sem que haja pressa no desenrolar dos fatos e apresentação dos personagens. Fazer um filme de ação não significa que seu enredo tenha de ser mal contado e Kosinski demonstra entender muito bem tal aspecto, mesmo que sua mise-en-scène seja tradicional, não apresentando nem mesmo ângulos diferenciados. A trama resta bem contada e isso se torna um elogio ainda maior diante de algumas “reviravoltas” que ela apresenta em sua segunda metade. Pena termos que colocar a palavra “reviravoltas” entre aspas, já que várias delas são até esperadas. Os problemas do longa são justamente esses artifícios do roteiro, previsíveis em vários aspectos. Ademais, as citadas referências vão se tornando cada vez mais óbvias, chegando a tornar incômodas. É o que sucede no seu desfecho, quando “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odissey, 1968) é referenciado de forma tão ostensiva que chega a se tornar constrangedor (não vou contar como para não escrever um “spoiler” gigante). Outro problema é que a mencionada narração em primeira pessoa se perde ao longo da projeção, sendo quase que esquecida no seu último terço.


Entre as atuações, as mulheres, mesmo em minoria, mostram-se mais interessantes e comprometidas do que a ala masculina do elenco. Tanto Andrea Riseborough, intérprete de Victoria, quanto Olga Kurylenko, que encarna Julia, apresentam boas atuações. Já o superastro Tom Cruise não faz nada de significativamente diferente dos seus últimos papeis. Talvez esteja aqui um pouco mais “sério” do que de costume, com menos aparições do seu tradicional sorriso “colgate”, mas, de toda forma, seria estranho se um personagem de um mundo devastado ficasse abrindo sorrisos por qualquer coisa. Outro nome do primeiro escalão, Morgan Freeman, atua em piloto automático, tornando-se um coadjuvante de luxo.

O longa conta, ainda, com uma bela direção de arte (algo natural vindo de cineasta que é arquiteto por formação), fator que contribui bastante para a imersão do público, além de uma trilha sonora pop repleta de clássicos do Rock (de Led Zepellin a Procol Harum) Entretanto, não espere de “Oblivion” mais do que ele pode dar. Trata-se tão somente de uma boa diversão. Com neurônios, é importante frisar, mas nada mais do que isso. Para usar a comparação com o referido filme de Stanley Kubrick, “Oblivion” não irá gerar décadas de debates, estudos e discussões a respeito de suas verdadeiras pretensões e interpretações. A não ser no que se refere ao título. Terminada a projeção, eu não entendi por que a película leva esse nome. Será que minha surpresa com as referências a “La Jetée” me distraíram o suficiente para passar batido nesse detalhe?


Cotação:



Nota: 8,0

Em tempo: consultando o tradutor do Google acabei descobrindo que "oblivion" é um termo em inglês que significa "esquecimento" (não conhecia a palavra), o que possui, sim, relação com a trama. Ok. Então o erro foi da distribuidora no Brasil que decidiu permanecer com o título original, o que pode deixar nosso público voando.

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Aviso: O "Cinema Com Pimenta" estará em recesso por cerca de 10 dias, pois este blogueiro curtirá um merecido descanso em uma das praias do litoral aqui do Rio Grande do Norte. Um abraço a todos e até a volta!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi

Como fazer um filme de arte para as massas


Ante de tudo, vamos abrir parênteses para um assunto tangente ao filme do qual trataremos nas linhas abaixo. Eu tenho um ranço com relação à obra literária “A Vida de Pi” (Life of Pi), do canadense Yann Martel, vencedora do Booker Prize anos atrás. Martel plagiou uma ideia concebida pelo escritor brasileiro Moacyr Scliar na sua novela “Max e os Felinos”, onde narrou a estória de uma náufrago que sobrevivia em um bote juntamente com um jaguar. Desde que o livro de Martel venceu o prêmio, a hipótese de plágio foi levantada, gerando um enorme constrangimento. Cavalheiro, Scliar refutou a insinuação de plágio e Martel acabou por dizer que a “centelha” para o seu livro surgiu a partir de uma resenha negativa sobre “Max e os Felinos”, afirmando que ideia havia sido mal aproveitada. O canadense, inclusive, passou a incluir nas edições posteriores um agradecimento a Scliar pela “faísca” que lhe foi dada. Recentemente, vi uma matéria de um jornalista brasileiro afirmando que o livro de Martel realmente seria melhor e que põe em relevo a tal ideia negligenciada por Scliar, que tratava na sua obra, metaforicamente, apenas de uma história de imigração que seria a da sua própria família. Bem, eu li o livro de Scliar e posso dizer que a afirmação me pareceu - e vou ser sincero – ou simplória ou estúpida. Nenhum autor é obrigado a atender às expectativas de ninguém, criando tramas que não aquelas que deseja contar. Scliar colocou no livro um tema caro às suas origens e não tinha nenhuma obrigação de tratar de Deus, fé ou qualquer outro tema similar, como o fez Martel. Agora, tomar a ideia de um outro escritor e colocar como sua, assim, como quem não quer nada, é que fica, no mínimo, feio.

Dito isto, cabe dizer também que Ang Lee, um dos grandes e mais versáteis diretores do cinema contemporâneo, não tem nada a ver com a celeuma e em “As Aventuras de Pi” entrega um dos seus melhores trabalhos, o que não é pouco se recordarmos o seu retrospecto de excelência. Baseado no livro do referido Martel, ele nos leva a uma jornada lindamente filmada que encanta não apenas por seu visual, mas também pela sua enorme capacidade de unir o artístico ao comercial, algo que, convenhamos, está longe de ser fácil. Impressiona a maneira como o diretor, mesmo tendo boa parte da sua narrativa presa a um bote com um rapaz, um tigre de Bengala, uma zebra, um orangotango e uma hiena, consegue estabelecer ritmo, tensão e interesse, por mais que a situação apresentada pudesse nos levar a um possível tédio ou repetição. Diversamente, “As Aventuras de Pi” jamais se mostra cansativo, alcançando a reflexão e passando longe do hermetismo ou algo que se poderia definir como “filme de crítico”.

Na trama, adaptada com roteiro de David Magee, somos apresentados ao protagonista Piscine Molitor Patel desde a sua infância na Índia. Vemos explicado o seu nome, uma homenagem do seu pai a uma piscina de Paris e o porquê do garoto adotar o número irracional “pi” como alcunha. Sua família é dona de um zoológico, fazendo com que Pi conviva desde a mais tenra infância com diversas espécies de animais. Entre eles está o tigre Richard Parker, que passa a conviver com o protagonista, já adolescente, em um bote depois que o navio onde viajava com sua família para o Canadá naufraga. Mais do que os mencionados orangotango, hiena e zebra, é Richard Parker que irá se tornar o foco das atenções de Pi. Cumpre ressaltar que Piscine é uma rapaz religioso, ou melhor, triplamente religioso. Sua crença é pra lá de ecumênica e ele se diz ao mesmo tempo hindu, católico e muçulmano, pois afirma encontrar nas três religiões elementos que o aproximam de Deus. Sua jornada em alto mar será pautada, desta forma, pelas suas crenças e nelas ele encontrará alívio e força para enfrentar o seu desafio. Ademais, a jornada lhe trará algumas respostas, respostas estas que não conseguia encontrar anteriormente.

Desta forma, a vivência de Pi nos mares mostra-se como uma grande metáfora repleta de analogias religiosas. O tigre Richard Parker aparece, em uma visão cristã, como uma representação de nós, seres humanos, inconstantes na nossa fé e ingratos com o que nos foi dado. Piscine surge, então, como a figura do próprio Cristo, que despendeu inúmeros esforços por aqueles que amava (os seres humanos), os quais, no entanto, deram-lhe as costas. Sob tal ótica, Ang Lee, com a sensibilidade que é, talvez, sua grande marca cinematográfica, permeia vários momentos da projeção com referências bíblicas. É possível identificar passagens como a do milagre dos peixes, morte e ressurreição, além do Livro de Jó, quando Pi pergunta a Deus o que ele quer, já que havia perdido tudo o que tinha e passado por demasiado sofrimento. Acredito, inclusive, que existam referências não só ao Cristianismo, mas também às outras duas religiões de Pi, Hinduísmo e Islamismo, mas esta apreciação me restou prejudicada devido ao pouco conhecimento que possuo de tais crenças.


A busca existencial, por outro lado, é destacada por uma experiência imagética ímpar, como já frisado mais acima. A fotografia, de Claudio Miranda, é simplesmente espetacular, oferecendo uma paleta de cores vivas que realçam ao mesmo tempo a beleza, a força e a indiferença da natureza diante dos homens. O aspecto fotográfico ainda é complementado por efeitos visuais soberbos. É quase inacreditável que o tigre visto na tela seja, em quase todas as cenas, moldado em computadores, um verdadeiro triunfo digital. Tais aspectos técnicos, contudo, não existem sem finalidade, servindo à narrativa como uma forma de enriquecê-la e tentar trazer para o espectador a sensação de também estar à deriva no oceano, em contato com as forças mais selvagens e, ao mesmo tempo, estar mais próximo de Deus. Cabe destaque, ainda, para Suraj Sharma, intérprete do jovem Pi, ótimo em todas as cenas e melhor do que Irfran Khan, que representa o personagem na fase adulta.

Indicado a 11 estatuetas da Academia, “Life Of Pi” se coloca como uma experiência única dentro do que podemos denominar cinema “comercial”, um filme “de arte” para as massas que nos traz o desejo imediato de vê-lo novamente e que gera aquele gostoso debate sobre seu conteúdo após o término da sessão. Ang Lee, mais uma vez, dá uma aula de como construir uma filme reflexivo, filosófico e autoral sem ser pretensioso ou resvalar no hermetismo soberbo, algo que costuma afastar, por vezes, até mesmo o público cinéfilo de algumas produções. Seria ótimo que seu exemplo fosse seguido, mas, sabem como é, não são todos que possuem tanto talento.


Cotação:
 


Nota: 10,0

sábado, 5 de janeiro de 2013

Os 7 Melhores Filmes de 2012

Abaixo, segue a lista dos 7 melhores filmes exibidos no circuito comercial brasileiro em 2012, na opinião do Cinema Com Pimenta. Confesso que não considerei 2012 um bom ano e os filmes que seguem entraram na lista sem ser necessário fazer "escolhas de Sofia" para chegar a ela. Confiram.


7) 007 - Operação Skyfall (Skyfall, de Sam Mendes);



6) Argo (Idem, de Ben Affleck);



5) Os Descendentes (The Descendants, de Alexander Payne);



4) Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, de Christopher Nolan);




3) Moonrise Kingdom (idem, de Wes Anderson);



2) A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, de Martin Scorsese);



1) As Aventuras de Pi (Life Of Pi, de Ang Lee) - resenha em breve no Cinema com Pimenta.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

A Terra Média sucumbe ao mercado


Este filme já havia se tornado uma lenda urbana, tamanhas foram as idas e vindas ao longo de seu processo de produção, o qual passou por conflitos com os interesses dos herdeiros de J.R.R. Tolkien, a falência da MGM, detentora dos direitos de adaptação, além da troca no comando criativo do filme, uma vez que inicialmente a direção estava nas mãos de Guillermo del Toro e acabou passando para as de Peter Jackson, já sabidamente veterano nas transposições do universo de Tolkien para a tela grande (Del Toro acabou assinando como co-roteirista). A novela , enfim, foi concluída e tivemos sua estreia em circuito comercial na última sexta-feira 14, numa clara intenção de concorrer às estatuetas da Academia de Hollywood. Se a expectativa por prêmios é normal, já que a trilogia “O Senhor dos Anéis” abocanhou nada menos que 17 carecas dourados, desta vez, contudo, ela não deverá ser correspondida. “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” (The Hobbit: An Unexpected Journey) não está à altura de seus predecessores, infelizmente, e acredito que tal circunstância se deve principalmente a razões mercadológicas.

Afinal, foi devida às tais razões de mercado que ocorreu a divisão da trama em três episódios, algo incongruente com o material original, o primogênito dos livros de Tolkien, cuja primeira edição data de 1937 e que possui menos páginas do que qualquer um dos volumes da trilogia dos anéis. O material, entretanto, como é de conhecimento até das plantas, é uma mina de dinheiro e não quiseram perder a oportunidade de iniciar mais uma trilogia para arrancar grana dos fãs. O resultado dessa ideia é que aquele que poderia ser mais um belo filme baseado na obra de um grande escritor, tornou-se um longa arrastado, sem ritmo e que, se ainda consegue em alguns pontos envolver e tocar o espectador, é por mérito quase exclusivo do material original. Sim, quase exclusivo porque, como era de se esperar, a película tem aquele famoso impacto visual característico da saga dos anéis, o que se deve, indiscutivelmente, à notória competência de Peter Jackson nesse quesito. Vale frisar que aqui ele trouxe mais uma inovação, os tais “48 quadros por segundo”, a nova tecnologia que confere à película o dobro de resolução - já que tradicionalmente se usam 24 quadros por segundo (ou seja, fotos por segundo) para que o olho humano tenha a ilusão de movimento na tela. Essa inovação está sendo prometida como “a nova revolução no cinema” (mais outra), mas, devo registrar aqui, não gostei. Tive a oportunidade de ver o resultado em uma sala de exibição local e a sensação que tive foi a de estar vendo um making off, pois o excesso de resolução em um longa repleto de maquiagens e efeitos especiais não contribui para que vejamos os personagens como reais. Fica a impressão de estarmos enxergando exatamente efeitos especiais e trabalhos de maquiadores (algo “fake”, vamos dizer assim) e também não senti que afetou a sensação de imersão no 3D (continuo com a opinião de que a “A Invenção de Hugo Cabret” foi o longa-metragem que melhor usou, até hoje, o potencial das três dimensões).


Mas é claro que a trama tem seu encanto, principalmente para aqueles já conhecedores do universo de Tolkien. Não deixei de me envolver com a estória do hobbit Bilbo (Martin Freeman, quando jovem, e Ian Holm, quando idoso), tio de Frodo (Elijah Wood). É para este que Bilbo, já idoso, irá relatar a aventura que viveu 60 anos antes, quando o mago Gandalf (Ian Mckellen) chegou na porta da sua casa porque havia lhe escolhido para ajudar o anões a retomar o seu antigo lar, a Montanha Solitária, tomado dos mesmos pelo dragão Smaug. Em sua “jornada inesperada”, Bilbo, acostumado à pacata rotina dos hobbits, passará por diversos perigos ao lado do novos amigos e irá se deparar com um famoso anel e um outro personagem adorado pelos fãs que mais tarde seria conhecido como Gollum. Entretanto, mesmo que você não seja um “iniciado”, compreenderá perfeitamente toda a narrativa. Como já dito acima, este foi o primeiro romance de Tolkien a tratar da Terra Média e o fatos nele narrados são, logicamente, anteriores àqueles de “O Senhor dos Anéis”. Ademais, tudo é muito bem explicadinho, fazendo com que nenhum expectador se perca, sendo ele familiarizado ou não com a obra. Não é o esse teor, digamos, “didático” que incomoda, mas a extensão de certas sequências (a reunião de anões na casa de Bilbo poderia ser cortada pela metade) e mesmo a presença de algumas delas (totalmente dispensável toda a sequência com os trolls).


Há alguns momentos chave, todavia, que despertam emoção e nisso Jackson continua o mesmo, sabendo dosar sentimento e aventura como se estivéssemos realmente ouvindo uma história contada por nossos avós. Vale ressaltar, ademais, que o elenco (boa parte dele já familiarizado com seus papéis) está afinado, além de ser sempre um prazer rever Chritopher Lee (com mais de 90 anos!) como o mago Saruman e Cate Blanchett na pele de Galadriel. Howard Shore mais uma vez demonstra muita competência no elaboração da trilha sonora. A fotografia (de Andrew Lesnie), então, é um caso à parte. Nunca a Terra Média (Nova Zelândia, na realidade) foi tão linda e se tem algo em que os 48 frames ajudam é justamente no deslumbre das paisagens. Dá vontade de ir morar na terra dos hobbits.

O que se pode concluir é que a ambição de construir uma nova franquia foi o fator realmente determinante para que este novo longa não tenha apresentado o resultado brilhante dos anteriores. Tivessem feito apenas dois filmes, ou simplesmente reduzido a duração de cada um (quem disse que todos os filmes baseados na obra de Tolkien devem necessariamente ter cerca de 180 minutos de projeção?), e teríamos mais um provável vencedor de muitas estatuetas da Academia – algo que não deve acontecer agora em 2013, a não ser em óbvias categorias técnicas. De qualquer forma, este é o típico filme à prova de críticas, como bem demonstra a bilheteria que vem obtendo mundo afora (nos EUA, teve a maior estreia da história para o mês de dezembro). Eu mesmo, que considero a trilogia original como a melhor obra cinematográfica do presente século XXI , jamais deixaria de conferir “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” porque um metido a crítico de um blog qualquer disse que este é um filme “lento” e “sem ritmo”. “Que cara mais implicante!”.


Cotação:



Nota: 8,0

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Quero Ver Novamente #20


"007 - O Espião Que Me Amava" (The Spy Who Loved Me, 1977), dirigido por Lewis Gilbert, é considerado por muitos (eu me incluo no coro) como o melhor filme do agente 007 protagonizado por Roger Moore. Inegavelmente, é um dos melhores longas não só da "era Moore", mas de toda a franquia James Bond, o décimo episódio com o personagem desde o primogênito "Contra o Satânico Dr. No" (Dr. No, 1962). As sequências arrebatadoras de créditos iniciais sempre foram uma marca da série e a do filme em questão é uma das melhores, principalmente devido à canção interpretada por Carly Simon, "Nobody Does It Better". Curta abaixo. E que venham mais 50 anos de 007, o espião à prova do tempo.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

007 - Operação Skyfall

O velho e o moço


Pois é, já são 50 anos de James Bond nas telas de cinema. Ao logo dessas décadas, o agente 007 – os dois zeros antes do 7 significam que ele tem “permissão para matar” - tornou-se um ícone pop como poucos, um símbolo de masculinidade que foi se adaptando às mudanças dos costumes sociais e da própria profissão de espião, mas que continua povoando o imaginário popular e rendendo sempre ótimas bilheterias. Nos últimos anos, a franquia mais longeva do cinema vem passando por uma especial renovação, não apenas no que diz respeito ao ator que encarna o protagonista. Desde o reboot “Cassino Royale” (2006), o tom mais sisudo e realista, aliado a um estilo de ação influenciado pela trilogia Bourne, deu uma sacudida na série que agradou em cheio tanto o público quanto a crítica. Aliado a isso, veio o novo intérprete Daniel Craig, certamente o melhor James Bond desde o lendário Sean Connery. Eu mesmo me atrevo a dizer que Craig é tão bom quanto Connery, cada um fazendo o melhor pelo personagem em seus respectivos momentos históricos.

Para comemorar as bodas de ouro da franquia não haveria melhor opção do que mais um episódio com alto nível de qualidade. E, confesso, depois da experiência somente razoável de “Quantum Of Solace” (2008), dirigido por Marc Forster, temi pela escolha de Sam Mendes para assumir a direção. Gosto de Mendes, um grande diretor de filmes como “Beleza America” (American Beauty, 1999) e “Estrada Para Perdição” (Road To Perdition, 2002), mas ele não tinha experiência no comando de filmes de ação blockbuster como este. Contudo, ainda bem que minhas apreensões não se confirmaram. O que se vê em “007- Operação Skyfall” é realmente um dos melhores episódios da cinesérie, chegando próximo ao patamar do citado “Cassino Royale” e de clássicos como “007 Contra Goldfinger” (Goldfinger, 1964). E mais, o filme possui elementos da filmografia de Mendes que o tornam não apenas mais um longa em sua carreira, mas como verdadeiramente integrante de seu perfil autoral. Mendes desenvolveu com este “Skyfall” uma ótima metáfora do eterno conflito entre o novo e o antigo, entre as tradições e a vanguarda, um tema recorrente em suas obras que se encaixa à perfeição com o próprio momento da série do agente britânico, a qual, nos últimos episódios, vem justamente buscando um novo tom mais sintonizado com o mundo contemporâneo.


A trama desta nova película é uma das mais engenhosas concebidas para o espião. Nela, vemos Bond ser dado como morto logo no início da projeção, em consequência de uma atitude equivocada de M (Judi Dench)* no comando da missão. Diante de seus últimos insucessos e seguidas perdas de agentes em campo, o trabalho de M à frente da divisão de espionagem do Serviço de Inteligência britânico, o MI-6, começa a ser questionado por seus superiores, entre eles Gareth Mallory (Ralph Fiennes), que ameaça aposentá-la compulsoriamente. Para completar o quadro, a própria sede e sistema de dados do MI-6 são atacados por uma quadrilha de hackers comandada por Silva (Javier Bardem, sensacional!) um ex-agente que sentiu traído por M no passado, buscando vingança a qualquer custo. É nesse quadro que se coloca um especial desenvolvimento na relação entre Bond e sua superiora, em uma abordagem inédita na franquia. A partir desta linha principal, o longa é pontuado por vários momentos que emanam a questão da finitude. Uma das sequências, em que Bond se encontra com Q (agora interpretado pelo jovem Ben Whishaw) revela em poucas palavras e imagens o mote de toda a narrativa ao focar em uma pintura que retrata um velho navio de guerra prestes a naufragar. A própria relação de Bond com Q, o inventor das traquitanas tecnológicas que usa, reflete esse conflito entre “o velho e moço” (para citar uma música do Los Hermanos) que jamais cessará.


Mas não é só de papo-cabeça que vive “Operação Skyfall”. A ação está lá, quase desenfreada com sequências espetaculares muito bem dirigidas por Mendes (como é bom assistir a um filme de ação sem tremedeira na câmera!) e com um vilão certamente dos mais memoráveis da cinesérie, com motivações mais sinceras do que ideias mirabolantes de conquista e destruição do mundo. Impressionante como Javier Bardem não consegue atuar mal e rouba a cena em todas as circunstâncias. E olha que seu personagem, o tal Silva, só aparece lá para a metade da projeção. Outras boas atuações também são a de Judi Dench, finalmente com um espaço maior para desenvolver a sua M, e, claro, o próprio Daniel Craig, encarnando Bond de uma forma que hoje fica difícil imaginar o herói sem a sua imagem.

“Operação Skyfall”, entretanto, peca por uma certa previsibilidade a partir da metade da narrativa e suas duas bondgirls, tanto Naomie Harris como a francesa Bérénice Marlohe, não dizem muito a que vieram, neste ponto ficando a muitos quilômetros de distância da presença central e marcante da bondgirl de Eva Green em “Cassino Royale”. Mas é bom ressaltar que estes são problemas menores que, se contribuem para deixá-lo um pouco abaixo do nível obtido por Martin Campbell no longa de 2006, não chegam a realmente interferir em ótimos 146 minutos (que não se sentem) de apreciação. Sam Mendes, tal como Christopher Nolan com a franquia de Batman, mostra aqui que é possível, sim, colocar um viés artístico próprio mesmo em blockbusters feitos para levar milhões às salas. E, de quebra, ainda temos música de Adele ao longo dos ótimos créditos iniciais do longa-metragem. Tem coisa melhor do que comer pipoca com classe e inteligência? E que venha o próximo 007, como bem anunciado antes dos créditos finais.



Cotação:



Nota: 9,0



*Nota com SPOILER: corre a notícia de que o fim da personagem de M na franquia se deve a uma doença degenerativa nos olhos de Judi Dench que pode deixá-la cega.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Jogos Vorazes 
(The Hunger Games, 2012)



Ação cabeça


Exercício interessante poder avaliar um sucesso de bilheteria algum tempo depois do seu lançamento. É possível que, ao escrever sobre um filme logo quando da sua estreia nas salas de exibição, acabemos por nos deixar influenciar pelo “oba-oba”, seja por parte dos críticos ou mesmo do público. Claro que vendo o filme em video, podemos perder o impacto que uma obra pode causar na tela grande, ambiente mais adequado para uma apreciação cinematográfica, mas vê-lo longe de influências de opiniões na internet ou de amigos pode ser tão produtivo quanto. É o que aconteceu comigo ao assistir, após 6 meses de seu lançamento, este “Jogos Vorazes”, sucesso com Jennifer Lawrence, uma das novas queridinhas de Hollywood (merecidamente, é bom frisar).

Trata-se de mais uma franquia inaugurada no cinema, baseando-se na trilogia juvenil da escritora Suzanne Collins (que continua com os volumes “Em Chamas” e “A Esperança”) e que busca, obviamente, arrebatar mais um horda de fãs que sustentem suas prováveis continuações com muito lucro. Mas é importante destacar logo que “The Hunger Games” está longe de ser uma obra anencéfala, muito embora suas premissas não sejam exatamente originais. Alguns anos atrás, o conceito de jovens gladiadores que lutam entre si até a morte em um futuro próximo já havia sido sucesso no Japão com “Batalha Real”, livro de Koshun Takami posteriormente adaptado para mangá e cinema. Há ainda um certa pitada de “O Sobrevivente” (The Running Man ,1987), filme com Arnoldão então no auge de sua popularidade oitentista. É possível ainda apontar semelhanças com “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, escrito por Aldous Huxley. Entretanto, embora traga uma nítida influência destas obras predecessoras, é possível afirmar que “Jogos Vorazes” possui uma identidade própria que o distingue de livros e produções com temáticas semelhantes.

Nesta distopia dirigida por Gary Ross (um outro filme dele é “Seabiscuit – Alma de Herói”), temos uma América do Norte dividida em treze“regiões”, sendo elas a Capital e 12 distritos. Devido a uma revolução mal sucedida no passado, os doze distritos são obrigados anualmente a enviar dois jovens entre 12 e 18 anos (um homem e uma mulher) à Capital para a disputa de um reallity show macabro onde eles deverão se digladiar até restar apenas um vencedor. Katniss Everdeen (Lawrence), protagonista da trama, é a representante feminina do distrito 12. Ela se coloca como voluntária para livrar suas irmã menor do fardo, já que esta havia sido sorteada para a participação. Com ela irá também Peeta Mellark (Josh Hutcherson), um rapaz que parece nutrir por ela uma especial afeição, muito embora sua postura se apresente constantemente ambígua.

Talvez o ponto que mais salte aos olhos quando do início da narrativa é a semelhança que a personagem de Lawrence tem com seu outro papel em “Inverno da Alma” (Winter's Bone, 2010). Em ambos o casos, ela interpreta uma jovem forte que age de maneira corajosa a fim de proteger sua família. Uma heroína na defesa da mais forte e longeva das instituições sociais, portanto. Porém, se a abordagem de “Inverno da Alma” é mais intimista, aqui a história de Katniss serve como mote para reflexões acerca de controle social e espetáculo midiático, mormente a forma como este último serve à manutença do primeiro, agindo como um dos elementos importantes da ideologia que nos faz enxergar a realidade por meio de um “filtro” que nos deixe domesticados. É justamente esse status quo que será posto em xeque a partir das atitudes de Katniss, as quais acabam por levar os responsáveis pelos jogos a mudar suas regras. É inegável que o longa induz o espectador a vários questionamentos, principalmente ao aproveitar situações recorrentes nos reality shows do dia a dia, como as conhecidas associações momentâneas entre os concorrentes visando eliminar outros tantos oponentes.


Além de sua vertente questionadora, a película também impressiona por trazer a brutal violência entre adolescentes. Mesmo que não seja uma ideia exatamente original, como dito mais acima, ela não deixa de ser incômoda e o diretor Gary Ross se sai muito bem ao mostrar as agressões de maneira menos gráfica, mas sem que ela perca seu impacto. Para tanto, utilizou-se de uma edição elíptica que em outros filmes poderia ser vista como defeito, mas aqui se transforma em virtude. Ross também empreende à narrativa um ótimo ritmo, jamais tornando-se cansativa e que conta ainda com um elenco de peso. A escolha de Jennifer Lawrence para o papel foi perfeita. Ela é uma das jovens atrizes mais promissoras do cinema norte-americano atual, aliando à sua beleza um talento indiscutível. Impressionante como ela consegue nos fazer torcer por seu destino desde o início do filme. Josh Hutcherson também entrega boa atuação como o dúbio Peeta, emprestando veracidade a um personagem que nunca sabemos quais são suas verdadeiras intenções. Juntando-se a eles, ainda temos nomes como Woody Harrelson, Donald Shuterland e Stanley Tucci, todos com boa presença. O ponto fraco fica para presença de Lenny Kravitz como o figurinista Cinna, um do mentores de Katniss, personagem que merecia um intérprete melhor. Outros pontos negativos infelizmente ainda podem ser apontados. O desenrolar do roteiro (escrito pelo diretor Ross e Billy Ray juntamente com a própria autora dos livros ) por vezes se mostra previsível demais, sendo possível antecipar várias das suas ações. São muitas pistas que são deixadas e o espectador termina por antever muito do que está por vir. A película também possui uma trilha sonora esquecível, que nada contribui para o clima de tensão (mais marcante nos seus silêncios), além de uma caracterização um tanto infeliz para os moradores da Capital, normalmente com um visual bastante afetado., em alguns casos beirando o ridículo.

Por outro lado, é inegável que “Jogos Vorazes” é um filme que instiga e estimula o espectador à reflexão, tanto que mal sentimos seus 137 minutos passarem. Lembrando que o seu público é principalmente o jovem, uma franquia como esta se mostra muito bem-vinda, uma vez que possui um inegável viés político e contestador. Uma aventura cabeça que por vezes nos leva à impressão de ser na verdade uma crítica com verniz de filme de ação do que um longa de ação com nuances contestadoras. A diferença entre os dois casos não é pequena, como pode parecer, e ver que uma produção com tais conotações alcançou um grande êxito nas bilheterias é revigorante. Que venham logo os próximos episódios.


Cotação:
 Nota: 8,5