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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Capitão Phillips

Contrastes


Já fazia tempo que Tom Hanks não tinha uma atuação digna de Oscar e confesso que estava com saudades do velho grande ator de outros tempos (mais precisamente dos anos 90, quando emplacava um sucesso após o outro e uma indicação ao Oscar depois da outra). Bem, enfim, depois de anos atuando no piloto automático, Hanks recupera a boa forma com este “Capitão Phillips”, novo longa do diretor Paul Greengrass que investe pesado na crítica da globalização, onde o capital navega sempre indiferente à realidade que o cerca.

Não é outra a impressão ao vermos o cargueiro Maersk Alabama, enorme e transportando uma quantidade considerável de bens de alto valor comercial, cruzar o paupérrimo litoral da Somália, onde os seus residentes dispõem, no máximo, de pequenas embarcações que parecem besouros quando comparados ao enorme navio comandado por Richard Phillips, personagem real que escreveu o livro adaptado para a tela. Assim, em verdade, trata-se aqui de um longa sobre contrastes, levando o espectador a se perguntar sobre a origem desses, mesmo que o filme não forneça elementos sobre as desproporções apresentadas na tela. Afinal, trata-se de um thriller que, se em boa medida leva à reflexão, tira o fôlego do público com um ritmo intenso, envolvente e cheio de realidade, lembrando muito um outro filme do próprio Greengrass, “Vôo United 93” (United 93, 2006), também baseado em uma história verídica.




A estrutura narrativa (com roteiro adaptado de Billy Ray, vencedor do prêmio do Sindicato de Roteiristas na categoria, o que o torna um favorito ao Oscar) é estabelecida a partir de contraposições entre a realidade do capitão Phillips e a do líder de um grupo de piratas somalis, Muse (interpretado por um ator que era até então motorista, Barkhad Abdi). Não apenas os barcos destoam em proporções. Se Phillips se preocupa com a correria do dia a dia e com quanto tempo vai levar a viagem, a preocupação primordial de Muse é conseguir recrutar parceiros que possam ajudar na ação pirata de sequestrar o cargueiro Maersk. Se Phillips se apresenta como uma liderança inconteste perante a sua tripulação, Muse está longe de ter controle sobre os seus recrutados, sempre contestando suas ordens. E assim seguimos uma série de contrastes que desnudam não apenas a realidade entre os dois sujeitos da narrativa, mas também a disparidade entre as realidades do Ocidente e da África miserável.




Contando com uma primorosa edição de Christopher Rouse, a trama se desenvolve naquele ritmo acelerado característico do “suspense cabeça” que fez a fama de Greengrass, e a tensão só aumenta ao longo de seus 126 minutos de projeção, mesmo que já saibamos o seu desfecho (afinal, como dito acima, o livro foi escrito pelo próprio capitão). Tudo para culminar em um clímax marcante, em uma cena que já entrou para aquelas que farão a história cinematográfica de seu intérprete, Tom Hanks. Seria justo se ele tivesse sido indicado ao Oscar apenas por essa sequência, o que não ocorreu. Mesmo figurando em todas as premiações que antecedem a festa da Academia, Hanks foi estranhamente esquecido no prêmio mais famoso do cinema. Será que ele anda perdendo prestígio? A pergunta fica ainda mais interessante se lembrarmos que Barkhad Abdi foi indicado como coadjuvante, um exagero, na minha opinião. Ele está bem no papel, mas me parece que sua indicação decorre apenas do fato de ser um principiante, além de haver algo de “politicamente correto” nela.

A maior virtude de “Capitão Phillips”, entretanto, não reside em seu elenco ou na direção precisa e intensa de Greengrass. Ela está em seu caráter despretensioso, pois em nenhum momento o longa se propõe a apontar dedos para possíveis culpados ou tentar elucidar as origens das disparidades retratadas na tela. As diferenças estão retratadas, mas cabe ao espectador tirar suas conclusões sobre as origens de tanta desigualdade. Em determinado momento, Phillips pergunta a Muse se não há outra opção para ele além de praticar a pirataria. Muse lhe responde: “talvez, na América”. Uma cena que se revela a síntese de toda a projeção e demonstra a aposta que Greengrass faz na inteligência do espectador. E filmes que não subestimam o espectador são sempre muito bem-vindos.

Cotação:




Nota: 9,0.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Blue Jasmine

Em plena forma

Depois do inesquecível “Meia-Noite em Paris” (Midnight In Paris, 2011), aparentemente seria difícil Woody Allen repetir o sucesso de crítica e público em pouco tempo. O seu longa imediatamente posterior, o apenas mediano “Para Roma, Com Amor” (To Rome With Love, 2012), deu ênfase a tal impressão. Entretanto, sem que a maioria perceba, Allen está vivendo um dos melhores momentos de sua carreira. E prova isso através do seu mais recente trabalho, “Blue Jasmine”, filme que vai fundo na crítica a uma sociedade baseada em superficialidades e aparências e onde nos entrega uma de suas melhores personagens femininas, vivida com brilhantismo pela excelente Cate Blanchett.

Entretanto, se no citado “Meia-Noite em Paris” predomina o tom leve e bem-humorado, aqui ele se distancia um pouco da comédia para narrar a história de uma socialite que vê o seu luxuoso mundo ruir após a a prisão do seu marido Hal (Alec Baldwin), um investidor da bolsa fraudador. Sem dinheiro, sem marido, ela acaba indo morar com sua irmã, Ginger (Sally Hawkins, ótima!), em San Francisco. Uma irmã que, na realidade, ela sempre desprezou e escondeu, pois era “cafona” demais para frequentar o seu círculo social. E não resta a Jasmine outra alternativa a não ser se adaptar a um mundo cheio de limitações, em busca de um recomeço. Contudo, o problema de Jasmine é que ela não sabe como recomeçar. Está perdida, sem encontrar caminhos que possa trilhar, até mesmo porque, em boa medida, ela nem mesmo sabe quem ela é. Sabe apenas que iria se formar em antropologia quando se tornou noiva de Hal e largou os estudos para virar dondoca. Mesmo assim, não sabe se gosta da área de sua quase-formação. “Blue Jasmine” se mostra, portanto, como um ensaio de Allen sobre a identidade, um tema recorrente em sua filmografia (“Zelig”, de 1983, talvez seja o maior exemplo do tema em sua carreira). Muitos deixam de lado suas verdadeiras identidades em troca de se verem felizes e inseridas no sistema. E, quando a ilusão em que vivem desmorona, esquecem do que foram um dia ou do que almejavam ser. Constroem uma vida de aparências e mentiras, inclusive com aquelas da pior espécie, que são as mentiras para si próprio.


Mesmo que o diretor evite uma olhar piedoso sobre a protagonista, sempre expondo suas frugalidades, preconceitos e leviandades (até o seu nome esconde um disfarce, no fundo), é inevitável sentirmos pena de Jasmine, circunstância que não apenas se deve a um texto muito bem elaborado por Woody (como sempre, ele também escreveu o roteiro, indicado ao Oscar de melhor roteiro original), mas, na mesma porporção, à excelente atuação de Cate Blachett, provável ganhadora do Oscar no próximo dia 02 de março (já venceu o Globo de Ouro e o Sindicato de Atores nos últimos dias). Ela domina todas as cenas, passando das neuroses típicas do personagens de Woody Allen, para a fragilidade, arrogância, sinceridade, falsidade e outras tantas facetas humanas que foram condensadas na protagonista. Já entrou para o panteão das grandes personagens femininas do autor, ao lado da Annie Hall de Diane Keaton e da Cecilia de Mia Farrow (em “A Rosa Púrpura do Cairo”). De qualquer forma, méritos há, ainda, para os demais integrantes do elenco, principalmente Sally Hawkins como a irmã adotiva de Jasmine.


Outro aspecto relevante é a estrutura da narrativa, pontuada por saltos temporais que vão revelando os fatos que levaram a protagonista a terminar morando na casa da irmã. A edição de Alisa Lepselter encanta pela fluidez e precisão (e eu nunca tinha ouvido falar nela), jamais confundindo o espectador, apesar das diversas idas e vindas do enredo. Além disso, trata-se de um filme com “pegada”, fisgando o espectador já nos primeiros cinco minutos. Por outro lado, Allen raramente entrega um drama reto, sem resvalar na comédia e esse é bem o tom aqui. É possível classificar “Blue Jasmine” como um drama, mas um drama ao melhor estilo de Allen, com um tanto de cenas bem humoradas (mais um mérito para a atuação de Blanchett, que transita com facilidade entre cenas cômicas e dramáticas). Todavia, apesar dos alívios cômicos, predomina um tom melancólico ao longo da projeção, tendo seu ápice na conclusão em aberto, mas inteiramente coerente com o conjunto e as pretensões do diretor.

Uma parte da crítica apontou esse trabalho como sendo tão somente uma abordagem tardia de Allen sobre a crise econômica norte-americana, mas seria leviano dizer que se trata apenas disso. Mais do que uma mera crítica social, “Blue Jasmine” também passeia pelo existencial, perguntando a cada espectador se ele realmente é feliz, autêntico e com força suficiente para seguir os próprios caminhos, tragam ou não os retornos materiais valorizados pela sociedade. Mesmo que caia um pouco no seu último terço, perdendo o foco ao dar ênfase a uma subtrama envolvendo a irmã de Jasmine, Allen conseguiu, mesmo aos 77 anos e com uma média impressionante de um filme a cada ano, entregar mais um pequena pérola capaz de agradar, tal como sucedeu com “Meia-Noite em Paris”, não só aos seus admiradores, mas também àqueles que não são exatamente fãs de sua obra. Como dito acima, muitos não percebem, mas Woody Allen está em plena forma.


Cotação:




Nota: 9,0

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Os 7 Melhores filmes de 2013

Fechando o ano, segue a lista com os sete melhores filmes exibidos no circuito comercial brasileiro no ano de 2013, segundo a visão do Cinema Com Pimenta. Um grande abraço a todos e feliz 2014!


7) Django Livre (Django Unchained, Quentin Tarantino);



6) Os Suspeitos (Prisoners, Dennis Villeneuve);



5) Os Miseráveis (Les Misérables, Tom Hooper);



4) O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, David O. Russell);




3) Rush - No Limite da Emoção (Rush, Ron Howard);



2) Amor (Amour, Michael Haneke);



1) Gravidade (Gravity, Alfonso Cuáron).

sábado, 16 de novembro de 2013

Trilha sonora # 29


Bruce Springsteen, em recente passagem pelo Brasil, realizou um show sensacional na última edição do Rock In Rio. Eu confesso que eu não conhecia muito bem a obra dele, mas estou vendo agora (ou melhor, ouvindo), o quanto eu estava perdendo durante tanto tempo. Uma das poucas músicas que eu conhecia de Springsteen até o referido show era "Streets Of Philadelphia", de "Filadélfia" (de 1993), filme que deu o primeiro Oscar a Tom Hanks por sua interpretação de um advogado portador de HIV demitido que vai aos tribunais em busca do seu direito. 

A música recebeu, com justiça, o prêmio de melhor canção da Academia de Hollywod e você pode ouvi-la abaixo. Mas não fique só com ela. Procure o repertório de Springsteen na net. Vale muito à pena!



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

Um Método Perigoso
(A Dangerous Method, 2011)
 
 
Gênios em conflito


Pode parecer que estou realizando um “tour de force” pela obra de David Cronenberg, tendo em vista que, há pouco tempo, postei uma resenha sobre “Na Hora da Zona Morta” (The Dead Zone, 1983), filme oitentista do cineasta que, à época, mostrava uma abordagem diferente das suas características, de um caráter mais comercial e menos perturbador, traços até então marcantes dos seus longas. Entretanto, alerto que foi apenas coincidência ter visto no último sábado este “Um Método Perigoso” (A Dangerous Method, 2011), filme que se encaixa dentro da nova forma concebida por Cronenberg desde “Marcas da Violência” (A History Of Violence, 2005), menos “perturbadora” ou “provocativa”, ao menos visualmente. Isso não significa dizer, porém, que Cronenberg abandonou seus velhos temas. A mudança está na forma, não no conteúdo, já que aqui ele se vale de uma trama inspirada em fatos reais e ambientada no início do século XX para tratar dos sentimentos de solidão e inadequação que lhe são peculiares.

Baseado em peça de Christopher Hampton (que também escreveu o roteiro filme), chamada “The Talking Cure”, e no livro “A Most Dangerous Method”, de John Kerr, o enredo tem como personagens centrais as figuras dos seminais teóricos da psicanálise, o judeu austríaco Sigmund Freud e o suíço Carl Jung, aqui interpretados por Viggo Mortensen e Michael Fassbender, respectivamente. Adepto das teorias de Freud, Jung as coloca em prática com uma de suas pacientes, Sabina Spielrein (Keira Knightley), uma judia russa que apresenta comportamento histérico e perturbado. Jung descobre, através de sessões de diálogos com a paciente, que em boa medida seus transtornos são resultado de repressões sexuais elaboradas ainda na infância, época em que desenvolve, em decorrência de castigos paternos, uma sexualidade pautada pelo prazer masoquista. É a partir do estudo da personalidade de Sabina e da melhora comportamental da jovem que Jung estabelece contato com Freud, o qual tem seu interesse despertado pela experiência. A partir de então o filme se desenvolve em duas frentes: a relação de Jung com Freud - a amizade surgida entre ambos, bem como seu rompimento – e relação amorosa de Jung com sua paciente Sabina, que se torna sua amante e alcança o equilíbrio ao realizar com o médico suas fantasias sexuais. Contudo, o equilíbrio de Jung toma o rumo oposto. Casado e de fortes valores, Jung se vê perturbado ao por em prática suas fantasias poligâmicas, em boa medida estimuladas por um pupilo de Freud, Otto Gross (interpretado por Vincent Cassel), embarcando em uma neurose que o levaria a um futuro colapso nervoso. Nesse passo, Jung pode ser apontado como o típico protagonista de Cronenberg, símbolo da angústia e solidão humanas.
 
 
Essas “duas frentes” abordadas por Cronenberg despertam no espectador reações diferentes. Não deixa de ser um prazer vislumbrarmos como se deu a aproximação e cumplicidade entre dois gênios da ciência, assim como ocorreu o seu posterior afastamento. A inicial admiração mútua vai se transformando em desconfiança, principalmente por parte de Freud, que enxerga em Jung uma ameaça intelectual, alguém capaz até de superá-lo perante a comunidade científica. Todavia, o filme se mostra feliz ao não bater o martelo e deixar em dúvida os reais motivos da cisão, até porque talvez até os próprios envolvidos não soubessem precisar as razões. Já na relação entre Jung e Sabina estabelece-se um clima de erotismo muito sugerido e pouco explícito, sem apelações, onde a nudez e cenas de sexo surgem na medida do estritamente necessário. Mas a verdade é que esse tom, ao mesmo tempo sutil e provocativo, pode trazer efeito bem mais eficiente e estimulante para o espectador do que muitos filmes de sexo explícito. Mérito da direção de Cronenberg, vale dizer, que conduz a projeção com muita naturalidade, tornando agradável um tema que poderia soar hermético e entediante.

Da mesma forma, contribui muito para o sucesso da narrativa a competência do elenco e vou fazer aqui um elogio em especial a Michael Fassbender, intérprete de Jung. Sem dúvida, Fassbender é um dos melhores atores em atividade no cinema. Parece que se torna melhor a cada filme e compõe um tipo que se molda perfeitamente à ideia que fazemos de um cientista, aparentemente frio, mas que deixa escapar sentimentos aqui e acolá. Uma composição perfeita que é mais um atestado da grandeza desse ator sensacional, uma espécie de anti-canastrão. Por outro lado, se Viggo Mortensen não chega a ser tão genial, ele não deixa a peteca cair na pele do pai da Psicanálise, mostrando um Freud seguro, influente e dono de um leve tom autoritário, criando um tipo bastante tridimensional. Já Keira Knightley, apesar de alguns momentos de exagero (típico dela, não?), está no melhor momento de sua carreira na pele de Sabina Spielrein (ao lado de sua atuação em “Orgulho e Preconceito”, anos atrás). Por fim, Vincent Cassel tem participação até pequena, mas marcante, como o maluco-beleza Otto Gross, que exerce influência determinante nas futuras decisões de Carl Jung.
 
 
Entretanto, o longa falha justamente ao passar a impressão de que Jung, um estudioso cheio de convicções, criador da teoria do inconsciente coletivo, era um homem bastante influenciável, tomando decisões a reboque de opiniões alheias, caso não só de Gross, mas também de Freud e da própria Sabina. Simbólico, neste sentido, a sua confissão de que Freud era muito persuasivo em suas argumentações, conseguindo facilmente convencer seus interlocutores do seu ponto de vista. Também incomoda uma certa falta de foco do longa ao estabelecer suas duas vertentes, pois que ao estabelecer dois focos de atenção na trama, a relação de Jung com Freud e a outra com Sabina, fica a sensação de que ficou a desejar nos dois campos. Aliás, o longa é bastante curto (tem apenas 99 minutos de duração) e, nesse caso, faria bem se fossem adicionados uns 20 minutos para que alguns aspectos da trama fossem melhor desenvolvidos.

É possível, ainda, observar algumas conotações com o Holocausto judeu na Segunda Guerra, já que a condição judia de Freud e Sabina Spielrein é algo que adquire relevância no contexto do filme, assim como a etnia ariana de Jung (que adora Wagner) é algumas vezes sublinhada entre os diálogos. Será que a quebra da amizade entre Freud e Jung se dá porque o segundo (o “ariano”) se sente ameaçado pelo intelecto do primeiro (o “judeu”) ou vice-versa? Sendo sincero, esse é um subtexto que precisa ser reanalisado em outras visitas à obra, a qual está entre aquelas que precisam ser vistas mais de uma vez para compreendermos inteiramente suas nuances. Ultimamente, não são muitos os longas-metragens que me estimulam a mais uma olhada, mas “A Dangerous Method” consegue ser interessante a esse ponto. Filme que nos deixa pensando sobre suas implicações e reflexões para além de sua projeção é um artigo difícil de encontrar nos dias de hoje.


Cotação:
 
 
 
Nota: 9,0

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Gravidade

Beleza, solidão e revolução


Inicio esta resenha com uma afirmação que pode ser precipitada, mas que reflete inteiramente minhas impressões ao fim da sessão de “Gravidade”: trata-se do melhor filme de ficcção-científica desde “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odyssey, 1968), talvez tendo apenas como rivais “Alien – O Oitavo Passageiro” (Alien, 1979) e “Blade Runner – O Caçador de Androides” (Blade Runner, 1982). Este é um daqueles filmes que, ao terminar de vê-lo, já sentimos algo diferente, sabemos que estamos diante de uma obra que  será lembrada ao longo dos anos, que influenciará inúmeros longas posteriores e, provavelmente, deixará sua marca  na cultura pop como um todo, tornando-se um fenômeno em várias mídias. E não estou exagerando. Na realidade, eu sempre desconfio de filmes com muito “hype”, como nos casos de “Avatar” (2009) - longa que trouxe inovações apenas no uso do recurso 3D, mas que possui uma trama meio rasa e clichê – e “A Origem” (Inception, 2010), um ótimo thriller dirigido por Christopher Nolan, mas que não chega a ser (e o tempo vem mostrando isso) nenhuma obra-prima. Pelas mesmas razões (gato escaldado tem medo de água fria), estava antevendo que havia um certo exagero com relação ao novo longa do diretor mexicano Alfonso Cuáron (de “E Sua Mãe Também!” e “Filhos da Esperança”), o qual vem sendo incensado pela crítica. Felizmente, desta vez eu errei em minhas previsões.

Já fazia muito tempo que eu não via um longa-metragem com tanta força imagética, profundidade na abordagem dos nossos mais instintivos, fortes e belos sentimentos e, ao mesmo tempo, conseguir prender a respiração dos espectadores até o último frame da projeção (talvez Ang Lee tenha feito algo igualmente relevante com o seu “As Aventuras de Pi”, mas não é um filme tão intenso quanto este). Tudo isso em enxutíssimos 91 minutos e com apenas três personagens na tela. E vale dizer que um desses morre logo no início do longa (isso não é um spoiler). Ou seja, Cuáron, também autor do roteiro em parceria com seu filho Jonás Cuáron, conseguiu criar uma obra que alcança o perfeito equilíbrio entre substância e tensão, gerando um filme capaz de entusiasmas crítica e público e isso, convenhamos, é um feito que poucos conseguiram na história do cinema. De quebra, ainda teve a percepção de filmar com o intuito de colocar o espectador na pele dos astronautas, contando com o auxílio da tecnologia 3D. É possível que nunca uma câmera em primeira pessoa tenha atingido um nível tão elevado de subjetividade quanto aqui. Em várias sequências temos a sensação de estarmos na pele da astronauta Ryan Stone (Sandra Bullock), em busca da sobrevivência. Não é por acaso que muitos vêm atribuindo ao filme o adjetivo de “revolucionário” e, desta vez, não é de forma gratuita.


A trama é minimalista, por assim dizer. Nela, vemos a referida Dra. Ryan Stone em uma missão para operar reparos no telescópio Hubble, na qual é acompanhada por dois outros astronautas, um deles o piloto Matt Kowalski, que está prestes a se aposentar (interpretado pode George Clooney). Quando estão efetivamente realizando o serviço, uma onda de destroços de uma satélite destruído pelos russos atinge o telescópio e a nave dos engenheiros e começa, então, uma batalha pela sobrevivência no ambiente mais inóspito que existe para o ser humano: o espaço. Principalmente a Dra. Ryan, que é lançada no vácuo com apenas 10% de oxigênio restando no reservatório do traje espacial. Mas se engana quem pensa que isso resultará apenas em uma correria desenfreada. O foco de Cuáron é o espírito humano. Ao mesmo tempo em que somos tão pequenos diante da imensidão e perigos do universo, temos força suficiente para vencermos esses desafios e nos mantermos vivos diante de um ambiente tão áspero ao ser humano. E, por mais que tenhamos motivos para, quem sabe, nos entregarmos, como no caso da Dra. Stone, viver sempre será a melhor escolha.

Convém ressaltar que a Terra nunca esteve tão bonita no cinema. As imagens concebidas pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubeski são simplesmente lindas. Chega a dar o gostinho de realmente estarmos a contemplar a Terra, privilégio que só cabe a mais do que restrita classe dos astronautas. Aliás, a sensação de estarmos vendo o espaço como ele de fato é só se equivale àquela vista no citado “2001”. Um espetáculo de realismo em algo tão difícil de reproduzir quanto é a realidade fora do nosso planeta. Em similar competência mostra-se a trilha sonora de Steven Price, a qual se faz sentir com ainda mais vivacidade após os contínuos momentos de silêncio engenhosamente concebidos para nos passar o clima do ambiente. Por outro lado, o filme não seria tão bom sem a sensacional atuação de Sandra Bullock, no melhor momento de sua carreira, incontestavelmente. Ela nunca havia conseguido transmitir tanta força e concomitante fragilidade a uma personagem. Será até uma piada se ela não levar o Oscar de melhor atriz, já que anos atrás acabou sendo premiada por um trabalho bem menos relevante (em “Um Sonho Possível”).


“Gravidade” é um filme repleto de imagens marcantes, daquelas destinadas a se tornarem icônicas, indicando que Cuáron poderá ser conhecido no futuro como um dos grandes estetas do cinema. A cena das lágrimas flutuantes da astronauta, por exemplo, é uma delas. Ainda mais se você assistir em 3D. Aliás, procure realmente ver em uma sala 3D, pois este é um dos raros casos em que o recurso se mostra realmente como um diferencial (e quem costuma ler meus textos sabe o quanto eu sou exigente para considerar que um filme precisa ser visto em 3D). Em dado momento da película, a simbiose de emoção e beleza me impressionaram tanto que, faço aqui uma confissão, algumas lágrimas furtivas brotaram dos olhos. E é nesse ponto que reside a principal diferença entre “Gravidade” e o clássico “2001”. Se o filme de Kubrick instiga a reflexão, levando-nos a questionamentos sobre quem somos e para onde vamos, o longa de Cuáron é visceral, procurando despertar o nossos mais básicos e essenciais sentimentos. Fala, sobretudo, da solidão de cada ser humano, cada qual constituindo um universo à parte em meio à imensidão que nos cerca. Diante de tantas “revoluções” que são alardeadas com uma estranha frequência no cinema, mas que logo em seguida se revelam no máximo obras competentes (vide os exemplos dos citados “Avatar” e “A Origem”), talvez neste caso o termo esteja, enfim, sendo usado de maneira apropriada. Só o tempo irá dizer se tal impressão é verdadeira, mas foi a que tive quando surgiram os créditos finais, logo após a linda sequência que conclui este clássico imediato.


Cotação:



Nota: 10,0

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Era Uma Vez Em Tóquio
(Tôkyô Monogatari, 1953)


Profundamente japonês, humano e universal


Em recente eleição realizada pela revista britânica “Sight & Sound”, “Era Uma Vez em Tóquio” foi considerado, entre os cineastas votantes, como o melhor filme de todos os tempos, desbancando o tradicionalmente escolhido “Cidadão Kane”, de Orson Welles. Muitos podem discordar, mas o resultado mostra o quanto o cinema asiático ainda precisa ser visto e descoberto no Ocidente. Fora do círculo cinéfilo, este filme é praticamente desconhecido, por exemplo, pelo público brasileiro e o nome de seu diretor, Yasujiro Ozu, pode ser entendido como o de um E.T. Quando muito, algumas pessoas conhecem o nome do mais popular diretor japonês, Akira Kurosawa, famoso pelo estupendo “Os Sete Samurais” (Shichinin no Samurai, 1954). Entretanto, apesar de ser comumente visto como um diretor de cinema “de arte” (eu detesto essa expressão), os filmes de Ozu são muito acessíveis, centrados em narrativas sobre o cotidiano de famílias da classe média baixa do Japão, principalmente do período pós-guerra. Ozu é o maior representante de um gênero nipônico denominado shomin-geki, cuja principal característica era justamente a abordagem do dia a dia dessas famílias, causando uma quase imediata identificação com o espectador.

Nascido em 1903, Yasujiro Ozu começou sua carreira ainda no cinema mudo, mas foi na produção sonora que realizou suas grandes obras-primas, entre elas “Era Um Vez Em Tóquio”, longa de extrema percepção das relações humanas e que não precisa de uma trama intricada ou grandiosa para nos levar às mais perspicazes reflexões. Toda a película trata sobre a viagem de um casal da cidade japonesa de Onimichi a Tóquio. É a primeira vez que eles vão até à capital do País, com o intuito de visitar os filhos que lá trabalham. Entretanto, decepcionam-se com a acolhida dos mesmos, os quais não têm tempo para lhes dar atenção e consideram a visita dos genitores como um fardo. Apenas a nora Noriko (Setsuko Hara), esposa do filho já falecido na guerra, trata os idosos com o devido respeito e cuidado. A partir desse enredo simples, Ozu desenvolve uma belíssima análise das relações familiares e, importante frisar, válida para qualquer tempo ou cultura. Aliás, ao assistir a “Era Uma Vez em Tóquio” tive a sensação de estar a ver um filme concluído ontem, dada a sua temática extremamente atual, plena de contemporaneidade. Vivemos uma era em que os indivíduos possuem cada vez menos disposição para as relações interpessoais, embriagados de egoísmo e consumismo, buscando objetivos materiais em detrimento do convívio e disso Ozu já tratava em 1953, quando o Japão vivia um acelerado ritmo de industrialização.


Esse choque entre a modernidade e a tradição, entre o industrial e o humano, é contraposto por Ozu não apenas por meio da interação entre os personagens, mas também a partir dos elementos imagéticos do longa. As ações são frequentemente interrompidas por cenas de trens em movimento, bem como navios e outros símbolos de industrialização. O cineasta parece sempre comentar, através das imagens, que uma nova era, como novos valores, está substituindo a anterior. Contraposição essa que também se percebe na relação entre os idosos (os antigos valores) e os jovens filhos (os novos paradigmas). Na visão de muitos, Ozu revela a cada fotograma o seu conservadorismo, não apenas no aspecto estético, mas também ideológico, o que não deixa de ser verdade. Há uma certa rejeição ao novo em seu cinema, no qual reside latente uma perene crítica à ocidentalização do Japão no período pós-guerra. Aliás, a famosa qualificação de Ozu como “o mais japonês dos cineastas japoneses” não deixa de realçar esse lado de extremo apego às suas raízes. Entretanto, seria errado imaginar Ozu como uma espécie de anti-Kurosawa, pois o mestre Akira se valia da influência do Ocidente em sua estética, é bem verdade, mas suas temáticas são tão profundamente japonesas quanto as de Ozu.


Nas imagens de Ozu, até mesmo sua estética é peculiar. A câmera é estática, com os personagens entrando e saindo de cena em quadros fixos, além de posicionada próxima ao chão (a famosa “câmera baixa”), na mesma altura em que os japoneses costumam fazer suas refeições, técnica que iria influenciar até mesmo Steven Spielberg em “E.T. - O Extraterrestre” (E.T – The Extra-Terrestrial, 1982), o qual a utilizou como uma forma de vermos os acontecimentos a partir do ponto de vista das crianças. Ozu também usava como poucos a técnica de campo e contracampo, principalmente em passagens de diálogos, quando vemos os personagens de frente para a câmera, como se estivéssemos conversando com eles. Por outro lado, sabia usar a trilha sonora para acentuar a melancolia do drama, mas sem torná-la invasiva ou excessiva. Ademais, era um ótimo diretor de atores, extraindo deles o seu melhor, vide o ótimo desempenho de Chishu Ryu, como o pai Shukishi Hirayam, que conseguiu interpretar com inteira veracidade um tipo 20 anos mais velho do que a sua verdadeira idade à época. Outro destaque é, Chieko Higashiyama, como a mãe idosa e doente, além de Setsuko Hara, como a dedicada nora Noriko e Haruko Sugimura, como a antipática e vazia filha Shige.

Contudo, para além de questões estilísticas, a maior relevância do cinema de Ozu é seu caráter profundamente humano, que inclusive nos faz repensar nossas próprias relações familiares. Como diz o cineasta Aki Kaurismaki, no documentário “Conversando com Ozu” (que acompanha a edição brasileira de “Era Uma Vez em Tóquio”, recém-lançada pela Versátil), comparando o cinema o cinema de Ozu ao predominante nos Estados Unidos: “Em seus filmes, Ozu fala de tudo que é essencial ao ser humano sem exibir nenhuma cena de violência”. Mesmo que trate eminentemente da cultura japonesa, este gênio consegue ser universal, o que me remete a uma outra frase, esta do mestre literário Liev Tolstói: “Se queres ser universal, começas por descrever a tua aldeia”. E é essa a síntese do cinema de Ozu. A partir da abordagem de um Japão em processo de rápidas transformações sociais e culturais, ele toca em temas e acontecimentos que dizem respeito a todos os seres humanos, sem exceções.


Cotação e nota: Obra-prima.

sábado, 21 de setembro de 2013

Rush - No Limite da Emoção

Quando pilotos foram heróis


Definitivamente, a Fórmula 1 já não é mais a mesma. Hoje, mesmo com carros superseguros, frequentemente encontramos pilotos sem gana de vencer, que se contentam em serem apenas meros assalariados de uma escuderia e, se for “necessário”, deixam o colega de equipe ultrapassar para ajuda-lo a ganhar um campeonato. Em suma, a F1 deixou de ser um esporte e se transformou em apenas uma mera exibição de montadoras, em busca de dividendos. A Fórmula 1 que conheci, em meados dos anos 80, era mais perigosa, mas ao mesmo tempo muito mais romântica, repleta de pilotos obstinados que buscavam, acima de tudo, a vitória para escrever seus nomes na história do esporte. Eram os tempos de Alain Prost, Nigel Mansell, Nelson Piquet e, claro, Ayrton Senna, aquele que considero o maior piloto ente todos. E falo isso de forma isenta, pois nunca fui um admirador da personalidade dele e detesto o ufanismo desmedido de um Galvão Bueno, mas a verdade é que Senna fez coisas na pista que jamais vi outro piloto fazer (como podemos recordar no documentário "Senna"). Também cheguei a ver, ainda bem garoto, o austríaco Niki Lauda disputando provas e me lembro de perguntar aos meus pais o que havia acontecido com o seu rosto. A resposta: “foi um acidente em que o rosto dele foi queimado”. Recordo, ainda, de considerá-lo um homem extremamente corajoso, pois tinha voltado a correr mesmo depois de um acidente tão grave.

Essa “era de ouro” da Fómula 1 é retratada brilhantemente por Ron Howard em seu novo trabalho, “Rush – No Limite da Emoção”, longa atualmente em cartaz no circuito comercial brasileiro. Na realidade, o filme aborda uma fase ainda anterior àquela que pude acompanhar, nos anos 70, quando os riscos do automobilismo ainda eram maiores do que na citada década oitentista. Para se ter uma ideia, a média de mortes de pilotos era de dois por temporada, ou seja, o risco de morrer a cada Grande Prêmio era muito elevado. Pertence a esse tempo o imaginário de que pilotos eram, antes de tudo, heróis. Foi nessa época que Lauda começou sua trajetória que culminaria em um futuro tricampeonato e na qual possuiu um grande rival, James Hunt, um britânico mulherengo e farrista que parecia ser o oposto do cerebral, concentrado e comedido piloto austríaco. Só em um ponto demonstravam similaridade: a obsessão pela vitória, encarando qualquer desafio para alcançá-la.



Essa rivalidade é o mote de “Rush”, mas Howard não coloca seu foco principal no que acontece nas pistas. Claro que há diversas sequências sensacionais com corridas, ultrapassagens e colisões, mas o longa não é sobre corridas, mas, sobretudo, personalidades. Howard se esmera em analisar a persona dos rivais, mostrando a origem de seus desentendimentos, suas evidentes diferenças e, de forma inteligentíssima, suas semelhanças. Para tanto, conta com um belíssimo roteiro de Peter Morgan, baseado no livro “Corrida Para a Glória”, de Tom Rubython, e que teve ainda a luxuosíssima consultoria do próprio Lauda. Mesmo que em certos momentos a trama acabe fazendo concessões ao esquema hollywoodiano de se adaptar biografias, ela é extremamente envolvente, fazendo com que o espectador tenha a sensação de realmente conhecer aqueles pilotos. Além disso, Howard tomou o cuidado de não transformá-los em “vilão e mocinho”, escapando da armadilha do maniqueísmo. Tanto Lauda quanto Hunt possuem tempos iguais na tela e são expostas suas várias facetas, tanto negativas quanto positivas. Se primeiro somos inclinados a simpatizar com Lauda devido à sua personalidade discreta, logo depois constatamos uma certa arrogância em seu temperamento, além de um jeito rude que acaba por torná-lo um tipo impopular entre os colegas. O oposto do popular Hunt, o qual primeiro desperta antipatia por seu estilo farrista e meio irresponsável, mas que depois demonstra seu lado humano e solidário, além de percebermos que muito do seu comportamento é um disfarce para seus medos e inseguranças. Há, ainda, um particular subtexto acerca da sedução exercida pelos pilotos sobre as mulheres. Mesmo o introvertido Lauda faz valer suas habilidades ao volante para conquistar aquela que seria sua esposa.


Os pilotos são interpretados com muita competência por ambos os atores. Chris Hemsworth, na pele de James Hunt, embora tenha um papel relativamente mais simples, demonstra que pode ir bem além do que faz como o Thor dos filmes da Marvel. Daniel Brühl (lembram dele em “Adeus, Lênin!”?), por sua vez, encarna um Niki Lauda perfeito (chegou a usar próteses dentárias para ficar mais parecido com o verdadeiro), mas, cabe ressaltar, seu trabalho foi facilitado pelo contato que teve com o original, hoje chefe da equipe Mercedes, enquanto Hemsworth não dispôs do mesmo privilégio, pois que Hunt faleceu com apenas 45 anos, vítima de um infarto. De qualquer forma, no duelo entre os dois quem ganha é o púbico e as atuações foram elogiadas por nomes como Emerson Fittipaldi, contemporâneo dos dois pilotos na F1 dos anos 70. Como não poderia deixar de ser, o espectador também é premiado com as fantásticas cenas de corrida, com suas ultrapassagens e acidentes precisamente reconstituídos, principalmente o famoso acidente em que Lauda quase perdeu a vida e teve boa parte do corpo queimado (show de efeitos especiais que não se fazem perceber), além de manter o ritmo e envolvimento ao longo de toda a projeção, um mérito da direção de Howard, cineasta com grande talento em prender o público e que parece ter especial apreço por biografias e tramas baseadas em eventos verídicos, como nos casos de “Uma Mente Brilhante” (A Beautiful Mind, 2001) e “Apollo 13” (1995). Vale o destaque ainda para a trilha sonora de Hans Zimmer, inspirada como há muito tempo não se ouvia nos seus trabalhos (muito superior ao que fez em “O Homem de Aço”).

O resultado é um filme de arrepiar, capaz de agradar tanto à crítica quanto ao público, este com potencial para ser bem mais abrangente do que os aficionados por automobilismo. Arrisco dizer que é o melhor trabalho de Ron Howard, superando o citado e oscarizado “Uma Mente Brilhante”. Aliás, falando em Oscar, não vou estranhar se o longa conseguir várias indicações na próxima edição do prêmio da Academia de Hollywood. Caso venha a obtê-las, será inteiramente justo. E termino pontuando: um dos melhores filmes sobre esporte já feitos.


Cotação:



Nota: 9,5

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Restaurando a Película

Gente Como a Gente
(Ordinary People, 1980)


A família que derrubou um touro


Eu faço parte da legião de revoltados com o fato de “Touro Indomável” (Ragging Bull, 1980), filme que considero a grande obra-prima de Martin Scorsese, não ter recebido os prêmios de melhor filme e direção da Academia de Hollywood. Acredito que seja uma injustiça ainda maior do que a derrota de “Taxi Driver” (1976) para “Rocky – Um Lutador” (Rocky, 1976), uma vez que, apesar da importância do longa de Scorsese, eu não o tenho como seu melhor filme e, convenhamos, a saga do lutador criada por Sylvester Stallone é muito cativante. Sendo assim, sempre antipatizei previamente com o responsável pela derrota de “Touro Indomável” no Oscar, um drama intitulado “Gente Como a Gente” (“que título cafona!”), o qual veio a ser a estreia do astro Robert Redford na direção. Entretanto, neste último sábado resolvi dar uma chance para o filme de Redford. Afinal, muito consideram injustiça a derrota de “Cidadão Kane” (Citzen Kane, 1941) para “Como Era Verde Meu Vale” (How Green Was My Valley, 1941), mas, sinceramente, o filme de John Ford me agrada mais do que a seminal obra de Orson Welles. Bem, a verdade é que, para um diretor estreante, “Ordinary People” se revela um grande trabalho. Impressionam a segurança de Redford, bem como a sua direção de atores, os quais entregam ótimas performances, principalmente o também estreante na tela grande Timothy Hutton (ele tinha feito apenas filmes para TV), um rapaz excepcional que me fez perguntar por onde ele anda e que se tornou o mais jovem ator a ganhar um Oscar (como coadjuvante).

Trata-se da adaptação de um livro de Judith Guest, um ótimo trabalho do roteirista Alvin Sargent, que também levou o Oscar por seu esforço. Surpreende, inclusive, que o longa tenha alcançado um grande êxito nas bilheterias, tendo em vista o público norte-americano costuma privilegiar produções escapistas e esta vai justamente no sentido oposto. É uma história de desagregação familiar ocorrida após uma tragédia, a morte do milho mais velho por afogamento em um acidente de barco. O mais novo, Conrad (papel de Hutton), carrega a culpa por se considerar culpado pelo ocorrido, chegando a tentar o suicídio. A mãe (interpretada com brilho por Mary Tyler Moore), por sua vez, procura manter sempre as aparências de controle e estabilidade familiar, por mais que as evidências demonstrem o contrário. O pai, vivido por Donald Sutherland (pai de Kiefer), demonstra maior preocupação com o filho em crise e o aconselha a procurar o psicanalista Tyrone Berger (Judd Hirsch, também indicado ao Oscard de coadjuvante), o qual, com seus métodos abertos e francos, ajuda Conrad a recuperar sua autoestima.



A trama se desenvolve sem pressa e, aos poucos, vamos conhecendo as nuances da tragédia que marcou os Jarret e também as características de suas respectivas personalidades. Observamos, por exemplo, que a obsessão por controle da mãe Beth é perceptível até no seus afazeres domésticos, demonstrando uma mania de organização e cuidado com detalhes mínimos, como a disposição dos talheres na mesa onde irão jantar apenas pais e filho. Da mesma forma, percebemos que o falecido irmão Buck era o “popular” da escola e, possivelmente, o filho preferido de sua mãe. O pai, Calvin, é uma pessoa afável e cuidadosa, mas sucumbe diante do comportamento autoritário da esposa. E Conrad se vê perdido em meio à turbulência, tendo enormes dificuldades de estabelecer contato com a mãe e não obtendo na figura paterna a força de que necessita para superar o passado. O longa é um prato cheio para psicólogos e afins, dada a riqueza com que são evidenciadas as personalidades em cena.



Por outro lado, “Ordinay People” por vezes passa aquela sensação incômoda de estarmos assistindo a uma espécie de teatro filmado. É o tipo de película em que os diálogos se sobrepõem em demasia ao lado imagético, algo que, em geral, acaba por empobrecer um filme. Cinema é imagem e, ao compararmos com o preterido “Touro Indomável”, o contraste se faz gritante. A mão de Redford também erra ao imergir demais em psicologismos. Uma parcela significativa da projeção se passa no consultório do Dr. Berger, onde Conrad realiza suas digressões. De qualquer forma, nada que chegue a transmitir a sensação de tédio ou cansaço, principalmente diante da excelência das atuações. Mary Tyler Moore está perfeita em uma personagem que desperta antipatia desde as primeiras sequências, mas que ao mesmo tempo soa perfeitamente humana, sem maniqueísmos (também foi indicada ao Oscar de melhor atriz, perdendo para Sissy Spacek por “O Destino Mudou Sua Vida”). Sutherland também entrega boa atuação (principalmente na marcante sequência final), assim como Judd Hirsch na pele do Dr. Berger, mas é Hutton quem, de fato, rouba todas a cenas, em uma atuação bastante emotiva. Como disse acima, fiquei curioso para saber o seu destino como ator e, buscando no Google, descobri que ele fez muitos filmes depois deste, mas nunca obtendo o mesmo sucesso (participou, por exemplo, de “O Escritor Fantasma”, de Polanski). Uma pena que sua carreira não tenha decolado.

Não se pode negar que “Gente Como A Gente” não chega a ser uma obra-prima como o longa de Scorsese que derrubou na festa do Oscar. Mas vale ressaltar, inclusive, que ele é um filme mais afeito aos padrões da Academia do que aquele protagonizado por Robert De Niro. De toda forma, perdi um pouco da minha antiga aversão, uma vez que está longe de ser uma obra irrelevante. Pelo contrário, trata-se de um drama muito bem construído por Robert Redford, com personagens que, realmente, são pessoas comuns, como diz o título, vivenciando dificuldades que podem suceder na vida de qualquer um. Uma obra cheia de sensibilidade - com um inteligente final em aberto - que merece ser rememorada, mesmo que você seja um dos admiradores de Martin Scorsese. Aconselho a assistir desarmado(a).


Cotação:



Nota: 9,0

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Trilha Sonora # 28



Este é, possivelmente, o filme mais subestimado de Steven Spielberg. Muitos o consideram o seu pior trabalho, mas eu não o vejo assim. Se não está entre os seus melhores longas, "Além da Eternidade" (Always, 1989) é muito agradável, romântico (é um precursor de "Ghost", na verdade) e sabe utilizar com precisão a canção "Smoke Gets In Your Eyes", composição de Jerome Kern e Otto Harbarch para o musical da Broadway "Roberta", ainda em 1933. Essa linda canção você pode ouvir abaixo tal como a escutamos no filme, na imbatível versão do grupo "The Platters". Sobe o som! 

Ah, e essa na imagem acima é mesmo Audrey Hepburn!


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

Sete Dias com Marilyn
(My Week With Marilyn, 2011)


Norma e Marilyn


O cinema, certamente, é a maior fábrica de mitos contemporânea e, dentre os muitos gerados no século passado, Marilyn Monroe sem dúvida é um dos maiores. Ela é uma das poucas estrelas hollywoodianas do século passado que ainda influenciam o comportamento das novas gerações. Entre as mulheres, sua aura só se equivale à de Audrey Hepburn. Contudo, se Audrey se coloca até hoje como um símbolo de sofisticação, Marilyn é a epítome da sensualidade evidente, escancarada, ajudada por suas curvas generosas e o ar pseudo-ingênuo que criou para sua presença pública, um personagem cultivado ao longo de toda a sua carreira, encerrada drasticamente após uma overdose de tranquilizantes em 05 de agosto de 1962. “Sete Dias Com Marilyn”, longa dirigido por Simon Curtis em 2011, é um longa que se presta justamente a levar o espectador a conhecer Norma Jeane Mortenson (seu nome verdadeiro) e não a Marilyn dos filmes e das badalações, procurando entender a persona escondida atrás da personagem pública. Ao mesmo tempo, não deixa de ser uma bela homenagem ao mito e também uma interessante abordagem acerca dos bastidores da Sétima Arte, levando-nos a conhecer vários dos desentendimentos, vaidades, conflitos e amizades que surgem ao longo das filmagens.

A maior virtude da direção de Curtis, bem como do roteiro de Adrian Hodges, é a de abordar um momento específico da vida da atriz. Baseado nos livros “The Prince, The Showgirl and Me” e “My Week with Marilyn”, de Colin Clark, que é o narrador e personagem central da película, o enredo trata dos dias em que Marilyn viajou ao Reino Unido para realizar as filmagens de “O Príncipe Encantado” (The Prince And The Showgirl, 1957), longa dirigido e estrelado por Laurence Olivier (papel de Kenneth Branagh, nada mais adequado), o renomado intérprete de Shakespeare, tanto no teatro quanto no cinema. Com a produção, Olivier estava tentando quebrar um pouco de sua imagem hermética, erudita, buscando apresentar um perfil mais popular. Para tanto, nada melhor do que se aliar à atriz mais famosa do mundo em uma comédia sem maiores consequências.


“Sete Dias com Marilyn” é focado na personalidade da atriz. A despeito do curto período temporal narrado, podemos perceber várias de suas características, como sua marcante insegurança, sua fragilidade por traz da diva encantadora, bem como seu esforço para ser vista não apenas como uma sex symbol, mas como uma intérprete de verdade, algo que, na realidade, nunca veio a acontecer. Adepta do famoso Método Stanislavski de interpretação, ela acaba por ser alvo das críticas constantes de Olivier, que não tem paciência com o tempo que a estrela leva para “imergir” no personagem, nem com sua notória dificuldade de memorizar diálogos. Por outro lado, Curtis não se furta a mostrar seu lado menos elogiável. Volúvel e adúltera, Marilyn era capaz de seduzir jovens inexperientes tão somente para afogar suas mágoas, várias delas advindas de seus problemas conjugais com Arthur Miller (Dougray Scott), seu marido à época. E ela o fazia assim como quem bebe uns tragos para curar uma dor de cotovelo, não se importando com as consequências emocionais que sua sedução e posterior indiferença poderiam causar nos eventuais apaixonados. É o que acontece com Colin Clark (Eddie Redmayne), mais uma “vítima” de seu poder de atração irresistível. Da mesma forma, o longa também não deixa de lado sua dependência química, mostrando o quão difícil era conviver e trabalhar com alguém se dopava quase diariamente.



Todavia, o longa é feliz não apenas na abordagem adotada, mas também em seus aspectos técnicos, apresentando uma reconstituição de época precisa, além de uma maquiagem e figurinos impecáveis. Também merece destaque a bela trilha sonora de Conrad Pope, de tom melancólico e nostálgico, bastante adequada ao caráter sensível da produção. Entretanto, este é o típico filme que não se sustentaria sem atuações de peso, mormente a interpretação da biografada. A respeito, Michelle Williams dá conta do recado? Não inteiramente seria a melhor resposta. Não vou entrar aqui nos méritos estéticos, pois Williams é uma mulher bonita, mas é quase óbvio dizer que a original era ainda mais. Entretanto, na composição de Williams falta um pouco da descontração de Marilyn, que era mais extrovertida publicamente do que se percebe na adaptação. Não que ela não tenha um bom desempenho e é possível estar sendo muito exigente, mas não vi Williams como a “Marilyn definitiva”. Faltou alguma coisa. Mas, vale dizer, não sei se é possível alguém alcançar esse “indefinível” que só a biografada tinha. De qualquer forma, valeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz (que perdeu, com justiça, para Meryl Streep como “ A Dama de Ferro”). Já Kenneth Branagh rende um ótimo Laurence Olivier e a atuação de Eddie Redmayne, como o narrador Colin, é competente. Destaque ainda para a presença de Julia Ormond na pele de Vivien Leigh, aflita com a “queda” que seu marido Laurence mal disfarçava sentir pela diva norte-americana.

Destarte, mesmo que, como mencionado acima, o filme não omita o lado menos notável da diva, sua conclusão, realçando que Colin nunca deixou de ser um eterno apaixonado por ela, conduz o público a uma inescapável admiração pela estrela, como a sugerir que somos todos fãs de Marilyn, mas não de Norma Jeane. Em determinado momento do filme, quando reconhecida por funcionários de uma biblioteca, ela pergunta ao rapaz: “devo ser ela?”. Em seguida, começa a posar e a se comportar como a personagem que criou. Sim, o público sempre amará a estrela Marilyn Monroe, esquecendo que Norma Jeane faleceu sozinha em um quarto poucos anos depois de concluir “O Príncipe Encantado”.


Cotação:



Nota: 8,0

sábado, 10 de agosto de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Intocáveis
(Intouchables, 2011)


Blockbuster sobre a amizade


Este é considerado o filme francês mais rentável de todos os tempos, com cerca de 19 milhões de espectadores. Também foi sucesso em vários outros países europeus, como a Alemanha, onde também chegou a alcançar o posto de filme mais visto nos cinemas durante algumas semanas. No Brasil, alcançou a marca de mais um milhão de espectadores, uma proeza para um filme francês em nossas terras. Ao redor do mundo, obteve uma bilheteria de US$ 360 milhões de dólares. Em outras palavras, “Intocáveis” foi um sucesso absoluto de público, como poucas produções europeias conseguem ser. Um blockbuster, enfim. Entretanto, vale ressalvar, tal sucesso não foi sem méritos. Dirigido pela dupla Olivier Nakache e Éric Toledano (também autores do roteiro), o filme consegue a proeza de tratar de um tema pesado - extremamente propício a tentar arrancar lágrimas e ranger de dentes do público médio – de uma forma leve e descontraída, deixando o espectador com um sorriso nos lábios ao fim da sessão.

Baseado em uma história real, descrita no livro de memórias de Philipe Pozzo di Borgo, o longa tem como foco a relação entre Philipe, - um aristocrata milionário, culto e tetraplégico – e Driss, um bem-humorado imigrante senegalês que já teve problemas com a justiça francesa. Ambos são basicamente opostos, não apenas na condição social de cada um. Philipe (interpretado com muita competência por François Cluzet) é o típico branco europeu, vindo de família tradicional, de educação esmerada e modos refinados. Já Driss (o também ótimo Omar Sy), negro e com uma vida bem mais dura, repleta de dificuldades, reflete em sua conduta as frequentes disparidades entre os dois mundos, os quais, ironicamente, conseguem conviver dentro de uma mesma sociedade. Mas é exatamente pelas óbvias diferenças entre os dois que a amizade surge e cresce. Philipe não contrata Driss para trabalhar como seu cuidador por esse reunir as melhores qualidades profissionais, mas justamente por que o senegalês o trata com igualdade, esquecendo tratar-se de um deficiente físico. Driss não cuida do rico aristocrata com “pena”, mas deixando de lado as limitações do paciente, muitas vezes até fazendo piada com a sua condição. É o que Philipe precisa para sentir-se “igual”, assim como a sensação de inserção social chega a Driss por passar a viver em uma bela mansão, onde não existem as limitações materiais com as quais se acostumou a viver.


Os diretores Toledano e Nakache, todavia, não investem pesado em um possível caráter sociopolítico da trama. O subtexto social se faz presente, não deixando de abordar a atual realidade francesa, onde imigrantes e franceses de origem africana buscam seu espaço mas não é o norte do enredo. Uma decisão sábia, uma vez que, do contrário, a película poderia perder o seu encanto. Na vida, nossas relações e vivências não construídas a partir de um tratado ideológico. Elas simplesmente acontecem e dessa maneira natural que o longa é conduzido. E é interessante perceber como, ao longo da projeção, temos mais momentos de sorrisos do que de lágrimas, mas sem perder de vista o drama dos dois protagonistas. Uma dramédia muito bem posta e acabada.

Contudo, os méritos dos diretores não residem apenas no tom da narrativa. Narrado a partir de um longo flashback, o ritmo do longa é excelente, jamais se tornando cansativo. Pelo contrário, passa até muito rápido, deixando aquela vontade de vermos ainda mais da história de paciente e cuidador, sendo esse um mérito da edição de Dorian Rigal-Ansous. Ademais, não só apenas o personagens centrais, mas também os coadjuvantes são bem caracterizados, como a secretária de Philipe interpretada por Audrey Fleurot, constante alvo das cantadas de Driss. Por sinal, o elenco é ótimo, mas o grande destaque vai mesmo para a dupla de protagonistas. Tanto Cluzet (como ele lembra o Dustin Hoffman, não?) como Omar Sy emprestam uma tremenda verdade aos seus personagens sem jamais caírem na caricatura. Fosse um filme estadunidense, certamente seriam indicados ao Oscar e ambos na categoria principal, de melhor ator. Aliás, falando no prêmio da Ademia: como foi possível que este longa não foi indicado ao prêmio de filme estrangeiro? Uma pergunta que só nos faz questionar ainda mais os estranhos critérios da premiação.


É verdade que “Intocáveis” acaba investindo em alguns clichês, enfraquecendo um pouco o resultado final. Ademais, não deixa de ser um filme de “mensagem”, o que certamente foi um dos fatores preponderantes para que se transformasse em tão grande sucesso de público. Entretanto, tais fatores não chegam a transformá-lo em uma película banal. Pelo contrário, suas qualidades se sobressaem e criamos tanta empatia pelos personagens que sentimos saudades deles ao final. E, como vemos antes dos créditos a imagem dos homens reais que inspiraram a ficção, ficamos imaginando como foram suas vidas após o ponto onde o longa termina. Que belos momentos de amizade ainda terão vivido? Afinal, mais do que sobre preconceito ou qualquer outra questão social, esta é uma obra sobre a amizade, sentimento que pode surgir mesmo entre pessoas tão diametralmente diferentes.


Cotação:



Nota: 9,0