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domingo, 27 de outubro de 2013

Quero Ver Novamente # 24



O Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, está abrigando uma exposição sobre o genial Stanley Kubrick.. Recriando ambientes de filmes do diretor como "O Iluminado" e "Laranja Mecânica", a exposição também reúne centenas de objetos usados em cena - documentos, fotografias, cartas, anotações e peças originais dos longas. Infelizmente, não vou poder conferi-la, mas, nos últimos dias, fiquei com uma baita vontade de rever os filmes de Kubrick, especialmente os mais antigos e menos vistos. Abaixo, você pode conferir uma cena de "Glória Feita de Sangue" (Paths Of Glory, 1957), filme que pode ser considerado como sua primeira obra-prima ( e também o primeiro com a temática da guerra).

A trama se passa em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, quando um general francês ordena um ataque suicida e, como nem todos os seus soldados se lançam ao ataque, ele exige que sua artilharia atinja as próprias trincheiras. Contudo, o general não é obedecido nessa ordem absurda, então resolve pedir o julgamento e a execução de todo o regimento por se comportar covardemente no campo de batalha e assim justificar o fracasso de sua estratégia militar. Finalmente, decide-se que três soldados serão escolhidos para servirem de exemplo, mas o coronel Dax (Kirk Douglas) não concorda e decide interceder de todas as formas para tentar revogar a estúpida decisão. Filmaço obrigatório!






sexta-feira, 6 de abril de 2012

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Os Falsários
(Die Fälscher, 2007)


Entre a cruz e a espada


Desde que Steven Spielberg filmou, em 1993, a sua obra-prima “A Lista de Schindler” (Schindler's List), longa-metragem que estabeleceu um perfeito equilíbrio entre a brutalidade nazista e a emoção que se pode extrair de uma drama dessas proporções, o cinema se viu invadido por uma série de filmes tendo como tema central o holocausto cometido durante a Segunda Guerra Mundial. Desde então, praticamente todos os anos chegam às telas obras com este foco, seja em formato ficcional ou documental. Claro que, diante de tantas produções, inevitavelmente surgirão aquelas de maior e outras de menor qualidade, sendo necessário filtrá-las, afinal não basta que um filme tenha o massacre dos judeus como tema para que se possa afirmar que é bom cinema. Para cada “O Pianista” (The Pianist, 2002), uma das obras-primas de Roman Polanski, temos outros exemplares de qualidade duvidosa, como é o caso do nacional “Olga” (2004), de Jayme Monjardim, o qual, mesmo que não tenha o holocausto como tema central, mergulha em um sensacionalismo desnecessário, dado o caráter já naturalmente emocional da temática. A Academia de Hollywood, por seu turno, parece jamais se cansar de prestigiar longas que abordam o horror nazista e com certeza esse foi um dos principais fatores que levaram o longa-metragem austro-alemão “Os Falsários” a levar o Oscar de melhor filme em língua estrangeira em 2008. Entretanto, e felizmente, este não foi o único fator.

Poucos são os filmes que apresentam dilemas éticos e morais com tanta propriedade quanto “Os Falsários”. Na sua estrutura narrativa, as soluções, longe de fáceis ou maniqueístas, parecem, pelo contrário, sempre levar os protagonistas a um novo labirinto de interrogações e cada nova decisão tomada parece ser inevitavelmente insatisfatória, pois que destituída do poder de retirá-los do beco sem saída em que estão vivendo. Homens que não sabem se é honroso ou vergonhoso sobreviver quando lançados em uma situação em que suas vidas são pautadas pela ajuda que prestam a uma máquina de extermínio. Você, que está lendo, ajudaria o nazismo, mesmo que de uma forma indireta, em troca de ver mantida sua própria vida?


A problemática nos é apresentada através da história real conhecida como “Operação Bernhard”, hoje considerada como responsável pelo maior derrame de moedas falsas já realizado. Em condições difíceis nos campos de batalha e com os cofres cada vez mais escassos, os nazistas partiram para a falsificação de dinheiro como uma forma tanto de “criar” recursos para custear a guerra, como também de abalar a economia do países vítimas da contrafação, no caso Inglaterra e Estados Unidos. Para perpetrar tal intento, os alemães se valeram de judeus prisioneiros em campos de concentração com talentos adequados à falsificação de cédulas. Baseado no livro “The Devil's Wokshop”, de Adolf Burger (ele próprio um dos personagens na tela), a narrativa nos mostra que um destes especialistas judeus é Salomon Sorowitsch (no filme, o papel é de Karl Markovics), ou “Sally” para o mais próximos, um falsário de enorme talentos artísticos, mas que prefere levar a vida “fazendo” o dinheiro do que suando para ganhá-lo. É ele que será o líder dos falsários e contará com a especial confiança do comandante do campo (Devid Striesow) - que por sinal foi o policial que o prendeu - o qual reserva para o grupo uma tratamento diferenciado. No entanto, a posição de Salomon de salvar a vida a qualquer custo é confrontada por Burger (interpretado por August Diehl), que não admite servir aos propósitos dos próprios algozes.


Temas como esse poderiam cair facilmente no sentimentalismo, mas o diretor Stefan Ruzowitzky soube fugir dos lugares-comuns e manteve a narrativa, em sua maior parte, distante das facilidades. Desenvolvida em estilo flashback, já sabemos de antemão que Salomon escapou da morte no campo, evitando assim que o espectador pudesse focar em um suspense desnecessário acerca do destino do protagonista, o que desviaria sua atenção do drama ético proposto. A contraposição da vida de Salomon antes e depois da guerra, regada a mulheres e boemia, com o período em que ele passa enclausurado também se mostra muito útil para entendemos sua personalidade e sua facilidade em obter benefícios dos militares da SS. A edição primorosa mostra-se, ademais, fundamental para esse intento e até mesmo a trilha sonora escolhida, repleta de tangos, contribui para lembrarmos que Salomon é, antes de tudo, um bon-vivant que sabe, mais do que qualquer outro, arranjar maneiras de obter regalias. O roteiro, também escrito pelo próprio diretor Ruzowitzky, é enxuto, fazendo com que o filme não dure mais do que 1h e 40min. Mas isso não significa dizer que o mesmo é superficial. Pelo contrário, aborda as temáticas apontadas com objetividade e profundidade. Mas tais características cairiam por terra se o elenco não correspondesse, atribuindo verossimilhança aos personagens retratados, e aqui cabe destacar a ótima atuação de Karl Markovics ao imprimir ao mesmo tempo verdade e um tom misterioso a Salomon, fazendo deste um tipo memorável.

Ver-se entre a cruz e a espada é o que resulta da experiência de assistirmos a “Os Falsários”, levando o público antes de tudo à reflexão e não tão somente a um mero derramamento de lágrimas como acontece em tantos filmes que têm a Segunda Guerra (mormente o holocausto) como tema. Nesse trabalho de separar “o joio do trigo” entre tais dramas de guerra, o longa de Ruzowitzky merece destaque e sua premiação no Oscar (ele foi o primeiro a ganhar um Oscar de filme estrangeiro pela Áustria) não foi injusta. Embora não se possa afirmar que esteja à altura dos citados trabalhos de Roman Polanski e Steven Spielberg, ou ainda de outras produções europeias, como a obra-prima “Vá e Veja” (Idi i Smotri, 1985), de Elem Klimov, “Die Fälscher” com certeza é um trabalho que foge das obviedades de um gênero já bastante maltratado e aparentemente esgotado.


Cotação:

Nota: 9,0

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Vá e Veja
(Idi i Smotri, 1985)


Triste e verídico pesadelo


O cinema norte-americano, ao longo das últimas décadas, costumou impregnar nossas mentes com uma visão romântico-heroica da Segunda Guerra Mundial. Mesmo obras ditas realistas, como “A Lista de Schindler” (Shindler's List, 1993) e “O Resgate do Soldado Ryan” (Saving Private Ryan, 1998), ambas de Steven Spielberg (cineasta que, por sua origem judia, é sempre levado a sério nas suas abordagens sobre o tema), acabam enveredando por esse caminho ao focar personagens que terminam por abraçar sentimentos idealistas ou de sacrifício em prol do coletivo. Hollywood nunca deixa de ser uma fábrica de fantasias, mesmo ao tratar de temas extremamente sérios, o que acaba levando a nós, ocidentais embebedados em sua cultura, a vermos o conflito mais marcante da história da humanidade com um certo ar infantilmente “nostálgico”, como se viver nos anos 40 fosse experimentar um romance como o de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em “Casablanca” (sem querer desmerecer ou atacar esse lindo clássico do cinema) ou tomar atitudes hercúleas no campo de combate que garantissem ao sobrevivente as láureas quando do regresso ao lar. Dentro desta perspectiva, “Vá e Veja”, obra do cineasta bielo-russo Elem Klimov (1933 – 2003), pode ser posicionado como o filme de guerra mais anti-Hollywood já concebido. Nesta obra de extremo impacto para o espectador, realizada durante o declínio da antiga URSS, sobra verdade, realidade e brutalidade em cores e sons que jamais o cinema norte-americano poderia retratar.

Primeiramente, é importante ressaltar que este longa-metragem é uma espécie de sessão de análise do diretor Klimov, cuja infância foi marcada pelos horrores da invasão nazista no Leste Europeu durante o mencionado conflito. A guerra no lado oriental da Europa costuma ser, inclusive, bastante ignorada pela sua parcela ocidental, fato que se deve notoriamente a décadas de Guerra Fria. Lá morreram cerca de 20 milhões de russos, mais 5 milhões de ucranianos e mais alguns milhões de bielo-russos, um outro holocausto de proporções ainda mais aviltantes do que o ocorrido com os judeus. Assim, a visão apresentada do conflito é extremamente pessoal, sendo que o personagem que nos guia na narrativa, o adolescente Florya (o ator se chama Aleksei Kravchenko, responsável por uma interpretação meio que transcendental), funciona como o alter-ego do cineasta diante dos horrores que desfilam um após o outro.


Praticamente não há estória em “Vá e Veja”. O protagonista Florya se junta aos partisans, grupo de resistência aos invasores nazistas e, após ser deixado em uma floresta antes de uma batalha por ser muito novo para combater, acaba encontrando uma outra jovem, Glasha (Olga Mironova, também em uma atuação no mínimo impressionante). Os dois retornam à aldeia de Florya apenas para descobrir que ela foi destruída pelos nazistas e sua população, incluindo a família do rapaz, quase totalmente dizimada. A partir deste ponto o que vemos é uma sucessão de cenas tão realistas que beiram paradoxalmente o surreal, tamanho o horror com que nos deparamos.


É relevante destacar que o poder imagético de “Idi i Smotri' é um dos mais impressionantes já vistos, o que potencializa ainda mais a referida barbárie na tela. Com um fantástico uso da steadycam (aquela câmera sem solavancos que acompanha um personagem em uma cena), muitas vezes usada do ponto de vista do protagonista, a sensação que temos é de estar testemunhando in loco aquela violência. Talvez só Stanley Kubrick – em “O Iluminado” - tenha usado tão bem este recurso quanto tanto Klimov o faz aqui. Desta maneira, a concepção visual do longa nos rende imagens tão fortes quanto inesquecíveis, tais como a de Florya e Glasha tentando atravessar um pântano; a dos corpos empilhados na aldeia de Florya; a impressionante sequência em que o garoto tenta se proteger de uma rajada de balas atrás do corpo de uma vaca agonizante; ou ainda a de um homem quase inteiramente queimado pelos alemães. Aliás, difícil encontrar um fotograma neste filme que não seja melancolicamente memorável.


Mas não é apenas de imagens que vive o longa de Klimov. O som, sem qualquer exagero, é um dos mais incríveis da história da Sétima Arte, complementando a experiência de imersão do espectador pretendida pelo diretor. Em certa passagem, uma bomba cai próxima de Florya e o consequente zumbido, que o deixa quase surdo, toma conta da projeção, a qual se alonga por mais de meia hora desta forma. Ficamos, assim, quase surdos como o personagem, ouvindo o perturbador barulho e quase não escutando as vozes daqueles que se dirigem a ele. Há ainda sequências em que ouvimos o barulho constante de aviões alemães, transmitindo-os a sensação de angústia em estar exposto a um possível ataque. Fosse uma produção em língua inglesa, certamente teria levado os prêmios da Academia nas categorias de som e efeitos sonoros. Mas, como sabemos, o Oscar é um prêmio voltado para promover o cinema hollywoodiano... A montagem, como frequentemente ocorre no cinema russo (vale relembrar que Sergei Eisenstein praticamente criou a edição tal como a vemos nas produções contemporâneas), é outro capítulo à parte, sendo inclusive um aspecto que gerou uma das mais lembradas sequências deste longa-metragem. Nela, Florya atira contra um cartaz com a imagem de Adolf Hitler enquanto, em rápidos cortes, vemos também passagens documentais do conflito e da ascensão do nazismo na Alemanha, uma contraposição de ficção e realidade que influenciaria o citado Steven Spielberg nas suas mencionadas obras sobre a guerra. Ou melhor, se o espectador observar com ao menos um pouco de atenção a película, perceberá o quanto Spielberg bebeu dessa fonte para a concepção de seus filmes ("Império do Sol", de 1987, parece ser uma versão “light” deste filme depois de tê-lo visto).

O perfeccionismo de Klimov em retratar o horror foi tamanho que ele se valeu de um especialista para hipnotizar o jovem Kravchenko e assim extrair do ator o seu máximo interpretativo sem que este corresse o risco de ficar com traumas psicológicos. Até mesmo a maquiagem sobre o garoto nas últimas cenas nos dá a impressão de que ele envelheceu décadas em alguns dias. Obsessão? Exagero? É possível que muitos enxerguem desta forma, mas o resultado alcançado foi mesmo assombroso. Não foi por acaso que o título escolhido para a produção é um trecho do livro bíblico do Apocalipse. Nada mais adequado para sintetizar uma experiência ímpar que, indubitavelmente, se coloca entre os melhores filmes do gênero já realizados, mostrando em imagens que na guerra não há heróis, apenas sobreviventes. Um retrato de um pesadelo tristemente verídico.


Cotação e nota: obra-prima.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Para Ver Em Um Dia de Chuva



Tempo de Glória
(Glory, 1989)


Bom para o cinema, importantíssimo para a memória



É curioso que o cinema norte-americano aborde tão esporadicamente um evento de importância crucial na História dos Estados Unidos como o foi a famosa Guerra de Secessão. Mesmo o clássico absoluto “...E o Vento Levou”, primeiro filme que costuma vir à mente dos cinéfilos quando se menciona dita temática, coloca o conflito apenas como um pano de fundo e ambientação histórica para as desventuras de Scarlett O'Hara, sem levar a fundo uma investigação sobre as causas e consequências da guerra. Talvez esse descaso das produções estadunidenses ocorra porque o referido evento histórico mexe com feridas ainda não cicatrizadas da formação do país, tocando em aspectos como o ódio racial, direitos civis e também o desnível econômico hoje existente entre os estados do Norte e do Sul. Dentro desse contexto, um filme como “Tempo de Glória” (Glory) se faz muito bem vindo ao não apenas abordar diretamente o conflito, mas também ao remexer em algumas dessas sujeiras que os norte-americanos fazem questão de tentar esconder embaixo do tapete.

Este é, possivelmente, ao lado de “Diamante de Sangue” (Blood Diamond, 2006), o melhor filme da irregular carreira do diretor Edward Zwick, o qual também foi responsável por bombas como “Lendas da Paixão” (Legends Of The Fall, 1994), uma espécie de novelão disfarçado de cinema. É possível que este seu sucesso em “Tempo de Glória” se deva à própria natureza grandiosa dos fatos que inspiraram sua realização, aptos a deixar correr solto o tom épico grandioso que parece ser uma autêntica mania de Zwick, mas sem que isso se torne cafona. Afinal, a narrativa trata do destino do 54º Regimento do Exército de Massachusetts, o primeiro a ser formado apenas por negros durante a secessão. Menosprezado por muitos, já que composto por voluntários que, em sua maioria, não tinham qualquer noção de combate (além do preconceito com a cor da pele, claro), o 54º acabou servindo como espelho de bravura e obstinação para os demais ao tentar tomar um forte sulista praticamente intransponível.

O roteiro, escrito por Kevin Jarre, foi baseado em livros de Lincoln Kirstein e Peter Buchard, os quais, por sua vez, inspiraram-se nas cartas de Robert Gould Shaw, jovem coronel pertencente a uma abastada família de Boston, mas de caráter bastante liberal (no filme interpretado por Matthew Broderick). Alguns apontam como crítica este desenvolvimento da trama a partir do ponto de vista de um branco, mas a realidade é que tal ótica não deixa de ser a mais fiel aos fatos históricos (hoje, as cartas encontram-se arquivadas na Universidade de Harvard). Destarte, de todos os personagens da trama apenas o Coronel é comprovadamente real. Todos os soldados negros são elaborações ficcionais. Entretanto, os tipos são bem construídos, desde o revoltado Trip (Denzel Washington, no papel que o levaria ao estrelato), passando pelo sensato sargento (e ex-coveiro) John Rawlins (Morgan Freeman), até o letrado Thomas Searles (Andre Braugher), todos apresentam facetas tridimensionais, sendo mostrados não apenas seu idealismo e bravura, mas também suas dúvidas, fraquezas e inseguranças. Neste aspecto, é importante salientar a qualidade das interpretações em tela. Morgan Freeman faz aquele seu tipo característico, mas com a competência de sempre; Braugher consegue demonstrar todo o conflito de um homem idealista, mas inteiramente desconfortável e fragilizado com o duro treinamento militar. Entretanto, o show fica mesmo por conta de Denzel Washington. A cena em que o ex-escravo Trip é chicoteado devido a uma suposta tentativa de deserção é realmente memorável e só ela já faria por merecer o Oscar de ator coadjuvante que o intérprete levou. Ademais, Matthew Broderick encontra aqui o seu melhor momento no cinema ao lado do seu antológico Ferris Bueller de “Curtindo A Vida Adoidado” (Ferris Bueller's Day Off, 1986).


Por outro lado, o roteiro também é feliz ao cutucar, por meio de interessantes diálogos, as feridas raciais norte-americanas. Em dado momento, Trip questiona o Coronel Shaw: “Se vencermos, Coronel, você voltará a Boston, para sua casa e sua família. E nós, o que ganharemos?”. Ou ainda, quando Trip zomba de uma tropa de soldados brancos que voltam derrotados de uma batalha e é criticado pelo Sargento Rawlins: “não seja idiota, eles estão lutando por nós. Já enterrei muitos soldados brancos, agora é hora de nós também fazermos a nossa parte”.

Mesmo que o texto, em alguns momentos, possua algumas doses acentuadas de fatalismo, os problemas da película se encontram mesmo na direção de Zwick, sempre no limite entre o bom gosto e o sentimentalismo barato, principalmente ao fazer a trilha sonora despertar acordes épicos e emocionais a cada três minutos, mesmo que, em termos puramente musicais, as composições de James Horner sejam belíssimas. A presença de alguns momentos piegas, todavia, não impede que existam cenas de real emoção, como naquela em que os soldados - em um momento que revela as origens da música norte-americana - cantam antes da batalha que pode significar as suas mortes. De qualquer forma, a beleza da fotografia de Freddie Francis (vencedora do Oscar) , bem como a impactante e violenta sequência da batalha final no forte (uma espécie de precursora do que seria feito mais tarde em “O Resgate do Soldado Ryan”) compensam os eventuais deslizes de Zwick.

Dono de um apuro técnico que nos faz duvidar que seja uma produção de 1989, “Tempo de Glória” se coloca, hoje, como uma espécie de remédio contra o cinismo e a indiferença do século XXI, narrando com eficácia uma história real deveras inspiradora. Por outro lado, não deixa de apontar o dedo para determinados problemas da sociedade americana que ainda perduram mesmo depois de tantos anos. Um filme que se faz importante não somente por suas qualidades cinematográficas, mas, principalmente, por ser um dos poucos longas a retratar com eficiência uma momento histórico pouco abordado na produção ianque. Bom para o cinema, mais importante ainda para a memória.


Cotação:

Nota: 8,5

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Quero Ver Novamente #13


Estou com a maior vontade de ver "A Árvore da Vida" (The Tree Of Life), o novo filme do gênio Terrence Malick. O problema é que, pra variar, filmes deste quilate não têm estreia no circuito natalense juntamente com o circuito nacional - e olha que nesse caso Brad Pitt e Sean Penn estão no elenco (a estreia de "Meia-Noite Em Paris" por aqui foi uma rara exceção). Para saciar ao menos um pouco o desejo, resta rever um outro longa de Malick, "Além da Linha Vermelha" (The Thin Red Line), filme de 1998 que mostra em todas as imagens e diálogos o que é cinema de verdade (como ele pode ter perdido o Oscar para "Shakespeare Apaixonado"?). Nada menos do que excelente! Veja o trailer abaixo! Ah, e se ainda não viu, trate de compensar essa falha gravíssima o mais rápido possível!


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Trilha Sonora #15


Quem já assistiu a "Apocalypse Now", uma da obras máximas do gênio Francis Ford Coppola, deve se lembrar de sua abertura impactante, ao som da voz inconfundível de Jim Morrison cantando "The End", uma das melhores canções do "The Doors". De arrepiar! Ouça abaixo!


domingo, 31 de outubro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer




Hiroshima, Meu Amor
(Hiroshima, Mon Amour)



Nós somos nossa memória



É difícil escrever sobre um filme como “Hiroshima, Meu Amor”, não só pela sua complexidade, mas também pela enormidade de textos já escritos sobre o mesmo. O filme de Alain Resnais, que pegou carona na Nouvelle Vague (muito embora o próprio Resnais não fizesse exatamente parte do movimento), é um dos mais debatidos de toda a história do cinema, muito devido ao potencial inovador que trouxe para a sétima arte. O longa é uma mistura de drama e documentário e sua primeira parte, sé é que podemos dizer assim, é uma das mais famosas e impactantes já vistas.

Resnais era documentarista antes deste trabalho, sendo famoso o seu “Noite e Neblina” (de 1955), sobre os campos de concentração nazistas, e havia começado “Hiroshima” não como uma ficção, mas como documentário. É daí que surgiram as imagens inesquecíveis de Hiroshima destruída, dos corpos carbonizados, dos sobreviventes miseráveis, do bebê ferido e em prantos, do memorial da bomba na cidade, cenas estas sublinhadas pela memorável frase “você não viu nada em Hiroshima”, pronunciada pelo ator japonês Eiji Okada, talvez querendo dizer que o pior ainda estaria por vir (Curiosidade: Okada não falava francês e teve que aprender o texto foneticamente). Em contraponto a esta fala, lançam-se as frases ditas pela personagem da atriz francesa Emmanuelle Riva, afirmando que “viu tudo em Hiroshima”. Esta rica contraposição foi levada a cabo pelo belo texto de Marguerite Duras, escritora francesa que faria aqui sua primeira incursão no cinema (ela posteriormente também se tornaria diretora), elaborando um roteiro baseado em experiências pessoais que já haviam sido tema de livros de sua autoria.

Este aspecto literário do longa é ainda mais realçado em sua “segunda parte”. Os personagens de Riva e Okada são amantes que se encontram em Hiroshima. Ele é um arquiteto; ela, uma atriz que está na cidade para realização de filmagens. Aos poucos, ela vai revelando fatos marcantes do seu passado na França, mais precisamente em Nevers, cidade da Bretanha ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Aos poucos, vamos descobrindo que a mesma teve um romance com um soldado alemão, o qual acaba sendo morto no dia em que iriam fugir para viverem livremente seu amor. A família descobre a relação e a jovem sofre duríssimas consequências. Este passado da atriz em Nevers é mostrado através da reconstrução de memórias. Não sabemos como de fato os eventos aconteceram, mas somente como eles se processaram na memória da narradora. A memória, frise-se, é fugidia, escorregadia, pregando-nos peças e recriando os fatos de uma forma que, em muitas ocasiões, pode ser a mais confortável para a nossa consciência. E assim, a atriz vai narrando ao arquiteto (os personagens não possuem nomes), de maneira similar a uma sessão psicanalítica, as suas vicissitudes em Nevers, dando-nos uma visão da formação de sua personalidade, das motivações do seu comportamento. A memória, parece dizer Resnais, é a principal responsável por sermos o que somos.


Essa perspectiva pessoal também dialoga diretamente com o coletivo. Se a humanidade, como um todo, possui em sua História a memória dos fatos que delimitaram seus rumos, cada ser humano possui em si também eventos que marcaram/marcarão para sempre o seu destino. A Nevers da protagonista funciona para ela como Hiroshima funciona para o povo japonês, ou seja, um marco divisor que influencia seu comportamento mesmo após muitos anos dos eventos ocorridos. Cada ser humano possui uma Hiroshima que, no caso da personagem, é sua Nevers, como fica bem delimitado na “terceira parte” longa.

Vale salientar que, para uma narrativa calcada em memórias, a estrutura usada por Resnais foi necessariamente inovadora para o seu tempo. As palavras em off, no mencionado início, a sobreposição às imagens da guerra, o uso de flashbacks constantes, levando a uma projeção não linear, causaram um grande impacto na época, impacto hoje bastante diluído devido ao uso constante dos artifícios usados pelo diretor, os quais se tornaram comuns até mesmo na televisão. Resnais, ademais, radicalizaria esta proposta no seu filme seguinte, “O Ano Passado em Marienbad”, tornando-se quase inacessível ao grande público tal a dificuldade existente em sua compreensão.

Essa forma difícil, bem como a banalização de suas inovações, faz com que boa parte do público das novas gerações possua um certo desdém para com a obra do diretor francês. Uma pena. Resnais é um dos cineastas responsáveis pelo cinema tal como o vemos hoje. E “Hiroshima, Meu Amor”, sem dúvida, é uma obra seminal que ajudou a elevar a arte cinematográfica. Bem, no fim das contas, creio que não fui original, mas acabei escrevendo um texto sobre este grande filme! ;=)


Cotação e Nota: Obra-prima

sábado, 15 de maio de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer


Steven Spielberg – Sete filmes essenciais

O nome de Steven Spielberg se tornou sinônimo de grandes bilheterias cinematográficas, uma verdadeira grife do mercado que costuma render milhões aos cofres dos estúdios (hoje em dia, principalmente da “Dreamworks”, empresa da qual é um dos acionistas). É comum, entretanto, até devido a essa associação com o sucesso, muitos lembrarem de seus filmes como apenas entretenimento, o que está longe de ser verdade. Spielberg é um dos principais criadores, juntamente com seus companheiros da chamada “Nova Hollywood”, de uma nova linguagem cinematográfica que impera nos cinemas até hoje. Foi ele o responsável pelo surgimento do chamado “blockbuster”, aqueles filmes lançados normalmente no verão norte-americano que costumam atrair públicos gigantescos para as salas de projeção. Hoje em dia, muitos se irritam com a fórmula previsível destes filmes. Mas isso não diminui a força deste diretor seminal, o qual não pode ser responsabilizado pela falta de criatividade de seus pares. Um verdadeiro “nerd” do cinema (ele cresceu assistindo a todo tipo de filmes na TV e nos cinemas), abaixo relaciono sete filmes essenciais de sua prolífica carreira, como uma forma de dar um norte para aqueles que estão ainda iniciando. Prepare a pipoca, mas não deixe de prestar atenção também nas entrelinhas de cada película. Os filmes estão dispostos apenas em ordem cronológica, sem seguir uma preferência pessoal.

Tubarão (Jaws, 1975) – Spielberg se baseou, aqui, na premissa do seu primeiro filme, feito para a TV alguns anos antes, o peculiar e inteligente “Encurralado”. Neste, um homem comum, em viagem pelas estradas americanas, é perseguido, sem qualquer motivo aparente, por um caminhão negro e enorme. Ao longo da trama, jamais vemos quem é o motorista e as possíveis motivações jamais são elucidadas. A verdade é que o jovem diretor, então com apenas 24 anos, conseguiu criar um enorme clima de tensão e mistério, fazendo um caminhão transformar-se em um verdadeiro monstro de filme de terror. Trabalhando com esse conceito, Spielberg leva as circunstâncias para o mar, em vez da estrada, e consegue um efeito ainda mais poderoso. Na maior parte da projeção, o tubarão assassino e gigantesco não é mostrado, mexendo com o nosso inconsciente temor do que não podemos ver. As cenas em que as pessoas são devoradas causam ainda maior impacto devido à trilha macabra de John Williams, o qual se inspirou na famosa trilha de violinos que Bernard Hermann elaborou para “Psicose”, de Hitchcock. O filme foi um estrondoso sucesso de bilheteria (inclusive no Brasil) e foi a partir dele que se cunhou o mencionado termo “blockbuster”.

Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders Of The Lost Ark, 1981) – É aqui que surge “Indiana Jones”, o mais do que famoso personagem encarnado à perfeição por Harrison Ford (que não foi o primeiro cotado para o papel, que seria de Tom Selleck), um professor universitário de Arqueologia que, nas “horas vagas”, se aventura pelo mundo em busca de artefatos históricos esquecidos/perdidos. É sabido que Spielberg, juntamente com o amigo George Lucas (que foi o produtor), tentava resgatar o clima das aventuras dos filmes “B” que eram exibidos em matinês dos cinemas em outros tempos, com seus heróis intrépidos e quase indestrutíveis que passavam por aventuras mirabolantes. E o fato é que ele conseguiu atingir plenamente seu objetivo. Ou melhor, superou. Sucesso estrondoso, o filme teria mais duas continuações, “O Templo da Perdição” e “A Última Cruzada”, transformando o personagem de Indy e a famosa trilha de John Williams em ícones culturais. Recentemente, tivemos mais outro exemplar da série, intitulado “O Reino da Caveira de Cristal”, o qual, todavia, não atingiu o brilho da trilogia original.


E.T. – O Extraterrestre (E.T. – The Extra-Terrestrial, 1982) – Este possui um valor especial para mim, pois foi um dos primeiros filmes que vi em uma sala de cinema. Eu tinha apenas 5 anos então e chorei muito com a partida final do famoso e pequeno extra-terrestre para o seu planeta natal. É interessante como neste longa ,que parece tão infantil, Spielberg é capaz de incutir uma das mais fortes mensagens contra qualquer tipo de preconceito (vale lembrar que o próprio diretor é judeu). Afinal, o E.T. do título, que é esquecido pela tripulação de sua nave aqui na Terra, é nanico e feinho, possuindo uma aparência que assusta em um primeiro momento. Contudo, quando se passa mais um tempo ao seu lado, ele se mostra a mais dócil de todas as criaturas, com seus olhos grandes e carentes, cheios de sentimento. Poucas cenas representam tanto a magia do cinema como aquela em que a bicicleta do menino Elliott alça vôo juntamente com o amigo de outro planeta e cruza a lua. Inesquecível para qualquer retina. Muitas vezes acho que foi essa cena que me transformou em um apaixonado pelo cinema. Obrigado, Steven Spielberg!

Obs. Prestem atenção em Drew Barrymore ainda pequenininha!


A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993) – Este foi o longa que gerou toda uma onda de filmes sobre o Holocausto que se estende até hoje. Há tempos Spilberg procurava ser respeitado não apenas como realizador de filmes pipoca, mas também como um cineasta “sério”, capaz de realizar obras voltadas para um público mais “maduro”. Foi assim com “A Cor Púrpura” e “Império do Sol”, os quais não foram muito bem recebidos por público e crítica (muito embora eu considere “Império do Sol” um ótimo filme). Com “A Lista de Schidler”, entretanto, Spielberg atingiu um nível de maturidade artística ímpar, mostrando um grupo de judeus salvos da morte certa em campos de concentração por um integrante do partido nazista (interpretado por Liam Neeson em seu melhor desempenho em um filme). Fotografado com preto e branco deslumbrante, o filme causou enorme impacto por mostrar a violência nazista de uma forma nunca antes vista, com toda a sua crueza e barbárie. Vencedor de 7 Oscars, pode-se até acusá-lo de ser uma obra manipuladora, inserindo elementos não verídicos para aumentar o potencial de lágrimas na plateia, mas isso não diminui sua relevância artística e mesmo histórica. O filme transformou-se em um verdadeiro “evento” quando foi lançado (até hoje lembro da fila que enfrentei para vê-lo) e influenciou várias obras posteriores, como o igualmente ótimo “O Pianista”, de Roman Polanski.

O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan. 1998) - Este não é um filme perfeito. Existe melodrama e um patriotismo meio barato em sua conclusão, mas é inegável o impacto de sua primeira meia hora de projeção. Jamais tínhamos visto tamanho realismo em cenas de guerra na sala escura. O desembarque das tropas aliadas na Normandia, durante o famoso “Dia D”, ganhava cores ineditamente verídicas. Muitos críticos afirmam que a tal meia hora inicial deste longa era a melhor sequência de abertura da história da 7ª arte. Exagero ou não, a verdade é que mais uma vez Spielberg arrebentava a boca do balão e ganhou seu segundo Oscar de direção pelo feito. É deste longa que surgiu o interesse por séries como “Band Of Brothers”, produzida pelo próprio Spielberg juntamente com Tom Hanks, o protagonista deste “Soldado Ryan”, que atinge grande intensidade interpretando um capitão que comanda um grupo de soldados destacados para encontrar o tal Ryan do título (Matt Damon), o qual, por sua vez, é o último sobrevivente de quatro irmãos, todos mortos na guerra. Se você ainda não viu a mencionada sequência inicial, assista o quanto antes.




Prenda-me Se For Capaz – (Catc
h Me If You Can, 2002) – Um dos meus favoritos de Spielberg, aqui o diretor inicia um novo tipo de abordagem, mais ameno e menos espetacular ou grandioso, para contar a história real do falsário Frank Abagnale, o qual ludibriou a companhias aéreas durante anos a fio, falsificando passagens e até mesmo fazendo-se passar por piloto. Era ainda um especialista em falsificar cheques e, depois de um período na prisão, acabou se tornando um especialista do FBI na área. Divertido e despretensioso, nesta obra Spielberg realiza o seu filme de atores, com ótimas atuações de Tom Hanks (que hoje em dia parece que esqueceu de atuar) e, principalmente, Leonardo DiCaprio, o qual dá um show como o protagonista. A trilha de John Williams também está particularmente inspirada (observem bem na sequência dos créditos iniciais, que é ótima). Spielberg repetiria a fórmula do longa, em estilo e acabamento, com “O Terminal”, também com Hanks, mas o resultado não foi tão especial quanto aqui.





Munique (Munich, 2005) – Talvez o mais “frio” longa do cineasta. De forma seca e objetiva (e violenta), sem apelar para aspectos emocionais, ele mete o bedelho no conflito entre árabes e israelenses na Palestina. Seu ponto de partida é o atentado terrorista durante a Olimpíada de Munique, em 1972, que resultou na morte de 11 atletas israelenses, ao qual se seguiu uma reação do Mossad, o serviço secreto de Israel, no mesmo patamar de violência. Eric Bana faz um desses agentes judeus e representa as reflexões e dilemas vividos por seu povo. Aplaudido pela crítica, o filme acabou não indo bem de bilheteria, talvez porque o público não esperasse um filme tão político vindo do cineasta (o que com certeza influenciou para que fosse esquecido pela Academia). Contudo, talvez Spielberg nunca tenha se mostrado tão maduro quanto neste trabalho.

Obs. Vejam lá o Daniel Craig, como um dos agentes do Mossad, antes de se tornar o famoso agente 007.


Ah, e bons spielbergs pra você!

quinta-feira, 4 de março de 2010

"Guerra ao Terror": as polêmicas continuam...


E as polêmicas envolvendo “Guerra ao Terror” se multiplicam. Esta semana, tivemos a exclusão do produtor Nicolas Chartier da festa do Oscar, devido à sua campanha que feriu as regras da Academia ao denegrir um dos concorrentes. Ele não poderá participar da cerimônia nem mesmo como convidado em conseqüência de seus e-mails em que atacava um certo “filme de 500 milhões de dólares” (como você pode ver na notícia postada mais abaixo). Agora, os produtores serão processados por Jeffrey S. Sarver, sargento do exército americano que acusa o longa de usar a sua história sem autorização. Segundo Sarver, o roteirista Mark Boal teria publicado uma matéria na Playboy americana relatando o seu dia a dia em Bagdá, matéria esta que serviu de base para o roteiro do filme. Ademais, Sarver afirma que foi o criador da expressão “hurt locker” do texto original (algo como “armário da dor” em português). A distribuidora do filme, a Summit Entertainment, divulgou nota na terça-feira afirmando que se trata de um "relato fictício" sobre soldados na guerra do Iraque. É... Parece que notoriedade trouxe algumas dores de cabeça para a equipe deste bom longa-metragem.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Guerra ao Terror


Guerra Real


Percebo que as mulheres são vítimas de um certo preconceito quando assumem a direção de um projeto cinematográfico. Frequentemente, são vistas apenas como diretoras de filmes femininos (caso emblemático de Nora Ephron), não possuindo talento e/ou desprendimento para criar obras de arte em uma perspectiva masculina ou sobre temas masculinos e mesmo sociais. Essa perspectiva atinge até mesmo as premiações, sendo notório que o Oscar jamais premiou uma mulher na categoria de melhor direção. Aliás, é sabido que Hollywood é um poço de machismo, indústria onde até hoje atores ganham mais do que atrizes. Pois bem, buscando quebrar tais paradigmas eis que surge Kathryn Bigelow, por muito tempo mais conhecida como a ex-esposa de James Cameron, com um filme pancada, exalando testosterona, sobre um tema caro e complicado para os norte-americanos: a guerra no Iraque.

Nada em “Guerra ao Terror” lembra um filme feminino. Aliás, raras são as mulheres que aparecem ao longo da projeção (que eu lembre, elas se limitam a uma árabe e à esposa do personagem central). O que sobra são cenas fortes, impactantes, algumas mesmo de embrulhar o estômago. Uma forma sincera, realista e coerente para tratar dos 39 últimos dias de um grupo de soldados em território iraquiano. Apesar de parecer um tempo relativamente curto, a verdade é que cada um dos militares não sabe se estará vivo até o dia seguinte. E essa circunstância vai se mostrando de forma horrendamente cruel a cada morte de um companheiro, geralmente vítimas de explosivos espalhados em Bagdá por grupos terroristas. E é exatamente desarmando bombas que opera o sargento William James (Jeremy Renner, ótimo e indicado ao Oscar), homem de personalidade forte, que tem no seu ofício uma verdadeira obsessão. Na verdade, não se sabe se é uma obsessão pela tarefa que executa ou uma oculta vontade de morrer. Suas ações são muitas vezes inconsequentes, expondo-se desnecessariamente a riscos que poderiam ser minorados. Um homem transformado em um autômato de vontade única, em decorrência da brutalidade do conflito? Talvez e, com certeza, esse é um dos questionamentos que Bigelow engendra (e que já havia sido elaborado por Stanley Kubrick em “Nascido Para Matar”).

Ao lado de James, também acompanhamos as vidas do sargento Sanborn (Anthony Mackie) e do soldado Eldridge (Brian Geraghty), ambos ansiosos pelo retorno ao lar. Este último, especialmente, parece ser o personagem escalado para representar as angústias mais comuns aos militares em área de conflito, principalmente através de seus diálogos com o coronel Cambridge, médico que funciona como psicólogo. Já Sanborn mantém uma relação conflituosa com James e, nesse ponto, o roteiro se escora um pouco na velha muleta de parceiros que se antipatizam de início para depois estabelecer uma relação de amizade, muito comum em filmes de duplas policiais. De qualquer forma, são personagens bem construídos e, antes de tudo, humanos. Uma das características interessantes, ademais, deste longa-metragem é que a empatia com os personagens não surge à primeira vista. Nos primeiros minutos, parece que não nos envolveremos com os dramas mostrados. Tudo parece seco e distante, um relato quase documental dos acontecimentos. Contudo, a força dos personagens e da narrativa se impõe e, aos poucos, à medida que o lado humano de cada um deles é evidenciado, passamos a torcer por seus destinos. Uma forma interessantíssima de aproximação com a narrativa resultado do roteiro bem escrito por Mark Boal e a direção segura de Bigelow.

Direção que, por sinal, se espraia de forma competente através de outros aspectos da produção. A fotografia é muito bem cuidada e as cenas mais fortes são filmadas com precisão, sem disfarçar o impacto no público que possam gerar. É verdade que em alguns momentos ela se mostra uma tanto sensacionalista (como em algumas sequências em câmera lenta apenas para mostrar um cartucho de fuzil caindo no solo), mas, no geral, tudo soa muito eficiente e orgânico, com um tom de realidade enorme até mesmo como resultado das locações realizadas nos Oriente Médio (Jordani e Kuwait). A sensação de insegurança acaba sendo transportada para cada espectador, gerando, por vezes, a impressão de que estamos no campo de batalha.

O filme teve uma trajetória curiosa no Brasil, onde foi lançado direto em DVD, pois que não havia muitas perspectivas de mercado para o mesmo. Agora, depois de se tornar um querido da crítica e um dos favoritos ao Oscar, ganhará chance nos cinemas a partir desta sexta-feira, dia 05. Recomendável ver no sala escura. O impacto deve ser ainda maior. E imagino que a Academia não vai perder a oportunidade de premiar uma mulher como melhor diretora nesta ocasião. Não será nenhuma injustiça se ela vier a ganhar a briga conjugal com o ex-marido James Cameron.

Obs. As participações de Ralph Fiennes e Guy Pierce são bem pequenas.


Cotação: * * * * ½ (quatro estrelas e meia)
Nota: 9,5.