domingo, 28 de fevereiro de 2010

Oscar - Injustiças memoráveis

Nestes tempos que precedem a entrega do prêmio da Academia de Hollywood, é comum encontrarmos por aí um balaio de especulações sobre quem será o vencedor das estatuetas. Contudo, talvez seja mais produtivo lembrar de algumas grandes injustiças praticadas pelos associados, algumas mesmo absurdas, e assim lembrarmos que prêmios, no fim das contas, não significam nada. Só para se ter ideia, os 3 cineastas abaixo jamais receberam o Oscar de melhor direção. Hoje, estão no panteão dos maiores gênios que o cinema produziu.


Charles Chaplin


Alfred Hitchcock



Stanley Kubrick

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Produtor de "Guerra ao Terror" faz campanha "agressiva" pelo Oscar




A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas repreendeu Nicolas Chartier, co-produtor de Guerra ao Terror, por enviar um e-mail com campanha agressiva para o longa-metragem vencer o Oscar de melhor filme.

De acordo com o Los Angeles Times, em um e-mail, Chartier pediu para seus colegas votarem em "Guerra ao Terror", alegando que o longa merece ganhar para fortalecer a produção de filmes independentes. “Se todos falarem para um ou dois amigos, vamos vencer, e não um filme de 500 milhões”, escreveu, fazendo referência clara a Avatar.

Em resposta, Chartier desculpou-se por seu “extremamente inapropriado” e-mail, que violou as regras de premiação da Academia. “A minha ingenuidade, ignorância das regras e estupidez de candidato de primeira viagem não é desculpa para esse comportamento. Eu lamento profundamente", concluiu.

A Academia ainda não emitiu qualquer declaração sobre como irá proceder em relação a esta grave violação das regras de campanha do Oscar. Mas, convenhamos, isso tudo é muita hipocrisia. Todos sabemos que os vencedores do prêmio são resultado de um intensa campanha durante os dias que antecedem a cerimônia. Aliás, o próprio fato de existirem "regras de campanha" já denota como as coisas realmente acontecem. O resto é balela.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Botafogo Bicampeão da Taça Guanabara!


Pausa no cinema!

O Botafogo de Futebol e Regatas conquistou ontem o bicampeonato da Taça Guanabara! Derrubando o "império do amor" e um certo time cruzmaltino, que achava que por ter vencido um jogo de meio de turno por 6x0, que não valia nada, já era campeão, o Fogão deu a volta por cima e com a mágica de Joel Natalino chegou ao título! Parabéns ao time pela raça e empenho! O elenco pode até não ser o mais técnico, mas, sem dúvida, é o mais brioso do campeonato!

FooooooooooooooooooooooooooGoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Festival de Berlim 2010 - Premiados


O júri presidido pelo cineasta Werner Herzog deu o Urso de Ouro da 60ª edição da Berlinale ao filme turco "Honey" ("Bal"), de Semih Kaplanoglu, ontem, 20 de fevereiro. “Honey” fecha a trilogia sobre a vida do personagem Yusuf, retratada nos filmes anteriores de Kaplanoglu, "Milk" e "Egg".

O franco-polonês Roman Polanski, que, como todo mundo já deve estar sabendo, cumpre prisão domiciliar na Suíça, recebeu o Urso de Prata de melhor direção pelo longa “The Ghost Writer”. Os produtores do filme, que receberam o prêmio representando o diretor, leram uma mensagem que mostra o humor negro característico de Polanski: “Da última vez que fui receber um prêmio acabei na cadeia”. Ele se referiu à prisão ocorrida em Zurique, devido à antiga acusação de estupro de uma menor de idade que pesa sobre ele nos Estados Unidos desde 1977. Confira, abaixo, a lista completa dos premiados em Berlim:

Urso de Ouro
"Honey" (Turquia), de Semih Kaplanoglu

Urso de Prata para melhor diretor
Roman Polanski ("The "Ghost Writer")

Berlinale Kamera
Yoji Yamada ("About Her Brother")

Prêmio para melhor filme de estreia
"Sebbe" (Suécia), de Babak Najafi
Prêmio Alfred Bauer
"If I Want Whistle, I Whistle" (Romênia), de Florin Serban

Urso de Prata para melhor roteiro
Wang Quan'an e Na Jin ("Apart Together")
Urso de Prata para excepcional contribuição artística
Pavel Kostomarov, diretor de fotografia ("How I Ended This Summer")

Urso de Prata para melhor ator - "ex-aequo"
Grigoriy Dobrygin e Sergei Puskepalis ("How I Ended This Summer")

Urso de Prata para melhor atriz
Shinobu Yoshizawa ("Caterpillar")
Urso de Prata - Grande Prêmio do Júri
"If I Want To Whistle, I Whistle" (Romênia), Florin Serban


A produção Brasil/Inglaterra "Lixo Extraordinário" (Waste Land), de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, que teve exibição na mostra paralela "Panorama", levou dois prêmios: Público e Anistia Internacional, esse último dividido com "Son Of Babylon", de Mohamed Al-Daradji.

Um Olhar do Paraíso


No plano intermediário


É interessante como filmes que abordam a espiritualidade não costumam ser bem recebidos pela crítica. Não sei exatamente o que motiva este tipo de comportamento, mas a impressão que tenho é que críticos se consideram muito racionais, quase cientistas, e pouco se interessam por filmes que tragam elementos que digam respeito ao mundo etéreo. Não sendo filmes de terror, a grande maioria das obras que abordam temáticas espíritas acaba sendo rejeitada pela crítica.

Creio que somente esta constatação para justificar a rejeição do meio crítico a “Um Olhar do Paraíso”, o novo filme de Peter Jackson, o genial diretor da saga “O Senhor dos Anéis”. Trata-se um retorno de Jackson aos filmes “pequenos”, após a conclusão da citada saga dos anéis e do também majestoso “King Kong” (“Almas Gêmeas”, com a Kate Winslet, é seu filme de menor porte mais lembrado). Aqui ele adapta os livro de Alice Sebold em que uma garota, após ser assassinada, se esforça por fazer com que a família descubra o assassino. Não sei se Jackson foi fiel ao livro em sua adaptação, mas posso afirmar que, embora não seja excepcional, esse é um longa-metragem que passa longe de ser ruim.

A primeira metade do filme é, inclusive, bastante envolvente. A mão segura de Jackson nos traz uma empatia imediata pela personagem central, Susie Salmon (Saoirse Ronan, ótima), uma menina de 14 anos vivendo as descobertas da adolescência. Não há spoiler em dizer que ela será assassinada já que este é o mote da trama já revelado nos trailers e, desde o início da projeção, temos uma narrativa em off pela própria Susie que esclarece que a mesma foi assassinada. Tal fato acontece por obra do vizinho Harvey (Stanley Tucci, em boa atuação que lhe rendeu uma indicação ao Oscar como coadjuvante), típico serial killer norte-americano que se passa por homem comum para esconder sua perversidade (aqui no Brasil os assassinos seriais costumam se tornar traficantes). A sequência em que Susie é assassinada é extremamente sombria e a forma que Jackson encontrou para compreendermos que ela morreu é criativa, muito bem executada e de arrepiar. O clima de tensão, envolto em elementos da doutrina espírita muito bem desenvolvidos (como o tal mundo intermediário, onde permaneceriam os espíritos ainda muito ligados ao plano terreno), é algo que permanece ao longo de toda a projeção, possuindo poucos alívios.

Talvez seja nestes “alívios” que Jackson começa a cometer alguns equívocos. Para contrabalançar não só a tensão característica de um thriller, como o drama pesado vivido por seus pais (interpretados por Mark Wahlberg e Rachel Weiz), o roteiro(adaptado pelo próprio Jackson ao lado de Fran Walsh e Philippa Boyens) se vale de alguns momentos cômicos que soam deslocados, principalmente através da personagem se Susan Sarandon (no piloto automático), a avó. Há ainda uma estranheza com relação à esfera etérea em que Susie passa a existir, já que ela soa um tanto artificial em alguns momentos. Todavia, tendo em vista que Jackson tem à sua disposição a melhor casa de efeitos especiais do mundo (a Weta, responsável por nada mais nada menos que os efeitos visuais de “Avatar”), só posso acreditar que tenha sido realmente sua intenção estabelecer este clima de estranheza para com o mundo espiritual, como uma forma de delimitar claramente as linhas diferenciais entre os dois mundos. Não sei se essa foi a melhor opção. Creio que deixar mais tênues tais linhas trouxesse uma maior riqueza à narrativa.

Entretanto, o maior problema enfrentado pelo longa talvez esteja em sua resolução. Há momentos de muita artificialidade nas soluções encontradas, inclusive com momento “Ghost” plantado para resolver o romance de Susie, além de outras ideias mambembes para confortar a plateia (não vou dizer exatamente o que acontece, mas você vai perceber tais momentos equivocados quando assistir ao longa). Essa queda nos clichês não é bem vinda e acaba prejudicando o impacto da narrativa no espectador.

Por outro lado, ao pesarmos em uma balança os prós e contras a serem observados neste filme, posso afirmar que ele se situa, tal como a personagem central, em um plano intermediário. Não está no “céu” em que se encontra outras obras de Jackson, mas tampouco pode-se dizer que ela esteja em alguma espécie de limbo destinado ao ostracismo. Acredito ademais, que deve fazer boa carreira nos cinemas do Brasil, já que o público brasileiro é muito chegado a temas ligados à espiritualidade (não é à toa que o Brasil é o lar maior da doutrina de Allan Kardec). Um suspense-drama-espiritual que está longe de lhe trazer prejuízo e com direito a alguns momentos de forte arrepio.


Cotação: * * * (três estrelas)
Nota: 7,5

Obs. Há uma ponta de Peter Jackson no filme, numa aparição no melhor estilo do velho Hitchcock.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

No Carnaval 2010

Como sempre, o período do carnaval é proveitoso para apreciar muitos filmes, realizando uma boa atualização no repertório cinematográfico. Neste ano, não está sendo diferente e, abaixo, seguem comentários sobre cada um dos filmes que vi nestes dias de Momo e lindas seminuas na TV. Já que não pude ir a Berlim, vou realizando meu próprio festival em casa.


A Sombra de Uma Dúvida (Shadow Of a Doubt, 1943) – Mais um clássico de Alfred Hitchcock. Na famosa entrevista que o mesmo concedeu a François Truffaut, o velho Hitch afirmou que esse era seu filme preferido, sua melhor realização dentro de sua prolífica carreira. A trama mostra o cotidiano de uma família típica americana que tem sua rotina transformada pela chegada do tio Charlie (Joseph Cotton, ótimo). Ele é uma espécie de ídolo da jovem sobrinha homônima Charlie (Teresa Wright), a qual aos poucos vai descobrindo que seu tio não é um homem tão espetacular quanto imaginava e que, ademais, pode ser um assassino de viúvas ricas procurado pela polícia. Um estudo psicológico extremamente interessante, “Shadow Of a Doubt” serve de amálgama de todas a experiências cotidianas do conhecer aquele que está a seu lado. Afinal, construção e destruição de imagens acontecem a todo momento em nossas vidas. E descobrir as facetas ocultas e desagradáveis daqueles de quem nos aproximamos é sempre doloroso. Destaque ainda para trilha sonora perfeita de Dimitri Tiomkin (aliás, como é o hábito nos filmes de Hitchcock, a trilha sonora mereceria um texto à parte). Vou apenas discordar do velho mestre e afirmar que esse não é seu melhor trabalho, muito embora seja realmente ótimo. O problema é que, em uma carreira com várias obras-primas, o ótimo acaba sendo abaixo do seu potencial.

Nota: 9,5


A Princesa e o Plebeu (Roman Holiday, 1953) – Um daqueles filmes que descobrimos porque é considerado um clássico. Este foi o longa-metragem que elevou Audrey Hepburn, até então uma atriz que nunca tinha assumido um papel de protagonista, à condição de estrela, levando um Oscar por esta atuação e assumindo um lugar entre as mais memoráveis atrizes de Hollywood. Ao lado de Gregory Peck, ela protagoniza essa divertida e inteligente comédia romântica, cujo roteiro de Dalton Trumbo (que só assumiu o crédito depois de décadas, uma vez que fazia parte da lista negra do macarthismo) mostra uma princesa cansada de sua vida cheia de regras e compromissos, jamais tendo oportunidade de fazer o que realmente quer. Em uma visita a Roma, ela acaba escapando de seus assessores e seguranças para viver um dia como uma mulher comum na capital italiana. Ela acaba esbarrando com o jornalista Joe Bradley (Peck), o qual inicialmente vê na situação a oportunidade de realizar a matéria de sua vida. Entretanto, aos poucos ele percebe que está se apaixonando pela princesa e se sente mal por abusar de sua inocência em proveito próprio. Muito embora alguns possam acusar o filme de um certo excesso romântico, afinal eles se apaixonam no curto período de 24 horas, também é verdade que tal relação não é de todo inverossímil, principalmente pelo lado da princesa, que jamais havia tido qualquer relação mais próxima com um homem. O longa foi rodado inteiramente em Roma, sob a direção sempre competente de William Wyler, um ótimo diretor de atores (vale lembrar que ele é o diretor de “Ben-Hur”) e ainda conta com a ótima presença de Eddie Albert como o fotógrafo que ajuda Bradley na tentativa do “furo”. Filme para ter na coleção.

Nota: 9,5


Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007) – Paul Thomas Anderson é, seguramente, um dos mais talentosos cineastas em atividade (ele é o diretor de “Magnólia”, filme que, se você ainda viu, não sabe o que está perdendo) e demonstra tal afirmação por meio deste soberbo filme que levou Daniel Day-Lewis ao seu segundo Oscar de melhor ator. De forma enérgica, adaptando o livro “Oil”, de Upton Sinclair, ele constrói uma perfeita alegoria da marcha do capitalismo na formação dos Estados Unidos. Para tanto, utiliza-se do personagem Daniel Plainview (Day-Lewis perfeito), a representação em carne e osso do capital e força individualista que levaram os EUA à sua pujança econômica, mas que ao mesmo tempo selaram o destino de instituições como a família e a religião, elementos que Plainview utiliza da forma que lhe convém através das figuras de seu filho adotivo H.W. e do pastor Elli. A força do filme não se limita ao roteiro excepcional, mas ainda à fotografia brilhante e à trilha sonora inovadora de Johnny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Contudo, é bom advertir que este não é um longa de fácil degustação, não agradando a todos os gostos, até mesmo porque trata de um protagonista que está longe de ser um modelo de caráter. Um trabalho que permite múltiplas leituras, sendo possível escrever mais de um texto analítico sobre o mesmo. Talvez algum dia eu me debruce sobre esta tarefa complicada, mas necessária.

Nota: 10,0

A Teta Assustada (La Teta Asustada, 2009) – Esse eu vi na sala de cinema, em sessão de arte. Vencedor do Festival de Berlim 2009, o longa é dirigido por Claudia Llosa (neta do Mario Vargas) que mostra um futuro extremamente promissor na carreira. A trama trata de temas caros aos peruanos ao mostrar a realidade de mulheres herdeiras de traumas advindos dos tempos da atuação forte de grupos como o Sendero Luminoso, que os peruanos denominam de época do “terrorismo”. A crença popular diz que as mulheres vítimas dos freqüentes estupros deste período transmitiam às filhas, através do leite, uma doença conhecida como a “teta assustada”. Uma das vítimas de tal doença seria Fausta (a novata Magaly Solier, ótima), que tem uma batata colocada na vagina como forma de evitar possíveis estupros, providência tomada por sua mãe, estuprada durante o período do terrorismo. A genitora acabou lhe transmitindo também um medo atávico a homens, os quais vê sempre como potenciais estupradores. O filme desenvolve, de forma sóbria, uma metáfora para mostrar que o Peru precisa se libertar do passado, principalmente através da simbologia da mãe que precisa ser sepultada na terra de seus antepassados. Interessante, ainda, observar alguns aspectos da cultura peruana como seus cafonas, mas também alegres e divertidos casamentos. O filme peca, apenas, por apresentar algumas excessivas elipses narrativas que deixam o espectador sem saber realmente o que aconteceu em algumas passagens, um tique de alguns diretores do cinema denominado de “arte”, que adotam a teoria besta desenvolvida por alguns críticos de que o “espectador é inteligente” e não é necessário que se mostre tudo. Alfred Hitchcock deve se remexer no túmulo ao ouvir tamanhas sandices. De qualquer forma, um bom filme que merece a indicação ao Oscar de filme estrangeiro. Vamos ver se ele derruba “A Fita Branca”, de Michael Haneke.

Nota: 9,0

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Festival de Berlim 2010



Hoje, 11 de fevereiro, teve início o 60º Festival de Berlim, a famosa "Berlinale". Esta edição abre com o filme Tuan Yuan" ("Separados juntos", em tradução livre) de Wang Quan'an (China). Uma das principais atrações será o o novo dilme do detento Roman Polanski, "The Ghost Writer", dentro da mostra competitiva. Agora, pela manhã, já ocorreu a abertura oficial, com a apresentação do júri, comandado por ninguém menos que Werner Herzog e que conta ainda com participação da Reneé Zellweger (urgh!). Um momento bastante aguardado será a exibição, fora da mostra competitiva, do novo filme filme de Martin Scorsese, "Ilha do Medo", com ator-parceiro Leonardo Di Caprio. Durante o Festival também será exibida a versão restaurada de "Metrópolis" de Fritz Lang, em pleno Portão de Brandemburgo. Segue abaixo a lista completa da mostra competitiva e não competitiva. O Brasil só participa das mostras paralelas, como também você poderá conferir abaixo.


Mostra competitiva:

- "Tuan Yuan" ("Separados juntos", em tradução livre) de Wang Quan'an (China), filme de abertura

- "Rompecabezas" de Natalia Smirnoff (Argentina/França)

- "Bal" ("Mel") de Semih Kaplanoglu (Turquia/Alemanha)

- "Der Räuber" ("O ladrão") de Benjamin Heisenberg (Áustria/Alemanha)

- "Na Putu" ("Pelo caminho") de Jasmila Zbanic (Bósnia-Herzegovina/Áustria/Alemanha/Croácia)

- "Shekarchi" ("O caçador") de Rafi Pitts (Alemanha/Irã)

- "The ghost writer" de Roman Polanski (França/Alemanha/Grã-Bretanha)

- "Caterpillar" de Koji Wakamatsu (Japão)

- "En familie" ("Uma família") de Pernille Fischer Christensen (Dinamarca)

- "En ganske snill mann" ("Um homem um pouco terno") de Hans Petter Moland (Noruega)

- "Shahada" de Burhan Qurbani (Alemanha)

- "Eu când vreau sa fluier, fluier" ("Se quiser assoviar, assovio") de Florin Serban (Romênia-Suécia)

- "Greenberg" de Noah Baumbach (EUA)

- "Howl" ("O uivo") de Rob Epstein y Jeffrey Fiedmann (EUA)

- "Jud Suss - Film ohne Gewissen" de Oskar Roehler (Alemanha/Áustria)

- "Kak ya provel etim letom" ("Como acabei neste verão") de Alexei Popogrebsky (Rússia)

- "Mammuth" de Benoît Delépine e Gustave de Kervern (França)

- "San qiang pai an jing qi" ("Uma mulher, uma pistola e uma loja de massas") de Zhang Yimou (China)

- "Submarino" de Thomas Vinterberg (Dinamarca)

- "The killer inside me" ("O assassino interior") de Michael Winterbottom (EUA/Grã-Bretanha)


Fora de Competição:

- "Otouto" de Yoji Yamada (Japão), filme de encerramento.

- "The kids are all right" de Lisa Cholodenko (EUA/Rússia)

- "Mi name is Khan" de Karan Johar (Índia)

- "Exit through the gift shop" de Banksy (Grã-Bretanha)

- "Please give" de Nicole Holofcener (EUA)

- "Shutter island" de Martin Scorsese (EUA)



Participação dos longas brasileiros:

Mostra Paralela - Panorama

Besouro
Direção: João Daniel Tikhomiroff

Mostra Paralela - Panorama Special

Bróder
Direção: Jefferson De


Fucking Different São Paulo
coprodução Brasil / Alemanha
10 Curtas
Direção: Rodrigo Diaz Diaz, participante do Talent Campus em 20

Mostra paralela – Panorama Dokumente

Lixo extraordinário
Direção: Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley

Generation14Plus

Os Famosos e os Duendes da Morte
Direção: Esmir Filho


Forum

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerrerio / Antonio das Mortes
Première mundial da cópia restaurada pela Cinemateca alemã
Direção: Glauber Rocha



Berlinale Shorts

Avós
Direção: Michael Wahrmann





terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Trilha Sonora #10


É impressionante como esse filme, com a queridinha Brook Shields, caiu no esquecimento, mas a sua canção tema continua um sucesso até hoje. Abaixo, segue "Endless Love" na versão orginal com Diana Ross e Lionel Ritchie. Para os apaixonados e românticos em geral... ;=)


domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Fim da Escuridão


Mel Gibson: o retorno


Dois motivos me despertaram o interesse por “O Fim da Escuridão”, filme atualmente em cartaz no circuito comercial brasileiro. O primeiro deles, a presença de Mel Gibson em tela, depois de 8 anos sem atuar dedicando-se apenas à direção (nesses anos, dirigiu “A Paixão de Cristo” e “Apocalypto”). O segundo, a direção de Martin Campbell, o responsável pelo excelente “Cassino Royale”, o melhor longa da franquia “007” desde “Goldfinger”. A união dos dois talentos sugeria um bom resultado e a verdade é que, embora não seja excepcional, “O Fim da Escuridão” é um filme inteligente, muito embora deixe a sensação de que poderia ser melhor.

A trama, repleta de nuances políticas e teorias da conspiração (Gibson parece adorar este tipo de roteiro, basta lembrar que estrelou “Teoria da Conspiração” ao lado de Julia Roberts), narra a história de Thomas Craven, um policial da divisão de homicídios de Boston. Viúvo, sua grande alegria é a filha, Emma (Bojana Novakovic), que acabou de se formar no MIT e está estagiando na empresa de pesquisa nuclear Northmoor. Durante uma de suas folgas, Emma vai visitar o pai. A garota não se sente bem e, quando ambos estão saindo para o hospital, ela é assassinada por um homem misterioso que apenas grita “Craven”. Será que o tiro era mesmo dirigido à garota ou seria ao pai?

A narrativa vai se desenvolvendo a contento durante a primeira metade da projeção. Contudo, a partir de certo ponto, o roteiro de William Monahan (roteirista de “Os Infiltrados”, o que já denota que o mesmo adora uma remake) e Andrew Bovell, adaptado de uma premiada minissérie inglesa (que foi dirigida pelo próprio Campbell), descamba para a previsibilidade quando passamos a conhecer, antes da hora, os verdadeiros responsáveis pela morte da garota - e é bom não mencionar muito mais do que isso, sob pena de colocar spoilers gigantes que estragariam qualquer prazer na sessão. O longa se torna, a partir daí, um drama de vingança meio que dentro de um estilo “Desejo de Matar” dos velhos tempos do Charles Bronson. Aliás, essa também é uma característica de Gibson, cujos filmes em que ele procura uma vingança são uma constante em sua carreira (só para citar dois exemplos clássicos: “Ma Max” e “Coração Valente” se encaixam nessa linha). Contudo, mesmo nesta parte, o filme não se torna ruim, tendo em vista o conhecido talento de Campbell para dirigir cenas ação com sua técnica perfeita e momentos que ainda rendem alguns sustos que resultam de uma edição muito bem realizada.

Por outro lado, o texto só não descamba totalmente para a ação devido às presenças tanto de Gibson quanto de Ray Winstone, o qual faz o papel do misterioso Jedburgh, personagem contratado para limpar a sujeira que parece sair do controle. Os momentos em que os dois estão em cena são ótimos, com diálogos bem escritos e ótimas caracterizações. Entretanto, é inegável que todo o potencial de crítica ao sistema, com seus meandros e podres desconhecidos por 99% dos cidadãos, acaba se diluindo e perdendo a força e, ao término da sessão, temos a sensação apenas de termos visto um thriller bem engendrado e com a marcante figura de Mel Gibson. Afinal, Hollywood, na grande maioria dos casos, acaba diminuindo a qualidade dos projetos originais que resolve adaptar para o modelo palatável aos americanos. Um filme que poderia causar bem mais impacto não fosse a mediocridade dos produtores ianques. Gostinho de “poderia ser melhor” vai ficar na sua boca.


Cotação: * * * (três estrelas)
Nota: 7,5

Eu quero esse pôster # 5


Esse pôster do remake de "Funny Games", filme originalmente concebido por Michale Haneke em 1997 e refilmado 10 anos depois pelo próprio, é realmente uma obra de arte, já tendo até entrado em listas de melhores da década.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Guerra ao Terror


Guerra Real


Percebo que as mulheres são vítimas de um certo preconceito quando assumem a direção de um projeto cinematográfico. Frequentemente, são vistas apenas como diretoras de filmes femininos (caso emblemático de Nora Ephron), não possuindo talento e/ou desprendimento para criar obras de arte em uma perspectiva masculina ou sobre temas masculinos e mesmo sociais. Essa perspectiva atinge até mesmo as premiações, sendo notório que o Oscar jamais premiou uma mulher na categoria de melhor direção. Aliás, é sabido que Hollywood é um poço de machismo, indústria onde até hoje atores ganham mais do que atrizes. Pois bem, buscando quebrar tais paradigmas eis que surge Kathryn Bigelow, por muito tempo mais conhecida como a ex-esposa de James Cameron, com um filme pancada, exalando testosterona, sobre um tema caro e complicado para os norte-americanos: a guerra no Iraque.

Nada em “Guerra ao Terror” lembra um filme feminino. Aliás, raras são as mulheres que aparecem ao longo da projeção (que eu lembre, elas se limitam a uma árabe e à esposa do personagem central). O que sobra são cenas fortes, impactantes, algumas mesmo de embrulhar o estômago. Uma forma sincera, realista e coerente para tratar dos 39 últimos dias de um grupo de soldados em território iraquiano. Apesar de parecer um tempo relativamente curto, a verdade é que cada um dos militares não sabe se estará vivo até o dia seguinte. E essa circunstância vai se mostrando de forma horrendamente cruel a cada morte de um companheiro, geralmente vítimas de explosivos espalhados em Bagdá por grupos terroristas. E é exatamente desarmando bombas que opera o sargento William James (Jeremy Renner, ótimo e indicado ao Oscar), homem de personalidade forte, que tem no seu ofício uma verdadeira obsessão. Na verdade, não se sabe se é uma obsessão pela tarefa que executa ou uma oculta vontade de morrer. Suas ações são muitas vezes inconsequentes, expondo-se desnecessariamente a riscos que poderiam ser minorados. Um homem transformado em um autômato de vontade única, em decorrência da brutalidade do conflito? Talvez e, com certeza, esse é um dos questionamentos que Bigelow engendra (e que já havia sido elaborado por Stanley Kubrick em “Nascido Para Matar”).

Ao lado de James, também acompanhamos as vidas do sargento Sanborn (Anthony Mackie) e do soldado Eldridge (Brian Geraghty), ambos ansiosos pelo retorno ao lar. Este último, especialmente, parece ser o personagem escalado para representar as angústias mais comuns aos militares em área de conflito, principalmente através de seus diálogos com o coronel Cambridge, médico que funciona como psicólogo. Já Sanborn mantém uma relação conflituosa com James e, nesse ponto, o roteiro se escora um pouco na velha muleta de parceiros que se antipatizam de início para depois estabelecer uma relação de amizade, muito comum em filmes de duplas policiais. De qualquer forma, são personagens bem construídos e, antes de tudo, humanos. Uma das características interessantes, ademais, deste longa-metragem é que a empatia com os personagens não surge à primeira vista. Nos primeiros minutos, parece que não nos envolveremos com os dramas mostrados. Tudo parece seco e distante, um relato quase documental dos acontecimentos. Contudo, a força dos personagens e da narrativa se impõe e, aos poucos, à medida que o lado humano de cada um deles é evidenciado, passamos a torcer por seus destinos. Uma forma interessantíssima de aproximação com a narrativa resultado do roteiro bem escrito por Mark Boal e a direção segura de Bigelow.

Direção que, por sinal, se espraia de forma competente através de outros aspectos da produção. A fotografia é muito bem cuidada e as cenas mais fortes são filmadas com precisão, sem disfarçar o impacto no público que possam gerar. É verdade que em alguns momentos ela se mostra uma tanto sensacionalista (como em algumas sequências em câmera lenta apenas para mostrar um cartucho de fuzil caindo no solo), mas, no geral, tudo soa muito eficiente e orgânico, com um tom de realidade enorme até mesmo como resultado das locações realizadas nos Oriente Médio (Jordani e Kuwait). A sensação de insegurança acaba sendo transportada para cada espectador, gerando, por vezes, a impressão de que estamos no campo de batalha.

O filme teve uma trajetória curiosa no Brasil, onde foi lançado direto em DVD, pois que não havia muitas perspectivas de mercado para o mesmo. Agora, depois de se tornar um querido da crítica e um dos favoritos ao Oscar, ganhará chance nos cinemas a partir desta sexta-feira, dia 05. Recomendável ver no sala escura. O impacto deve ser ainda maior. E imagino que a Academia não vai perder a oportunidade de premiar uma mulher como melhor diretora nesta ocasião. Não será nenhuma injustiça se ela vier a ganhar a briga conjugal com o ex-marido James Cameron.

Obs. As participações de Ralph Fiennes e Guy Pierce são bem pequenas.


Cotação: * * * * ½ (quatro estrelas e meia)
Nota: 9,5.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Oscar 2010 - Indicados


Eis a lista dos indicados ao Oscar 2010. Nenhuma grande novidade. "Avatar" lidera com 9 indicações. A premiação acontecerá no dia 07 de março e terá apresentação de Steve Martin e Alec Baldwin. Depois, tentarei escrever alguns comentários. Agora, estou sem tempo. Vejam abaixo:

Melhor Filme
Avatar
Um Sonho Possível (The Blind Side)
Distrito 9
Educação
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
Preciosa - Uma História de Esperança
Um Homem Sério
Up - Altas Aventuras
Amor Sem Escalas


Melhor Diretor
Jason Rietman (Amor sem Escalas)
James Cameron (Avatar)
Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios)
Lee Daniels (Preciosa)
Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror)


Melhor Ator
Jeff Bridges, por Crazy Heart
George Clooney, por Amor Sem Escalas
Colin Firth, por Direito de Amar
Morgan Freeman, por Invictus
Jeremy Renner, por Guerra ao Terror


Melhor Atriz
Sandra Bullock, por Um Sonho Possível (The Blind Side)
Helen Mirren, por The Last Station
Gabourey "Gabby" Sidibe por Preciosa - Uma História de Esperança
Carey Mulligan, por Educação
Meryl Streep, por Julie &Julia


Melhor Ator Coadjuvante
Matt Damon, por Invictus
Christopher Plummer, por The Last Station
Woody Harrelson, por The Messenger
Stanley Tucci, por Um Olhar no Paraíso
Christoph Waltz, por Bastardos Inglórios


Melhor Atriz Coadjuvante
Maggy Gyllenhaal, por Coração Louco
Mo'Nique, por Preciosa - Uma História de Esperança
Anna Kendrick, por Amor Sem Escalas
Vera Farmiga, por Amor Sem Escalas
Penélope Cruz, por Nine


Melhor Roteiro Original
Up - Altas Aventuras
Bastardos Inglórios
Guerra ao Terror
The Messenger
A Serious Man

Melhor Roteiro Adaptado
Distrito 9
Educação
In the Loop
Preciosa
Amor Sem Escalas

Melhor Filme Estrangeiro
Ajami
O Segredo de Seus Olhos
A Teta Assustada
Un Prophète
A Fita Branca

Melhor Animação
Up - Altas Aventuras
The Secret of Kells
Coraline e o Mundo Secreto
A Princesa e o Sapo
O Fantástico Sr. Raposo


Melhor Fotografia
Avatar
Harry Potter e o Enigma do Príncipe
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
A Fita Branca

Melhor Direção de Arte
Avatar
O Imaginário Mundo do Dr. Parnassus
Nine
Sherlock Holmes
The Young Victoria


Melhor Figurino
Bright Star
Coco Antes de Chanel
O Imaginário Mundo do Dr. Parnassus
Nine
The Young Victoria


Melhor Som
Avatar
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
Star Trek
Up - Altas Aventuras


Melhores Efeitos Sonoros
Avatar
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
Star Trek
Transformers: A Vingança dos Derrotados


Melhor Montagem
Avatar
Distrito 9
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
Preciosa


Melhores Efeitos Visuais
Avatar
Distrito 9
Star Trek


Melhor Maquiagem
Il Divo
Star Trek
The Young Victoria


Melhor Trilha Sonora
O Fantástico Sr. Raposo
Guerra ao Terror
Sherlock Holmes
Up - Altas Aventuras
Avatar


Melhor Canção
Almost There, de A Princesa e o Sapo
Down in New Orleans, de A Princesa e o Sapo
Loin de Paname, de Paris 36
Take It All, de Nine
The Weary Kind, de Coração Louco


Melhor Curta-Metragem (animação)
French Rost
Granny O'Grimm's Sleeping Beaty
The Lady and the Reaper
Logorama
A Matter of Loaf and the Death


Melhor Curta-Metragem
The Door
Instead of Abracadabra
Kavi
Miracle Fish
The New Tenants

Melhor Curta-Metragem (documentário)
China's Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province
The Last Campaign of Governor Booth Gardner
The Last Truck: Closing of a GM Plant
Music by Prudence
Rabbit à la Berlin

Melhor Documentário
Burma VJ
The Cove
Food, Inc.
Which Way Home
The Most Danger Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sindicato dos Diretores - Guerra ao Terror

O relevante DGA (Directors Guild Awards), premiação da associação de diretores de Hollywood, revelou seu vencedor.

Kathryn Bigelow foi preamiada na edição 2010 por seu trabalho em Guerra ao Terror. Ela superou James Cameron (Avatar), Lee Daniels (Preciosa), Jason Reitman (Amor sem Escalas) e Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios). Esta é a primeira vez que uma mulher é premiada em 61 anos de existência do Sindicato. No entanto, creio que o prêmio deveria ir para Tarantino por seu "Bastardos Inglórios" (na minha opinião, o melhor filme do ano).

Desde de 1948, em apenas 6 oportunidades o premiado no DGA não foi premiado no Oscar. Os indicados ao prêmio da Academia serão conhecidos amanhã, dia 02 de fevereiro. Procurarei postar aqui o quanto antes.

sábado, 30 de janeiro de 2010

"O Portal do Paraíso": o maior fracasso comercial do cinema


Obs. O Texto abaixo não é uma resenha ou crítica, pois ainda não tive a oportunidade de assistir ao filme. Trata-se apenas de um texto que busca as curiosidades sobre a produção, além de traçar, de forma superficial, a sua temática. Uma vez advertido(a), acompanhe as linhas se assim o desejar.

Esta semana, “Avatar” atingiu o status de longa-metragem de maior bilheteria de todos os tempos, ultrapassando o sucesso anterior de James Cameron, “Titanic” (mesmo que, para isto, se valha de artifícios como ingressos mais caros para salas de projeção em 3D e valores não atualizados para a arrecadação de “Titanic”). Mas, talvez muita gente se faça a pergunta: “Se ‘Avatar’ é o maior sucesso, qual seria o filme que resultou no maior fracasso da indústria cinematográfica?”.

Provavelmente, a resposta que muitos críticos e especialistas darão será “O Portal do Paraíso” (Heaven’s Gate), filme do diretor Michael Cimino lançado em 1980, e o mais caro realizado até então. Custou cerca de US$ 45 milhões aos cofres da United Artists o que, em valores atualizados, resultaria em uma produção de aproximadamente US$ 200 milhões, cara até para os padrões perdulários do cinema atual. A verdade é que o longa teve resultados catastróficos nas bilheterias, arrecadando apenas US$ 1 milhão, o que redundou em um prejuízo de 98%, levando a United à falência. Desde então existe uma aura de maldição que paira sobre o longa, não tendo passado por processo de reabilitação nem mesmo nesta era de DVD-Blu Ray (muito embora exista a disponibilidade em DVD nos USA).

O mais curioso é que o filme tem em sua direção e elenco nomes consagrados que jamais fariam prever tamanho desastre. O diretor, Michael Cimino, vinha da láurea do Oscar, recebida em 1979 pelo seu “O Franco Atirador” (1978), filme sobre as sequelas da guerra do Vietnã sobre um grupo de amigos operários recrutados para o conflito. Tanto o filme quanto Cimino foram oscarizados, além da produção ter ido muito bem nas bilheterias. Além disso, no elenco de “O Portal do Paraíso” estavam nomes como John Hurt, Isabelle Hupert (sim, uma das musas do cinema francês), Christopher Walken (que havia trabalhado com Cimino em “O Franco Atirador” e levado o Oscar de coadjuvante por esse trabalho), Kris Kristofferson, entre outros. Mas, então, o que deu tão errado?



Muito provavelmente, o fracasso teve como principal fator uma inadequação ao momento pelo qual passavam os EUA e seu público, que já estava se cansando de ver nas telas expiações do Vietnã, além de acompanhar, ao longo dos anos 70, casos de corrupção como o de Watergate dominando os noticiários. Ou seja, o ambiente estava propício para produções de tom escapista como as de Steven Spielberg e George Lucas com seus contatos com extra-terrestres e guerras estelares. E a temática de “Heaven’s Gate” era exatamente o contrário disto que o público estava esperando. O longa trata de um episódio um tanto obscuro da história dos EUA, um conflito ocorrido no Condado Johnson, no Estado do Wyoming, por volta de 1890, onde rancheiros contrataram exércitos de mercenários para conter os avanços dos imigrantes que vinham em grandes caravanas para a região. Devido aos conflitos surgidos entre fazendeiros e colonos e a incapacidade do Estado de exercer seu poder, além de prover a manutenção de serviços básicos como água e saneamento, uma verdadeira faxina demográfica foi realizada para restabelecer a ordem e o “progresso” (parece o lema da nossa bandeira). Cimino, desta forma, aproveitou o tema para realizar fortes críticas à formação e hipocrisia da sociedade americana, desmistificando a conquista do Oeste.

Tamanha autocrítica nunca costumou render muitos pontos com o público estadunidense (essa não é, vale frisar, uma virtude que lhe seja frequente). Ademais, os críticos torceram o nariz para a obra, talvez influenciados pelos inúmeros boatos que rondaram a produção. Um deles falava que Cimino teria gastado horrores construindo uma verdadeira cidade no meio do nada apenas para filmar uma única sequência, além de fazer todo elenco esperar horas somente para bater uma foto que constaria em uma das cenas. Reza a lenda que muitos da equipe o chamavam pelas costas de “O Aiatolá”. Ridicularizado até em programas de TV, Cimino caiu do seu pedestal de gênio (recentemente conferido pelo citado “O Franco Atirador”). E o seu ambicioso projeto se transformou em um monumental fracasso.

Alguns cineastas, como Martin Scorsese e Francis Ford Copolla, consideram o filme uma obra-prima incompreendida. Talvez seja. Infelizmente, até hoje ainda não tive a oportunidade de assistir e comprovar se tão prestigiosos diretores estão com a razão. É provável que estejam. Vale lembrar que durante anos, “Cidadão Kane” foi relegado pela crítica e nunca chegou a ser sucesso de público. Obras geniais costumam ser incompreendidas em seu tempo. De qualquer forma, obra-prima ou porcaria monumental, resta a curiosidade para os cinéfilos em descobrir um filme que pode ser taxado de “o maior fracasso comercial de todos os tempos”. Fica a dica.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sindicato dos Produtores - Vencedores


Meio de campo embolado para o Oscar. Se "Avatar" levou o Globo de Ouro de melhor filme-drama, o Sindicato dos Produtores de Hollywood (PGA) deu o prêmio para "Guerra ao Terror". Vamos ver como o Oscar vai resolver a briga entre o ex-casados James Cameron e Kathryn Bigelow. Os outros premiados foram "Up - Altas Aventuras", como melhor animação, e o melhor documentário foi "The Cove". Pelo menos "Up" já é mais previsível que nono mês de gravidez...

domingo, 24 de janeiro de 2010

Sag 2010 - Premiados


Ontem tivemos a premição do Sindicato dos Atores e o mais importante do resultado foi confirmar o favoritismo de alguns nomes e estabelecer mais um outro como favorito ao Oscar de 2010. Jeff Bridges, Christoph Waltz e Mo'nique levaram os prêmios de melhores ator, ator coadjuvante e atriz coadjuvante, respectivamente, consolidando seus nomes ainda mais na corrida pelo careca dourado. E Sandra Bullock agora leva vantagem pelo prêmio de melhor atriz, já que venceu ontem a disputa contra Meryl Streep. Digamos que agora ela está com uma cabeça de vantagem no páreo. O que não significa vitória. Basta lembrar que ano passado Meryl Streep levou o SAG, mas a vencedora do Oscar foi Kate Winslet. "Bastardos Inglórios" levou o prêmio de melhor elenco (categoria não oscarizada). Prêmio muito justo para o longa de Tarantino.

Amor Sem Escalas


Não é uma comédia romântica


O grande objetivo de Jason Reitman, diretor deste “Amor Sem Escalas”, em sua carreira parece ser o de tratar temas sérios e pesados com leveza. O caso mais emblemático é “Juno”, longa-metragem de 2007 em que se mostrava uma adolescente às voltas com uma gravidez precoce, mas que decide não abortar, escolhendo o caminho mais difícil (mas também de muito maior integridade) de continuar a gravidez e entregar a criança para adoção. Um verdadeiro libelo anti-aborto construído de forma especial a tocar seu público-alvo: os adolescentes. Com humor e inteligência (além de uma grande interpretação de Ellen Page), Juno McGuffin tornou-se uma personagem memorável e o longa-metragem recebeu, com justiça, o Oscar de melhor roteiro original.

Aqui, Reitman busca tratar de outras temáticas difíceis com uma abordagem leve, bem-humorada, mas seu sucesso não é tão grande quanto no citado longa-metragem. A narrativa mostra Ryan Bingham, personagem de George Clooney, um profissional encarregado de comunicar demissões aos funcionários de diversas empresas. Um momento doloroso que os patrões se recusam a fazer e deixam a batata-quente para “especialistas”. Para tanto, Ryan desenvolve técnicas para tornar o momento o mais humano possível, sem, contudo, se envolver emocionalmente com as situações. Em decorrência de sua atividade, Ryan percorre todo o território americano e desenvolve o hobby de acumular milhas de viagem (seu objetivo é atingir 10 milhões de milhas, coisa que poucos alcançaram). Ele, ainda, ministra palestras onde afirma que, para obter sucesso, as pessoas devem se livrar de seus vínculos afetivos, pois que esses seriam “pesos” que cada um levaria permanentemente em seus ombros. Assim, por esta síntese, já fica claro que este é um daqueles longas de “transformação”, tipo do filme onde o protagonista passará por situações que mudarão sua forma de enxergar a vida. No caso, isso realmente acontece quando ele encontra duas mulheres. Uma delas, Alex (Vera Farmiga, bonita, mas em uma atuação sem brilho especial e que me fez questionar o motivo de suas recentes indicações a prêmios como coadjuvante por este trabalho) é como uma versão de feminina de Ryan, enquanto Natalie (Anna Kendrick, esta sim com um ótimo desempenho) é uma novata na função, cheia de novas ideias como a de realizar as demissões por videoconferência, trazendo desta forma um grande corte em gastos com viagens.

Claro que não existe problema em se fazer um filme sobre as mudanças na personalidade de um personagem. Grandes e memoráveis clássicos do cinema tratam destas transformações, como é o caso de “...E o Vento Levou” ou mesmo “A Felicidade Não Se Compra”. E nesta linha, Reitman realiza um bom trabalho. As mudanças por que passa Bingham não soam artificiais e a competente atuação de Clooney (que fará as mulheres se derreterem ainda mais que de costume) nos fazem acreditar que elas já estavam de fato latentes no personagem, esperando apenas que algo as despertasse. A sua atitude perante Natalie parece ser a de um irmão mais velho que está ensinando para a caçula o caminho das pedras, talvez procurando compensar a ausência na vida de suas irmãs, especialmente daquela que está para casar (e, em uma certa sequência, percebemos o quanto ele se sente culpado pos esse distanciamento). Em verdade, pode-se afirmar que Ryan tem, tal como aqueles que dispensa de seus empregos, um grande medo de ser “demitido” e por isso evita estabelecer relações afetivas fortes e constantes. Claro, isso traz como conseqüência uma inevitável solidão, a qual ele procura esconder de si mesmo (e ministrar palestras dizendo exatamente o contrário é uma boa forma de convencer a si mesmo).

Entretanto, alguns problemas surgem no roteiro (escrito pelo próprio Reitman em parceria com Sheldon Turner, em adaptação do livro de Walter Kim) ao tentar estabelecer nuances cômicas em alguns momentos, ou seja, a leveza salientada acima que Reitman busca imprimir em temas mais sérios. Alguns destes momentos surgem forçados, colocados ali apenas como forma de “jogar para a galera” e garantir algumas risadas fáceis (a piada sobre masturbação ainda no início do filme é um bom exemplo). O riso não soa orgânico como em “Juno”, personagem naturalmente talhada para ótimas situações cômicas. Ademais, o desenrolar da narrativa acaba por trazer algumas incongruências, principalmente para a personagem de Vera Farmiga (e prefiro não comentar mais sobre este aspecto, sob pena de revelar spoilers gigantes). Talvez tenha faltado a mão de uma Diablo Cody (roteirista de “Juno”) para que tais falhas da narrativa fossem supridas ou, ao menos, minoradas. De qualquer forma, me pareceu estranho o prêmio de melhor roteiro no Globo Ouro em detrimento de “Bastardos Inglórios” (pelo menos não irão bater de frente no Oscar, já que um é adaptado e o outro é original). Por outro lado, a direção de Reitman continua segura, com um ritmo ditado por uma edição competente, além de sempre criar belas cenas pontuadas por canções pop perfeitamente adequadas.

Alguns podem apontar que o filme seria datado por ter como um dos seus motores a crise econômica que resultou em demissões em massa, o que logo o tornaria “envelhecido” em pouco tempo. Discordo deste posicionamento. “Amor Sem Escalas” (título em português infeliz, pois traz logo a impressão de tratar-se de uma comédia romântica) é, antes de tudo, uma obra sobre a solidão e incomunicabilidade dos dias de hoje. E, embora não atinja o mesmo padrão de qualidade de seu longa anterior, Reitman ainda assim nos entrega um bom filme que talvez faça você refletir sobre como está enxergando a sua própria vida. Para aqueles dispostos a mudar.


Cotação: * * * * (quatro estrelas)
Nota: 9,0.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Brasil fora do Oscar (mais uma vez)


Como era de se esperar, "Salve Geral" não impressionou ninguém e ficou fora da corrida ao Oscar 2010. Como faz todo ano, a Academia de Hollywood divulgou uma lista com 9 pré-selecionados para a disputa, dos quais sairão os 5 finalistas, e o medíocre longa brasileiro não está entre eles. O maior destaque na lista é "A Fita Branca", longa-metragem de Michael Haneke que já recebeu a Palma de Ouro em Cannes e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Os restantes você pode conferir abaixo (vejam que os nossos hermanos argentinos e peruanos estão com os seus candidatos no páreo):

* Argentina, El Secreto de Sus Ojos, Juan Jose Campanella
* Austrália, Samson & Delilah, Warwick Thornton
* Bulgária, The World Is Big and Salvation Lurks around the Corner, Stephan Komandarev
* França, Un Prophete, Jacques Audiard
* Alemanha, The White Ribbon, Michael Haneke
* Israel, Ajami, Scandar Copti e Yaron Shani
* Cazaquistão, Kelin, Ermek Tursunov
* Holanda, Winter in Wartime, Martin Koolhoven
* Peru, The Milk of Sorrow, Claudia Llosa

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Globo de Ouro 2010 consagra "Avatar"! (?)


A entrega da 67ª edição do Globo de Ouro, prêmio entregue pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, teve ontem algumas surpresas. A maior delas, com certeza, foi a premiação de “Avatar” tanto na categoria de melhor filme em drama, como melhor diretor. Mas por que isso surpreende? Afinal, o longa de James Cameron não é o filme do momento, já ultrapassando a marca dos 1,4 bilhão de dólares em arrecadação, ainda com um ritmo que pode ameaçar a supremacia de “Titanic”? Ademais, o filme, apesar de alguns problemas de roteiro, não é bom? Tudo isso é verdade. Mas o fator surpresa se deve ao fato de que não era ele que vinha sendo premiado nas diversas prévias do Oscar que acontecem a partir do fim de dezembro. Salvo algum equívoco (afinal, pode haver algum prêmio do qual não tive conhecimento), este é o primeiro que “Avatar” leva, superando “Guerra ao Terror”, longa-metragem de Kathryn Bigelow (ex-esposa de Cameron), que vinha levando quase tudo até agora (só havia perdido em poucas ocasiões para “Amor Sem Escalas”, de Jason Reitman, que aqui levou o prêmio de melhor roteiro). No momento da entrega dos globos, era possível perceber o sorriso amarelo de Bigelow, principalmente na categoria melhor filme em drama. Possivelmente, ela começou a perceber que o momento de seu longa pode estar passando (que saiu da noite, por sinal, de mãos abanando) e que “Avatar” pode acabar faturando o Oscar, alavancado pela bilheteria gigantesca mencionada acima. Vale dizer ainda que o filme tem uma mensagem anti-colonialista e ecológica de fácil apreensão para as massas, o que pode agradar a Academia. Contudo, a entrega do prêmio de melhor diretor para Cameron é realmente justa. Afinal, ele trabalhou anos a fio para realizar o seu projeto, tido inicialmente como algo um tanto delirante. Mas é bom alertar que, já faz algum tempo, o Globo de Ouro não vem se mostrando uma prévia fiel dos resultados da Academia.

Outros momentos interessantes da noite:

- A entrega do prêmio Cecil B. DeMille para Martin Scorsese (aplaudido de pé, claro) pelo conjunto de sua obra, durante a qual foi exibido um clipe com imagens dos seus muitos ótimos filmes. Estavam lá “Taxi Driver”, “Touro Indomável”, “Alice Não Mora Mais Aqui”, “Os Infiltrados”, “Os Bons Companheiros”, entre outros, além de cenas de seu próximo longa-metragem, “Ilha do Medo”, a ser lançado e protagonizado por Leonardo Di Caprio, o qual, inclusive, fez a apresentação juntamente com Robert De Niro (como era de se esperar).


- As premiações de Meryl Streep e Sandra Bulock nas categorias de melhor atriz em comédia/musical e melhor atriz em drama, respectivamente. Decididamente, são as grandes concorrentes à estatueta da Academia e será difícil prever quem levará a melhor, já que ambas vivem grandes momentos em suas carreiras. Talvez a premiação do Sindicato dos Atores, no próximo sábado, possa nos dar um indicativo mais forte. De qualquer forma, Meryl foi muito feliz em lembrar que todos que ali estavam poderiam ajudar com quantias generosas àqueles vitimados pela tragédia que abalou o mundo nos últimos dias (Bullock já o fez, doando 1 milhão de dólares). Muitos dos presentes, inclusive, colocaram pequenas fitas no peito em apoio à vítimas do terremoto no Haiti.

- A entrega do prêmio de melhor ator em comédia/musical para Robert Downey Jr. por Sherlock Holmes. As atuações são o que, realmente, livram o filme da mesmice e é bom ver que um ator também pode ser reconhecido em trabalhos como o de “Sherlock”, tal como ano passado Heath Ledger levou o prêmio por “O Cavaleiro das Trevas”. Downey Jr., ademais, discursou com seu estilo cínico-divertido, afirmando que nem sabia o que falar, pois que tinham dito a ele que Matt Damon seria o premiado. O cinema precisa de astros assim.

- A surpresa de “Se Beber, Não Case” levando o prêmio como melhor filme em comédia ou musical. É verdade que o filme é pra lá de engraçado e foi um grande sucesso, mas ele tinha pouco jeito de premiado. Também foi interessante e engraçado ver Mike Tyson subindo ao palco com o restante do elenco.

- Os dois prêmios que “Crazy Heart” colocou na bagagem, derrubando até Sir Paul McCartney (que estava presente) na categoria de melhor canção. O filme levou ainda o prêmio de melhor ator em drama com Jeff Bridges (aplaudido de pé), que por sua vez já está se transformando no favorito ao Oscar.

- Christoph Waltz já se tornou a grande barbada para os Academy Awards na categoria de melhor ator coadjuvante. Ele está levando tudo e com inteira justiça por seu coronel Hans Landa em “Bastardos Inglórios”. Mo’nique, premiada como atriz coadjuvante por “Preciosa”, ganha força na corrida pelo careca dourado. E outra barbada é “Up” como melhor animação. Já está virando rotina. Sempre dá Pixar...

- Decote da noite: Halle Berry! Pena que ela não teve tanta exposição quanto a Kate Winslet no ano passado...

- Outro grande momento: a participação de Sophia Loren apresentando o prêmio de melhor filme estrangeiro (que foi para “A Fita Branca”, filme que já levou a Palma de Ouro em Cannes). Qualquer fã de cinema é fã também de Loren e não é à toa que ela foi aplaudida de pé.

Bom, é isso. Abaixo vocês conferem a lista completa dos premiados em cinema. E, mais uma vez repito, não me perguntem sobre TV, ok? Esse blog é sobre cinema! Procurem este espaço para informações sobre os premiados do SAG no próximo sábado. Até lá!

domingo, 17 de janeiro de 2010

Julie & Julia


Nem feminista, nem “de mulherzinha”: um filme feminino.


É muito provável que você já tenha assistido a um dos filmes da diretora Nora Ephron, uma das expoentes das comédias românticas que dominaram o fim dos anos 80 e os anos 90. Afinal, quem nunca viu “Harry & Sally” (que não foi dirigido por ela, mas teve o roteiro de sua autoria indicado ao Oscar), longa-metragem já clássico que catapultou Meg Ryan ao estrelato, ou ainda “Sintonia de Amor” e “Mensagem Para Você”, também estrelados por Meg ao lado do super-astro Tom Hanks? São familiares, não? Pois bem, com este “Julie & Julia”, Ephron provavelmente realiza seu melhor filme desde “Sintonia de Amor”, alcançando uma maturidade e equilíbrio talvez ainda inéditos em sua carreira.

Aqui, Ephron tira o foco das relações amorosas para estabelecer o paralelo entre as vidas de duas mulheres com muito em comum, embora vivam em épocas distintas. Uma delas é Julia Child (Meryl Streep), famosa cozinheira norte-americana que, por meio de um livro e um popular programa de TV, fez a classe média americana passar a ter interesses gastronômicos além de um mero hambúrguer, sorvete, enlatados ou tortas de maçã. Já Julie Powell (Amy Adams) era uma funcionária pública que tentou uma frustrada carreira como escritora, mas que tem a ideia de escrever um blog onde relata a missão que estabeleceu para si mesma de, em um prazo de 365 dias, levar a cabo 524 receitas da mestra Julia Child.

O mais interessante, como sempre, não está nas metas que ambas alcançaram, mas no caminho que levou a este sucesso. Tanto Julia quanto Julie são mulheres que encontram na gastronomia uma nova dimensão para suas vidas. Mesmo sendo bem casadas, com ótimos maridos, elas sentem falta de algo que constitua uma plena realização individual. Julia não teve filhos (já havia casado com quase 40 anos e isso provavelmente dificultou tal intento) e viu na culinária algo para tirá-la da trivialidade de uma vida confortável como esposa de um diplomata em Paris. Não que considerasse sua vida ruim, longe disso. Julia era uma mulher alegre e otimista, que via nas relações humanas também uma maneira de se realizar. Mas, como ela mesma afirmava, não sabia e nem queria ser uma inútil. Por seu turno, Julie exerce uma função pública desgastante, onde tem de ouvir as reclamações e mesmo desabafos dos cidadãos que ligam para um serviço de tele-atendimento. Ademais, vê-se fracassada por nunca conseguir terminar os seus projetos, especialmente o maior deles: escrever um livro. São duas mulheres que sabem a importância e o valor da vida familiar (no caso de Julie, ainda descobrindo e aprendendo a valorizar), mas que também carecem de realizações individuais mais plenas. São mulheres femininas que buscam maneiras de afirmação, mas sem hastearem bandeiras (talvez até mesmo sem se darem conta disso) e com seus exemplos trazendo muito mais benefícios do que discursos feministas-sexistas inflamados. Ademais, se o longa não tem ares feministas, ao mesmo tempo também não descamba para o “filme de mulherzinha”. Não há conto de fadas, apenas mulheres tentando dar um novo norte às suas vidas.

Ephron desenvolve muito bem esse paralelo através de recursos de edição e mesmo trilha sonora, estrutura que lembra muito “As Horas”, de Stephen Daldry (também com Meryl Streep no elenco). Sempre quando passamos de uma época para outra, temos uma mudança na trilha, fazendo com que o espectador perceba a transição não só através das imagens. O roteiro (escrito pela própria Nora Ephron, baseado nos livros “My Life In France” e “Julie e Julia”, ambos de Julia Child e Julie Powell, respectivamente) desenvolve-se com uma leveza perfeitamente adequada e eu me senti especialmente identificado com os momentos em que se mostra o nascimento do blog de Julie. É verdade que um comentário no blog já traz uma alegria para seu autor, principalmente quando esse comentário vem de alguém fora de seu círculo de amizades, pois dá logo a sensação de que o veículo está atingindo um certo “sucesso”...:=). Entretanto, a narrativa sofre pequenos deslizes ao tentar encaixar algumas tiradas de tons picantes que seriam mais adequadas a uma comédia romântica, talvez tiques de uma diretora extremamente acostumada a esse gênero.

Além disso, em uma obra com tais características, a participação dos atores se faz essencial e, possivelmente, talvez seja esta a maior razão do sucesso de “Julie & Julia”. Amy Adams está muito bem no papel da blogueira, sem excessos, sabendo em que momentos conferir uma maior carga de emoção à personagem. Enquanto isso, Meryl Streep consegue atingir um nível de entrega talvez ainda maior do que o habitual. Sua Julia está perfeita, com todas as nuances da “original”, ao mesmo tempo em que nunca aparenta artificialidade. Consegue, inclusive, interpretar o andar de uma pessoa bastante alta (como no caso de Julia), parecendo ter realmente 1,88m (ao contrário dos seus 1,68m verdadeiros) e não apenas por efeitos de câmera e saltos altos. Não é à toa que ela já vem amealhando prêmios por este trabalho e deve receber mais uma indicação ao Oscar (que será a décima...quanto? Já perdi as contas...). E se vier a ser oscarizada será com muito mérito.

Streep é uma daquelas atrizes que realmente devem inspirar milhões de jovens a seguirem esta carreira, da mesma forma que Julia inspirou Julie a desbravar novos caminhos na sua vida. Essa conexão que pode se estabelecer entre pessoas que nunca chegaram a se conhecer é outra vertente interessante do filme. Mesmo distantes e vivendo em épocas distintas, seres humanos podem ter os mesmo anseios e dificuldades, ou seja, nunca estamos sozinhos em nossas vicissitudes, havendo sempre alguém que já passou ou passa pelas mesmas dores. É provável que, ao término do longa, você tenha se identificado com algumas das situações mostradas. E isso, com certeza, já lhe fará sair satisfeito com o dinheiro empregado na sessão.


Cotação: * * * * (quatro estrelas)
Nota: 9,0