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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Os 7 Melhores filmes de 2013

Fechando o ano, segue a lista com os sete melhores filmes exibidos no circuito comercial brasileiro no ano de 2013, segundo a visão do Cinema Com Pimenta. Um grande abraço a todos e feliz 2014!


7) Django Livre (Django Unchained, Quentin Tarantino);



6) Os Suspeitos (Prisoners, Dennis Villeneuve);



5) Os Miseráveis (Les Misérables, Tom Hooper);



4) O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, David O. Russell);




3) Rush - No Limite da Emoção (Rush, Ron Howard);



2) Amor (Amour, Michael Haneke);



1) Gravidade (Gravity, Alfonso Cuáron).

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

A Noviça Rebelde
(The Sound Of Music, 1965)


Alegre como o ano novo


Eu nunca fui muito adepto de festas de réveillon. Sempre considerei uma celebração meio sem sentido. Afinal, não é porque o planeta Terra iniciará mais uma volta em torno do Sol que a vida de ninguém vaia mudar. Nós é que devemos fazer com que as coisas mudem e não ficar esperando transformações devido a uma alteração no calendário. Sendo assim, costumo passar as entradas de ano em família, se não na minha própria, casa passo em casa de parentes. Nada de badalações em praias, bares, clubes etc. O fato de passar os réveillons próximo a uma televisão sempre me possibilitou verificar quais os primeiros filmes exibidos pelas emissoras em cada ano (tudo bem, realmente acho que isso é coisa de cinéfilo maluco). Há algum tempo, a Globo costumava exibir como primeiro filme do ano um clássico absoluto entre os musicais, o qual, com sua sequência de abertura característica, era de fácil identificação. Tratava-se da tomada aérea que mostrava as belas montanhas da Áustria em um longo plano-sequência que culminava com a aparição de Julie Andrews cantando “The Sound Of Music”. Sim, você já deve ter percebido qual o filme em questão. Trata-se de “A Noviça Rebelde”, um dos mais populares musicais de todos os tempos.

Dizer que este longa-metragem é um dos musicais mais populares já realizados não é uma hipérbole. Ele é o terceiro filme com maior número de ingressos vendidos, ficando atrás apenas de “...E o Vento Levou” (Gone With The Wind, 1939) e “Star Wars – Episódio IV” (1977). Em valores corrigidos, sua arrecadação atingiu quase US$ 1 bilhão apenas nos Estados Unidos. Estima-se que mais de um bilhão de pessoas ao redor do globo já viram a história da família Von Trapp levada à tela grande em 1965 por Robert Wise, um cineasta normalmente relegado ao segundo plano pela crítica, mas que aos poucos vem tendo sua reputação devidamente restabelecida. Apesar de não ser exatamente sua especialidade, Wise foi responsável por dois musicais de extrema importância no cinema hollywoodiano. Antes de “A Noviça Rebelde”, dirigiu em 1961, ao lado de Jerome Robbins, “Amor, Sublime Amor” (West Side Story), outro exemplar do mais autêntico musical representativo do antigo studio system. É possível, inclusive, enxergar “A Noviça Rebelde” como o canto do cisne dessa “era de ouro” do gênero. Lembre-se que o cinema norte-americano estava às vésperas de uma revolução que mais tarde seria conhecida como “Nova Hollywood”.



Wise não só foi o diretor do longa-metragem, mas também o seu produtor, o que lhe garantiu total controle sobre o projeto, uma adaptação para a tela grande de um musical da Broadway, cuja trama se baseia na história real da família de cantores Von Trapp. Ou seja, como acontece com frequência no gênero musical (a exemplo do citado “West Side Story”), temos aqui uma adaptação da adaptação. Torna-se importante ressaltar que a história a ser contada é a da família, pois o título em português pode levar muitos a imaginarem que o foco da narrativa é a noviça Maria (Julie Andrews). Ela realmente possui um papel predominante na primeira metade da trama, (com roteiro de Ernest Lehman) centrada na maneira como se desenvolveu o romance entre a espevitada noviça e o Capitão Georg Von Trapp (interpretado por Christopher Plummer), um viúvo pai de sete filhos que controla com regras militares. Maria, que não consegue se adequar à rigidez do convento (1), vai trabalhar como governanta no casarão da família e as crianças, inicialmente resistentes (como sucedia com todas as governantas), vão se afeiçoando e se encantando com seu jeito alegre e amoroso. Ela e o capitão acabam se apaixonando e ele desfaz o noivado com uma rica baronesa (Eleanor Parker) para se casar com Maria. Já na segunda metade da projeção, vemos a invasão nazista em território austríaco e a recusa do Capitão em colaborar, dado o seu perfil antinazista. A família então se vê forçada a fugir para outro país, atravessando a pé a fronteira com a Suíça (na história real, posteriormente eles emigrariam para os EUA).

Opa, sei que acabei contando toda a história do longa. Spoiler gigante? Pode ser, mas, sinceramente, o encanto da película não está exatamente na história narrada, de resto já bastante conhecida, mas na forma como ela é contada, repleta da magia que só os grandes musicais sabem proporcionar. O poder das canções concebidas pela famosa dupla de compositores Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II é atemporal, ainda mais quando interpretadas por uma Julie Andrews em estado de graça e um sensacional elenco infantil de crianças bonitinhas e carismáticas. Christopher Plummer está divertidíssimo como o patriarca Von Trapp (e olha que o primeiro a ser cogitado para o papel foi Yul Brynner) e todo elenco de apoio também se encontra especialmente inspirado, vide as ótimas participações de Richard Haydn como o impagável Tio Max e Eleanor Parker como a Baronesa Elsa. Mas não é só o elenco e as músicas que impressionam em “The Sound Of Music”. A sua mise-en-scène é admirável, com um direção de arte soberba e uma fotografia inesquecível (de Ted McCord), vide a mencionada cena de abertura, de beleza ímpar, que foi filmada seis vezes a partir de um helicóptero. No mesmo nível de qualidade encontra-se a edição, a qual imprime um ritmo perfeito para uma produção com 174 minutos.


Vencedor de 5 Oscars (melhor filme, diretor, edição, som e trilha sonora), “A Noviça Rebelde” é um verdadeiro espetáculo tanto para os olhos quanto para os ouvidos e o fato de ser um filme tão querido até hoje é o maior indício de sua excelência. O American Film Institute o coloca, merecidamente, entre os cinco melhores musicais estadunidenses de todos os tempos. Ao revê-lo recentemente, entendi o porquê de sua exibição constante em viradas de ano. Além de sua alegria latente, é uma obra que exala otimismo. O final, com a família Von Trapp atravessando a pé a fronteira com a Suíça, através dos Alpes, enaltece de forma emotiva e eficiente a força dos laços familiares e de solidariedade, valores estes lembrados coletivamente nas festas de fim de ano. Sendo sincero: para um cinéfilo, assistir a “The Sound Of Music” pode ser bem mais interessante e recompensador do que certas festas de réveillon. Ah, e não estranhe se depois de vê-lo as suas canções permanecerem pegajosamente na sua memória. Comigo aconteceu a mesma coisa...


Cotação:



Nota: 10,0


(1) Segundo informação que consta da edição brasileira em blu-ray, a própria Maria afirmava que sua indisciplina no convento era bem maior do que a mostrada no filme.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis

Apesar das dificuldades


Em meu recente texto sobre “O Lado Bom da Vida”, mencionei o longa protagonizado por Bradley Cooper e Jennifer Lawrence como exemplo de filme do qual esperamos muito e as expectativas acabam se confirmando. Pois bem, “Os Miseráveis”, novo trabalho do diretor vencedor do Oscar Tom Hooper (por “O Discurso do Rei”), resultou para mim como uma experiência talvez ainda mais gratificante. Trata-se daquele caso de filme do qual não esperava muito, mas, talvez até por isso, terminou por ir além das minhas expectativas e me atingindo de maneira inesperada. Até por ser um musical – e o gênero musical é o que menos me agrada dentre todos os gêneros cinematográficos – eu esperava uma obra cansativa e redundante, principalmente diante de seus 158 minutos. Contudo (e felizmente), as impressões negativas, em sua maior parte, foram se dissipando ao longo da projeção e a sensação que tive no seu término foi a de ter visto um belo espetáculo que vence a mera distração e que possui um força emocional que permanece para além da sessão, algo que afirmo até diante das circunstâncias peculiares a que assisti ao longa, as quais poderiam ter influenciado negativamente na sua apreciação.

Eu me minha esposa fomos ao cinema na última sexta-feira, dia 08 de fevereiro, e pegamos a sessão das 20:30h de “Os Miseráveis” (que estava surpreendentemente cheia para uma sexta-feira de carnaval). Com mais ou menos 30 minutos de exibição, o projetor da sala pifou e saímos frustrados por pagarmos caro (todos sabemos que os preços dos ingressos andam nas alturas) e simplesmente voltarmos pra casa sem ver a continuação do filme. A gerência nos disponibilizou convites para assistirmos a qualquer outra sessão, em dia e horário a nossa escolha, e voltamos nesta terça-feira, dia 12, para concluirmos o longa. Escolhemos a sessão das 17:20h, mas qual não foi a nossa surpresa e irritação quando, ao chegarmos próximos dos guichê da bilheteria, depois de enfrentar uma fila enorme, descobrimos que os ingressos para a sessão escolhida já estavam esgotados e tivemos que trocar os convites por ingressos da sessão das 20:30h. Foram mais três horas de espera e já estávamos impacientes, esperando que o filme realmente valesse à pena todo esse esforço. Ou seja, entramos na sala próximo às 20:30h (que desta vez atingiu sua lotação completa, não cabia mais ninguém ali). Eu já estava bem contrariado e torcendo para não me decepcionar. E, realmente, não me decepcionei.


Não que “Os Miseráveis” não tenha suas falhas. Elas estão lá e algumas até visíveis mesmo para o espectador médio que não costuma estar muito atento a detalhes técnicos. Tom Hooper não é um grande diretor (sua premiação pela Academia em 2010 foi um tanto equivocada) e aqui ele comete vários equívocos, principalmente nos enquadramentos utilizados, repletos de close-ups que por vezes cansam a imagem dos atores e se mostram ainda mais equivocados diante da bela reconstituição de época operada pela direção de arte. A edição é outro aspecto que se mostra trôpego, principalmente no início da projeção, o que soa estranho em um filme extenso como é o caso (convenhamos que a edição se torna mais complicada quanto menor for a duração de um longa). Além disso, o elenco se mostra oscilante e um dos personagens mais destacados, o inspetor de polícia Javert, conta com uma das interpretações mais equivocadas da carreira de Russel Crowe, um ator oscarizado que vem se perdendo cada vez mais.

Entretanto, a força da narrativa concebida originalmente por Victor Hugo, que tem como protagonista o ex-prisioneiro Jean Valjean (interpretado aqui por Hugh “Wolverine” Jackman), é mesmo atemporal. Hugo levou cerca de 30 anos concebendo o romance que dividiu originalmente em 5 volumes. Publicado em 1862, ele foi um sucesso de imediato, vendendo milhares de exemplares em Paris durante apenas 24 horas. Traduzido para dezenas de línguas, tornou-se uma das obras mais adaptadas para o cinema e a televisão, além de espetáculos teatrais (existem adaptações japonesas e até indianas do livro). Uma obra de apelo universal, portanto. No caso deste “Os Miseráveis” de Hooper, a matriz é o espetáculo musical francês concebido em 1980 por Claude-Michel Schönberg (compositor), Alain Boublil e Jean-Marc Natel (letristas). Depois do sucesso em terras francesas, ele foi adaptado para o inglês em 1985 (com tradução de Herbert Kretzmer) e caiu no gosto popular também em Londres. Hoje é um dos musicais mais populares de todos os tempos. Várias de suas canções se tornaram bastante conhecidas, sendo o caso clássico “I Dreamed a Dream”, música que foi regravada por estrelas como Aretha Franklin e recentemente esteve na paradas de sucesso depois que Susan Boyle, participante de um reallity show britânico, cantou-a no programa de TV e impressionou o mundo todo com sua interpretação. Em síntese: este “Os Miseráveis” atualmente em cartaz é uma adaptação da adaptação, algo frequente dentro do gênero musical (como é o caso de clássicos como “Amor ,Sublime Amor”, por exemplo).



Na trama, o citado Jean Valjean passa 19 anos na cadeia, incluindo trabalhos forçados, por ter furtado um pedaço de pão para sua irmã e sobrinhos com fome. Ele é finalmente posto em liberdade condicional, mas acaba se tornando foragido após mudar o nome para começar vida nova. Torna-se, então, um cidadão respeitável, dono de uma fábrica e prefeito local. No entanto, o inspetor de polícia Javert nunca desiste de encontrá-lo, desenvolvendo uma verdadeira obsessão pela caçada a Valjean. Este último, por sua vez, acaba adotando Cosette (interpretada na infância por Isabelle Allen e na juventude por Amanda Seyfried), filha de Fantine (Anne Hathaway em estado de graça!), uma desventurada costureira de sua fábrica. Cosette, por sua vez, acaba se apaixonando por Marius (Eddie Redmayne), um jovem nobre que se envolve no movimento revolucionário que culminaria nas revoltas parisienses de 1832. Tal como na vida, Hugo colocou na mesma panela questões sociais e sentimentais, dando à sua obra uma força que ultrapassou o tempo e as fronteiras. Da mesma forma, Hooper, a desfeito de suas falhas, consegue transpor a barreira do gênero e fazer de “Les Misérables” um longa apreciado por qualquer espectador, um espetáculo épico belo e envolvente.

Deve-se frisar, por outro lado, que boa parte do feito se deve às músicas, várias delas lindas e marcantes. E elas ganham ainda maior relevância diante da ótima interpretação da maior parte do elenco. Sabe-se que Hooper deixou de lado as gravações das canções em estúdio (recurso comum nos musicais) para fazer com que seu elenco as interpretassem “ao vivo”, no próprio set de filmagens. É certo que, se tal expediente gera algumas sensíveis desafinadas na tela, por outro lado ele proporciona uma interpretação mais verdadeira e visceral dos atores. Hugh Jackman demonstra bem tal afirmação com uma boa performance para Valjean, fazendo valer a sua indicação ao Oscar de melhor ator (já levou o Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical). Temos também boas surpresas como Samantha Barks, intérprete de Eponine, personagem feminina que nutre um amor não correspondido por Marius. Entretanto, não há como negar o assombro da presença de Anne Hathaway no longa. Com cerca de 30 minutos durante a projeção, ela rouba a cena e arrebenta como Fantine. A sequência em que ela interpreta a citada “I Dreamed a Dream”é, desde já, histórica, algo que dificilmente será igualado por qualquer outra atriz que venha a interpretá-la.


Apesar de suas dificuldades, Hooper conseguiu trazer para a tela uma bonita visão do clássico francês, algo que não deixará o espectador indiferente, por mais que possa ter resistência ao gênero em questão. Uma visão que não suaviza a miséria, nem se propõe a traçar painéis sociológicos e que deixa uma ótima impressão ao fim da sessão. Eu, apesar das dificuldades para ver o longa, desde a minha resistência a musicais até os contratempos com a exibição, senti-me recompensado com sua bela imagem final (minha esposa, registre-se, gostou ainda mais, já que ela adora musicais). Tendo em vista os aplausos ao fim da sessão, o público presente também sentiu da mesma forma e, vamos convir, não é comum um musical fazer as pessoas aplaudirem espontaneamente sua conclusão.

Cotação:



Nota: 9,0

domingo, 20 de janeiro de 2013

Cinemúsica

La Bamba
(La Bamba, 1987)



Rigorosamente meteórico


Se você gosta de música, mais especificamente de rock, já deve ter ouvido falar do “dia em que o rock morreu”. A alcunha foi atribuída ao dia 03 de fevereiro de 1959, data em que um avião fretado caiu depois de enfrentar uma tempestade de neve. Entre os passageiros estavam três jovens astros ascendentes na música pop: Buddy Holly, Big Bopper e o mais novo deles, Ritchie Valens, então com apenas 17 anos. Valens teve uma carreira rigorosamente meteórica. Desde que foi descoberto pelo produtor Bob Keane até o fatídico acidente aéreo, transcorreram apenas 8 meses durante os quais ficou famoso ao lançar sucessos como “Come On Let's Go”, “Donna” e a versão rock 'n roll para a tradicional música mexicana “La Bamba”, a qual também acabou se tornando o título da cinebiografia do cantor produzida em 1987 e que acabou se transformando em um dos clássicos oitentistas, dada a grande popularidade que alcançou.

Escrito e dirigido por Luis Valdez, diretor eminentemente de filmes televisivos, o longa-metragem conta de forma redonda a vida do astro (interpretado por um inspirado Lou Diamond Phillips), cujo nome verdadeiro era Ricardo Esteban Valenzuela Reyes, estadunidense de ascendência mexicana nascido em Pacoima, distrito de Los Angeles. Apesar de sua origem latina, Valens pouco falava espanhol e possuía uma identidade cultural mais ligada aos Estados Unidos, sendo perceptível a enorme influência de Elvis Presley em sua breve carreira. Entretanto, mais do que o aspecto profissional, é sobre a vida pessoal do rapaz que o roteiro se debruça, esmiuçando sua vida familiar e o conturbado relacionamento com o irmão, Bob (Esai Morales), rapaz-problema que não consegue sair da delinquência. A vida marginal poderia ser o mesmo destino de Ritchie caso ele não fosse apaixonado pela música o suficiente para acabar não nutrindo outros interesses. Sua única outra fonte de atenção era Donna Ludwig (papel da desconhecida Danielle Von Zerneck), seu amor de colégio que inspirou a composição do mencionado hit “Donna” (e que canção pegajosa, hein?) 


Curioso como, ao longo da projeção, algumas cenas possuem tamanha força que elas continuam em nossa memória mesmo depois de muitos anos sem vermos o filme. Em “La Bamba”, a sequência em que Valens apresenta sua composição “Donna” para a própria musa inspiradora (que hoje ainda é viva), de violão em punho em uma cabine telefônica, nunca me saiu da mente e é de um romantismo pra lá de eficiente. Da mesma forma, a sua primeira apresentação cantando “La Bamba” é memorável, jogando na tela toda a energia roqueira da versão de Valens, que transformou a canção folclórica em um sucesso mundial até hoje. E ainda temos os momentos no aeroporto antes da partida do avião, quando o protagonista pega o voo depois de disputar a sorte na moeda com um outro possível passageiro. Percebe-se, assim que Valdez é hábil com as imagens e ótimo em construir o clima narrativo, aproximando-nos do astro e nos fazendo sentir como um parente seu. Ou seja, o envolvimento com a narrativa é inevitável, mesmo que você já saiba como a história terminará.

Entretanto, Valdez acaba se deixando levar por armadilhas clichês, principalmente nas derradeiras cenas, onde adota elementos como imagens em câmera lenta de Valens, um dos mais pobres recursos típicos da televisão, caindo em uma pieguice desnecessária. Ademais, o elenco mostra-se muito oscilante. É certo que Lou Diamond Phillips tem aqui a grande atuação de sua carreira, que estava ainda em um momento de ascensão. No ano seguinte, inclusive, ele seria indicado ao Oscar de ator coadjuvante por “O Preço do Desafio” (Stand and Deliver, 1988) e ainda participou de sucessos como “Os Jovens Pistoleiros” (Young Guns, 1988). Contudo, acabou enfrentando uma declínio não muito explicável e hoje se limita a fazer papeis coadjuvantes em séries de TV. Outro que mostra talento é Esai Morales na pele do irmão problemático de Valens. Por outro lado, Danielle Von Zerneck é uma atriz fraquinha, fraquinha e entendemos logo porque ela não teve muito futuro depois deste longa, mesmo com um papel de destaque.


Mas, vale ressaltar: ao fim do longa é quase impossível não se consternar com o destino daquele rapaz cheio de vida e que teve sua trilha de sucesso tristemente encurtada. O nosso Raul Seixas, inclusive (outro nome da música que morreu antes do que deveria), ressaltava que no fatídico dia da queda do avião, a música não perdeu apenas três jovens astros, mas também toda a produção posterior que eles certamente iriam legar, tanto em termos quantitativos quanto em influência para os artistas seguintes. Talvez por isso, mesmo que frequentemente obras como “La Bamba” se mostrem imperfeitas, elas ao mesmo tempo são muito relevantes ao buscar preservar a imagem e revigorar o legado de artistas que já se foram há algum tempo e merecem que seu talento seja visto por novas gerações. Aliás, não sei porque alguém ainda não teve a ideia de fazer um filme sobre Buddy Holly, morto no mesmo acidente e ainda mais influente no meio musical do que Valens.


Cotação: 



Nota: 8,0

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Cinemúsica


Amor, Sublime Amor
(West Side Story, 1961)


O avô de “Beat It”



Não sei se alguém já havia tocado neste ponto antes, mas vendo por esses dias o clipe de “Beat It”, um dos grandes sucessos do álbum “Thriller” do lendário Michael Jackson, acabei observando que ele traz uma síntese de boa parte da trama de “Amor, Sublime Amor” (West Side Story), clássico musical dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins em 1961 e um dos precursores em abordar a temática das gangues de jovens que hoje estão meio que fora de moda – no Brasil parecem ter sido substituídas pelas torcidas organizadas de clubes e nos EUA pelos lunáticos que atiram a esmo em escolas e cinemas (seria mais um sintoma do individualismo exacerbado?). Tanto no videoclipe como no longa-metragem vemos jovens desocupados que empregam seu tempo em promover rixas e atos de vandalismo ao som de músicas pop e dançando com ótimas coreografias. Não estou querendo dizer que Jackson copiou um dos baluartes do fim da era de ouro dos musicais, mas me pareceu evidente a sua influência, principalmente na sequência que vemos em ambos de líderes duelando com canivetes, o que talvez seja sintoma de que os videoclipes não existiriam sem os musicais.

Aliás, a própria narrativa de “Amor, Sublime Amor” é um bom exemplo de que no mundo pop a reciclagem de ideias é um recurso já bem antigo, não sendo exclusivo da Hollywood contemporânea, pois que o longa nada mais é do que uma atualização de “Romeu e Julieta”, peça de William Shakespeare conhecida por todos, para o ambiente da Nova York do fim dos anos 50/início dos 60. Saem as famílias dos Capuletos e Montecchios da narração shakespeariana e entram as gangues dos Jets e dos Sharks, os primeiros integrados por norte-americanos nativos, anglo-saxões, e os segundos formados por imigrantes porto-riquenhos. É no meio desse conflito de conotações xenófobas que surgirá o amor entre Tony (Richard Beymer) e Maria (Natalie Wood), ele primo de Riff (Russ Tamblym), líder dos Jets, e ela irmã de Bernardo (George Chakiris), líder dos Sharks. Cabe destacar, ainda, que o filme já é uma adaptação de um espetáculo musical da Broadway, de autoria de Arthur Laurents e encenado pelo próprio Jerome Robbins, o qual assinou aqui a codireção com Wise. Ou seja: a versão cinematográfica de “West Side Story” se constitui na adaptação da adaptação. E ainda dizem por aí (eu me incluo nesse coro) que o cinema dos anos 2000 está “carecendo de criatividade”.


Afirmar que o citado longa é “a adaptação da adaptação” não significa afirmar, entretanto, que ele é um filme ruim. Pelo contrário. “West Side Story” é uma obra poderosamente imagética, aliando a esta característica a música e a dança com muita competência. Desde a longa sequência de abertura, sem diálogos, percebemos que estamos diante de uma película diferenciada, com um padrão artístico elevado. Realmente, são várias as suas virtudes, como a criatividade das coreografias – dirigidas por Robbins, pois que para Wise ficavam as cenas com diálogos tradicionais – além de canções inspiradas como “Maria”, “Tonight” e “America” (algumas delas transcenderam o filme e passaram para a categoria de standards norte-americanos). E, mais relevante ainda, o roteiro (de Ernest Lehman) consegue tocar em muitos pontos relevantes e que nunca perdem a sua atualidade, como a citada xenofobia, a ilusão da imigração como panaceia para aqueles que buscam oportunidades, além da ausência da família na formação dos jovens, que acabam por traçar caminhos sem rumo e procuram preencher seu vazio com a violência. Um quadro que, em linhas gerais, não se apresenta muito destoante de hoje. Adicione-se a tais elementos uma produção impecável que fugiu do cenários de estúdio e realizou as filmagens em uma área abandonada de Nova York que estava prestes a sumir do mapa para posterior recuperação (a demolição da zona foi adiada a pedido da produção do filme).

Pena que nem tudo são flores, principalmente no que diz respeito à atuação do elenco, que se apresenta irregular, mormente o protagonista Tony. Richard Beymer é um ator fraco, quase inexpressivo (em entrevistas posteriores, o próprio Wise admitiria o erro na escolha), o que nos faz lamentar o fato de Elvis Presley não ter aceitado o papel, o que já de antemão ao menos conferiria maior presença ao personagem, além do que cantaria com sua própria voz, diferentemente de Beymer, o qual foi dublado na pós-produção. Além disso, colocar os porto-riquenhos falando inglês com sotaque até em conversas entre eles (não seria mais fácil falar em espanhol?) soa muito caricatural. Este recurso da dublagem, ademais, algo que era comum na Hollywood de então, soa meio que tosco para o público atual, acostumado a ver atores até dispensando dublês para cenas de risco, que dirá ter aulas de canto. Natalie Wood também foi vítima do procedimento e suas cenas cantadas resultaram com um forte gosto de artificialidade (ela foi dublada por Marni Nixon nas canções). Todavia, se Beymer foi um fracasso interpretativo, Natalie mais uma vez nos entregou uma performance apaixonada, como era do seu feitio. No mesmo nível desta estão as presenças de George Chakiris, no papel de Bernardo, e Rita Moreno como Anita, namorada de Bernardo e amiga de Maria. Não por acaso ambos foram agraciados com as premiações para atores coadjuvantes no Oscar, que me pareceram bastante merecidas.


Cheio de nuances trágicas - afinal, não custa lembrar que se trata de uma adaptação de Shakespeare - “Amor, Sublime Amor” surge como precursor mais distante de uma linguagem que une o visual ao musical voltada para o público jovem (um precursor mais imediato seria “ A Hard Day's Night”, com os Beatles), linguagem esta que acabaria por redundar nos videoclipes como os de Michael Jackson. Vencedor de 10 prêmios da Academia de Hollywood (além dos já mencionados pelas atuações, levou também de melhor filme, direção, figurino, direção de arte, fotografia, som, edição e, obviamente, trilha sonora), o longa permanece como uma referência pop relevante e um dos grandes representantes (mesmo diante de suas imperfeições) de uma era em que os musicais levavam um grande público às salas de exibição. Pouco tempo depois, musicais como este dariam espaço para os talentos da Nova Hollywood, onde os próprios jovens seriam responsáveis por externar suas dores e pensamentos.


Cotação:

Nota: 9,0

sábado, 23 de junho de 2012

Trilha Sonora #23


No último dia 20 de maio, Robin Gibb, um dos integrantes dos Bee Gees, faleceu vítima de câncer. Você conhece alguém que não gosta dos Bee Gees? Existe essa pessoa? Acredito que os Bee Gees estão entre as bandas favoritas de qualquer um (a) - eu incluso! Aqui, mesmo que tardiamente, o "Cinema Com Pimenta" presta sua homenagem a Robin e toda a banda com a sequência abaixo. "Os Embalos de Sábado à Noite" (Saturday Night Fever, 1977), dirigido por John Badham, teve em sua trilha sonora várias canções do grupo australiano, sendo, durante muito tempo, a mais vendida de todos os tempos (perdeu o posto para a trilha de "O Guarda-Costas"). Ah, e quem nunca tentou imitar os passos de Tony Manero (personagem de John Travolta no longa) que atire a primeira pedra. Sobe o som e afasta o sofá!



terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O Artista


Embalagem ousada, conteúdo convencional


Sempre defendi a posição de que cinema é imagem e, sendo assim, o filme que consegue contar a sua estória privilegiando seu poder imagético sobre as palavras normalmente alcança um nível de acuidade artística superior. Não que isso seja uma regra absoluta. Woody Allen é autor de filmes bastante verborrágicos, mas nem por isso deixam de atingir uma admirável qualidade. Contudo, não custa lembrar que o cinema começou sem som, ou seja, podemos tirar o som de uma película e ela continuará sendo cinema. Todavia, se tirarmos sua imagem poderemos afirmar que se trata de qualquer outra arte, menos cinema. É justamente deste conflito entre imagem e som de que trata “O Artista”, longa indicado a 10 prêmios Oscar e que vem sendo considerado o grande favorito para a noite da premiação no próximo dia 26.

Não que a temática seja exatamente nova. O clássico “Cantando Na Chuva” (Singin' In The Rain, 1952) já abordava a fase de transição do cinema mudo para o sonoro que se iniciou a partir de 1927, quando “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer, de Alan Crosland) surgiu como o primeiro longa em que se podia ouvir a voz dos atores – mesmo que, ao contrário do se pode pensar, ele não tenha sido inteiramente falado, possuindo apenas duas sequências com diálogos (o primeiro filme inteiramente falado foi “Luzes de Nova York”, de 1928, dirigido por Brian Foy). Essa alteração técnica no modo de produzir filmes talvez tenha sido a que gerou mais impacto em toda a história da Sétima Arte, possivelmente ainda mais do que a introdução das cores, gerando resultados por vezes catastróficos para profissionais que não se adaptaram aos novos tempos. Isso aconteceu notadamente com os atores do cinema mudo, vários dos quais estrangeiros com forte sotaque que acabaram por ser alijados do processo.


É esta a dificuldade enfrentada por George Valentin, o personagem interpretado por Jean Dujardin em “O Artista”. Astro adorado pelo público, ele vê sua carreira ir por água abaixo após subestimar o potencial da nova tecnologia e acreditar que as pessoas iriam continuar vendo sua imagem não se importando se ele falaria ou não. Em contrapartida, uma de suas fãs, Peppy Miller (interpretada pela argentina Bérénice Bejo), a quem ele deu uma força para ingressar nos meandros hollywoodianos, termina por alcançar enorme sucesso valendo-se de sua bela voz em filmes musicais. Aliás, esse é um gênero que, decididamente, só pôde surgir no cinema a partir da criação dos filmes sonoros. Esta trama simples é o suporte para que o quase desconhecido diretor e roteirista Michel Hazanavicius ponha em prática um grande exercício de metalinguagem, trazendo resultados formais belíssimos, mas que não alcançam o mesmo patamar em termos substanciais.


Não se pode negar que Hazavicius foi ousado em conceber um longa-metragem mudo e em preto e branco em pleno século XXI. Diante dos barulhentos filmes contemporâneos, vários dos quais promovem poluições sonoras semelhantes ao trânsito da hora do rush, é um alívio assistir a uma produção silenciosa continuamente sublinhada por uma bela trilha sonora (composta por Ludovic Bource). Ademais, o seu p&b, realizado a partir da descolorização de uma filmagem tradicional, possui um contraste perfeito, assemelhando-se àquelas fotos antigas que adoramos admirar (a fotografia também me lembrou bastante a de “A Lista de Schindler”). Ademais, o roteiro é fluido, fazendo a projeção correr redondinha, sem atropelos ou furos, além de contar com as ótimas atuações de Dujardin e Bejo (a cena em que Peppy Miller usa um casaco para “se fazer abraçar” por Valentin é deveras bonita e expressiva) . Ou seja, em vários aspectos constitui realmente aquele tipo de filme que os Weinstein costumam produzir ou, como nesse caso, apadrinhar para alcançar êxito nas festas da Academia de Hollywood.

Tudo funciona certinho, bem calculado (tem até um cachorrinho para deixar a plateia encantada). Entretanto, lembra aqueles desfiles de samba em que uma das escolas, com um desempenho vibrante, rouba a cena na avenida, mas acaba perdendo o campeonato para uma outra que nem chamou tanta atenção assim, levando o troféu com um desfile sem alma, mas tecnicamente irrepreensível. E talvez seja esta a metáfora perfeita para “The Artist”. É uma película muito agradável, mas lhe falta um tanto de alma, vibração, entranhas. Seu aspecto calculado em detalhes parece por vezes disfarçar uma certa ausência de conteúdo. O romance que lhe dá esteio pode até mesmo soar prosaico demais. Basta lembrar que costumamos criticar as comédias românticas por serem extremamente previsíveis, atributo que também recai com facilidade no longa de Hazanavicius. Desde o princípio já percebemos que rumos os personagens e seus sentimentos tomarão e, se você tiver o conhecimento prévio da temática que será abordada, já será possível antecipar qual a crise pela qual passará o personagem de Dujardin. Esta ausência de surpresas ou complexidades torna a experiência fugidia, por melhor que seja a sua mise-en-scène.

Este conflito entre embalagem e conteúdo me acompanhou durante a maior parte dos 100 minutos da produção. Ao mesmo tempo que admirava sua plástica, não me empolgava a sua trama que, como já mencionado, faz um uso de metalinguagem já visto em tempos antanhos. Ademais, também me preocupa constatar que hoje em dia uma obra é considerada “original” ao copiar fórmulas de 80 anos atrás. Nem sempre ousadia significa originalidade e muitas vezes ela pode ser usada para desviar a atenção de uma trama comum, que passaria despercebida caso fosse filmada de maneira convencional. “O Artista” pode até levar as dez estatuetas a que está concorrendo, mas isso não significa que será lembrado daqui a alguns anos.


Cotação:

Nota: 8,0

domingo, 2 de outubro de 2011

O espírito do rock se fez presente


Pausa no cinema.

É muito bom quando nós nos surpreendemos com algo inesperado. Sendo bem sincero, eu não estava dando muita bola para essa edição do Rock In Rio. Quando vi o line up do festival, notei a presença de uma quantidade muito grande de atrações que estavam bem mais pro pop do que pro rock, algumas de talento bastante duvidoso, é importante sublinhar (a escalação de Ke$ha me deu um embrulho no estômago).

Mas eis que as apresentações foram se seguindo, dia após dia, e fui me surpreendendo com o que estamos acompanhando. Esta quarta edição do festival vem contando com um público vibrante, empolgado e que sabe respeitar as diferenças entre aqueles que se apresentam. Claro que a organização também soube distribuir bem os dias das atrações, acabando com incoerências como colocar Carlinhos Brown para cantar no dia do Guns'n Roses (como em 2001) e evitando assim momentos constrangedores para os artistas. Mesmo que alguns shows acabem se mostrando de fato a mediocridade esperada, como o da citada Ke$ha (com sua voz ridícula, demonstrou que não tem mesmo condições de se apresentar em um festival como esse), outros tantos já se tornaram antológicos. São os casos de Stevie Wonder, que fez uma apresentação memorável com direito à galera cantando com ele “Garota de Ipanena”; Joss Stone, aquela menina talentosíssima (e bonita) e que fez um show incrível mesmo estando escalada para o palco Sunset (secundário), com o público gritando seu nome em coro ao fim da apresentação, além de Shakira, que arrebatou o público com um show empolgado (chegou a levar fãs pro palco para ensiná-las a dançar) e uma ótima participação de Ivete Sangalo em dueto cantando “País Tropical”. Outras apresentações memoráveis foram a do Capital Inicial, com um público vibrante e levantando poeira a cada música, e a homenagem à Legião Urbana, que teve participação da Orquestra Sinfônica Brasileira e dos dois integrantes remanescentes do grupo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, ocasião em que nem seriam necessários vocalistas, uma vez que o público cantava em uníssono todas as músicas.


O festival já seria ótimo com todos estes ótimos shows, mas este último sábado (e madrugada de domingo) resultou ainda mais especial. Todos as performances, de Frejat ao Coldplay, passando por Maná e Maroon 5, contaram com uma participação eletrizante do público. Em todas as apresentações, as pessoas entoavam as canções de início ao fim. Impressionante. O Skank fez um show definitivamente antológico. O próprio Samuel Rosa decidiu filmar o momento histórico. Como ele próprio disse “não é todo dia que se canta para 100 000 pessoas e todas elas estão interessadas na sua música”. O Maná cantou “Vivir Sin Aire” como se estivesse tocando no México, tamanha a empatia com a plateia e o coro que o acompanhava. O Maroon 5 foi na mesma balada. Acredito que os seus integrantes devem ter pensado “nossa, eles sabem todas as músicas”. E, por fim, veio o Coldplay com uma apresentação impecável, pirotécnica, fãs enlouquecidos e até com homenagem a Amy Winehouse (Chris Martin cantou “Rehab”). Eu quase chorei quando tocaram "Yellow"! Depois de ontem, creio que esta edição do Rock In Rio só rivaliza com a primeira, de 1985. Se eu já senti essa energia do sofá da sala, fico imaginando como seria estar lá. Espetacular!

Tudo isso só reforça uma opinião que sempre tive: não existe público como o brasileiro. Nós temos muitos defeitos, mas também é verdade que somos calorosos como nenhum outro povo é no mundo. Acredito que muitos dos artistas que se apresentaram nesta edição do festival vão querer lançar DVDs ou Blu-Rays com seus respectivos shows. Não é pra menos. O público do Brasil está demonstrando nesse festival o estado de espírito que o País está vivendo, encarando o presente de forma positiva e com mais otimismo ainda quando olha para o futuro. Alguns amuados podem dizer que essas coisas só servem para fazer o povo esquecer do que é realmente importante. Entendo a crítica, afinal o povo brasileiro não se reúne em multidões para protestar contra a corrupção, por exemplo. Mas, como diz uma antiga música de uma famosa banda nacional, nós também queremos “diversão e arte”. E hoje ainda tem o Guns'n Roses para terminar o festival. Provavelmente também vai arrepiar, neste festival que, mesmo com tantas estrelas “pop” convidadas, mostrou que o espírito do rock está presente mais do que nunca.

Abaixo, seguem alguns vídeos com momentos especiais desta quarta edição do Rock In Rio. Ah, e não, não estou escrevendo tudo isso para fazer marketig para Roberto Medina. Eu apenas gosto de música mesmo... :=)











sexta-feira, 26 de agosto de 2011

George e Scorsese


Essa foi uma das ótimas notícias que tivemos essa semana. "Gorge Harrison: Living In The Material World", o documentário de Martin Scorsese sobre o Beatle George Harrison ganhou um trailer bastante estimulante. Nossa, a vida de um beatle contada pelo cineasta mais musical do cinema vai ser de arrepiar! O documentário foi comprado pela HBO norte-maericana, que vai exibi-lo como um especial em duas partes, dias 5 e 6 de outubro. Além disso, o filme deve rodar festivais mundo afora, começando pelo de Nova York, que acontece de 30 de setembro a 16 de outubro. Aguardando! Veja o trailer abaixo!


sábado, 6 de agosto de 2011

Cinemúsica



Os Reis do Iê Iê Iê
( A Hard Day's Night, 1964)


O registro documental e surreal de uma revolução


Não é tarefa fácil dimensionar a importância de “A Hard Day's Night” para a cultura pop contemporânea. Sua influência vai muito além da sétima arte. Aliás, no âmbito meramente cinematográfico sua relevância nem é tão acentuada, muito embora também seja responsável por inovações estilísticas também nessa área. A verdade é que o filme, para além de uma mera película, transformou-se na catarse de uma geração, poucas vezes sintetizada de forma tão brilhante. Sua irreverência, tradução visual de uma característica da própria banda que é o foco da produção, se coloca como oposta a todo o status quo vigente. Nada mais jovem. E, de forma impressionante, o filme se mostra muito mais jovial do que muitos longas voltados para esse público nos dias atuais. A banda em questão, The Beatles, foi o maior fenômeno pop de todos os tempos. Sucesso de público e crítica mesmo décadas depois de sua separação, naquele momento (1964) se desenhava a explosão da beatlemania. Uma febre de juventude varria o mundo por meio daqueles quatro rapazes cabeludos de uma cidade portuária da Inglaterra. Um estouro que iria resultar não apenas em cerca de 2 bilhões de discos vendidos. Afinal, os Beatles foram bem além de um mero fenômeno mercadológico.

Por outro lado, aqueles eram também tempos mais puros, uma época em que os Fab Four ainda não haviam sido apresentados às drogas por Bob Dylan, fato que os levariam a experiências lisérgicas que proporcionariam ainda uma outra revolução que a ser cristalizada nos álbuns “Revolver” e “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, verdadeiras obras primas musicais e símbolos de uma nova forma de percepção da realidade. “Os Reis do Iê Iê Iê” (título brasileiro para o original de difícil tradução) é o recorte do tempo em que John, Paul, George e Ringo viviam correndo da enxurrada de fãs que os acompanhavam em qualquer nova parada de suas turnês, ainda com seus terninhos bem comportados, um grupo de garotos ainda surpresos com a fama gigantesca que estavam alcançando com sua música atordoante.

É possível que a felicidade na apreensão dessa atmosfera se deva ao fato de que Richard Lester, diretor do longa-metragem, também era ainda um jovem à época da produção. Ele contava apenas 32 anos quando assumiu a batuta, tendo sido escolhido por John Lennon, o qual havia gostado muito de um dos seus curtas anteriores, “The Running Jumping & Standing Still Film”, estrelado por ninguém menos que Peter Sellers. Natural, então, que houvesse por parte dele uma maior facilidade para entender aquele espírito libertário. Lester concebeu algo que foi além de uma mera peça publicitária de uma banda da moda. Realizou uma espécie de documentário-non-sense sobre o dia a dia de estrelas do rock no auge do sucesso, alcançando uma espécie de realismo-surreal (se é que podemos definir algo de forma tão paradoxal). Para tanto, utilizou-se de uma humor refinado e ao mesmo intuitivo, inspirado nos Irmãos Marx, bem de acordo com aquele destilado pelo quarteto de Liverpool em suas entrevistas para a imprensa, sempre respondendo às bobagens perguntadas por esta com a mais fina ironia (não à toa há uma sequência no filme apenas com o grupo respondendo a perguntas tolas dos jornalistas). O filme pode até parecer a muitos uma comédia de absurdos, dado o alto número de situações non-sense apresentadas, boa parte capitaneadas pelo ator Wilfrid Brambel, experiente profissional com boa carreira na TV inglesa e interpretando aqui o avô “muito limpo” de Paul McCartney. É de seu personagem que saem conselhos no melhor estilo “carpe diem”, insuflando-os a jogar os livros fora e aproveitar a juventude que lhes resta. E é seguindo esses conselhos que Ringo se mostra o melhor ator da trupe, meio que encarnando o espírito irônico e anárquico da banda em sequências sensacionais, como aquela em que ele sai vagando pelas ruas sem saber ao certo o que fazer *.


O próprio título do longa está longe do convencional. Em verdade, ele foi criado por Ringo (mais uma vez ele), de forma involuntária, ao se queixar de que eles estavam trabalhando duro dia e noite. Ao ouvir a frase “it's been a hard day's night”, Lester afirmou que ela tinha de ser o título do filme e que os artistas deveriam compor uma canção em cima da mesma. A sessão de gravação da faixa durou apenas três horas, tempo necessário para que o grupo inventasse o poderosíssimo acorde que abre a música - e que acabaria também por abrir o filme. Impressionante como esse acorde parece ser a síntese de toda a explosão da beatlemania e a primeira sequência do longa também se apresenta em igual medida, traduzindo em imagens o fervor de uma época (os figurantes da cena foram fãs de verdade, recrutados pela produção). E vamos, então, ouvindo e vendo uma sucessão de petardos dos Beatles, como “I Should Have Known Better” (composição de John inspirada no estilo de Dylan), “And I Love Her”, “Can't Buy Me Love”, entre outras, e culminando em um show no teatro Scala de Londres ao fim da projeção **. É importante sublinhar, ademais, o “ouvindo e vendo” do período anterior, já que “Os Reis do Iê Iê Iê” se transformou em uma espécie de marco zero do que seria conhecido mais tarde como videoclipe. A sua associação de música e imagem tornou-se a base desse produto do pop.

Quase cinco décadas depois, “A Hard Day's Night” surge ainda como uma película sui generis, difícil de classificar como um musical, um documentário ou uma comédia (talvez seja tudo isso junto) e com o bônus extraordinário de vermos e ouvirmos a maior banda de todos os tempos em ação. Interessante que Lester não obteria um resultado tão feliz no filme seguinte com o quarteto, “Help”, de 1965. Talvez porque neste último os próprios Beatles já não tenham contribuído muito, uma vez que nesta segunda ocasião já estavam mais preocupados em fumar ervas e se encontravam-se chapados demais para levar as filmagens a sério. Sim, aqui eles já haviam sido apresentados às drogas por Dylan, o que os levaria a outros caminhos, uma nova fase se anunciava. Mas o registro de sua primeira fase com “A Hard Day's Night” é mesmo definitivo.


Cotação e nota: Já me esforcei muito para tentar escrever um texto com certo distanciamento. Não peça que um fã dos Beatles estabeleça uma “nota” ou “estrelas” para esse filme. Abstenção!

* Segundo declarações dos próprios integrantes da banda, Ringo estava com uma baita ressaca durante as filmagens desta sequência.

** Um dos figurantes da plateia no teatro era Phill Collins, com apenas 13 anos.

Obs. Resenha escrita ao som do álbum "A Hard Day's Night"!

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Trilha Sonora #18


Eu assisti a "O Sol da Meia-Noite" (White Nights, 1985) há muitos anos e não lembro muito dele. Recordo da presença do famoso bailarino Mikhail Baryshnikov, o qual interpreta um personagem com tons semelhantes aos da sua própria biografia, já que ambos fogem da antiga União Soviética e se naturalizam norte-americanos. Mas, principalmente, nem eu e nem niguém esquece da canção vencedora do Oscar "Say You, Say Me", de Lionel Ritchie (por onde ele anda?). Quem viveu os anos 80 deve sentir saudade dessa!


domingo, 15 de maio de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Minha Bela Dama
(My Fair Lady)


Beleza e misoginia



“My Fair Lady” é um filme anacrônico. Lançado no circuito comercial em 1964, ele ainda possui um clima e know-how típicos do studio system que controlava o cinema estadunidense até meados da década de 60, e que seria dali a pouco substituído pelo cinema autoral da Nova Hollywood. Esta enfrentava uma crise criativa acentuada e um severo descompasso com uma nova sociedade que nascia, dominada não mais pelos valores dos mais velhos, mas pela contestação e iconoclastia dos mais jovens. Afinal, em 1964 a beatlemania já dominava o mundo, revolucionários como Ernesto Guevara inspiravam as mentes ansiosas por mudanças em um mundo decrépito e a pílula anticoncepcional já começava a promover uma revolução nos costumes sexuais. A verdade é que a produção cinematográfica, talvez por ser muito cara, reagiu de forma tardia a esse turbilhão de mudanças. Ou, talvez, porque o mercado consumidor ainda não fosse dominado pelos jovens.

Neste cenário, os oito Oscars que o filme recebeu soam como um manifesto sinal de atraso da Academia, ainda extremamente apegada aos valores caros à sua era de ouro. Nada mais distoante da crescente liberação feminina do que a misoginia de “Minha Bela Dama”, uma película que mostra um abastado e machista linguista que encontra em uma florista de rua o alvo perfeito para a realização de uma “experiência”, na realidade uma aposta com seu amigo coronel e também aristocrata. O professor Henry Higgins (Rex Harrison), ademais, é de uma rudeza singular, perfeitamente incapaz de demonstrar sentimentos pelas pessoas e em especial por Eliza Doolitle (Audrey Hepburn), a qual representa uma ameaça à sua solteirice convicta. E nada mais anti-feminista do que vermos Eliza se apaixonar justamente por um homem que sequer lhe trata com educação.

Claro que, por outro lado, o filme possui outras conotações mais inspiradoras. Adaptação de um musical da Broadway, o qual por sua vez foi baseado na obra “Pigmaleão” do escritor George Bernard Shaw, a trama (com roteiro de Alan Jay Lerner) não deixa de ser uma feroz crítica à artificialidade da sociedade burguesa, bastante acostumada a olhar as pessoas apenas pelo seu exterior. Sintomático que Higgins, um intelectual de família tradicional, seja, em verdade, um homem bruto, enquanto a aparentemente embrutecida Eliza é, em verdade, a dama que se traduz no título da película. A essência de cada um não se transforma por suas posses ou aparência. Pelo contrário, é possível que riqueza e conforto apenas acentuem a verdadeira natureza de cada um.


Não se pode negar, ademais, que “My Fair Lady” sempre será lembrado por méritos performáticos e técnicos. É bom recordar que a direção é de George Cukor, um dos grandes expoentes da Hollywood clássica e dono de um talento especial para trabalhar com temáticas femininas e tirar das atrizes o melhor de seus dons interpretativos e que aqui levou o seu merecido prêmio da Academia (outros de seus trabalhos famosos são “Núpcias de Escândalo” e “A Costela de Adão”). O elenco, por sua vez, é simplesmente brilhante. O Oscar entregue a Harrison ficou em ótimas mãos. Ele encarna à perfeição o seu intratável Higgins, encontrando um timing memorável com Audrey Hepburn, esta em mais um papel que seria marcante em sua carreira. Curioso que Audrey foi dublada em várias das sequências musicais, o que a deixou extremamente irritada e talvez tenha sido esse o motivo de sua não indicação ao Oscar de melhor atriz na ocasião. Vale dizer ainda que ela substituiu Julie Andrews, a qual havia representado Eliza na Broadway e seria a primeira cotada para o papel, por motivos óbvios. Outro que se destaca em sua atuação é Wilfrid Hyde-White, interpretando o coronel Hugh Pickering, o cordato e sensato amigo com quem Higgins realiza a aposta que serve de mote da trama, além de Stanley Holloway, como o pai de Eliza, o qual protagoniza alguns do melhores momento musicais do longa, muito embora suas inserções apareçam, por vezes, como pontas soltas do roteiro. Já a direção de arte e os figurinos (de Cecil Beaton) são memoráveis e, com inteira justiça, levaram os prêmios da Academia.

No entanto, apesar de várias sequências divertidas, “Minha Bela Dama” é dotado de uma extensa duração (quase três horas) em que pouco acontece em termos de desenvolvimento da trama. Não é à toa que o crítico Adré Techniné, da Cahiérs du Cinema, ficou admirado com o seu “surpreendente vácuo” e essa sensação de quase nada acontecendo pode causar enfado em muitos (um romance sem beijo ou "eu te amo", dirão outros). Mas o maior demérito do longa não deixa de ser sua ode ao machismo que se mostra principalmente em sua conclusão, de causar arrepios nas feministas mais arraigadas. Entretanto, Tal circunstância não impediu que sua trama e personagens se tornassem uma espécie de mito moderno, copiados diversas vezes não só no próprio cinema como na televisão (várias novelas da Globo, por exemplo, já se valeram de sua premissa). E assim, não deixa de ser uma obra essencial para compreender uma parcela da cultura pop que vigora até os dias de hoje, apesar de ter nascido em um momento histórico-social dissonante do seu conteúdo.


Cotação:

Nota: 8,0

terça-feira, 22 de março de 2011

Quero Ver Novamente #11

Atire a primeira pedra aquele(a) que não gosta de "Grease"... Divertidíssimo! E como faz tempo que não vejo esse filme! Abaixo, a sequência de "Summer Nights", uma das canções mais lembradas do longa!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Eu Quero Esse Pôster #13




Você já viu algum poster semelhante a este logo acima? Os responsáveis pela arte promocional de "Johnny & June" (Walk The Line) alcançaram um resultado único!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Quero Ver Novamente #9

Desde outubro parece que o nome "Beatles" não tem dado trégua na mídia nacional. Nestes últimos meses, tivemos o aniverário de 70 anos de John Lennon (09 de outubro), os shows de Paul McCartney no Brasil em novembro e, no último dia 08/12, a lembrança dos 30 anos do assassinato de John.

Tudo isso me faz lembrar que um dos longas estrelados pelos Fab Four, "A Hard Day's Night" (conhecido no Brasil como "Os Reis do Iê, Iê, Iê!"), possui qualidade cinematográfica indiscutível. Dirigido por Richard Lester, o filme pode ser colocado como o responsável pelo futuro surgimento da MTV, já que a fórmula de assossiação imagem-música criada por Lester é, basicamente, a mesma utilizada até hoje nos videoclipes. Futuramente, os próprios Beatles utilizariam este conceito nos primeiros clipes da história da música pop, com as canções "Penny Lane" e "Strawberry Fields Forever". Ademais, poucos filmes captam tão bem o espírito de uma época, com a explosão da juventude e o surgimento do que hoje conhecemos como cultura pop. Este já está na minha lista de reprises para uma data bastante breve! Confira abaixo o estouro da beatlemania...



sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Trilha Sonora #14


"Cosmic Dancer" é a música que abre "Billy Elliot", em uma melhores sequências de créditos iniciais que já vi! Ela faz parte do álbum "Eletric Warrior", da banda "T-Rex" (cuja capa, inclusive, aparece na mencionada sequência), uma das bandas mais injustiçadas de todos os tempos! Curta clicando abaixo!




terça-feira, 18 de maio de 2010

Trilha Sonora #11

Foi lançado há poucos dias, no Brasil, a versão em DVD de "Música e Lágrimas" (The Glenn Miller Story), cinebiografia do genial músico Glenn Miller, bandleader da mais popular das big bands norte-americanas dos anos 40. Interpretado no filme por James Stewart, um dos atores mais carismáticos que já passaram pelas telas, Miller acabou falecendo em um misterioso desastre aéreo na Segunda Guerra Mundial, durante uma missão na Europa (só recentemente o acidente foi definitivamente esclarecido). Contudo, e felizmente, os gênios não morrem. Miller estará para sempre na memória dos casais de namorados (de qualquer época) por músicas como "Moolight Serenade", que você pode ouvir abaixo.



segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Eu quero esse pôster # 4

"Nine", a refilmagem em formato musical de "8 1/2", uma das obras magistrais de Federico Fellini (confira aqui mais detalhes), ainda nem estreou, mas os posters do longa já podem facilmente entrar na galeria dos mais memoráveis, pelo menos para o público masculino. Confiram abaixo essa beleza de arte e, principalmente, a beleza de suas figuras femininas (o que também já transforma esse post em mais um da série "Musas do Escurinho").



quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Michael Jackson's This Is It


Belo Epitáfio

Em 25 de junho do corrente ano, qualquer ser humano vivo e pensante sabe o que sucedeu neste planeta Terra. Michael Joseph Jackson, o denominado “Rei do Pop”, faleceu vítima de uma overdose de medicamentos. Nomes como Propofol e Demerol caíram na boca do povo enquanto a necropsia era realizada e, mais importante, uma comoção tomou conta do mundo inteiro, que finalmente parecia esquecer as esquisitices do ídolo do pop para enxergá-lo como o grande artista que sempre foi e, principalmente, como um ser humano, não apenas uma espécie de “ET” que servia de chacota em programas humorísticos e tabloides sensacionalistas.

Quando de seu falecimento, MJ havia finalizado os ensaios para o início de sua nova temporada de shows, após anos fora dos palcos. Seriam 50 apresentações em Londres, todas com ingressos esgotados com meses de antecedência. Tristemente, o astro não chegou a realizar sequer uma apresentação. Felizmente, a sequência enorme de ensaios, os quais, segundo a mídia, teriam levado o astro a uma estafa e a sentir fortes dores (consequência do ritmo forte da preparação aliado a problemas reumáticos), foi registrada em mais de 80 horas de gravações, um tesouro que, obviamente, poderia ser lapidado e levado aos fãs como um presente. Obviamente, tal iniciativa não substituiria os shows que a estrela faria e que foram cancelados pelo destino. Entretanto, a ideia era boa e foi exatamente isso que aconteceu. Alguns podem afirmar que “This Is It”, o documentário resultado da edição das mencionadas 80 horas de gravações, seja oportunista e caça-níquel. É uma afirmação que tem seu teor de verdade, principalmente se levarmos em consideração o caráter da família Jackson, mercenária até a raiz da alma. Mas também é verdade que o material merecia mesmo ser levado ao público, tal o conteúdo emocional e verdadeiro que se percebe ao longo de toda exibição do longa.

Dirigido com muita competência por Kenny Ortega, as escolhas das cenas levadas à projeção não poderiam ser mais felizes. Inicia-se com os depoimentos de vários daqueles que integraram a produção do show. Diretores, assistentes, dançarinos, todos vão falando sobre a experiência que era trabalhar com o mega-astro. E não há como negar a sinceridade das palavras e emoção. Afinal, quando das declarações, Michael ainda estava vivo e, é preciso dizer, num momento de grande baixa na carreira, gerado pelo processo judicial em que foi acusado de abuso sexual contra menores e o fracasso comercial do seu último trabalho, o álbum “Invincible”. O depoimento de alguns dançarinos, ao afirmarem que MJ foi a razão deles trilharem essa profissão, realmente atinge o coração do público. Em seguida, vemos o desenvolvimento dos ensaios como se fosse o próprio show. Vamos passando por vários clássicos do artista, como “You Make Me Feel”, “They Don’t Care About Us”, ‘I’ll Be There”, entre outros. Mas alguns merecem ser destacados. A execução de “Thriller” ganha novos ares com a exibição do vídeo em 3D que estava sendo elaborado para o espetáculo. Já “Beat It” tem sua coreografia minuciosamente detalhada e, mais ainda, conta com uma grande participação da loura-gata e guitarrista Orianthi Panagaris, que rouba mesmo a cena em várias sequências (tenho a impressão que essa menina vai receber uma profusão de propostas de trabalho a partir de agora). Um grande momento é a execução de “Smooth Criminal”, com MJ inserido nas imagens de “Gilda” (bom ver a Rita Hayworth)e contracenando com Humphrey Bogart. Outro ponto marcante é a apresentação solo da coreografia de Michael para Billie Jean, aplaudida entusiasmadamente por toda a equipe presente. Aliás, a ideia concebida por Ortega foi justamente a de elaborar o documentário como se fosse realmente o show que os fãs não tiveram oportunidade de assistir. Em determinado ponto, são mostrados até mesmo os efeitos especiais que seriam vistos apenas em Londres, quando alguns dançarinos têm suas imagens multiplicadas centenas de vezes. Uma das grandes curiosidades, ademais, é ver o Michael dos bastidores, com seu jeito extremamente exigente, mas sempre educado (ao contrário de muitas estrelas pop por aí que, com bem menos talento, são grosseiros e estúpidos com aqueles que os cercam).

É impressionante também notar algumas coincidências. No documentário, percebemos que os ensaios já haviam sido concluídos e que Michael morreu exatamente entre o fim dos preparativos e a estreia da série de shows. A despedida e agradecimentos ao fim soam estranhamente como um adeus do ídolo, e a conclusão se torna extremamente triste quando nos damos conta que todo aquele esforço foi despendido por um show que nunca aconteceu (vale ressaltar inclusive a boa forma de Michael, que nunca denotaria um estado de saúde comprometido).

A experiência se tornou ainda melhor ao pegar uma das primeiras sessões de exibição, repleta de fãs. Ao término, vários dos presentes aplaudiram de maneira empolgada o que viram e, se agradou desta forma aos muito exigentes fãs do astro, o longa deve ter mesmo atingido o pleno objetivo de tentar eternizar o momento que acabou se tornando o epitáfio de um gênio da cultura popular. E o seu título, “É isso” em português, também soa como o resumo de uma ópera que foi acompanhada pelo mundo inteiro desde a infância de Michael Jackson. Mesmo que você não seja fã, vale muito à pena conferir. Não será sem méritos se o filme vier a receber o Oscar na categoria melhor documentário ano que vem (e o trabalho se torna ainda mais impressionante se lembrarmos o pouco tempo que levou para ser realizado). Parabéns, Michael, pelo imenso talento que teve e pelo ser humano que foi. E, mesmo que sua família procure apenas os bônus financeiros do tesouro é que seu legado, se ao menos continuar entregando aos cuidados de gente competente como no caso deste “This Is It”, sua memória estará bem protegida.

Cotação: * * * * * (cinco estrelas)
Nota: 10,0

sábado, 29 de agosto de 2009

Remake de Fellini


Já ouviu falar de "Nine"? Trata-se de um remake musical de "8 1/2", magistral obra do gênio Federico Fellini. Dirigido por Rob Marshall (o mesmo de "Chicago"), o filme contará com um elenco estrelado até demais: Daniel Day-Lewis, no papel de Guido Contini, o diretor de cinema às voltas com uma crise criativa e que acaba fazendo um apanhado de memórias das mulheres importantes de sua vida; Marion Cottilard (a esposa de Guido); Sophia Loren (sua mãe), além de outros nomes como Kate Hudson, Penélope Cruz e Fergie. Sim, Fergie! Ela anda afirmando que agora o mundo vai perceber que ela não é apenas uma bunda gostosa...

A imagem acima foi liberada esta semana e o longa terá sua estreia nos EUA em novembro, período bem propício para filmes que almejam indicações ao Oscar. No Brasil, a estreia está agendada para 15 de janeiro. Só um comentário: refilmar Fellini? Ai, meu Deus...