terça-feira, 14 de outubro de 2008
Aviso: "Blindness" em Natal!
domingo, 12 de outubro de 2008
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias
"A vida apenas, sem mistificação"Vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2007, o filme é mais um dos grandes representantes do cinema romeno atual. Mas, ao contrário de outras produções do país de Nadia Comaneci, geralmente com um tom leve e bem-humorado (como “A Morte do Senhor Lazarescu”, de Cristi Puiu), Mungiu nos oferece uma obra pesada, áspera, tanto quanto o tema que pretendeu abordar. Assim, de antemão os espectadores devem estar avisados que não estão diante de uma versão romena de “Juno”, a famosa produção com Ellen Page que concorreu a vários Oscars este ano. O longa sequer possui trilha sonora e toda ação transcorre ao longo de um único dia nas vidas de Otilia (interpretada por Anamaria Marinca) e Gabriela (Laura Vasiliu), amigas que dividem o mesmo quarto na república estudantil onde moram.
A primeira cena já nos mostra um despertador em cima de uma mesa, elemento que faz o espectador perceber que o tempo terá uma influência significativa ao longo da projeção. As duas amigas planejam realizar algo que não pode ser dito abertamente, isso fica claro desde o início. Com uma câmera nervosa, que acompanha os passos das protagonistas em longos planos-seqüência (e também quase sempre fixada em seus rostos, estejam elas sentadas ou em pé), Mungiu nos mostra o caminho tormentoso das jovens numa Romênia (o ano é o de 1987), que ainda se vê às voltas com a carência de itens de consumo típicos do mundo capitalista. Não é necessário ser muito inteligente para entender que caminho tormentoso estou mencionando. Gabriela está grávida e procura fazer um aborto, sendo ajudada por Otilia. Falar mais do que isso sobre o roteiro do longa se torna perigoso, pois posso acabar revelando elementos da narrativa que, preferencialmente, não devem ser conhecidos por aqueles que ainda não a viram. O que posso mencionar é que o roteiro fará com que a platéia repense constantemente seus julgamentos, sejam eles “conservadores” ou “liberais”.
Alguns afirmam que a posição do diretor romeno resulta contra a uma Romênia antiquada, não apenas com relação ao sistema político-econômico, mas também com relação aos seus valores. Essa visão me parece extremamente simplista. Mungiu, em nenhum momento parece agir apaixonadamente. E as circunstâncias passadas pelas mulheres ao longo da trama, até mesmo no seu final (bastante irônico e sutil), poderiam resultar críveis em várias sociedades, seja a brasileira, americana, sueca, francesa, japonesa...
Talvez o grande tema de “4 meses, 3 semanas e 2 dias” seja a questão da responsabilidade. Em vários momentos do filme, os personagens são levados a se defrontar com a realidade de que todos aqueles eventos e situações são resultado de suas ações, sejam elas pensadas ou não. E, sob este aspecto, a obra se mostra extremamente feliz. Por mais que muitos tentem negar, uma gravidez indesejada é resultado de nossas escolhas. Vale dizer: toda nossa vida é feita de escolhas. Até os alimentos que você consome hoje trará conseqüências, seja num futuro próximo ou distante. E é interessante ver até que ponto pode ir um ser humano buscando fugir das responsabilidades decorrentes de suas atitudes. O individualismo exacerbado acaba por admitir que possamos nos livrar de um outro ser humano, mesmo que ainda em fase de formação, apenas com o intuito de não assumir uma responsabilidade para com ele. É como nos discurso tosco das feministas: “o corpo é da mulher e ela tem o direito de fazer o que quiser com ele”. Resposta: o corpo também era dela quando foi pra cama com um homem. A não ser que ela tenha sido estuprada, ninguém a obrigou a ter relações sexuais e hoje existem inúmeras formas contraceptivas aptas a evitar uma gravidez. Transformar o aborto em mais uma dessas formas é de um egoísmo monstruoso. Você deve estar pensando: “esse aí é contra a legalização do aborto”. Sim, sou inteiramente contra, pelo mesmo motivo que sou contra a pena de morte. Não pode ser dado a um ser humano tirar a vida de outro. E minha posição não tem origem religiosa, mas filosófica, moral e ética.
Mongiu, todavia, parece não querer assumir posições. Ele nos mostra a narrativa de forma objetiva e, ao fim da sessão, todos podem tirar suas próprias conclusões pró ou contra aborto. As ações dos personagens parecem se desenvolver sem qualquer interferência do cineasta. É como se estivéssemos ali assistindo, de forma privilegiada, aos fatos vivenciados pelas garotas, sem as mesmas tenham conhecimento disso. "A vida apenas, sem mistificação", como no famoso poema de Carlos Drummond de Andrade que coloquei como epígrafe desta resenha. Muito embora, em determinada seqüência (bastante forte, diga-se de passagem) eu tenha sentido que o diretor assume uma posição, a qual entendi próxima à minha. Mas será que entendi assim devido à minha prévia posição anti-aborto? Essa é exatamente a grande riqueza da película. Não trazer respostas prontas e desenrolar situações que podem fazer o assistente tomar ou não um partido. Muitos antes de oferecer respostas, nos traz questionamentos.
Contudo, um certo aspecto, até simples de ser resolvido, acabou me incomodando durante a projeção. O corpo magrinho de Laura Vasiliu está incoerente com o tempo de gravidez de sua personagem. Parece um aspecto banal, mas a verdade é que se trata de algo que qualquer espectador médio percebe. E isso incomoda. Acaba, em certos momentos, fazendo com que percamos a credibilidade nas cenas, apesar da grande atuação das duas protagonistas. E isso acaba tirando alguns pontos na minha cotação. De qualquer forma, o prêmio em Cannes lhe caiu muito bem.
Cotação: ****1/2 (quatro estrelas e meia)
Nota: 9,5.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Festival do Rio: Premiação
"Garota decide abandonar o namorado e fugir para lugar desconhecido. Antes de partir, ela decide encontrá-lo, mas eles têm apenas uma hora para fazer um balanço bem humorado de suas vidas. O roteiro traça um retrato da geração crescida nos anos 90, bombardeada por influências da cultura pop e avanços tecnológicos. É um filme com temática jovem, executado por jovens e representado por atores da nova geração do teatro e do cinema".
O filme já tem distirubuidora, a Estação , que lançará o filme em circuito ainda em data a ser definida.
Outro destaque foi o prêmio da Federação Internacional de Imprensa, dado para "A Mulher Sem Cabeça", da cineasta argentina Lucrécia Martel. Segue abaixo a lista completa:
VOTO POPULAR
Melhor Longa ficção: Apenas o Fim, de Matheus Souza
Melhor Longa documentário: Loki - Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle
Melhor Curta: Urubus têm asas, de André Rangel e Marcos Negrão
JÚRI OFICIAL - Presidido por Wieland Speck e composto Camila Pitanga, Jorge Duran e Lita Stantic
Melhor longa-metragem de ficção: Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte
Melhor longa-metragem documentário: Estrada real da cachaça, de Pedro Urano
Melhor direção ficção: Matheus Nachtergaele (A festa da menina morta)
Melhor direção documentário: Helena Solberg (Palavra (En)cantada)
Melhor ator: Daniel de Oliveira (A festa da menina morta)
Melhor atriz: Caroline Abras (Se nada mais der certo)
Melhor curta de ficção: Blackout, de Daniel Rezende
Melhor curta documentário: 69 - Praça da Luz, de Carolina Markowicz, Joana Galvão
Prêmio especial do júri: Jards Macalé - Um morcego na porta principal, de Marco Abujamra, co-direção de João Pimentel
Menção honrosa: Apenas o Fim, de Matheus Souza
Prêmio FIPRESCI - Júri da Federação Internacional da Imprensa:
A Mulher Sem Cabeça, de Lucrécia Martel
Prêmio melhor filme da Mostra Geração
Somos todos diferentes (Taare Zameen Par), de Aamin Khan - Juri Popular
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Estréia de "Blindness" nos EUA
Obs. Perdoem meu mau-humor, mas é que estou revoltado com o resultado das eleições em Natal.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Filmes Para Ver Antes de Morrer
Wilder não envelhece
Billy Wilder é um dos mais geniais diretores de todos os tempos. Sim, vamos utilizar o verbo no presente, pois, apesar de falecido em 2002, Wilder mostra-se eterno a cada a nova visita à sua obra. E é interessante como ele conseguiu registros memoráveis em quase todos os gêneros cinematográficos, seja no drama (“Crepúsculo dos Deuses”), em películas de guerra (“Inferno nº 17”, onde repetiu com William Holden a feliz parceria do citado “Crepúsculo”) ou na comédia maluca, como em “Quanto Mais Quente Melhor”, um filme realmente lendário, em que o trio Jack Lemmon, Tony Curtis e Marilyn Monroe protagoniza algumas das cenas mais hilárias da história do cinema.
O maior talento de Wilder foi a sua perspicácia social revelada através da mais fina ironia. Talvez por ser um “estrangeiro” (de origem austríaca, chegou aos EUA fugindo do nazismo na Europa), o diretor, produtor e roteirista, via como ninguém a hipocrisia reinante na moralista sociedade norte-americana e, com uma ousadia muitas vezes espantosa até para os padrões atuais, dava um tapa na cara da platéia sem que esta se desse conta do golpe que lhe estava sendo desferido. Muitas vezes até fazendo-a rir, como no mencionado “Quanto Mais Quente Melhor” ou ainda em “O pecado Mora ao Lado” (lembram do filme em que a saia de Marilyn sobe? É esse mesmo!). E também neste “Se Meu Apartamento Falasse” (feliz título brasileiro para “The Apartment”), sem dúvida um dos mais ácidos de sua obra, ao mesmo tempo em que demonstra ainda acreditar no caráter de um ser humano.
Talvez este seja também seu filme mais equilibrado, dosando bem elementos de comédia, drama e romance, além do já citado viés anti-moralista do diretor, que sempre sofreu com a censura reinante em Hollywood. O roteiro, de autoria do próprio Wilder em parceria com Izzy Diamond (e que teria sido baseado em um escândalo envolvendo estrelas de Hollywood à época), mostra a vida de C. C.Baxter (interpretado pelo genial JackLemmon), um funcionário que trabalha no 19º andar de uma importante seguradora em Nova York. Ele seria apenas mais um dos muitos empregados não fosse um fato curioso: o seu apartamento, que se situa a algumas quadras dali, é usado por seus superiores para encontros com amantes. Em troca deste favor, Baxter conta com a ajuda dos chefes para galgar postos mais altos nos escalões da empresa. Oportunidade ainda maior surge quando o sr. Sheldrake (Fred MacMurray), o presidente da seguradora, toma conhecimento dos seus “favores” e pede a ele a chave do apartamento para um encontro amoroso. Mal sabe Baxter que a amante do todo-poderoso é a srta. Fran Kubelik (Shirley MacLaine, ótima), ascensorista pela qual sempre teve interesse romântico.
Vê-se, de antemão, que os personagens estão longe de serem unidimensionais, como acontece de forma tão freqüente no cinema "made in USA". Baxter, mesmo não sendo um mau caráter, usa de formas não muito elogiáveis para ascender profissionalmente, assim como a personagem da srta. Kubelik passa uma impressão de respeitabilidade para todos na firma, muito embora seja a amante de um homem casado. Aliás, Wilder sempre explorou a dubiedade de caráter em seus personagens, bastando lembrar o exemplo clássico do personagem de William Holden em “Crepúsculo dos Deuses”. O diretor chegou até mesmo a ser convidado a palestrar na então Alemanha Oriental por mostrar em sua obra que na sociedade capitalista todos acabam “se vendendo”.
Obviamente, Wilder não deixa o longa padecer de diálogos afiados. Sua pena está criativa como nunca, e várias falas marcantes pontuam a projeção. Memorável o diálogo em que Baxter afirma: “Você ouviu o que eu disse, srta. Kubelik? Eu simplesmente te adoro” e ela simplesmente responde “Cale a boca e dê as cartas”. As emoções dos personagens, por sinal, são, em geral, mostradas de forma contida, sem grandes arroubos. E mesmo as situações de comédia são tênues quando comparadas ao filme imediatamente anterior de Wilder, “Quanto Mais Quente Melhor”. Se neste Wilder joga para o espectador as situações mais hilariantes, fazendo-o gargalhar do início ao fim da projeção, em “Se Meu Apartamento Falasse” o riso é contido, dentro de situações que poderiam ser perfeitamente vivenciadas pelos assistentes da platéia. Talvez até mesmo Wilder não quisesse passar a ser visto como um autor escrachado, o que o fez contrapor o tom deste ao do anterior. Wilder também não deixa de utilizar elementos cênicos a seu favor, como a raquete de tênis que Baxter utiliza como escorredor de macarrão (assim como em “O pecado Mora Ao Lado” as escadas acabam tendo uma verdadeira “atuação”). Aliás, existem até vários elementos de comunicação perceptíveis entre os dois filmes, como o fato dos personagens de Lemmon e Tom Ewell (em “O Pecado...”) residirem em apartamentos e encontrarem-se solteiros (mesmo que o último apenas “momentaneamente”).
Dono de 5 Oscars (filme, diretor, roteiro original, edição e direção de arte), “Se Meu Apartamento Falasse” é mesmo um filme para ser visto e lembrado. Uma obra que será atual mesmo daqui a 100 ou 200 anos. Acima, comentei que Wilder se saía bem nos mais diversos gêneros. Em qual deles este poderia ser classificado? Provavelmente como “comédia romântica”. Todavia, sua qualidade nem de longe lembra a pobreza de conteúdo que domina esse gênero nos anos 2000. Cameron Diaz pode ser bonitinha (e gostosa!), mas o cinema tem que ter algo além da beleza de seus intérpretes. Wilder, mesmo trabalhando com belas atrizes, sabia disso. Em qual comédia romântica que hoje passa nos cinemas poderíamos ver um diálogo como este: “o espelho... está quebrado''. -''Eu sei. É assim que eu gosto. Assim também me vejo como me sinto''? E o cineasta acabou cumprindo a promessa que fez ao funcionário da embaixada americana que lhe concedeu o visto em 1934 para que permanecesse em Hollywood: “fazer bons filmes”.
Cotação: ***** (cinco estrelas)
Nota: 10,0
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Haja paciência!
É impressionante como muitos filmes demoram para chegar ao Brasil. Existe algo de espantoso na estupidez dos distribuidores. "Ponyo On The Cliff By The Sea", o novo longa de Hayao Miyazaki, o gênio da animação japonesa, terá sua estréia no Brasil apenas em junho do ano que vem. Isso depois de a Playarte não ter conseguido cumprir as exigências dos distribuidores japoneses para a exibição do longa no Festival do Rio 2008... Também está na cara que a Playarte imagina que os maiores interessados na animação sejam os pequenos (perto das férias, perceberam?) o que, todos sabem, não corresponde à realidade. E só para pontuar meu comentário sobre esses atrasos brasileiros: onde está "Death Proof", a outra metade do projeto "Grind House", dirigida por Tarantino? Alguém, por favor, deste sistema solar ou de outro mais próximo, sabe quando teremos oportunidade de ver esse filme, nem que seja só em DVD????!!!!
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Homem-Aranha 4 (e 5!)
Lista da Empire
1) O Poderoso Chefão - Francis Ford Coppola;
2) Os Caçadores da Arca Perdida - Steven Spielberg - Quer Saber? Achei muito justo! E viva Indiana Jones;
3) O Império Contra-Ataca - Irvin Kershner;
4) Um Sonho de Liberdade - Frank Darabont - Olha ele aí de novo!
5) Tubarão - Steven Spielberg - Hein? Certo, "Tubarão" é um clássico, mas daí a colocá-lo na 5ª posição vai um certo exagero...
6) Os Bons Compaheiros - Martin Scorsese - A verdade é que eu preciso rever este filme. Ele entra em todas as listas de melhores de todos os tempos mas, eu, Fábio Henrique, não achei lá grande coisa ao assisti-lo (nos meus já meio distantes 14 anos);
7) Apocalypse Now - Francis Ford Coppola - A única coisa que tenho a falar sobre este filme é que ele saiu essa semana na coleção de DVDs da "revistinha" (Veja). Se você já não tem e resolver perder esta oportunidade é porque está precisando rever seus conceitos enquanto ser humano que pretende ter algum conhecimento cultural na vida...
8) Cantando na Chuva - Stanley Donen e Gene Kelly - Um musical incrível, sem dúvida;
9) Pulp Fiction - Quentin Tarantino - É, Tarantino está mesmo indo "pras cabeças" ultimamente;
10) Clube da Luta - David Fincher - Um certo exagero aqui. O filme é bom, mas não para figurar em um top 10. Merecia mais "Touro Indomável", de Scorsese, que vem logo atrás dele em 11º.
A lista completa, com 500 filmes, você pode conferir aqui. Há muita coisa interessante, como "Magnólia" (posição 89), "O Cavaleiro das Trevas" já alcançando as primeiras posições (15), a série "O Senhor dos Anéis" figurando inteira entre os 100 primeiros, mas também algumas bombas inexplicáveis, como a presença de "Superman - O Retorno" (vá entender). Listas, sempre listas...
domingo, 28 de setembro de 2008
A Culpa é do Fidel!
Infância x ComunismoInevitável a comparação entre este “A Culpa é do Fidel!” e “Persépolis”, do qual tratei na minha última resenha postada neste blog. Inevitável porque ambos tratam de acontecimentos políticos vistos sob a ótica de meninas nos seus 8 ou 9 anos. Se neste último temos a visão da iraniana Marjane Satrapi sobre os principais acontecimentos da história do Irã nos últimos 30 anos, no primeiro acompanhamos a trama ficcional de Anna de la Mesa , uma garotinha francesa, acostumada aos prazeres da vida burguesa, quando seus pais acabam por abraçar a causa comunista (nos tempos de Salvador Allende e guerra do Vietnã) e seu cotidiano vira de ponta-cabeça.
Dirigido por Julie Gavras (filha de Costa Gavras), com roteiro baseado na obra “Tutta Colpa di Fidel!”, da jornalista italiana Domitilla Calamai, vemos com muito bom-humor todas essas transformações na rotina de Anna (Nina Kervel-Bey, encantadora). Estudante de colégio católico, tendo o hábito de passar as férias na casa dos seus avós em Bordeaux e pouca afeita a brincadeiras de “corre-corre” com as demais crianças, imagina-se com que insatisfação ela enxerga a mudança de uma das irmãs de seu pai da Espanha franquista para a casa da família em Paris após a perda do marido vítima da bárbara ditadura então vigente no país ibérico. A crescente proximidade dos pais (interpretados por Stefano Accorsi e Julie Depardieu, filha de Gerard Depardieu) com os “comunistas” também a assusta, já que a sua babá, uma cubana que deixou a ilha desde a revolução promovida por Fidel Castro, afirma que esses “vermelhos barbudos” são o demônio, opinião compartilhada por sua avó. E a situação vai ficando cada vez mais difícil para Anna, já que sua mãe acaba deixando seu trabalho na revista Marie Claire para escrever um livro sobre a liberdade de contracepção feminina, e a família se vê obrigada a mudar para um apartamento de proporções bem mais modestas que a antiga residência. Apartamento este que passa a ser cada vez mais freqüentado pelos tais barbudos que tanto odeia, amigos de seu pai que lutam pela vitória de Salvador Allende no Chile. Ademais, sua antiga babá é substituída por várias outras que vão se sucedendo, todas refugiadas políticas.
Eu, que cresci em uma família cheia de militantes de esquerda, não pude deixar de me identificar com várias passagens do filme. Meu avô, por exemplo, é um comunista convicto e, até hoje, quando em visita aqui em casa, ao ler alguns artigos da Rolling Stone (sempre tem uma no centro da sala), não deixa de apontar os vários “maquinismos burgueses” presentes nestas publicações. Aos olhos de uma criança, tudo isso não passa de uma imensa chatice, que só existe para atrapalhar seus pequenos hábitos, já que ler um gibi de Mickey torna-se proibitivo devido ao caráter “fascista” do personagem (assim como os americanos e o napalm, como diz o irmãozinho de Anna, François, o personagem mais espirituoso do longa). E essa perspectiva, como já salientado mais acima, é mostrada de maneira muito divertida. Várias são as seqüências hilárias e com toques sempre muito inteligentes. Um verdadeiro alívio diante das piadas descerebradas que andam predominando no cinema norte-americano e isso é mais uma prova de que é possível fazer rir com conteúdo.
Ao fazer a comparação com “Persépolis” também não posso deixar de realçar o contraponto sobre um aspecto que deixei explícito no meu texto sobre o longa de Marjane. Se na animação mencionei que em muitos aspectos temos uma visão excessivamente feminina sobre os fatos políticos mostrados, fiquei satisfeito em ver que “A Culpa é do Fidel” não padece do mesmo defeito. Julie Gravas mostra-se realmente capaz de mostrar uma história a partir de uma personagem feminina, sim, mas este aspecto é deixado de lado diante de uma perspectiva sem gênero. O que vemos é o olhar de um ser humano, não de um homem ou uma mulher. E é sempre satisfatório quando um artista consegue atingir esse elevado degrau artístico. Outro aspecto é que “Persépolis” abrange um período bem mais extenso da vida da protagonista, enquanto o longa ora resenhado centra-se em um período de tempo bem mais curto, o que retira o caráter “episódico” que normalmente surge em filmes que procuram abranger um longo espaço de tempo nas vidas de seus personagens.
Entretanto, mais do que o pano de fundo político, o que interessa aqui é a nova visão de mundo que Anna adquire. Antes uma menina egoísta, uma típica “burguesinha” para utilizar o termo usado pelos “comunas”, que sequer conhecia o significado da palavra “solidariedade”, a menina passa, ao longo de tantas novas experiências, a ter uma perspectiva menos limitada, obtusa, da realidade que a cerca. E também mais contestadora. Afinal, se há algo que uma visão “marxista” pode lhe dar é exatamente uma posição mais desafiadora diante do mundo. Emblemática a brilhante cena final em que a pequena Anna parece começar a entender que a palavra “solidariedade”, antes de ser entendida, é para ser vivida. Cena simples e bela como a citada palavra.
Classificação: ***** (cinco estrelas)
Nota: 10,0
sábado, 27 de setembro de 2008
Paul Newman: 26/01/1925 - 26/09/2008
And just like the guy whose feet are too big for his bed
Nothin' seems to fit
Those raindrops are fallin' on my head, they keep fallin'
So I just did me some talkin' to the sun
And I said I didn't like the way he got things done
Sleepin' on the job
Those raindrops are fallin' on my head, they keep fallin'
But there's one thing I know
The blues they send to meet me won't defeat me
It won't be long till happiness steps up to greet me
Raindrops keep fallin' on my head
But that doesn't mean my eyes will soon be turnin' red
Cryin's not for me
'Cause I'm never gonna stop the rain by complainin'
Because I'm free
Nothin's worryin' me
It won't be long till happiness steps up to greet me
Raindrops keep fallin' on my head
But that doesn't mean my eyes will soon be turnin' red
Cryin's not for me
'Cause I'm never gonna stop the rain by complainin'
Because I'm free
Nothin's worryin' me"
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Estréia sem entusiasmo
terça-feira, 23 de setembro de 2008
"Elite Squad"
sábado, 20 de setembro de 2008
Persépolis
Todavia, com um aparato técnico menos ambicioso, este “Persépolis” mostra que é possível, sim, criar longas de animação inteiramente voltados ao público adulto, excluindo as crianças como um alvo em potencial. Baseado na série em quadrinhos homônima, lançada originalmente em 4 volumes, o filme narra a história real de Marjane Satrapi, uma iraniana exilada por seus pais na Europa após o recrudescimento do totalitarismo iraniano ocorrido com a chamada “revolução islâmica”. Marjane, também diretora da animação ao lado de Vincent Paronnaud, passou, de sua infância até a idade adulta, pelos mais importantes fatos da recente história do Irã, e nos mostra, de forma descontraída, como vivenciou estes anos difíceis. Assim, vemos sua infância, quando ainda observa os acontecimentos de uma forma um tanto distanciada (como é comum nessa fase da vida), muitas vezes sendo seduzida por um certo clima “aventureiro” daquilo que lhe é passado pelos mais velhos. Já na adolescência, quando é enviada à Europa pelos pais devido a seu temperamento rebelde, são mostrados seus anos típicos de juventude, de descobertas e também de muita frivolidade. Aliás, Marjane parece ser o tempo todo honesta com o público ao mostrar que, enquanto seus compatriotas estavam vivenciando o caos gerado pêra guerra Irã-Iraque, ela se entregava a uma vida de hedonismos em Viena, muitas vezes até negando suas origens apenas com a perspectiva de ser aceita pelos grupos com quem convive, ao mesmo tempo em que se sentia extremamente culpada por seu egoísmo. Mais tarde, em conseqüência da vida marginal que estava levando em terras austríacas, a jovem retorna à terra natal, onde acaba vivenciando os anos mais duros de repressão religiosa.
Com dito acima, apesar de toda sua carga bastante pesada, a história é narrada com muito bom humor e, ainda, enorme inventividade gráfica. Predominantemente em preto e branco, os diretores, todavia, souberam brincar com os diversos tons próximos a este binário de cores, como o cinza, o que torna a animação muito mais bela que o preto e branco em contraste da HQ. Também interessante a idéia de ser mostrada graficamente a imaginação da menina Marjane, o que gera cenas muito divertidas e intrigantes como aquela em Deus e Karl Marx dialogam (hilário!). Ou ainda a forma bem-humorada como são mostrados os absurdos gerados pelo regime totalitário, como na seqüência em que ela busca por fitas de música ocidental no mercado negro. As cores são utilizadas em poucas seqüências, mas o seu tom ameno corrobora para o tom poético do filme. As vozes de interpretação também são ótimas. Chiara Mastroianni faz a voz de Marjane em sua adolescência e idade adulta; sua mãe, Catherine Deneuve, faz a voz de sua mãe na ficção, enquanto a voz de sua avó é interpretada por Danielle Darrieux (uma das melhores personagens do filme, por sinal).
Contudo, apesar de toda sua beleza e originalidade, alguns aspectos me deixaram um pouco com “um pé atrás”. Não sei se o meio da animação seja eficaz para transmitir a contundência que uma trama tão política exige. Muito embora a comédia seja eficiente e até desejável em assuntos complexos, desde que bem utilizada (como são exemplares geniais filmes como “O Grande Ditador” e “Dr. Fantástico”), e nisso “Persépolis” sabe investir muito bem, o tom de “animação” sempre deixa no espectador um sensação de “irrealidade”, e esse tom ameno um pouco excessivo acaba por tirar a força dos dramas políticos. Só a título de comparação e utilizando como exemplo a ditadura militar que se abateu sobre o Brasil ao longo de 21 anos, imaginemos que um filme em que as torturas aos presos políticos fossem narradas através de imagens animadas de um castelo semelhante a uma prisão e que os assassinatos fossem mostrados através de elipses narrativas. Seria estranho, não? Foi essa sensação de estranheza que tive ao fim da exibição, pois que muitas vezes não sentimos o real impacto dos eventos narrados. E isso me faz ter a impressão de que o formato da animação talvez seja realmente inadequado para tramas de viés político tão acentuado. O filme acaba, desta forma, tornando-se apenas didático, mas pouco eficaz em nos fazer sentir a realidade daquelas pessoas.
Um outro ponto a ser debatido: muitas das situações são mostradas dentro uma perspectiva excessivamente feminina. “Claro, ela é mulher e deve passar a sua visão feminina”, dirão as leitoras. Sim, Marjane é mulher, mas tratar de assuntos políticos dentro de uma perspectiva de gênero me parece uma limitação, não uma virtude. Isso me faz lembrar de uma entrevista que vi há algum tempo, no programa “Entrelinhas” da TV Cultura. Nesta, a escritora Sabina Anzuategui falou algo bastante interessante ao afirmar que os homens conseguem, em muitas ocasiões, criar suas obras sem fazer a barba, enquanto as mulheres criam suas obras sempre passando o batom. Talvez seja essa perspectiva neutra, uma visão dos fatos apenas como ser humano, e não como homem ou mulher, algo que também faça falta ao longo da projeção. Em um regime brutal e totalitário, todos são vítimas, não apenas um dos sexos.
De qualquer forma, “Persépolis” é mesmo um filme para ser visto, e sua não indicação ao Oscar de filme estrangeiro este ano foi um dos maiores equívocos da premiação nos últimos anos. Sua indicação para o prêmio de melhor animação acabou soando apenas como um consolo.
Cotação: ****1/2 (quatro estrelas e meia)
Nota: 9,5
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Another Way To Die
"Another Way To Die"
O filme é uma continuação do grande sucesso de público e crítica "Cassino Royale". Agora, Bond quer vingança. Para tanto, terá ajuda da linda Camille (Olga Kurylenko) para seguir os rastros de Dominic Greene, o vilão interpretado por Mathieu Almaric (o Jean-Do de "O Escafandro e a Borboleta"), o qual faz parte de uma organização criminosa que controla uma grande fonte de recursos naturais aqui na nossa América do Sul. A direção é de Marc Forster (só espero que ele não erre a mão como fez com "O Caçador de Pipas"). Aguardando!
terça-feira, 16 de setembro de 2008
O Concorrente
O filme escolhido etréia em circuito nacional no dia 24 de outubro. E sobre Liha de Passe, segue abaixo a justificativa de sua ausência, dada pelo próprio Walter Salles no site oficial do filme (trechos):
“Participar da campanha pelo Oscar de melhor filme estrangeiro é um processo mais complexo do que parece. Já percorri essa estrada e sei que sem uma dedicação de vários meses, as chances de um filme selecionado por um país chegar à final e possivelmente ganhar são escassas. (...)
Uma campanha realmente competitiva para o Oscar começa nos prêmios que são outorgados no final do segundo semestre pelo National Board of Review, a mais antiga associação de críticos dos Estados Unidos, e continua com os prêmios da crítica especializada das maiores cidades daquele país. Para cada um desses eventos, é necessário apresentar o filme, realizar debates, fazer dezenas de entrevistas desde meados do segundo semestre.
Em anos especialmente disputados, lançar o filme nos Estados Unidos até outubro ou novembro é um trunfo importante. Quando Central do Brasil ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro do National Board of Review em dezembro de 1998 e depois o Globo de Ouro, já tínhamos lançado o filme nos Estados Unidos e realizado dezenas de debates através do país. Roberto Begnini, que ganhou o Oscar em março de 1999, lançou o seu filme ainda mais cedo, mudou-se para Los Angeles e passou vários meses em campanha. (...)
Para fazer algo pela metade, é melhor não fazer. Se tivéssemos inscrito Linha de Passe e ganhado a indicação do Brasil, não teríamos como representar o país com a responsabilidade que se faz necessária. Agradecemos a todos que torcem pelo filme e desejamos o melhor ao longa brasileiro que for escolhido pela comissão.” - Walter Salles
domingo, 14 de setembro de 2008
O Escafandro e a Borboleta
Corpo doente, mente sadiaÓbvio que uma história como essa poderia gerar um excelente filme. Mas também poderia dar ensejo a uma obra sofrível, vez que é fácil e tentador apelar para o piegas e melodramático com um texto que, por si só, já dá ensejo a muitas lágrimas na platéia. Procurando fugir desta armadilha, o diretor Julian Schnabel utiliza recursos inusitados. Felizmente, com muito sucesso.
Logo no início percebemos suas interessantes estratégias. Durante a primeira metade do filme, praticamente só vemos os acontecimentos dentro da perspectiva de Bauby. Os nossos olhos são os olhos do personagem. Podemos então fazer uma idéia de sua imobilidade, “sentir” (assim, entre aspas, pois só quem vive uma situação pode realmente afirmar como ela é) como é estar preso dentro do seu próprio corpo. Um corpo que se torna um escafandro. Palmas para Janus Kaminzki, diretor de fotografia fiel parceiro de Steven Spielberg. A “voz” de Bauby em off também nos dá uma perspectiva interessantíssima e contribui muito para a nossa empatia com o personagem. É como se estivéssemos conhecendo, de fato, seus pensamentos o que gera uma imediata intimidade com o espectador e, ao mesmo tempo, evita que este acabe por sentir uma pena excessiva do protagonista. Percebe-se que Bauby continua sendo o mesmo, com suas mesmas fraquezas humanas, apenas agora se encontra em uma condição física diferente.
Ao mesmo tempo, Schnabel também sabe utilizar os aspectos mais emotivos a seu favor. Os flashbacks mostrando momentos relevantes na vida de Bauby são deveras cativantes e fazem com que possamos conhecer ainda mais sua personalidade. A escolha de momentos marcantes a serem mostrados, como o dia dos pais após o derrame, também é muito feliz (são esses momentos os mais capazes de levar o espectador às lágrimas). Vê-se, assim, que o roteiro de Ronald Harwood (de “O Pianista”) também foi fundamental para que o filme ganhasse em qualidade, sendo muito feliz na forma como adaptou o livro às telas.
Outro ponto crucial são as atuações de peso. Mathieu Almaric, com a garra de sempre, está impecável. Muito estranha a sua não indicação ao Oscar de melhor ator na última edição do prêmio, ainda mais se lembrarmos que a Academia adora esse tipo de papel. E aqui vai uma curiosidade: o personagem estava previsto para Johnny Depp, o qual foi responsável pela indicação de Schnabel para a direção. Temos ainda as participações de Emmanuelle Seigner (como Céline, a mãe dos filhos de Bauby), Max von Sydow (como o pai, já bem idoso, responsável por alguns do melhores diálogos do longa), Marina Hands (a Lady Chaterlley da última adaptação para o cinema) e uma das últimas atuações de Jean-Pierre Cassel, famoso ator da Nouvelle Vague e pai de Vincent Cassel, além de Marie-Josée Croze, como a fonoterapeuta Henriette (linda, diga-se de passagem).
O filme acabou sendo indicado a vários Oscars este ano, e talvez até injustiçado em algumas categorias (foi indicado nas categorias de direção, roteiro, fotografia e edição) , levou prêmio de melhor direção em Cannes 2007, e ganhou dois Globos de Ouro (filme e direção). E, além de ser uma história de superação, é também uma bela mostra do quanto velhos ressentimentos, desencontros e amores partidos podem gerar um imenso tempo perdido, tempo este que, sabemos, jamais irá retornar. O passado é imutável; o futuro, tão bem representado pela paralisia de Bauby, totalmente incerto; só nos resta humanizar o presente.
Não é pra perder.
Obs. Trilha sonora pop interessante que tem até uma pequena inserção de “Céu de Santo Amaro" em certa seqüência, além de “Pale Blue Eyes” do Velvet Underground (mesmo que ambas só no instrumental).
Cotação: ***** (cinco estrelas)
Nota: 10,0.
sábado, 13 de setembro de 2008
Encarnação do Demônio
José Mojica Marins é o primeiro e único diretor brasileiro a dedicar-se ao gênero do terror. O seu personagem, o coveiro Josefel Zanatas (satanaz ao contrário, perceberam?), mais conhecido como Zé do Caixão, é um dos raros casos do cinema nacional em que um tipo transpõe os limites de um mesmo longa para tornar-se figura constante de uma série (algo tão comum nos EUA, não?). Série que, por sinal, agora chega ao fim. “Encarnação do Demônio” é o último capítulo de uma trilogia iniciada ainda nos anos 60 com “À Meia Noite Levarei Sua Alma” (1964) e “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967). Incompreendido pela crítica em seu tempo e sendo extremamente censurado pelo controle dos militares, Mojica, entretanto, logo se tornou um enorme sucesso de público, o que parece não repetir nesses tempos de cinema cosmético e pouco autoral. O lançamento do filme em circuito nacional, no início de agosto, foi um enorme fracasso nas bilheterias (fato que pude constatar na sessão a que assisti nesta sexta-feira, quase vazia), talvez porque os espectadores atuais o vejam como algo “démodé”, “cafona” ou muito “trash”.
Neste novo longa, Mojica retoma suas velhas obsessões: o seu ateísmo, a crença de que não existe nada além da carne e que a única forma de superar a finitude da existência é gerando um filho, a continuidade do sangue. Para tanto, ele busca encontrar uma fêmea “superior”, que demonstre ser capaz de gerar o herdeiro perfeito. E isso após passar 40 anos na cadeia, condenado pelos terríveis crimes do passado (um pouco de incongruência com o sistema penal brasileiro que não admite que um sentenciado cumpra mais de 30 anos de reclusão, mas tudo bem...). Na verdade, ele meio que decide “se garantir” e escolhe 7 fêmeas para copular (número, segundo o próprio diretor, escolhido por motivo de superstição e significado), todas lindas (e bota lindas nisso), corajosas e submissas (e nuas!). Para demonstrar a mencionada capacidade de gerar o filho perfeito, as mulheres serão submetidas a duras provas, com sessões de tortura com ratos, cachorros e insetos. Vale dizer que durante as filmagens foram usados espécimes vivos (as baratas eram de laboratório, perfazendo cerca de 3.000). Portanto, dá para imaginar que, conforme dito pelas próprias atrizes em entrevistas, o medo demonstrado em certas cenas era real.
Todavia, para atingir seu objetivo, Josefel terá que enfrentar ainda outros obstáculos. Vários desafetos do passado planejam sua vingança contra o coveiro, entre eles dois irmãos oficiais da polícia (um dos quais interpretado por Jece Valadão, que faleceu ainda antes do término das filmagens) e um religioso que se auto-flagela, interpretado por Milhem Cortaz (o soldado “02” de Tropa de Elite, lembram?). Também acaba encontrando várias de suas vítimas do passado na forma de espíritos ou alucinações. A dúvida se são almas ou fruto de uma mente perturbada é o que mais atormenta o coveiro. Afinal, a presença desses mortos pode significar o fim de sua crença na existência apenas da carne e, por outro lado, caso sejam alucinações, isso pode significar que ele realmente não possui domínio de suas faculdades mentais. Até mesmo o demônio (Zé Celso Martinez, o qual sempre me pareceu com cara de esconjuro mesmo) parece querer atrapalhar seu caminho, levando-o a uma “tour” no inferno que parece lembrar a viagem de Dante acompanhado por Virgílio na “Divina Comédia”.Importante notar que toda a produção é feita com capricho, nunca o cineasta tendo antes tanto dinheiro à disposição. Os efeitos especiais são convincentes, a fotografia é competente e o roteiro (escrito pelo próprio Mojica ao lado de Denisson Ramalho), apesar de algumas falhas, não compromete. O figurino, por sinal, ficou a cargo de Alexandre Herchcovitch, o que já é um bom argumento para você, mulher, ter vontade de assistir ou, você, homem, convencer sua namorada/esposa/ficante/amiga-com-segundas-intenções a acompanhá-lo (e ela provavelmente não vai conseguir convencer aquela amiga “empatona” a acompanhar vocês).
Entretanto, há lago que incomoda no filme, talvez justamente a intenção de realizar algo mais bem produzido e comercial, com intuito globalizado, como bem ficou sublinhado pela sua exibição na mais recente edição do Festival de Veneza. Essa embalagem mais cosmética-sabonete acaba por distanciar a obra de Mojica de certos elementos mais brasileiros, regionais, presentes nos dois primeiros capítulos da trilogia. Só para citar um exemplo, falemos do tal figurino de estilista. Zé do Caixão continua com sua roupa de capa preta que remete ao visual clássico dos vampiros eternizados por Hollywood. Todavia, há um certo ar de sofisticação em suas vestimentas que acabam por distanciá-la de uma outra referência, qual seja, a de Exu, entidade mitológica e maléfica da umbanda. É a ausência desses elementos, os quais talvez não façam falta ao público que costuma ir às salas de shopping centers, que acaba prejudicando a apreciação do longa por parte daquele que espera algo mais de Mojica além de um mero filme de sustos. Aliás, no caso, mais violência que sustos, o que também não é novidade em tempos de “Jogos Mortais” e “O Albergue”. Muito embora, também é até justo lembrar, Mojica tenha sido um precursor dessa violência gráfica, como poderá ser visto pelo espectador através das cenas dos longas anteriores inseridos neste capítulo (como uma forma de flashback). Além disso, o sexo é mostrado de uma forma muito mais adulta e erótica que nesses filmes que o cinema americano produz para adolescente ver.
À parte estes defeitos, é bom ver o cinema nacional produzir algo diferente do conflito do tráfico nas favelas ou estudos sociológicos (esse ano ainda teremos “Última Parada 174”, é bom lembrar). O Brasil precisa de uma maior diversidade em sua produção que, em muitas ocasiões, mais parece uma monografia de final de curso. E, mesmo que esteja em um patamar inferior a suas primeiras produções, José Mojica Marins conseguiu mais uma vez engendrar algo diferenciado e substancioso. Muito recomendável, nem que você não esteja nem aí para o terror cabeça do diretor, mas apenas interessado em ver as lindas beldades nuas que enfeitam a tela em meio ao bocado de bizarrices exibidas (se for só por isso, digo que realmente vale à pena...).
Cotação: ***1/2 (três estrelas e meia)
Nota: 8,5
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Filmes Para Ver Antes de Morrer
Vôo United 93
(United 93)
Documento do Terror
E talvez seja esta a melhor forma de narrar um evento traumático que abalou toda a sociedade contemporânea. As peripécias emocionais mostradas por Oliver Stone em “As Torres Gêmeas” soam descartáveis diante de um episódio por si só suficientemente dramático (muito embora o longa de Stone tenha seus bons momentos e não chegue a ser a “bomba” que alguns afirmaram por aí). Em casos assim, frieza e objetividade falam melhor do que qualquer apelação piegas. Qualquer adicional pode soar como uma extravagância.
A câmera nervosa de “Vôo 93” nos conduz à situação de tensão dos controladores , na primeira parte do filme (que mostra a dificuldade dos mesmos entenderem o que estava acontecendo). Já na segunda metade, o foco se concentra, com uma carga de tensão ainda maior, nos passageiros do United Airlines que dá título ao filme. Somos levados a acompanhar toda a situação de desespero pela qual eles passaram, mostrada em todos os detalhes, desde o espanto no momento em que tomam conhecimento do seqüestro, até a resignação com a morte, quando então começam a se despedir de seus entes queridos através dos telefones. Ou mesmo a tentativa, que acabou se mostrando suicida, de escapar de destino tão terrível.
Aliás, talvez o melhor do filme seja mostrar que a tentativa de tomar o controle do avião, em uma atitude desesperada, não se deveu a sentimentos “patrióticos”, como tentou fazer-nos acreditar o governo americano, durante os dias que se seguiram ao 11 de setembro. Eram seres humanos como eu e você que lê esta resenha: queriam apenas seguir suas vidas, junto às pessoas que amavam.
Classificação: ***** (cinco estrelas).
Nota: 10,0.
Lista para o Oscar
Vejam a lista:
A Casa de Alice, de Chico Teixera
A Via Láctea, de Lina Chamie
Chega de Saudade, de Laís Bodanski
Era Uma Vez..., de Breno Silveira
Estômago, de Marcos Jorge
Meu Nome Não é Johnny, de Mauro Lima
Mutum, de Sandra Kogut
Nossa Vida Não Cabe num Opala, de Reinaldo Pinheiro
Olho de Boi, de Hermano Penna
Onde Andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado
O Passado, de Hector Babenco
Os Desafinados, de Walter Lima Júnior
O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Riccelli
Última Parada 174, de Bruno Barreto
O próxima edição do Oscar acontece em 22/02/2009.