terça-feira, 15 de outubro de 2013

Gravidade

Beleza, solidão e revolução


Inicio esta resenha com uma afirmação que pode ser precipitada, mas que reflete inteiramente minhas impressões ao fim da sessão de “Gravidade”: trata-se do melhor filme de ficcção-científica desde “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odyssey, 1968), talvez tendo apenas como rivais “Alien – O Oitavo Passageiro” (Alien, 1979) e “Blade Runner – O Caçador de Androides” (Blade Runner, 1982). Este é um daqueles filmes que, ao terminar de vê-lo, já sentimos algo diferente, sabemos que estamos diante de uma obra que  será lembrada ao longo dos anos, que influenciará inúmeros longas posteriores e, provavelmente, deixará sua marca  na cultura pop como um todo, tornando-se um fenômeno em várias mídias. E não estou exagerando. Na realidade, eu sempre desconfio de filmes com muito “hype”, como nos casos de “Avatar” (2009) - longa que trouxe inovações apenas no uso do recurso 3D, mas que possui uma trama meio rasa e clichê – e “A Origem” (Inception, 2010), um ótimo thriller dirigido por Christopher Nolan, mas que não chega a ser (e o tempo vem mostrando isso) nenhuma obra-prima. Pelas mesmas razões (gato escaldado tem medo de água fria), estava antevendo que havia um certo exagero com relação ao novo longa do diretor mexicano Alfonso Cuáron (de “E Sua Mãe Também!” e “Filhos da Esperança”), o qual vem sendo incensado pela crítica. Felizmente, desta vez eu errei em minhas previsões.

Já fazia muito tempo que eu não via um longa-metragem com tanta força imagética, profundidade na abordagem dos nossos mais instintivos, fortes e belos sentimentos e, ao mesmo tempo, conseguir prender a respiração dos espectadores até o último frame da projeção (talvez Ang Lee tenha feito algo igualmente relevante com o seu “As Aventuras de Pi”, mas não é um filme tão intenso quanto este). Tudo isso em enxutíssimos 91 minutos e com apenas três personagens na tela. E vale dizer que um desses morre logo no início do longa (isso não é um spoiler). Ou seja, Cuáron, também autor do roteiro em parceria com seu filho Jonás Cuáron, conseguiu criar uma obra que alcança o perfeito equilíbrio entre substância e tensão, gerando um filme capaz de entusiasmas crítica e público e isso, convenhamos, é um feito que poucos conseguiram na história do cinema. De quebra, ainda teve a percepção de filmar com o intuito de colocar o espectador na pele dos astronautas, contando com o auxílio da tecnologia 3D. É possível que nunca uma câmera em primeira pessoa tenha atingido um nível tão elevado de subjetividade quanto aqui. Em várias sequências temos a sensação de estarmos na pele da astronauta Ryan Stone (Sandra Bullock), em busca da sobrevivência. Não é por acaso que muitos vêm atribuindo ao filme o adjetivo de “revolucionário” e, desta vez, não é de forma gratuita.


A trama é minimalista, por assim dizer. Nela, vemos a referida Dra. Ryan Stone em uma missão para operar reparos no telescópio Hubble, na qual é acompanhada por dois outros astronautas, um deles o piloto Matt Kowalski, que está prestes a se aposentar (interpretado pode George Clooney). Quando estão efetivamente realizando o serviço, uma onda de destroços de uma satélite destruído pelos russos atinge o telescópio e a nave dos engenheiros e começa, então, uma batalha pela sobrevivência no ambiente mais inóspito que existe para o ser humano: o espaço. Principalmente a Dra. Ryan, que é lançada no vácuo com apenas 10% de oxigênio restando no reservatório do traje espacial. Mas se engana quem pensa que isso resultará apenas em uma correria desenfreada. O foco de Cuáron é o espírito humano. Ao mesmo tempo em que somos tão pequenos diante da imensidão e perigos do universo, temos força suficiente para vencermos esses desafios e nos mantermos vivos diante de um ambiente tão áspero ao ser humano. E, por mais que tenhamos motivos para, quem sabe, nos entregarmos, como no caso da Dra. Stone, viver sempre será a melhor escolha.

Convém ressaltar que a Terra nunca esteve tão bonita no cinema. As imagens concebidas pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubeski são simplesmente lindas. Chega a dar o gostinho de realmente estarmos a contemplar a Terra, privilégio que só cabe a mais do que restrita classe dos astronautas. Aliás, a sensação de estarmos vendo o espaço como ele de fato é só se equivale àquela vista no citado “2001”. Um espetáculo de realismo em algo tão difícil de reproduzir quanto é a realidade fora do nosso planeta. Em similar competência mostra-se a trilha sonora de Steven Price, a qual se faz sentir com ainda mais vivacidade após os contínuos momentos de silêncio engenhosamente concebidos para nos passar o clima do ambiente. Por outro lado, o filme não seria tão bom sem a sensacional atuação de Sandra Bullock, no melhor momento de sua carreira, incontestavelmente. Ela nunca havia conseguido transmitir tanta força e concomitante fragilidade a uma personagem. Será até uma piada se ela não levar o Oscar de melhor atriz, já que anos atrás acabou sendo premiada por um trabalho bem menos relevante (em “Um Sonho Possível”).


“Gravidade” é um filme repleto de imagens marcantes, daquelas destinadas a se tornarem icônicas, indicando que Cuáron poderá ser conhecido no futuro como um dos grandes estetas do cinema. A cena das lágrimas flutuantes da astronauta, por exemplo, é uma delas. Ainda mais se você assistir em 3D. Aliás, procure realmente ver em uma sala 3D, pois este é um dos raros casos em que o recurso se mostra realmente como um diferencial (e quem costuma ler meus textos sabe o quanto eu sou exigente para considerar que um filme precisa ser visto em 3D). Em dado momento da película, a simbiose de emoção e beleza me impressionaram tanto que, faço aqui uma confissão, algumas lágrimas furtivas brotaram dos olhos. E é nesse ponto que reside a principal diferença entre “Gravidade” e o clássico “2001”. Se o filme de Kubrick instiga a reflexão, levando-nos a questionamentos sobre quem somos e para onde vamos, o longa de Cuáron é visceral, procurando despertar o nossos mais básicos e essenciais sentimentos. Fala, sobretudo, da solidão de cada ser humano, cada qual constituindo um universo à parte em meio à imensidão que nos cerca. Diante de tantas “revoluções” que são alardeadas com uma estranha frequência no cinema, mas que logo em seguida se revelam no máximo obras competentes (vide os exemplos dos citados “Avatar” e “A Origem”), talvez neste caso o termo esteja, enfim, sendo usado de maneira apropriada. Só o tempo irá dizer se tal impressão é verdadeira, mas foi a que tive quando surgiram os créditos finais, logo após a linda sequência que conclui este clássico imediato.


Cotação:



Nota: 10,0

domingo, 6 de outubro de 2013

Eu Quero Esse Pôster #24


"Gravidade", o novo longa de Alfonso Cuáron, protagonizado pelos astros George Clooney e Sandra Bullock, está sendo visto pela crítica especializada como o melhor filme de ficção-científica desde "2001 - Uma Odisseia no Espaço" (2001 - A Space Odissey, 1968). O filme estreia sexta-feira, dia 11/10, aqui no Brasil e já estou na contagem regressiva para poder conferi-lo. Como aperitivo, segue este já icônico pôster.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Era Uma Vez Em Tóquio
(Tôkyô Monogatari, 1953)


Profundamente japonês, humano e universal


Em recente eleição realizada pela revista britânica “Sight & Sound”, “Era Uma Vez em Tóquio” foi considerado, entre os cineastas votantes, como o melhor filme de todos os tempos, desbancando o tradicionalmente escolhido “Cidadão Kane”, de Orson Welles. Muitos podem discordar, mas o resultado mostra o quanto o cinema asiático ainda precisa ser visto e descoberto no Ocidente. Fora do círculo cinéfilo, este filme é praticamente desconhecido, por exemplo, pelo público brasileiro e o nome de seu diretor, Yasujiro Ozu, pode ser entendido como o de um E.T. Quando muito, algumas pessoas conhecem o nome do mais popular diretor japonês, Akira Kurosawa, famoso pelo estupendo “Os Sete Samurais” (Shichinin no Samurai, 1954). Entretanto, apesar de ser comumente visto como um diretor de cinema “de arte” (eu detesto essa expressão), os filmes de Ozu são muito acessíveis, centrados em narrativas sobre o cotidiano de famílias da classe média baixa do Japão, principalmente do período pós-guerra. Ozu é o maior representante de um gênero nipônico denominado shomin-geki, cuja principal característica era justamente a abordagem do dia a dia dessas famílias, causando uma quase imediata identificação com o espectador.

Nascido em 1903, Yasujiro Ozu começou sua carreira ainda no cinema mudo, mas foi na produção sonora que realizou suas grandes obras-primas, entre elas “Era Um Vez Em Tóquio”, longa de extrema percepção das relações humanas e que não precisa de uma trama intricada ou grandiosa para nos levar às mais perspicazes reflexões. Toda a película trata sobre a viagem de um casal da cidade japonesa de Onimichi a Tóquio. É a primeira vez que eles vão até à capital do País, com o intuito de visitar os filhos que lá trabalham. Entretanto, decepcionam-se com a acolhida dos mesmos, os quais não têm tempo para lhes dar atenção e consideram a visita dos genitores como um fardo. Apenas a nora Noriko (Setsuko Hara), esposa do filho já falecido na guerra, trata os idosos com o devido respeito e cuidado. A partir desse enredo simples, Ozu desenvolve uma belíssima análise das relações familiares e, importante frisar, válida para qualquer tempo ou cultura. Aliás, ao assistir a “Era Uma Vez em Tóquio” tive a sensação de estar a ver um filme concluído ontem, dada a sua temática extremamente atual, plena de contemporaneidade. Vivemos uma era em que os indivíduos possuem cada vez menos disposição para as relações interpessoais, embriagados de egoísmo e consumismo, buscando objetivos materiais em detrimento do convívio e disso Ozu já tratava em 1953, quando o Japão vivia um acelerado ritmo de industrialização.


Esse choque entre a modernidade e a tradição, entre o industrial e o humano, é contraposto por Ozu não apenas por meio da interação entre os personagens, mas também a partir dos elementos imagéticos do longa. As ações são frequentemente interrompidas por cenas de trens em movimento, bem como navios e outros símbolos de industrialização. O cineasta parece sempre comentar, através das imagens, que uma nova era, como novos valores, está substituindo a anterior. Contraposição essa que também se percebe na relação entre os idosos (os antigos valores) e os jovens filhos (os novos paradigmas). Na visão de muitos, Ozu revela a cada fotograma o seu conservadorismo, não apenas no aspecto estético, mas também ideológico, o que não deixa de ser verdade. Há uma certa rejeição ao novo em seu cinema, no qual reside latente uma perene crítica à ocidentalização do Japão no período pós-guerra. Aliás, a famosa qualificação de Ozu como “o mais japonês dos cineastas japoneses” não deixa de realçar esse lado de extremo apego às suas raízes. Entretanto, seria errado imaginar Ozu como uma espécie de anti-Kurosawa, pois o mestre Akira se valia da influência do Ocidente em sua estética, é bem verdade, mas suas temáticas são tão profundamente japonesas quanto as de Ozu.


Nas imagens de Ozu, até mesmo sua estética é peculiar. A câmera é estática, com os personagens entrando e saindo de cena em quadros fixos, além de posicionada próxima ao chão (a famosa “câmera baixa”), na mesma altura em que os japoneses costumam fazer suas refeições, técnica que iria influenciar até mesmo Steven Spielberg em “E.T. - O Extraterrestre” (E.T – The Extra-Terrestrial, 1982), o qual a utilizou como uma forma de vermos os acontecimentos a partir do ponto de vista das crianças. Ozu também usava como poucos a técnica de campo e contracampo, principalmente em passagens de diálogos, quando vemos os personagens de frente para a câmera, como se estivéssemos conversando com eles. Por outro lado, sabia usar a trilha sonora para acentuar a melancolia do drama, mas sem torná-la invasiva ou excessiva. Ademais, era um ótimo diretor de atores, extraindo deles o seu melhor, vide o ótimo desempenho de Chishu Ryu, como o pai Shukishi Hirayam, que conseguiu interpretar com inteira veracidade um tipo 20 anos mais velho do que a sua verdadeira idade à época. Outro destaque é, Chieko Higashiyama, como a mãe idosa e doente, além de Setsuko Hara, como a dedicada nora Noriko e Haruko Sugimura, como a antipática e vazia filha Shige.

Contudo, para além de questões estilísticas, a maior relevância do cinema de Ozu é seu caráter profundamente humano, que inclusive nos faz repensar nossas próprias relações familiares. Como diz o cineasta Aki Kaurismaki, no documentário “Conversando com Ozu” (que acompanha a edição brasileira de “Era Uma Vez em Tóquio”, recém-lançada pela Versátil), comparando o cinema o cinema de Ozu ao predominante nos Estados Unidos: “Em seus filmes, Ozu fala de tudo que é essencial ao ser humano sem exibir nenhuma cena de violência”. Mesmo que trate eminentemente da cultura japonesa, este gênio consegue ser universal, o que me remete a uma outra frase, esta do mestre literário Liev Tolstói: “Se queres ser universal, começas por descrever a tua aldeia”. E é essa a síntese do cinema de Ozu. A partir da abordagem de um Japão em processo de rápidas transformações sociais e culturais, ele toca em temas e acontecimentos que dizem respeito a todos os seres humanos, sem exceções.


Cotação e nota: Obra-prima.

sábado, 21 de setembro de 2013

Rush - No Limite da Emoção

Quando pilotos foram heróis


Definitivamente, a Fórmula 1 já não é mais a mesma. Hoje, mesmo com carros superseguros, frequentemente encontramos pilotos sem gana de vencer, que se contentam em serem apenas meros assalariados de uma escuderia e, se for “necessário”, deixam o colega de equipe ultrapassar para ajuda-lo a ganhar um campeonato. Em suma, a F1 deixou de ser um esporte e se transformou em apenas uma mera exibição de montadoras, em busca de dividendos. A Fórmula 1 que conheci, em meados dos anos 80, era mais perigosa, mas ao mesmo tempo muito mais romântica, repleta de pilotos obstinados que buscavam, acima de tudo, a vitória para escrever seus nomes na história do esporte. Eram os tempos de Alain Prost, Nigel Mansell, Nelson Piquet e, claro, Ayrton Senna, aquele que considero o maior piloto ente todos. E falo isso de forma isenta, pois nunca fui um admirador da personalidade dele e detesto o ufanismo desmedido de um Galvão Bueno, mas a verdade é que Senna fez coisas na pista que jamais vi outro piloto fazer (como podemos recordar no documentário "Senna"). Também cheguei a ver, ainda bem garoto, o austríaco Niki Lauda disputando provas e me lembro de perguntar aos meus pais o que havia acontecido com o seu rosto. A resposta: “foi um acidente em que o rosto dele foi queimado”. Recordo, ainda, de considerá-lo um homem extremamente corajoso, pois tinha voltado a correr mesmo depois de um acidente tão grave.

Essa “era de ouro” da Fómula 1 é retratada brilhantemente por Ron Howard em seu novo trabalho, “Rush – No Limite da Emoção”, longa atualmente em cartaz no circuito comercial brasileiro. Na realidade, o filme aborda uma fase ainda anterior àquela que pude acompanhar, nos anos 70, quando os riscos do automobilismo ainda eram maiores do que na citada década oitentista. Para se ter uma ideia, a média de mortes de pilotos era de dois por temporada, ou seja, o risco de morrer a cada Grande Prêmio era muito elevado. Pertence a esse tempo o imaginário de que pilotos eram, antes de tudo, heróis. Foi nessa época que Lauda começou sua trajetória que culminaria em um futuro tricampeonato e na qual possuiu um grande rival, James Hunt, um britânico mulherengo e farrista que parecia ser o oposto do cerebral, concentrado e comedido piloto austríaco. Só em um ponto demonstravam similaridade: a obsessão pela vitória, encarando qualquer desafio para alcançá-la.



Essa rivalidade é o mote de “Rush”, mas Howard não coloca seu foco principal no que acontece nas pistas. Claro que há diversas sequências sensacionais com corridas, ultrapassagens e colisões, mas o longa não é sobre corridas, mas, sobretudo, personalidades. Howard se esmera em analisar a persona dos rivais, mostrando a origem de seus desentendimentos, suas evidentes diferenças e, de forma inteligentíssima, suas semelhanças. Para tanto, conta com um belíssimo roteiro de Peter Morgan, baseado no livro “Corrida Para a Glória”, de Tom Rubython, e que teve ainda a luxuosíssima consultoria do próprio Lauda. Mesmo que em certos momentos a trama acabe fazendo concessões ao esquema hollywoodiano de se adaptar biografias, ela é extremamente envolvente, fazendo com que o espectador tenha a sensação de realmente conhecer aqueles pilotos. Além disso, Howard tomou o cuidado de não transformá-los em “vilão e mocinho”, escapando da armadilha do maniqueísmo. Tanto Lauda quanto Hunt possuem tempos iguais na tela e são expostas suas várias facetas, tanto negativas quanto positivas. Se primeiro somos inclinados a simpatizar com Lauda devido à sua personalidade discreta, logo depois constatamos uma certa arrogância em seu temperamento, além de um jeito rude que acaba por torná-lo um tipo impopular entre os colegas. O oposto do popular Hunt, o qual primeiro desperta antipatia por seu estilo farrista e meio irresponsável, mas que depois demonstra seu lado humano e solidário, além de percebermos que muito do seu comportamento é um disfarce para seus medos e inseguranças. Há, ainda, um particular subtexto acerca da sedução exercida pelos pilotos sobre as mulheres. Mesmo o introvertido Lauda faz valer suas habilidades ao volante para conquistar aquela que seria sua esposa.


Os pilotos são interpretados com muita competência por ambos os atores. Chris Hemsworth, na pele de James Hunt, embora tenha um papel relativamente mais simples, demonstra que pode ir bem além do que faz como o Thor dos filmes da Marvel. Daniel Brühl (lembram dele em “Adeus, Lênin!”?), por sua vez, encarna um Niki Lauda perfeito (chegou a usar próteses dentárias para ficar mais parecido com o verdadeiro), mas, cabe ressaltar, seu trabalho foi facilitado pelo contato que teve com o original, hoje chefe da equipe Mercedes, enquanto Hemsworth não dispôs do mesmo privilégio, pois que Hunt faleceu com apenas 45 anos, vítima de um infarto. De qualquer forma, no duelo entre os dois quem ganha é o púbico e as atuações foram elogiadas por nomes como Emerson Fittipaldi, contemporâneo dos dois pilotos na F1 dos anos 70. Como não poderia deixar de ser, o espectador também é premiado com as fantásticas cenas de corrida, com suas ultrapassagens e acidentes precisamente reconstituídos, principalmente o famoso acidente em que Lauda quase perdeu a vida e teve boa parte do corpo queimado (show de efeitos especiais que não se fazem perceber), além de manter o ritmo e envolvimento ao longo de toda a projeção, um mérito da direção de Howard, cineasta com grande talento em prender o público e que parece ter especial apreço por biografias e tramas baseadas em eventos verídicos, como nos casos de “Uma Mente Brilhante” (A Beautiful Mind, 2001) e “Apollo 13” (1995). Vale o destaque ainda para a trilha sonora de Hans Zimmer, inspirada como há muito tempo não se ouvia nos seus trabalhos (muito superior ao que fez em “O Homem de Aço”).

O resultado é um filme de arrepiar, capaz de agradar tanto à crítica quanto ao público, este com potencial para ser bem mais abrangente do que os aficionados por automobilismo. Arrisco dizer que é o melhor trabalho de Ron Howard, superando o citado e oscarizado “Uma Mente Brilhante”. Aliás, falando em Oscar, não vou estranhar se o longa conseguir várias indicações na próxima edição do prêmio da Academia de Hollywood. Caso venha a obtê-las, será inteiramente justo. E termino pontuando: um dos melhores filmes sobre esporte já feitos.


Cotação:



Nota: 9,5

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Restaurando a Película

Gente Como a Gente
(Ordinary People, 1980)


A família que derrubou um touro


Eu faço parte da legião de revoltados com o fato de “Touro Indomável” (Ragging Bull, 1980), filme que considero a grande obra-prima de Martin Scorsese, não ter recebido os prêmios de melhor filme e direção da Academia de Hollywood. Acredito que seja uma injustiça ainda maior do que a derrota de “Taxi Driver” (1976) para “Rocky – Um Lutador” (Rocky, 1976), uma vez que, apesar da importância do longa de Scorsese, eu não o tenho como seu melhor filme e, convenhamos, a saga do lutador criada por Sylvester Stallone é muito cativante. Sendo assim, sempre antipatizei previamente com o responsável pela derrota de “Touro Indomável” no Oscar, um drama intitulado “Gente Como a Gente” (“que título cafona!”), o qual veio a ser a estreia do astro Robert Redford na direção. Entretanto, neste último sábado resolvi dar uma chance para o filme de Redford. Afinal, muito consideram injustiça a derrota de “Cidadão Kane” (Citzen Kane, 1941) para “Como Era Verde Meu Vale” (How Green Was My Valley, 1941), mas, sinceramente, o filme de John Ford me agrada mais do que a seminal obra de Orson Welles. Bem, a verdade é que, para um diretor estreante, “Ordinary People” se revela um grande trabalho. Impressionam a segurança de Redford, bem como a sua direção de atores, os quais entregam ótimas performances, principalmente o também estreante na tela grande Timothy Hutton (ele tinha feito apenas filmes para TV), um rapaz excepcional que me fez perguntar por onde ele anda e que se tornou o mais jovem ator a ganhar um Oscar (como coadjuvante).

Trata-se da adaptação de um livro de Judith Guest, um ótimo trabalho do roteirista Alvin Sargent, que também levou o Oscar por seu esforço. Surpreende, inclusive, que o longa tenha alcançado um grande êxito nas bilheterias, tendo em vista o público norte-americano costuma privilegiar produções escapistas e esta vai justamente no sentido oposto. É uma história de desagregação familiar ocorrida após uma tragédia, a morte do milho mais velho por afogamento em um acidente de barco. O mais novo, Conrad (papel de Hutton), carrega a culpa por se considerar culpado pelo ocorrido, chegando a tentar o suicídio. A mãe (interpretada com brilho por Mary Tyler Moore), por sua vez, procura manter sempre as aparências de controle e estabilidade familiar, por mais que as evidências demonstrem o contrário. O pai, vivido por Donald Sutherland (pai de Kiefer), demonstra maior preocupação com o filho em crise e o aconselha a procurar o psicanalista Tyrone Berger (Judd Hirsch, também indicado ao Oscard de coadjuvante), o qual, com seus métodos abertos e francos, ajuda Conrad a recuperar sua autoestima.



A trama se desenvolve sem pressa e, aos poucos, vamos conhecendo as nuances da tragédia que marcou os Jarret e também as características de suas respectivas personalidades. Observamos, por exemplo, que a obsessão por controle da mãe Beth é perceptível até no seus afazeres domésticos, demonstrando uma mania de organização e cuidado com detalhes mínimos, como a disposição dos talheres na mesa onde irão jantar apenas pais e filho. Da mesma forma, percebemos que o falecido irmão Buck era o “popular” da escola e, possivelmente, o filho preferido de sua mãe. O pai, Calvin, é uma pessoa afável e cuidadosa, mas sucumbe diante do comportamento autoritário da esposa. E Conrad se vê perdido em meio à turbulência, tendo enormes dificuldades de estabelecer contato com a mãe e não obtendo na figura paterna a força de que necessita para superar o passado. O longa é um prato cheio para psicólogos e afins, dada a riqueza com que são evidenciadas as personalidades em cena.



Por outro lado, “Ordinay People” por vezes passa aquela sensação incômoda de estarmos assistindo a uma espécie de teatro filmado. É o tipo de película em que os diálogos se sobrepõem em demasia ao lado imagético, algo que, em geral, acaba por empobrecer um filme. Cinema é imagem e, ao compararmos com o preterido “Touro Indomável”, o contraste se faz gritante. A mão de Redford também erra ao imergir demais em psicologismos. Uma parcela significativa da projeção se passa no consultório do Dr. Berger, onde Conrad realiza suas digressões. De qualquer forma, nada que chegue a transmitir a sensação de tédio ou cansaço, principalmente diante da excelência das atuações. Mary Tyler Moore está perfeita em uma personagem que desperta antipatia desde as primeiras sequências, mas que ao mesmo tempo soa perfeitamente humana, sem maniqueísmos (também foi indicada ao Oscar de melhor atriz, perdendo para Sissy Spacek por “O Destino Mudou Sua Vida”). Sutherland também entrega boa atuação (principalmente na marcante sequência final), assim como Judd Hirsch na pele do Dr. Berger, mas é Hutton quem, de fato, rouba todas a cenas, em uma atuação bastante emotiva. Como disse acima, fiquei curioso para saber o seu destino como ator e, buscando no Google, descobri que ele fez muitos filmes depois deste, mas nunca obtendo o mesmo sucesso (participou, por exemplo, de “O Escritor Fantasma”, de Polanski). Uma pena que sua carreira não tenha decolado.

Não se pode negar que “Gente Como A Gente” não chega a ser uma obra-prima como o longa de Scorsese que derrubou na festa do Oscar. Mas vale ressaltar, inclusive, que ele é um filme mais afeito aos padrões da Academia do que aquele protagonizado por Robert De Niro. De toda forma, perdi um pouco da minha antiga aversão, uma vez que está longe de ser uma obra irrelevante. Pelo contrário, trata-se de um drama muito bem construído por Robert Redford, com personagens que, realmente, são pessoas comuns, como diz o título, vivenciando dificuldades que podem suceder na vida de qualquer um. Uma obra cheia de sensibilidade - com um inteligente final em aberto - que merece ser rememorada, mesmo que você seja um dos admiradores de Martin Scorsese. Aconselho a assistir desarmado(a).


Cotação:



Nota: 9,0

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Cine Holliúdy

Cinema cearensês


Este é um daqueles fenômenos que surgem de tempos em tempos. Produções de baixo orçamento, com várias limitações, mas que terminam por atingir o público de uma forma especial, alcançando o sucesso principalmente através do boca-a-boca, sem grandes esquemas de marketing ou distribuição. No caso do Brasil, sem o apoio da Globofilmes, “entidade” dominante em nosso mercado e responsável por quase todos os nossos sucessos comerciais, obter uma boa bilheteria é um feito notável, principalmente se o longa-metragem em questão vem do Nordeste, região historicamente desprezada e vítima dos preconceitos do “Sul Maravilha”, além de economicamente periférica neste Brasil abençoado por Deus e bonito por natureza, mas até hoje extremamente injusto e hipócrita. Sucesso absoluto em Fortaleza, onde obteve na estreia uma excelente média de espectadores por sala (empatou com a média de “Titanic”!) e superou a marca dos 100 mil ingressos vendidos (somente na capital cearense, frise-se), batendo localmente a estreia de blockbusters como “Wolverine – Imortal” e “O Homem de Aço”, “Cine Holliúdy” surge como uma grata surpresa não só por ser uma produção nordestina que conquistou espaço em nosso circuito comercial, mas também – e principalmente – por trazer um sopro de inteligência dentro quadro raso das comédias habituais em exibição nas salas de cinema.

Dirigido por Halder Gomes (co-diretor de “As Mães de Chico Xavier”), também autor do roteiro, o longa é uma versão extendida do curta “Cine Holliúdy – O Artista contra o Caba do Mal” e possui declaradamente contornos da biografia do cineasta, que vivenciou a decadência das salas de cinema nas cidades do interior (no caso dele, em Senador Pompeu, Ceará), principalmente depois da chegada da TV em cores ao Brasil na década de 70, época em que se passa a trama. “Cine Holliúdy” tem muito da metalinguagem de filmes como “Splendor” (1989) e, para citar um exemplo mais famoso, “Cinema Paradiso” (Nuovo Cinema Paradiso, 1988), tendo como ponto central uma autêntica declaração de amor ao cinema, no caso, personificada pelo personagem Francisgleydisson (papel do ótimo ator Edmilson Filho), um sonhador que luta para manter vivas as salas de cinema em cidades do interior. Depois de vários reveses, sua derradeira tentativa será na cidadezinha de Pacatuba, uma das poucas em que ainda não há uma televisão na praça, para onde migra com a esposa (Miriam Feeland) e seu filho. Vários serão os seus desafios, desde a natural falta de recursos para reformar uma antiga sala, passando pelas dificuldades com a politicagem local e a precariedade de equipamentos e rolos de filme.



Em paralelo aos projetos de Francisgleydisson, Halder traça um colorido painel de costumes locais, apresentando personagens pitorescos, além de diálogos e situações dotadas de um humor ao mesmo tempo regional - uma vez que calcado em maneirismos cearenses - mas também universal, capaz de extrair sorrisos abertos de espectadores de qualquer cultura. A própria ideia de se fazer um longa falado em “cearencês” com legendas em português já é bastante espirituosa e acaba funcionando, inclusive, como marketing da produção. Ademais, trata-se de um trabalho com inegável apelo para as amantes da Sétima Arte. A sequência do discurso de Francisgleydisson na inauguração da sala, uma linda declaração de amor ao Cinema como poucas vezes se viu, é para fazer qualquer cinéfilo se emocionar. Ouso dizer, guardadas as diferenças temáticas e importância histórica, que está à altura do famoso discurso de Charles Chaplin em “O Grande Ditador” (The Great Dictator, 1940). Vale notar ainda a trilha sonora, com vários que temas que citam abertamente trilhas clássicas como as de “Tubarão” (Jaws, 1975) e “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odissey, 1968), além da ótima utilização do repertório brega-cult do cantor e compositor Márcio Greick. Destaque-se, ainda, o elenco extenso,mas homogêneo em suas boas atuações, mesmo que Edmilson Filho seja, irremediavelmente, o centro das atenções.


Entretanto, se Halder Gomes desenvolve a primeira metade do longa com criatividade e eficiência, a segunda cai bastante em ritmo e na qualidade do humor, o qual começa a se repetir e a se escorar em regionalismos excessivos. A enorme sequência da primeira sessão da sala é cansativa e perde o interesse já em sua metade. Salva-se a homenagem aos filmes de artes marciais dos anos 70, com especial reverência a Bruce Lee, o ídolo de Francisgleydisson. Contudo, possui um interessante desfecho que leva o espectador a questionar se são fatos ou apenas a imaginação do protagonista, um recurso interessante que enriquece a obra.

Como já frisado acima, “Cine Holliúdy”, apesar de suas falhas, traz algo além do que mera diversão escapista para um fim de semana, como em geral ocorre nas comédias nacionais. Constitui-se, antes de mais nada, em um resgate nostálgico de um cultura que feneceu após a popularização da televisão e, mais adiante, do home video, seja o antigo VHS, o DVD ou o moderno blu-ray. Em outros tempos, muitos frequentavam diariamente as salas de exibição. Hoje, como mencionado nas legendas antes dos créditos finais da película, apenas 5 municípios do Ceará possuem salas de cinema. No Rio Grande do Norte, eu nem sei se chega a tal o número de cidades (até onde tenho conhecimento, apenas Natal e Mossoró possuem salas). Uma pena que nos dias de hoje tão poucas pessoas tenham acesso a essa magia tão encantadora.


Cotação: 



Nota: 7,5

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Trilha Sonora # 28



Este é, possivelmente, o filme mais subestimado de Steven Spielberg. Muitos o consideram o seu pior trabalho, mas eu não o vejo assim. Se não está entre os seus melhores longas, "Além da Eternidade" (Always, 1989) é muito agradável, romântico (é um precursor de "Ghost", na verdade) e sabe utilizar com precisão a canção "Smoke Gets In Your Eyes", composição de Jerome Kern e Otto Harbarch para o musical da Broadway "Roberta", ainda em 1933. Essa linda canção você pode ouvir abaixo tal como a escutamos no filme, na imbatível versão do grupo "The Platters". Sobe o som! 

Ah, e essa na imagem acima é mesmo Audrey Hepburn!


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

Sete Dias com Marilyn
(My Week With Marilyn, 2011)


Norma e Marilyn


O cinema, certamente, é a maior fábrica de mitos contemporânea e, dentre os muitos gerados no século passado, Marilyn Monroe sem dúvida é um dos maiores. Ela é uma das poucas estrelas hollywoodianas do século passado que ainda influenciam o comportamento das novas gerações. Entre as mulheres, sua aura só se equivale à de Audrey Hepburn. Contudo, se Audrey se coloca até hoje como um símbolo de sofisticação, Marilyn é a epítome da sensualidade evidente, escancarada, ajudada por suas curvas generosas e o ar pseudo-ingênuo que criou para sua presença pública, um personagem cultivado ao longo de toda a sua carreira, encerrada drasticamente após uma overdose de tranquilizantes em 05 de agosto de 1962. “Sete Dias Com Marilyn”, longa dirigido por Simon Curtis em 2011, é um longa que se presta justamente a levar o espectador a conhecer Norma Jeane Mortenson (seu nome verdadeiro) e não a Marilyn dos filmes e das badalações, procurando entender a persona escondida atrás da personagem pública. Ao mesmo tempo, não deixa de ser uma bela homenagem ao mito e também uma interessante abordagem acerca dos bastidores da Sétima Arte, levando-nos a conhecer vários dos desentendimentos, vaidades, conflitos e amizades que surgem ao longo das filmagens.

A maior virtude da direção de Curtis, bem como do roteiro de Adrian Hodges, é a de abordar um momento específico da vida da atriz. Baseado nos livros “The Prince, The Showgirl and Me” e “My Week with Marilyn”, de Colin Clark, que é o narrador e personagem central da película, o enredo trata dos dias em que Marilyn viajou ao Reino Unido para realizar as filmagens de “O Príncipe Encantado” (The Prince And The Showgirl, 1957), longa dirigido e estrelado por Laurence Olivier (papel de Kenneth Branagh, nada mais adequado), o renomado intérprete de Shakespeare, tanto no teatro quanto no cinema. Com a produção, Olivier estava tentando quebrar um pouco de sua imagem hermética, erudita, buscando apresentar um perfil mais popular. Para tanto, nada melhor do que se aliar à atriz mais famosa do mundo em uma comédia sem maiores consequências.


“Sete Dias com Marilyn” é focado na personalidade da atriz. A despeito do curto período temporal narrado, podemos perceber várias de suas características, como sua marcante insegurança, sua fragilidade por traz da diva encantadora, bem como seu esforço para ser vista não apenas como uma sex symbol, mas como uma intérprete de verdade, algo que, na realidade, nunca veio a acontecer. Adepta do famoso Método Stanislavski de interpretação, ela acaba por ser alvo das críticas constantes de Olivier, que não tem paciência com o tempo que a estrela leva para “imergir” no personagem, nem com sua notória dificuldade de memorizar diálogos. Por outro lado, Curtis não se furta a mostrar seu lado menos elogiável. Volúvel e adúltera, Marilyn era capaz de seduzir jovens inexperientes tão somente para afogar suas mágoas, várias delas advindas de seus problemas conjugais com Arthur Miller (Dougray Scott), seu marido à época. E ela o fazia assim como quem bebe uns tragos para curar uma dor de cotovelo, não se importando com as consequências emocionais que sua sedução e posterior indiferença poderiam causar nos eventuais apaixonados. É o que acontece com Colin Clark (Eddie Redmayne), mais uma “vítima” de seu poder de atração irresistível. Da mesma forma, o longa também não deixa de lado sua dependência química, mostrando o quão difícil era conviver e trabalhar com alguém se dopava quase diariamente.



Todavia, o longa é feliz não apenas na abordagem adotada, mas também em seus aspectos técnicos, apresentando uma reconstituição de época precisa, além de uma maquiagem e figurinos impecáveis. Também merece destaque a bela trilha sonora de Conrad Pope, de tom melancólico e nostálgico, bastante adequada ao caráter sensível da produção. Entretanto, este é o típico filme que não se sustentaria sem atuações de peso, mormente a interpretação da biografada. A respeito, Michelle Williams dá conta do recado? Não inteiramente seria a melhor resposta. Não vou entrar aqui nos méritos estéticos, pois Williams é uma mulher bonita, mas é quase óbvio dizer que a original era ainda mais. Entretanto, na composição de Williams falta um pouco da descontração de Marilyn, que era mais extrovertida publicamente do que se percebe na adaptação. Não que ela não tenha um bom desempenho e é possível estar sendo muito exigente, mas não vi Williams como a “Marilyn definitiva”. Faltou alguma coisa. Mas, vale dizer, não sei se é possível alguém alcançar esse “indefinível” que só a biografada tinha. De qualquer forma, valeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz (que perdeu, com justiça, para Meryl Streep como “ A Dama de Ferro”). Já Kenneth Branagh rende um ótimo Laurence Olivier e a atuação de Eddie Redmayne, como o narrador Colin, é competente. Destaque ainda para a presença de Julia Ormond na pele de Vivien Leigh, aflita com a “queda” que seu marido Laurence mal disfarçava sentir pela diva norte-americana.

Destarte, mesmo que, como mencionado acima, o filme não omita o lado menos notável da diva, sua conclusão, realçando que Colin nunca deixou de ser um eterno apaixonado por ela, conduz o público a uma inescapável admiração pela estrela, como a sugerir que somos todos fãs de Marilyn, mas não de Norma Jeane. Em determinado momento do filme, quando reconhecida por funcionários de uma biblioteca, ela pergunta ao rapaz: “devo ser ela?”. Em seguida, começa a posar e a se comportar como a personagem que criou. Sim, o público sempre amará a estrela Marilyn Monroe, esquecendo que Norma Jeane faleceu sozinha em um quarto poucos anos depois de concluir “O Príncipe Encantado”.


Cotação:



Nota: 8,0

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Histórias Marcantes do Cinema

Inauguro com este post uma nova série no "Cinema Com Pimenta", dedicada a contar um pouco da história dessa arte tão apaixonante. A seção tratará tanto de fatos que marcaram época, quanto de personalidades importantes nos desenvolvimento do Cinema. Uma tentativa de acender a curiosidade dos cinéfilos acerca de momentos e nomes já distantes, mas de extrema relevância no desenvolvimento da Sétima Arte. Vamos começar? Só acompanhar o texto abaixo.


Alice Guy-Blaché - A primeira (e esquecida) diretora de cinema


Quando lembramos dos pioneiros da Sétima Arte, logo recordamos os irmãos Lumiére, celebrados como os “inventores” do cinema. Assim mesmo, entre aspas, uma vez que o cinema, na verdade, foi uma invenção coletiva. Outro bastante lembrado costuma ser Georges Méliès, o diretor de “Viagem à Lua” (La Voyage Dans La Lune, 1902), filme que pode ser considerado o primeiro do gênero ficção científica e um dos precursores no uso de efeitos visuais. Principalmente depois de “A Invenção de Hugo Cabret” (Hugo, 2011), longa de Martin Scorsese, Méliès tornou-se um figurinha carimbada do meio cinéfilo, recebendo homenagens e constando em todos os livros que se prestam traçar, mesmo que de forma sintética, a história do cinema. Entretanto, há alguns nomes pioneiros a quem o tempo ainda precisa fazer justiça. Um deles é o de Alice Guy-Blaché. Não sei se por um provável machismo ou simplesmente uma dessas injustiças corriqueiras, mas esta francesa, que desenvolveu um belíssimo trabalho nos primórdios da produção cinematográfica, ainda precisa ter o seu valor reconhecido.

Guy-Blaché foi a responsável por dirigir cerca de 700 curtas-metragens na aurora do cinema. E, talvez mais importante do que ser a primeira mulher diretora, ela foi a realizadora daquele é considerado o primeiro filme com roteiro (1): A Fada dos Repolhos (La Fée Aux Choux, 1896), uma fantasia acerca do nascimento dos bebês. Uma produção de valor inegável para a cinematografia, uma vez que, até então, os filmes se limitavam a exibir imagens documentais de eventos cotidianos, como a chegada de um trem na estação ou ida de trabalhadores a uma fábrica. São apensa 57 segundos de projeção, mas que trouxe algo, até então, inédito. Vale dizer que ela foi também a única mulher até hoje que conduziu o seu próprio estúdio, o Solax.

Nascida na França em 1 de julho de 1873, Alice Guy começou sua carreira como secretária na Gaumont Film Company. Em 1907 se casa com Herbert Blaché (daí o seu sobrenome), o qual, ao ascender ao posto de gerente de produção da Gaumont nos Estados Unidos, imigra com a família para o país. Em 1910, Alice e Herbert, em parceria com George A. Magie, criam o Solax,o maior estúdio pré-Hollywood dos EUA. Enquanto Herbert trabalhava como gerente e produção e cineasta, Alice se tornou a diretora artística. O estúdio foi tão bem sucedido que, em apenas dois anos, investiram cerca de cem mil dólares em novas instalações tecnológicas em Fort Lee, Nova Jersey.


Anos depois, em 1918, Herbert abandona a esposa e vai para Hollywood com uma de suas atrizes. Com o declínio da Costa Leste como lar do cinema em favor do clima mais propicio de Hollywood, a parceria cinematográfica também temina. Voltando à França em 1922, embora nunca mais dirigindo qualquer produção, concede palestras sobre cinema e escreve romances baseados em seus roteiros. Em 1953 o governo francês lhe condecorou com a maior honra para um civil: a Legião da Honra. Nunca mais se casou e em 1964 retornou aos EUA para ficar com uma de suas filhas, vindo a falecer em 1968, aos 94 anos, em uma casa de idosos.

Abaixo, confira a “Fada dos Repolhos”, uma das grandes contribuições dessa mulher excepcional ao cinema.





(1) Segundo Mark Cousins, em "História do Cinema - Dos Clássicos Mudos ao Cinema Moderno". Martins Editora. 1ª ed. 2013.

sábado, 10 de agosto de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Intocáveis
(Intouchables, 2011)


Blockbuster sobre a amizade


Este é considerado o filme francês mais rentável de todos os tempos, com cerca de 19 milhões de espectadores. Também foi sucesso em vários outros países europeus, como a Alemanha, onde também chegou a alcançar o posto de filme mais visto nos cinemas durante algumas semanas. No Brasil, alcançou a marca de mais um milhão de espectadores, uma proeza para um filme francês em nossas terras. Ao redor do mundo, obteve uma bilheteria de US$ 360 milhões de dólares. Em outras palavras, “Intocáveis” foi um sucesso absoluto de público, como poucas produções europeias conseguem ser. Um blockbuster, enfim. Entretanto, vale ressalvar, tal sucesso não foi sem méritos. Dirigido pela dupla Olivier Nakache e Éric Toledano (também autores do roteiro), o filme consegue a proeza de tratar de um tema pesado - extremamente propício a tentar arrancar lágrimas e ranger de dentes do público médio – de uma forma leve e descontraída, deixando o espectador com um sorriso nos lábios ao fim da sessão.

Baseado em uma história real, descrita no livro de memórias de Philipe Pozzo di Borgo, o longa tem como foco a relação entre Philipe, - um aristocrata milionário, culto e tetraplégico – e Driss, um bem-humorado imigrante senegalês que já teve problemas com a justiça francesa. Ambos são basicamente opostos, não apenas na condição social de cada um. Philipe (interpretado com muita competência por François Cluzet) é o típico branco europeu, vindo de família tradicional, de educação esmerada e modos refinados. Já Driss (o também ótimo Omar Sy), negro e com uma vida bem mais dura, repleta de dificuldades, reflete em sua conduta as frequentes disparidades entre os dois mundos, os quais, ironicamente, conseguem conviver dentro de uma mesma sociedade. Mas é exatamente pelas óbvias diferenças entre os dois que a amizade surge e cresce. Philipe não contrata Driss para trabalhar como seu cuidador por esse reunir as melhores qualidades profissionais, mas justamente por que o senegalês o trata com igualdade, esquecendo tratar-se de um deficiente físico. Driss não cuida do rico aristocrata com “pena”, mas deixando de lado as limitações do paciente, muitas vezes até fazendo piada com a sua condição. É o que Philipe precisa para sentir-se “igual”, assim como a sensação de inserção social chega a Driss por passar a viver em uma bela mansão, onde não existem as limitações materiais com as quais se acostumou a viver.


Os diretores Toledano e Nakache, todavia, não investem pesado em um possível caráter sociopolítico da trama. O subtexto social se faz presente, não deixando de abordar a atual realidade francesa, onde imigrantes e franceses de origem africana buscam seu espaço mas não é o norte do enredo. Uma decisão sábia, uma vez que, do contrário, a película poderia perder o seu encanto. Na vida, nossas relações e vivências não construídas a partir de um tratado ideológico. Elas simplesmente acontecem e dessa maneira natural que o longa é conduzido. E é interessante perceber como, ao longo da projeção, temos mais momentos de sorrisos do que de lágrimas, mas sem perder de vista o drama dos dois protagonistas. Uma dramédia muito bem posta e acabada.

Contudo, os méritos dos diretores não residem apenas no tom da narrativa. Narrado a partir de um longo flashback, o ritmo do longa é excelente, jamais se tornando cansativo. Pelo contrário, passa até muito rápido, deixando aquela vontade de vermos ainda mais da história de paciente e cuidador, sendo esse um mérito da edição de Dorian Rigal-Ansous. Ademais, não só apenas o personagens centrais, mas também os coadjuvantes são bem caracterizados, como a secretária de Philipe interpretada por Audrey Fleurot, constante alvo das cantadas de Driss. Por sinal, o elenco é ótimo, mas o grande destaque vai mesmo para a dupla de protagonistas. Tanto Cluzet (como ele lembra o Dustin Hoffman, não?) como Omar Sy emprestam uma tremenda verdade aos seus personagens sem jamais caírem na caricatura. Fosse um filme estadunidense, certamente seriam indicados ao Oscar e ambos na categoria principal, de melhor ator. Aliás, falando no prêmio da Ademia: como foi possível que este longa não foi indicado ao prêmio de filme estrangeiro? Uma pergunta que só nos faz questionar ainda mais os estranhos critérios da premiação.


É verdade que “Intocáveis” acaba investindo em alguns clichês, enfraquecendo um pouco o resultado final. Ademais, não deixa de ser um filme de “mensagem”, o que certamente foi um dos fatores preponderantes para que se transformasse em tão grande sucesso de público. Entretanto, tais fatores não chegam a transformá-lo em uma película banal. Pelo contrário, suas qualidades se sobressaem e criamos tanta empatia pelos personagens que sentimos saudades deles ao final. E, como vemos antes dos créditos a imagem dos homens reais que inspiraram a ficção, ficamos imaginando como foram suas vidas após o ponto onde o longa termina. Que belos momentos de amizade ainda terão vivido? Afinal, mais do que sobre preconceito ou qualquer outra questão social, esta é uma obra sobre a amizade, sentimento que pode surgir mesmo entre pessoas tão diametralmente diferentes.


Cotação:



Nota: 9,0

terça-feira, 30 de julho de 2013

Wolverine - Imortal

Preservando a essência


Já faz um bom tempo que li a histórica série de Wolverine, concebida por Chris Claremont e Frank Miller, que elevou o famoso mutante a novos patamares. Nela, Logan respirou ares diferentes em uma trama ambientada no Japão, tentando alcançar o autocontrole (algo quase avesso ao seu temperamento irascível) e conhecendo uma nova paixão com Mariko, deixando, desta forma, um pouco de lado seu eterno amor não correspondido por Jean Grey. O mais popular entre os X-Men atingia sua maioridade artística, arregimentando uma legião ainda maior de fãs que não parou de crescer, sendo hoje Wolverine um dos super-heróis mais populares da Marvel. Tão popular que já chegou ao seu segundo filme solo, mesmo diante das críticas negativas relativas a “X-Men Origens: Wolverine” (X-Men Origins: Wolverine, de 2009), com as quais eu nunca concordei inteiramente. É verdade que se trata de um filme com problemas, mas está longe de ser a “bomba” alardeada quando do seu lançamento. Por outro lado, se nas HQs o personagem foi alçado a níveis excepcionais com a citada história de Logan em terras nipônicas, “Wolverine – Imortal”, atualmente em cartaz no circuito comercial brasileiro, também eleva o mutante esquentado a outros patamares na telona do cinema.

Acredito não ser por acaso o sucesso, uma vez que este novo longa-metragem do herói foi inspirado na famosa HQ de Miller e Claremont, com o acréscimo de algumas outras nuances que vieram de sagas posteriores. Durante boa parte da projeção, sequer temos a sensação de estarmos assistindo a um filme de super-herói. Parece mais uma mistura de filme de ação tradicional com filme de artes marciais. Algo que lembra “Kill Bill”, de Quentin Tarantino, muito embora nosso herói tenha motivações mais nobres do que uma mera vingança e não há toda aquela sanguinolência explícita. Entretanto, o estilo samurai-fantástico se faz presente em várias sequências, dirigidas com muito apuro por James Mangold, o mesmo de longas como “Garota Interrompida” (Girl, Interrupeted, 1999) e “Johnny & June” (Walk The Line, 2005). Ou seja, um diretor de viés artístico, escolhido para colocar na película um maior peso dramático. Vale lembrar que a primeira escolha para a realização havia sido Darren Aronofsky, amigo de Hugh “Wolverine” Jackman, mas o diretor de “Cisne Negro” (Black Swan, 2010) acabou desistindo. De qualquer forma, a escolha se mostrou feliz (muito superior a Gavin Hood, diretor do primeiro filme solo do mutante), já que Mangold demonstrou capacidade não apenas de imprimir um teor dramático mais consistente à trama, mas também de entregar ótimas sequências de ação, como o sensacional embate de Logan com um mafioso da Yakusa em cima de um trem em movimento.



O roteiro, escrito por Scott Frank e Mark Bombak, mostra o mutante vivendo como um selvagem no meio da floresta – e mais agressivo do que nunca - até ser encontrado por Yukio (Rila Fukushima), uma japonesa que lhe traz uma mensagem de um antigo amigo, o Sr. Yashida (Hal Yamanouchi), militar que Logan salvou no trágico dia da explosão da bomba atômica em Nagasaki, durante a Segunda Guerra Mundial. Yashida está moribundo, vítima de câncer, e Logan viaja ao Japão para ouvir o que ele tem a dizer. Já em terras nipônicas, conhece Mariko, a neta de Yashida, e acaba por se envolver em uma trama que envolve a máfia Yakuza, além de outros mutantes, sendo que uma delas, a Víbora (Svetlana Khodchenkova), acaba por afetar o seu fator de cura, deixando o herói combalido para enfrentar seus perigosos inimigos.

Claro que há muita ação em “Wolverine - Imortal”, com algumas sequências realmente ótimas (como já frisado), imageticamente bem concebidas e com edição eficiente que permite ao espectador entender perfeitamente o que se passa na tela. Contudo, um dos seus maiores trunfos é a construção dos personagens, com destaque para Yukio, uma mutante com capacidade de prever o futuro, e Mariko, o novo amor de Logan, ambas, vale dizer, muito bem interpretadas por suas respectivas atrizes. O elenco como um todo se mostra bastante eficiente, mas é mesmo Hugh Jackman que mais uma vez mostra porque é o Wolverine definitivo. Alguns atores se encaixam tão perfeitamente em alguns papeis que sequer podemos imaginar outra pessoa interpretando-os. É o caso de Harrison Ford, por exemplo, como Indiana Jones. E é o caso de Hugh Jackman como o mutante de garras de adamantium.


Destarte, não se pode negar que o longa deixa a desejar no seu último terço, embarcando em alguns exageros dispensáveis que só contribuíram para enfraquecer a narrativa. Ademais, os fãs vão reclamar de algumas distorções em relação ao material original (principalmente com relação ao vilão Samurai de Prata, que dá as caras lá para as tantas). Todavia, mesmo com algumas ressalvas, a adaptação de Mangold preserva a essência do personagem, mesmo que Wolvie seja ainda mais violento e truculento nos quadrinhos. Aqui, devido às questões que envolvem um blockbuster, que, como sabemos, tem de gerar retorno financeiro, não é possível deixar a violência de forma muito gráfica na tela mas, de qualquer forma, está lá o Logan de temperamento arredio, quase um animal selvagem, lutando para domar seus instintos e superar o passado. Ou seja, encontramos o Wolverine que conhecemos e não um simulacro do herói, como aconteceu recentemente na nova adaptação do Homem de Aço para a telona. Enfim, saí da projeção desejando uma continuação e com vontade de recomendar “The Wolverine” para os interessados em curtir uma boa sessão no fim de semana.


Cotação:



Nota: 8,0

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Tenho Sede





Tenho Sede
(Dominguinhos/Anastácia)

Traga-me um copo d'água, tenho sede
E essa sede pode me matar
Minha garganta pede um pouco d'água
E os meus olhos pedem teu olhar

A planta pede chuva quando quer brotar
O céu logo escurece quando vai chover
Meu coração só pede teu amor
Se não me deres, posso até morrer


Pausa no cinema para uma singela homenagem a José Domingos de Morais, o Dominguinhos, falecido no último dia 23/07.

Mais uma mestre que se foi. Tenho certeza que agora está tocando ao lado de Gonzagão, fazendo um baita São João no céu!

(E que linda interpretação, essa do Gil!).


domingo, 21 de julho de 2013

O Homem de Aço

5 motivos para não gostar de “O Homem de Aço”


ALERTA: o  texto a seguir está cheio de spoilers. Portanto,  é melhor acompanhá-lo apenas se você já tiver assistido ao filme.


Este foi um dos filmes mais aguardados do ano e as grandes expectativas quase sempre geram decepções. Infelizmente, não consegui fugir a tal regra e saí do cinema frustrado após assistir a “O Homem de Aço” em uma sessão 3D (dispensável) completamente lotada. A pergunta que não calava na minha mente era justamente: “mas, afinal, onde está o Superman?”. Sim, porque, convenhamos, aquele personagem na tela tinha algumas semelhanças com o Kal-El que conheci nos quadrinhos e na franquia cinematográfica protagonizada por Christopher Reeve, mas não era ele. A seguir, em tópicos, vou discorrer sobre os motivos que me levaram a rejeitar essa nova adaptação, esse reboot tão desnecessário quanto o foi, ano passado, o reinício da franquia do Homem-Aranha.

1) O roteiro – A impressão que tive foi a de que os roteiristas David S. Goyer e Christopher Nolan, os mesmos da recente trilogia “O Cavaleiro das Trevas”, estavam de ressaca depois do seu trabalho com o homem morcego e as ideias acabaram não fluindo da forma esperada, pois o enredo de “Man Of Steel” é repleto de atropelos e incongruências. Há muitas circunstâncias mal explicadas, como o fato dos kryptonianos não mais se reproduzirem naturalmente (será que alguma saga recente dos quadrinhos criou essa ideia estapafúrdia?) ou a ida de Lois à Fortaleza da Solidão, assim, digamos, meio que por acaso, logo após ver Kal-El caminhando (hein?) no Ártico em busca de suas origens. De quebra, o roteiro ainda transformou o Superman em um assassino ao matar o General Zod. A desculpa de Zack Snyder, diretor do longa, é a de que “a inocência acabou”. Pois bem, Sr. Snyder, eu acredito que justamente no mundo de hoje estamos precisando de mais pureza, inocência, inspiração e o personagem do Super-Homem era justamente o mais eficaz em mostrar aos garotos uma inigualável retidão de caráter. E aqui, entramos no segundo problema.


2) A direção – Zack Snyder é o diretor, mas não se pode negar que “O Homem de Aço” possui a mão forte de Christopher Nolan no processo criativo. Com dito anteriormente, recém egresso da franquia de Batman, ele aparentemente confundiu os personagens, querendo atribuir à narrativa um tom sombrio que destoa do Superman. Podem me acusar de “purista” ou “saudosista”, mas sempre defendi que uma adaptação de HQ é bem-sucedida quando consegue captar a essência do personagem. É o que sucedeu com a referida trilogia do Cavaleiro das Trevas e também com a trilogia do Homem-Aranha comandada por Sam Raimi. O que ocorre em “O Homem de Aço” é justamente o oposto. Super-Homem transforma-se em uma pessoa cheia de complexos, sem autoconfiança sentindo-se um rejeitado-deslocado-excluído devido à sua condição de alienígena. Algo semelhante ao sentimento dos mutantes dos X-Men, mas o filme não é sobre Wolverine (o filme dele é outro). Ressalte-se que os humanos sentem mais medo do super-herói do que admiração. Aliás, o fato de Kal-El ser um alienígena já é conhecido por todos, assim, logo de cara, inclusive por Lois Lane. Sim, não existe nenhum mistério e riqueza no relacionamento entre os dois. Ela já sabe que Clark é Superman, sem rodeios. O romance resta mal desenvolvido e, em compensação, no último terço de projeção, temos meia hora de pancadaria desenfreada que chega a ser cansativa. Metrópolis é devastada praticamente inteira, sem dó nem piedade, umas três vezes. Ah, e tudo isso com uma fotografia que prima pelos tons escuros, como se a qualquer momento Clark Kent fosse entrar na Batcaverna.

3) O ator – Em geral, o elenco não compromete. Amy Adams convence como a repórter Lois Lane, conferindo-lhe aquele ar arrogante-petulante característico da personagem. O veterano Kevin Costner também se sai bem como Jonathan, o pai terráqueo de Clark, exalando aquela aura de sabedoria a que nos acostumamos ver tanto nas HQs quanto no cinema. Até Russel Crowe, que vivia péssima fase, convence como Jor-EL, o pai kryptoniano do herói. Entretanto, é justamente na peça central que mora o problema. Henry Cavill, ator britânico egresso da TV (participou da série “The Tudors”), realmente é um homem bonito, lembrando o ícone Christopher Reeve, tem porte atlético e jeitão de Superman. Contudo, como ator, não convence ninguém. Está sempre com o semblante fechado e, nos poucos momentos sorridentes, eles aparecem forçados, como em um comercial de pasta de dente. Assim, a empatia com o espectador resta diminuída, algo que prejudica demais em um filme de super-herói. Mas, vá lá, ele é melhor do que o completamente inexperessivo Brandon Routh, intérprete (?) do filme de Bryan Singer.


4) A pretensão – Tudo bem, uma das conotações mais notórias do Super-Homem é a sua similaridade com Jesus Cristo. Afinal, ele foi “enviado” para a Terra, onde deveria trazer esperança para a humanidade; foi criado por pais terrenos; usa um manto vermelho nas costas; é moralmente irrepreensível e por aí vai. Contudo, “O Homem de Aço” leva essa conotação messiânica ao extremo, chegando ao ponto de, em determinada cena, o herói abrir os braços como se estivesse para ser crucificado. É como se, de repente, estivéssemos estranhamente a assistir um filme religioso. Tal subtexto sempre vai existir nas histórias do Superman, mas não precisa exagerar tanto assim. Esses excessos só contribuíram para deixar o longa com uma jeitão pretensioso totalmente dispensável.

5) A trilha sonora – Esse é o pior trabalho de Hans Zimmer em muito tempo. Uma trilha sonora invasiva, constante e permanentemente tensa. Dá até a impressão de que foi concebida para um filme de suspense. Entretanto, ao contrário de causar tensão nos momentos certos, torna-se cansativa e é totalmente esquecível. Quando lembramos da trilha épica e icônica que John Williams concebeu para o filme de 1978... Bom, aí a comparação vira covardia.

“O Homem de Aço”, apesar de todos esses poréns, não chega a ser um desastre. É perfeitamente assistível (tem ótimos efeitos especiais, claro), desde que esqueçamos que se trata de um filme sobre o Superman e imaginemos que aborda um outro herói qualquer. Ademais, ser “assistível” é algo muito abaixo do que se esperava da produção e o que percebo, diante da grande bilheteria que o longa vem obtendo, é que o seu marketing foi muito bem realizado (e os preços da salas 3D também ajudam né?). Esperemos que a continuação (já confirmada pela Warner) traga progressos na construção do roteiro e, principalmente, não esqueça que Super-Homem e Batman são personagens diferentes. Como frisado acima, não há nada pior para uma adaptação do que fugir à essência do personagem transposto para a tela. E, lamentavelmente, foi o que aconteceu.


Cotação:



Nota: 6,5