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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Capitão Phillips

Contrastes


Já fazia tempo que Tom Hanks não tinha uma atuação digna de Oscar e confesso que estava com saudades do velho grande ator de outros tempos (mais precisamente dos anos 90, quando emplacava um sucesso após o outro e uma indicação ao Oscar depois da outra). Bem, enfim, depois de anos atuando no piloto automático, Hanks recupera a boa forma com este “Capitão Phillips”, novo longa do diretor Paul Greengrass que investe pesado na crítica da globalização, onde o capital navega sempre indiferente à realidade que o cerca.

Não é outra a impressão ao vermos o cargueiro Maersk Alabama, enorme e transportando uma quantidade considerável de bens de alto valor comercial, cruzar o paupérrimo litoral da Somália, onde os seus residentes dispõem, no máximo, de pequenas embarcações que parecem besouros quando comparados ao enorme navio comandado por Richard Phillips, personagem real que escreveu o livro adaptado para a tela. Assim, em verdade, trata-se aqui de um longa sobre contrastes, levando o espectador a se perguntar sobre a origem desses, mesmo que o filme não forneça elementos sobre as desproporções apresentadas na tela. Afinal, trata-se de um thriller que, se em boa medida leva à reflexão, tira o fôlego do público com um ritmo intenso, envolvente e cheio de realidade, lembrando muito um outro filme do próprio Greengrass, “Vôo United 93” (United 93, 2006), também baseado em uma história verídica.




A estrutura narrativa (com roteiro adaptado de Billy Ray, vencedor do prêmio do Sindicato de Roteiristas na categoria, o que o torna um favorito ao Oscar) é estabelecida a partir de contraposições entre a realidade do capitão Phillips e a do líder de um grupo de piratas somalis, Muse (interpretado por um ator que era até então motorista, Barkhad Abdi). Não apenas os barcos destoam em proporções. Se Phillips se preocupa com a correria do dia a dia e com quanto tempo vai levar a viagem, a preocupação primordial de Muse é conseguir recrutar parceiros que possam ajudar na ação pirata de sequestrar o cargueiro Maersk. Se Phillips se apresenta como uma liderança inconteste perante a sua tripulação, Muse está longe de ter controle sobre os seus recrutados, sempre contestando suas ordens. E assim seguimos uma série de contrastes que desnudam não apenas a realidade entre os dois sujeitos da narrativa, mas também a disparidade entre as realidades do Ocidente e da África miserável.




Contando com uma primorosa edição de Christopher Rouse, a trama se desenvolve naquele ritmo acelerado característico do “suspense cabeça” que fez a fama de Greengrass, e a tensão só aumenta ao longo de seus 126 minutos de projeção, mesmo que já saibamos o seu desfecho (afinal, como dito acima, o livro foi escrito pelo próprio capitão). Tudo para culminar em um clímax marcante, em uma cena que já entrou para aquelas que farão a história cinematográfica de seu intérprete, Tom Hanks. Seria justo se ele tivesse sido indicado ao Oscar apenas por essa sequência, o que não ocorreu. Mesmo figurando em todas as premiações que antecedem a festa da Academia, Hanks foi estranhamente esquecido no prêmio mais famoso do cinema. Será que ele anda perdendo prestígio? A pergunta fica ainda mais interessante se lembrarmos que Barkhad Abdi foi indicado como coadjuvante, um exagero, na minha opinião. Ele está bem no papel, mas me parece que sua indicação decorre apenas do fato de ser um principiante, além de haver algo de “politicamente correto” nela.

A maior virtude de “Capitão Phillips”, entretanto, não reside em seu elenco ou na direção precisa e intensa de Greengrass. Ela está em seu caráter despretensioso, pois em nenhum momento o longa se propõe a apontar dedos para possíveis culpados ou tentar elucidar as origens das disparidades retratadas na tela. As diferenças estão retratadas, mas cabe ao espectador tirar suas conclusões sobre as origens de tanta desigualdade. Em determinado momento, Phillips pergunta a Muse se não há outra opção para ele além de praticar a pirataria. Muse lhe responde: “talvez, na América”. Uma cena que se revela a síntese de toda a projeção e demonstra a aposta que Greengrass faz na inteligência do espectador. E filmes que não subestimam o espectador são sempre muito bem-vindos.

Cotação:




Nota: 9,0.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Testemunha de Acusação
(Witness For The Prosecution, 1957)


Um gênio em todos os gêneros


A cada oportunidade em que assisto a um filme de Billy Wilder acabo ficando mais impressionado. Ele simplesmente era incapaz de realizar um filme ruim. Todos os seus longas são acima da média, seja qual o gênero da vez. Versátil como poucos, Wilder obteve sucesso em quase todos os gêneros cinematográficos, realizando obras-primas em praticamente todos eles, como no drama “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard, 1950) ou na antológica comédia “Quanto Mais Quente Melhor” (Some Like It Hot, 1959). E eis que também descubro que Wilder foi capaz de proezas também no suspense. “Testemunha de Acusação”, seu filme de 1957, é tão eficiente no clima e reviravoltas que oferece ao espectador que Alfred Hitchcock deve ter sentido uma ponta de inveja por não tê-lo realizado.

Baseado em uma obra de Agatha Christie, a meste do suspense na literatura, “Witness For The Prosecution” é um dos melhores “filmes de tribunal” já elaborados. Por sinal, entrou em cartaz no mesmo ano de outra referência deste subgênero, o clássico “12 Homens e Uma Sentença” (12 Angry Men), protagonizado por Henry Fonda e dirigido por outro grande cineasta, Sidney Lumet. Por sua vez, o longa de Wilder conta em seu elenco com dois grandes astros, Tyrone Power e Marlene Dietrich. Entretanto, se Power fez aqui o seu último trabalho completo no cinema (ele faleceu no ano seguinte, vítima de infarto, durante as filmagens de “Solomon and Sheba” dirigido por King Vidor), Dietrich atingiu um dos melhores momentos em seu desempenho como atriz, sendo indicada ao Globo de Ouro pela atuação. Entretanto, a grande figura do longa é Charles Laughton, um dos grandes atores britânicos em todos os tempos, que encarna aqui Wilfrid Robarts, um advogado com larga experiência no tribunal do júri. Inteligente, perspicaz, espirituoso e irônico, Wilfrid é um dos personagens mais interessantes já filmados.


É através dele que entramos em contato com a trama, adaptada para a tela grande pelo próprio Wilder ao lado dos roteiristas Larry Marcus e Harry Kurnitz. O advogado é procurado por Leonard Vole (Power), o qual é o principal suspeito do assassinato da solitária viúva Emily French (Norma Varden), já que ele era um dos poucos a frequentar a casa da senhora e parecia ter se tornado o seu interesse romântico. Vole jura inocência e conta com um álibi, a sua esposa Christine Helm (Dietrich), que pode confirmar perante o júri que, na noite do crime, Vole chegou em casa em horário anterior àquele em que o crime foi cometido. O problema é que o depoimento de Christine, por ser esposa, não terá força junto aos jurados, razão pela qual seu testemunho acaba excluído pelo advogado. Contudo, algumas reviravoltas ocorrem ao longo do julgamento, deixando o espectador grudado na cadeira ao longo das quase duas horas de projeção.


O roteiro é praticamente impecável e, além do texto base de Christie, contou com nuances concebidas pelo próprio Wilder, como a relação entre Wilfrid e sua enfermeira Miss Plimsoll (Elsa Lanchester, ótima!). Os diálogos entre os dois foram turbinados porque Laughton e Lanchester eram casados, o que acabou gerando boas ideias para o script. A sinergia entre os dois é perfeita e contribui muito para o imediato envolvimento do público com a trama. Mas é óbvio que a direção irretocável de Wilder faz uma diferença enorme no resultado final. Em filme de júri é essencial que ocorra uma perfeita concepção do ritmo da narrativa, sob pena de enfadar o espectador, como acontece com certa frequência. E, no presente caso, o ritmo se mostra perfeito. Nem sentimos o tempo passar. Da mesma forma, apesar das reviravoltas ao longo da narrativa, entendemos perfeitamente toda a trama, esclarecida por meio bem elaborados flashbacks, postos nos momentos certos. Sim, “Testemunha de Acusação” é um filme imprevisível, mas está longe de ser um filme confuso, como tantos outros longas que envolvem mistérios sobre assassinatos. Por outro lado, Wilder não deixa de lado um tema constante em sua obra: a dualidade entre a aparência e essência, o conflito entre o que aparentamos ser e o que realmente somos. Esse é um mote presente em obras como “Quanto Mais Quente Melhor” (os homens que aparentam ser mulheres), “Sabrina” (a mulher que passa a ser vista após modificar sua aparência) ou “Crepúsculo dos Deuses” (os astros decadentes que ainda vivem da antiga imagem). E aqui ele brinca com o tema por meio dos personagens de Leonard Vole e Christine Helm. Será que ele é mesmo inocente? Será que Christine não tem alguma culpa no cartório? A resposta só é entregue no surpreendente desfecho, tão inusitado que, nos créditos finais, há um pedido para que o público não conte o final a quem ainda não assistiu ao longa (o próprio Hitchcock iria se valer da mesma ideia um pouco mais tarde, quando do laçamento de “Psicose”).

E é o que vou fazer aqui. Falar muito sobre “Testemunha de Acusação” pode estragar a sua apreciação. Nem precisaria dizer que teve 6 indicações ao Oscar. Basta afirmar que é mais uma das pérolas de Billy Wilder. Só isso já é suficiente (e mais relevante que prêmios) para fazer qualquer um se interessar em ver este filme que é uma das melhores adaptações de Agatha Christie para o cinema (mais uma credencial importante, não?). Apenas não deixe pra depois. Busque desvendar essa intriga o quanto antes.


Cotação:



Nota: 10,0.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Os 7 Melhores filmes de 2013

Fechando o ano, segue a lista com os sete melhores filmes exibidos no circuito comercial brasileiro no ano de 2013, segundo a visão do Cinema Com Pimenta. Um grande abraço a todos e feliz 2014!


7) Django Livre (Django Unchained, Quentin Tarantino);



6) Os Suspeitos (Prisoners, Dennis Villeneuve);



5) Os Miseráveis (Les Misérables, Tom Hooper);



4) O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, David O. Russell);




3) Rush - No Limite da Emoção (Rush, Ron Howard);



2) Amor (Amour, Michael Haneke);



1) Gravidade (Gravity, Alfonso Cuáron).

domingo, 15 de dezembro de 2013

Os Suspeitos

Prenda a respiração e reflita


Como é possível perceber pela data da última postagem, “O Cinema com Pimenta” anda meio, digamos assim, “parado”, com um baixo número de atualizações. Isso se deve, em boa parte, ao trabalho, que está consumindo quase todo o meu tempo nos últimos meses e tem me deixado com pouca disposição para escrever. Entretanto, o marasmo do blog também se deve à correria em que eu e minha esposa nos encontramos no preparo da chegada do nosso primeiro filho, prevista para o próximo mês de março. Sim, já sou um papai dedicado que vê seu tempo cada vez mais tomado por essa criaturinha que ainda nem nasceu, mas que eu já amo muito. Bem, de qualquer forma, em meio ao corre-corre dos últimos dias, encontrei um tempinho na última sexta-feira para assistir a um dos filmes que se transformaram em sensação no presente ano de 2013. Trata-se do ótimo suspense “Os Suspeitos”, que não é o de Bryan Singer (produzido em 1995), mas o do canadense Dennis Villeneuve (será que ele tem parentesco com a família de pilotos de F1?), o mesmo diretor do premiado “Incêndios” (Incendies, 2010), longa que não tive a oportunidade de assistir, mas do qual já ouvi ótimas referências.

Não sei no caso do citado “Incêndios”, mas em “Os Suspeitos” Villeneuve deixa transparecer uma acentuada influência do trabalho de um dos mais cultuados diretores da atualidade: David Fincher. Ao logo das quase duas horas e meia de projeção, sentimos aquele clima opressor e um tanto sombrio de suspenses como “Seven – Os Sete Crimes Capitais” (Se7en,1995) ou “Zodíaco” (Zodiac, 2007). Até a paleta de cores usada na fotografia (de Roger Deakins), dessaturada e repleta de sombras, remete aos filmes de Fincher. Contudo, seria leviano afirmar que Villeneuve se limita a ser uma espécie de “imitador” de Fincher. Através de uma trama que poderia render apenas alguns minutos de suspense para o público, Villeneuve desenvolveu uma perspicaz alegoria para abordar uma antiga questão e caráter ético e moral: os fins justificam os meios? Por mais nobres e justificáveis que sejam nossas motivações, será que podemos nos valer de qualquer forma para atingirmos nossos objetivos? É uma pergunta difícil, mas que Villeneuve não se furta a responder de maneira satisfatória ao término do longa.


Para tanto, ele se vale de um roteiro (escrito por Aaron Guzikowski) que estabelece dois protagonistas, quase antagônicos. Um deles é Keller Dove (Hugh Jackman, ótimo), um carpinteiro pai de dois filhos que vê sua rotina virar de ponta cabeça quando sua caçula é sequestrada juntamente sua melhor amiga. É a deixa para que desperte seus instintos paternais de proteção, levando a busca pela menina até às últimas consequências, incluindo extrema violência em relação aos suspeitos. O outro protagonista é o detetive Loki (Jake Gyllenhaal, que não é o irmão do Thor), um policial que se torna obsessivo na busca pelos criminosos responsáveis, mas que jamais ultrapassa a fronteira ética em suas investigações. Nas entrelinhas, Villeneuve parece realizar uma crítica a expedientes espúrios costumeiramente usados pelo Estado (mormente o norte-americano) ao procurar culpados por delitos, principalmente os relacionados ao terrorismo, quando não são respeitados os mais elementares direitos dos acusados.



De qualquer forma, à parte o mencionado subtexto, “The Prisoners” funciona perfeitamente enquanto filme de suspense, daqueles de tirar o fôlego, deixando o espectador em estado de tensão praticamente ao longo de toda a projeção do longa. Mais um mérito do roteiro, que não entrega nada de mãos beijadas ao público, fazendo-o pensar e se interrogar sobre a verdadeira trilha a ser percorrida. Além da já mencionada fotografia soturna, contribui ainda a ótima edição de Joel Cox e Gary Roach, dando ritmo a uma narrativa que poderia se tornar massante devido à longa duração da película. Outro ponto alto são as atuações. Hugh Jackman tem uma de suas melhores presenças ao interpretar o desesperado pai à procura de sua filha, trabalho que possivelmente lhe renderá outra indicação ao Oscar. Entretanto, creio que aquele que mais merece ser lembrado pela Academia é Jake Gyllenhaal como o detetive Loki. Em uma atuação contida e introspectiva, ele rouba as cenas em que aparece mesmo quando não fala muito. Também se destacam pelo apuro na composição dos seus respectivos personagens Paul Dano, na pele do suspeito que é alvo preferencial da obsessão de Keller Dove, que tem uma presença memorável em cena, assim como Melissa Leo, praticamente irreconhecível como uma velha senhora que perdeu uma filha vítima de câncer. É uma pena que as premiações estejam ignorando o primoroso trabalho do elenco. O Sindicato de Atores não lembrou dos intérpretes em nenhuma categoria entre os seus indicados, assim como o Globo de Ouro. Mas o que dizer de premiações que chegaram ao cúmulo de indicar Daniel Brühl, de “Rush – No Limite da Emoção”, na categoria de melhor ator coadjuvante se ele interpreta o personagem central do filme? Nem preciso falar mais nada, né?

Não é o fato de ser ignorado pela temporada de prêmios que vai fazer de “Os Suspeitos” um filme menor. Com certeza, é um dos melhores longas de 2013 e não por acaso foi aplaudido no Festival de Toronto. Bem, ganhando ou não prêmios, a qualidade de “The Prisoners” continua intacta, sendo um dos melhores filmes de 2013, sem dúvida. Não sei se chego a essa conclusão por viver um momento em que estou prestes a me tornar pai e a temática do longa, desta forma, me atingiu de maneira especial. É possível que sim, mas, diante da chiadeira geral que surgiu devido ao seu esquecimento na temporada de prêmios, percebo que ele vem agradando em muito ao público. Há tempos não aparecia um suspense tão interessante entre produções hollywoodianas. Para prender a respiração durante e refletir depois da projeção.


Cotação:



Nota: 9,0

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Restaurando a Película

Na Hora da Zona Morta
(The Dead Zone, 1983)


O (bom) lado comercial de Cronenberg


Há tempos que eu procurava assistir a este filme do cineasta canadense David Cronenberg. Lembro que a Rede Globo o exibiu há muitos anos, mas não está entre suas reprises frequentes, razão pela qual comprei o (horroroso) DVD lançado no Brasil pela Spectranova e consegui satisfazer a curiosidade. Valeu à pena, diga-se de passagem. Cronenberg é uma referência quando se trata de cinema perturbador, escatológico, esquisito, incômodo, violento ou outros adjetivos similares. Muito embora nos últimos anos ele venha dirigindo abordagens mais convencionais, digamos assim, como o longa “Marcas da Violôncia” (A History Of Violence, 2005), sua marca registrada é o que se mostra imprevisível e desconfortável ao espectador, o qual costuma lembrar de Cronemberg por obras como “A Mosca” (The Fly, 1986) e “Gêmeos, Mórbida Semelhança” (Dead Ringers, 1988), filmes que demonstram pouca preocupação com o lado comercial. Neste ponto, soa como um ponto fora da curva a concepção de “Na Hora da Zona Morta” ainda em 1983, já que ele mais lembra os filmes recentes de Cronenberg do que os seus trabalhos gerados nos anos 80.

Adaptação de um livro de Stephen King (o mesmo que originou o seriado de TV de 2002), provavelmente o autor mais adaptado da história do cinema (embora eu não tenha essa estatística), “Na Hora da Zona Morta” é um longa que, de certa forma, acabou meio esquecido pela crítica, talvez por ser um filme de caráter mais “comercial”, menos perturbador, muito embora não deixe de abordar temas comuns na cinematografia de Cronenberg. Afinal, o protagonista Johnny Smith, um pacato professor de literatura que após um acidente de automóvel fica em coma por cinco anos e passa a desenvolver poderes paranormais, representa com muita eficácia o conceito do indivíduo isolado da sociedade devido a peculiaridades pessoais. Para Cronenberg, somos todos sujeitos que estão inexoravelmente alheios à comunidade em que vivemos. Por mais que tentemos, jamais estaremos em perfeita sintonia com o nosso meio e, quando vistos de perto, seremos seres estranhos, “esquisitos”, fadados ao isolamento diante de um contexto social que só admite padrões. Entretanto, sempre teremos algo que não será “padrão” em nosso íntimo. No caso do professor Smith, seus poderes de premonição em relação a eventos futuros acabam por transformá-lo em uma celebridade ao mesmo tempo que o distanciam dos outros, além de se tornarem um fardo, já que passa a pesar sobre ele a responsabilidade de interferir no destino não apenas daqueles que conhece, mas também de toda a sociedade. Assim, ao mesmo tempo em que se torna famoso, Smith está sozinho em sua penitência de conhecer o futuro das pessoas. Sua solidão, ademais, torna-se ainda maior por ter sido abandonado pela noiva durante o coma e ter perdido o emprego de professor. Ele “dorme e acorda” em realidades bastante diferentes, um verdadeiro choque que torna difícil definir os caminhos a seguir.


Trabalhando com um roteiro de Jeffrey Boam (o primeiro na carreira do diretor que não foi escrito pelo próprio), Cronenberg desenvolve o conflito na forma de um suspense, como era de se esperar de um longa baseado em uma obra de King. Embora tenha problemas de ritmo em seus minutos iniciais, pois que o acidente com o protagonista ocorre muito rápido, sem que tenhamos tido tempo de nos identificarmos mais com o personagem e nos preocuparmos com o seu destino (o filme é relativamente curto e uns 20 minutos a mais de projeção poderiam ser perfeitamente encaixados), o diretor consegue estabelecer um bom clima de tensão que prende o espectador, fazendo-o torcer pelo herói E, mesmo não sendo tão aparente quanto em outros longas de sua autoria, há aquele clima de “estranheza”, algo meio surreal, tão característico de Cronenberg. Outro destaque é o trabalho na direção de atores, uma das grandes virtudes do diretor. Christopher Walken - sempre um ator marcante que merecia bem mais reconhecimento do que tem - está simplesmente ótimo como o protagonista paranormal. Embora Martin Sheen soe um pouco maniqueísta na pele do vilão da trama, o político candidato à presidência dos EUA Greg Stillson (ou será culpa do roteiro?), Brooke Adams como Sarah, a namorada de Smith que o deixa durante os cinco anos de coma, está carismática e convincente, assim como Herbert Lom na pele do médico que cuida de Smith.


Com um ótimo clímax (que faz referência a fatos históricos dos Estados Unidos), “The Dead Zone”é inferior aos melhores filmes de Cronenberg, mas “um filme menor” de um grande cineasta costuma ainda ser bem melhor do que a média das produções lançadas rotineiramente. Também merece destaque como uma das boas transposições de obras de Stephen King para o cinema, uma vez que “adaptação de Stephen King” hoje parece ter ser tornado um gênero à parte, tantas as que proliferam quase anualmente no cinema comercial. Então, se “Na Hora da Zona Morta” não chega ao nível de excelência de“O Iluminado” (The Shinning, 1980), do mestre Stanley Kubrick, também é muito superior a desastres como “O Apanhador de Sonhos” (Dreamcatcher, 2003). Suas credenciais, inclusive, me fazem lembrar da citada medonha edição em DVD vendida atualmente em nossas lojas. Um bom filme como este merecia uma cópia restaurada e não uma conversão chinfrim de VHS para DVD. Lamentável...


Cotação:



Nota: 8,0

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Gravidade

Beleza, solidão e revolução


Inicio esta resenha com uma afirmação que pode ser precipitada, mas que reflete inteiramente minhas impressões ao fim da sessão de “Gravidade”: trata-se do melhor filme de ficcção-científica desde “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odyssey, 1968), talvez tendo apenas como rivais “Alien – O Oitavo Passageiro” (Alien, 1979) e “Blade Runner – O Caçador de Androides” (Blade Runner, 1982). Este é um daqueles filmes que, ao terminar de vê-lo, já sentimos algo diferente, sabemos que estamos diante de uma obra que  será lembrada ao longo dos anos, que influenciará inúmeros longas posteriores e, provavelmente, deixará sua marca  na cultura pop como um todo, tornando-se um fenômeno em várias mídias. E não estou exagerando. Na realidade, eu sempre desconfio de filmes com muito “hype”, como nos casos de “Avatar” (2009) - longa que trouxe inovações apenas no uso do recurso 3D, mas que possui uma trama meio rasa e clichê – e “A Origem” (Inception, 2010), um ótimo thriller dirigido por Christopher Nolan, mas que não chega a ser (e o tempo vem mostrando isso) nenhuma obra-prima. Pelas mesmas razões (gato escaldado tem medo de água fria), estava antevendo que havia um certo exagero com relação ao novo longa do diretor mexicano Alfonso Cuáron (de “E Sua Mãe Também!” e “Filhos da Esperança”), o qual vem sendo incensado pela crítica. Felizmente, desta vez eu errei em minhas previsões.

Já fazia muito tempo que eu não via um longa-metragem com tanta força imagética, profundidade na abordagem dos nossos mais instintivos, fortes e belos sentimentos e, ao mesmo tempo, conseguir prender a respiração dos espectadores até o último frame da projeção (talvez Ang Lee tenha feito algo igualmente relevante com o seu “As Aventuras de Pi”, mas não é um filme tão intenso quanto este). Tudo isso em enxutíssimos 91 minutos e com apenas três personagens na tela. E vale dizer que um desses morre logo no início do longa (isso não é um spoiler). Ou seja, Cuáron, também autor do roteiro em parceria com seu filho Jonás Cuáron, conseguiu criar uma obra que alcança o perfeito equilíbrio entre substância e tensão, gerando um filme capaz de entusiasmas crítica e público e isso, convenhamos, é um feito que poucos conseguiram na história do cinema. De quebra, ainda teve a percepção de filmar com o intuito de colocar o espectador na pele dos astronautas, contando com o auxílio da tecnologia 3D. É possível que nunca uma câmera em primeira pessoa tenha atingido um nível tão elevado de subjetividade quanto aqui. Em várias sequências temos a sensação de estarmos na pele da astronauta Ryan Stone (Sandra Bullock), em busca da sobrevivência. Não é por acaso que muitos vêm atribuindo ao filme o adjetivo de “revolucionário” e, desta vez, não é de forma gratuita.


A trama é minimalista, por assim dizer. Nela, vemos a referida Dra. Ryan Stone em uma missão para operar reparos no telescópio Hubble, na qual é acompanhada por dois outros astronautas, um deles o piloto Matt Kowalski, que está prestes a se aposentar (interpretado pode George Clooney). Quando estão efetivamente realizando o serviço, uma onda de destroços de uma satélite destruído pelos russos atinge o telescópio e a nave dos engenheiros e começa, então, uma batalha pela sobrevivência no ambiente mais inóspito que existe para o ser humano: o espaço. Principalmente a Dra. Ryan, que é lançada no vácuo com apenas 10% de oxigênio restando no reservatório do traje espacial. Mas se engana quem pensa que isso resultará apenas em uma correria desenfreada. O foco de Cuáron é o espírito humano. Ao mesmo tempo em que somos tão pequenos diante da imensidão e perigos do universo, temos força suficiente para vencermos esses desafios e nos mantermos vivos diante de um ambiente tão áspero ao ser humano. E, por mais que tenhamos motivos para, quem sabe, nos entregarmos, como no caso da Dra. Stone, viver sempre será a melhor escolha.

Convém ressaltar que a Terra nunca esteve tão bonita no cinema. As imagens concebidas pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubeski são simplesmente lindas. Chega a dar o gostinho de realmente estarmos a contemplar a Terra, privilégio que só cabe a mais do que restrita classe dos astronautas. Aliás, a sensação de estarmos vendo o espaço como ele de fato é só se equivale àquela vista no citado “2001”. Um espetáculo de realismo em algo tão difícil de reproduzir quanto é a realidade fora do nosso planeta. Em similar competência mostra-se a trilha sonora de Steven Price, a qual se faz sentir com ainda mais vivacidade após os contínuos momentos de silêncio engenhosamente concebidos para nos passar o clima do ambiente. Por outro lado, o filme não seria tão bom sem a sensacional atuação de Sandra Bullock, no melhor momento de sua carreira, incontestavelmente. Ela nunca havia conseguido transmitir tanta força e concomitante fragilidade a uma personagem. Será até uma piada se ela não levar o Oscar de melhor atriz, já que anos atrás acabou sendo premiada por um trabalho bem menos relevante (em “Um Sonho Possível”).


“Gravidade” é um filme repleto de imagens marcantes, daquelas destinadas a se tornarem icônicas, indicando que Cuáron poderá ser conhecido no futuro como um dos grandes estetas do cinema. A cena das lágrimas flutuantes da astronauta, por exemplo, é uma delas. Ainda mais se você assistir em 3D. Aliás, procure realmente ver em uma sala 3D, pois este é um dos raros casos em que o recurso se mostra realmente como um diferencial (e quem costuma ler meus textos sabe o quanto eu sou exigente para considerar que um filme precisa ser visto em 3D). Em dado momento da película, a simbiose de emoção e beleza me impressionaram tanto que, faço aqui uma confissão, algumas lágrimas furtivas brotaram dos olhos. E é nesse ponto que reside a principal diferença entre “Gravidade” e o clássico “2001”. Se o filme de Kubrick instiga a reflexão, levando-nos a questionamentos sobre quem somos e para onde vamos, o longa de Cuáron é visceral, procurando despertar o nossos mais básicos e essenciais sentimentos. Fala, sobretudo, da solidão de cada ser humano, cada qual constituindo um universo à parte em meio à imensidão que nos cerca. Diante de tantas “revoluções” que são alardeadas com uma estranha frequência no cinema, mas que logo em seguida se revelam no máximo obras competentes (vide os exemplos dos citados “Avatar” e “A Origem”), talvez neste caso o termo esteja, enfim, sendo usado de maneira apropriada. Só o tempo irá dizer se tal impressão é verdadeira, mas foi a que tive quando surgiram os créditos finais, logo após a linda sequência que conclui este clássico imediato.


Cotação:



Nota: 10,0

domingo, 12 de maio de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

Mother - A Busca Pela Verdade
(Madeo, 2009)


Suspense hitchcockiano sobre a maternidade


Ultimamente, ando afastado do cinema asiático. Um descaso bastante reprovável, tenho ciência disso, o que me levou a procurar resolvê-lo assistindo a algum representante do crescente e elogiável cinema coreano, considerado pela crítica internacional como o maior celeiro de criatividade atual. Confesso que, entre os representantes da produção coreana recente, eu havia visto apenas “Old Boy” (2003), a perturbadora saga de vingança concebida pelo diretor Chan-wook Park. Diante da proximidade do dia das mães, o que estava me motivando a postar algum texto relacionado à data (tudo bem, até o Cinema Com Pimenta às vezes acaba contaminado por essas datas que, no fundo, são comerciais), acabei optando pelo longa-metragem “Mother – A Busca Pela Verdade”, cujo diretor Bong Joon-Ho é um dos mais incensados da atual cena da Coreia do Sul. Ele é o mesmo cineasta de “O Hospedeiro” (Gwoemul, 2006), filme conhecido pela mistura de diversos gêneros, passeando do terror até a comédia e crítica social. Não vi “O Hospedeiro”, mas, a julgar por este “Mother”, o ecletismo parece mesmo ser uma marca do trabalho de Joon-Ho.

Em “Madeo” (título original do longa), o diretor consegue misturar com precisa eficácia gêneros como drama, suspense e policial, trazendo um resultado original e, até certo ponto, surpreendente. Um modo diferente de abordar uma narrativa que questiona até onde pode ir o amor materno. Na trama, Hye-Ja (papel da excelente atriz Kim Hye-Ja), comerciante que também realiza sessões de acupuntura clandestinamente, é mãe solteira de Do-Joon, uma rapaz que tem já os seu vinte e poucos anos, mas que tem um significativo retardo de desenvolvimento mental, comportando-se como uma criança. Após uma noite de bebedeira, Do-Joon acaba se tornando o principal suspeito do brutal assassinato de uma jovem de seu bairro. A super protetora Hye-Ja fará, então, de tudo para provar a inocência do filho, em um caminho tortuoso onde terá de enfrentar uma polícia ineficiente e advogados negligentes. Um percurso com surpresas e situações de choque e que levarão o espectador tanto ao espanto quanto à reflexão.


A estrutura básica de “Madeo” é a de um “whodunit”, aquele tipo de filme cujo mote central é descobrir quem cometeu um crime. Joon-Ho desenvolve o mistério utilizando estruturas inspiradas em Alfred Hitchcock, como a famosa premissa do “homem errado”, tão frequente na filmografia do cineasta britânico. Além disso, realiza uma interessante mistura de tons de suspense com elementos cômicos, uma das especialidades do velho Hitch. Contudo, se este utilizava uma superfície de mistério e suspense para realizar análises acerca da relação homem-mulher, dissecando a sedução e dominação presentes nos envolvimentos amorosos, Joon-Ho tenta entender aquela que talvez seja o mais instintivo, visceral e, ao mesmo tempo, belo e comovente dos sentimentos: o amo materno. A trajetória de Hye-Ja para proteger sua prole alcança pontos em que certos limites éticos e morais são ultrapassados, levando-nos a refletir sobre a aceitabilidade de suas condutas, além de fazer-nos questionar o quanto do ser humano pode ser condicionado pelos nosso instintos mais primitivos. Joon-Ho, todavia, não oferece julgamentos, seja condenando ou absolvendo a protagonista e está longe de enquadrá-la em uma visão santificada ou que procurasse ao menos justificar suas atitudes. De outra ponta, Joon-Ho demonstra uma forte preocupação em exibir a realidade da Coreia capitalista, muitas vezes vista nos Ocidente como exemplo de país que soube sair do subdesenvolvimento. A Coreia que vemos nos filme é repleta de semifavelas e demonstra possuir uma sociedade bem menos rica e pujante do aquela que a mídia globalizada costuma divulgar.


Tais questionamentos nos são trazidos por meio de um roteiro muito bem construído, atento a minúcias e com pistas falsas, muito embora algumas de suas reviravoltas, mormente a principal delas, se mostrem uma tanto previsíveis. Apesar de tais previsibilidades, a narrativa não deixa de ser envolvente e não só porque o roteiro é bem construído. As atuações contribuem poderosamente para o ótimo resultado final da película. O jovem intérprete do filho Do-Joon, o ator Bin Won, realmente convence como uma rapaz com problemas de desenvolvimento mental, em uma atuação muito natural. Além dele, Ku Jin, intérprete do amigo Jim-Tae, também trabalha com competência na construção de uma personalidade dúbia. Contudo, é mesmo Kim Hye-Ja que arrasa em sua performance como a mãe protagonista. Uma atuação perfeita que certamente levaria indicações e prêmios Oscar caso ela tivesse trabalhado em um longa hollywoodiano.

“Mother-A Busca Pela Verdade” tornou-se quase uma unanimidade perante a a crítica internacional e não impunemente. Trata-se de uma obra que demonstra, de fato, porque o cinema coreano é considerado o mais criativo da atualidade, abordando temas complicados de forma inteligente, mas sem tem medo de ser incômodo. Interessante, inclusive, constatar como a produção coreana consegue fugir do politicamente correto e até chocar o público, mas sem nunca deixar de envolvê-lo, em uma mistura de forma e substância à qual é impossível ficar indiferente. E Bong Joon-Ho é, indubitavelmente, um dos grandes representantes dessa escola cinematográfica singular, sendo “Mother” uma ótima forma de começar a conhecê-lo. Não sei se é exatamente uma longa para ser visto no dia das mães, mas que é um baita filme, isso é.


Cotação:



Nota: 9,0

domingo, 6 de janeiro de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Um Corpo Que Cai
(Vertigo, 1958)


Amor Obsessivo


Não é fácil escrever sobre um filme como “Um Corpo Que Cai” (Vertigo, 1958), uma das obras máximas de Alfred Hitchcock, para muitos o seu melhor filme. É o tipo de película sobre qual muito já se falou, escreveu, revirou-se, homenageou-se etc. etc. etc. Mas também é irresistível vê-lo mais uma vez e não tecer alguns comentários, por mais pobres ou redundantes que sejam, sobre o prazer de ver um filme tão genialmente importante.

Como muitos devem saber, Hitchcock foi um dos precursores no que hoje conhecemos como “cinema autoral”, idolatrado pela turma da Nouvelle Vague (François Truffaut era seu fã confesso) e hoje reverenciado como “mestre do suspense”. Entretanto, para além do gênero, Hitchcock foi um mestre na arte de filma, capaz de engendrar tramas com variadas paletas sob uma superfície de thriller. “Um Corpo Que Cai” constitui-se em um dos exemplos mais claros desta afirmação, uma vez que, por trás de uma trama de mistério com nuances policialescas e até mesmo “espíritas”, o que vemos é a história de um amor obsessivo que na verdade se coloca como uma metáfora para a relação homem-mulher onde, infelizmente com frequência, um procura transformar o outro para que atenda às suas idealizações. Baseado no livro “D'Entre Le Morts”, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac (os mesmo autores de “As Diabólicas”), trata-se de um romance-drama impressionante que discute a natureza da personalidade humana e que aponta a crueldade das relações amorosas.



Nela, vemos James Stewart, em seu quarto e último filme com o diretor (Hitchcock aparentemente aceitou os comentários dos críticos de então, que afirmavam que Stewart estava velho para o papel), interpretar o policial de São Francisco John “Scottie” Ferguson, afastado de sua função por ter, indiretamente, causado a morte de um colega devido à sua acrofobia (medo de altura - daí o título original que significa “vertigem” em português). Trabalhando como detetive particular, Ferguson é contratado por um antigo amigo, Gavin Elster (Tom Helmore), para investigar sua esposa, Madeleine (Kim Novak, talvez no papel mais lembrado de sua carreira), a qual anda obcecada com a ideia de que é a reencarnação de uma antepassada, Carlota Valdes, que suicidou-se pulando na baía de São Francisco. Ferguson acaba se apaixonando pela mulher, que por sua vez repete a história de suicídio ao se atirar de um campanário. Tempos depois, acaba conhecendo uma mulher que lembra muito a falecida, Judy Barton (novamente Kim Novak), nutrindo agora o desejo perturbador de transformá-la em uma espécie de nova Madeleine.

Essa relação perturbada é exatamente o foco de Hitchcock, tal como em “Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954), ocasião em que ele usou uma trama de assassinato para apresentar uma alegoria sobre o jogo do casamento, onde Grace Kelly tentava mostrar a um fotógrafo solteirão (o mesmo Stewart) que ela era a mulher ideal para ele se casar. Em “Vertigo”, entretanto, o jogo não é de sedução. Tal etapa já não é mais importante para Hitchcock. Aqui, ele volta os olhos para a dominação existente entre os parceiros, ideia cristalizada na cena em que Judy Barton cede aos apelos de Scottie a aparece finalmente transmudada em Madeleine, uma cena de tamanha força emocional que muitos à comparam ao assassinato de Marion Crane em “Psicose” (Psycho, 1960), o que não é nada absurdo. Afinal, Judy Barton anula sua própria personalidade para que seja aceita pelo homem que ama, o que não deixa de ser a representação de uma morte em vida, morte entendida como destruição da própria persona. Ademais, o velho Hitch parece colocar a vertigem de altura do protagonista como uma representação do medo de se envolver em um relacionamento. Assim, a tentativa frustrada de subir as escadas do campanário para tentar impedir a morte de Madeleine revela, em uma análise mais apurada, a dificuldade que Ferguson tinha de assumir estar apaixonado por ela.


Para nos mostrar tal narrativa, o diretor se valeu do seu conhecido virtuosismo técnico, o qual pode ser observado desde os créditos iniciais concebidos pelo mestre Saul Bass, que já induzem o espectador a uma sensação semelhante à vertigem, algo explorado também ao longo da projeção através de novos e inventivos recursos, como o “zoom in e zoom out” ou “contra-zoom”, uma invenção do cameraman Irmin Roberts (a quem não foram dados os devidos créditos posteriormente). Acompanhando as imagens (este é um dos filmes mais imagéticos do diretor) e ditando o ritmo e o tom da ação, temos a trilha sonora experimental, mas também genial, de Bernard Herrmann, escandalosamente não premiada com um Oscar, o que hoje soa totalmente irônico, já que a Academia recentemente premiou a trilha de “O Artista” (The Artist, 2011) que usou temas deste trabalho de Herrmann com a desculpa de “homenagem”. Até mesmo o figurino de Novak, concebido por Edith Head, contribui para sua aparência um tanto fantasmagórica e auxilia no clima sombrio da película. Novak, apesar do seu bom desempenho, principalmente como Judy Barton, não teve boas relações com Hitch, talvez porque este tivesse pensado primeiramente em Vera Miles (de “Psicose”) para o papel, mas foi possível devido à gravidez da atriz. Dizem as más línguas que ele nutria uma especial crueldade com Novak, chegando a obrigá-la a pular diversas vezes na água durante as filmagens da sequência em que Madeleine se atira na baía de São Francisco. Já Jimy Stewart, um dos mais carismáticos atores da história do cinema, mais uma vez cativa o público e convence perfeitamente como o detetive obsessivo e perturbado.

Em recente eleição realizada por uma publicação britânica entre críticos e diretores, “Um Corpo que Cai” foi considerado o melhor filme de todos os tempos, deixando para trás “Cidadão Kane” (Citzen Kane, 1941), o filme de Orson Welles que rotineiramente ocupava o primeiro posto nas listas. Provavelmente, o resultado se mostra como consequência da enorme influência que Alfred Hitchcock exerce sobre os cineastas contemporâneos (Brian De Palma, por exemplo, teve inspiração direta nele para realizar “Dublê de Corpo”) e também porque o filme passou anos fora de circulação, uma vez que seus direitos estavam na mão de Hitch e ele o deixou trancado no armário durante mais de duas décadas ( e sabemos que críticos adoram filmes pouco vistos). Pessoalmente, gosto mais dele do que do longa-metragem de Welles, muito embora não se possa negar que este possua mais inovações narrativas. Entretanto, mesmo com o seu desfecho para muitos insatisfatório – [SPOILER] o “ vilão”, se assim podemos definir, sai impune no final [FIM DE SPOILER] – o que gerou críticas na época do seu lançamento (com as quais não concordo) – este longa-metragem é mesmo um dos melhores exemplos da arte de um gênio que foi um dos responsáveis por definir o cinema como o entendemos e apreciamos hoje. Uma obra poderosamente imagética e perturbadora que lhe trará um provável desejo de retorno.


Cotação e nota: Obra-prima.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Os 7 Melhores Filmes de 2012

Abaixo, segue a lista dos 7 melhores filmes exibidos no circuito comercial brasileiro em 2012, na opinião do Cinema Com Pimenta. Confesso que não considerei 2012 um bom ano e os filmes que seguem entraram na lista sem ser necessário fazer "escolhas de Sofia" para chegar a ela. Confiram.


7) 007 - Operação Skyfall (Skyfall, de Sam Mendes);



6) Argo (Idem, de Ben Affleck);



5) Os Descendentes (The Descendants, de Alexander Payne);



4) Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, de Christopher Nolan);




3) Moonrise Kingdom (idem, de Wes Anderson);



2) A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, de Martin Scorsese);



1) As Aventuras de Pi (Life Of Pi, de Ang Lee) - resenha em breve no Cinema com Pimenta.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Argo

De volta aos anos 70 (ou como Hollywood gosta de se ver no espelho)


Hollywood é reconhecida no mundo inteiro como uma fábrica de sonhos e ilusões, tanto no bom quanto no mal sentido da expressão. Pois bem. Com “Argo”, o ator que virou diretor Ben Affleck nos mostra que a indústria do cinema norte-americano é tão eficiente com sua ficção que já chegou até a enganar a vigilância de um país inimigo dos Estados Unidos para salvar alguns compatriotas que lá se encontravam. Um feito ocorrido no fim dos anos 70/início dos 80 e que foi revelado pelo governo norte-americano apenas em 1997, durante o mandato de Bill Clinton, e que realmente possui todos os ingredientes para se transformar naquilo em que Hollywood é a maior especialista do mundo em fazer: filmes.

Affleck retomou aqui um gênero cinematográfico que teve seu auge nos anos 70: o thriller político, dos quais são exemplos icônicos “Todos os Homens do Presidente” (All The Presidents Men, 1976), de Alan J. Pakula, e “Três Dias do Condor” (Three Days Of Condor, 1975), de Sidney Pollack, gênero este que perdeu espaço nas últimas décadas, principalmente nos anos 80 e 90, quando a população mundial, contaminada pelo estilo yuppie de ver o mundo, deixou-se submergir por uma apatia política que parece ter sido sacudida apenas depois dos eventos do 11 de setembro de 2001 e, mais recentemente, pela grave crise econômica global iniciada a partir de 2008. Nos anos 70, principalmente depois que o studio system sofreu fortes abalos com o advento dos jovens da “Nova Hollywood” e seu cinema autoral, a contestação politica e social era praticamente a regra, não a exceção. Neste longa, Affleck já optou por realizar, no início da projeção, uma autocrítica explícita raramente vista em filmes ianques ao passar em resumo a história recente do Irã, um dos países que mais sentiram o resultado desastroso do intervencionismo imperialista norte-americano. Ao apoiar o governo ditatorial do Xá Reza Pahlevi, como uma reação à nacionalização do petróleo promovida pouco antes pelo primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, os Estados Unidos, em boa medida, contribuíram diretamente para a posterior ascensão do Aiatolá Khomeini ao poder em 1979, durante a chamada “Revolução Islâmica”, o qual acabou por instaurar no país um regime teocrático avesso à cultura e modelos sociopolíticos ocidentais.


Foi durante os eventos de 1979 que a embaixada estadunidense acabou sendo tomada por revoltosos iranianos, fazendo como reféns os diplomatas e funcionários que lá se encontravam. Seis destes, contudo, conseguiram escapar e passaram a viver escondidos na embaixada canadense. Era preciso arrumar um forma de resgatá-los, mas a situação era complicadíssima. Várias ideias (ruins) surgiram, mas Tony Mendez (Ben Affleck no filme), um agente da CIA especialista em situações como esta, surgiu com uma ideia mirabolante: fingir a realização de um filme de ficção científica chamado “Argo” (daí o título do longa). A “produção” procuraria locações no referido país do Oriente Médio e o integrantes da “equipe” seriam justamente os seis enclausurados, que posteriormente deixariam o Irã como “cineastas”. Um plano tão maluco que não levantaria suspeitas. “Melhor do que fingirem ser professores ou fugir de bicicleta ao longo de muitos quilômetros”, disse Mendez. Para tanto, ele contou com a ajuda de verdadeiros profissionais do cinema, entre eles o maquiador vencedor do Oscar John Chambers (no filme vivido por John Goodman) e o produtor Lester Siegel (o sempre ótimo Alan Arkin), os quais se empenharam ao máximo em fazer com que a produção tomasse ares de verdade, realizando coletivas de imprensa, festa de lançamento do projeto, divulgando cartazes e outros procedimentos afins.

Vale ressaltar que Affleck resolveu fazer um filme setentista não apenas no gênero e no tema, como também em vários outros aspectos, como a fotografia granulada (de Rodrigo Prieto) e a trilha incidental, que nos recorda bandas poderosas como o Led Zeppelin. Interessante como ele vem mostrando bem mais competência como diretor do que como ator, ofício onde sempre apresentou desempenhos limitados. “Atração Perigosa” (The Town, 2010), seu longa anterior, já demonstrava uma direção segura e com ótimo ritmo, virtude que se mostraram ainda mais amadurecidas em “Argo”. A tensão é constante ao longo dos 120 minutos de projeção, fazendo com que o espectador se pegunte o tempo inteiro como terminará aquele plano. Astuto, Affleck soube inserir humor nos momentos certos para quebrar o clima tenso, jogando até piadas ácidas dirigidas ao sistema hollywoodiano do qual faz parte. Uma pena que dito sistema acabe por dominar a última terça parte do longa-metragem. Como é de conhecimento até do mundo mineral, Hollywood adora romancear histórias reais, talvez por acreditar que o público não se interessaria por essas mesmas histórias caso elas não fossem maquiadas ou hiperbolizadas. E aqui o jovem diretor também caiu na armadilha, transformando o desfecho do filme em uma correria típica de filmes de ação. Ademais, o final se apresenta permeado daquele patriotismo característico das terras de Tio Sam, algo que se mostra até contraditório diante do seu referido prólogo repleto de autocríticas.



Mesmo diante desses deslizes, “Argo” é um mais um passo adiante na carreira de Ben Affleck como cineasta. O longa já vem sendo cotado como um dos prováveis candidatos ao prêmio Academia de Hollywood e, acredito, ela não deixará passar sem estatuetas essa história surpreendente de como a indústria do cinema contribuiu decisiva e participativamente na resolução de um delicado problema diplomático que poderia ter consequências desastrosas nas relações dos EUA com o Oriente Médio. Como pudemos ver no ano passado, com a premiação de “O Artista” em várias categorias, Hollywood adora se ver na tela, mesmo quando são estrangeiros que a retratam. Que dirá quando é um dos seus próprios rebentos a traçar esta imagem positiva, narrando um dos seus feitos mais mirabolantes e até então desconhecido do grande público. O cinema norte-americano, como qualquer “Narciso”, adora se olhar no espelho.


Cotação:


 

Nota: 9,0

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer

A Vida dos Outros
(Das Leben Der Anderen, 2006)


A pior das vergonhas


A primeira vez que vi “A Vida dos Outros” (Das Leben der Anderen) foi com uma certa revolta. O ano era 2007 e ele tinha “roubado” o Oscar de melhor filme estrangeiro das mãos do meu favorito, “O Labirinto do Fauno” (El Laberinto del Fauno, 2006), a fábula dirigida por Guillermo del Toro que na minha opinião era “imbatível”. Assim, foi com curiosidade, mas também com vontade de encontrar defeitos na produção alemã, que resolvi conferi-la em uma sessão do Cineclube Natal, a convite de um amigo cinéfilo (abraço, Gian!). A verdade é que o meu esforço em buscar aspectos negativos no filme foi em vão e terminei a sessão completamente absorvido por aquela trama político-social inserida em um contexto belamente sensível que nos suga para dentro da vida daqueles personagens. Misturar observação politica com dramas individuais sem que nenhuma das vertentes saia prejudicada é algo bastante difícil de ser atingido, mas o diretor Florian Henckel Von Donnersmarck conseguiu a proeza. E o mais surpreendente é que este foi seu primeiro longa-metragem para o cinema.

Revendo o filme há poucos dias, a experiência mostrou-se igualmente sólida e envolvente. Em alguns momentos, senti-me tenso como se ainda não tivesse assistido ao seus 137 minutos de projeção (que não se sentem, diga-se de passagem). Impressionante um cineasta estreante atingir tal feito, mas isso não se deu por acaso. Donnersmarck fez uma vasta pesquisa nos arquivos da antiga República Democrática Alemã para compor seu roteiro, além de entrevistar várias pessoas que moravam no então lado oriental da Alemanha (o próprio diretor é filho de uma alemã oriental), vítimas das ações arbitrárias da Stasi, espécie de KGB local, polícia politica incumbida de monitorar e prevenir atividades consideradas subversivas ao Estado comunista. Apesar de contar com poucos recursos para a produção, conseguiu o máximo empenho do seu elenco, que aceitou recebeu suas remunerações com atraso e mesmo assim entregou belíssimas performances, principalmente Ulrich Mühe, intérprete do espião Wiesler, personagem central desta narrativa que mostra as terríveis consequências de uma sociedade dominada pela vigilância.


Na trama, Wiesler tem a missão de monitorar o dia a dia do dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Koch), um autor que conta com a simpatia do governo devido ao conteúdo socialista de suas peças. Entretanto, o ministro da cultura, Bruno Hempf (Thomas Thieme), está interessado na companheira de Dreyman, a bela Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), uma das mais conhecidas atrizes do país, razão pela qual é desencadeada uma operação para investigar supostas atividades anticomunistas de Dreyman. A observação constante de Wiesler faz com que este passe a, na verdade, admirar Dreyman e sua existência passional, cheia de entusiasmo pela literatura, música e vivendo uma relação tórrida com Christa-Maria, contrapondo-se à vida fria e solitária que resulta de sua atividade de bisbilhoteiro oficial. O diretor, inclusive, vale-se de uma comparação bem ajustada entre as práticas sexuais dos dois protagonistas para salientar as diferenças. Enquanto Dreyman vive quentes noites de amor com sua amada Christa, a vida sexual de Wiesler se limita a horas marcadas de sexo mecânico e impessoal com prostitutas, caracterizando o preenchimento da realidade do primeiro em contraposição ao vazio da existência do segundo. O próprio Wiesler percebe que ele nada mais é do que um voyeur chancelado pelo Estado, armado por um aparato tecnológico que o torna a apto a viver “a vida dos outros”, como diz o título perfeito da película, e isto passa a lhe trazer a pior das vergonhas: a vergonha de si mesmo, ainda mais potencializada quando percebe que suas ações estão servindo não a uma causa em que se possa acreditar, mas tão somente aos caprichos de um integrante das engrenagens estatais. O espião é a tradução individual de uma manifestação arcaica do poder estatal, eminentemente preocupado em impor limites aos seus cidadãos como uma forma de sustentação. Já Dreyman traduz o oposto, qual seja, a vida em liberdade, liberdade do pensar e do agir conforma sua autodeterminação.


Tais comentários políticos e existenciais, entretanto, poderiam se transformar em uma chatice se colocadas em mãos pouco habilidosas. Felizmente, não é o que sucede. Donnersmarck constrói um suspense que só aumenta ao longo da narrativa, desembocando em um clímax inesperado e contundente que deixa o espectador atordoado e que ainda é sucedido por uma conclusão de cunho emocional poderoso a que dificilmente você ficará indiferente. Aliado a este domínio do ritmo narrativo, ainda se destaca um direção de arte que se preocupou em reconstruir com precisão o ambiente da Alemanha Oriental dos anos 80, com suas cores estranhamente pálidas, desbotadas, suas paredes cinzentas e móveis angulosos que tornavam a vida tão fria e rigorosa quanto o aparato estatal então vigente. Juntando-se a este quadro temos a ótima performance do elenco. Se Martina Gedeck revela limitações na composição de sua Christa -Maria,. Sebastian Koch etá ótimo na pele do intelectual Dreyman, conferindo-lhe o tom sóbrio e ao mesmo leve bastante adequado a um homem das artes. Contudo, é inegável que a presença mais marcante em cena é de Ulrich Mühe, ele próprio nascido na RDA que faz aqui uma composição precisa, aliando contensão e emoção em igual medida e nos momentos certos. Uma pena que este ator tenha falecido meses depois das filmagens, vítima de um câncer no estômago, e não pudemos ter outras oportunidades de apreciar o seu trabalho.

“A Vida dos Outros” alcançou grande popularidade internacional, além de muito respeito diante da crítica. Contudo, alguns atacaram a obra por trazer uma visão “sensível e humanizada” de um agente da Stasi, algo semelhante às críticas que “A Queda – As Últimas Horas de Hitler” (Der Untergang, 2004) sofreu por mostrar uma suposta perspectiva “humanizada” do líder nazista. Porém, da mesma maneira que com o longa sobre os últimos momentos de Adolf Hitler, a crítica não procede, parecendo-me partir de pessoas que acreditam (ou precisam acreditar) em interpretações maniqueístas da História. O filme de Donnersmarck vai justamente no sentido oposto, fugindo de simplificações e nos apresentando personagens críveis, com suas contradições, virtudes, erros e redenções. E devo dizer: não foi nenhuma injustiça ele ter retirado o Oscar de melhor filme estrangeiro das mãos de “O Labirinto do Fauno”. Na realidade, foi um privilégio vermos dois filmes desta envergadura disputando o prêmio no mesmo ano, algo que nem acontece com frequência, infelizmente.


Cotação: 

Nota: 10,0