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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

Um Método Perigoso
(A Dangerous Method, 2011)
 
 
Gênios em conflito


Pode parecer que estou realizando um “tour de force” pela obra de David Cronenberg, tendo em vista que, há pouco tempo, postei uma resenha sobre “Na Hora da Zona Morta” (The Dead Zone, 1983), filme oitentista do cineasta que, à época, mostrava uma abordagem diferente das suas características, de um caráter mais comercial e menos perturbador, traços até então marcantes dos seus longas. Entretanto, alerto que foi apenas coincidência ter visto no último sábado este “Um Método Perigoso” (A Dangerous Method, 2011), filme que se encaixa dentro da nova forma concebida por Cronenberg desde “Marcas da Violência” (A History Of Violence, 2005), menos “perturbadora” ou “provocativa”, ao menos visualmente. Isso não significa dizer, porém, que Cronenberg abandonou seus velhos temas. A mudança está na forma, não no conteúdo, já que aqui ele se vale de uma trama inspirada em fatos reais e ambientada no início do século XX para tratar dos sentimentos de solidão e inadequação que lhe são peculiares.

Baseado em peça de Christopher Hampton (que também escreveu o roteiro filme), chamada “The Talking Cure”, e no livro “A Most Dangerous Method”, de John Kerr, o enredo tem como personagens centrais as figuras dos seminais teóricos da psicanálise, o judeu austríaco Sigmund Freud e o suíço Carl Jung, aqui interpretados por Viggo Mortensen e Michael Fassbender, respectivamente. Adepto das teorias de Freud, Jung as coloca em prática com uma de suas pacientes, Sabina Spielrein (Keira Knightley), uma judia russa que apresenta comportamento histérico e perturbado. Jung descobre, através de sessões de diálogos com a paciente, que em boa medida seus transtornos são resultado de repressões sexuais elaboradas ainda na infância, época em que desenvolve, em decorrência de castigos paternos, uma sexualidade pautada pelo prazer masoquista. É a partir do estudo da personalidade de Sabina e da melhora comportamental da jovem que Jung estabelece contato com Freud, o qual tem seu interesse despertado pela experiência. A partir de então o filme se desenvolve em duas frentes: a relação de Jung com Freud - a amizade surgida entre ambos, bem como seu rompimento – e relação amorosa de Jung com sua paciente Sabina, que se torna sua amante e alcança o equilíbrio ao realizar com o médico suas fantasias sexuais. Contudo, o equilíbrio de Jung toma o rumo oposto. Casado e de fortes valores, Jung se vê perturbado ao por em prática suas fantasias poligâmicas, em boa medida estimuladas por um pupilo de Freud, Otto Gross (interpretado por Vincent Cassel), embarcando em uma neurose que o levaria a um futuro colapso nervoso. Nesse passo, Jung pode ser apontado como o típico protagonista de Cronenberg, símbolo da angústia e solidão humanas.
 
 
Essas “duas frentes” abordadas por Cronenberg despertam no espectador reações diferentes. Não deixa de ser um prazer vislumbrarmos como se deu a aproximação e cumplicidade entre dois gênios da ciência, assim como ocorreu o seu posterior afastamento. A inicial admiração mútua vai se transformando em desconfiança, principalmente por parte de Freud, que enxerga em Jung uma ameaça intelectual, alguém capaz até de superá-lo perante a comunidade científica. Todavia, o filme se mostra feliz ao não bater o martelo e deixar em dúvida os reais motivos da cisão, até porque talvez até os próprios envolvidos não soubessem precisar as razões. Já na relação entre Jung e Sabina estabelece-se um clima de erotismo muito sugerido e pouco explícito, sem apelações, onde a nudez e cenas de sexo surgem na medida do estritamente necessário. Mas a verdade é que esse tom, ao mesmo tempo sutil e provocativo, pode trazer efeito bem mais eficiente e estimulante para o espectador do que muitos filmes de sexo explícito. Mérito da direção de Cronenberg, vale dizer, que conduz a projeção com muita naturalidade, tornando agradável um tema que poderia soar hermético e entediante.

Da mesma forma, contribui muito para o sucesso da narrativa a competência do elenco e vou fazer aqui um elogio em especial a Michael Fassbender, intérprete de Jung. Sem dúvida, Fassbender é um dos melhores atores em atividade no cinema. Parece que se torna melhor a cada filme e compõe um tipo que se molda perfeitamente à ideia que fazemos de um cientista, aparentemente frio, mas que deixa escapar sentimentos aqui e acolá. Uma composição perfeita que é mais um atestado da grandeza desse ator sensacional, uma espécie de anti-canastrão. Por outro lado, se Viggo Mortensen não chega a ser tão genial, ele não deixa a peteca cair na pele do pai da Psicanálise, mostrando um Freud seguro, influente e dono de um leve tom autoritário, criando um tipo bastante tridimensional. Já Keira Knightley, apesar de alguns momentos de exagero (típico dela, não?), está no melhor momento de sua carreira na pele de Sabina Spielrein (ao lado de sua atuação em “Orgulho e Preconceito”, anos atrás). Por fim, Vincent Cassel tem participação até pequena, mas marcante, como o maluco-beleza Otto Gross, que exerce influência determinante nas futuras decisões de Carl Jung.
 
 
Entretanto, o longa falha justamente ao passar a impressão de que Jung, um estudioso cheio de convicções, criador da teoria do inconsciente coletivo, era um homem bastante influenciável, tomando decisões a reboque de opiniões alheias, caso não só de Gross, mas também de Freud e da própria Sabina. Simbólico, neste sentido, a sua confissão de que Freud era muito persuasivo em suas argumentações, conseguindo facilmente convencer seus interlocutores do seu ponto de vista. Também incomoda uma certa falta de foco do longa ao estabelecer suas duas vertentes, pois que ao estabelecer dois focos de atenção na trama, a relação de Jung com Freud e a outra com Sabina, fica a sensação de que ficou a desejar nos dois campos. Aliás, o longa é bastante curto (tem apenas 99 minutos de duração) e, nesse caso, faria bem se fossem adicionados uns 20 minutos para que alguns aspectos da trama fossem melhor desenvolvidos.

É possível, ainda, observar algumas conotações com o Holocausto judeu na Segunda Guerra, já que a condição judia de Freud e Sabina Spielrein é algo que adquire relevância no contexto do filme, assim como a etnia ariana de Jung (que adora Wagner) é algumas vezes sublinhada entre os diálogos. Será que a quebra da amizade entre Freud e Jung se dá porque o segundo (o “ariano”) se sente ameaçado pelo intelecto do primeiro (o “judeu”) ou vice-versa? Sendo sincero, esse é um subtexto que precisa ser reanalisado em outras visitas à obra, a qual está entre aquelas que precisam ser vistas mais de uma vez para compreendermos inteiramente suas nuances. Ultimamente, não são muitos os longas-metragens que me estimulam a mais uma olhada, mas “A Dangerous Method” consegue ser interessante a esse ponto. Filme que nos deixa pensando sobre suas implicações e reflexões para além de sua projeção é um artigo difícil de encontrar nos dias de hoje.


Cotação:
 
 
 
Nota: 9,0

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

Sete Dias com Marilyn
(My Week With Marilyn, 2011)


Norma e Marilyn


O cinema, certamente, é a maior fábrica de mitos contemporânea e, dentre os muitos gerados no século passado, Marilyn Monroe sem dúvida é um dos maiores. Ela é uma das poucas estrelas hollywoodianas do século passado que ainda influenciam o comportamento das novas gerações. Entre as mulheres, sua aura só se equivale à de Audrey Hepburn. Contudo, se Audrey se coloca até hoje como um símbolo de sofisticação, Marilyn é a epítome da sensualidade evidente, escancarada, ajudada por suas curvas generosas e o ar pseudo-ingênuo que criou para sua presença pública, um personagem cultivado ao longo de toda a sua carreira, encerrada drasticamente após uma overdose de tranquilizantes em 05 de agosto de 1962. “Sete Dias Com Marilyn”, longa dirigido por Simon Curtis em 2011, é um longa que se presta justamente a levar o espectador a conhecer Norma Jeane Mortenson (seu nome verdadeiro) e não a Marilyn dos filmes e das badalações, procurando entender a persona escondida atrás da personagem pública. Ao mesmo tempo, não deixa de ser uma bela homenagem ao mito e também uma interessante abordagem acerca dos bastidores da Sétima Arte, levando-nos a conhecer vários dos desentendimentos, vaidades, conflitos e amizades que surgem ao longo das filmagens.

A maior virtude da direção de Curtis, bem como do roteiro de Adrian Hodges, é a de abordar um momento específico da vida da atriz. Baseado nos livros “The Prince, The Showgirl and Me” e “My Week with Marilyn”, de Colin Clark, que é o narrador e personagem central da película, o enredo trata dos dias em que Marilyn viajou ao Reino Unido para realizar as filmagens de “O Príncipe Encantado” (The Prince And The Showgirl, 1957), longa dirigido e estrelado por Laurence Olivier (papel de Kenneth Branagh, nada mais adequado), o renomado intérprete de Shakespeare, tanto no teatro quanto no cinema. Com a produção, Olivier estava tentando quebrar um pouco de sua imagem hermética, erudita, buscando apresentar um perfil mais popular. Para tanto, nada melhor do que se aliar à atriz mais famosa do mundo em uma comédia sem maiores consequências.


“Sete Dias com Marilyn” é focado na personalidade da atriz. A despeito do curto período temporal narrado, podemos perceber várias de suas características, como sua marcante insegurança, sua fragilidade por traz da diva encantadora, bem como seu esforço para ser vista não apenas como uma sex symbol, mas como uma intérprete de verdade, algo que, na realidade, nunca veio a acontecer. Adepta do famoso Método Stanislavski de interpretação, ela acaba por ser alvo das críticas constantes de Olivier, que não tem paciência com o tempo que a estrela leva para “imergir” no personagem, nem com sua notória dificuldade de memorizar diálogos. Por outro lado, Curtis não se furta a mostrar seu lado menos elogiável. Volúvel e adúltera, Marilyn era capaz de seduzir jovens inexperientes tão somente para afogar suas mágoas, várias delas advindas de seus problemas conjugais com Arthur Miller (Dougray Scott), seu marido à época. E ela o fazia assim como quem bebe uns tragos para curar uma dor de cotovelo, não se importando com as consequências emocionais que sua sedução e posterior indiferença poderiam causar nos eventuais apaixonados. É o que acontece com Colin Clark (Eddie Redmayne), mais uma “vítima” de seu poder de atração irresistível. Da mesma forma, o longa também não deixa de lado sua dependência química, mostrando o quão difícil era conviver e trabalhar com alguém se dopava quase diariamente.



Todavia, o longa é feliz não apenas na abordagem adotada, mas também em seus aspectos técnicos, apresentando uma reconstituição de época precisa, além de uma maquiagem e figurinos impecáveis. Também merece destaque a bela trilha sonora de Conrad Pope, de tom melancólico e nostálgico, bastante adequada ao caráter sensível da produção. Entretanto, este é o típico filme que não se sustentaria sem atuações de peso, mormente a interpretação da biografada. A respeito, Michelle Williams dá conta do recado? Não inteiramente seria a melhor resposta. Não vou entrar aqui nos méritos estéticos, pois Williams é uma mulher bonita, mas é quase óbvio dizer que a original era ainda mais. Entretanto, na composição de Williams falta um pouco da descontração de Marilyn, que era mais extrovertida publicamente do que se percebe na adaptação. Não que ela não tenha um bom desempenho e é possível estar sendo muito exigente, mas não vi Williams como a “Marilyn definitiva”. Faltou alguma coisa. Mas, vale dizer, não sei se é possível alguém alcançar esse “indefinível” que só a biografada tinha. De qualquer forma, valeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz (que perdeu, com justiça, para Meryl Streep como “ A Dama de Ferro”). Já Kenneth Branagh rende um ótimo Laurence Olivier e a atuação de Eddie Redmayne, como o narrador Colin, é competente. Destaque ainda para a presença de Julia Ormond na pele de Vivien Leigh, aflita com a “queda” que seu marido Laurence mal disfarçava sentir pela diva norte-americana.

Destarte, mesmo que, como mencionado acima, o filme não omita o lado menos notável da diva, sua conclusão, realçando que Colin nunca deixou de ser um eterno apaixonado por ela, conduz o público a uma inescapável admiração pela estrela, como a sugerir que somos todos fãs de Marilyn, mas não de Norma Jeane. Em determinado momento do filme, quando reconhecida por funcionários de uma biblioteca, ela pergunta ao rapaz: “devo ser ela?”. Em seguida, começa a posar e a se comportar como a personagem que criou. Sim, o público sempre amará a estrela Marilyn Monroe, esquecendo que Norma Jeane faleceu sozinha em um quarto poucos anos depois de concluir “O Príncipe Encantado”.


Cotação:



Nota: 8,0

terça-feira, 7 de maio de 2013

Somos Tão Jovens

Recorte de um tempo perdido


Eu sou um legionário. Sim, eu sou daqueles que sabem cantar todas as músicas da Legião Urbana, banda liderada pelo mito Renato Russo que atingiu sua apoteose na segunda metade dos anos 80 e início dos anos 90. Tenho todos os discos, já li obras sobre Renato, entrevistas e documentários. Estou fazendo essa advertência porque acredito que as seguintes linhas traçadas sobre “Somos Tão Jovens”, longa-metragem dirigido por Antônio Carlos da Fontoura que estreou em circuito nacional na última sexta-feira, podem sofrer a interferência da visão indissociável de fã que será apresentada. Para o bem ou para o mal, é importante sublinhar, pois que, se em alguns momentos minha empolgação pode ter falado mais alto, em outros o fato de conhecer bastante a história daqueles personagens pode ter elevado minha visão crítica.

“Somos Tão Jovens” é, antes de mais nada, um recorte de uma época. Mais precisamente, os anos da adolescência de Renato Manfredini Jr. (interpretado por Thiago Mendonça, o Luciano de “2 Filhos de Francisco”) em Brasília. Portanto, não vá ao cinema esperando encontrar uma apanhado biográfico de toda a vida do artista, incluindo sua maturidade e falecimento resultado do vírus HIV. Quem aparece no filme é o Renato do Aborto Elétrico - a banda do punk brasiliense formada por ele, o sul-africano Andre Pretorius e os irmãos Felipe (o Fê) e Flávio Lemos (hoje, no Capital Inicial) - e também a sua passagem como “Trovador Solitário”, quando deixou o Aborto devido aos desentendimentos constantes com Felipe. E também vemos Renato antes de participar de qualquer banda, aos 15 anos, quando ficou meses de molho em casa devido a uma doença que debilitou suas pernas, a epifisiólise. Esse período é o ponto de partida do longa, uma fase fundamental para a formação intelectual do futuro astro, uma vez que se dedicou a devorar livros e discos em seu quarto, surgindo então o sonho de se tornar “um astro do rock”. Daí em diante, o roteiro de Marcos Bernstein (o mesmo de “Meu Pé de Laranja Lima” e “Central do Brasil”) enfoca não apenas sua trajetória musical, mas também seu relacionamento com os amigos da turma da “Colina” (como eles eram conhecidos na capital do país), com a família e com Ana Cláudia, uma amiga/namorada fundamental em sua juventude.


Seria injusto acusar a película de “mitificar” Renato. É certo que o roteiro faz aparecer muito da persona artística do músico na sua adolescência, o que talvez seja um equívoco. Entretanto, quem já ouviu comentários e entrevistas de outros participantes do denominado “Rock Brasília” sabe que Renato era idolatrado por amigos e colegas ainda na adolescência, demonstrando desde cedo que sabia ser uma personalidade midiática. Ademais, seu temperamento intempestivo é bastante abordado, além de serem “denunciadas” algumas de suas atitudes cretinas, como o hábito nada louvável de gravar conversas com os amigos, sem o conhecimento destes, para depois servir de inspiração para composições. Portanto, “mitificar” não é o verbo certo para definir os resultados alcançados pela produção. A maior carência de “Somos Tão Jovens” reside em sua pouca propensão em buscar os “porquês” da trajetória do astro, limitando-se quase tão somente a exibir “como” ele desenvolveu esse caminho. Vemos na tela alguns de seus sentimentos de inadequação, como as dúvidas e angústia relativa à sua sexualidade, mas são apenas pinceladas que se tornam insuficientes para compreender sua mente. Não há muito que denuncie que aquele garoto de músicas rebeldes iria anos mais tarde compor canções introspetivas como “Há Tempos”. Além disso, várias passagens, como os problemas com a polícia, o consumo de drogas e os relacionamentos homossexuais são abordados de forma mais leve e pouco disposta a causar desconforto no público médio (diferindo significativamente, neste aspecto, da cinebiografia “Cazuza – O Tempo Não Para”, de Sandra Werneck e Walter Carvalho). Incomoda, ainda, uma certa vontade de pontuar os diálogos com frases das músicas da Legião, como se a cada momento surgisse uma inspiração para futuras composições.

Contudo, é inegável que o longa é feliz em transmitir o clima juvenil daqueles tempos, impactado pelo movimento punk e buscando formas de extravasar seu tédio e inconformismo diante de um governo militar arbitrário. O longa respira rock 'n roll e não apenas porque está recheado de músicas do próprio Renato Russo e de bandas famosas (como o Sex Pistols), mas também por trazer a sensação de estar presente naqueles dias, como se fôssemos mais um daqueles jovens pulando ao som pesado emitido por caixas de som em volume máximo. Para isso colaboram opções técnicas como o uso da câmera em primeira pessoa nas cenas de shows, fazendo com que o espectador se sinta no meio da agitação da plateia ou nas pistas de dança. A ótima edição também proporciona um ritmo tão agitado quanto aqueles dias de rock, contribuindo para que nem cheguemos a sentir o tempo passar. Tudo bem, são 114 minutos, não é um filme longo, mas a sensação ao final é de ainda estarmos na metade (a julgar pela reação do público da sessão, não fui o único a ter essa impressão).



E Thiago Mendonça? Consegue dar conta do recado ao interpretar um personagem tão complexo? A resposta é: mais ou menos. Não seria mentira ou chatice afirmar que ele baseou sua performance na versão midiático-estilizada criada pelo próprio Renato Russo. De fato, sua interpretação possui vários cacoetes. Entretanto, ela se encaixa perfeitamente nas aparições durante shows, levando-nos, nestes momentos, a esquecer que aquele é um ator e não o verdeiro cantor. Também vale mencionar o seu esforço em ser verdadeiro em ditas sequências, uma vez que aprendeu a tocar violão para o longa-metragem e consegue cantar no mesmo tom de Renato sem desafinadas muito aparentes (e convenhamos, é difícil cantar no mesmo tom do líder da Legião Urbana). O resto do elenco não tem muito o que desenvolver. A lista de personagens é extensa, fazendo com que nenhum deles tenha muito tempo de cena. A exceção é Ana, a mencionada “amiga/namorada” que exerce uma grande influência sobre o roqueiro. A atriz Laila Zaid consegue lhe conferir ótima presença em cena, além de delinear com competência e sensibilidade a sua personalidade.

Este é um filme para jovens e preocupado, como já assinalado, em captar a atmosfera de um um tempo que, como diz a famosa canção do compositor, parece perdido, distante e esquecido. Talvez o grande mérito do diretor Fontoura seja, mesmo diante de algumas inconsistências, recuperar esse espírito de contestação e inconformismo que parece estar sendo esquecido pelos cada vez mais conservadores e anódinos jovens contemporâneos, todos iguais em suas preocupações pequeno-burguesas. Em sua canção “Geração Coca-Cola”, Renato já cantava que ele fazia parte de uma geração apática e individualista, “burgueses sem religião”. Pelo que vemos, a situação apenas se agravou, pois que aquela geração possuía uma autocrítica que não se vê na atual. Todavia, ao ver a sala repleta de uma rapaziada universitária, as esperanças se renovaram. Tomara que ela tenha saído da sessão contaminada pelo espírito rock 'n roll vivenciado pelo jovem Renato Frandeni Jr.


Cotação: 



Nota: 8,0

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Lincoln

História

Os norte-americanos têm um apreço especial por seus políticos. É algo que faz parte da cultura deles e nunca entendi muito bem o porquê. Se a média dos brasileiros enxerga apenas deméritos em seus representantes (e aí não dá para entender o porquê de alguns deles continuarem sendo reeleitos ano após ano), os estadunidenses parecem agir em sentido contrário, respeitando o estadistas até que alguma prova apareça mostrando o contrário (como aconteceu com Richard Nixon). Neste sentido, era de se esperar que um filme sobre Abraham Lincoln, uma espécie de semideus nos Estados Unidos da América, obtivesse sucesso tanto junto ao público quanto junto à crítica. E é exatamente o que está acontecendo com “Lincoln”, o longa-metragem de Steven Spielberg (o cineasta que melhor representa hoje o cinema hollywoodiano) sobre o 16º presidente estadunidense.

Olhando com maior cuidado, fica difícil definir “Lincoln” como uma cinebiografia. Spielberg, em verdade, concentrou-se somente em um curto período de tempo, os meses decisivos da Guerra Civil entre os estados do norte e do sul ocorrida em virtude da questão escravagista. Portanto, não espere algo como o brasileiro “Lula – O Filho do Brasil”, de Fábio Barreto, longa que procura captar um largo período da vida do ex-presidente. Caso fosse esta a escolha de Spielberg, o filme restaria com o principal defeito da película nacional, transformando-se em uma narrativa episódica que relata vários momentos da trajetória do biografado, mas sem que se chegue a um resultado coeso e sem que possamos compreender um pouco mais da figura histórica. O cineasta norte-americano poderia facilmente cair nessa tentação, pois que a biografia de Lincoln, tal como a de Lula, é repleta de altos e baixos, cheia de momentos de perseverança e superação. Entretanto, fez uma ótima opção ao retratar a batalha política pela aprovação no Congresso da 13ª Emenda à Constituição, aquela que garantiu a abolição da escravidão no território ianque.


Este é o primeiro dado peculiar a ser apontado para o espectador médio sobre “Lincoln”. Trata-se de um filme eminentemente político e que se apega a detalhes históricos. Não é por acaso que as cópias exibidas fora dos Estados Unidos contam com uma introdução para situar o espectador no contexto histórico, já que seria complicado fazer o público compreender a ação sem que certos pormenores fossem elucidados. Não é uma obra para as massas no sentido estrito da expressão. Alguns poderão considerá-lo até aborrecido e, se não tiverem um pouco mais de paciência, abandonarão a sala de exibição (como vi alguns fazendo na sessão a que assisti). Contudo, caso você tenha paciência, desfrutará de uma bela abordagem a respeito do estadista e, sim, haverá também os momentos de tensão e emoção. Afinal, Spielbeg é um mestre na manipulação e sempre sabe jogar para a plateia. E também conhece o caminho das pedras para fazer a ligação entre o passado e o presente.

As relações feitas entre o momento histórico vivido pelo republicano Abraham Lincoln e o presente do democrata Barack Obama são claras. Da mesma forma que Obama precisou gastar muito de seu capital político para aprovar a reforma no sistema de saúde dos EUA (e ainda precisará para aprovar medidas como um maior controle no comércio de armas e o casamento entre homossexuais), Lincoln teve de empenhar todo o seu imenso prestígio popular para aprovar a citada 13ª Emenda, e não sem muitas dificuldades, conchavos, trocas de favores, compra de votos, além do simples convencimento das consciências dos parlamentares. Sim, a política é podre no mundo todo e na terra de Tio Sam não é diferente. Nós, brasileiros, é que nos deixamos iludir por uma mídia que no faz acreditar que o partido que atualmente ocupa nossa presidência é o mais corrupto de todos os tempos. Como o roteiro, escrito por Tony Kushner (e baseado no livro "Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln", Doris Kearns Goodwin) realça, Lincoln precisou usar de vários expedientes para alcançar seu objetivo, inclusive os menos elogiáveis. Aliás, não só ele. O deputado Thadeus Stevens - interpretado por Tommy Lee Jones em grande atuação - um abolicionista por convicção na igualdade plena entre os homens, acaba por renegar seus valores para que seus discurso soasse mais convincente perante os deputados em dúvida. O fins justificam os meios? Spielberg parece sustentar que, ao menos em alguns casos, os fins, sim, justificam os meios, uma posição que pode soar polêmica, mas que se mostra defensável diante das circunstâncias exibidas no longa.


Ressalte-se que a produção é repleta de toda a perfeição técnica costumeira nos filmes do cineasta, aqui acompanhado de seus velhos parceiros, como Janusz Kaminski na fotografia, a qual prima por paletas escuras e focos de luz concentrados nos personagens, e John Williams na trilha sonora (muito embora não seja das mais inspiradas, ainda é assim é competente), além de um figurino impecável nas mãos de Joana Johnston. Contudo, o desempenho do elenco é mesmo algo à parte. Sally Field, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante, entrega uma ótima atuação na pele da esposa de Lincoln, uma mulher perturbada pela perda de um dos filhos do casal, mas que tem uma influência marcante sobre as decisões do presidente. Tommy Lee Jones, como já frisado acima, mostra que realmente está em boa fase, sendo também indicado ao Oscar como ator coadjuvante. Mas não se pode negar que é mesmo Daniel Day-Lewis o principal catalisador das atenções. Day-Lewis é um daqueles atores que parecem incapazes de ter uma má atuação. Em uma composição perfeitamente equilibrada, ele traz Lincoln de volta com seu tipo desengonçado, caipira, mas também um contador de causos cheio de sabedoria. Além disso, faz o espectador sentir a solidão que o poder confere a um homem responsável por tantos destinos. Impressionante sua naturalidade, mesmo nos momentos mais emocionais, onde ele nunca extrapola para a super atuação. Não resta dúvida que ele é a versão masculina de Meryl Streep este ano. Está levando todos os prêmios por sua performance (no último domingo, levou o Sindicato de Atores) e é virtualmente imbatível.

Este é um dos filmes de Steven Spielberg que se filiam à sua vertente mais “sóbria”, digamos assim, juntando-se a obras como “A Lista Schindler” (Schindler’s List, 1993) e “Munique” (2005). Entretanto, está um pouco abaixo do patamar alcançado com os mencionados filmes (sim, eu considero “Munique” um longa injustiçado e um de seus melhores trabalhos). Há momentos em que “Lincoln” adquire um certo tom hagiográfico, principalmente na conclusão, onde é retratado o discurso de Getysburg e o personagem é mostrado como aquele presente nas cédulas de 5 dólares (algo que Spielberg disse que desejou evitar). Ademais, o longa realmente carece de ritmo em alguns momentos, deixando-nos meio que perdidos em meio aos emaranhados políticos. Todavia, tais problemas não tiram dele sua relevância e, decididamente, este é o melhor registro do seu diretor em vários anos (mais precisamente, desde o citado “Munique”). E, se você gosta de Cinema e História (assim, com “h” maiúsculo), “Lincoln” se coloca como um filme obrigatório.


Cotação:



Nota: 9,0

domingo, 20 de janeiro de 2013

Cinemúsica

La Bamba
(La Bamba, 1987)



Rigorosamente meteórico


Se você gosta de música, mais especificamente de rock, já deve ter ouvido falar do “dia em que o rock morreu”. A alcunha foi atribuída ao dia 03 de fevereiro de 1959, data em que um avião fretado caiu depois de enfrentar uma tempestade de neve. Entre os passageiros estavam três jovens astros ascendentes na música pop: Buddy Holly, Big Bopper e o mais novo deles, Ritchie Valens, então com apenas 17 anos. Valens teve uma carreira rigorosamente meteórica. Desde que foi descoberto pelo produtor Bob Keane até o fatídico acidente aéreo, transcorreram apenas 8 meses durante os quais ficou famoso ao lançar sucessos como “Come On Let's Go”, “Donna” e a versão rock 'n roll para a tradicional música mexicana “La Bamba”, a qual também acabou se tornando o título da cinebiografia do cantor produzida em 1987 e que acabou se transformando em um dos clássicos oitentistas, dada a grande popularidade que alcançou.

Escrito e dirigido por Luis Valdez, diretor eminentemente de filmes televisivos, o longa-metragem conta de forma redonda a vida do astro (interpretado por um inspirado Lou Diamond Phillips), cujo nome verdadeiro era Ricardo Esteban Valenzuela Reyes, estadunidense de ascendência mexicana nascido em Pacoima, distrito de Los Angeles. Apesar de sua origem latina, Valens pouco falava espanhol e possuía uma identidade cultural mais ligada aos Estados Unidos, sendo perceptível a enorme influência de Elvis Presley em sua breve carreira. Entretanto, mais do que o aspecto profissional, é sobre a vida pessoal do rapaz que o roteiro se debruça, esmiuçando sua vida familiar e o conturbado relacionamento com o irmão, Bob (Esai Morales), rapaz-problema que não consegue sair da delinquência. A vida marginal poderia ser o mesmo destino de Ritchie caso ele não fosse apaixonado pela música o suficiente para acabar não nutrindo outros interesses. Sua única outra fonte de atenção era Donna Ludwig (papel da desconhecida Danielle Von Zerneck), seu amor de colégio que inspirou a composição do mencionado hit “Donna” (e que canção pegajosa, hein?) 


Curioso como, ao longo da projeção, algumas cenas possuem tamanha força que elas continuam em nossa memória mesmo depois de muitos anos sem vermos o filme. Em “La Bamba”, a sequência em que Valens apresenta sua composição “Donna” para a própria musa inspiradora (que hoje ainda é viva), de violão em punho em uma cabine telefônica, nunca me saiu da mente e é de um romantismo pra lá de eficiente. Da mesma forma, a sua primeira apresentação cantando “La Bamba” é memorável, jogando na tela toda a energia roqueira da versão de Valens, que transformou a canção folclórica em um sucesso mundial até hoje. E ainda temos os momentos no aeroporto antes da partida do avião, quando o protagonista pega o voo depois de disputar a sorte na moeda com um outro possível passageiro. Percebe-se, assim que Valdez é hábil com as imagens e ótimo em construir o clima narrativo, aproximando-nos do astro e nos fazendo sentir como um parente seu. Ou seja, o envolvimento com a narrativa é inevitável, mesmo que você já saiba como a história terminará.

Entretanto, Valdez acaba se deixando levar por armadilhas clichês, principalmente nas derradeiras cenas, onde adota elementos como imagens em câmera lenta de Valens, um dos mais pobres recursos típicos da televisão, caindo em uma pieguice desnecessária. Ademais, o elenco mostra-se muito oscilante. É certo que Lou Diamond Phillips tem aqui a grande atuação de sua carreira, que estava ainda em um momento de ascensão. No ano seguinte, inclusive, ele seria indicado ao Oscar de ator coadjuvante por “O Preço do Desafio” (Stand and Deliver, 1988) e ainda participou de sucessos como “Os Jovens Pistoleiros” (Young Guns, 1988). Contudo, acabou enfrentando uma declínio não muito explicável e hoje se limita a fazer papeis coadjuvantes em séries de TV. Outro que mostra talento é Esai Morales na pele do irmão problemático de Valens. Por outro lado, Danielle Von Zerneck é uma atriz fraquinha, fraquinha e entendemos logo porque ela não teve muito futuro depois deste longa, mesmo com um papel de destaque.


Mas, vale ressaltar: ao fim do longa é quase impossível não se consternar com o destino daquele rapaz cheio de vida e que teve sua trilha de sucesso tristemente encurtada. O nosso Raul Seixas, inclusive (outro nome da música que morreu antes do que deveria), ressaltava que no fatídico dia da queda do avião, a música não perdeu apenas três jovens astros, mas também toda a produção posterior que eles certamente iriam legar, tanto em termos quantitativos quanto em influência para os artistas seguintes. Talvez por isso, mesmo que frequentemente obras como “La Bamba” se mostrem imperfeitas, elas ao mesmo tempo são muito relevantes ao buscar preservar a imagem e revigorar o legado de artistas que já se foram há algum tempo e merecem que seu talento seja visto por novas gerações. Aliás, não sei porque alguém ainda não teve a ideia de fazer um filme sobre Buddy Holly, morto no mesmo acidente e ainda mais influente no meio musical do que Valens.


Cotação: 



Nota: 8,0

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Gonzaga: De Pai Pra Filho

A dúvida “casmurra” de Gonzagão


Luiz Gonzaga e Luiz Gonzaga Jr. formam um incomum caso de talento que passou de pai para filho. O pai, o lendário Gonzagão, é um dos maiores gênios da nossa música popular, um dos responsáveis até pela construção de nossa identidade cultural, principalmente do Nordeste, que tem como “hino” extraoficial a canção “Asa Branca”, fruto de sua parceria com o advogado Humberto Teixeira. Já Gozaguinha é um dos expoentes do gênero que hoje se define como “MPB”, compositor socialmente engajado e dono de uma sensibilidade ímpar, capaz de emocionar mesmo o coração mais duro. O que nem todo mundo sabe é que pai e filho tiveram um relação complicadíssima, fruto da indiferença afetiva com que Luiz Gonzaga tratou seu filho durante a maior parte da vida. “Gonzaga: De Pai Pra Filho”, novo longa-metragem do diretor Breno Silveira, é, em boa medida, muito mais do que uma simples biografia do Rei do Baião. Trata-se de uma busca pelas motivações desse desentendimento, as razões que levaram os dois ao afastamento e posterior reconciliação.

Na verdade, este é um projeto antigo de Silveira, mais precisamente de 7 anos, iniciado logo após a estreia de “2 Filhos de Francisco”, a ótima cinebiografia dos cantores sertanejos Zezé Di Camargo e Luciano dirigida pelo mesmo em 2005. Baseado no livro Regina Echeverria e com adaptação da roteirista Patrícia Andrade, Silveira conseguiu algo improvável: coadunar com qualidade a história de vida do biografado sendo não somente didático, mas procurando analisar suas atitudes sem oferecer julgamentos e, ao mesmo tempo, conseguindo atingir uma veia emocional forte, que dificilmente deixará o espectador indiferente. Pode-se acusar o filme de romancear a vida de Gonzaga - o que, em parte, é verdade, principalmente no que diz respeito à sua primeira metade – bem como de amenizar algumas passagens pouco valorosas de sua vida (como seu apoio ao governo militar, ao menos no início) e de seu filho (o alcoolismo de Gonzaguinha é apenas sugerido). Contudo, é muito difícil condensar todo o histórico de vida de um ser humano em apenas duas horas e a abordagem escolhida pelo cineasta mostrou-se feliz em sua maior parte.


A história é narrada em estrutura de flashback, iniciando a partir do momento em que Gonzaguinha recebe um pedido de sua madrasta, Helena, para que vá até Exu, em Pernambuco, para encontrar seu pai, o qual está precisando de sua ajuda. Mesmo que relutante, Gonzaga Jr. empreende a viagem até a terra natal de seu genitor e, desde o primeiro encontro dos dois na tela, já percebemos o quão difícil era a relação entre ambos. É então que o filho resolve entrevistar o pai, usando para tanto um gravador (daqueles de fitas cassete bem oitentistas), buscando entendê-lo melhor a partir de suas memórias. E seguimos a vida de Gonzagão, desde a saída de Exu, fugindo de um coronel que não via com bons olhos o interesse de Luiz pela sua filha, passando a seguir por diversos episódios. Estão na tela sua vivência no exército; a chegada ao Rio de Janeiro; a ausência de sucesso ao iniciar sua vida de sanfoneiro tocando ritmos estrangeiros, como tango e fado, além de sua ascensão ao resolver investir na suas raízes e colocar no seu acordeon os ritmos do sertão nordestino.

É importante ressaltar que, mesmo relatando praticamente toda a trajetória do Rei do Baião, em nenhum momento Silveira perde o foco de tentar compreender a gênese dos seus atritos com o filho. Silveira, inclusive, optou por uma das versões da história do nascimento do garoto, aparentemente nunca inteiramente esclarecida. Se você fizer uma rápida pesquisa no nosso amigo Google, encontrará vária versões sobre a relação de Gonzaga com Odaleia Santos (no filme interpretada por Nanda Costa), alguns chegando a afirmar que ela já estaria grávida quando os dois se casaram e o músico teria assumido a paternidade do menino mesmo sabendo que não era o pai. A versão que vemos no filme é a da dúvida “casmurra” tornada célebre pelo nosso Machado de Assis. O Mestre Lua teria passado a vida com a dúvida sobre a paternidade daquele garoto que nem mesmo guarda semelhanças físicas com o genitor e que tinha como mãe uma mulher que trabalhava como dançarina de salão e tinha uma conduta “avançada” para a época. Desta forma, sugere-se que todo o abandono afetivo de Gonzagão por seu rebento tem suas origens nessa interrogação, algo que só iria crescer com tempo, principalmente a partir de seu segundo casamento com a secretária e contadora Helena Cavalcanti (papel de Roberta Gualda),a qual não conseguia engravidar e acusava Luiz de ser estéril, dando ainda mais força, portanto, à ideia de que Gonzaguinha não era seu filho. Sendo ou não a versão verídica dos acontecimentos, a opção narrativa se coloca como a maneira ideal de apresentar aquela história ao público.


Para o desenvolvimento de uma boa cinebiografia, boas atuações são importantes e é neste ponto que a produção se mostra oscilante. Nenhum dos três atores que interpretam Gonzaga nos oferecem grandes desempenhos, principalmente Chambinho do Acordeon, músico profissional que topou encarnar Gonzaga em sua fase adulta. Em várias de suas cenas, principalmente aquelas que mostram os shows de Luiz, ele se mostra artificial, quase caricato, embora tenha carisma. Entretanto, os outros dois intérpretes, Land Vieira e Adélio Lima, que fazem o Gonzaga adolescente e idoso, respectivamente, se não são brilhantes ao menos não comprometem o personagem, mostrando certa competência. O destaque interpretativo vai mesmo para Júlio Andrade interpretando Gonzaguinha em sua fase adulta. Ele simplesmente surge como uma espécie de reencarnação do cantor e compositor e não só no que se refere à semelhança física. Seus trejeitos, postura, o ar reflexivo e levemente arrogante de Gonzaguinha estão lá presentes e chegaram a impressionar até mesmo a família do músico (sua viúva chorou em uma sessão privada oferecida pela produção do longa). Curioso que Andrade conhecia bastante da vida e obra de Gonzaguinha antes mesmo de assumir o papel, pois seu pai é fã do músico e o ator cresceu ouvindo e vendo em casa a carreira da interpretado.

Pode-se concluir que “Gonzaga: De Pai Pra Filho” é um filme típico de Breno Silveira. Narra uma história de pai e filho muito cara à sua cinematografia (vide o citado “2 Filhos de Francisco” e o recente “À Beira do Caminho”), povoada por famosas canções de nossa música popular (no caso, ouvimos canções tanto do pai quanto do filho) e com uma catarse ao fim. Entretanto, vale dizer que seus filmes não soam repetitivos e, ao menos para este que vos escreve, este seu novo trabalho conseguiu atingir com força o coração. É verdade que talvez isto se deva às minhas origens nordestinas. Afinal, mesmo sendo um “rapaz do litoral” e da capital, acabo me identificando com grande facilidade tanto com os elementos culturais quanto sociais mostrados ao longo da projeção. Basta percorrer alguns quilômetros interior adentro aqui no Rio Grande do Norte para se deparar com as agruras da realidade tão bem espelhada por Gonzaga com sua música, bem como com suas alegrias e visão de mundo. Mas seria leviano taxar a película como uma obra “regional”. Certas histórias são universais e esta certamente é uma delas.


Cotação:
 


Nota: 8,5

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Cinebiografias: 7 filmes essenciais

Normalmente costumamos considerar as adaptações da vida de personalidades levadas às telas do cinema como inseridas no gênero “drama”, o que, em sua maior parte, não deixa de se colocar como um definição correta. Entretanto, tal como ocorre na literatura, acredito que as biografias no cinema formam um subgênero e que vem sendo muito explorado nos últimos anos. Basta lembrar que em breve teremos dois novos e aguardados filmes com figuras famosas: “Lincoln”, dirigido por Steven Spielberg e com Daniel Day-Lewis no papel do presidente norte-americano, e “Hitchcock”, com Anthony Hopkins no papel título. É bom até destacar que se trata de um subgênero adorado pelos atores, já que suas interpretações de papeis de personagens históricos costuma render prêmios e elogios da crítica e do público. Abaixo, o Cinema Com Pimenta listou 7 produções que têm como tema a vida de personalidades reais adaptadas para o cinema com competência e méritos artísticos, algo por vezes difícil, dada a complexidade da alma humana. Afinal, é fácil cair no erro de mostrar o biografado como “bonzinho” ou “malvado”. Bem, vamos aos filmes.


7) “2 Filhos de Francisco” (2005) – Quando vi pela primeira vez o poster deste filme, eu desdenhei completamente de seu potencial. “Um filme sobre a vida de Zezé di Camargo e Luciano? Deve ser péssimo...”. Mas que engano! O diretor Breno Silveira conseguiu a proeza de realizar um filme bastante popular sem apelar para o melodrama barato, com uma narração muito bem amarrada e ainda contando com ótimas atuações, desde os atores mirins até a excelente presença de Ângelo Antônio como o pai da dupla sertaneja, um homem de muita perseverança e com um otimismo que beira a maluquice. A verdade é que o filme é tão bom que passei até a simpatizar com os cantores depois dele. Agora, espero sempre um algo a mais dos longas de Silveira, o qual em breve estará com “Gonzaga – De Pai Para Filho” no circuito comercial;



6) O Aviador (The Aviator, 2004) – Muitos criticaram esta biografia do milionário Howard Hughes porque seu diretor, Martin Scorsese, teria fugido de suas características autorais para, com isso, conquistar os membros da Academia de Hollywood e levar o Oscar de melhor diretor para casa (naquela ocasião, ele ainda não havia sido premiado com o careca dourado). Considero esta visão bastante equivocada. Aqui, mais uma vez Scorsese aborda um personagem socialmente deslocado, como já havia feito em “Touro Indomável” (Raging Bull, 1980) e “Taxi Driver” (1976), solitário na sua visão de mundo e que busca ardorosamente uma aceitação. Em “O Aviador” a ironia se torna ainda maior por se tratar de um homem bem-sucedido, invejado e idolatrado por muitos, mas que vai aos poucos perdendo a sanidade devido à ausência de compreensão dos seus contemporâneos. Vale dizer que Leonardo DiCaprio está simplesmente ótimo no papel do biografado e que a produção é impecável na sua reconstituição de época, fotografia e edição (de Telma Schoomaker, colaboradora habitual de Scorsese). A cena final, com Hughes pronunciando obsessivamente a frase “o caminho do futuro”, é memorável e genial;


5) Piaf – Um Hino ao Amor (La Môme, 2007) – Já tive a oportunidade de resenhar este filme anteriormente e a verdade é que ele vai ficando melhor com o passar do tempo. Muito lembrado pela atuação espírita de Marion Cottilard (poucas vezes o Oscar foi tão inquestionável quanto aqui), o longa, entretanto, vai muito além de ser apenas um “filme de ator” (no caso, atriz). Extremamente bem dirigido por Olivier Dahan, ele impacta o espectador com a força da poderosa história de Edith Piaf, a voz mais famosa da França, a qual teve uma vida conturbada e cheia de lances tristes que mais pareceriam sair de um novela não fossem verdadeiros. Alguns apontaram que certas partes pouco honrosas de sua trajetória foram amenizadas no filme, o que provavelmente é verdade, mas, por outro lado, não se pode negar que o resultado final é capaz de emocionar o mais duro dos corações;


4) Amadeus (1984) – Auge da carreira de Milos Forman, que já havia mostrado sua excelência em “Um Estranho No Ninho” (One Flew Over The Cuckoo's Nest, 1975). A biografia de Wolfgang Amadeus Mozart ganhou contornos de pura arte que fizeram jus ao patamar artístico do músico. Claro que toda a história envolvendo Salieri (no filme interpretado por F. Murray Abraham), posto aqui como o estranho que assombrava Mozart no fim de sua vida, é pura suposição e romanceamento, mas,em termos artísticos, o resultado é simplesmente sensacional. Os oito Oscars levados pela produção foram muito merecidos e as gargalhadas histriônicas do Mozart de Tom Hulce são inesquecíveis;


3) Touro Indomável (Raging Bull, 1980) – Segundo filme de Scorsese na lista (sim, eu adoro Scorsese) e, talvez, o seu melhor trabalho. O longa mostra a vida do boxeador Jake La Motta, um homem bruto e incapaz de construir relacionamentos duradouros, ferindo até aqueles que mais ama. A interpretação de Robert De Niro, que lhe rendeu o prêmio da Academia de Hollywood como melhor ator, tornou-se lendária e muita gente que nem viu o filme sabe que ele engordou dezenas de quilos para interpretar o personagem na maturidade. Sua sequência inicial de créditos, ao som da "Cavalleria Rusticana", é algo sublime, assim como suas cenas de luta, com socos em close, tornaram-se uma verdadeira referência pop. Filme para ser visto e revisto;


2) O Homem-Elefante – (The Elephant Man, 1980) – Também já tratei deste filme em outra oportunidade. Uma obra pungente sobre a melancólica vida de John Merrick (no filme, interpretado por John Hurt, que perdeu o Oscar para Robert De Niro por “Touro Indomável), o tal “Homem Elefante” do título, um infeliz portador de uma doença rara que o deixa com uma aparência terrível. “Uma bela alma aprisionada em um corpo horrível”, nas palavras do seu diretor, o então pouco conhecido David Lynch. Às vezes é até difícil acreditar que tamanho sofrimento possa ter ocorrido de verdade. Contudo, Lynch jamais deixa-se levar pelo sentimentalismo barato, compondo uma película com tons expressionistas, mas ao mesmo tempo extremamente humanos. Filme a que todo ser humano deveria assistir pelo menos uma vez na vida;


1) Lawrence da Arábia (Lawrence Of Arabia, 1962) – Talvez seja esta a obra máxima de um mestre entre os mestres: David Lean (eu também amo “Dr. Jivago”, por isso o “talvez”). Megalomaníaca e genial ao mesmo tempo, a história do oficial britânico T. E. Lawrence, adaptada para o cinema a partir de seu livro “Os Sete Pilares da Sabedoria”, arrebata o espectador com sua grandiosidade, atuações perfeitas (Peter O'Toole merecia o Oscar) de um elenco estelar (ainda temos Anthony Quinn, Omar Sharif, Alec Guinness e até Claude Rains), fotografia soberba e qualquer outro adjetivo hiperbólico que você queira atribuir. Acredito até que David Lean vem sendo pouco valorizado pelas novas gerações de diretores, críticos e cinéfilos, algo que pode estar ocorrendo devido ao tempo diferente de suas obras, inadequadas ao ritmo veloz dos nossos dias, quando estamos cada vez mais impacientes. Um erro que precisa ser corrigido.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro



Meryl Thatcher Streep


O mundo em que vivemos hoje, dominado por instituições financeiras que retiram dos povos a sua soberania começou a ser engendrado ao longo da década de 1980 e teve como seus grandes artífices o então presidente dos Estados Unidos, o ex-ator Ronald Reagan, e a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Podem colocar na conta do legado de ambos essa lógica cruel de que os governos devem empurrar dinheiro público para salvar os bancos de quebradeiras, ao mesmo tempo em que, quando são os Estados que enfrentam dificuldades, devem cortar gastos públicos (leia-se, menos saúde, menos educação, menos incentivo à cultura...), empreender demissões, reduzir salários entre outras medidas do gênero. Ou seja, quando os bancos vão mal, quem arca com os prejuízos é o povo (via doações estatais para “reestruturar”os falidos). E quando os Estados vão mal das pernas, quem sofre as consequências também é o povo. Sim, a dobradinha Thatcher-Reagan foi a responsável pelo que hoje chamamos de “neoliberalismo”, um modelo que hoje encontra o seu ocaso.

É intrigante que se tenha realizado a ideia de um longa sobre a chamada “Dama de Ferro” (uma alcunha criada pelos soviéticos com um tom inicialmente pejorativo) do Reino Unido justamente em um tempo em que suas ideias se mostram, mais do que nunca, ultrapassadas e passíveis de enormes críticas. Sua postura reconhecidamente autoritária destoa de um mundo onde movimentos como Occupy Wall Street e Anonymous parecem despontar a cada dia. Aliás, os integrantes do citado Anonymous costumam usar a máscara de um personagem criado pelo quadrinhista Alan Moore (na HQ “V de Vingança”, adaptada para o cinema) como uma crítica e reação ao conservadorismo da era Thatcher, marcada por uma forte repressão aos sindicatos – a famosa greve dos mineiros se tornou icônica neste aspecto – e demandas sociais relegadas a segundo plano (qualquer semelhança com ideias defendidas por sabichões da mídia tupiniquim não é mera coincidência). Ou seja, Thatcher foi uma das principais responsáveis pelo fim do Estado do bem-estar social, modelo surgido no Ocidente do pós-guerra como uma reação ao sistema socialista do Leste Europeu.


Um figura politicamente tão controversa como Thatcher, no caso de uma adaptação para o cinema, mereceria a regência de um diretor experiente, acostumado a lidar com personagens reais e que resistisse às tentações de uma possível romantização de sua trajetória (o nome de Martin Scorsese, responsável por obras como “Touro Indomável” e “O Aviador” é o primeiro que me vem à mente). A escolha, entretanto, recaiu em Phyllida Lloyd, uma diretora que está apenas em seu segundo longa-metragem para o cinema (o primeiro foi “Mamma Mia!”, também com Meryl Streep) e que, infelizmente, não resistiu bem às mencionadas tentações, procurando construir a imagem de Margaret como uma “batalhadora-perseverante-que-alcança-seus-sonhos”. Neste ponto, o filme lembra o nacional “Lula, O Filho do Brasil” (2009), muito criticado por aqui por tentar transformar a história do ex-presidente em uma hagiografia. Com “ A Dama de Ferro” não é muito diferente, a começar pela opção escolhida de retratá-la na sua atual fase de demência decorrente do mal de Alzheimer, o que desde logo condiciona o público a enxergá-la com sentimentos de piedade. Uma espécie de recurso, intencional ou não (mas duvido que não o seja), que acaba turvando o nosso senso crítico. Contudo, se este se apresenta como um recurso sutil, há passagens ao longo da projeção que resultam em verdadeiro sensacionalismo, como na sequência em que a então primeira-ministra deixa o cargo se despedindo dos funcionários da 10 Downing Street (a residência oficial do primeiro-ministro), assemelhando-se a uma heroína que se dá adeus aos seus companheiros de batalha.

Além da mistificação, outro ponto me deixou incomodado no trabalho de Lloyd. Ela se esforça o tempo inteiro para atribuir uma conotação feminista à figura de Thatcher, algo que não é verdade. Ela nunca ergueu essa bandeira e suas atitudes enquanto governante demonstram muitos mais serem reflexos de uma mulher masculinizada – não no sentido sexual, mas na forma de entender o Estado e a sociedade – do que a demonstração do feminino no poder. Exemplo claro disso foi a utilização de um conflito armado, no caso a guerra das Malvinas, par alavancar sua popularidade que se encontrava em níveis baixíssimos no início da década de 80. Seu comportamento enquanto governante, dotado de intransigência, autoritarismo e espírito belicoso, na realidade parece muito mais demonstrar que, no fundo, sua chegada ao poder foi muito mais uma vitória do machismo, o qual condiciona as mulheres a agirem como homens para se manterem no poder ou mesmo conseguir administrar. Ou seja, Thatcher jamais representou um avanço nas conquistas dos direitos das mulheres.


Vale dizer, ademais, que “ The Iron Lady” falha não apenas na análise de sua personagem histórica. O filme também não alcança sucesso enquanto narrativa cinematográfica. O roteiro atropelado de Abi Morgan (o mesmo do polêmico “Shame”, ausente do Oscar), realizado a partir de flashbacks constantes, torna a experiência desinteressante e por vezes confusa. Boa parte do enredo se desenrola com Thatcher dialogando com a alucinação de Denis, seu marido falecido em 2003, numa temerária suposição de como funciona sua consciência. Além disso, o longa possui uma câmera nervosa totalmente inadequada ao tom introspectivo que tenta imprimir, cheia de angulações e movimentos desnecessários. Sinceramente, cheguei a ficar aborrecido em algumas passagens. A dispersão do público é quase inevitável durante a sessão.

Se esta não chega a acontecer completamente isso se deve principalmente a dois fatores. Por mais tendenciosa ou superficial que seja a análise apresentada, a história de uma figura pública tão relevante (para o bem ou para o mal) sempre despertará interesse, nem que seja para criticar as omissões ou distorções dos fatos. Destarte, não resta dúvida que o grande chamariz de “A Dama de Ferro” é a soberba atuação de Meryl Streep. Impecável, sua interpretação lembra a de Marion Cotillard em “Piaf – Um Hino Ao Amor” (La Môme, 2007), realizando um autêntico mergulho não apenas no exterior, mas também na alma da figura retratada. Um trabalho impressionante que consegue deixar o espectador interessado na narrativa, por mais falhas que esta apresente. Sua indicação ao Oscar é mais do que justa e será ainda mais justo se ela de fato levar o prêmio, muito embora a tendência seja a de premiar Viola Davis (que também nos entrega uma grande interpretação em “Histórias Cruzadas”, convém lembrar). Afinal, apesar de seu enorme talento (quem não é seu fã?), Meryl já se tornou a maior perdedora do Oscar, tendo levado apenas 2 vezes e perdido em 15 oportunidades. Auxiliando a grande atriz, ainda temos uma maquiagem fabulosa de Mark Coulier que auxilia no seu envelhecimento.

No entanto, uma grande atuação pode salvar um filme do desastre, mas não irá transformá-lo em um bom trabalho. Cheio de tropeços, romantizações e parcialidades, “A Dama de Ferro” nem chega a ser tão controverso quanto sua biografada pelo simples motivo de que, no caso desta, alguns adeptos de sua visão conservadora poderão defender com unhas e dentes sua gestão (o que, como já deixei transparecer, não é o meu caso). Entretanto, mesmo os admiradores da líder britânica hão de convir que esta cinebiografia de Phyllida Lloyd deixa bastante a desejar. A verdade é que, não fosse a atuação de Streep, o longa-metragem mereceria o mesmo destino das políticas da “Dama de Ferro”: o esquecimento. Acredito que não seria uma má ideia alterar o título do longa para“Meryl Thatcher Streep”...


Cotação:

Nota: 6,5

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ATUALIZADO: E Meryl venceu mesmo!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Quase Deuses
(Something The Lord Made, 2004)


Quase lá...


Não nego que tenho um certo preconceito com filmes feitos para a televisão. Aliás, não só filmes. As atualmente tão enaltecidas séries de TV também não contam com a minha simpatia. Por razões comerciais, geradas pelo público médio que acompanha as produções televisivas, jamais veremos um produção feita para TV atingir o nível artístico de um filme de Fellini ou Antonioni, de um Bergman ou Kubrick. Sei que “jamais” talvez seja um termo muito forte e claro que muitos vão citar o “Decálogo” de Kieslowski como exemplo de que isso é possível, mas esta é uma rara exceção e as exceções confirmam a regra. E isso por um simples motivo: mesmo uma empresa como a HBO, famosa por supostamente ter produtos diferenciados, mais “refinados” ou “adultos”, tem de estar adstrita ao gosto do seu espectador, mormente o norte-americano, o que pode até terminar resultando em um entretenimento inteligente, mas nunca em uma autêntica obra de arte. Dito isto, resolvi assistir neste domingo a um filme que minha noiva me deu de presente há algum tempo, longa-metragem que ela havia gostado muito e que sempre me cobrava: “você ainda não viu aquele?” *. Trata-se de “Quase Deuses” (Something The Lord Made, 2004), filme produzido pela citada HBO e dirigido por Joseph Sargent. A verdade é que o longa representa o que talvez se possa fazer de melhor dentro da perspectiva comercial do meio televisivo, ou seja, uma obra correta, que prende a atenção do espectador, toca em assuntos sobremaneira relevantes, mas que não consegue alcançar patamares artísticos mais elevados, permanecendo na área do entretenimento inteligente ou mesmo comovente.

A trama, como normalmente sucede em produções para a televisão (e como isso me faz lembrar o Supercine, nossa...), trata da história real dos médicos Alfred Blalock (interpretado aqui por Alan Rickman) e Vivien Theodore Thomas (Mos Def), responsáveis por importantíssimos avanços na área de cirurgia cardíaca, precursores na técnica que leva à cura de bebês de aparência cianótica, os chamados “bebês azuis”. Blalock era um pesquisador ousado, realizando suas experiências com cachorros, embora também, como geralmente sucede com cientistas, um tanto arrogante e por vezes prepotente. Para cuidar do canil das cobaias, ele contrata o recém desempregado Vivien Thomas, um carpinteiro vítima da crise econômica mundial dos anos 30 que, além de ficar sem trabalho, perdera todas as economias que havia feito para cursar a faculdade de medicina, uma vez que o banco depositário faliu (qualquer semelhança com fatos recentes ou atuais do capitalismo globalizado mão é mera coincidência). Destarte, Blalock vai percebendo que Vivien tem uma enorme facilidade em aprender os conceitos médicos e, além disso, usa o instrumental cirúrgico com grande desenvoltura. A parceria entre os dois gera grandes frutos, mas há um detalhe muito relevante a ser apontado, além da ausência de formação acadêmica de Vivien: ele é negro, isso em uma época em que os afro-americanos sequer podiam sentar perto de um branco dentro de um ônibus. Ou seja, além das limitações impostas pela ausência de formação, ele ainda sofre extremo preconceito, principalmente quando ele e Blalock passam a trabalhar no conceituado hospital universitário Johns Hopkins, onde acaba vítima de ridículas discriminações, como receber o mesmo salário de uma faxineiro devido à cor da sua pele.


Em verdade, mesmo que seja um longa multifacetado em que vários temas são apresentados, acredito que o foco central de “Quase Deuses” é mesmo a questão racial. Afinal, muito mais do que sua condição social, é a circunstância racial que acaba se colocando como maior obstáculo ao pleno desenvolvimento das faculdades de Thomas. Entretanto, o filme também se mostra ótimo ao delinear a amizade entre os dois, frequentemente colocada à prova diante dos obstáculos e, em igual medida, em razão dos ataques de vaidade e arrogância de Blalock, que em alguns momentos custa a admitir o quanto Thomas lhe é importante não apenas do ponto de vista profissional, como também emocional. Para tanto, a atuação dos atores é essencial e, se Alan Rickman se mostra competente na caracterização de Alfred (muito embora escorregue em alguns momentos com suas tradicionais caretas), Mos Def entrega uma grande atuação como Vivien, emprestando a força e carisma necessários ao personagem. Em outro sentido, o longa deve entusiasmar estudantes da áreas médicas ao detalhar os procedimentos cirúrgicos e as ideias que levaram ao sucesso das experiências, mostrando-se também como um libelo em defesa do progresso da ciência, mesmo que em diversas situações esta possa se apresentar fria e indiferente, mormente no que diz respeito à utilização de cobaias nos estudos (os apaixonados por cachorros poderão sentir especiais calafrios em algumas sequências).


Interessante como Sargent exibe uma direção segura, sem acelerar ou alongar a narrativa, que se estende através de enxutos 109 minutos sempre despertando o interesse do espectador, muito embora algumas cenas específicas, onde há um uso acentuado de termos técnicos, possam se tornar entediantes para o público leigo. A reconstituição de época também é muito bem feita, principalmente se pensarmos nos detalhes que uma produção assim exige, uma vez que apresentar instrumentos médicos antigos requer um enorme trabalho de pesquisa. Contudo, há algumas derrapadas típicas de um produto que procura, antes de tudo, agradar, como a utilização equivocada de uma trilha sonora que parece sempre querer dizer ao espectador quais os momentos emocionantes, como se este não tivesse inteligência suficiente para tanto. Ademais, sua conclusão é repleta de momentos catárticos, realizados de forma a enaltecer a mensagem de superação e dignidade que é o cerne do filme.

De qualquer forma, é importantíssimo destacar: funciona. À parte as limitações geradas por suas pretensões comerciais, “Quase Deuses” tem passagens realmente comoventes e a história da dupla de médicos, principalmente do prático Vivien Thomas, é indubitavelmente inspiradora. Há uma passagem, inclusive, em que o pai de Thomas, relembrando que seu avô era escravo e que o rapaz agora tinha a oportunidade de estudar em uma universidade, profere uma frase sábia ao afirmar que “as coisas mudam, devagar, mas mudam”. Hoje, ao vermos que um negro é presidente do Estados Unidos, percebe-se o quanto há de verdade em dita afirmação. Pois é, as coisas mudam, e quem sabe um dia a televisão deixa de lado os aspectos mercadológicos para se concentrar apenas no valor artístico que suas obras possam ter? Aqui, ela quase chegou lá.


Cotação:

Nota: 8,5

* Te amo, minha Linda :=)