Mostrando postagens com marcador Western. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Western. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Os 7 Melhores filmes de 2013

Fechando o ano, segue a lista com os sete melhores filmes exibidos no circuito comercial brasileiro no ano de 2013, segundo a visão do Cinema Com Pimenta. Um grande abraço a todos e feliz 2014!


7) Django Livre (Django Unchained, Quentin Tarantino);



6) Os Suspeitos (Prisoners, Dennis Villeneuve);



5) Os Miseráveis (Les Misérables, Tom Hooper);



4) O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, David O. Russell);




3) Rush - No Limite da Emoção (Rush, Ron Howard);



2) Amor (Amour, Michael Haneke);



1) Gravidade (Gravity, Alfonso Cuáron).

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Django Livre

A escravidão segundo um artista pop


Não há dúvidas de que Quentin Tarantino é um cineasta controverso. Muitos o amam, alguns o odeiam, mas, em geral, este é o preço se paga quando se desenvolve um trabalho extremamente autoral. O adjetivo “controverso” também pode ser aplicado a nomes como Jean-Luc Godard, por exemplo. Contudo, mesmo os críticos de Gordard devem reconhecer a sua importância para a linguagem cinematográfica. E Tarantino, com o seu processo de reciclagem-liquidificador de referências cinéfilas, tem prestado um enorme serviço à Sétima Arte nas últimas duas décadas. Uma das críticas que pairam sobre a obra de Tarantino é seu o excesso de violência. Em alguns casos, acredito que a crítica é válida. Gosto de citar a famosa cena da orelha em “Cães de Aluguel” (Reservoir Dogs, 1992) como exemplo de violência gratuita em sua obra. Entretanto, cabe lembrar que este último foi o seu primeiro longa-metragem na direção, o que nos faz compreender alguns excessos da imaturidade. Por outro lado, em “Django Livre”, seu último filme já em cartaz no circuito comercial brasileiro, há muita violência, mas, pelo menos em boa parte da projeção, não me pareceu gratuita.

Apesar de ser uma mancha presente na história norte-americana, tal como na brasileira, o cinema ianque pouco filmou a escravidão negra, muito embora o tema do preconceito racial seja recorrente em suas produções (como no caso do recente “Histórias Cruzadas”). Uma elipse temática significativa, principalmente quando lembramos que o holocausto promovido pelos nazistas conta com inúmeras produções que retratam seus horrores, uma disparidade que provavelmente é resultado da influência que judeus e afrodescendentes exercem na indústria cultural hollywoodiana. Os primeiros possuem um enorme controle e influência sobre a produção cinematográfica ianque – basta lembrar que Steven Spielberg, por exemplo, é judeu - enquanto negros, em geral, são excluídos do processo de produção e criação, um óbvio reflexo duradouro do passado. Assim, “Django Livre” acaba por se revestir de uma importância bem maior do que de um mero faroeste repleto de tiroteios e cenas violentas. Mostra-se, antes de tudo, como uma tour de force do diretor e roteirista para nos deixar revoltados diante dos horrores da escravidão. Muitos se enganam ao pensar que Tarantino sempre faz cinema apenas sobre Cinema e este me parece o caso mais emblemático em sua carreira que atesta tal afirmação. “Django Unchained” é, primordialmente, um filme sobre escravidão, mesmo que esteja revestido pelo subgênero western spaghetti que tanto influenciou o cineasta.

Começando pelo título e nome do protagonista, o mesmo da película estrelada por Franco Nero em 1966, quase tudo no longa em questão remonta ao subgênero consagrado nas mãos de nomes como Sergio Leone, desde a trilha sonora, até as formas de enquadramento, elementos do roteiro, edição, fotografia e design de produção. Tarantino é fã confesso do faroeste spaghetti (ele já declarou em entrevistas que considera “Três Homens Em Conflito”, de Leone, como o filme mais bem dirigido de todos os tempos) e em ocasiões anteriores, mormente em “Kill Bill vols. 1 e 2” (2003, 2004), já havia demonstrado tal apreço, chegando agora o momento de realizar um trabalho específico do gênero. Se com o mencionado “Kill Bill” ele realizou o seu “filme de artes marciais” e com “Bastardos Inglórios” (Inglourious Basterds, 2009), nos presenteou com seu “filme de Segunda Guerra”, agora é a vez do western, misturando, além da ação típica do bang-bang, uma boa dose de romance.

Mais do que o desejo de liberdade, é o amor que leva Django (personagem de Jamie Foxx, ótimo) a sair da sua condição de escravo para mover montanhas em busca de sua amada. Ele é libertado por um caçador de recompensas, o alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz, impecável!), o qual se compromete a ajudá-lo a encontrar sua esposa, Brunhilde (papel de Kerry Williams), caso Django também o ajude a encontrar criminosos foragidos. Depois de um bom tempo, em que Django se torna um exímio pistoleiro, eles chegam às propriedades de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio, também excelente!), um tiranete obcecado por lutas mortais entres negros escravos, os chamados “mandingos”. É lá que está a sua Brunhilde e é de lá que eles tentarão salvar a moça e escapar com vida.

Curiosamente, o alemão Schultz é o personagem mais esclarecido em relação ao horror da escravidão, rejeitando a ideia de que homens sejam propriedade de outros homens. Além disso, Tarantino pescou referências na mitologia germânica para compor seus personagens. Na lenda alemã, Brunhilde é uma valquíria que foi isolada em uma montanha e de lá foi resgatada pelo bravo Siegfried. Seria uma aceno de Tarantino aos alemães depois de vilanizá-los no referido “Bastardos Inglórios”? Talvez, mas não deixa de ser também um atestado de suas múltiplas fontes de inspiração, que não se limitam apenas ao próprio cinema ou à cultura pop descartável. Ao mesmo tempo, Django se mostra um personagem que em nenhum momento se envergonha da própria altivez, possuindo uma consciência inata de que nada o difere dos homens de cor branca. Ele toma as rédeas de seu próprio destino, o que denota a visão do autor de que os negros não foram passivos na luta pela sua liberdade e igualdade, não constituindo suas conquistas apenas uma benesse dos brancos, como por vezes faz supor a ideologia tradicional.

A violência extrema, que exige bastante estômago em certos momentos, apresentada em algumas sequências parece funcionar, acima de tudo, como elemento catalisador que nos gera a consciência do absurdo do processo escravocrata. Todavia, é claro que Tarantino recheia seu filme de plástica, ação e seu peculiar humor, destilado, principalmente, através de seus costumeiros diálogos afiados. Nunca os tiroteios de um bang-bang cinematográfico jorraram tanto sangue na tela, mas também é provável que nunca tenha existido um personagem do gênero western com um discurso tão convincente e elaborado quanto o do Dr. Schultz. A mistureba típica de Tarantino acaba nos levando a uma montanha-russa de sensações, fazendo o público passar da tensão ao riso com facilidade. Pena que o longa acabe se perdendo um pouco no seu último terço. Seu clímax ocorre cerca de 30 minutos antes do fim da projeção, fazendo com que o seu desfecho reste apagado e descontinuado, uma espécie de enchimento de linguiça desnecessário.


Por outro lado, Tarantino mostra-se, como de costume, excelente na direção de atores. O elenco está coeso, entregando atuações memoráveis de Waltz (já premiado com o Globo de Ouro), DiCaprio, estranhamente esquecido pela Academia de Hollywood, e do protagonista Jamie Foxx, também deixado de lado nas premiações do ano. Entretanto, o caso mais estranho parece ser o de Samuel L. Jackson, antigo parceiro de Tarantino. Ele tem aqui sua melhor atuação em muitos anos, na pele de um repugnante caseiro que é o mais racista dentre todos os tipos da narrativa, vivendo na “casa grande” e oprimindo os demais escravos (aqui no Brasil, podemos traçar uma convergência com os feitores negros que perseguiam e torturavam escravos). Não obstante, sua atuação vem sendo pouco comentada até mesmo pela crítica. Uma injustiça que carece de boas explicações. No mais, Tarantino preenche a projeção, como de hábito, com participações especiais, como a de Jonah Hill (hilária, por sinal), e ainda a de Franco Nero, perguntando a Django como se pronuncia o seu nome. Dentre os aspectos habitualmente marcantes na obra do cineasta, a trilha sonora é a que se mostra menos inspirada, apesar de contar com o tema original de Ennio Morricone para o Django dos anos 60. Não que a trilha seja ruim, mas talvez estejamos mal acostumados com o uso excepcional da música em outras oportunidades, e aqui ela não se mostra tão especial.

“Django Livre”, com certeza, não é o melhor filme de Quentin Tarantino. Teria se saído melhor se tivesse sua metragem reduzida em uns 30 minutos como já destacado. Contudo, trata-se da obra em que o diretor deixa mais claro ao espectador sua verdadeira pretensão, que, no caso, é a de nos fazer lembrar que a escravidão foi uma passagem terrível da história da humanidade e, tal como os horrores da Segunda Guerra Mundial, jamais deverá ser esquecida. Tarantino pode ser um cinéfilo viciado, mas não um alienado que usa sua arte apenas para referenciar a própria cultura pop. Aqui, ele se revela um engajado cheio de talento. Um virtuose da imagem que retira a poeira de uma temática difícil em um país que, apesar de hoje ter um presidente negro, ainda precisa curar suas feridas.


Cotação:
Nota: 9,0

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Primeiro Trailer de "Django Livre"


Em primeira mão, segue abaixo o primeiro trailer de "Django Livre" (Django Unchained), o novo longa-metragem de Quentin Tarantino. Na trama, ambientada no sul dos Estados Unidos dois anos antes da Guerra de Secessão, Django (Jamie Foxx) é um escravo cujo histórico brutal com seus ex-senhores o deixa frente a frente com um caçador de recompensas alemão, King Schultz (Christoph Waltz, repetindo a parceria que lhe trouxe notoriedade). Os dois passam a caçar criminosos pelo sul dos Estados Unidos e buscam resgatar Broomhilda (Kerry Washington), esposa de Django raptada pelo tráfico de escravos . A procura acaba levando-os até Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), o proprietário de "Candyland", uma fazenda onde os escravos lutam entre si por esporte.

De antemão, além da óbvia referência ao filme protagonizado por Franco Nero nos anos 60, já percebemos citações de "Rastros de Ódio" , de John Ford, e até da mitologia germânica, além do recorrente tema da vingança na filmografia de Tarantino. O longa estreia em 25 de dezembro nos EUA e em 18 de janeiro no Brasil.



Django Unchained - Trailer / Bande-Annonce [VOHD] por Lyricis

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Trilha Sonora #21


Nos comentários que teci sobre a bela obra de Nicholas Ray "Johnny Guitar" (leia aqui), mencionei que a película contava com uma ótima canção-título, composta por Victor Young e Peggy Lee. Pois bem, clicando no link abaixo você poderá ouvi-la acessando o blog da amiga Suzane Weck, a qual deixou este escrivinhador muito honrado ao linkar o meu texto como complemento à sua postagem e, mais ainda, ao atender um pedido desprentensioso para que nos oferecesse uma interpretação da canção. O resultado foi nada menos que excelente! Clique abaixo e não deixe de conferir "Johnny Guitar" na belíssima voz de Suzane Weck!

"Johnny Guitar", por Suzane Weck

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer




Johnny Guitar
(Idem, 1954)


O Oeste das mulheres


Não se engane com o título deste longa-metragem de 1954 dirigido por Nicholas Ray, hoje um dos mais cultuados cineastas da Hollywood dos anos 50. O filme não tem como personagem central o pistoleiro-violonista interpretado por Sterling Hayden que chega a um lugarejo esquecido por Deus em que nem mesmo existe ainda uma estação de trem. O centro da narrativa encontra-se em Vienna (a estrela Joan Crawford), ex-namorada de Johnny e agora dona de um misto de saloon e cassino quase entregue às moscas, tendo a esperança de ver os negócios melhorarem com a possível chegada da ferrovia. Para se manter estabelecida na localidade, contudo, ela tem de enfrentar a oposição de Emma Small (Mercedes McCambridge), uma fazendeira manda-chuva cheia de ódio e ressentimento porque o homem que ama, Dancin' Kid (Scott Brady), não retribui seu sentimento e é, em verdade, apaixonado por Vienna. Enquanto esta é admirada e desejada pelos homens da cidade, Emma sente-se a rejeitada e nutre desejos de vingança. Vienna então contrata o antigo amor, Johnny “Guitar” Logan, para ajudá-la a enfrentar os obstáculos que surgirão para continuar com seu empreendimento.

Vê-se, já de antemão, que esta é uma obra bastante passional, em que as ações dos personagens são norteadas por amores e ciúmes, uma espécie de western-romance-tragédia singular e talvez nunca repetido na história da Sétima Arte. Não por acaso, era um dos filmes preferidos de François Truffaut e Ray foi um dos cineastas mais amados pelos nomes da Nouvelle Vague. E não impunemente. Afinal, uma das medidas do talento e da genialidade de um artista é a capacidade que tem a sua obra de manter-se atual mesmo depois de décadas de sua confecção. No caso, “Johnny Guitar” não somente se manteve atual como também esteve mesmo à frente do seu tempo, apresentando um modelo de comportamento feminino que só iria se tornar mais comum umas três décadas depois. Tanto Vienna quanto Emma são mulheres fortes e independentes ao redor das quais giram os tipos masculinos da narrativa, os quais parecem estar ali apenas para servi-las. A diferença entre as duas está no bom coração da primeira. Ou seja, o filme não envelheceu absolutamente nada. Pelo contrário, é até mais verossímil hoje do que quando do seu lançamento. Por outro lado, além desse seu lado “feminista”, digamos assim, há um subtexto político anti-Macarthismo presente na trama, mormente por meio do personagem de Turkey (Ben Cooper) que é obrigado à delação diante de uma verdadeira caça às bruxas promovida por Emma e asseclas. Situação similar foi vivida realmente pelo ator Hayden diante do malfadado comitê de atividades anti-americanas que aterrorizava artistas e intelectuais à época.


Outro aspecto marcante da película são os seus diálogos (aliás, uma constante nas obras de Ray), que atingem os personagens e os espetadores de maneira bem mais certeira que os tiros dos rifles e revólveres. Várias são as frases antológicas do longa, como a de que “um homem precisa apenas de um bom cigarro e um copo de café” ou “depois do incêndio costumam restar somente as cinzas” (proferida por Vienna ao se reportar ao seu antigo amor por Johnny). Escrito por Philip Yordan baseado no romance de Roy Chanslor - e com a participação não creditada de Ben Maddow, que fazia parte da lista negra do FBI (reforçando a perspectiva de crítica à perseguição dos comunistas) - o roteiro realmente é ímpar e capaz de levar os espectadores a passar horas apenas apreciando o brilhante jogo de palavras (como hoje muitos costumam fazer com os filmes de Quentin Tarantino). É claro que para o texto fluir de maneira eficiente é necessário um elenco competente e é isso que se vê na tela. Nem parece que ocorreram tantos atritos nos bastidores da filmagens, uma vez que Crawford e McCambridge também não se davam bem na vida real e tal circunstância fez com que elas se evitassem ao máximo nas gravações. Pensando bem, talvez seja até por essa antipatia mútua que tenha resultado uma rivalidade tão verossímil na projeção, com as duas atrizes entregando ótimas interpretações.


Outra vertente em que Ray subverte o gênero é na utilização das cores. Normalmente, o Western privilegia as paisagens como foco da fotografia, destacando a imensidão da natureza frente à insignificância dos homens como forma de acentuar ainda mais a coragem e persistência destes (John Ford foi um mestre nesse quesito). Aqui, entretanto, Ray, usando da tecnologia denominada Trucolor (que dava mais destaque ao colorido na captação das imagens), privilegiou as cores dos figurinos, geralmente fortes e contrastantes, os quais, em boa medida, traduzem os sentimentos dos personagens. Memorável a cena em que Emma e seu grupo, todos trajando preto, invadem o saloon como abutres procurando uma presa e encontram Vienna com um vestido inteiramente branco em contraste com a parede rochosa e vermelha ao fundo. Uma cena de acabamento barroco belíssima e memorável. Além disso, Ray privilegia aqui os cenários interiores, com longas sequências se passando em ambientes fechados – logo nos primeiros momentos, inclusive, temos uma bastante extensa (mas jamais cansativa) em que somos apresentados a todos os personagens e tomamos pé das situações, em um verdadeiro show de concisão e clareza de roteiro e edição.

Realizado com orçamento limitado pelos estúdios Republic (que iriam à falência 4 anos depois), “Johnny Guitar” revela-se um dos faroestes mais atípicos já filmados, tanto na forma como no conteúdo, estando bastante à frente do seu tempo, como já salientado, o que inevitavelmente já o coloca entre os melhores representantes do gênero. Seu resultado é tão belo quanto sua canção tema, composta por Victor Young e Peggy Lee (esta também intérprete), música que põe a cereja no bolo desta obra impecável do fantástico Nicholas Ray, um diretor que hoje costuma ser muito lembrado por seu trabalho em“Juventude Transviada” (Rebel Without a Cause, 1955). Eu, particularmente, considero este western não tão famoso até superior ao drama protagonizado pelo mítico James Dean, longa que hoje me parece um pouco datado. “Johnny Guitar”, inversamente, com suas mulheres fortes e homens apaixonados, parece ter sido feito ontem.


Cotação e nota: Obra-prima.

domingo, 20 de março de 2011

Rango


Western Spaghetti animado


O tempo passa e cada vez mais demonstra o tamanho da influência que um certo cineasta italiano exerceu e ainda exerce sobre o imaginário do cinema hollywoodiano e mundial, por extensão. Nos anos 60, o diretor Sergio Leone reinventou o gênero western com a trilogia do “Homem Sem Nome”, protagonizada por um ator que mais tarde se transformaria em uma lenda da sétima arte: Clint Eastwood. Ao longo dos anos, vários foram os outros cineastas que prestaram tributo em suas obras aos filmes seminais de Leone, sendo Quentin Tarantino o exemplo mais forte dessa vertente.

Talvez inspirado por Tarantino, Gore Verbinski também resolveu prestar sua homenagem ao western spaghetti com “Rango”, primeira incursão tanto do diretor quanto do estúdio Paramount no terreno das animações. Anteriormente, Verbinski já mostrava afinidade em trabalhar no universo das “aventuras de época”, tendo em vista o sucesso da franquia “Piratas do Caribe”, comandada pelo mesmo (o que inclusive explica a escolha de Johnny Depp para a voz do protagonista na versão original em inglês). E não seria de estranhar que também obtivesse sucesso no mundo animado, já que sempre demonstrou trabalhar bem o lado do humor nos seus longas, cheios de tiradas espirituosas e gags criativas que nunca resvalam no mau gosto. Este “Rango”, é bom ressaltar, não foge à regra.

Divertido e inteligente, sua premissa demonstra uma originalidade incomum na mesmice do cinema norte-americano atual. A narrativa mostra a saga de um camaleão que vive em um aquário de família, ensaiando com seus amigos inanimados (um peixinho de plástico, um busto de boneca, um inseto morto e um coqueiro artificial) no sonho de um dia se tornar um grande ator. Devido a um acidente, ele é jogado pra fora do automóvel em que a família viaja, vendo-se assim às margens de uma auto-estrada e diante de um imenso deserto. Mais tarde, acaba chegando à cidade de Poeira, onde acaba se tornando o xerife local após a população acreditar em sua persona inventada de grande pistoleiro que veio do Oeste. O maior problema de Poeira é a escassez de água, cuja quantidade restante fica depositada no banco local, e seus habitantes começam a ver no forasteiro uma espécie de messias que trará de volta o precioso líquido para a região.

É interessante perceber como Hollywood vem se tornando politizada, fazendo críticas abertas ao sistema até mesmo em animações. Não só banqueiros como governantes são diretamente criticados ao longo da trama e esta também não deixa de servir de alerta ambiental, já que, obviamente, a escolha da água como bem escasso e essencial como mote do seu desenrolar não pode ser à toa. Contudo, não se pode negar que o foco de “Rango” (o nome adotado pelo herói acaba sendo uma homenagem tanto a Durango Kid, cowboy de cine-série da Columbia nos anos 40, quanto a “Django”, filme e personagem imortalizado por Franco Nero) é mesmo a jornada do herói sem passado, o “homem sem nome” imortalizado por Eastwood, como acima mencionado. Assim, nada mais adequado, para tanto, que a figura de um camaleão para representar alguém sem identidade definida. A busca dessa identidade é que se torna a grande saga de Rango e o leva a se encontrar com o Espírito do Oeste em busca de uma resposta (representado por uma versão animada do próprio Clint Eastwood, o qual foi convidado para fazer sua voz, mas acabou recusando a proposta).

Toda a narrativa, por sinal, é pontuada por uma série de referências a clássicos do cinema como “Apocalypse Now”, passando por “A Felicidade Não Se Compra” e chegando até mesmo a (pasmem) “Morangos Silvestres”. Entretanto, embora faça a festa dos cinéfilos, tais recursos acabam por trazer um possível hermetismo ao filme, já que a maior parte dos espectadores não perceberá as referências e muito menos os pequenos, os quais sempre serão consumidores das animações, por mais que estas estejam cada vez mais repletas de elementos para o público adulto. Por outro lado, o roteiro (escrito por John Logan, James Ward Byrkit e o próprio Gore Verbinski) se desenvolve muito bem em seu início, com uma ótima apresentação de personagens, cada um com suas características pitorescas, como Feijão, a lagarta que acaba se tornado o interesse romântico do herói. Todavia, acaba por pecar em seu desfecho, o qual se torna apressado, deixando no ar a explicação para alguns acontecimentos do fim da trama (muito embora possua uma sequência final de créditos excelente).

Talvez o grande problema de “Rango” seja justamente o fato de se limitar a ser uma homenagem a um gênero, o que retira uma boa parcela de sua originalidade e o deixa previsível em muitos pontos. Assim, o que era para ser diferente acaba se tornando clichê e o filme, que poderia até se tornar memorável, acaba sendo uma ótima diversão, mas tão somente isso. Verbinski acaba por abdicar da originalidade para se colocar apenas numa posição de reverência. Assim, o sabor diferente da primeira metade do longa transmuda-se, ao seu final, em uma considerável sensação de dejá vu. Em consequência , “Rango” se coloca tão somente como um bom e divertido western spaghetti, só que desta vez animado.


Cotação:

Nota: 8,0

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Bravura Indômita (2010)



Coen para as massas


Em 2007, os irmãos Joel e Ethan Coen realizaram uma obra peculiar, uma espécie de western moderno intitulado “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, um filme soberbo que pintou em cores vivas a decadência dos valores da sociedade norte-americana, valores nobres substituídos unicamente pela ganância, pela busca implacável da riqueza a qualquer custo, gerando uma amoralidade vista de modo cada vez mais natural. Inegavelmente pessimista, trata-se de um olhar desalentado sobre uma sociedade que parece fadada ao declínio e degradação. Esta é uma temática, vale dizer, muito cara ao trabalho dos inseparáveis irmãos, como já se podia perceber no seu emblemático “Fargo”, longa de 1996 vencedor do Oscar de melhor roteiro original e atriz (Frances McDormand).

Eis que agora surgem os autores com este “Bravura Indômita”, uma releitura do clássico protagonizado pelo imortal John Wayne e que lhe rendeu o único Oscar da carreira. Talvez o termo “releitura” seja mais preciso, pois que os irmãos recusam o termo comum de “remake”, pois que alegam estar realizando uma nova adaptação, mais fiel ao material do livro de Charles Portis e não uma mera refilmagem do longa predecessor. Contudo, à parte as inevitáveis comparações com o filme de 1969 (até porque mexer com um personagem imortalizado por John Wayne é sempre algo temerário), o mais interessante é contextualizar a nova produção na própria obra dos renomados diretores-roteiristas.

O primeiro ponto relevante a ser mencionado é o caráter comercial deste novo trabalho. Sem dúvida, trata-se do filme mais apto dos Coen a agradar ao grande público. Não à toa, ele se tornou um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, o mais rentável produto da dupla até hoje. Observando os nomes presentes nos créditos, percebe-se que Steven Spielberg é o produtor executivo do longa, o que provavelmente influenciou no seu resultado palatável. Há uma carga emocional mais forte do que se costuma verificar na filmografia dos diretores, cujos exemplares normalmente têm pouco ou nenhum apelo emocional, como no acima referido “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, dono de uma aridez que espanta espectadores com certa freqüência. Não se pode refutar que isso, de certa forma, atribuiu uma aura mais humana aos personagens da trama, vez que, quase invariavelmente, estes são muito caricaturizados nos roteiros desenvolvidos pelos irmãos. Por outro lado, concessões são sempre concessões, e é perceptível que alguns dos traços estilísticos dos autores foram aqui suavizados, entre eles o humor negro característico da dupla que, se não está ausente, se mostra bastante minorado aqui. O único elemento comum aos longas anteriores que transparece de maneira incisiva é a violência, e mesmo assim de forma menos impactante do que em outros exemplares da filmografia Coen.

No mais, a trama se desenvolve da mesma forma que a obra de 1969. Mattie Ross (a novata Hailee Steinfeld), uma garota que teve o pai assassinado, busca vingança. Para caçar o responsável, o criminoso Chaney (Josh Brolin), ela contrata o policial federal Reuben “Rooster” Cogburn (o papel de John Wayne na primeira versão e aqui interpretado por Jeff Bridges),o qual possui métodos pouco ortodoxos e conduta questionável. A eles se junta o ranger La Bouef (Matt Damon), que já estava anteriormente no encalço do facínora. Entre os três se desenvolve aquela tradicional relação de antipatia que acaba se tornando amizade, além de uma disputa sublimada entre os homens da lei pela atenção da menina. Todavia, não se pode negar que o elenco nos oferece um bom desempenho. Steinfeld é mesmo boa atriz e pode ter muito futuro caso escolha os trabalhos certos. Matt Damon está ótimo como La Bouef, sendo até estranho que tenha sido excluído das indicações ao prêmio da Academia como ator coadjuvante. E Jeff Bridges (que já havia trabalhado com os irmãos em “O Grande Lebowski”), na ingrata missão de reformular um personagem encarnado por um dos grandes astros de Hollywood, se sai inegavelmente bem, preservando o tapa-olho, mas sabendo construir uma nova identidade para Cogburn (ele está indicado ao prêmio de melhor ator, mas não deve levar).Outro elemento bem trabalhado foi a trilha sonora, de Carter Burwell, que consegue imprimir emoção no momentos certos, mesmo diante da fotografia escura (em contraposição à ensolarada da versão pioneira) adotada pelos diretores (como em geral acontece em seus filmes).

A verdade é que a sensação de já ter visto aquela narrativa em algum lugar incomoda um pouco. Fazer remakes, principalmente de um clássico, sempre é um risco, pois o sabor de comida requentada pode se fazer sentir em muitos espectadores. Eu fui um deles. De qualquer forma, é indubitável que os Irmãos Coen conseguiram imprimir, mesmo que de forma atenuada, devido ao caráter mais comercial do projeto (como salientado mais acima), uma sensível dose de sua personalidade e estilo. Entretanto, resta um ponto que talvez demonstre que os mesmos tenham recuperado a fé nas pessoas: este novo “True Grit” revela um perceptível otimismo, contrastando com o pessimismo cáustico de “Onde Os Fracos Não Têm Vez”. Os Coen parecem agora dizer que ainda há luz no fim do túnel para uma sociedade degradada. Tomara que estejam certos.


Cotação:

Nota: 8,5

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Para Ver em Um Dia de Chuva



Meu Ódio Será Sua Herança
(The Wild Bunch)



Quando os brutos se tornam heróis


“Meu Ódio Será Sua Herança” possui uma sequência de créditos iniciais das mais marcantes que já tive a oportunidade de ver. Nela, um grupo de foras-da-lei, disfarçados com uniformes do exército norte-americano, avança calmamente a cavalo pelas ruas de um lugarejo poeirento próximo à fronteira dos EUA com o México. A imagem da cavalgada dos bandidos é entrecortada por outra, mostrando um grupo de crianças em uma rua próxima rindo com uma brincadeira cruel: elas assistem a escorpiões sendo devorados em um ninho de formigas vermelhas. A imagem, que foi sugerida por um dos integrantes do elenco, o ator mexicano Emilio Fernández, apresenta uma perfeita similaridade com o roteiro desenvolvido, constituindo uma metáfora interessantíssima para o desfecho deste impactante filme dirigido por Sam Peckinpah.

Peckinpah foi uma espécie de precursor da hiperviolência nas telas de cinema, um ancestral de Quentin Tarantino que estourou no final dos anos 60, quando todo o cinema americano, vale dizer, passava por transformações significativas. É possível, inclusive, que ele tenha sido o primeiro diretor a filmar a morte em câmera lenta, mostrando toda a dor dos personagens no momento em que são alvejados, em cenas dignas de tragédias operísticas. Contudo, tanto uma parte do público quanto a crítica não entenderam o seu cinema. Muitos consideravam gratuita e sensacionalista a violência de suas obras, com jorros de sangue voando para todos os lados. Roger Ebert, o famoso crítico norte-americano, afirma que a reação causada por “The Wild Bunch” foi similar àquela provocada, décadas depois, por “O Clube da Luta”, longa de David Fincher também muito criticado por adotar a hiperviolência como sustentáculo da obra. Entretanto, se é verdade que o filme de Fincher é muitíssimo violento, não se pode negar o seu valor enquanto obra vanguardista e questionadora, bem como representativa de um contexto sociocultural perfeitamente retratado em suas entrelinhas. E, do mesmo modo, pode-se afirmar que o filme de Peckinpah apresenta tais características.

“Meu Ódio...” é um faroeste crepuscular, narrando a saga de um grupo de assaltantes que se encontra próximo do fim. Seu líder, Pike Bishop (o astro William Holden) já está avançando na idade e cansado demais para continuar em uma vida repleta de perigos. Ademais, ele percebe que os tempos estão mudando. O ano é o de 1913, quando o automóvel começa aos poucos a fazer parte da paisagem ianque e o Estado já está se fazendo presente mesmo em rincões afastados do Oeste. Empresários e banqueiros, por seu turno, dispõem cada vez mais de recursos para proteger seus bens, tornando ainda mais perigosa e difícil a vida de assaltantes com ele. Pike, então, juntamente com seus companheiros Dutch Engstrom (Ernest Borgnine, recentemente homenageado no SAG), o velho e espirituoso Freddie Sykes (Edmond O’brien), o índio passional Angel (Jaime Sanchez), além dos irmãos crianças-grandes Lyle e Tector Gorch (Warren Oates e Bem Johnson, respectivamente), decide realizar um último golpe antes da aposentadoria: roubar uma carga de armas do exército americano, a mando do general paramilitar Mapache (Emilio Fernández, já mencionado mais acima). Por sua vez, o caçador de recompensas Deke Thornton (Robert Ryan) lidera um outro grupo que persegue o bando de Pike, grupo este formado por homens que se comportam como urubus ou hienas, se apropriando dos despojos dos mortos. Pike e Thornton, vale salientar, já foram amigos no passado, fazendo parte do mesmo bando.

Enganam-se aqueles que possam pensar que o longa se limita a um bangue-bangue bem encenado. Os personagens de Pike e Thornton são muito bem interpretados tanto por Holden quanto por Ryan, os quais conferem às suas interpretações uma forte carga interna. São homens que demonstram ciência de que seu tempo já passou, de que o fim está próximo, carregando nas costas o peso de uma vida errática e repleta de remorsos. Neste ponto, são ancestrais de Bill Munny, personagem de Clint Eastwood no seu antológico “Os Imperdoáveis”. É ainda importante salientar que o maniqueísmo passa longe da abordagem de Peckinpah. Se, por um lado, não deixamos de enxergar a crueldade dos membros do bando em certos momentos, em outros percebemos que os mesmos possuem uma ética própria, um senso de companheirismo que os leva a um desfecho trágico e, porque não dizer, também heróico. Até mesmo os piores facínoras podem ter um momento de redenção, parece nos dizer o diretor. Em outra vertente, porém, é de se lamentar uma certa misoginia na película, vez que as mulheres são sempre mostradas ora como prostitutas, ora tendo caráter duvidoso, o que pode acabar por trazer um certa rejeição do público feminino.


Extremamente bem fotografado e editado, esse western faz jus aos filmes de Sergio Leone no trato imagético. Uma profusão de sequências impressionantes é vista na tela, como a do tiroteio no centro da cidade em meio a uma passeata contra o uso de álcool, logo no início do filme (cena que tem um gosto peculiar para o alcoólatra Peckinpah), ou ainda a do assalto ao trem com a carga de armas. E isso pra não falar da mítica imagem em que os quatro integrantes restantes do grupo adentram um vilarejo com a altivez e consciência de que, na realidade, devem estar se dirigindo ao encontro da morte.

É intrigante como “Meu Ódio Será Sua Herança”, ao tratar do fim da era histórica do Velho Oeste, acabou também por simbolizar o fim de uma era no cinema, aquela controlada pelos estúdios (o “studio system”), e substituída pelo novo mundo dos diretores, surgido com os artífices da Nova Hollywood. Enfim, um filme que acabou se tornando o marco de uma transição. Curioso que, daí em diante, Sam Peckinpah tenha alternado sucessos e fracassos também em gêneros distintos, mas hoje seja lembrado principalmente pelos seus westerns. Ou seja, acabou desenvolvendo sua carreira tendo como base um gênero moribundo, tal como eram moribundos os tempos retratados neste seu longa-metragem que testou limites e influenciou decisivamente a estética do cinema norte-americano posterior. Não estranharei se um dia Quentin Tarantino acabar realizando um remake deste longa. Fará bastante sentido.


Cotação:

Nota: 9,5

sábado, 6 de novembro de 2010

Filmes Para Ver Antes de Morrer



O Homem que Matou o Facínora
(The Man Who Shot Liberty Valance)



Os fatos e as lendas



Em certa oportunidade, Jean-Luc Godard, ainda um crítico da revista Cahiérs du Cinema, foi levado às lágrimas em uma sala de cinema. Ele estava sensibilizado pela forte interpretação de John Wayne e a tragédia vivida pelo personagem deste em “Rastros de Ódio”, um dos mais importantes e amargos westerns de todos os tempos, dirigido por ninguém menos que John Ford, um dos grandes gênios da história do cinema.

Muitos afirmam que o Oeste mítico foi criado por Ford com seus personagens durões e sua bela fotografia das imponentes regiões desérticas norte-americanas, principalmente do Monument Valley. Esta é uma verdade apenas parcial. Não se pode negar que Ford, auxiliado pela presença de John Wayne, seu parceiro em muitos filmes, transmitiu a milhões de espectadores a ideia consagrada da formação da sociedade americana. Contudo, apesar de se valer de mitos e arquétipos, Ford os utiliza não como uma elegia à América, mas principalmente como uma maneira de dissecá-la, mostrando o outro lado, muito menos louvável, desta mesma sociedade. O citado “Rastros de Ódio”, por exemplo, mostra que a formação dos EUA está calcada no racismo, o qual foi responsável pela dizimação indígena e, posteriormente, a segregação dos negros nos estados sulistas.

Já em “O Homem Que Matou o Facínora”, Ford vai ainda mais longe neste processo de desmistificação. Em um olhar mais atento, parece querer afirmar que toda a construção da nação estadunidense, tal como a conhecemos, na realidade pode ser uma grande farsa criada para que não enxerguemos uma realidade não muito bonita ou meritória. Afinal, é mais fácil respeitar a História quando ela nos revela lances de heroísmo e retidão, ingredientes que podem transformá-la em uma autêntica lenda. Mas a História é, antes de tudo, construída por seres humanos, demasiadamente humanos, com circunstâncias humanas que fogem em muito de situações míticas.

O longa-metragem de 1962 (com roteiro escrito por James Warner Bella e Willis Goldbeck, a partir de uma obra de Dorothy M. Johnson) se inicia com a chegada do senador Ransom Stoddard (personagem de James Stewart, um dos melhores e mais carismáticos atores hollywoodianos) à cidade de Shinbone, acompanhado de sua esposa Hallie (Vera Miles), após muitos anos sem retornar, para o funeral de um cidadão local, um certo Tom Doniphon (John Wayne, fazendo sua caracterização típica), homem praticamente desconhecido pelas novas gerações do vilarejo. Instado por jornalistas e o prefeito locais, Stoddard passa a narrar os motivos de sua deferência ao falecido, na realidade o verdadeiro responsável pela eliminação de um bandido que assolava a região anos antes (o Liberty Valance do título original, interpretado por Lee Marvin), feito que acabou sendo atribuído ao agora senador devido às circunstâncias de como ocorreu. Na verdade, Stoddard, à época, era um recém formado em Direito, um homem vindo dos meios mais civilizados do Leste. Um estranho no ninho diante da lei do mais forte que imperava na região selvagem para a qual migrou. Entretanto, vai, aos poucos, descobrindo que as leis são insuficientes para garantir a sobrevivência naquele meio inóspito. Trava-se, desta maneira, de forma alegórica, um embate entre a civilização e o meio selvagem, entre o homem “esclarecido” e o homem “rude” (representado tanto por Liberty Valance quanto por Tom Doniphon). Tal antagonismo é ainda personificado pela personagem de Hallie, que se vê dividida entre o gentil e educado Ransom e o vigoroso e viril Doniphon.


A resolução levada ao conhecimento do público pelos meios comunicação (bastante criticados por Ford no longa) parece sugerir uma conciliação destes dois opostos. O homem civilizado representado por Stoddard usa de métodos embrutecidos quando necessário, no caso para defender sua própria vida. Uma síntese da ideia corriqueira que os próprios norte-americanos fazem de si mesmos: pessoas civilizadas que recorrem à violência quando não resta outra alternativa (pensamento usado para justificar até mesmo a bomba em Hiroshima). No entanto, trata-se de uma grande ilusão vendida através dos séculos. Na trama, Stoddard jamais venceria Valance com suas próprias forças. Apesar de sua coragem, Liberty é morto por Doniphon, com um tiro às escondidas. E, mesmo depois de saber a verdade, Stoddard aceita os louros da fama. Enfim: o senador simboliza uma América que exclui a verdade quando lhe é conveniente. A frase emblemática do longa sintetiza o conceito de forma perfeita: “quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda”.

Ou seja, Ford dá um tapa cruel no rosto da sociedade ianque, desconstruindo os mitos e realizando uma auto-crítica como poucas vezes se observa no cenário de Hollywood. Não é à toa que seu estilo clássico, mas ao mesmo tempo incisivo, se tornou referência para várias gerações de cineastas, desde o referido Godard da Nouvelle Vague até nomes como Clint Eastwood (que considero o seu mais talentoso e fiel discípulo direto). Eis um gênio que merece ser mais conhecido pelas novas gerações. No caso dele, sua genialidade é muito mais fato do que lenda.


Cotação:

Nota: 10,0

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Quero Ver Novamente # 3

Em homenagem a Clint Eastwood, um dois maiores ícones da 7ª arte (e um dos meus diretores preferidos), que hoje completa 80 anos, segue abaixo a sequência do duelo final em "Três Homens em Conflito" (ou "O Bom, O Mau e O Feio"). De arrepiar! Sergio Leone junto com o Clint só poderia render algo fantástico mesmo! Sem mais comentários... Simplesmente veja! E que trilha é essa de Ennio Morricone? Caramba...




quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

No Carnaval 2010

Como sempre, o período do carnaval é proveitoso para apreciar muitos filmes, realizando uma boa atualização no repertório cinematográfico. Neste ano, não está sendo diferente e, abaixo, seguem comentários sobre cada um dos filmes que vi nestes dias de Momo e lindas seminuas na TV. Já que não pude ir a Berlim, vou realizando meu próprio festival em casa.


A Sombra de Uma Dúvida (Shadow Of a Doubt, 1943) – Mais um clássico de Alfred Hitchcock. Na famosa entrevista que o mesmo concedeu a François Truffaut, o velho Hitch afirmou que esse era seu filme preferido, sua melhor realização dentro de sua prolífica carreira. A trama mostra o cotidiano de uma família típica americana que tem sua rotina transformada pela chegada do tio Charlie (Joseph Cotton, ótimo). Ele é uma espécie de ídolo da jovem sobrinha homônima Charlie (Teresa Wright), a qual aos poucos vai descobrindo que seu tio não é um homem tão espetacular quanto imaginava e que, ademais, pode ser um assassino de viúvas ricas procurado pela polícia. Um estudo psicológico extremamente interessante, “Shadow Of a Doubt” serve de amálgama de todas a experiências cotidianas do conhecer aquele que está a seu lado. Afinal, construção e destruição de imagens acontecem a todo momento em nossas vidas. E descobrir as facetas ocultas e desagradáveis daqueles de quem nos aproximamos é sempre doloroso. Destaque ainda para trilha sonora perfeita de Dimitri Tiomkin (aliás, como é o hábito nos filmes de Hitchcock, a trilha sonora mereceria um texto à parte). Vou apenas discordar do velho mestre e afirmar que esse não é seu melhor trabalho, muito embora seja realmente ótimo. O problema é que, em uma carreira com várias obras-primas, o ótimo acaba sendo abaixo do seu potencial.

Nota: 9,5


A Princesa e o Plebeu (Roman Holiday, 1953) – Um daqueles filmes que descobrimos porque é considerado um clássico. Este foi o longa-metragem que elevou Audrey Hepburn, até então uma atriz que nunca tinha assumido um papel de protagonista, à condição de estrela, levando um Oscar por esta atuação e assumindo um lugar entre as mais memoráveis atrizes de Hollywood. Ao lado de Gregory Peck, ela protagoniza essa divertida e inteligente comédia romântica, cujo roteiro de Dalton Trumbo (que só assumiu o crédito depois de décadas, uma vez que fazia parte da lista negra do macarthismo) mostra uma princesa cansada de sua vida cheia de regras e compromissos, jamais tendo oportunidade de fazer o que realmente quer. Em uma visita a Roma, ela acaba escapando de seus assessores e seguranças para viver um dia como uma mulher comum na capital italiana. Ela acaba esbarrando com o jornalista Joe Bradley (Peck), o qual inicialmente vê na situação a oportunidade de realizar a matéria de sua vida. Entretanto, aos poucos ele percebe que está se apaixonando pela princesa e se sente mal por abusar de sua inocência em proveito próprio. Muito embora alguns possam acusar o filme de um certo excesso romântico, afinal eles se apaixonam no curto período de 24 horas, também é verdade que tal relação não é de todo inverossímil, principalmente pelo lado da princesa, que jamais havia tido qualquer relação mais próxima com um homem. O longa foi rodado inteiramente em Roma, sob a direção sempre competente de William Wyler, um ótimo diretor de atores (vale lembrar que ele é o diretor de “Ben-Hur”) e ainda conta com a ótima presença de Eddie Albert como o fotógrafo que ajuda Bradley na tentativa do “furo”. Filme para ter na coleção.

Nota: 9,5


Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007) – Paul Thomas Anderson é, seguramente, um dos mais talentosos cineastas em atividade (ele é o diretor de “Magnólia”, filme que, se você ainda viu, não sabe o que está perdendo) e demonstra tal afirmação por meio deste soberbo filme que levou Daniel Day-Lewis ao seu segundo Oscar de melhor ator. De forma enérgica, adaptando o livro “Oil”, de Upton Sinclair, ele constrói uma perfeita alegoria da marcha do capitalismo na formação dos Estados Unidos. Para tanto, utiliza-se do personagem Daniel Plainview (Day-Lewis perfeito), a representação em carne e osso do capital e força individualista que levaram os EUA à sua pujança econômica, mas que ao mesmo tempo selaram o destino de instituições como a família e a religião, elementos que Plainview utiliza da forma que lhe convém através das figuras de seu filho adotivo H.W. e do pastor Elli. A força do filme não se limita ao roteiro excepcional, mas ainda à fotografia brilhante e à trilha sonora inovadora de Johnny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Contudo, é bom advertir que este não é um longa de fácil degustação, não agradando a todos os gostos, até mesmo porque trata de um protagonista que está longe de ser um modelo de caráter. Um trabalho que permite múltiplas leituras, sendo possível escrever mais de um texto analítico sobre o mesmo. Talvez algum dia eu me debruce sobre esta tarefa complicada, mas necessária.

Nota: 10,0

A Teta Assustada (La Teta Asustada, 2009) – Esse eu vi na sala de cinema, em sessão de arte. Vencedor do Festival de Berlim 2009, o longa é dirigido por Claudia Llosa (neta do Mario Vargas) que mostra um futuro extremamente promissor na carreira. A trama trata de temas caros aos peruanos ao mostrar a realidade de mulheres herdeiras de traumas advindos dos tempos da atuação forte de grupos como o Sendero Luminoso, que os peruanos denominam de época do “terrorismo”. A crença popular diz que as mulheres vítimas dos freqüentes estupros deste período transmitiam às filhas, através do leite, uma doença conhecida como a “teta assustada”. Uma das vítimas de tal doença seria Fausta (a novata Magaly Solier, ótima), que tem uma batata colocada na vagina como forma de evitar possíveis estupros, providência tomada por sua mãe, estuprada durante o período do terrorismo. A genitora acabou lhe transmitindo também um medo atávico a homens, os quais vê sempre como potenciais estupradores. O filme desenvolve, de forma sóbria, uma metáfora para mostrar que o Peru precisa se libertar do passado, principalmente através da simbologia da mãe que precisa ser sepultada na terra de seus antepassados. Interessante, ainda, observar alguns aspectos da cultura peruana como seus cafonas, mas também alegres e divertidos casamentos. O filme peca, apenas, por apresentar algumas excessivas elipses narrativas que deixam o espectador sem saber realmente o que aconteceu em algumas passagens, um tique de alguns diretores do cinema denominado de “arte”, que adotam a teoria besta desenvolvida por alguns críticos de que o “espectador é inteligente” e não é necessário que se mostre tudo. Alfred Hitchcock deve se remexer no túmulo ao ouvir tamanhas sandices. De qualquer forma, um bom filme que merece a indicação ao Oscar de filme estrangeiro. Vamos ver se ele derruba “A Fita Branca”, de Michael Haneke.

Nota: 9,0

sábado, 30 de janeiro de 2010

"O Portal do Paraíso": o maior fracasso comercial do cinema


Obs. O Texto abaixo não é uma resenha ou crítica, pois ainda não tive a oportunidade de assistir ao filme. Trata-se apenas de um texto que busca as curiosidades sobre a produção, além de traçar, de forma superficial, a sua temática. Uma vez advertido(a), acompanhe as linhas se assim o desejar.

Esta semana, “Avatar” atingiu o status de longa-metragem de maior bilheteria de todos os tempos, ultrapassando o sucesso anterior de James Cameron, “Titanic” (mesmo que, para isto, se valha de artifícios como ingressos mais caros para salas de projeção em 3D e valores não atualizados para a arrecadação de “Titanic”). Mas, talvez muita gente se faça a pergunta: “Se ‘Avatar’ é o maior sucesso, qual seria o filme que resultou no maior fracasso da indústria cinematográfica?”.

Provavelmente, a resposta que muitos críticos e especialistas darão será “O Portal do Paraíso” (Heaven’s Gate), filme do diretor Michael Cimino lançado em 1980, e o mais caro realizado até então. Custou cerca de US$ 45 milhões aos cofres da United Artists o que, em valores atualizados, resultaria em uma produção de aproximadamente US$ 200 milhões, cara até para os padrões perdulários do cinema atual. A verdade é que o longa teve resultados catastróficos nas bilheterias, arrecadando apenas US$ 1 milhão, o que redundou em um prejuízo de 98%, levando a United à falência. Desde então existe uma aura de maldição que paira sobre o longa, não tendo passado por processo de reabilitação nem mesmo nesta era de DVD-Blu Ray (muito embora exista a disponibilidade em DVD nos USA).

O mais curioso é que o filme tem em sua direção e elenco nomes consagrados que jamais fariam prever tamanho desastre. O diretor, Michael Cimino, vinha da láurea do Oscar, recebida em 1979 pelo seu “O Franco Atirador” (1978), filme sobre as sequelas da guerra do Vietnã sobre um grupo de amigos operários recrutados para o conflito. Tanto o filme quanto Cimino foram oscarizados, além da produção ter ido muito bem nas bilheterias. Além disso, no elenco de “O Portal do Paraíso” estavam nomes como John Hurt, Isabelle Hupert (sim, uma das musas do cinema francês), Christopher Walken (que havia trabalhado com Cimino em “O Franco Atirador” e levado o Oscar de coadjuvante por esse trabalho), Kris Kristofferson, entre outros. Mas, então, o que deu tão errado?



Muito provavelmente, o fracasso teve como principal fator uma inadequação ao momento pelo qual passavam os EUA e seu público, que já estava se cansando de ver nas telas expiações do Vietnã, além de acompanhar, ao longo dos anos 70, casos de corrupção como o de Watergate dominando os noticiários. Ou seja, o ambiente estava propício para produções de tom escapista como as de Steven Spielberg e George Lucas com seus contatos com extra-terrestres e guerras estelares. E a temática de “Heaven’s Gate” era exatamente o contrário disto que o público estava esperando. O longa trata de um episódio um tanto obscuro da história dos EUA, um conflito ocorrido no Condado Johnson, no Estado do Wyoming, por volta de 1890, onde rancheiros contrataram exércitos de mercenários para conter os avanços dos imigrantes que vinham em grandes caravanas para a região. Devido aos conflitos surgidos entre fazendeiros e colonos e a incapacidade do Estado de exercer seu poder, além de prover a manutenção de serviços básicos como água e saneamento, uma verdadeira faxina demográfica foi realizada para restabelecer a ordem e o “progresso” (parece o lema da nossa bandeira). Cimino, desta forma, aproveitou o tema para realizar fortes críticas à formação e hipocrisia da sociedade americana, desmistificando a conquista do Oeste.

Tamanha autocrítica nunca costumou render muitos pontos com o público estadunidense (essa não é, vale frisar, uma virtude que lhe seja frequente). Ademais, os críticos torceram o nariz para a obra, talvez influenciados pelos inúmeros boatos que rondaram a produção. Um deles falava que Cimino teria gastado horrores construindo uma verdadeira cidade no meio do nada apenas para filmar uma única sequência, além de fazer todo elenco esperar horas somente para bater uma foto que constaria em uma das cenas. Reza a lenda que muitos da equipe o chamavam pelas costas de “O Aiatolá”. Ridicularizado até em programas de TV, Cimino caiu do seu pedestal de gênio (recentemente conferido pelo citado “O Franco Atirador”). E o seu ambicioso projeto se transformou em um monumental fracasso.

Alguns cineastas, como Martin Scorsese e Francis Ford Copolla, consideram o filme uma obra-prima incompreendida. Talvez seja. Infelizmente, até hoje ainda não tive a oportunidade de assistir e comprovar se tão prestigiosos diretores estão com a razão. É provável que estejam. Vale lembrar que durante anos, “Cidadão Kane” foi relegado pela crítica e nunca chegou a ser sucesso de público. Obras geniais costumam ser incompreendidas em seu tempo. De qualquer forma, obra-prima ou porcaria monumental, resta a curiosidade para os cinéfilos em descobrir um filme que pode ser taxado de “o maior fracasso comercial de todos os tempos”. Fica a dica.