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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Gravidade

Beleza, solidão e revolução


Inicio esta resenha com uma afirmação que pode ser precipitada, mas que reflete inteiramente minhas impressões ao fim da sessão de “Gravidade”: trata-se do melhor filme de ficcção-científica desde “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odyssey, 1968), talvez tendo apenas como rivais “Alien – O Oitavo Passageiro” (Alien, 1979) e “Blade Runner – O Caçador de Androides” (Blade Runner, 1982). Este é um daqueles filmes que, ao terminar de vê-lo, já sentimos algo diferente, sabemos que estamos diante de uma obra que  será lembrada ao longo dos anos, que influenciará inúmeros longas posteriores e, provavelmente, deixará sua marca  na cultura pop como um todo, tornando-se um fenômeno em várias mídias. E não estou exagerando. Na realidade, eu sempre desconfio de filmes com muito “hype”, como nos casos de “Avatar” (2009) - longa que trouxe inovações apenas no uso do recurso 3D, mas que possui uma trama meio rasa e clichê – e “A Origem” (Inception, 2010), um ótimo thriller dirigido por Christopher Nolan, mas que não chega a ser (e o tempo vem mostrando isso) nenhuma obra-prima. Pelas mesmas razões (gato escaldado tem medo de água fria), estava antevendo que havia um certo exagero com relação ao novo longa do diretor mexicano Alfonso Cuáron (de “E Sua Mãe Também!” e “Filhos da Esperança”), o qual vem sendo incensado pela crítica. Felizmente, desta vez eu errei em minhas previsões.

Já fazia muito tempo que eu não via um longa-metragem com tanta força imagética, profundidade na abordagem dos nossos mais instintivos, fortes e belos sentimentos e, ao mesmo tempo, conseguir prender a respiração dos espectadores até o último frame da projeção (talvez Ang Lee tenha feito algo igualmente relevante com o seu “As Aventuras de Pi”, mas não é um filme tão intenso quanto este). Tudo isso em enxutíssimos 91 minutos e com apenas três personagens na tela. E vale dizer que um desses morre logo no início do longa (isso não é um spoiler). Ou seja, Cuáron, também autor do roteiro em parceria com seu filho Jonás Cuáron, conseguiu criar uma obra que alcança o perfeito equilíbrio entre substância e tensão, gerando um filme capaz de entusiasmas crítica e público e isso, convenhamos, é um feito que poucos conseguiram na história do cinema. De quebra, ainda teve a percepção de filmar com o intuito de colocar o espectador na pele dos astronautas, contando com o auxílio da tecnologia 3D. É possível que nunca uma câmera em primeira pessoa tenha atingido um nível tão elevado de subjetividade quanto aqui. Em várias sequências temos a sensação de estarmos na pele da astronauta Ryan Stone (Sandra Bullock), em busca da sobrevivência. Não é por acaso que muitos vêm atribuindo ao filme o adjetivo de “revolucionário” e, desta vez, não é de forma gratuita.


A trama é minimalista, por assim dizer. Nela, vemos a referida Dra. Ryan Stone em uma missão para operar reparos no telescópio Hubble, na qual é acompanhada por dois outros astronautas, um deles o piloto Matt Kowalski, que está prestes a se aposentar (interpretado pode George Clooney). Quando estão efetivamente realizando o serviço, uma onda de destroços de uma satélite destruído pelos russos atinge o telescópio e a nave dos engenheiros e começa, então, uma batalha pela sobrevivência no ambiente mais inóspito que existe para o ser humano: o espaço. Principalmente a Dra. Ryan, que é lançada no vácuo com apenas 10% de oxigênio restando no reservatório do traje espacial. Mas se engana quem pensa que isso resultará apenas em uma correria desenfreada. O foco de Cuáron é o espírito humano. Ao mesmo tempo em que somos tão pequenos diante da imensidão e perigos do universo, temos força suficiente para vencermos esses desafios e nos mantermos vivos diante de um ambiente tão áspero ao ser humano. E, por mais que tenhamos motivos para, quem sabe, nos entregarmos, como no caso da Dra. Stone, viver sempre será a melhor escolha.

Convém ressaltar que a Terra nunca esteve tão bonita no cinema. As imagens concebidas pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubeski são simplesmente lindas. Chega a dar o gostinho de realmente estarmos a contemplar a Terra, privilégio que só cabe a mais do que restrita classe dos astronautas. Aliás, a sensação de estarmos vendo o espaço como ele de fato é só se equivale àquela vista no citado “2001”. Um espetáculo de realismo em algo tão difícil de reproduzir quanto é a realidade fora do nosso planeta. Em similar competência mostra-se a trilha sonora de Steven Price, a qual se faz sentir com ainda mais vivacidade após os contínuos momentos de silêncio engenhosamente concebidos para nos passar o clima do ambiente. Por outro lado, o filme não seria tão bom sem a sensacional atuação de Sandra Bullock, no melhor momento de sua carreira, incontestavelmente. Ela nunca havia conseguido transmitir tanta força e concomitante fragilidade a uma personagem. Será até uma piada se ela não levar o Oscar de melhor atriz, já que anos atrás acabou sendo premiada por um trabalho bem menos relevante (em “Um Sonho Possível”).


“Gravidade” é um filme repleto de imagens marcantes, daquelas destinadas a se tornarem icônicas, indicando que Cuáron poderá ser conhecido no futuro como um dos grandes estetas do cinema. A cena das lágrimas flutuantes da astronauta, por exemplo, é uma delas. Ainda mais se você assistir em 3D. Aliás, procure realmente ver em uma sala 3D, pois este é um dos raros casos em que o recurso se mostra realmente como um diferencial (e quem costuma ler meus textos sabe o quanto eu sou exigente para considerar que um filme precisa ser visto em 3D). Em dado momento da película, a simbiose de emoção e beleza me impressionaram tanto que, faço aqui uma confissão, algumas lágrimas furtivas brotaram dos olhos. E é nesse ponto que reside a principal diferença entre “Gravidade” e o clássico “2001”. Se o filme de Kubrick instiga a reflexão, levando-nos a questionamentos sobre quem somos e para onde vamos, o longa de Cuáron é visceral, procurando despertar o nossos mais básicos e essenciais sentimentos. Fala, sobretudo, da solidão de cada ser humano, cada qual constituindo um universo à parte em meio à imensidão que nos cerca. Diante de tantas “revoluções” que são alardeadas com uma estranha frequência no cinema, mas que logo em seguida se revelam no máximo obras competentes (vide os exemplos dos citados “Avatar” e “A Origem”), talvez neste caso o termo esteja, enfim, sendo usado de maneira apropriada. Só o tempo irá dizer se tal impressão é verdadeira, mas foi a que tive quando surgiram os créditos finais, logo após a linda sequência que conclui este clássico imediato.


Cotação:



Nota: 10,0

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Cine Holliúdy

Cinema cearensês


Este é um daqueles fenômenos que surgem de tempos em tempos. Produções de baixo orçamento, com várias limitações, mas que terminam por atingir o público de uma forma especial, alcançando o sucesso principalmente através do boca-a-boca, sem grandes esquemas de marketing ou distribuição. No caso do Brasil, sem o apoio da Globofilmes, “entidade” dominante em nosso mercado e responsável por quase todos os nossos sucessos comerciais, obter uma boa bilheteria é um feito notável, principalmente se o longa-metragem em questão vem do Nordeste, região historicamente desprezada e vítima dos preconceitos do “Sul Maravilha”, além de economicamente periférica neste Brasil abençoado por Deus e bonito por natureza, mas até hoje extremamente injusto e hipócrita. Sucesso absoluto em Fortaleza, onde obteve na estreia uma excelente média de espectadores por sala (empatou com a média de “Titanic”!) e superou a marca dos 100 mil ingressos vendidos (somente na capital cearense, frise-se), batendo localmente a estreia de blockbusters como “Wolverine – Imortal” e “O Homem de Aço”, “Cine Holliúdy” surge como uma grata surpresa não só por ser uma produção nordestina que conquistou espaço em nosso circuito comercial, mas também – e principalmente – por trazer um sopro de inteligência dentro quadro raso das comédias habituais em exibição nas salas de cinema.

Dirigido por Halder Gomes (co-diretor de “As Mães de Chico Xavier”), também autor do roteiro, o longa é uma versão extendida do curta “Cine Holliúdy – O Artista contra o Caba do Mal” e possui declaradamente contornos da biografia do cineasta, que vivenciou a decadência das salas de cinema nas cidades do interior (no caso dele, em Senador Pompeu, Ceará), principalmente depois da chegada da TV em cores ao Brasil na década de 70, época em que se passa a trama. “Cine Holliúdy” tem muito da metalinguagem de filmes como “Splendor” (1989) e, para citar um exemplo mais famoso, “Cinema Paradiso” (Nuovo Cinema Paradiso, 1988), tendo como ponto central uma autêntica declaração de amor ao cinema, no caso, personificada pelo personagem Francisgleydisson (papel do ótimo ator Edmilson Filho), um sonhador que luta para manter vivas as salas de cinema em cidades do interior. Depois de vários reveses, sua derradeira tentativa será na cidadezinha de Pacatuba, uma das poucas em que ainda não há uma televisão na praça, para onde migra com a esposa (Miriam Feeland) e seu filho. Vários serão os seus desafios, desde a natural falta de recursos para reformar uma antiga sala, passando pelas dificuldades com a politicagem local e a precariedade de equipamentos e rolos de filme.



Em paralelo aos projetos de Francisgleydisson, Halder traça um colorido painel de costumes locais, apresentando personagens pitorescos, além de diálogos e situações dotadas de um humor ao mesmo tempo regional - uma vez que calcado em maneirismos cearenses - mas também universal, capaz de extrair sorrisos abertos de espectadores de qualquer cultura. A própria ideia de se fazer um longa falado em “cearencês” com legendas em português já é bastante espirituosa e acaba funcionando, inclusive, como marketing da produção. Ademais, trata-se de um trabalho com inegável apelo para as amantes da Sétima Arte. A sequência do discurso de Francisgleydisson na inauguração da sala, uma linda declaração de amor ao Cinema como poucas vezes se viu, é para fazer qualquer cinéfilo se emocionar. Ouso dizer, guardadas as diferenças temáticas e importância histórica, que está à altura do famoso discurso de Charles Chaplin em “O Grande Ditador” (The Great Dictator, 1940). Vale notar ainda a trilha sonora, com vários que temas que citam abertamente trilhas clássicas como as de “Tubarão” (Jaws, 1975) e “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odissey, 1968), além da ótima utilização do repertório brega-cult do cantor e compositor Márcio Greick. Destaque-se, ainda, o elenco extenso,mas homogêneo em suas boas atuações, mesmo que Edmilson Filho seja, irremediavelmente, o centro das atenções.


Entretanto, se Halder Gomes desenvolve a primeira metade do longa com criatividade e eficiência, a segunda cai bastante em ritmo e na qualidade do humor, o qual começa a se repetir e a se escorar em regionalismos excessivos. A enorme sequência da primeira sessão da sala é cansativa e perde o interesse já em sua metade. Salva-se a homenagem aos filmes de artes marciais dos anos 70, com especial reverência a Bruce Lee, o ídolo de Francisgleydisson. Contudo, possui um interessante desfecho que leva o espectador a questionar se são fatos ou apenas a imaginação do protagonista, um recurso interessante que enriquece a obra.

Como já frisado acima, “Cine Holliúdy”, apesar de suas falhas, traz algo além do que mera diversão escapista para um fim de semana, como em geral ocorre nas comédias nacionais. Constitui-se, antes de mais nada, em um resgate nostálgico de um cultura que feneceu após a popularização da televisão e, mais adiante, do home video, seja o antigo VHS, o DVD ou o moderno blu-ray. Em outros tempos, muitos frequentavam diariamente as salas de exibição. Hoje, como mencionado nas legendas antes dos créditos finais da película, apenas 5 municípios do Ceará possuem salas de cinema. No Rio Grande do Norte, eu nem sei se chega a tal o número de cidades (até onde tenho conhecimento, apenas Natal e Mossoró possuem salas). Uma pena que nos dias de hoje tão poucas pessoas tenham acesso a essa magia tão encantadora.


Cotação: 



Nota: 7,5

terça-feira, 30 de julho de 2013

Wolverine - Imortal

Preservando a essência


Já faz um bom tempo que li a histórica série de Wolverine, concebida por Chris Claremont e Frank Miller, que elevou o famoso mutante a novos patamares. Nela, Logan respirou ares diferentes em uma trama ambientada no Japão, tentando alcançar o autocontrole (algo quase avesso ao seu temperamento irascível) e conhecendo uma nova paixão com Mariko, deixando, desta forma, um pouco de lado seu eterno amor não correspondido por Jean Grey. O mais popular entre os X-Men atingia sua maioridade artística, arregimentando uma legião ainda maior de fãs que não parou de crescer, sendo hoje Wolverine um dos super-heróis mais populares da Marvel. Tão popular que já chegou ao seu segundo filme solo, mesmo diante das críticas negativas relativas a “X-Men Origens: Wolverine” (X-Men Origins: Wolverine, de 2009), com as quais eu nunca concordei inteiramente. É verdade que se trata de um filme com problemas, mas está longe de ser a “bomba” alardeada quando do seu lançamento. Por outro lado, se nas HQs o personagem foi alçado a níveis excepcionais com a citada história de Logan em terras nipônicas, “Wolverine – Imortal”, atualmente em cartaz no circuito comercial brasileiro, também eleva o mutante esquentado a outros patamares na telona do cinema.

Acredito não ser por acaso o sucesso, uma vez que este novo longa-metragem do herói foi inspirado na famosa HQ de Miller e Claremont, com o acréscimo de algumas outras nuances que vieram de sagas posteriores. Durante boa parte da projeção, sequer temos a sensação de estarmos assistindo a um filme de super-herói. Parece mais uma mistura de filme de ação tradicional com filme de artes marciais. Algo que lembra “Kill Bill”, de Quentin Tarantino, muito embora nosso herói tenha motivações mais nobres do que uma mera vingança e não há toda aquela sanguinolência explícita. Entretanto, o estilo samurai-fantástico se faz presente em várias sequências, dirigidas com muito apuro por James Mangold, o mesmo de longas como “Garota Interrompida” (Girl, Interrupeted, 1999) e “Johnny & June” (Walk The Line, 2005). Ou seja, um diretor de viés artístico, escolhido para colocar na película um maior peso dramático. Vale lembrar que a primeira escolha para a realização havia sido Darren Aronofsky, amigo de Hugh “Wolverine” Jackman, mas o diretor de “Cisne Negro” (Black Swan, 2010) acabou desistindo. De qualquer forma, a escolha se mostrou feliz (muito superior a Gavin Hood, diretor do primeiro filme solo do mutante), já que Mangold demonstrou capacidade não apenas de imprimir um teor dramático mais consistente à trama, mas também de entregar ótimas sequências de ação, como o sensacional embate de Logan com um mafioso da Yakusa em cima de um trem em movimento.



O roteiro, escrito por Scott Frank e Mark Bombak, mostra o mutante vivendo como um selvagem no meio da floresta – e mais agressivo do que nunca - até ser encontrado por Yukio (Rila Fukushima), uma japonesa que lhe traz uma mensagem de um antigo amigo, o Sr. Yashida (Hal Yamanouchi), militar que Logan salvou no trágico dia da explosão da bomba atômica em Nagasaki, durante a Segunda Guerra Mundial. Yashida está moribundo, vítima de câncer, e Logan viaja ao Japão para ouvir o que ele tem a dizer. Já em terras nipônicas, conhece Mariko, a neta de Yashida, e acaba por se envolver em uma trama que envolve a máfia Yakuza, além de outros mutantes, sendo que uma delas, a Víbora (Svetlana Khodchenkova), acaba por afetar o seu fator de cura, deixando o herói combalido para enfrentar seus perigosos inimigos.

Claro que há muita ação em “Wolverine - Imortal”, com algumas sequências realmente ótimas (como já frisado), imageticamente bem concebidas e com edição eficiente que permite ao espectador entender perfeitamente o que se passa na tela. Contudo, um dos seus maiores trunfos é a construção dos personagens, com destaque para Yukio, uma mutante com capacidade de prever o futuro, e Mariko, o novo amor de Logan, ambas, vale dizer, muito bem interpretadas por suas respectivas atrizes. O elenco como um todo se mostra bastante eficiente, mas é mesmo Hugh Jackman que mais uma vez mostra porque é o Wolverine definitivo. Alguns atores se encaixam tão perfeitamente em alguns papeis que sequer podemos imaginar outra pessoa interpretando-os. É o caso de Harrison Ford, por exemplo, como Indiana Jones. E é o caso de Hugh Jackman como o mutante de garras de adamantium.


Destarte, não se pode negar que o longa deixa a desejar no seu último terço, embarcando em alguns exageros dispensáveis que só contribuíram para enfraquecer a narrativa. Ademais, os fãs vão reclamar de algumas distorções em relação ao material original (principalmente com relação ao vilão Samurai de Prata, que dá as caras lá para as tantas). Todavia, mesmo com algumas ressalvas, a adaptação de Mangold preserva a essência do personagem, mesmo que Wolvie seja ainda mais violento e truculento nos quadrinhos. Aqui, devido às questões que envolvem um blockbuster, que, como sabemos, tem de gerar retorno financeiro, não é possível deixar a violência de forma muito gráfica na tela mas, de qualquer forma, está lá o Logan de temperamento arredio, quase um animal selvagem, lutando para domar seus instintos e superar o passado. Ou seja, encontramos o Wolverine que conhecemos e não um simulacro do herói, como aconteceu recentemente na nova adaptação do Homem de Aço para a telona. Enfim, saí da projeção desejando uma continuação e com vontade de recomendar “The Wolverine” para os interessados em curtir uma boa sessão no fim de semana.


Cotação:



Nota: 8,0

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Faroeste Caboclo

A música é melhor


“Ei, Fábio, tem alguma notícia sobre o filme de Faroeste Caboclo?”. Ao longo de vários anos (nem me lembro exatamente quantos) ouvi muitas vezes essa frase de um amigo que, como eu, adorava a Legião Urbana e costumava me perguntar sobre a possível adaptação da música do saudoso Renato Russo para as telas de cinema (abraço, Luciano!). Na maioria das oportunidades, eu simplesmente não tinha informação nenhuma para dar e imaginava que esse era um projeto que nunca iria sair do papel. Cheguei a pensar que se tratava apenas de um boato divulgado pelo global Video Show, no tempo em que este programa ainda divulgava algumas notícias de conteúdo interessante e não apenas abobrinhas e futilidades sobre novelas e celebridades (faz uma tempão, né?). Pois bem, o tempo passou, meu amigo nem mora mais em Natal (como andam as coisas em Curitiba?) e, enfim, a canção-quase-roteiro da Legião estreou nos cinemas.

Composta ainda nos anos 70, durante a fase “Trovador Solitário” de Renato Russo (saiba mais assistindo a “Somos Tão Jovens”), o qual desejava fazer algo no estilo das canções de Bob Dylan (uma de suas maiores influências), “Faroeste Caboclo” só passou a ser conhecida do grande público com o álbum “Que País é Este?”, lançado pela Legião Urbana em 1987. Com seus quase 10 minutos de duração, ninguém imaginava que ela iria se tornar um hit radiofônico, mas foi o que sucedeu. Parece algo impensável, mas, diante dos pedidos dos ouvintes, a faixa era reproduzida inteira nas rádios, uma proeza ainda maior em uma época em que para ouvir música de graça só mesmo escutando as emissoras, as quais detinham um poder enorme sobre o que deveria ou não fazer sucesso. Se lembrarmos que a música não possui refrão, é pontuada por palavrões e não tem nada de politicamente correta – no contexto de um país que ainda estava desacostumado com a liberdade de expressão – o feito se torna ainda mais impressionante. Entretanto, realmente se trata de uma composição ímpar na música brasileira, narrando a ascensão e queda de um retirante que se torna traficante na Capital da República sob um pano de fundo sociopolítico aguçado.


 A direção do longa coube a René Sampaio, o qual se mostra bem competente para um diretor estreante. Ele sabe manter o ritmo e tem ótimas referências imagéticas, como o clímax no duelo entre João do Santo Cristo (Fabrício Boliveira) e o traficante Jeremias (Felipe Abib), onde usa das marcas do genial Sergio Leone, contrapondo closes e planos abertos para estabelecer a tensão do momento. Há também muito do estilo tarantinesco, com uma certa dose de hiperviolência que acaba soando pertinente diante do universo de criminalidade abordado. Contudo, o roteiro (de Marcos Bernstein, o mesmo de “Somos Tão Jovens”, e Victor Atherino, com participação de Paulo Lins, o autor de “Cidade de Deus”) realiza alterações no texto original que me incomodaram bastante.

Primeiramente, nota-se que a adaptação quase eliminou da narrativa as origens de João do Santo Cristo. Não sabemos quase nada sobre sua infância, restando apenas as informações de que vivia na miséria e o pai foi morto a tiros por um policial. Só. Seus sonhos e expectativas com uma vida diferente da que levava, tão bem delineados por Renato em sua letra, são podados do enredo do longa, o que é uma pena. Afinal, a trama concebida pelo músico é uma versão pop da velha história do retirante que busca na cidade grande uma vida melhor, onde suas aspirações podem se tornar realidade. A partir desta concepção, o fim de João, em um duelo televisionado, torna-se ainda mais trágico e irônico. Algo semelhante ao fim de Zé do Burro em “O Pagador de Promessas”, a peça de Dias Gomes mais tarde transformada em filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes por Anselmo Duarte, o qual sempre me pareceu ser uma das fontes em que Renato bebeu para conceber o texto de “Faroeste”. É a tragédia do homem simples transformada em espetáculo midiático. Ao retirar de João o seu passado e sua ingenuidade, uma vez que no roteiro da película ele não vai a Brasília para “falar com o presidente”, Sampaio praticamente o coloca tão somente como um bandido comum, alguém que entrou na criminalidade por mera ambição e oportunidade, empobrecendo o personagem. É possível imaginar que a opção de diretor e roteiristas foi atribuir um tom menos fantástico que desfecho original, este talvez com um efeito poético condizente apenas com a linguagem musical e que causaria estranheza nas telas. Contudo, pensar de tal forma apenas resulta em estabelecer limites artificiais à linguagem do cinema, fronteiras estas que na realidade não existem (já imaginaram se Fellini ficasse adstrito a “padrões”?).


Se João não se torna apenas mais um lugar-comum entre os criminosos de filmes de gangster, isso se deve em muito à atuação de Fabrício Boliveira. Ele está ótimo, conferindo uma aura introspectiva ao emigrante e, tendo em vista que se trata de um ator negro, contribuindo para que a questão racial se torne ainda mais forte no filme do que na música (e isso é um elogio), já que o tema étnico é apenas pincelado por Renato na sua letra. Aliás, não só Boliveira, mas todo o elenco se apresenta com garra e competência. Ísis Valverde encarna Maria Lúcia com alma, mostrando que pode ir muito além dos papeis de “periguetes” que fizeram a sua fama recentemente na TV. Além disso, temos as boas participações de Antônio Calloni, como um policial corrupto, e Marcos Paulo como o senador pai de Maria Lúcia, em uma de suas últimas aparições nas telas, seja do cinema ou da televisão. Somente Felipe Abib, no papel de Jeremias, destoa do restante do elenco, trazendo alguns excessos a um tipo que tem muito do Tony Montana de “Scarface” (1983, de Brian De Palma).

Nos créditos finais, quando finalmente ouvimos a canção adaptada, a impressão que tive foi a de que Renato Russo conseguiu contar melhor a história de João de Santo Cristo em 10 minutos de música e letra do que René Sampaio em 105 minutos de projeção. Advirto que não estou querendo ser irônico ou afirmando que o longa-metragem seja uma droga, mas, se sobra verve ao elenco e técnica na direção, faltou abordar com mais apuro a riqueza de um personagem que encarna várias facetas do povo brasileiro. Depois de tantos anos de espera, o gostinho de “poderia ser melhor” acabou deixando um certo incômodo.


Cotação:



Nota: 7,5

terça-feira, 7 de maio de 2013

Somos Tão Jovens

Recorte de um tempo perdido


Eu sou um legionário. Sim, eu sou daqueles que sabem cantar todas as músicas da Legião Urbana, banda liderada pelo mito Renato Russo que atingiu sua apoteose na segunda metade dos anos 80 e início dos anos 90. Tenho todos os discos, já li obras sobre Renato, entrevistas e documentários. Estou fazendo essa advertência porque acredito que as seguintes linhas traçadas sobre “Somos Tão Jovens”, longa-metragem dirigido por Antônio Carlos da Fontoura que estreou em circuito nacional na última sexta-feira, podem sofrer a interferência da visão indissociável de fã que será apresentada. Para o bem ou para o mal, é importante sublinhar, pois que, se em alguns momentos minha empolgação pode ter falado mais alto, em outros o fato de conhecer bastante a história daqueles personagens pode ter elevado minha visão crítica.

“Somos Tão Jovens” é, antes de mais nada, um recorte de uma época. Mais precisamente, os anos da adolescência de Renato Manfredini Jr. (interpretado por Thiago Mendonça, o Luciano de “2 Filhos de Francisco”) em Brasília. Portanto, não vá ao cinema esperando encontrar uma apanhado biográfico de toda a vida do artista, incluindo sua maturidade e falecimento resultado do vírus HIV. Quem aparece no filme é o Renato do Aborto Elétrico - a banda do punk brasiliense formada por ele, o sul-africano Andre Pretorius e os irmãos Felipe (o Fê) e Flávio Lemos (hoje, no Capital Inicial) - e também a sua passagem como “Trovador Solitário”, quando deixou o Aborto devido aos desentendimentos constantes com Felipe. E também vemos Renato antes de participar de qualquer banda, aos 15 anos, quando ficou meses de molho em casa devido a uma doença que debilitou suas pernas, a epifisiólise. Esse período é o ponto de partida do longa, uma fase fundamental para a formação intelectual do futuro astro, uma vez que se dedicou a devorar livros e discos em seu quarto, surgindo então o sonho de se tornar “um astro do rock”. Daí em diante, o roteiro de Marcos Bernstein (o mesmo de “Meu Pé de Laranja Lima” e “Central do Brasil”) enfoca não apenas sua trajetória musical, mas também seu relacionamento com os amigos da turma da “Colina” (como eles eram conhecidos na capital do país), com a família e com Ana Cláudia, uma amiga/namorada fundamental em sua juventude.


Seria injusto acusar a película de “mitificar” Renato. É certo que o roteiro faz aparecer muito da persona artística do músico na sua adolescência, o que talvez seja um equívoco. Entretanto, quem já ouviu comentários e entrevistas de outros participantes do denominado “Rock Brasília” sabe que Renato era idolatrado por amigos e colegas ainda na adolescência, demonstrando desde cedo que sabia ser uma personalidade midiática. Ademais, seu temperamento intempestivo é bastante abordado, além de serem “denunciadas” algumas de suas atitudes cretinas, como o hábito nada louvável de gravar conversas com os amigos, sem o conhecimento destes, para depois servir de inspiração para composições. Portanto, “mitificar” não é o verbo certo para definir os resultados alcançados pela produção. A maior carência de “Somos Tão Jovens” reside em sua pouca propensão em buscar os “porquês” da trajetória do astro, limitando-se quase tão somente a exibir “como” ele desenvolveu esse caminho. Vemos na tela alguns de seus sentimentos de inadequação, como as dúvidas e angústia relativa à sua sexualidade, mas são apenas pinceladas que se tornam insuficientes para compreender sua mente. Não há muito que denuncie que aquele garoto de músicas rebeldes iria anos mais tarde compor canções introspetivas como “Há Tempos”. Além disso, várias passagens, como os problemas com a polícia, o consumo de drogas e os relacionamentos homossexuais são abordados de forma mais leve e pouco disposta a causar desconforto no público médio (diferindo significativamente, neste aspecto, da cinebiografia “Cazuza – O Tempo Não Para”, de Sandra Werneck e Walter Carvalho). Incomoda, ainda, uma certa vontade de pontuar os diálogos com frases das músicas da Legião, como se a cada momento surgisse uma inspiração para futuras composições.

Contudo, é inegável que o longa é feliz em transmitir o clima juvenil daqueles tempos, impactado pelo movimento punk e buscando formas de extravasar seu tédio e inconformismo diante de um governo militar arbitrário. O longa respira rock 'n roll e não apenas porque está recheado de músicas do próprio Renato Russo e de bandas famosas (como o Sex Pistols), mas também por trazer a sensação de estar presente naqueles dias, como se fôssemos mais um daqueles jovens pulando ao som pesado emitido por caixas de som em volume máximo. Para isso colaboram opções técnicas como o uso da câmera em primeira pessoa nas cenas de shows, fazendo com que o espectador se sinta no meio da agitação da plateia ou nas pistas de dança. A ótima edição também proporciona um ritmo tão agitado quanto aqueles dias de rock, contribuindo para que nem cheguemos a sentir o tempo passar. Tudo bem, são 114 minutos, não é um filme longo, mas a sensação ao final é de ainda estarmos na metade (a julgar pela reação do público da sessão, não fui o único a ter essa impressão).



E Thiago Mendonça? Consegue dar conta do recado ao interpretar um personagem tão complexo? A resposta é: mais ou menos. Não seria mentira ou chatice afirmar que ele baseou sua performance na versão midiático-estilizada criada pelo próprio Renato Russo. De fato, sua interpretação possui vários cacoetes. Entretanto, ela se encaixa perfeitamente nas aparições durante shows, levando-nos, nestes momentos, a esquecer que aquele é um ator e não o verdeiro cantor. Também vale mencionar o seu esforço em ser verdadeiro em ditas sequências, uma vez que aprendeu a tocar violão para o longa-metragem e consegue cantar no mesmo tom de Renato sem desafinadas muito aparentes (e convenhamos, é difícil cantar no mesmo tom do líder da Legião Urbana). O resto do elenco não tem muito o que desenvolver. A lista de personagens é extensa, fazendo com que nenhum deles tenha muito tempo de cena. A exceção é Ana, a mencionada “amiga/namorada” que exerce uma grande influência sobre o roqueiro. A atriz Laila Zaid consegue lhe conferir ótima presença em cena, além de delinear com competência e sensibilidade a sua personalidade.

Este é um filme para jovens e preocupado, como já assinalado, em captar a atmosfera de um um tempo que, como diz a famosa canção do compositor, parece perdido, distante e esquecido. Talvez o grande mérito do diretor Fontoura seja, mesmo diante de algumas inconsistências, recuperar esse espírito de contestação e inconformismo que parece estar sendo esquecido pelos cada vez mais conservadores e anódinos jovens contemporâneos, todos iguais em suas preocupações pequeno-burguesas. Em sua canção “Geração Coca-Cola”, Renato já cantava que ele fazia parte de uma geração apática e individualista, “burgueses sem religião”. Pelo que vemos, a situação apenas se agravou, pois que aquela geração possuía uma autocrítica que não se vê na atual. Todavia, ao ver a sala repleta de uma rapaziada universitária, as esperanças se renovaram. Tomara que ela tenha saído da sessão contaminada pelo espírito rock 'n roll vivenciado pelo jovem Renato Frandeni Jr.


Cotação: 



Nota: 8,0

terça-feira, 16 de abril de 2013

Oblivion

A continuação de “Guerra dos Mundos”


Na atual crise de criatividade do cinema norte-americano, é um alívio assistir a um filme pipoca que não seja sequência ou remake de outro. Tudo bem, “Oblivion” é baseado em uma HQ, mas não é uma daquelas publicadas pela Marvel Comics, com seus super-heróis que, em boa medida, já estão cansando na tela (ou alguém está realmente empolgado com a breve estreia de “Homem de Ferro 3”?). A graphic novell adaptada é de autoria do próprio diretor do longa, Joseph Kosinski (que escreveu a HQ ao lado de Arvid Nelson) e, talvez por essa circunstância, a trama é salpicada de referências cinematográficas a outros longas de ficção científica, algo que, como demonstra a carreira do genial Quentin Tarantino, pode trazer ótimos resultados.

Vamos admitir: Kosinski não atinge o nível de excelência tarantinesco na sua mistura de referências, mas é prazeroso assistir a um filme que relembre aquele que telavez seja o melhor curta-metragem de todos os tempos, “La Jetée”, dirigido por Chris Marker em 1962. A sequência inicial de “Oblivion” remete a esse último e a lembrança de “La Jetée” me atingiu de tal forma que me distraiu um pouco das cenas subsequentes. Mas nada que viesse a comprometer o entendimento da trama, na realidade mais uma ficção pós-apocalíptica, só que desta vez os responsáveis pela destruição do planeta Terra foram os alienígenas. Afinal, vale lembrar que o mercado estadunidense pós-crise econômica está em baixa e Hollywood depende cada vez mais do mercado internacional para fechar suas contas. Portanto, não pega bem inventar guerras nucleares com altranos e sicranos (leia-se, russos, árabes e afins) que levariam a uma hecatombe. Nesse quadro, melhor atribuir o “fim do mundo” a perigosos micro-organismos (como no caso de “Eu Sou a Lenda”, de Francis Lawrence) ou a extraterrestres, muito embora, neste último caso, os alienígenas não deixem de representar a eterna xenofobia ianque.


Na trama, narrada em primeira pessoa e protagonizada por Tom Cruise (que está cada vez mais assumindo um perfil de astro de filmes de ação), Jack Harper é um dos poucos humanos sobreviventes após a guerra dos mundos que tornou boa parte da Terra inabitável, o que me leva a imaginar que “Oblivion” poderia ser uma continuação do “Guerra dos Mundos” de Steven Spielberg (até o ator é o mesmo). Enquanto a maior parte da humanidade não vive mais no planeta, residindo no espaço e na lua de Saturno chamada Titan, Harper e sua companheira Victoria (Andrea Riseborough) permanecem na Terra exercendo uma função de vigilância, evitando que os “saqueadores” - aliens ainda resistentes em solo terrestre - destruam os drones (robôs patrulheiros). Além disso, passa as horas vagas resgatando as “relíquias” de um passado glorioso da humanidade, como discos, bonecos e livros (remetendo bastante a “Wall-E”, famosa animação da Pixar vencedora do Oscar). As coisas começam a mudar quando a humana Julia (Olga Kurylenko) é encontrada por Harper em uma cápsula criogênica após a queda de uma nave na região que controla. Ela lhe desperta vagas memórias, de um passado que não sabe exatamente se viveu, e acabará por lhe trazer revelações e descobertas acerca de sua própria existência.

Eu não assisti a “Tron – O Legado” (Tron – Legacy, 2010), trabalho anterior de Kosinski, mas, a partir da experiência com “Oblivion”, percebe-se que ele sabe manter o ritmo da ação sem que haja pressa no desenrolar dos fatos e apresentação dos personagens. Fazer um filme de ação não significa que seu enredo tenha de ser mal contado e Kosinski demonstra entender muito bem tal aspecto, mesmo que sua mise-en-scène seja tradicional, não apresentando nem mesmo ângulos diferenciados. A trama resta bem contada e isso se torna um elogio ainda maior diante de algumas “reviravoltas” que ela apresenta em sua segunda metade. Pena termos que colocar a palavra “reviravoltas” entre aspas, já que várias delas são até esperadas. Os problemas do longa são justamente esses artifícios do roteiro, previsíveis em vários aspectos. Ademais, as citadas referências vão se tornando cada vez mais óbvias, chegando a tornar incômodas. É o que sucede no seu desfecho, quando “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odissey, 1968) é referenciado de forma tão ostensiva que chega a se tornar constrangedor (não vou contar como para não escrever um “spoiler” gigante). Outro problema é que a mencionada narração em primeira pessoa se perde ao longo da projeção, sendo quase que esquecida no seu último terço.


Entre as atuações, as mulheres, mesmo em minoria, mostram-se mais interessantes e comprometidas do que a ala masculina do elenco. Tanto Andrea Riseborough, intérprete de Victoria, quanto Olga Kurylenko, que encarna Julia, apresentam boas atuações. Já o superastro Tom Cruise não faz nada de significativamente diferente dos seus últimos papeis. Talvez esteja aqui um pouco mais “sério” do que de costume, com menos aparições do seu tradicional sorriso “colgate”, mas, de toda forma, seria estranho se um personagem de um mundo devastado ficasse abrindo sorrisos por qualquer coisa. Outro nome do primeiro escalão, Morgan Freeman, atua em piloto automático, tornando-se um coadjuvante de luxo.

O longa conta, ainda, com uma bela direção de arte (algo natural vindo de cineasta que é arquiteto por formação), fator que contribui bastante para a imersão do público, além de uma trilha sonora pop repleta de clássicos do Rock (de Led Zepellin a Procol Harum) Entretanto, não espere de “Oblivion” mais do que ele pode dar. Trata-se tão somente de uma boa diversão. Com neurônios, é importante frisar, mas nada mais do que isso. Para usar a comparação com o referido filme de Stanley Kubrick, “Oblivion” não irá gerar décadas de debates, estudos e discussões a respeito de suas verdadeiras pretensões e interpretações. A não ser no que se refere ao título. Terminada a projeção, eu não entendi por que a película leva esse nome. Será que minha surpresa com as referências a “La Jetée” me distraíram o suficiente para passar batido nesse detalhe?


Cotação:



Nota: 8,0

Em tempo: consultando o tradutor do Google acabei descobrindo que "oblivion" é um termo em inglês que significa "esquecimento" (não conhecia a palavra), o que possui, sim, relação com a trama. Ok. Então o erro foi da distribuidora no Brasil que decidiu permanecer com o título original, o que pode deixar nosso público voando.

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Aviso: O "Cinema Com Pimenta" estará em recesso por cerca de 10 dias, pois este blogueiro curtirá um merecido descanso em uma das praias do litoral aqui do Rio Grande do Norte. Um abraço a todos e até a volta!

quarta-feira, 20 de março de 2013

A Busca

Estrada com buracos


Há poucos dias, o amigo Celo Silva, do excelente blog “Espectador Voraz”, havia alertado em sua critica que o filme “A Busca” não era lá grande coisa. A opinião dele havia diminuído bastante minhas expectativas com relação a este longa-metragem estrelado por Wagner Moura, provavelmente o grande ator brasileiro em atividade, além de carregar, na produção, o nome de Fernando Meirelles, cineasta que sempre desperta atenção no meio cinéfilo em qualquer projeto que se envolva. Contudo, lendo outras resenhas, observei que as percepções sobre o filme eram conflitantes, o que me levou a conferi-lo na sala escura para tirar as minhas próprias conclusões, as quais passo a expor a seguir.

O “road movie” parece ser um subgênero cinematográfico caro aos cineastas nacionais. Walter Salles meio que já virou um especialista na estrutura clássica de tais películas, as quais geralmente focam em personagens que empreendem uma viagem que se transforma em um processo de autoconhecimento. Com resultados melhores (como “Central do Brasil” e “Diários de Motocicleta”) ou piores (o recente e tedioso “Na Estrada”), essa já se tonou uma de suas marcas registradas. Agora, vemos o estreante na direção Luciano Moura iniciar sua filmografia também com um filme de estrada, o qual, infelizmente, está longe de fugir do lugar-comum do subgênero. O próprio título, se olhado com cuidado, já deixa entrever que a tal “busca” irá redundar em uma procura por si mesmo, uma jornada de autodescoberta que levará o protagonista a enxergar sua vida por outro prisma. E é justamente esta série de lugares comuns, meio que inseridos a fórceps durante a narrativa, o que mais incomoda nessa produção que tinha tudo para dar certo, mas resultou em uma experiência no máximo mediana.


A trama narra a história de um casal recém-separado, Theo e Branca (Wagner Moura e Mariana Lima), cujo filho adolescente, Pedro (o estreante Brás Antunes, filho do músico Arnaldo Antunes) foge de casa depois de uma discussão barra pesada com o pai. Desesperado para encontrar o garoto, Theo empreende então uma viagem para Salvador ou Espírito Santo (os dois prováveis destinos do filho) que o levará a questionar sua própria história familiar e a maneira como está conduzindo sua vida. Como é de se esperar em um road movie, no caminho encontrará os mais diversos tipos e é justamente neste ponto que Luciano Moura começa a cometer erros relevantes. Vários dos personagens apresentados soam inverossímeis em um roteiro que cria situações à base de artificialismos. Chega-se a imaginar uma comunidade onde (pasmem!) só há apenas um telefone celular. E não, não é alguma comunidade indígena no meio da floresta amazônica. Na mesma linha, o encontro com o morador de uma casa flutuante, que ajudará Theo a atravessar um rio com seu carro, soa muito non sense para um filme que tem como foco um pesado drama familiar.

Outro problema que se apresenta é algo comum ao subgênero dos filmes de estrada, normalmente centrados em apenas um personagem ao redor do qual orbitam os variados tipos que surgem no decorrer da trajetória. É bom que se diga que tais narrativas de viajantes remontam à Idade Antiga, com a “Odisseia” de Homero. Em uma análise abrangente, os protagonistas de películas estradeiras seriam simulacros de Ulisses e, para que uma obra cinematográfica com tal premissa tenha êxito, essencial se faz que seu intérprete principal dê conta do recado. No caso, é óbvio que Wagner Moura tem perfeitas condições para assumir a tarefa. Ele é hoje, possivelmente, o único ator brasileiro capaz de arrastar público para as salas de cinema. Entretanto, infelizmente, Wagner não tem aqui um grande momento interpretativo. Há passagens em que ele perde a mão com o personagem, atribuindo-lhe reações que destoam de um pai à procura de um filho desaparecido. Quando nos lembramos do astro em filmes como “Tropa de Elite” ou mesmo “O Homem do Futuro” é que sua presença em “A Busca” se torna ainda mais pálida.


Contudo, justamente pelo fato de abordar um drama familiar, a trama ainda consegue manter o interesse do espectador. Mesmo que em alguns momentos ela se mostre previsível, há muita verdade na tela e Theo é mesmo um personagem de muita tridimensionalidade. Acredito que muitas pessoas irão se identificar com o protagonista em diferentes medidas e imagino que seja exatamente por tal identificação que o longa esteja despertando diferentes opiniões tanto entre a crítica quanto no público. Ademais, se há uma virtude no roteiro é a de não ser apressado, tornando a iminência do encontro final algo a ser desejado pela plateia.

Apesar de algumas virtudes, “A Busca” se mostra tão oscilante que se torna difícil atribuir-lhe o adjetivo de “recomendável”. Para usar uma metáfora sem vergonha, parece uma estrada com vários buracos que tornam o tráfego complicado. Sua apreciação está excessivamente ligada às experiências individuais de cada um. Claro que toda apreciação artística está e sempre estará vinculada às nossas distintas vivências, mas uma obra se torna problemática quando depende unicamente das experiências do espectador para se tornar relevante ou se fazer entender. Percebe-se que Luciano Moura tem potencial e que pode vir a ser um bom cineasta, algo que ainda não é. Por enquanto, só posso recomendar mesmo que, caso você também queira tirar a prova dos nove e vá pegar uma sessão na sala mais próxima, não deixe de conferir os ótimos créditos finais sublinhados por uma bela canção de Arnaldo Antunes.


Cotação:



Nota: 6,5

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Lado Bom da Vida

Dramédia romântica para ver e rever


Sabe aquele filme do qual você está esperando muito e, após vê-lo, suas expectativas se confirmam plenamente? Este é bem o caso deste “O Lado Bom Da Vida”, o filme de David O. Russell que vem sendo elogiado quase à unanimidade tanto pela crítica quanto pelo público. Um longa-metragem que pode ser classificado como “comédia romântica”, mas que oferece muito mais do que meras risadas em torno de um casal que já sabemos que irá terminar junto. Raramente você verá uma CR com personagens tão tridimensionais quanto neste aqui, além de uma carga dramática que passa longe de superficialidades. Aliás, taxar essa película de “comédia romântica” acaba por se tonar algo supérfluo. Sua classificação em “gêneros” pode resultar desastrada e talvez o termo “dramédia” lhe seja mais adequado. Ou, melhor ainda, mais preciso é dizermos que se trata de uma “dramédia romântica”, o que já deixa clara a insuficiência de tais classificações limitadas.

Russell adora tratar de relações familiares em suas obras. Seu trabalho anterior, “O Vencedor” (The Fighter, 2010), focava em uma família onde um dos seus elementos causava uma grande instabilidade no núcleo (personagem que inclusive rendeu Oscar de ator coadjuvante para Christian Bale). Em “O Lado Bom da Vida”, a estrutura é similar, mas há uma relevante distinção. Se em “O Vencedor” a fonte de instabilidade reside em um personagem coadjuvante, aqui o drama familiar é gerado pelo protagonista, um professor portador de transtorno bipolar. E mais: seu “par romântico” na trama também apresenta transtornos de personalidade. Ou seja, não estamos diante de um casal convencional. Ele é Patrick Solitano (papel de Bradley Cooper), um professor internado em um hospital psiquiátrico após quase matar um colega em uma explosão de agressividade (se quer saber as circunstâncias factuais que o levaram a isso, assista ao filme). Ela é Tiffany (interpretada por Jennifer Lawrence), uma jovem que também enfrentou um momento difícil após perder o marido muito cedo e de maneira estúpida. Pat ainda nutre esperanças de que sua ex-esposa, Nikki (Brea Bee), ainda volte pare ele e possam levar um vida juntos, situação que para Tiffany é impossível, já que ela é viúva, não divorciada. É natural que, por conseguinte, ela acabe tomando a iniciativa da relação, uma circunstância atípica, por mais que vivamos hoje em uma sociedade onde as mulheres se tornaram independentes, ainda se apresentando como peculiar.


A dupla de protagonistas é formada, antes de tudo, por indivíduos com quem decididamente não é fácil conviver. Extremamente instáveis e com momentos intempestivos de agressividade, Pat e Tiffany são o tipo de pessoa que é evitado por muitos e acabam por desenvolver amizade apenas com outas pessoas que também são vítimas de algum tipo de transtorno. Eles são o maior ponto de desequilíbrio em suas famílias, muito embora essas também não sejam formadas por tipos convencionais. O pai de Patrick (Robert De Niro, depois de muitos anos em momento inspirado) é um fanático por futebol americano que possui sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo, enquanto a irmã e cunhado de Tiffany formam uma casal disfuncional onde ela comanda a relação com arrogância e autoritarismo e ele, dono de uma personalidade fraca e submissa, parece apenas “cumprir ordens”. Entretanto, talvez por conta da agressividade, eles acabam por ser, digamos assim, as “ovelhas negras da família”.

Pela descrição acima, seria de esperar um filme pesado, onde o espectador sentiria o drama de vidas complicadas a cada cena. Contudo, não é isso que sucede. “Silver Linings Playbook” é um longa bastante engraçado, arrancando risos do público em situações improváveis. É bom ressaltar que ele é baseado no livro de Matthew Quick, um escritor que também passou por períodos de frustração e isolamento antes de alcançar o sucesso. Quick era professor como Patrick e largou o emprego para seguir a carreira literária, só que, como era de se supor, o caminho não foi fácil. Passou por depressão e, diante das dificuldades financeiras, chegou a viver na casa dos sogros. É provável que, devido às suas próprias vivências similares, ele soube perfeitamente extrair comédia das dificuldades e Russell (com o auxílio de um roteiro redondo de sua própria autoria), ao contrário de vários cineastas que tentam o mesmo, acabou se saindo muito bem na adaptação para a telona. O romance também se faz presente, mas, ao contrário do que se imaginaria, sua força só é mais sentida nos minutos finais, quando o longa acaba por assumir alguns quase inevitáveis clichês.


Como já havia demonstrado no mencionado “O Vencedor”, Russell é um ótimo diretor de atores, algo essencial em longas que têm o cerne em relações familiares. O resultado desta conjunção entre um diretor que privilegia as atuações e um roteiro propício para tanto é um elenco extremamente entrosado e com espaço para que todos tenham seu brilho. Bradley Cooper, um ator subestimado por muitos, revela todo o seu potencial na pele de Pat Solitano, entregando uma composição equilibrada e emocional para um personagem que poderia facilmente cair na caricatura. O mesmo se pode falar de Jennifer Lawrence, favorita para o Oscar depois de vencer o Globo de Ouro e o prêmio do Sindicato de Atores por este papel. Ela realmente parece destinada a se tornar a melhor atriz de sua geração e, ouso dizer, talvez seja a sucessora de Meryl Streep, dada a sua versatilidade e energia com que encarna as personagens. Entretanto, possivelmente a maior satisfação para qualquer cinéfilo seja a atuação de Robert De Niro, uma lenda viva do cinema que andou cometendo várias bobagens nos últimos anos, mas aqui recupera sua boa forma e chega a roubar a cena em sequências divertidíssimas. É uma pena ter que escolher entre ele e Christoph Waltz no Oscar. A Academia bem que poderia abrir uma exceção e premiar os dois. Outro ponto alto da projeção é a trilha pop, um passeio sonoro que vai de Led Zeppelin a Frank Sinatra, sempre com canções perfeitamente relacionadas com as situações vistas na tela.

É certo que, como já sublinhado acima, o filme acaba por assumir algumas situações clichês. Há momentos que também trazem a recordação de outros filmes, como a reta final, que lembra “Pequena Miss Sunshine” (Little Miss Sunshine, 2006) – por sinal, outro filme ótimo sobre relações familiares. Mas nada obscurece a humanidade daqueles tipos que por vezes nos fazem esquecer que são apenas personagens de um filme. O envolvimento é inevitável e, sim, às vezes nós precisamos de finais felizes para que continuemos a ter a esperança em finais felizes também fora da ficção, como bem ressalta Pat ao terminar de ler, revoltado, um dos romances de Ernest Hemingway. “O Lado Bom da Vida” é uma daquelas produções que sempre nos deixam com vontade de ver mais um pouquinho, por mais que, no futuro, ela venha a ser reprisada à exaustão na televisão. E não tenho dúvidas que tais reprises incessantes deverão acontecer em um futuro próximo. A audiência vai pedir.


Cotação:



Nota: 9,5

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Lincoln

História

Os norte-americanos têm um apreço especial por seus políticos. É algo que faz parte da cultura deles e nunca entendi muito bem o porquê. Se a média dos brasileiros enxerga apenas deméritos em seus representantes (e aí não dá para entender o porquê de alguns deles continuarem sendo reeleitos ano após ano), os estadunidenses parecem agir em sentido contrário, respeitando o estadistas até que alguma prova apareça mostrando o contrário (como aconteceu com Richard Nixon). Neste sentido, era de se esperar que um filme sobre Abraham Lincoln, uma espécie de semideus nos Estados Unidos da América, obtivesse sucesso tanto junto ao público quanto junto à crítica. E é exatamente o que está acontecendo com “Lincoln”, o longa-metragem de Steven Spielberg (o cineasta que melhor representa hoje o cinema hollywoodiano) sobre o 16º presidente estadunidense.

Olhando com maior cuidado, fica difícil definir “Lincoln” como uma cinebiografia. Spielberg, em verdade, concentrou-se somente em um curto período de tempo, os meses decisivos da Guerra Civil entre os estados do norte e do sul ocorrida em virtude da questão escravagista. Portanto, não espere algo como o brasileiro “Lula – O Filho do Brasil”, de Fábio Barreto, longa que procura captar um largo período da vida do ex-presidente. Caso fosse esta a escolha de Spielberg, o filme restaria com o principal defeito da película nacional, transformando-se em uma narrativa episódica que relata vários momentos da trajetória do biografado, mas sem que se chegue a um resultado coeso e sem que possamos compreender um pouco mais da figura histórica. O cineasta norte-americano poderia facilmente cair nessa tentação, pois que a biografia de Lincoln, tal como a de Lula, é repleta de altos e baixos, cheia de momentos de perseverança e superação. Entretanto, fez uma ótima opção ao retratar a batalha política pela aprovação no Congresso da 13ª Emenda à Constituição, aquela que garantiu a abolição da escravidão no território ianque.


Este é o primeiro dado peculiar a ser apontado para o espectador médio sobre “Lincoln”. Trata-se de um filme eminentemente político e que se apega a detalhes históricos. Não é por acaso que as cópias exibidas fora dos Estados Unidos contam com uma introdução para situar o espectador no contexto histórico, já que seria complicado fazer o público compreender a ação sem que certos pormenores fossem elucidados. Não é uma obra para as massas no sentido estrito da expressão. Alguns poderão considerá-lo até aborrecido e, se não tiverem um pouco mais de paciência, abandonarão a sala de exibição (como vi alguns fazendo na sessão a que assisti). Contudo, caso você tenha paciência, desfrutará de uma bela abordagem a respeito do estadista e, sim, haverá também os momentos de tensão e emoção. Afinal, Spielbeg é um mestre na manipulação e sempre sabe jogar para a plateia. E também conhece o caminho das pedras para fazer a ligação entre o passado e o presente.

As relações feitas entre o momento histórico vivido pelo republicano Abraham Lincoln e o presente do democrata Barack Obama são claras. Da mesma forma que Obama precisou gastar muito de seu capital político para aprovar a reforma no sistema de saúde dos EUA (e ainda precisará para aprovar medidas como um maior controle no comércio de armas e o casamento entre homossexuais), Lincoln teve de empenhar todo o seu imenso prestígio popular para aprovar a citada 13ª Emenda, e não sem muitas dificuldades, conchavos, trocas de favores, compra de votos, além do simples convencimento das consciências dos parlamentares. Sim, a política é podre no mundo todo e na terra de Tio Sam não é diferente. Nós, brasileiros, é que nos deixamos iludir por uma mídia que no faz acreditar que o partido que atualmente ocupa nossa presidência é o mais corrupto de todos os tempos. Como o roteiro, escrito por Tony Kushner (e baseado no livro "Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln", Doris Kearns Goodwin) realça, Lincoln precisou usar de vários expedientes para alcançar seu objetivo, inclusive os menos elogiáveis. Aliás, não só ele. O deputado Thadeus Stevens - interpretado por Tommy Lee Jones em grande atuação - um abolicionista por convicção na igualdade plena entre os homens, acaba por renegar seus valores para que seus discurso soasse mais convincente perante os deputados em dúvida. O fins justificam os meios? Spielberg parece sustentar que, ao menos em alguns casos, os fins, sim, justificam os meios, uma posição que pode soar polêmica, mas que se mostra defensável diante das circunstâncias exibidas no longa.


Ressalte-se que a produção é repleta de toda a perfeição técnica costumeira nos filmes do cineasta, aqui acompanhado de seus velhos parceiros, como Janusz Kaminski na fotografia, a qual prima por paletas escuras e focos de luz concentrados nos personagens, e John Williams na trilha sonora (muito embora não seja das mais inspiradas, ainda é assim é competente), além de um figurino impecável nas mãos de Joana Johnston. Contudo, o desempenho do elenco é mesmo algo à parte. Sally Field, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante, entrega uma ótima atuação na pele da esposa de Lincoln, uma mulher perturbada pela perda de um dos filhos do casal, mas que tem uma influência marcante sobre as decisões do presidente. Tommy Lee Jones, como já frisado acima, mostra que realmente está em boa fase, sendo também indicado ao Oscar como ator coadjuvante. Mas não se pode negar que é mesmo Daniel Day-Lewis o principal catalisador das atenções. Day-Lewis é um daqueles atores que parecem incapazes de ter uma má atuação. Em uma composição perfeitamente equilibrada, ele traz Lincoln de volta com seu tipo desengonçado, caipira, mas também um contador de causos cheio de sabedoria. Além disso, faz o espectador sentir a solidão que o poder confere a um homem responsável por tantos destinos. Impressionante sua naturalidade, mesmo nos momentos mais emocionais, onde ele nunca extrapola para a super atuação. Não resta dúvida que ele é a versão masculina de Meryl Streep este ano. Está levando todos os prêmios por sua performance (no último domingo, levou o Sindicato de Atores) e é virtualmente imbatível.

Este é um dos filmes de Steven Spielberg que se filiam à sua vertente mais “sóbria”, digamos assim, juntando-se a obras como “A Lista Schindler” (Schindler’s List, 1993) e “Munique” (2005). Entretanto, está um pouco abaixo do patamar alcançado com os mencionados filmes (sim, eu considero “Munique” um longa injustiçado e um de seus melhores trabalhos). Há momentos em que “Lincoln” adquire um certo tom hagiográfico, principalmente na conclusão, onde é retratado o discurso de Getysburg e o personagem é mostrado como aquele presente nas cédulas de 5 dólares (algo que Spielberg disse que desejou evitar). Ademais, o longa realmente carece de ritmo em alguns momentos, deixando-nos meio que perdidos em meio aos emaranhados políticos. Todavia, tais problemas não tiram dele sua relevância e, decididamente, este é o melhor registro do seu diretor em vários anos (mais precisamente, desde o citado “Munique”). E, se você gosta de Cinema e História (assim, com “h” maiúsculo), “Lincoln” se coloca como um filme obrigatório.


Cotação:



Nota: 9,0