Essa foi uma das ótimas notícias que tivemos essa semana. "Gorge Harrison: Living In The Material World", o documentário de Martin Scorsese sobre o Beatle George Harrison ganhou um trailer bastante estimulante. Nossa, a vida de um beatle contada pelo cineasta mais musical do cinema vai ser de arrepiar! O documentário foi comprado pela HBO norte-maericana, que vai exibi-lo como um especial em duas partes, dias 5 e 6 de outubro. Além disso, o filme deve rodar festivais mundo afora, começando pelo de Nova York, que acontece de 30 de setembro a 16 de outubro. Aguardando! Veja o trailer abaixo!
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sexta-feira, 26 de agosto de 2011
sábado, 6 de agosto de 2011
Cinemúsica
Os Reis do Iê Iê Iê
( A Hard Day's Night, 1964)
O registro documental e surreal de uma revolução
Não é tarefa fácil dimensionar a importância de “A Hard Day's Night” para a cultura pop contemporânea. Sua influência vai muito além da sétima arte. Aliás, no âmbito meramente cinematográfico sua relevância nem é tão acentuada, muito embora também seja responsável por inovações estilísticas também nessa área. A verdade é que o filme, para além de uma mera película, transformou-se na catarse de uma geração, poucas vezes sintetizada de forma tão brilhante. Sua irreverência, tradução visual de uma característica da própria banda que é o foco da produção, se coloca como oposta a todo o status quo vigente. Nada mais jovem. E, de forma impressionante, o filme se mostra muito mais jovial do que muitos longas voltados para esse público nos dias atuais. A banda em questão, The Beatles, foi o maior fenômeno pop de todos os tempos. Sucesso de público e crítica mesmo décadas depois de sua separação, naquele momento (1964) se desenhava a explosão da beatlemania. Uma febre de juventude varria o mundo por meio daqueles quatro rapazes cabeludos de uma cidade portuária da Inglaterra. Um estouro que iria resultar não apenas em cerca de 2 bilhões de discos vendidos. Afinal, os Beatles foram bem além de um mero fenômeno mercadológico.
Por outro lado, aqueles eram também tempos mais puros, uma época em que os Fab Four ainda não haviam sido apresentados às drogas por Bob Dylan, fato que os levariam a experiências lisérgicas que proporcionariam ainda uma outra revolução que a ser cristalizada nos álbuns “Revolver” e “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, verdadeiras obras primas musicais e símbolos de uma nova forma de percepção da realidade. “Os Reis do Iê Iê Iê” (título brasileiro para o original de difícil tradução) é o recorte do tempo em que John, Paul, George e Ringo viviam correndo da enxurrada de fãs que os acompanhavam em qualquer nova parada de suas turnês, ainda com seus terninhos bem comportados, um grupo de garotos ainda surpresos com a fama gigantesca que estavam alcançando com sua música atordoante.
É possível que a felicidade na apreensão dessa atmosfera se deva ao fato de que Richard Lester, diretor do longa-metragem, também era ainda um jovem à época da produção. Ele contava apenas 32 anos quando assumiu a batuta, tendo sido escolhido por John Lennon, o qual havia gostado muito de um
dos seus curtas anteriores, “The Running Jumping & Standing Still Film”, estrelado por ninguém menos que Peter Sellers. Natural, então, que houvesse por parte dele uma maior facilidade para entender aquele espírito libertário. Lester concebeu algo que foi além de uma mera peça publicitária de uma banda da moda. Realizou uma espécie de documentário-non-sense sobre o dia a dia de estrelas do rock no auge do sucesso, alcançando uma espécie de realismo-surreal (se é que podemos definir algo de forma tão paradoxal). Para tanto, utilizou-se de uma humor refinado e ao mesmo intuitivo, inspirado nos Irmãos Marx, bem de acordo com aquele destilado pelo quarteto de Liverpool em suas entrevistas para a imprensa, sempre respondendo às bobagens perguntadas por esta com a mais fina ironia (não à toa há uma sequência no filme apenas com o grupo respondendo a perguntas tolas dos jornalistas). O filme pode até parecer a muitos uma comédia de absurdos, dado o alto número de situações non-sense apresentadas, boa parte capitaneadas pelo ator Wilfrid Brambel, experiente profissional com boa carreira na TV inglesa e interpretando aqui o avô “muito limpo” de Paul McCartney. É de seu personagem que saem conselhos no melhor estilo “carpe diem”, insuflando-os a jogar os livros fora e aproveitar a juventude que lhes resta. E é seguindo esses conselhos que Ringo se mostra o melhor ator da trupe, meio que encarnando o espírito irônico e anárquico da banda em sequências sensacionais, como aquela em que ele sai vagando pelas ruas sem saber ao certo o que fazer *.

O próprio título do longa está longe do convencional. Em verdade, ele foi criado por Ringo (mais uma vez ele), de forma involuntária, ao se queixar de que eles estavam trabalhando duro dia e noite. Ao ouvir a frase “it's been a hard day's night”, Lester afirmou que ela tinha de ser o título do filme e que os artistas deveriam compor uma canção em cima da mesma. A sessão de gravação da faixa durou apenas três horas, tempo necessário para que o grupo inventasse o poderosíssimo acorde que abre a música - e que acabaria também por abrir o filme. Impressionante como esse acorde parece ser a síntese de toda a explosão da beatlemania e a primeira sequência do longa também se apresenta em igual medida, traduzindo em imagens o fervor de uma época (os figurantes da cena foram fãs de verdade, recrutados pela produção). E vamos, então, ouvindo e vendo uma sucessão de petardos dos Beatles, como “I Should Have Known Better” (composição de John inspirada no estilo de Dylan), “And I Love Her”, “Can't Buy Me Love”, entre outras, e culminando em um show no teatro Scala de Londres ao fim da projeção **. É importante sublinhar, ademais, o “ouvindo e vendo” do período anterior, já que “Os Reis do Iê Iê Iê” se transformou em uma espécie de marco zero do que seria conhecido mais tarde como videoclipe. A sua associação de música e imagem tornou-se a base desse produto do pop.
Quase cinco décadas depois, “A Hard Day's Night” surge ainda como uma película sui generis, difícil de classificar como um musical, um documentário ou uma comédia (talvez seja tudo isso junto) e com o bônus extraordinário de vermos e ouvirmos a maior banda de todos os tempos em ação. Interessante que Lester não obteria um resultado tão feliz no filme seguinte com o quarteto, “Help”, de 1965. Talvez porque neste último os próprios Beatles já não tenham contribuído muito, uma vez que nesta segunda ocasião já estavam mais preocupados em fumar ervas e se encontravam-se chapados demais para levar as filmagens a sério. Sim, aqui eles já haviam sido apresentados às drogas por Dylan, o que os levaria a outros caminhos, uma nova fase se anunciava. Mas o registro de sua primeira fase com “A Hard Day's Night” é mesmo definitivo.
Cotação e nota: Já me esforcei muito para tentar escrever um texto com certo distanciamento. Não peça que um fã dos Beatles estabeleça uma “nota” ou “estrelas” para esse filme. Abstenção!
* Segundo declarações dos próprios integrantes da banda, Ringo estava com uma baita ressaca durante as filmagens desta sequência.
** Um dos figurantes da plateia no teatro era Phill Collins, com apenas 13 anos.
Obs. Resenha escrita ao som do álbum "A Hard Day's Night"!
( A Hard Day's Night, 1964)
O registro documental e surreal de uma revolução
Não é tarefa fácil dimensionar a importância de “A Hard Day's Night” para a cultura pop contemporânea. Sua influência vai muito além da sétima arte. Aliás, no âmbito meramente cinematográfico sua relevância nem é tão acentuada, muito embora também seja responsável por inovações estilísticas também nessa área. A verdade é que o filme, para além de uma mera película, transformou-se na catarse de uma geração, poucas vezes sintetizada de forma tão brilhante. Sua irreverência, tradução visual de uma característica da própria banda que é o foco da produção, se coloca como oposta a todo o status quo vigente. Nada mais jovem. E, de forma impressionante, o filme se mostra muito mais jovial do que muitos longas voltados para esse público nos dias atuais. A banda em questão, The Beatles, foi o maior fenômeno pop de todos os tempos. Sucesso de público e crítica mesmo décadas depois de sua separação, naquele momento (1964) se desenhava a explosão da beatlemania. Uma febre de juventude varria o mundo por meio daqueles quatro rapazes cabeludos de uma cidade portuária da Inglaterra. Um estouro que iria resultar não apenas em cerca de 2 bilhões de discos vendidos. Afinal, os Beatles foram bem além de um mero fenômeno mercadológico.
Por outro lado, aqueles eram também tempos mais puros, uma época em que os Fab Four ainda não haviam sido apresentados às drogas por Bob Dylan, fato que os levariam a experiências lisérgicas que proporcionariam ainda uma outra revolução que a ser cristalizada nos álbuns “Revolver” e “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, verdadeiras obras primas musicais e símbolos de uma nova forma de percepção da realidade. “Os Reis do Iê Iê Iê” (título brasileiro para o original de difícil tradução) é o recorte do tempo em que John, Paul, George e Ringo viviam correndo da enxurrada de fãs que os acompanhavam em qualquer nova parada de suas turnês, ainda com seus terninhos bem comportados, um grupo de garotos ainda surpresos com a fama gigantesca que estavam alcançando com sua música atordoante.
É possível que a felicidade na apreensão dessa atmosfera se deva ao fato de que Richard Lester, diretor do longa-metragem, também era ainda um jovem à época da produção. Ele contava apenas 32 anos quando assumiu a batuta, tendo sido escolhido por John Lennon, o qual havia gostado muito de um
O próprio título do longa está longe do convencional. Em verdade, ele foi criado por Ringo (mais uma vez ele), de forma involuntária, ao se queixar de que eles estavam trabalhando duro dia e noite. Ao ouvir a frase “it's been a hard day's night”, Lester afirmou que ela tinha de ser o título do filme e que os artistas deveriam compor uma canção em cima da mesma. A sessão de gravação da faixa durou apenas três horas, tempo necessário para que o grupo inventasse o poderosíssimo acorde que abre a música - e que acabaria também por abrir o filme. Impressionante como esse acorde parece ser a síntese de toda a explosão da beatlemania e a primeira sequência do longa também se apresenta em igual medida, traduzindo em imagens o fervor de uma época (os figurantes da cena foram fãs de verdade, recrutados pela produção). E vamos, então, ouvindo e vendo uma sucessão de petardos dos Beatles, como “I Should Have Known Better” (composição de John inspirada no estilo de Dylan), “And I Love Her”, “Can't Buy Me Love”, entre outras, e culminando em um show no teatro Scala de Londres ao fim da projeção **. É importante sublinhar, ademais, o “ouvindo e vendo” do período anterior, já que “Os Reis do Iê Iê Iê” se transformou em uma espécie de marco zero do que seria conhecido mais tarde como videoclipe. A sua associação de música e imagem tornou-se a base desse produto do pop.
Quase cinco décadas depois, “A Hard Day's Night” surge ainda como uma película sui generis, difícil de classificar como um musical, um documentário ou uma comédia (talvez seja tudo isso junto) e com o bônus extraordinário de vermos e ouvirmos a maior banda de todos os tempos em ação. Interessante que Lester não obteria um resultado tão feliz no filme seguinte com o quarteto, “Help”, de 1965. Talvez porque neste último os próprios Beatles já não tenham contribuído muito, uma vez que nesta segunda ocasião já estavam mais preocupados em fumar ervas e se encontravam-se chapados demais para levar as filmagens a sério. Sim, aqui eles já haviam sido apresentados às drogas por Dylan, o que os levaria a outros caminhos, uma nova fase se anunciava. Mas o registro de sua primeira fase com “A Hard Day's Night” é mesmo definitivo.
Cotação e nota: Já me esforcei muito para tentar escrever um texto com certo distanciamento. Não peça que um fã dos Beatles estabeleça uma “nota” ou “estrelas” para esse filme. Abstenção!
* Segundo declarações dos próprios integrantes da banda, Ringo estava com uma baita ressaca durante as filmagens desta sequência.
** Um dos figurantes da plateia no teatro era Phill Collins, com apenas 13 anos.
Obs. Resenha escrita ao som do álbum "A Hard Day's Night"!
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terça-feira, 30 de novembro de 2010
Senna
Mito resgatado
Os documentários em longa-metragem, gênero cinematográfico que vem ganhando mais força nos últimos anos (principalmente com a popularidade de Michael Moore e suas peças contra o conservadorismo norte-americano), tradicionalmente desenvolvem sua narrativa, principalmente quando se trata de biografias, por meio de entrevistas com aqueles que conviveram (ou convivem) com o biografado, além da presença de um narrador (mesmo que em off). A primeira virtude de “Senna”, documentário sobre o lendário piloto brasileiro, um verdadeiro mito na nossa Terra Brasilis, é justamente fugir desta fórmula convencional.
O diretor Asif Kapadia conseguiu desenvolver uma bela narrativa, que perpassa toda a carreira de Ayrton Senna da Silva, com um ritmo quase ficcional, apenas através da edição de imagens dos arquivos (algumas delas inéditas) fornecidas por emissoras de TV (rede Globo entre elas) e a inserção de áudios de depoimentos e narrações de profissionais como Reginaldo Leme e Galvão Bueno (no tempo em que Galvão ainda era narrador e não o chato absoluto que é hoje). O painel que se mostra nos dá uma perspectiva não só das proezas do piloto, mas também da personalidade do Senna ser humano, com suas virtudes e falhas.
Kapadia vai buscar o início da carreira de Ayrton, ainda no kart, em sua primeira temporada na Europa, mostrando as dificuldades que se colocam principalmente para os latinos, tendo de viver longe da família e dos amigos. E assim vamos acompanhando sua ascensão até sua chegada à F1, por meio da modesta escuderia Toleman. A despeito das limitações do carro que tinha em mãos, Senna consegue um resultado excepcional no Grande Prêmio de Mônaco, debaixo de forte chuva, não alcançando a vitória devido ao encerramento prematuro da prova. Esta seria a primeira de muitas oportunidades em que Senna enfrentaria a politicagem dentro do esporte, que no longa se apresenta encarnada no presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), o truculento, autoritário e arrogante Jean-Marrie Ballestre. Neste ponto há um detalhe importante: Ballestre era francês, mesma nacionalidade do arqui-rival do piloto brasileiro, o “professor” Alain Prost. E aqui é interessante perceber que, quando da chegada de Senna à McLaren, apesar da competitividade acentuada e ambos os pilotos (ninguém se torna campeão em um esporte individual sem possuir uma forte dose de competitividade circulando nas veias), havia um clima de camaradagem entre eles, proporcionando um bom ambiente na equipe. Esse clima agradável, contudo, vai sendo substituído por um ambiente negro onde as vaidades são exacerbadas e é neste ponto que o documentário aponta para uma derrapada. Prost acaba sendo mostrado como o “vilão” da história, o “inimigo” a ser batido por Senna, e não como um desportista que também almejava as suas vitórias. Tal tendência é ainda mais realçada quando da abordagem da decisão do campeonato de 1989, quando Kapadia parece ter convicção de que o piloto francês foi o responsável pelo acidente que levaria à decisão da competição. Esta atitude meio que serviria para justificar o comportamento semelhante de Senna no ano seguinte, quando parece ter provocado a colisão que também determinou a decisão do título nesta oportunidade.
Há, ademais, um certo apelo à ideia de que Senna pressentiu a sua morte ocorrida no GP de Ímola de 1994, induzindo o espectador a acreditar nesta versão que parece ser acalentada pelos fãs. Na realidade, se trata de uma impressão de alguns que estavam próximos a ele, mas jamais saberemos se é verdade. Aliás, segundo depoimento do próprio piloto mostrado no longa, ele próprio imaginava estar ainda na metade da vida, o que contradiz essa ideia de pressentimentos funesto anunciados pelos comentários em off.
Em outra ponta, o longa é feliz em mostrar as razões que levaram Senna a se tornar um ídolo em nosso país. O Brasil vivia tempos amargos na economia, com a hiperinflação e o aumento exponencial da pobreza. Isso ainda se somava à frustração com os representantes eleitos, sendo que o primeiro presidente após a redemocratização acabou sofrendo o impeachment pelo Congresso Nacional. Como diz uma popular em certo momento, para os brasileiros Senna parecia ser “a única coisa que o Brasil tem de bom” (é bom recordar ainda que o futebol estava em um momento de vacas magras). Ademais, ele sempre demonstrou uma afinidade muito grande com a fé do povo brasileiro, colocando Deus constantemente no centro de seus depoimentos. Assim, vê-se com uma certa naturalidade a catarse coletiva provocada pela morte de Ayrton, o qual naquele momento significava um dos escassos orgulhos nacionais, um vencedor que jamais escondeu sua origem, carregando a bandeira brasileira nos momentos de júbilo.
Para quem acompanha o automobilismo, também é ótimo ver a “era de ouro” da F1 resgatada na telona. Uma época de pilotos vibrantes, que buscavam antes de tudo a vitória, e não meros empregados de firma que cumprem ordens toscas para deixarem colegas ultrapassar, desrespeitando os espectadores, o próprio esporte e a si mesmos (vide os exemplos de Barrichello e Massa). Um tempo em que as escuderias respeitavam a competitividade e não realizavam manobras de equipe para beneficiar piloto A ou B. Bons tempos aqueles em que a F1 era capaz de produzir ídolos em escala global, como Senna, que, mesmo com seus defeitos, muito humanos, fez jus ao status de referência mundial no esporte (não apenas no automobilismo). Eu mesmo nunca nutri muita admiração pela pessoa de Senna (talvez devido a uma certa antipatia gerada pelo excesso de bajulação de Galvão Bueno), mas jamais vi um piloto tão talentoso quanto ele, capaz de proezas únicas, nunca repetidas por Schummachers ou Alonsos que estão por aí. E este documentário, apesar das imperfeições acima apontadas, rende uma bela e merecida homenagem a um desportista que se tornou mitológico.
Cotação:

Nota: 9,0
O diretor Asif Kapadia conseguiu desenvolver uma bela narrativa, que perpassa toda a carreira de Ayrton Senna da Silva, com um ritmo quase ficcional, apenas através da edição de imagens dos arquivos (algumas delas inéditas) fornecidas por emissoras de TV (rede Globo entre elas) e a inserção de áudios de depoimentos e narrações de profissionais como Reginaldo Leme e Galvão Bueno (no tempo em que Galvão ainda era narrador e não o chato absoluto que é hoje). O painel que se mostra nos dá uma perspectiva não só das proezas do piloto, mas também da personalidade do Senna ser humano, com suas virtudes e falhas.
Kapadia vai buscar o início da carreira de Ayrton, ainda no kart, em sua primeira temporada na Europa, mostrando as dificuldades que se colocam principalmente para os latinos, tendo de viver longe da família e dos amigos. E assim vamos acompanhando sua ascensão até sua chegada à F1, por meio da modesta escuderia Toleman. A despeito das limitações do carro que tinha em mãos, Senna consegue um resultado excepcional no Grande Prêmio de Mônaco, debaixo de forte chuva, não alcançando a vitória devido ao encerramento prematuro da prova. Esta seria a primeira de muitas oportunidades em que Senna enfrentaria a politicagem dentro do esporte, que no longa se apresenta encarnada no presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), o truculento, autoritário e arrogante Jean-Marrie Ballestre. Neste ponto há um detalhe importante: Ballestre era francês, mesma nacionalidade do arqui-rival do piloto brasileiro, o “professor” Alain Prost. E aqui é interessante perceber que, quando da chegada de Senna à McLaren, apesar da competitividade acentuada e ambos os pilotos (ninguém se torna campeão em um esporte individual sem possuir uma forte dose de competitividade circulando nas veias), havia um clima de camaradagem entre eles, proporcionando um bom ambiente na equipe. Esse clima agradável, contudo, vai sendo substituído por um ambiente negro onde as vaidades são exacerbadas e é neste ponto que o documentário aponta para uma derrapada. Prost acaba sendo mostrado como o “vilão” da história, o “inimigo” a ser batido por Senna, e não como um desportista que também almejava as suas vitórias. Tal tendência é ainda mais realçada quando da abordagem da decisão do campeonato de 1989, quando Kapadia parece ter convicção de que o piloto francês foi o responsável pelo acidente que levaria à decisão da competição. Esta atitude meio que serviria para justificar o comportamento semelhante de Senna no ano seguinte, quando parece ter provocado a colisão que também determinou a decisão do título nesta oportunidade.
Há, ademais, um certo apelo à ideia de que Senna pressentiu a sua morte ocorrida no GP de Ímola de 1994, induzindo o espectador a acreditar nesta versão que parece ser acalentada pelos fãs. Na realidade, se trata de uma impressão de alguns que estavam próximos a ele, mas jamais saberemos se é verdade. Aliás, segundo depoimento do próprio piloto mostrado no longa, ele próprio imaginava estar ainda na metade da vida, o que contradiz essa ideia de pressentimentos funesto anunciados pelos comentários em off.
Em outra ponta, o longa é feliz em mostrar as razões que levaram Senna a se tornar um ídolo em nosso país. O Brasil vivia tempos amargos na economia, com a hiperinflação e o aumento exponencial da pobreza. Isso ainda se somava à frustração com os representantes eleitos, sendo que o primeiro presidente após a redemocratização acabou sofrendo o impeachment pelo Congresso Nacional. Como diz uma popular em certo momento, para os brasileiros Senna parecia ser “a única coisa que o Brasil tem de bom” (é bom recordar ainda que o futebol estava em um momento de vacas magras). Ademais, ele sempre demonstrou uma afinidade muito grande com a fé do povo brasileiro, colocando Deus constantemente no centro de seus depoimentos. Assim, vê-se com uma certa naturalidade a catarse coletiva provocada pela morte de Ayrton, o qual naquele momento significava um dos escassos orgulhos nacionais, um vencedor que jamais escondeu sua origem, carregando a bandeira brasileira nos momentos de júbilo.
Para quem acompanha o automobilismo, também é ótimo ver a “era de ouro” da F1 resgatada na telona. Uma época de pilotos vibrantes, que buscavam antes de tudo a vitória, e não meros empregados de firma que cumprem ordens toscas para deixarem colegas ultrapassar, desrespeitando os espectadores, o próprio esporte e a si mesmos (vide os exemplos de Barrichello e Massa). Um tempo em que as escuderias respeitavam a competitividade e não realizavam manobras de equipe para beneficiar piloto A ou B. Bons tempos aqueles em que a F1 era capaz de produzir ídolos em escala global, como Senna, que, mesmo com seus defeitos, muito humanos, fez jus ao status de referência mundial no esporte (não apenas no automobilismo). Eu mesmo nunca nutri muita admiração pela pessoa de Senna (talvez devido a uma certa antipatia gerada pelo excesso de bajulação de Galvão Bueno), mas jamais vi um piloto tão talentoso quanto ele, capaz de proezas únicas, nunca repetidas por Schummachers ou Alonsos que estão por aí. E este documentário, apesar das imperfeições acima apontadas, rende uma bela e merecida homenagem a um desportista que se tornou mitológico.
Cotação:

Nota: 9,0
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Herbert de Perto
Vida e Apredizado
Se você viveu os anos 80 deve guardar com muito carinho as memórias da três bandas mais representativas do período em que ocorreu a grande explosão do rock nacional. Eram elas a Legião Urbana, os Titãs e os Paralamas do Sucesso. A primeira era a banda que aglutinava multidões em torno da aura messiânica de Renato Russo, o grande porta-voz da geração 80, aquele que soube traduzir melhor em canções as esperanças, angústias e frustrações dos jovens do seu tempo (e talvez de qualquer tempo). Já os Titãs desenvolveram um rock mais pesado e de grande contestação social, atuando como uma espécie de metralhadora giratória (a polícia, as religiões, a televisão: tudo foi alvo da língua ferina de seus integrantes). E os Paralamas formavam a banda com o tom mais leve que, embora não abandonasse a crítica social, explorava o lado mais leve e romântico da juventude e, principalmente, constituía o grupo com maior virtuosismo musical. Os três integrantes estão entre os melhores do Brasil em seus respectivos instrumentos. Contando com esse talento, os Paralamas souberam fazer uma ótima fusão entre rock, música brasileira e jamaicana, sob influência de grupos como o Clash, precursor deste tipo de trabalho com seu álbum “London Calling” (e, diga-se de passagem, pelo menos aos meus ouvidos, os Paralamas sempre soaram melhores que o Clash). E é na figura mais conhecida dos Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna, que é centrado este documentário dirigido e roteirizado por Pedro Bronz e Roberto Berliner.
A primeira boa ideia deste longa-metragem é contrapor momentos de passado e presente do famoso cantor e compositor. Uma das primeiras imagens, em que Herbert, ainda nos seus vinte e poucos anos, dá declarações presunçosas e imaturas é logo confrontada com outra, em que o Herbert maduro assiste a tal entrevista e logo exclama: “que é que esse cara tá falando?”. São baseados nessa contraposição que os diretores vão construindo o caleidoscópio que nos possibilita entender a história e a pessoa de um dos músicos mais importantes dos anos 80. Passamos pela sua infância, em que o pequeno Herbert já mostrava um talento diferenciado para tocar violão. Em seguida, vemos o mesmo, já na cadeira de rodas pós-acidente, tocando no seu primeiro violão, o qual guarda com carinho até hoje. É assim que sua vida é mostrada.
Passamos também pelos depoimentos dos parentes e amigos (obviamente com muitas falas de seus parceiros Bi Ribeiro e João Barone) sobre o compositor, recurso sempre necessário a um documentário sobre um personagem específico. E vamos descobrindo que os Paralamas, ao contrário do que muita gente pensa, não foi uma banda formada em Brasília, mas no Rio de Janeiro. Também vamos vislumbrando os elementos que compunham o cenário musical da época: a explosão da Blitz, que possibilitou e estimulou as gravadoras a investirem no pop-rock brasileiro; a importância de espaços como o Circo Voador, no Rio de Janeiro, verdadeiro objetivo de qualquer banda iniciante (“meu sonho era tocar no Circo Voador”, diz Herbert em certa passagem); e a grande explosão no Rock In Rio, show que acabou levando a banda a excursões em que chegava a realizar dois shows na mesma noite. Os aspectos mais pessoais também foram merecedores de fortes tintas, mostrando seu envolvimento e casamento com Lucy Needham, mãe de seus filhos e falecida no acidente com o aeroplano pilotado pelo próprio Vianna. Neste momento, vale dizer, os realizadores pegam uma veia emocional que deve sensibilizar a todos, sejam ou não fãs. O depoimento de Dado Villa-Lobos sobre as circunstâncias do acidente é mesmo consternador.
Contudo, numa visão mais atenta, percebe-se que o longa não é apenas sobre o líder de uma banda de rock ou sobre um momento musical de determinada época. Há muito no documentário sobre o amadurecimento do personagem, mostrando que o mesmo soube aprender com os tropeços da vida. O que, por extensão, mostra o quanto o ser humano pode evoluir e se adaptar às mais diversas possibilidades e dificuldades. Em determinado momento, um dos depoentes menciona que quase todas as músicas de Herbert tratam de seu amadurecimento, do constante evoluir, das novas perspectivas que vida traz a cada momento. Há verdade nisso, assim como há muita verdade neste “Herbert de Perto” (embora possa-se acusá-lo de ser “chapa branca” até certo ponto), película obrigatória não apenas para os fãs da banda ou do rock oitentista, mas para todos aqueles que desejem acompanhar uma bela trajetória de vida.
Cotação: * * * * (quatro estrelas)
Nota: 9,0
A primeira boa ideia deste longa-metragem é contrapor momentos de passado e presente do famoso cantor e compositor. Uma das primeiras imagens, em que Herbert, ainda nos seus vinte e poucos anos, dá declarações presunçosas e imaturas é logo confrontada com outra, em que o Herbert maduro assiste a tal entrevista e logo exclama: “que é que esse cara tá falando?”. São baseados nessa contraposição que os diretores vão construindo o caleidoscópio que nos possibilita entender a história e a pessoa de um dos músicos mais importantes dos anos 80. Passamos pela sua infância, em que o pequeno Herbert já mostrava um talento diferenciado para tocar violão. Em seguida, vemos o mesmo, já na cadeira de rodas pós-acidente, tocando no seu primeiro violão, o qual guarda com carinho até hoje. É assim que sua vida é mostrada.
Passamos também pelos depoimentos dos parentes e amigos (obviamente com muitas falas de seus parceiros Bi Ribeiro e João Barone) sobre o compositor, recurso sempre necessário a um documentário sobre um personagem específico. E vamos descobrindo que os Paralamas, ao contrário do que muita gente pensa, não foi uma banda formada em Brasília, mas no Rio de Janeiro. Também vamos vislumbrando os elementos que compunham o cenário musical da época: a explosão da Blitz, que possibilitou e estimulou as gravadoras a investirem no pop-rock brasileiro; a importância de espaços como o Circo Voador, no Rio de Janeiro, verdadeiro objetivo de qualquer banda iniciante (“meu sonho era tocar no Circo Voador”, diz Herbert em certa passagem); e a grande explosão no Rock In Rio, show que acabou levando a banda a excursões em que chegava a realizar dois shows na mesma noite. Os aspectos mais pessoais também foram merecedores de fortes tintas, mostrando seu envolvimento e casamento com Lucy Needham, mãe de seus filhos e falecida no acidente com o aeroplano pilotado pelo próprio Vianna. Neste momento, vale dizer, os realizadores pegam uma veia emocional que deve sensibilizar a todos, sejam ou não fãs. O depoimento de Dado Villa-Lobos sobre as circunstâncias do acidente é mesmo consternador.
Contudo, numa visão mais atenta, percebe-se que o longa não é apenas sobre o líder de uma banda de rock ou sobre um momento musical de determinada época. Há muito no documentário sobre o amadurecimento do personagem, mostrando que o mesmo soube aprender com os tropeços da vida. O que, por extensão, mostra o quanto o ser humano pode evoluir e se adaptar às mais diversas possibilidades e dificuldades. Em determinado momento, um dos depoentes menciona que quase todas as músicas de Herbert tratam de seu amadurecimento, do constante evoluir, das novas perspectivas que vida traz a cada momento. Há verdade nisso, assim como há muita verdade neste “Herbert de Perto” (embora possa-se acusá-lo de ser “chapa branca” até certo ponto), película obrigatória não apenas para os fãs da banda ou do rock oitentista, mas para todos aqueles que desejem acompanhar uma bela trajetória de vida.
Cotação: * * * * (quatro estrelas)
Nota: 9,0
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Cinema Nacional,
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Em Cartaz,
Resenhas
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Michael Jackson's This Is It
Belo Epitáfio
Em 25 de junho do corrente ano, qualquer ser humano vivo e pensante sabe o que sucedeu neste planeta Terra. Michael Joseph Jackson, o denominado “Rei do Pop”, faleceu vítima de uma overdose de medicamentos. Nomes como Propofol e Demerol caíram na boca do povo enquanto a necropsia era realizada e, mais importante, uma comoção tomou conta do mundo inteiro, que finalmente parecia esquecer as esquisitices do ídolo do pop para enxergá-lo como o grande artista que sempre foi e, principalmente, como um ser humano, não apenas uma espécie de “ET” que servia de chacota em programas humorísticos e tabloides sensacionalistas.
Quando de seu falecimento, MJ havia finalizado os ensaios para o início de sua nova temporada de shows, após anos fora dos palcos. Seriam 50 apresentações em Londres, todas com ingressos esgotados com meses de antecedência. Tristemente, o astro não chegou a realizar sequer uma apresentação. Felizmente, a sequência enorme de ensaios, os quais, segundo a mídia, teriam levado o astro a uma estafa e a sentir fortes dores (consequência do ritmo forte da preparação aliado a problemas reumáticos), foi registrada em mais de 80 horas de gravações, um tesouro que, obviamente, poderia ser lapidado e levado aos fãs como um presente. Obviamente, tal iniciativa não substituiria os shows que a estrela faria e que foram cancelados pelo destino. Entretanto, a ideia era boa e foi exatamente isso que aconteceu. Alguns podem afirmar que “This Is It”, o documentário resultado da edição das mencionadas 80 horas de gravações, seja oportunista e caça-níquel. É uma afirmação que tem seu teor de verdade, principalmente se levarmos em consideração o caráter da família Jackson, mercenária até a raiz da alma. Mas também é verdade que o material merecia mesmo ser levado ao público, tal o conteúdo emocional e verdadeiro que se percebe ao longo de toda exibição do longa.
Dirigido com muita competência por Kenny Ortega, as escolhas das cenas levadas à projeção não poderiam ser mais felizes. Inicia-se com os depoimentos de vários daqueles que integraram a produção do show. Diretores, assistentes, dançarinos, todos vão falando sobre a experiência que era trabalhar com o mega-astro. E não há como negar a sinceridade das palavras e emoção. Afinal, quando das declarações, Michael ainda estava vivo e, é preciso dizer, num momento de grande baixa na carreira, gerado pelo processo judicial em que foi acusado de abuso sexual contra menores e o fracasso comercial do seu último trabalho, o álbum “Invincible”. O depoimento de alguns dançarinos, ao afirmarem que MJ foi a razão deles trilharem essa profissão, realmente atinge o coração do público. Em seguida, vemos o desenvolvimento dos ensaios como se fosse o próprio show. Vamos passando por vários clássicos do artista, como “You Make Me Feel”, “They Don’t Care About Us”, ‘I’ll Be There”, entre outros. Mas alguns merecem ser destacados. A execução de “Thriller” ganha novos ares com a exibição do vídeo em 3D que estava sendo elaborado para o espetáculo. Já “Beat It” tem sua coreografia minuciosamente detalhada e, mais ainda, conta com uma grande participação da loura-gata e guitarrista Orianthi Panagaris, que rouba mesmo a cena em várias sequências (tenho a impressão que essa menina vai receber uma profusão de propostas de trabalho a partir de agora). Um grande momento é a execução de “Smooth Criminal”, com MJ inserido nas imagens de “Gilda” (bom ver a Rita Hayworth)e contracenando com Humphrey Bogart. Outro ponto marcante é a apresentação solo da coreografia de Michael para Billie Jean, aplaudida entusiasmadamente por toda a equipe presente. Aliás, a ideia concebida por Ortega foi justamente a de elaborar o documentário como se fosse realmente o show que os fãs não tiveram oportunidade de assistir. Em determinado ponto, são mostrados até mesmo os efeitos especiais que seriam vistos apenas em Londres, quando alguns dançarinos têm suas imagens multiplicadas centenas de vezes. Uma das grandes curiosidades, ademais, é ver o Michael dos bastidores, com seu jeito extremamente exigente, mas sempre educado (ao contrário de muitas estrelas pop por aí que, com bem menos talento, são grosseiros e estúpidos com aqueles que os cercam).
É impressionante também notar algumas coincidências. No documentário, percebemos que os ensaios já haviam sido concluídos e que Michael morreu exatamente entre o fim dos preparativos e a estreia da série de shows. A despedida e agradecimentos ao fim soam estranhamente como um adeus do ídolo, e a conclusão se torna extremamente triste quando nos damos conta que todo aquele esforço foi despendido por um show que nunca aconteceu (vale ressaltar inclusive a boa forma de Michael, que nunca denotaria um estado de saúde comprometido).
A experiência se tornou ainda melhor ao pegar uma das primeiras sessões de exibição, repleta de fãs. Ao término, vários dos presentes aplaudiram de maneira empolgada o que viram e, se agradou desta forma aos muito exigentes fãs do astro, o longa deve ter mesmo atingido o pleno objetivo de tentar eternizar o momento que acabou se tornando o epitáfio de um gênio da cultura popular. E o seu título, “É isso” em português, também soa como o resumo de uma ópera que foi acompanhada pelo mundo inteiro desde a infância de Michael Jackson. Mesmo que você não seja fã, vale muito à pena conferir. Não será sem méritos se o filme vier a receber o Oscar na categoria melhor documentário ano que vem (e o trabalho se torna ainda mais impressionante se lembrarmos o pouco tempo que levou para ser realizado). Parabéns, Michael, pelo imenso talento que teve e pelo ser humano que foi. E, mesmo que sua família procure apenas os bônus financeiros do tesouro é que seu legado, se ao menos continuar entregando aos cuidados de gente competente como no caso deste “This Is It”, sua memória estará bem protegida.
Cotação: * * * * * (cinco estrelas)
Nota: 10,0
Quando de seu falecimento, MJ havia finalizado os ensaios para o início de sua nova temporada de shows, após anos fora dos palcos. Seriam 50 apresentações em Londres, todas com ingressos esgotados com meses de antecedência. Tristemente, o astro não chegou a realizar sequer uma apresentação. Felizmente, a sequência enorme de ensaios, os quais, segundo a mídia, teriam levado o astro a uma estafa e a sentir fortes dores (consequência do ritmo forte da preparação aliado a problemas reumáticos), foi registrada em mais de 80 horas de gravações, um tesouro que, obviamente, poderia ser lapidado e levado aos fãs como um presente. Obviamente, tal iniciativa não substituiria os shows que a estrela faria e que foram cancelados pelo destino. Entretanto, a ideia era boa e foi exatamente isso que aconteceu. Alguns podem afirmar que “This Is It”, o documentário resultado da edição das mencionadas 80 horas de gravações, seja oportunista e caça-níquel. É uma afirmação que tem seu teor de verdade, principalmente se levarmos em consideração o caráter da família Jackson, mercenária até a raiz da alma. Mas também é verdade que o material merecia mesmo ser levado ao público, tal o conteúdo emocional e verdadeiro que se percebe ao longo de toda exibição do longa.
Dirigido com muita competência por Kenny Ortega, as escolhas das cenas levadas à projeção não poderiam ser mais felizes. Inicia-se com os depoimentos de vários daqueles que integraram a produção do show. Diretores, assistentes, dançarinos, todos vão falando sobre a experiência que era trabalhar com o mega-astro. E não há como negar a sinceridade das palavras e emoção. Afinal, quando das declarações, Michael ainda estava vivo e, é preciso dizer, num momento de grande baixa na carreira, gerado pelo processo judicial em que foi acusado de abuso sexual contra menores e o fracasso comercial do seu último trabalho, o álbum “Invincible”. O depoimento de alguns dançarinos, ao afirmarem que MJ foi a razão deles trilharem essa profissão, realmente atinge o coração do público. Em seguida, vemos o desenvolvimento dos ensaios como se fosse o próprio show. Vamos passando por vários clássicos do artista, como “You Make Me Feel”, “They Don’t Care About Us”, ‘I’ll Be There”, entre outros. Mas alguns merecem ser destacados. A execução de “Thriller” ganha novos ares com a exibição do vídeo em 3D que estava sendo elaborado para o espetáculo. Já “Beat It” tem sua coreografia minuciosamente detalhada e, mais ainda, conta com uma grande participação da loura-gata e guitarrista Orianthi Panagaris, que rouba mesmo a cena em várias sequências (tenho a impressão que essa menina vai receber uma profusão de propostas de trabalho a partir de agora). Um grande momento é a execução de “Smooth Criminal”, com MJ inserido nas imagens de “Gilda” (bom ver a Rita Hayworth)e contracenando com Humphrey Bogart. Outro ponto marcante é a apresentação solo da coreografia de Michael para Billie Jean, aplaudida entusiasmadamente por toda a equipe presente. Aliás, a ideia concebida por Ortega foi justamente a de elaborar o documentário como se fosse realmente o show que os fãs não tiveram oportunidade de assistir. Em determinado ponto, são mostrados até mesmo os efeitos especiais que seriam vistos apenas em Londres, quando alguns dançarinos têm suas imagens multiplicadas centenas de vezes. Uma das grandes curiosidades, ademais, é ver o Michael dos bastidores, com seu jeito extremamente exigente, mas sempre educado (ao contrário de muitas estrelas pop por aí que, com bem menos talento, são grosseiros e estúpidos com aqueles que os cercam).
É impressionante também notar algumas coincidências. No documentário, percebemos que os ensaios já haviam sido concluídos e que Michael morreu exatamente entre o fim dos preparativos e a estreia da série de shows. A despedida e agradecimentos ao fim soam estranhamente como um adeus do ídolo, e a conclusão se torna extremamente triste quando nos damos conta que todo aquele esforço foi despendido por um show que nunca aconteceu (vale ressaltar inclusive a boa forma de Michael, que nunca denotaria um estado de saúde comprometido).
A experiência se tornou ainda melhor ao pegar uma das primeiras sessões de exibição, repleta de fãs. Ao término, vários dos presentes aplaudiram de maneira empolgada o que viram e, se agradou desta forma aos muito exigentes fãs do astro, o longa deve ter mesmo atingido o pleno objetivo de tentar eternizar o momento que acabou se tornando o epitáfio de um gênio da cultura popular. E o seu título, “É isso” em português, também soa como o resumo de uma ópera que foi acompanhada pelo mundo inteiro desde a infância de Michael Jackson. Mesmo que você não seja fã, vale muito à pena conferir. Não será sem méritos se o filme vier a receber o Oscar na categoria melhor documentário ano que vem (e o trabalho se torna ainda mais impressionante se lembrarmos o pouco tempo que levou para ser realizado). Parabéns, Michael, pelo imenso talento que teve e pelo ser humano que foi. E, mesmo que sua família procure apenas os bônus financeiros do tesouro é que seu legado, se ao menos continuar entregando aos cuidados de gente competente como no caso deste “This Is It”, sua memória estará bem protegida.
Cotação: * * * * * (cinco estrelas)
Nota: 10,0
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