sábado, 10 de agosto de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva


Intocáveis
(Intouchables, 2011)


Blockbuster sobre a amizade


Este é considerado o filme francês mais rentável de todos os tempos, com cerca de 19 milhões de espectadores. Também foi sucesso em vários outros países europeus, como a Alemanha, onde também chegou a alcançar o posto de filme mais visto nos cinemas durante algumas semanas. No Brasil, alcançou a marca de mais um milhão de espectadores, uma proeza para um filme francês em nossas terras. Ao redor do mundo, obteve uma bilheteria de US$ 360 milhões de dólares. Em outras palavras, “Intocáveis” foi um sucesso absoluto de público, como poucas produções europeias conseguem ser. Um blockbuster, enfim. Entretanto, vale ressalvar, tal sucesso não foi sem méritos. Dirigido pela dupla Olivier Nakache e Éric Toledano (também autores do roteiro), o filme consegue a proeza de tratar de um tema pesado - extremamente propício a tentar arrancar lágrimas e ranger de dentes do público médio – de uma forma leve e descontraída, deixando o espectador com um sorriso nos lábios ao fim da sessão.

Baseado em uma história real, descrita no livro de memórias de Philipe Pozzo di Borgo, o longa tem como foco a relação entre Philipe, - um aristocrata milionário, culto e tetraplégico – e Driss, um bem-humorado imigrante senegalês que já teve problemas com a justiça francesa. Ambos são basicamente opostos, não apenas na condição social de cada um. Philipe (interpretado com muita competência por François Cluzet) é o típico branco europeu, vindo de família tradicional, de educação esmerada e modos refinados. Já Driss (o também ótimo Omar Sy), negro e com uma vida bem mais dura, repleta de dificuldades, reflete em sua conduta as frequentes disparidades entre os dois mundos, os quais, ironicamente, conseguem conviver dentro de uma mesma sociedade. Mas é exatamente pelas óbvias diferenças entre os dois que a amizade surge e cresce. Philipe não contrata Driss para trabalhar como seu cuidador por esse reunir as melhores qualidades profissionais, mas justamente por que o senegalês o trata com igualdade, esquecendo tratar-se de um deficiente físico. Driss não cuida do rico aristocrata com “pena”, mas deixando de lado as limitações do paciente, muitas vezes até fazendo piada com a sua condição. É o que Philipe precisa para sentir-se “igual”, assim como a sensação de inserção social chega a Driss por passar a viver em uma bela mansão, onde não existem as limitações materiais com as quais se acostumou a viver.


Os diretores Toledano e Nakache, todavia, não investem pesado em um possível caráter sociopolítico da trama. O subtexto social se faz presente, não deixando de abordar a atual realidade francesa, onde imigrantes e franceses de origem africana buscam seu espaço mas não é o norte do enredo. Uma decisão sábia, uma vez que, do contrário, a película poderia perder o seu encanto. Na vida, nossas relações e vivências não construídas a partir de um tratado ideológico. Elas simplesmente acontecem e dessa maneira natural que o longa é conduzido. E é interessante perceber como, ao longo da projeção, temos mais momentos de sorrisos do que de lágrimas, mas sem perder de vista o drama dos dois protagonistas. Uma dramédia muito bem posta e acabada.

Contudo, os méritos dos diretores não residem apenas no tom da narrativa. Narrado a partir de um longo flashback, o ritmo do longa é excelente, jamais se tornando cansativo. Pelo contrário, passa até muito rápido, deixando aquela vontade de vermos ainda mais da história de paciente e cuidador, sendo esse um mérito da edição de Dorian Rigal-Ansous. Ademais, não só apenas o personagens centrais, mas também os coadjuvantes são bem caracterizados, como a secretária de Philipe interpretada por Audrey Fleurot, constante alvo das cantadas de Driss. Por sinal, o elenco é ótimo, mas o grande destaque vai mesmo para a dupla de protagonistas. Tanto Cluzet (como ele lembra o Dustin Hoffman, não?) como Omar Sy emprestam uma tremenda verdade aos seus personagens sem jamais caírem na caricatura. Fosse um filme estadunidense, certamente seriam indicados ao Oscar e ambos na categoria principal, de melhor ator. Aliás, falando no prêmio da Ademia: como foi possível que este longa não foi indicado ao prêmio de filme estrangeiro? Uma pergunta que só nos faz questionar ainda mais os estranhos critérios da premiação.


É verdade que “Intocáveis” acaba investindo em alguns clichês, enfraquecendo um pouco o resultado final. Ademais, não deixa de ser um filme de “mensagem”, o que certamente foi um dos fatores preponderantes para que se transformasse em tão grande sucesso de público. Entretanto, tais fatores não chegam a transformá-lo em uma película banal. Pelo contrário, suas qualidades se sobressaem e criamos tanta empatia pelos personagens que sentimos saudades deles ao final. E, como vemos antes dos créditos a imagem dos homens reais que inspiraram a ficção, ficamos imaginando como foram suas vidas após o ponto onde o longa termina. Que belos momentos de amizade ainda terão vivido? Afinal, mais do que sobre preconceito ou qualquer outra questão social, esta é uma obra sobre a amizade, sentimento que pode surgir mesmo entre pessoas tão diametralmente diferentes.


Cotação:



Nota: 9,0

terça-feira, 30 de julho de 2013

Wolverine - Imortal

Preservando a essência


Já faz um bom tempo que li a histórica série de Wolverine, concebida por Chris Claremont e Frank Miller, que elevou o famoso mutante a novos patamares. Nela, Logan respirou ares diferentes em uma trama ambientada no Japão, tentando alcançar o autocontrole (algo quase avesso ao seu temperamento irascível) e conhecendo uma nova paixão com Mariko, deixando, desta forma, um pouco de lado seu eterno amor não correspondido por Jean Grey. O mais popular entre os X-Men atingia sua maioridade artística, arregimentando uma legião ainda maior de fãs que não parou de crescer, sendo hoje Wolverine um dos super-heróis mais populares da Marvel. Tão popular que já chegou ao seu segundo filme solo, mesmo diante das críticas negativas relativas a “X-Men Origens: Wolverine” (X-Men Origins: Wolverine, de 2009), com as quais eu nunca concordei inteiramente. É verdade que se trata de um filme com problemas, mas está longe de ser a “bomba” alardeada quando do seu lançamento. Por outro lado, se nas HQs o personagem foi alçado a níveis excepcionais com a citada história de Logan em terras nipônicas, “Wolverine – Imortal”, atualmente em cartaz no circuito comercial brasileiro, também eleva o mutante esquentado a outros patamares na telona do cinema.

Acredito não ser por acaso o sucesso, uma vez que este novo longa-metragem do herói foi inspirado na famosa HQ de Miller e Claremont, com o acréscimo de algumas outras nuances que vieram de sagas posteriores. Durante boa parte da projeção, sequer temos a sensação de estarmos assistindo a um filme de super-herói. Parece mais uma mistura de filme de ação tradicional com filme de artes marciais. Algo que lembra “Kill Bill”, de Quentin Tarantino, muito embora nosso herói tenha motivações mais nobres do que uma mera vingança e não há toda aquela sanguinolência explícita. Entretanto, o estilo samurai-fantástico se faz presente em várias sequências, dirigidas com muito apuro por James Mangold, o mesmo de longas como “Garota Interrompida” (Girl, Interrupeted, 1999) e “Johnny & June” (Walk The Line, 2005). Ou seja, um diretor de viés artístico, escolhido para colocar na película um maior peso dramático. Vale lembrar que a primeira escolha para a realização havia sido Darren Aronofsky, amigo de Hugh “Wolverine” Jackman, mas o diretor de “Cisne Negro” (Black Swan, 2010) acabou desistindo. De qualquer forma, a escolha se mostrou feliz (muito superior a Gavin Hood, diretor do primeiro filme solo do mutante), já que Mangold demonstrou capacidade não apenas de imprimir um teor dramático mais consistente à trama, mas também de entregar ótimas sequências de ação, como o sensacional embate de Logan com um mafioso da Yakusa em cima de um trem em movimento.



O roteiro, escrito por Scott Frank e Mark Bombak, mostra o mutante vivendo como um selvagem no meio da floresta – e mais agressivo do que nunca - até ser encontrado por Yukio (Rila Fukushima), uma japonesa que lhe traz uma mensagem de um antigo amigo, o Sr. Yashida (Hal Yamanouchi), militar que Logan salvou no trágico dia da explosão da bomba atômica em Nagasaki, durante a Segunda Guerra Mundial. Yashida está moribundo, vítima de câncer, e Logan viaja ao Japão para ouvir o que ele tem a dizer. Já em terras nipônicas, conhece Mariko, a neta de Yashida, e acaba por se envolver em uma trama que envolve a máfia Yakuza, além de outros mutantes, sendo que uma delas, a Víbora (Svetlana Khodchenkova), acaba por afetar o seu fator de cura, deixando o herói combalido para enfrentar seus perigosos inimigos.

Claro que há muita ação em “Wolverine - Imortal”, com algumas sequências realmente ótimas (como já frisado), imageticamente bem concebidas e com edição eficiente que permite ao espectador entender perfeitamente o que se passa na tela. Contudo, um dos seus maiores trunfos é a construção dos personagens, com destaque para Yukio, uma mutante com capacidade de prever o futuro, e Mariko, o novo amor de Logan, ambas, vale dizer, muito bem interpretadas por suas respectivas atrizes. O elenco como um todo se mostra bastante eficiente, mas é mesmo Hugh Jackman que mais uma vez mostra porque é o Wolverine definitivo. Alguns atores se encaixam tão perfeitamente em alguns papeis que sequer podemos imaginar outra pessoa interpretando-os. É o caso de Harrison Ford, por exemplo, como Indiana Jones. E é o caso de Hugh Jackman como o mutante de garras de adamantium.


Destarte, não se pode negar que o longa deixa a desejar no seu último terço, embarcando em alguns exageros dispensáveis que só contribuíram para enfraquecer a narrativa. Ademais, os fãs vão reclamar de algumas distorções em relação ao material original (principalmente com relação ao vilão Samurai de Prata, que dá as caras lá para as tantas). Todavia, mesmo com algumas ressalvas, a adaptação de Mangold preserva a essência do personagem, mesmo que Wolvie seja ainda mais violento e truculento nos quadrinhos. Aqui, devido às questões que envolvem um blockbuster, que, como sabemos, tem de gerar retorno financeiro, não é possível deixar a violência de forma muito gráfica na tela mas, de qualquer forma, está lá o Logan de temperamento arredio, quase um animal selvagem, lutando para domar seus instintos e superar o passado. Ou seja, encontramos o Wolverine que conhecemos e não um simulacro do herói, como aconteceu recentemente na nova adaptação do Homem de Aço para a telona. Enfim, saí da projeção desejando uma continuação e com vontade de recomendar “The Wolverine” para os interessados em curtir uma boa sessão no fim de semana.


Cotação:



Nota: 8,0

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Tenho Sede





Tenho Sede
(Dominguinhos/Anastácia)

Traga-me um copo d'água, tenho sede
E essa sede pode me matar
Minha garganta pede um pouco d'água
E os meus olhos pedem teu olhar

A planta pede chuva quando quer brotar
O céu logo escurece quando vai chover
Meu coração só pede teu amor
Se não me deres, posso até morrer


Pausa no cinema para uma singela homenagem a José Domingos de Morais, o Dominguinhos, falecido no último dia 23/07.

Mais uma mestre que se foi. Tenho certeza que agora está tocando ao lado de Gonzagão, fazendo um baita São João no céu!

(E que linda interpretação, essa do Gil!).


domingo, 21 de julho de 2013

O Homem de Aço

5 motivos para não gostar de “O Homem de Aço”


ALERTA: o  texto a seguir está cheio de spoilers. Portanto,  é melhor acompanhá-lo apenas se você já tiver assistido ao filme.


Este foi um dos filmes mais aguardados do ano e as grandes expectativas quase sempre geram decepções. Infelizmente, não consegui fugir a tal regra e saí do cinema frustrado após assistir a “O Homem de Aço” em uma sessão 3D (dispensável) completamente lotada. A pergunta que não calava na minha mente era justamente: “mas, afinal, onde está o Superman?”. Sim, porque, convenhamos, aquele personagem na tela tinha algumas semelhanças com o Kal-El que conheci nos quadrinhos e na franquia cinematográfica protagonizada por Christopher Reeve, mas não era ele. A seguir, em tópicos, vou discorrer sobre os motivos que me levaram a rejeitar essa nova adaptação, esse reboot tão desnecessário quanto o foi, ano passado, o reinício da franquia do Homem-Aranha.

1) O roteiro – A impressão que tive foi a de que os roteiristas David S. Goyer e Christopher Nolan, os mesmos da recente trilogia “O Cavaleiro das Trevas”, estavam de ressaca depois do seu trabalho com o homem morcego e as ideias acabaram não fluindo da forma esperada, pois o enredo de “Man Of Steel” é repleto de atropelos e incongruências. Há muitas circunstâncias mal explicadas, como o fato dos kryptonianos não mais se reproduzirem naturalmente (será que alguma saga recente dos quadrinhos criou essa ideia estapafúrdia?) ou a ida de Lois à Fortaleza da Solidão, assim, digamos, meio que por acaso, logo após ver Kal-El caminhando (hein?) no Ártico em busca de suas origens. De quebra, o roteiro ainda transformou o Superman em um assassino ao matar o General Zod. A desculpa de Zack Snyder, diretor do longa, é a de que “a inocência acabou”. Pois bem, Sr. Snyder, eu acredito que justamente no mundo de hoje estamos precisando de mais pureza, inocência, inspiração e o personagem do Super-Homem era justamente o mais eficaz em mostrar aos garotos uma inigualável retidão de caráter. E aqui, entramos no segundo problema.


2) A direção – Zack Snyder é o diretor, mas não se pode negar que “O Homem de Aço” possui a mão forte de Christopher Nolan no processo criativo. Com dito anteriormente, recém egresso da franquia de Batman, ele aparentemente confundiu os personagens, querendo atribuir à narrativa um tom sombrio que destoa do Superman. Podem me acusar de “purista” ou “saudosista”, mas sempre defendi que uma adaptação de HQ é bem-sucedida quando consegue captar a essência do personagem. É o que sucedeu com a referida trilogia do Cavaleiro das Trevas e também com a trilogia do Homem-Aranha comandada por Sam Raimi. O que ocorre em “O Homem de Aço” é justamente o oposto. Super-Homem transforma-se em uma pessoa cheia de complexos, sem autoconfiança sentindo-se um rejeitado-deslocado-excluído devido à sua condição de alienígena. Algo semelhante ao sentimento dos mutantes dos X-Men, mas o filme não é sobre Wolverine (o filme dele é outro). Ressalte-se que os humanos sentem mais medo do super-herói do que admiração. Aliás, o fato de Kal-El ser um alienígena já é conhecido por todos, assim, logo de cara, inclusive por Lois Lane. Sim, não existe nenhum mistério e riqueza no relacionamento entre os dois. Ela já sabe que Clark é Superman, sem rodeios. O romance resta mal desenvolvido e, em compensação, no último terço de projeção, temos meia hora de pancadaria desenfreada que chega a ser cansativa. Metrópolis é devastada praticamente inteira, sem dó nem piedade, umas três vezes. Ah, e tudo isso com uma fotografia que prima pelos tons escuros, como se a qualquer momento Clark Kent fosse entrar na Batcaverna.

3) O ator – Em geral, o elenco não compromete. Amy Adams convence como a repórter Lois Lane, conferindo-lhe aquele ar arrogante-petulante característico da personagem. O veterano Kevin Costner também se sai bem como Jonathan, o pai terráqueo de Clark, exalando aquela aura de sabedoria a que nos acostumamos ver tanto nas HQs quanto no cinema. Até Russel Crowe, que vivia péssima fase, convence como Jor-EL, o pai kryptoniano do herói. Entretanto, é justamente na peça central que mora o problema. Henry Cavill, ator britânico egresso da TV (participou da série “The Tudors”), realmente é um homem bonito, lembrando o ícone Christopher Reeve, tem porte atlético e jeitão de Superman. Contudo, como ator, não convence ninguém. Está sempre com o semblante fechado e, nos poucos momentos sorridentes, eles aparecem forçados, como em um comercial de pasta de dente. Assim, a empatia com o espectador resta diminuída, algo que prejudica demais em um filme de super-herói. Mas, vá lá, ele é melhor do que o completamente inexperessivo Brandon Routh, intérprete (?) do filme de Bryan Singer.


4) A pretensão – Tudo bem, uma das conotações mais notórias do Super-Homem é a sua similaridade com Jesus Cristo. Afinal, ele foi “enviado” para a Terra, onde deveria trazer esperança para a humanidade; foi criado por pais terrenos; usa um manto vermelho nas costas; é moralmente irrepreensível e por aí vai. Contudo, “O Homem de Aço” leva essa conotação messiânica ao extremo, chegando ao ponto de, em determinada cena, o herói abrir os braços como se estivesse para ser crucificado. É como se, de repente, estivéssemos estranhamente a assistir um filme religioso. Tal subtexto sempre vai existir nas histórias do Superman, mas não precisa exagerar tanto assim. Esses excessos só contribuíram para deixar o longa com uma jeitão pretensioso totalmente dispensável.

5) A trilha sonora – Esse é o pior trabalho de Hans Zimmer em muito tempo. Uma trilha sonora invasiva, constante e permanentemente tensa. Dá até a impressão de que foi concebida para um filme de suspense. Entretanto, ao contrário de causar tensão nos momentos certos, torna-se cansativa e é totalmente esquecível. Quando lembramos da trilha épica e icônica que John Williams concebeu para o filme de 1978... Bom, aí a comparação vira covardia.

“O Homem de Aço”, apesar de todos esses poréns, não chega a ser um desastre. É perfeitamente assistível (tem ótimos efeitos especiais, claro), desde que esqueçamos que se trata de um filme sobre o Superman e imaginemos que aborda um outro herói qualquer. Ademais, ser “assistível” é algo muito abaixo do que se esperava da produção e o que percebo, diante da grande bilheteria que o longa vem obtendo, é que o seu marketing foi muito bem realizado (e os preços da salas 3D também ajudam né?). Esperemos que a continuação (já confirmada pela Warner) traga progressos na construção do roteiro e, principalmente, não esqueça que Super-Homem e Batman são personagens diferentes. Como frisado acima, não há nada pior para uma adaptação do que fugir à essência do personagem transposto para a tela. E, lamentavelmente, foi o que aconteceu.


Cotação:



Nota: 6,5

terça-feira, 16 de julho de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Acossado
 (À Bout de Souffle, 1960)


O filme do Godard


“O Eduardo sugeriu a lanchonete, mas a Mônica queria ver o filme do Godard”. Foi através dessa frase de “Eduardo e Mônica”, famosa canção de Renato Russo, que, ainda garoto, ouvi falar pela primeira vez em um tal de “Godard” ("Mas quem é esse cara?"). Alguns anos mais tarde, descobri que o tal Godard da música era um importante diretor de cinema francês, que havia dirigido um filme chamado “Acossado”, uma obra considerada revolucionária que haveria de influenciar todo o cinema posterior. Mais alguns anos depois, já barbado, o primeiro filme que vi de Jean-Luc Godard não foi “Acossado”, mas “Alphaville” (1965), uma ficção científica distópica que influenciaria até Stanley Kubrick em “2001 – Uma Odissseia no Espaço” (2001 - A Space Odyssey, 1968). Devo dizer que foi uma experiência diferente, bem mais até do que eu esperava. No entanto, a curiosidade de ver “Acossado” ainda perdurava e, enfim, neste último sábado consegui saciá-la. E, tal como aconteceu com o citado “Alphaville”, o longa-metragem ainda trouxe mais do que era esperado. Finalmente entendi por que todos o consideravam uma “revolução”.

Em “Acossado” nada é convencional. Impressionante que, mesmo com mais de cinco décadas, o longa ainda continue moderno, original, contemporâneo, mais até do que 90% dos filmes que enchem as salas de cinema nos finais de semana. Decididamente, em “Acossado” nada envelheceu. E não estou fazendo tais afirmações para reverenciar Jean-Luc Godard. Aliás, ele nem precisa disso, tamanha a sua inegável importância para a história do cinema. Eu sou daqueles que não elogiam um filme apenas por ser um clássico. Por exemplo, considero “Juventude Transviada” (Rebel Without A Cause, 1955), do genial Nicholas Ray, um filme datado, mesmo com a presença de James Dean em cena. Já no longa primogênito de Godard, cada cena parece destinada a receber o adjetivo “cool”, à revelia da passagem do tempo.


A cada novo filme que vejo da Nouvelle Vague, passo a alimentar ainda mais a convicção de que este foi o movimento mais importante no cinema em todos os tempos. De fato, não se pode negar que foram aqueles jovens críticos da revista Cahiers du Cinéma os principais responsáveis por inaugurar uma era em que o cinema restou imbuído de plena subjetividade, uma mudança decorrente da prática da teoria do autor, a qual eles próprios haviam elaborado exercendo a crítica no referido periódico. Com a Nouvelle Vague, os diretores ganharam espaço na eterna luta com os produtores pelo controle criativo da película, um embate que, se ainda perdura, hoje, não se pode negar, apresenta ligeira vantagem para os diretores. Afinal, basta lembrar quantas oportunidades vamos ao cinema porque queremos ver o novo trabalho de Woody Allen, Steven Spielberg, Martin Scorsese ou Michael Haneke. Aliás, os três primeiros citados são crias da Nova Hollywood, aquele período da cinematografia norte-americana entre a segunda metade dos anos 60 até o final dos 70 que foi diretamente influenciado pela “nova onda” francesa.

Contudo, dentre vários cineastas e filmes inovadores da Nouvelle Vague, Godard e “À Bout de Souffle” merecem um destaque especial. Trata-se de um marco para uma nova perspectiva da narrativa cinematográfica. Até então, todos os planos e sequências de uma película tinham finalidade utilitarista, servindo unicamente para mostrar os fatos que compunham a narrativa. “Acossado” trouxe uma nova perspectiva, lançando a ideia de que o diretor poderia inserir planos na projeção apenas por considera-los belos ou interessantes, sem necessariamente acrescentar algum elemento importante ao entendimento do enredo. É a imagem pela imagem, desvinculando o cinema de sua perspectiva pragmática. Se Godard, em boa parte do longa, realiza close ups apaixonados no rosto de Jean Seberg, não é porque isso é importante para o desenrolar do roteiro, mas tão somente porque o belo rosto da atriz lhe agrada e ele busca que o espectador sinta o mesmo encantamento. Assim, somos envolvidos na trama a partir de uma perspectiva inteiramente vinculada ao olhar do diretor. É a execução perfeita do cinema autoral.


Outro expediente do diretor na sua elaboração foi a ideia da “edição brusca”, algo que não era inteiramente original, mas que aqui ganha contornos diferenciados. Saltamos de uma cena a outra sem aquela sensação de continuidade, de “virada de página”, como ocorre na edição tradicional. Tal recurso transmite uma significativa urgência, algo que certamente contribui para o caráter atual que o filme ainda exala. Essa edição abrupta teria sido uma sugestão de Jean-Pierre Melville, um dos poucos cineastas franceses que eram admirados pela trupe da Cahiers du Cinéma. Um pitaco importante que ajudou em muito no processo criativo de Godard, assim como a trilha sonora jazzística de Martial Solal, praticamente onipresente em todo a projeção e que contribui para estabelecer o clima noir que reina em “Acossado”.

Sim, pode-se afirmar que “Acossado” é um noir modernizado. Godard, assim como os demais cineastas da Nouvelle Vague, era fã do cinema estadunidense e, na sua obra, usou e abusou de elementos hollywoodianos. Na trama, cujo roteiro foi elaborado em parceria com o amigo François Truffaut (anos mais tarde eles romperiam a amizade devido a divergências criativas), Jean-Paul Belmondo (em papel que lhe rendeu a fama) interpreta Michel Poiccard, um escroque que vive de furtar carros e outros pequenos delitos. Em certa oportunidade, quando perseguido pela polícia, acaba assassinando um dos policiais, o que o transforma em procurado. Paralelamente, ele mantém um romance com Patricia Franchini, a personagem da bela Jean Seberg (a qual nunca atingiria o mesmo sucesso posteriormente), uma norte-americana que vive em Paris vendendo jornais. O relacionamento entre os dois tem aquele caráter modernoso que se tornaria padrão no cinema francês, colocando-se como mais um incremento do longa que desafia a passagem do tempo.


 É na relação entre ambos que surgem os melhores diálogos, longos e repletos de referências culturais. Não, não é por acaso que você está lembrando de Quentin Tarantino. Ele realmente deve muito ao cinema de Godard e não apenas na forma de elaboração dos diálogos. Godard também criou o cinema autorreferencial. Basta lembrar da cena em que Poiccard olha fixamente o pôster de um filme com Humphrey Bogart e perceber que vários dos seus trejeitos são imitações daqueles criados pelo astro hollywoodiano. É o cinema declarando amor ao cinema, algo que mais tarde seria latente em toda a obra de Tarantino.

É possível que todas a linhas escritas acima signifiquem apenas chover no molhado. Isso costuma acontecer quando tratamos de filmes que fizeram história no Cinema. Chovendo ou não no molhado, posso dizer que agora realmente entendo porque “Acossado” é considerado revolucionário, um marco cultural ainda cheirando a novo e, da mesma forma, porque o seu diretor é tomado como um dos mais importantes não apenas do cinema francês, mas da cinematografia internacional. Tão relevante que seu nome é citado até em música popular como sinônimo de cinema de arte. E isso é para poucos.


Cotação e nota: Obra-prima.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Universidade Monstros

Recuperando a boa forma


Pode parecer estranho, mas eu nunca assisti a “Monstros S.A.” (Monsters, Inc.), animação da Pixar datada de 2001. Apenas vi alguns trechos em exibições na TV. Portanto, minha experiência ao assistir ao prequel “Universidade Monstros”, atualmente em cartaz nos cinemas, foi praticamente “verde” com relação ao universo dos personagens apresentados. Eu só sabia que se tratavam de monstros encarregados de assombrar as crianças à noite, uma maneira engenhosa de brincar com aqueles medos dos pequenos. Além disso, tinha conhecimento de que os simpáticos monstrinhos da animação trabalham em uma espécie de indústria especializada em provocar sustos na garotada e assim gerar energia para a cidade de Monstrópolis. A nova prequela trata de mostrar como esses monstros chegaram à função que exercem no primeiro episódio da franquia, narrando a sua vida de estudantes universitários na “Universidade Monstros” do título. A verdade é que, ao fim da sessão, fiquei me perguntando porque nunca havia dado chance ao primeiro filme. Um tremendo erro cinéfilo, agora admito.

Interessante como a Pixar sabe trabalhar com sequências de seus filmes. Tudo bem, “Carros 2” foi um desastre, mas cabe afirmar que o primeiro já não era lá essas coisas (o ponto mais baixo de sua fase, digamos, “áurea”). O que poderia ser tomado como falta de criatividade, acaba se transformando em algo de qualidade indubitável. Conseguiu gerar uma obra-prima com “Toy Story 3” (2010) e se sai muito bem nessa empreitada com os camaradas de Monstrópolis, resultando em um longa superior ao anterior “Valente” (Brave, 2012) o qual, mesmo tendo levado o Oscar de melhor animação (bastante duvidoso) e com material inédito, não convenceu muito a crítica. E, como sempre, realizando uma obra que alcança tanto o interesse das crianças quanto dos adultos. Aliás, no caso de “Universidade Monstros”, arrisco dizer que é uma animação mais adulta do que infantil, uma vez que não será muito fácil para os pequenos entenderem e se familiarizem com a cultura universitária ianque, repleta de sectarismos e divisões calcadas em “irmandades” que só aceitam fulanos ou sicranos (parece que ainda estão no primário e não na faculdade), algo muito explorado no enredo do longa.


O filme usa o ambiente dos universitários estadunidenses para tecer uma saudável crítica à cultura de “vencedores” e “perdedores” típica das terras do Tio Sam. Ser um estudante do Programa de Sustos da Universidade Monstros é o objetivo de Mike Wazowski (voz em inglês de Billy Crystal) no desde pequeno, quando resolveu que o destino de sua vida seria o de fazer parte da equipe de assustadores que atormenta os sonhos infantis. Como não possui um talento nato para o susto, compensa suas limitações com muito esforço e estudo e é por suas altas notas que é aceito no curso. Já James Sullivan (voz de John Goodman) entra para a Universidade Monstros por ser de uma famosa e tradicional família de assustadores, muito embora não seja muito dado a esforços. Ou seja, está no programa de sustos “jogando com o nome”, para usarmos uma gíria tipicamente futebolística. Inicialmente, eles nutrem antipatia mútua, mas depois de uma série de eventos, acabam disputando lado a lado uma competição entre as irmandades do campus. Eles fazem parte da Oosma Kappa, a irmandade dos “losers” e esquisitões.

Destarte, o roteiro, escrito por Robert L. Baird, Daniel Gerson e Dan Scanlon (esse último também é o diretor), não se resume a criticar a cultura competitiva dos Estados Unidos. Multifacetado, também aborda a aceitação e complementação entre os diferentes, o valor da amizade e a perseverança na busca da realização dos nossos sonhos. Tudo isso, claro, com muito humor e diversão à prova de gostos. As melhores produções da Pixar conseguem essa proeza que é a de agradar a vários tipos de humor, algo difícil de ser alcançado (e que é o sonho de todo comediante). O longa também possui ótimo ritmo, não se tornando desinteressante em nenhum momento, um mérito da direção de Scanlon.


Contudo, o aspecto possivelmente mais interessante de “Universidade Monstros” é a sua fuga dos clichês. Em certas passagens, quando estamos praticamente convencidos de que o longa se rendeu às previsibilidades, ele nos reserva novos caminhos inesperados que trazem à luz até mesmo conflitos morais e éticos. Algo realmente alentador em animações, as quais, devido ao seu caráter lúdico, acabam, por vezes, a turvar o senso crítico, fazendo-nos tolerar certos clichês ou maniqueísmos por se tratar de um produto que inevitavelmente desperta nosso lado infantil. Essa tolerância à vezes nos faz superestimar algumas produções, a exemplo do aclamado “Procurando Nemo” (Finding Nemo, 2003), que é muito divertido, mas não se pode negar que é permeado de clichês.

“Universidade Monstros” não é tão emocionante como o citado “Toy Story 3”, não alcançando o patamar de uma obra-prima. No entanto, trata-se realmente de um retorno da Pixar à sua boa forma ao aliar inteligência e diversão em igual medida, recuperando aquele espírito de “filmar como uma criança” tão presente em suas produções mais icônicas. E, principalmente, lembra-nos que, por mais sinuosas que sejam as estradas na busca de nossos sonhos, sempre é possível atingi-los. O mais importante é nunca desistir deles.


Cotação:



Nota: 9,5

Obs. O curta "O Guarda-chuva Azul" vale à pena ser conferido. Portanto, não chegue atrasado(a) à sessão.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Eu Quero Esse Pôster # 23



Sim, o poster acima é interessante. Entretanto,  ainda no embalo do que vem acontecendo em nosso país, gostaria de tecer alguns comentários.

Tenho vista nas ruas a utilização da máscara do "Codinome V", do longa-metragem e HQ "V de Vingança" (V For Vendetta, 2006), de maneira indiscriminada. Ressalte-se que na internet estão pipocando informações que alguns grupos de extrema direita estão usando a máscara do personagem para esconder o rosto de agressores e vândalos. Não custa lembrar que a HQ foi escrita por Alan Moore durante os tempos sombrios do governo Tatcher na Inglaterra. É, antes de mais nada, uma reação ao conservadorismo. Interessante como a cultura pop por vezes começa a ser usada de maneira equivocada (ou maldosa mesmo) diante de situações atípicas como a que estamos vivendo como uma forma de trazer simpatizantes a causas duvidosas.

Ah, não, este blog não está se tornando um blog sobre política. É que o país está pegando fogo e não dá para ficar indiferente. Até a próxima!


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Será que o Brasil realmente mudou?




Pausa no cinema.

Ontem, dia da manifestação que reuniu cerca de 20.000 pessoas aqui em Natal, eu trafegava com minha esposa em uma rua de Capim Macio, bairro de classe média alta situado na zona sul da cidade, quando avistamos um grupo de adolescentes saindo de um luxuoso edifício residencial. Estavam com os rostos pintados de verde e amarelo e carregavam a bandeira nacional. Entraram em uma picape Hillux e, obviamente, dirigiram-se ao local marcado para o protesto, situado em frente a dois shoppings centers também da zona sul.

O fato me chamou a atenção e me despertou para um dado que talvez esteja sendo pouco observado nas análises dos protestos que tomaram conta do país desde a semana passada. Este não é um movimento com participação predominante daqueles que realmente possuem legitimidade para reivindicar as bandeiras em discussão, mas de uma classe média que em muito foi beneficiada por políticas do atual governo.

Os jovens mencionados, provavelmente nunca andaram de ônibus em suas vidas, ou o fizeram apenas em situações de exceção, como de resto é o perfil de ampla parcela dos manifestantes. São jovens que, em geral, possuem planos de saúde e estudam em caras escolas privadas ou universidades respeitadas. Se observarmos bem, foram ao protesto porque, de uma hora para outra, tornou-se “cool” participar das manifestações. Estavam empunhando bandeiras não porque possuíssem uma real identificação com as causas levantadas, ou porque acreditassem no surgimento de novas forças sociais capazes de interferir no processo político. Foram ao manifesto para bater fotos de suas participações e, mais tarde ou via celular, postá-las no “Face”, Instagram ou enviá-las para os amigos. Não nos enganemos.

É assim que funcionam as relações dentro das redes sociais, as quais são de suma importância para a facilitação e surgimento de movimentos como o que estamos vivenciando, mas também são extremamente propícias a esvaziá-los de conteúdo, transformando-os tão somente em eventos semelhantes a shows, aptos a satisfazer a vaidade de uma juventude que não iria deixar seu individualismo de lado de uma hora para outra.

A verdade é que há uma tremenda perda de foco nos protestos. Tem-se a impressão que cada um vai a campo reivindicar a demanda que mais afeta seus próprios interesses, como pude perceber a partir da leitura de uma matéria do portal IG, onde uma senhora de 58 anos afirmava participar da manifestação porque esteve em Roma há pouco tempo e percebeu “o quanto é bom sair nas ruas sem medo”. Trocando em miúdos, não estava se solidarizando com os pleitos do Movimento Passe Livre (cujos líderes me parecem dotados de grade lucidez), mas simplesmente revindicando a respeito do que especificamente lhe incomoda.

Essa dispersão de objetivos, espécie de revolta generalizada contra a “situação”, apenas contribui para que alguns grupos, especialmente a mídia mais conservadora, procurem se aproveitar e tomar como seu um discurso democrático que não lhes é próprio, como é o caso exemplar da Rede Globo, a qual ontem retirou de sua grade de programação as suas novelas, onipresentes em praticamente todos os 365 dias do ano, para “realizar a cobertura dos protestos” (e sem comerciais durante mais de duas horas!). Logo ela, a Globo, que nos anos 80, durante a campanha “Diretas Já!”, escondia os gigantescos comícios que aconteciam nas grandes metrópoles brasileiras. A mesma rede que, semana passada mesmo, durante os primeiros protestos, atribuía genericamente a pecha de “vândalos” aos manifestantes do MPL. Arvorar-se como defensora da democracia e tentar tomar para si o título de “emissora que dá voz aos protestos” é, no mínimo, uma hipocrisia e já denota possíveis segundas intenções. Afinal, nada vindo da TV dos Marinho é´gratuito ou por acaso.

Este deveria ser um momento para uma real mudança no Brasil, onde o cidadão se tornasse o centro das políticas públicas. Entretanto, a perda de foco demonstrada ao longo das manifestações aliada a um oportunismo barato de parte da mídia, além de alguns partidos políticos, talvez façam com que estes dias, no futuro, sejam conhecidos apenas como a “revolta do busão”, sem implicâncias maiores do processo histórico nacional. E digo mais: sempre devemos ter receio quando manifestações começam reunir famílias inteiras, como se estivessem a participar de um ato “cívico” como as comemorações do 7 de setembro. Basta lembrar que algo semelhante aconteceu em 1964, pouco antes do golpe militar que nos legou tantas heranças negativas.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Star Trek - Além da Escuridão

A evolução da Jornada


Já faz quatro anos (como o tempo passa rápido) que J.J. Abrams, cineasta egresso da televisão que ficou famoso por séries como “Lost”, levou às telas o reboot da longeva série “Star Trek”, a qual, como já tive a oportunidade de mencionar na resenha publicada à época, nunca esteve entre minhas referências pop preferidas. De qualquer forma, Abrams fez um bom trabalho no reinício da franquia. Mesmo que o “Star Trek de 2009 não chegue à excelência, seu resultado foi bastante agradável, conferindo uma roupagem rejuvenescida aos personagens capaz de trazer novos adeptos ao universo concebido por Gene Rodenberry. E, para aqueles que duvidavam (como eu) que ninguém seria capaz de incorporar o Dr. Spock tão bem quanto Leonard Nimoy, Zachary Quinto calou a boca de todo mundo roubando todas as cenas em que aparecia, alguns degraus acima do Capitão Kirk de Chris Pine.

Com este “Além da Ecuridão”, Abrams demonstra que é, inegavelmente, o grande diretor do gênero ficção-científica atualmente em atividade no cinemão norte-americano, deixando para trás os seus ídolos, o aposentado George Lucas e Steven Spielberg, que vem se dedicando a outros gêneros nos últimos anos. Este novo episódio de Star Trek pode não ser tão bom quanto seu filme anterior, o ótimo “Super 8”, mas com certeza alcança uma evolução em relação ao reboot de 2009. O diretor, agora liberto da necessidade de apresentar os personagens ao um novo público, aprofunda-se em sua psicologia e nas relações entre eles, fazendo com que o longa, mais do que uma aventura, possa ser visto como uma história de amizade. E, vale dizer, amizade não só entre os dois protagonistas Kirk e Spock, mas também entre todos os integrantes da tripulação da nave Enterprise. Aqui, quase todos os membros da equipe possuem o seu momento de destaque e ações que ajudam no desenrolar da trama, fazendo o público enxerga-los não apenas como um amontoado de personagens, mas como uma verdadeira equipe, um time que joga de maneira coletiva e vence as adversidades e os inimigos.


Em entrevistas recentes, Abrams declarou que gostava de ver filmes sem muitas informações prévias sobre o roteiro e, de preferência, até sem ver trailers ou comerciais de TV, razão pela qual a produção desse novo episódio foi cercada de mistérios. Os próprios atores foram orientados a falar o mínimo possível sobre o longa durante as entrevistas. A precaução é justificável. Quanto menos se souber a respeito do verdadeiro papel que John Harrison (Benedict Cumberbatch) terá no desenvolvimento da trama, melhor. Basta apenas saber que ele é uma espécie de terrorista estelar cuja personalidade misteriosa será responsável por testar os limites da equipe da Enterprise. De qualquer forma, embora tenha alguns “solavancos” comuns aos filmes de ação, o roteiro (de Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof ) é bem estruturado, valendo destaque para os diálogos, muito mais inteligentes, fluidos e divertidos (várias são as tiradas que funcionam ao longo da projeção) que os do primeiro da série, o qual era repleto de frases pouco inteligentes e clichês, principalmente em sua primeira metade.


Além disso, é inegável que Abrams filma como poucos, com enquadramentos perfeitos para as cenas de ação (que são muitas, diga-se de passagem) e ótima dinâmica e edição (vou ser repetitivo e perguntar: viu, Michael Bay?). Filmar cenas de ação é uma arte e, talvez, apenas James Cameron supere hoje J.J. Abrams neste aspecto. O ritmo da película é tão bom que nem percebemos que ele tem 2h12min de duração. Entretanto, um ponto em que Abrams precisa melhorar é trilha sonora de seus filmes, geralmente esquecíveis e que pouco acrescentam à narrativa. Por outro lado, demonstra mais uma vez muita competência na direção de atores, o que é difícil em longas repletos de ação. Embora Benedict Cumberbatch tenha boa presença na pele do vilão John Harrison, não considero seu desempenho tão excepcional como alardeado por aí em alguns veículos midiáticos. Neste ponto, os maiores méritos ficam mesmo com a dupla protagonista. Chris Pine evoluiu bastante em relação ao primeiro longa, trazendo um Capitão Kirk muito mais tridimensional e que vai além de um mero garoto-irresponsável-que-precisa-amadurecer. Entretanto, Zachary Quinto, mais uma vez, rouba mesmo a cena com o seu Dr. Spock. Ele praticamente domina todas as sequências em que aparece e definitivamente calou a boca de muitos que julgavam que o rapaz não estaria à altura de Nimoy.

É verdade que “Star Trek” não chega a ser uma coca-cola gelada no deserto. Não atinge um nível de excelência como se tem propagado por aí, como de resto nenhum filme de J.J. Abrams, até hoje, pode ser classificado como “excelente”. Entretanto, “Além da Escuridão” está um degrau acima do seu antecessor, representando uma evolução da jornada. Ao mesmo tempo em que traz ação quase ininterrupta, consegue, como já frisado, aprofundar-se na psique e nas relações entre os personagens, algo que decididamente não é fácil. Isso me faz lembrar que Abrams será o diretor de Star Wars episódio VII, trazendo boas expectativas para uma franquia já desgastada. Convenhamos, diante do seu trabalho com “Star Trek” (série da qual ele nem era fã), será difícil que ele venha a cometer equívocos como “A Ameaça Fantasma” na franquia do Darth Vader.


Cotação:



Nota: 8,5

domingo, 9 de junho de 2013

Quero Ver Novamente # 23


Dia desses, estava lendo "A Magia do Cinema", livro do famoso crítico norte-ameircano  Roger Ebert, quando me deparei com o seu belíssimo texto sobre "A Doce Vida", uma das obras-primas do mestre Federico Fellini. Ebert afirma que esse é o tipo de filme sobre o qual mudamos nossa apreciação ao longo do anos, enxergando o personagem de Marcello Mastroianni de maneira diferente com o avançar da idade. E é verdade. A vontade de revê-lo foi imediata, mas ainda estou devendo. Para matar um pouco a vontade, revi no Youtube a sua sequência mais famosa, quando Silvya, a estrela interpretada por Anita Ekberg, adentra a Fontana de Trevi e convida Marcello para se banhar. Uma das cenas mais famosas de todos os tempos que nunca cansamos de rever. Veja abaixo (o video está dublado em português). E viva Fellini!




segunda-feira, 3 de junho de 2013

Faroeste Caboclo

A música é melhor


“Ei, Fábio, tem alguma notícia sobre o filme de Faroeste Caboclo?”. Ao longo de vários anos (nem me lembro exatamente quantos) ouvi muitas vezes essa frase de um amigo que, como eu, adorava a Legião Urbana e costumava me perguntar sobre a possível adaptação da música do saudoso Renato Russo para as telas de cinema (abraço, Luciano!). Na maioria das oportunidades, eu simplesmente não tinha informação nenhuma para dar e imaginava que esse era um projeto que nunca iria sair do papel. Cheguei a pensar que se tratava apenas de um boato divulgado pelo global Video Show, no tempo em que este programa ainda divulgava algumas notícias de conteúdo interessante e não apenas abobrinhas e futilidades sobre novelas e celebridades (faz uma tempão, né?). Pois bem, o tempo passou, meu amigo nem mora mais em Natal (como andam as coisas em Curitiba?) e, enfim, a canção-quase-roteiro da Legião estreou nos cinemas.

Composta ainda nos anos 70, durante a fase “Trovador Solitário” de Renato Russo (saiba mais assistindo a “Somos Tão Jovens”), o qual desejava fazer algo no estilo das canções de Bob Dylan (uma de suas maiores influências), “Faroeste Caboclo” só passou a ser conhecida do grande público com o álbum “Que País é Este?”, lançado pela Legião Urbana em 1987. Com seus quase 10 minutos de duração, ninguém imaginava que ela iria se tornar um hit radiofônico, mas foi o que sucedeu. Parece algo impensável, mas, diante dos pedidos dos ouvintes, a faixa era reproduzida inteira nas rádios, uma proeza ainda maior em uma época em que para ouvir música de graça só mesmo escutando as emissoras, as quais detinham um poder enorme sobre o que deveria ou não fazer sucesso. Se lembrarmos que a música não possui refrão, é pontuada por palavrões e não tem nada de politicamente correta – no contexto de um país que ainda estava desacostumado com a liberdade de expressão – o feito se torna ainda mais impressionante. Entretanto, realmente se trata de uma composição ímpar na música brasileira, narrando a ascensão e queda de um retirante que se torna traficante na Capital da República sob um pano de fundo sociopolítico aguçado.


 A direção do longa coube a René Sampaio, o qual se mostra bem competente para um diretor estreante. Ele sabe manter o ritmo e tem ótimas referências imagéticas, como o clímax no duelo entre João do Santo Cristo (Fabrício Boliveira) e o traficante Jeremias (Felipe Abib), onde usa das marcas do genial Sergio Leone, contrapondo closes e planos abertos para estabelecer a tensão do momento. Há também muito do estilo tarantinesco, com uma certa dose de hiperviolência que acaba soando pertinente diante do universo de criminalidade abordado. Contudo, o roteiro (de Marcos Bernstein, o mesmo de “Somos Tão Jovens”, e Victor Atherino, com participação de Paulo Lins, o autor de “Cidade de Deus”) realiza alterações no texto original que me incomodaram bastante.

Primeiramente, nota-se que a adaptação quase eliminou da narrativa as origens de João do Santo Cristo. Não sabemos quase nada sobre sua infância, restando apenas as informações de que vivia na miséria e o pai foi morto a tiros por um policial. Só. Seus sonhos e expectativas com uma vida diferente da que levava, tão bem delineados por Renato em sua letra, são podados do enredo do longa, o que é uma pena. Afinal, a trama concebida pelo músico é uma versão pop da velha história do retirante que busca na cidade grande uma vida melhor, onde suas aspirações podem se tornar realidade. A partir desta concepção, o fim de João, em um duelo televisionado, torna-se ainda mais trágico e irônico. Algo semelhante ao fim de Zé do Burro em “O Pagador de Promessas”, a peça de Dias Gomes mais tarde transformada em filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes por Anselmo Duarte, o qual sempre me pareceu ser uma das fontes em que Renato bebeu para conceber o texto de “Faroeste”. É a tragédia do homem simples transformada em espetáculo midiático. Ao retirar de João o seu passado e sua ingenuidade, uma vez que no roteiro da película ele não vai a Brasília para “falar com o presidente”, Sampaio praticamente o coloca tão somente como um bandido comum, alguém que entrou na criminalidade por mera ambição e oportunidade, empobrecendo o personagem. É possível imaginar que a opção de diretor e roteiristas foi atribuir um tom menos fantástico que desfecho original, este talvez com um efeito poético condizente apenas com a linguagem musical e que causaria estranheza nas telas. Contudo, pensar de tal forma apenas resulta em estabelecer limites artificiais à linguagem do cinema, fronteiras estas que na realidade não existem (já imaginaram se Fellini ficasse adstrito a “padrões”?).


Se João não se torna apenas mais um lugar-comum entre os criminosos de filmes de gangster, isso se deve em muito à atuação de Fabrício Boliveira. Ele está ótimo, conferindo uma aura introspectiva ao emigrante e, tendo em vista que se trata de um ator negro, contribuindo para que a questão racial se torne ainda mais forte no filme do que na música (e isso é um elogio), já que o tema étnico é apenas pincelado por Renato na sua letra. Aliás, não só Boliveira, mas todo o elenco se apresenta com garra e competência. Ísis Valverde encarna Maria Lúcia com alma, mostrando que pode ir muito além dos papeis de “periguetes” que fizeram a sua fama recentemente na TV. Além disso, temos as boas participações de Antônio Calloni, como um policial corrupto, e Marcos Paulo como o senador pai de Maria Lúcia, em uma de suas últimas aparições nas telas, seja do cinema ou da televisão. Somente Felipe Abib, no papel de Jeremias, destoa do restante do elenco, trazendo alguns excessos a um tipo que tem muito do Tony Montana de “Scarface” (1983, de Brian De Palma).

Nos créditos finais, quando finalmente ouvimos a canção adaptada, a impressão que tive foi a de que Renato Russo conseguiu contar melhor a história de João de Santo Cristo em 10 minutos de música e letra do que René Sampaio em 105 minutos de projeção. Advirto que não estou querendo ser irônico ou afirmando que o longa-metragem seja uma droga, mas, se sobra verve ao elenco e técnica na direção, faltou abordar com mais apuro a riqueza de um personagem que encarna várias facetas do povo brasileiro. Depois de tantos anos de espera, o gostinho de “poderia ser melhor” acabou deixando um certo incômodo.


Cotação:



Nota: 7,5

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Trilha Sonora # 27


Bem, estou quase de saída para assistir a "Faroeste Caboclo" ,  longa de René Sampaio que adapta a música-quase-roteiro de Renato Russo para as telas de cinema. É inevitável que eu esteja com ela na cabeça, rodando como um vinil antigo e arranhado com a agulha pulando para o mesmo ponto. E ela segue aí, em versão ao vivo,  para matar as saudades de quem viveu os anos 80 e, para aqueles que não viveram e não conhecem a música, vale como sinopse do filme.

Em breve, a resenha estará aqui no "Cinema com Pimenta".


sábado, 25 de maio de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

A Árvore da Vida
(The Tree Of Life, 2011)


Amor e Inteligência


Terrence Malick é um sujeito meio esquisito. Nos anos 70, desabrochou para o mundo cinematográfico com dois longas primorosos que se tornaram bastante influentes. São eles “Terra de Ninguém” (Badlands), realizado em 1973, e “Cinzas do Paraíso” (Days Of Heaven), de 1978. Depois disso, quando parecia que iria se tornar um dos grandes diretores do cinema norte-americano, simplesmente desapareceu de Hollywood sem deixar vestígios. Passou 20 anos sumido da vida pública e sem dirigir nada até 1998, quando retornou às telas com “Além da Linha Vermelha” (The Thin Red Line), filme de guerra com elenco estelar que o levou de volta aos holofotes. Indicado a sete Oscars, venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Mas ele não passou esse tempo todo sem fazer nada ou meditando em algum monastério budista. Na verdade, ele estava em Paris e se dedicou a escrever roteiros. Entre estes, começou a rascunhar um projeto para a Paramount que foi então denominado de “Q”, tendo por temática a origem da vida na Terra. Tratava-se do embrião daquele que seria o seu quinto longa-metragem: “A Árvore da Vida”, lançado quase quatro décadas depois.

Para entender a obra de Terrence Malick, faz-se necessário apontar alguns traços de sua personalidade e biografia que vão além de seu caráter misantropo. Ele é formado em Filosofia pela Universidade de Harvard e chegou a cursar doutorado em Oxford. Foi professor do Massachusetts Institute Of Technology, mais conhecido como MIT. Ou seja, Malick é um homem de sólida formação intelectual que usa o cinema como um modo de elaboração de suas ideias e teorias acadêmicas. Portanto, não é por acaso que seus filmes sejam tão reflexivos ou “filosóficos”, para usar um termo comumente adotado para designar o seu cinema. Não espere, portanto, que seus longas sejam fáceis, daqueles feitos na medida para comer pipoca no fim de semana. Ao que parece, muita gente imaginava isso aqui no Brasil durante o (curto) período em que “A Árvore da Vida” esteve em cartaz. Por contar com astros como Brad Pitt e Sean Penn no elenco, é possível que vários incautos tenham imaginado que se tratava de mais um blockbuster ou filme para levar a namorada e curtir uma sessão romântica, pois que, segundo circulava na internet, boa parte do público abandonava a sessão na metade.



O mais intrigante é que, após assistir ao filme recentemente, pude constatar que ele não é cansativo ou entediante, o que me faz pensar o quanto o público médio das salas de cinema está desacostumado a pensar minimamente. Tudo bem, há longas sequências puramente imagéticas, sem diálogos, sublinhadas apenas por uma trilha sonora que pode ser classificada como canto gregoriano pós-moderno. Contudo, é bom lembrar que “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odissey), do genial Stanley Kubrick (uma das nítidas influências de Malick), foi um sucesso de bilheteria quando de sua estreia em 1968 e talvez seja um filme ainda mais imagético do que “A Árvore da Vida”. A conclusão a que chegamos é a de que o público vem sofrendo um processo, desculpem-me a palavra, de emburrecimento continuo. Anda tão mergulhado nos baldes de pipoca que qualquer obra que fuja do lugar-comum causa estranheza e enfado. Uma pena isso acontecer diante de uma película que traz questionamentos e reflexões tão relevantes quanto perenes.

A narrativa se inicia com uma espécie de epígrafe, um trecho do Livro de Jó, um dos mais conhecidos textos da obra basilar da cultura judaico-cristã ocidental: a Bíblia. Como deve ser do conhecimento de muitos, o texto bíblico narra uma espécie de desafio proposto pelo diabo a Deus, qual seja, testar a fé de Jó, impingindo-lhe sofrimentos mil para que sua crença esmoreça. Jó era um homem justo, de bom coração e temente a Deus e não mereceria passar por tantas agruras, mas é o que sucede e, mesmo assim, sua fé permanece inabalável. Por mais que possa parecer nonsense a ideia de que Deus iria se prestar a uma espécie de um joguinho com o demônio, o Livro de Jó possui rara beleza por nos lembrar uma verdade irrefutável: as agruras da vida atingem não apenas os maus, mas também os bons e justos. Não existem “eleitos” livres do sofrimento. É justamente sobre esta verdade que, na trama engendrada por Malick, se debate a família O’Brien, a qual perdeu um filho com 19 anos. Como poderia Deus permitir que um jovem virtuoso morresse de uma forma estúpida? Como Ele pode faltar àqueles que sempre procuraram viver de acordo com suas palavras? Ou será que males acontecem a todos porque, em verdade, Deus não existe?

Estas são perguntas eternas da humanidade e que nunca serão respondidas plenamente, porém Malick não se furta a tentar respondê-las. Logo após a leitura do citado trecho bíblico, uma outra ideia surge e será central na película. A Sra. O’Brien (Jessica Chastain, ótima!), em seus pensamentos, relembra as palavras de uma freira, ensinando-lhe que na vida existem dois caminhos: o da natureza, que se propõe a suprir tão somente suas necessidades físicas e instintivas; e o da Graça, que se contrapõe ao primeiro e renega a satisfação egoísta de instintos para a vivência do amor altruísta. Na visão de Malick, os dois caminhos se complementam e são duas faces do mesmo Deus. Durante a narrativa, a estrutura da família O’Brien é posta de maneira arquetípica, passando-se no Texas dos anos 50, época em que ainda predominava a família de base fortemente patriarcal. O pai (Brad Pitt, em uma de suas melhores atuações), com sua dureza e disciplina, é visto pelos filhos com reverência, temor e, por vezes, revolta e amargor. Por sua vez, a mãe amorosa, afável e compreensiva é adorada pelos seus filhos. Em planos mais claros, o Sr. O'Brien representa a face mais dura e inflexível de Deus, o amor severo, enquanto a Sra. O'Brien é o espelho de seu amor terno, benevolente. O primeiro é natureza e a segunda é a Graça. Entre os dois lados, destaca-se o filho Jack (Hunter McCracken na infância e Sean Penn na fase adulta) como figura representativa da humanidade, cometendo o pecado original da desobediência ao fugir das regras estabelecidas pelo Pai.

Por outro lado, o diretor transporta esta perspectiva familiar para um contexto mais amplo. Toda a película é permeada por longas sequências em que a natureza mostra toda a sua indiferença e força inexorável. Acompanhamos toda a evolução do universo, até chegarmos a nós, macacos de cérebro crescido. Ao colocar a natureza de forma tão exuberante no longa, Malick parece questionar: “onde está a Graça?”. A Graça só pode surgir dentro de nós, humanos, os únicos seres com a capacidade de amar, de nutrir algo que vai além de meros instintos. Nós é que devemos representar a face afável de Deus, trazendo o Amor (assim, com letra maiúscula) a um mundo que pela própria essência já é muito áspero e indiferente. Dentro de cada ser humano sempre haverá o embate entre os caminhos da natureza (satisfações próprias, necessidades instintivas) e o da Graça (amor altruísta) e somos, irremediavelmente, produtos deste conflito. Tais indagações, ao contrário do que muitos talvez esperem, são sublinhadas por imagens incríveis (como de hábito nos filmes de Malick), resultado da fotografia deslumbrante de Emmanuel Lubezki e ainda auxiliada por uma trilha sonora que induz à reflexão (com seu teor de “canto gregoriano modernoso”, como dito mais acima), em um deslumbre visual e sonoro condizente com o contexto. Tipo de filme que já valeria à pena somente pelas imagens. Ademais, conta com elenco estelar em grandes interpretações. Até mesmo os garotos, intérpretes dos três filhos dos O’brien se mostram bastante naturais.


Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2011, “The Tree Of Life” talvez não seja “a” obra-prima de Terrence Malick (eu ainda gosto mais do citado “Além da Linha Vermelha”), mas certamente está entre os melhores filmes dos últimos anos. Instigante e distante de superficialidades, mostra mais uma vez o talento de um diretor-filósofo que busca usar a Sétima Arte como debate e expressão de ideias. Ou seja, seu cinema é primordialmente arte, um artigo que anda em falta no mercado. Importante ressaltar que as interpretações expostas acima são algumas dentre várias outras possíveis. E só filmes que nos atingem enquanto autênticas expressões artísticas são capazes de gerar múltiplas leituras. É possível que o verdadeiro intuito do cineasta ao elaborar uma obra tão permeada de interrogações seja justamente o de nos lembrar que somos muito além do que dinossauros, meros animais à deriva na natureza. Como humanos, somos, antes de mais nada, amor e inteligência.


Cotação:



Nota: 10,0

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Dica de Livro

Eu estava pensando em falar alguma coisa sobre a abertura do Festival de Cannes (que foi ontem, dia 15/05), mas acredito que a web já deve estar empilhada de notícias sobre o evento. Portanto, resolvi postar alguma coisa sobre um livrinho interessante que adquiri há pouco tempo. Trata-se de "101 Filmes - Tesouros Perdidos", de Ricardo Matsumoto e Roberto Pujol, colaboradores da revista Preview. Como diz o texto da própria capa, o livro se propõe a indicar ao leitor “uma seleção dos melhores filmes que você (provavelmente) nunca viu", realizando uma apanhando daquelas películas que, por um motivo ou outro, não foram bem de bilheteria ou foram relagadas a um segundo plano pela crítica, sempre sujeita a erros. A seleção de obras é bem eclética, abordando tanto filmes antigos como mais recentes, de diversas nacionalidades e gêneros. A apresentação se realiza de maneira semelhante ao consagrado "1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer" , com resenhas de uma página e fotos das produções. Vale à pena conferir. Há muitas dicas preciosas na lista escolhida. Boa leitura.