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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Era Uma Vez Em Tóquio
(Tôkyô Monogatari, 1953)


Profundamente japonês, humano e universal


Em recente eleição realizada pela revista britânica “Sight & Sound”, “Era Uma Vez em Tóquio” foi considerado, entre os cineastas votantes, como o melhor filme de todos os tempos, desbancando o tradicionalmente escolhido “Cidadão Kane”, de Orson Welles. Muitos podem discordar, mas o resultado mostra o quanto o cinema asiático ainda precisa ser visto e descoberto no Ocidente. Fora do círculo cinéfilo, este filme é praticamente desconhecido, por exemplo, pelo público brasileiro e o nome de seu diretor, Yasujiro Ozu, pode ser entendido como o de um E.T. Quando muito, algumas pessoas conhecem o nome do mais popular diretor japonês, Akira Kurosawa, famoso pelo estupendo “Os Sete Samurais” (Shichinin no Samurai, 1954). Entretanto, apesar de ser comumente visto como um diretor de cinema “de arte” (eu detesto essa expressão), os filmes de Ozu são muito acessíveis, centrados em narrativas sobre o cotidiano de famílias da classe média baixa do Japão, principalmente do período pós-guerra. Ozu é o maior representante de um gênero nipônico denominado shomin-geki, cuja principal característica era justamente a abordagem do dia a dia dessas famílias, causando uma quase imediata identificação com o espectador.

Nascido em 1903, Yasujiro Ozu começou sua carreira ainda no cinema mudo, mas foi na produção sonora que realizou suas grandes obras-primas, entre elas “Era Um Vez Em Tóquio”, longa de extrema percepção das relações humanas e que não precisa de uma trama intricada ou grandiosa para nos levar às mais perspicazes reflexões. Toda a película trata sobre a viagem de um casal da cidade japonesa de Onimichi a Tóquio. É a primeira vez que eles vão até à capital do País, com o intuito de visitar os filhos que lá trabalham. Entretanto, decepcionam-se com a acolhida dos mesmos, os quais não têm tempo para lhes dar atenção e consideram a visita dos genitores como um fardo. Apenas a nora Noriko (Setsuko Hara), esposa do filho já falecido na guerra, trata os idosos com o devido respeito e cuidado. A partir desse enredo simples, Ozu desenvolve uma belíssima análise das relações familiares e, importante frisar, válida para qualquer tempo ou cultura. Aliás, ao assistir a “Era Uma Vez em Tóquio” tive a sensação de estar a ver um filme concluído ontem, dada a sua temática extremamente atual, plena de contemporaneidade. Vivemos uma era em que os indivíduos possuem cada vez menos disposição para as relações interpessoais, embriagados de egoísmo e consumismo, buscando objetivos materiais em detrimento do convívio e disso Ozu já tratava em 1953, quando o Japão vivia um acelerado ritmo de industrialização.


Esse choque entre a modernidade e a tradição, entre o industrial e o humano, é contraposto por Ozu não apenas por meio da interação entre os personagens, mas também a partir dos elementos imagéticos do longa. As ações são frequentemente interrompidas por cenas de trens em movimento, bem como navios e outros símbolos de industrialização. O cineasta parece sempre comentar, através das imagens, que uma nova era, como novos valores, está substituindo a anterior. Contraposição essa que também se percebe na relação entre os idosos (os antigos valores) e os jovens filhos (os novos paradigmas). Na visão de muitos, Ozu revela a cada fotograma o seu conservadorismo, não apenas no aspecto estético, mas também ideológico, o que não deixa de ser verdade. Há uma certa rejeição ao novo em seu cinema, no qual reside latente uma perene crítica à ocidentalização do Japão no período pós-guerra. Aliás, a famosa qualificação de Ozu como “o mais japonês dos cineastas japoneses” não deixa de realçar esse lado de extremo apego às suas raízes. Entretanto, seria errado imaginar Ozu como uma espécie de anti-Kurosawa, pois o mestre Akira se valia da influência do Ocidente em sua estética, é bem verdade, mas suas temáticas são tão profundamente japonesas quanto as de Ozu.


Nas imagens de Ozu, até mesmo sua estética é peculiar. A câmera é estática, com os personagens entrando e saindo de cena em quadros fixos, além de posicionada próxima ao chão (a famosa “câmera baixa”), na mesma altura em que os japoneses costumam fazer suas refeições, técnica que iria influenciar até mesmo Steven Spielberg em “E.T. - O Extraterrestre” (E.T – The Extra-Terrestrial, 1982), o qual a utilizou como uma forma de vermos os acontecimentos a partir do ponto de vista das crianças. Ozu também usava como poucos a técnica de campo e contracampo, principalmente em passagens de diálogos, quando vemos os personagens de frente para a câmera, como se estivéssemos conversando com eles. Por outro lado, sabia usar a trilha sonora para acentuar a melancolia do drama, mas sem torná-la invasiva ou excessiva. Ademais, era um ótimo diretor de atores, extraindo deles o seu melhor, vide o ótimo desempenho de Chishu Ryu, como o pai Shukishi Hirayam, que conseguiu interpretar com inteira veracidade um tipo 20 anos mais velho do que a sua verdadeira idade à época. Outro destaque é, Chieko Higashiyama, como a mãe idosa e doente, além de Setsuko Hara, como a dedicada nora Noriko e Haruko Sugimura, como a antipática e vazia filha Shige.

Contudo, para além de questões estilísticas, a maior relevância do cinema de Ozu é seu caráter profundamente humano, que inclusive nos faz repensar nossas próprias relações familiares. Como diz o cineasta Aki Kaurismaki, no documentário “Conversando com Ozu” (que acompanha a edição brasileira de “Era Uma Vez em Tóquio”, recém-lançada pela Versátil), comparando o cinema o cinema de Ozu ao predominante nos Estados Unidos: “Em seus filmes, Ozu fala de tudo que é essencial ao ser humano sem exibir nenhuma cena de violência”. Mesmo que trate eminentemente da cultura japonesa, este gênio consegue ser universal, o que me remete a uma outra frase, esta do mestre literário Liev Tolstói: “Se queres ser universal, começas por descrever a tua aldeia”. E é essa a síntese do cinema de Ozu. A partir da abordagem de um Japão em processo de rápidas transformações sociais e culturais, ele toca em temas e acontecimentos que dizem respeito a todos os seres humanos, sem exceções.


Cotação e nota: Obra-prima.

domingo, 12 de maio de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

Mother - A Busca Pela Verdade
(Madeo, 2009)


Suspense hitchcockiano sobre a maternidade


Ultimamente, ando afastado do cinema asiático. Um descaso bastante reprovável, tenho ciência disso, o que me levou a procurar resolvê-lo assistindo a algum representante do crescente e elogiável cinema coreano, considerado pela crítica internacional como o maior celeiro de criatividade atual. Confesso que, entre os representantes da produção coreana recente, eu havia visto apenas “Old Boy” (2003), a perturbadora saga de vingança concebida pelo diretor Chan-wook Park. Diante da proximidade do dia das mães, o que estava me motivando a postar algum texto relacionado à data (tudo bem, até o Cinema Com Pimenta às vezes acaba contaminado por essas datas que, no fundo, são comerciais), acabei optando pelo longa-metragem “Mother – A Busca Pela Verdade”, cujo diretor Bong Joon-Ho é um dos mais incensados da atual cena da Coreia do Sul. Ele é o mesmo cineasta de “O Hospedeiro” (Gwoemul, 2006), filme conhecido pela mistura de diversos gêneros, passeando do terror até a comédia e crítica social. Não vi “O Hospedeiro”, mas, a julgar por este “Mother”, o ecletismo parece mesmo ser uma marca do trabalho de Joon-Ho.

Em “Madeo” (título original do longa), o diretor consegue misturar com precisa eficácia gêneros como drama, suspense e policial, trazendo um resultado original e, até certo ponto, surpreendente. Um modo diferente de abordar uma narrativa que questiona até onde pode ir o amor materno. Na trama, Hye-Ja (papel da excelente atriz Kim Hye-Ja), comerciante que também realiza sessões de acupuntura clandestinamente, é mãe solteira de Do-Joon, uma rapaz que tem já os seu vinte e poucos anos, mas que tem um significativo retardo de desenvolvimento mental, comportando-se como uma criança. Após uma noite de bebedeira, Do-Joon acaba se tornando o principal suspeito do brutal assassinato de uma jovem de seu bairro. A super protetora Hye-Ja fará, então, de tudo para provar a inocência do filho, em um caminho tortuoso onde terá de enfrentar uma polícia ineficiente e advogados negligentes. Um percurso com surpresas e situações de choque e que levarão o espectador tanto ao espanto quanto à reflexão.


A estrutura básica de “Madeo” é a de um “whodunit”, aquele tipo de filme cujo mote central é descobrir quem cometeu um crime. Joon-Ho desenvolve o mistério utilizando estruturas inspiradas em Alfred Hitchcock, como a famosa premissa do “homem errado”, tão frequente na filmografia do cineasta britânico. Além disso, realiza uma interessante mistura de tons de suspense com elementos cômicos, uma das especialidades do velho Hitch. Contudo, se este utilizava uma superfície de mistério e suspense para realizar análises acerca da relação homem-mulher, dissecando a sedução e dominação presentes nos envolvimentos amorosos, Joon-Ho tenta entender aquela que talvez seja o mais instintivo, visceral e, ao mesmo tempo, belo e comovente dos sentimentos: o amo materno. A trajetória de Hye-Ja para proteger sua prole alcança pontos em que certos limites éticos e morais são ultrapassados, levando-nos a refletir sobre a aceitabilidade de suas condutas, além de fazer-nos questionar o quanto do ser humano pode ser condicionado pelos nosso instintos mais primitivos. Joon-Ho, todavia, não oferece julgamentos, seja condenando ou absolvendo a protagonista e está longe de enquadrá-la em uma visão santificada ou que procurasse ao menos justificar suas atitudes. De outra ponta, Joon-Ho demonstra uma forte preocupação em exibir a realidade da Coreia capitalista, muitas vezes vista nos Ocidente como exemplo de país que soube sair do subdesenvolvimento. A Coreia que vemos nos filme é repleta de semifavelas e demonstra possuir uma sociedade bem menos rica e pujante do aquela que a mídia globalizada costuma divulgar.


Tais questionamentos nos são trazidos por meio de um roteiro muito bem construído, atento a minúcias e com pistas falsas, muito embora algumas de suas reviravoltas, mormente a principal delas, se mostrem uma tanto previsíveis. Apesar de tais previsibilidades, a narrativa não deixa de ser envolvente e não só porque o roteiro é bem construído. As atuações contribuem poderosamente para o ótimo resultado final da película. O jovem intérprete do filho Do-Joon, o ator Bin Won, realmente convence como uma rapaz com problemas de desenvolvimento mental, em uma atuação muito natural. Além dele, Ku Jin, intérprete do amigo Jim-Tae, também trabalha com competência na construção de uma personalidade dúbia. Contudo, é mesmo Kim Hye-Ja que arrasa em sua performance como a mãe protagonista. Uma atuação perfeita que certamente levaria indicações e prêmios Oscar caso ela tivesse trabalhado em um longa hollywoodiano.

“Mother-A Busca Pela Verdade” tornou-se quase uma unanimidade perante a a crítica internacional e não impunemente. Trata-se de uma obra que demonstra, de fato, porque o cinema coreano é considerado o mais criativo da atualidade, abordando temas complicados de forma inteligente, mas sem tem medo de ser incômodo. Interessante, inclusive, constatar como a produção coreana consegue fugir do politicamente correto e até chocar o público, mas sem nunca deixar de envolvê-lo, em uma mistura de forma e substância à qual é impossível ficar indiferente. E Bong Joon-Ho é, indubitavelmente, um dos grandes representantes dessa escola cinematográfica singular, sendo “Mother” uma ótima forma de começar a conhecê-lo. Não sei se é exatamente uma longa para ser visto no dia das mães, mas que é um baita filme, isso é.


Cotação:



Nota: 9,0

domingo, 20 de maio de 2012

Curtindo o Curta #4


O mundo dos curtas de animação vai bem além daqueles produzidos pela Pixar e exibidos juntamente com seus longas. Um belo exemplo é este "A Casa de Pequenos Cubinhos" (Tsumiki no ie, 2008), do diretor japonês Kunio Kato, o qual destronou o referido estúdio estadunidense no Oscar de 2009, levando o prêmio na respectiva categoria (a Pixar concorria com o também ótimo "Presto"). É difícil condensar emoções em pouco tempo, mas Kato conseguiu a proeza de fazer refletir e comover em apenas 12 minutos neste filme que mostra um homem idoso que mora em uma cidade praiana. Ao longo do tempo, o nível da água vai aumentando e, desta forma, ele tem que erguer ainda mais sua moradia, levantada tijolo por tijolo. Certo dia, ao realizar a mudança dos seus móveis para a parte acima do nível da água, seu cachimbo favorito cai da boca e vai parar no fundo do mar. A partir daí, decidido a recuperar o querido cachimbo, o idoso compra uma roupa de mergulho e vai de encontro às lembranças de sua vida, que se apresentam lenta e nostalgicamente nos níveis inferiores e submersos de sua casa. O curta é de uma sensibilidade ímpar e, além de tecer um bela metáfora sobre a vida e a passagem do tempo, de quebra ainda deixa um comentário sobre os efeitos das alterações climáticas em nosso planeta. Veja abaixo. Garanto que " A Casa de Pequenos Cubinhos" ficará na sua memória.


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Para Ver em Um Dia de Chuva


Akira
(Akira)


Adolescência apocalíptica


Já havia algum tempo, o DVD de “Akira”, a obra máxima do japonês Katsuhiro Otomo, se encontrava na minha estante de filmes, em meio às dezenas de outros longas-metragens aos quais eu ainda não havia assistido, e isso apesar da minha grande curiosidade em vê-lo. Pois bem, eis que finalmente decidi apreciá-lo e, atendendo às minhas expectativas, o filme, em boa parte, não decepciona, se mostrando surpreendentemente atual em várias de suas facetas e, mesmo nos aspectos técnicos da animação, ainda dotado de muita beleza.

Antes de tudo, “Akira” procura traduzir em imagens o turbilhão de emoções à flor da pele que é a adolescência. Seus protagonistas, Kaneda e Tetsuo, integrantes de uma gangue de motociclistas, são espelho tanto da inconsequência, quanto da revolta e sentimento de inadequação que caracterizam esta fase da vida. Tetsuo, o garoto que é alvo de uma experiência que potencializa os poderes de sua mente, é a síntese destes conflitos, ainda mais agravados pelo fato do mesmo ser uma vítima de bullyng e sempre precisar da ajuda se seu amigo Kaneda, uma espécie de irmão mais velho, para escapar das enrascadas em que se envolve. Imaginar um adolescente ressentido com poderes telepáticos quase infinitos, capazes de promover a destruição de tudo que se encontrar no caminho é algo assustador e nos lembra até mesmo de fatos recentes, como o do atirador da escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, ou dos estudantes que abriram fogo no Instituto Columbine, nos EUA, há alguns anos. Por outro lado, essa abordagem não deixa de refletir o temor que a sociedade japonesa tem de seus jovens. Extremamente conservadores e tradicionalistas, é difícil para os japoneses aceitarem qualquer forma de iconoclastia e isso se traduz no receio com relação às gerações mais novas, o que redunda em uma repressão que conduz vários desses jovens ao suicídio.

Os japoneses, ademais, costumam expressar seus medos coletivos de forma bastante explícita em seus meios artísticos. O cinema, ao longo de décadas, tem servido de divã para esses temores, como bem demonstra o excepcional “Sonhos”, do mestre Akira Kurosawa, onde o horror nuclear aparece em mais de um dos sonhos (contos) que constituem as diversas narrativas do filme. Otomo, não fugindo à regra, também manifesta esses medos de maneira acentuada nesta obra, que foi primeiramente um manga de sucesso escrito pelo próprio diretor. Afinal, a trama de Akira, é importante explicar, insere-se em um contexto pós-apocalíptico, quando a terceira guerra mundial já haveria ocorrido, com a antiga cidade de Tóquio varrida do mapa. Em seu lugar, foi construída Neo-Tóquio, uma metrópole sombria e turbulenta dominada por jovens delinquentes e grupos políticos anarquistas. Neste contexto, os militares se impõem como força da ordem e adquirem poderes quase ilimitados, seqüestrando pessoas para servirem de cobaias no projeto Akira (daí o título do filme). O nome do projeto se refere a um garoto especialmente poderoso que, com seus talentos fora de controle, teria sido o responsável pela destruição da antiga Tóquio. É de tais experiências que Tetsuo é cobaia, como já mencionado no início deste texto, logo após esbarrar, durante uma das brigas de gangues, em uma das crianças especiais que havia escapado das instalações militares. Kaneda, então, se empenha em sua busca, tendo de contar, para tanto, com a ajuda dos grupos paramilitares anarquistas.



Toda essa apoteose de paranoias nipônicas tem uma ambientação cyberpunk que remete a longas de ficção-científica anteriores, como o inevitável “Blade Runner”. Mas seria leviano afirmar que Otomo se limita a realizar um pastiche de obras predecessoras. Seu universo possui uma inegável originalidade que influenciou vários outros autores, até mesmo em suas características imagéticas (em determinadas sequências, “Ronin”, uma das grandes HQs de Frank Miller, me veio à mente, percebendo assim a influência de “Akira” em obras ocidentais). Entretanto, e aqui vai uma ressalva, tal universo em diversos momentos se apresenta muito hermético para os não iniciados nos mangas e animes japoneses. Sua conclusão, bastante abstrata e que, por vezes, parece sugerir que o espectador conheça previamente a obra em quadrinhos, é um exemplo claro desta afirmação (muito embora seja distinta da escrita para o manga).

Em aspectos técnicos, Akira também foi responsável por uma enorme evolução, principalmente no âmbito da produção japonesa. A fluidez alcançada pelas técnicas empregadas só era comparável à qualidade dos estúdios Disney (o que, inclusive, deixou a Casa do Mickey de orelhas em pé), estando muito além dos recursos utilizados nos animes até então. A perfeita sincronia entre as vozes e os gestos faciais foi surpreendente, assim como a ampla gama de cores utilizadas, as quais contribuíram em muito para dar vida e um clima diferenciado à cidade de Neo-Tóquio.

Dotado de uma violência gráfica talvez nunca antes vista em uma animação, é preciso alertar que “Akira” não é uma experiência que agrade a todos, mas é bom lembrar que o próprio gênero da ficção-científica não é uma unanimidade. Contudo, se estiver procurando uma experiência cinematográfica diferente do feijão com arroz cotidiano, a jornada do perturbado Tetsuo se apresenta como uma opção bastante interessante e, com certeza, obrigatória para os interessados na cultura nipônica, além de expor muito do inconsciente coletivo desta sociedade e, porque não, também da sociedade ocidental, hoje repleta de jovens enfurecidos dispostos a extravasar de maneira violenta seus ressentimentos.


Cotação:

Nota: 9,5

domingo, 16 de janeiro de 2011

Os 100 melhores filmes em língua não-inglesa


Hoje, teremos a entrega do Globo de Ouro 2011, um dos mais fracos de todos os tempos, na minha opinião. O máximo que irá acontecer será o embate entre “A Rede Social” e “A Origem”. Ou seja, previsibilidade extrema. Aliás, as entregas de prêmios estão se tornando cada vez mais tediosas. Bem mais interessante do que a lista de indicados ao Globo de Ouro é esta lista elaborada pela “Empire” no ano passado com os 100 melhores filmes em língua não-inglesa. Listas criam muita discussão, mas é inegável que servem como referência para os amantes do cinema. Veja abaixo a lista e a matéria original da publicação pode ser conferida aqui. Obs: observem que posição honrosa alcançou o nosso “Cidade de Deus”.


001. Os sete samurais (Akira Kurosawa, 1954)

002. O fabuloso destino de Amélie Poulain (J.-P. Jeunet, 2001)

003. O encouraçado Potemkin (Sergei M. Eisenstein, 1925)

004. Ladrões de bicicleta (Vittorio de Sica, 1948)

005. O labirinto do fauno (Guillermo del Toro, 2006)

006. A batalha de Argel (Gillo Pontecorvo, 1965)

007. Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002)

008. O sétimo selo (Ingmar Bergman, 1957)

009. O salário do medo (Henri-Georges Clouzot, 1953)

010. A viagem de Chihiro (Hayao Miyazaki, 2001)

011. A doce vida (Federico Fellini, 1960)

012. Metrópolis (Fritz Lang, 1927)

013. A regra do jogo (Jean Renoir, 1939)

014. Trilogia das Cores:
014. A liberdade é azul (Krzysztof Kieslowski, 1993)
014. A igualdade é branca (Krzysztof Kieslowski, 1994)
014. A fraternidade é vermelha (Krzysztof Kieslowski, 1994)

015. Deixa ela entrar (Tomas Alfredson, 2008)

016. Era uma vez em Tóquio (Yasujiro Ozu, 1953)

017. Trilogia de Apu:
017. A canção da estrada (Satyajit Ray, 1955)
017. O invencível (Satyajit Ray, 1956)
017. O mundo de Apu (Satyajit Ray, 1959)

018. Oldboy (Chan-wook Park, 2003)

019. Aguirre, a cólera dos deuses (Werner Herzog, 1972)

020. E sua mãe também (Alfonso Cuarón, 2001)

021. Nosferatu (F. W. Murnau, 1922)

022. Rashomon (Akira Kurosawa, 1950)

023. O espírito da colméia (Víctor Erice, 1973)

024. Vá e veja (Elem Klimov, 1985)

025. O barco, inferno no mar (Wolfgang Petersen, 1981)

026. A Bela e a Fera (Jean Cocteau, 1946)

027. Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988)

028. Lanternas vermelhas (Yimou Zhang, 1991)

029. Os incompreendidos (François Truffaut, 1959)

030. Infernal afffairs (Alan Mak - Lau Wai-keung, 2002) Conflitos Internos

031. Godzilla (Ishirô Honda, 1954)

032. O ódio (Mathieu Kassovitz, 1995)

033.M - o vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang,1931)

034. Valsa com Bashir(Ari Folman, 2008)

035. A grande ilusão (Jean Renoir, 1937)

036. Decálogo (Krzysztof Kieslowski, 1988)

037. Roma, cidade aberta (Roberto Rossellini, 1945)

038. Cinzas e diamantes (Andrzej Wajda, 1958)

039. O Samurai (Jean-Pierre Melville, 1967)

040. A aventura (Michelangelo Antonioni, 1960)

041. Meu amigo Totoro (Hayao Miyazaki, 1988)

042. Amor à flor da pele (Kar-Wai Wong, 2000)

043. Cyrano De Bergerac (Jean-Paul Rappeneau, 1990)

044. Ikiru - Viver (Akira Kurosawa, 1952)

045. Suspiria (Dario Argento, 1977)

046. Jules e Jim - uma mulher para dois (François Truffaut, 1961)

047. Dez (Abbas Kiarostami, 2002)

048. A queda - as últimas horas de Hitler (O. Hirschbiegel, 2004)

049. As férias do senhor Hulot (Jacques Tati, 1953)

050 Trens estreitamente vigiados (Jiri Menzel, 1967)

051. Akira (Katsuhiro Otomo, 1988)

052. Touki Bouki (Djibril Diop Mambéty, 1973)

053. Tudo sobre minha mãe (Pedro Almodóvar, 1999)

054. Festa de família (Thomas Vinterberg, 1998)

055. Lagaan (Ashutosh Gowariker, 2001)

056. A bela da tarde (Luis Buñuel, 1967)

057. Central do Brasil (Walter Salles, 1998)

058. Persépolis (Vincent Paronnaud - Marjane Satrapi, 2007)

059. Heimat (Edgar Reitz, 1985)

060. Jean de Florette (Claude Berri, 1986)

061. A Faca Na Água(Roman Polanski , 1962)

062. 8 1/2 (Federico Fellini, 1963)

063. A prophet (Jacques Audiard, 2009) O Profeta

064. Asas do desejo (Wim Wenders, 1987)

065. Um cão andaluz (Luis Buñuel, 1928)

66º - O tigre e o dragão (Ang Lee, 2000)

067. The Vanishing (George Sluizer, 1988)

068. Solaris (Andrei Tarkovsky, 1972)

069. Ringu - o primeiro chamado (Hideo Nakata, 1998)

070. Fervura máxima (John Woo, 1992)

071. Persona (Ingmar Bergman, 1966)

072. Ten Canoes (Rolf de Heer - Peter Djigirr, 2006)

073. Caché (Michael Haneke, 2005)

074. Devdas (Sanjay Leela Bhansali , 2002)

075. Acossado (Jean-Luc Godard, 1959)

076. Os idiotas (Lars Von Trier, 1998)

077. O Clã das Adagas Voadoras (Zhang Yimou, 2004)

078. Mulheres à beira de um ataque de nervos (P. Almodóvar, 1988)

079. Bande à part (Jean-Luc Godard, 1964)

080. Mother India (Mehboob Khan , 1957)

081. O hospedeiro (Joon-ho Bong, 2006)

082. Battle Royale (Kinji Fukasaku, 2000)

083. Xala (Ousmane Sembene , 1974)

084. Orfeu (Jean Cocteau, 1950)

085. O conformista (Bernardo Bertolucci, 1969)

086. Corra, Lola, Corra (Tom Tykwer, 1998)

087. Andrei Rublev (Andrei Tarkovsky, 1966)

088. Leningrad Cowboys (Aki Kayrismaki, 1989)

089. Os Amores de uma Loira (Milos Forman, 1965)

090. Rififi (Jules Dassin, 1955)

091. Adeus, Lênin! (Wolfgang Becker, 2003)

092. Ghost in the shell (Mamoru Oshii, 1995)

093. The Fourth Man (Paul Verhoeven, 1983)

094. Yeelen (Souleymane Cisse, 1987)

095. Way of the Dragon (Bruce Lee, 1972)

096. Delicatessen (Marc Caro - Jean-Pierre Jeunet, 1991)

097. Adeus, minha concubina (Kaige Chen, 1993)

098. Ran (Akira Kurosawa, 1985)

099. Iron Monkey (Yuen Woo-ping , 1993)

100. Guardiões da Noite(Timur Bekmambetov , 2004)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer



Sonhos (Akira Kurosawa's Dreams)


As pinturas de Kurosawa

Eu costumo dizer que o tempo é o melhor crítico de arte que existe. Espero estar certo e ver algumas injustiças serem corrigidas e ter a satisfação de ver alguns filmes não muito lembrados serem devidamente valorizados. É o caso de “Sonhos”, obra do gênio Akira Kurosawa, que não costuma freqüentar listas de melhores de todos os tempos (foi esquecido até no popular livro “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer"). Um fato bastante estranho, deveras. Um daqueles esquecimentos por parte dos críticos que incomodam e servem apenas para o público soltar frases como “críticos são muito chatos”, para não lembrar de adjetivos como “cretinos” ou “idiotas”.

Se você não conhece, Akira Kurosawa é o cineasta japonês que mais influência exerceu sobre o cinema ocidental. Autor de obras-primas como “Os Sete Samurais”, sua sombra é principalmente sentida nos diretores integrantes do movimento denominado “Nova Hollywood”, a geração sexo-drogas-rock’n roll que mudou a face do cinema americano a partir do fim da década de 60. Entre os declaradamente fãs do diretor japonês estão Steven Spielberg, Francis Ford Copolla, Martin Scorsese e George Lucas. Este último, inclusive, teve nos filmes de Kurosawa muito de sua inspiração para compor o universo da saga “Star Wars”. O genial cineasta, contudo, não é, até hoje, visto com muitos bons olhos em sua terra natal, onde é acusado de ser “ocidentalizado”, afirmação esta um tanto injusta. É verdade que Kurosawa trouxe para o cinema oriental elementos caros à produção ocidental, marcadamente a norte-americana. E isso se deve ao fato de que o mesmo era um grande admirador de diretores como John Ford (e quem não é?), com suas belíssimas e minuciosas composições imagéticas, com planos arrebatadores, onde aquilo que se mostrava na tela também traduzia o interior dos personagens. Entretanto, afirmar que isto é “ocidentalizar-se” é uma atitude um tanto obtusa. O amor de Kurosawa pelas imagens fortes e minuciosamente planejadas decorre, muito provavelmente, de seu enorme apreço pela pintura. É sabido que antes de decidir-se pela carreira do cinema, Kurosawa foi pintor, chegando a cogitar fortemente em seguir essa carreira. Ou seja, nada mais natural que procurasse colocar nas telas um pouco (ou muito) deste seu outro lado artístico. Além disso, a arte sempre será construída a partir de influências mútuas. Se Kurosawa soube aproveitar muito do cinema americano, este último, como dito acima, também soube aproveitar, posteriormente, muitas das lições do mestre japonês. Vaticinar que isso é “ocidentalizar-se” ou “orientalizar-se” soa provinciano e tacanho.

Uma das maiores provas de que Kurosawa soube utilizar muito bem os elementos do cinema ocidental, mas mostrando uma essência e conteúdo extremamente japoneses, é precisamente “Sonhos”. É bom, neste passo, lembrar que esse é um longa de 1990, um dos últimos na carreira do diretor, realizado a partir da ajuda dos citados cineastas estadunidenses. Durante um bom tempo, Kurosawa ficou relegado ao ostracismo, chegando a tentar o suicídio por não conseguir mais financiar os seus projetos. Mas, se, nesta fase, as imagens ganharam muito do cinema de Hollywood, com sua qualidade técnica impecável, a obra do velho diretor talvez tenha adquirido contornos ainda mais orientais. Os oito “sonhos” (supostamente baseados em sonhos do próprio cineasta) que compõem o longa-metragem, além de trazerem questões próprias ao diretor, abordam aspectos culturais profundamente japoneses, além de temores e valores típicos do povo da terra do sol nascente.

O próprio número de “sonhos” – na realidade verdadeiros contos independentes entre si – qual seja, oito, já traz um forte significado. Na cultura nipônica o oito (“hachi”) é o número da perfeição, representação da ligação entre as esferas espiritual e terrena. E vários são os aspectos caros aos japoneses representados ao longo de toda a projeção. O seu folclore é abordado, por exemplo, no primeiro sonho, onde um garoto é obrigado a deixar um punhal no fim do arco-íris para procurar acalmar a ira da raposa, animal que possui significados místicos na cultura local, sendo portadora de dotes ilusionistas e cujo acasalamento se dá, segundo a tradição nipônica, em dias em que chuva e sol se encontram. O horror nuclear, por sua vez, ganha representatividade no 6º e 7º sonhos, onde as conseqüências da radioatividade ganham cores vivas e fortes, com imagens possivelmente inspiradas em Dante e sua “Divina Comédia”. Da mesma forma, a comunhão e harmonia com a natureza ganham defesa no 2º e último contos, sendo este último, sobre a aldeia dos moinhos de água, onde um simpático velhinho de 103 anos ministra verdadeiras aulas de sabedoria, possivelmente a mais apaixonante das oito narrativas. Todavia, alguns irão se recordar com mais vivacidade ainda do sonho em que o protagonista conversa com o gênio Vincent Van Gogh (aqui interpretado por Martin Scorsese) para em seguida passear por entre várias de suas telas. É neste ponto de Kurosawa deixa falar mais alto o seu lado pintor, muito embora não se reduza apenas a ele. Uma das características mais marcantes do longa é sua paleta de cores fortes e vivas, de uma beleza memorável. Verdadeiras pinturas se sucedem a cada fotograma, gerando imagens que realmente impressionam (a fotografia, por sinal, acabou recebendo uma indicação ao Oscar).

Por outro lado, Kurosawa não se limita a estabelecer uma ligação entre o cinema e a pintura. O teatro é outra forma de arte que, com certa frequência, encontra eco em sua carreira (como em “Ran”, sua magistral obra-prima de 1985) e ela também se faz presente aqui. Trata-se do Nô, arte teatral característica do Japão, onde se misturam música, dança e poesia, rica em simbolismos. Para o público leigo, o Nô surge em tintas claras no segundo sonho, em que os espíritos da natureza realizam uma ritual para tentar fazer renascer um pomar de pessegueiros. Falando em música, a trilha sonora é baseada na música folclórica japonesa, o Min’yõ, com o uso de alaúdes, flautas, percussões e instrumentos de cordas típicos do Japão, soando de forma belíssima.

O resultado é um espetáculo impressionista ou mesmo surrealista, lembrando as origens artísticas de Kurosawa (pintura) e mostrando, de maneira vitoriosa, que a arte não tem pátria. Não existe arte “ocidental” ou “oriental”; o que existe são grandes artistas e artistas medíocres, provavelmente estes os criadores da falácia de o gênio fazia cinema para americanos assistirem, talvez com inveja do respeito que o mesmo adquiriu além dos limites do Japão. É interessante até mesmo observar que os cineastas ianques não têm qualquer vergonha em assumir e assimilar influências, enquanto os de outras nacionalidades parecem, muitas vezes, permeados de um provincianismo pouco produtivo. De qualquer forma, para você, fã de cinema, o que mais interessa não é essa discussão estéril, mas saber que “Sonhos” é um filme inesquecível, de beleza ímpar, o qual provavelmente permanecerá na sua mente durante um bom tempo. E também concordará que os críticos realmente se mostram muito azedos ao esquecê-lo entre os melhores filmes de Akira Kurosawa. Uma obra de arte para ser vista e revista.

Classificação e nota: Obra-prima.