quinta-feira, 20 de junho de 2013

Star Trek - Além da Escuridão

A evolução da Jornada


Já faz quatro anos (como o tempo passa rápido) que J.J. Abrams, cineasta egresso da televisão que ficou famoso por séries como “Lost”, levou às telas o reboot da longeva série “Star Trek”, a qual, como já tive a oportunidade de mencionar na resenha publicada à época, nunca esteve entre minhas referências pop preferidas. De qualquer forma, Abrams fez um bom trabalho no reinício da franquia. Mesmo que o “Star Trek de 2009 não chegue à excelência, seu resultado foi bastante agradável, conferindo uma roupagem rejuvenescida aos personagens capaz de trazer novos adeptos ao universo concebido por Gene Rodenberry. E, para aqueles que duvidavam (como eu) que ninguém seria capaz de incorporar o Dr. Spock tão bem quanto Leonard Nimoy, Zachary Quinto calou a boca de todo mundo roubando todas as cenas em que aparecia, alguns degraus acima do Capitão Kirk de Chris Pine.

Com este “Além da Ecuridão”, Abrams demonstra que é, inegavelmente, o grande diretor do gênero ficção-científica atualmente em atividade no cinemão norte-americano, deixando para trás os seus ídolos, o aposentado George Lucas e Steven Spielberg, que vem se dedicando a outros gêneros nos últimos anos. Este novo episódio de Star Trek pode não ser tão bom quanto seu filme anterior, o ótimo “Super 8”, mas com certeza alcança uma evolução em relação ao reboot de 2009. O diretor, agora liberto da necessidade de apresentar os personagens ao um novo público, aprofunda-se em sua psicologia e nas relações entre eles, fazendo com que o longa, mais do que uma aventura, possa ser visto como uma história de amizade. E, vale dizer, amizade não só entre os dois protagonistas Kirk e Spock, mas também entre todos os integrantes da tripulação da nave Enterprise. Aqui, quase todos os membros da equipe possuem o seu momento de destaque e ações que ajudam no desenrolar da trama, fazendo o público enxerga-los não apenas como um amontoado de personagens, mas como uma verdadeira equipe, um time que joga de maneira coletiva e vence as adversidades e os inimigos.


Em entrevistas recentes, Abrams declarou que gostava de ver filmes sem muitas informações prévias sobre o roteiro e, de preferência, até sem ver trailers ou comerciais de TV, razão pela qual a produção desse novo episódio foi cercada de mistérios. Os próprios atores foram orientados a falar o mínimo possível sobre o longa durante as entrevistas. A precaução é justificável. Quanto menos se souber a respeito do verdadeiro papel que John Harrison (Benedict Cumberbatch) terá no desenvolvimento da trama, melhor. Basta apenas saber que ele é uma espécie de terrorista estelar cuja personalidade misteriosa será responsável por testar os limites da equipe da Enterprise. De qualquer forma, embora tenha alguns “solavancos” comuns aos filmes de ação, o roteiro (de Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof ) é bem estruturado, valendo destaque para os diálogos, muito mais inteligentes, fluidos e divertidos (várias são as tiradas que funcionam ao longo da projeção) que os do primeiro da série, o qual era repleto de frases pouco inteligentes e clichês, principalmente em sua primeira metade.


Além disso, é inegável que Abrams filma como poucos, com enquadramentos perfeitos para as cenas de ação (que são muitas, diga-se de passagem) e ótima dinâmica e edição (vou ser repetitivo e perguntar: viu, Michael Bay?). Filmar cenas de ação é uma arte e, talvez, apenas James Cameron supere hoje J.J. Abrams neste aspecto. O ritmo da película é tão bom que nem percebemos que ele tem 2h12min de duração. Entretanto, um ponto em que Abrams precisa melhorar é trilha sonora de seus filmes, geralmente esquecíveis e que pouco acrescentam à narrativa. Por outro lado, demonstra mais uma vez muita competência na direção de atores, o que é difícil em longas repletos de ação. Embora Benedict Cumberbatch tenha boa presença na pele do vilão John Harrison, não considero seu desempenho tão excepcional como alardeado por aí em alguns veículos midiáticos. Neste ponto, os maiores méritos ficam mesmo com a dupla protagonista. Chris Pine evoluiu bastante em relação ao primeiro longa, trazendo um Capitão Kirk muito mais tridimensional e que vai além de um mero garoto-irresponsável-que-precisa-amadurecer. Entretanto, Zachary Quinto, mais uma vez, rouba mesmo a cena com o seu Dr. Spock. Ele praticamente domina todas as sequências em que aparece e definitivamente calou a boca de muitos que julgavam que o rapaz não estaria à altura de Nimoy.

É verdade que “Star Trek” não chega a ser uma coca-cola gelada no deserto. Não atinge um nível de excelência como se tem propagado por aí, como de resto nenhum filme de J.J. Abrams, até hoje, pode ser classificado como “excelente”. Entretanto, “Além da Escuridão” está um degrau acima do seu antecessor, representando uma evolução da jornada. Ao mesmo tempo em que traz ação quase ininterrupta, consegue, como já frisado, aprofundar-se na psique e nas relações entre os personagens, algo que decididamente não é fácil. Isso me faz lembrar que Abrams será o diretor de Star Wars episódio VII, trazendo boas expectativas para uma franquia já desgastada. Convenhamos, diante do seu trabalho com “Star Trek” (série da qual ele nem era fã), será difícil que ele venha a cometer equívocos como “A Ameaça Fantasma” na franquia do Darth Vader.


Cotação:



Nota: 8,5

domingo, 9 de junho de 2013

Quero Ver Novamente # 23


Dia desses, estava lendo "A Magia do Cinema", livro do famoso crítico norte-ameircano  Roger Ebert, quando me deparei com o seu belíssimo texto sobre "A Doce Vida", uma das obras-primas do mestre Federico Fellini. Ebert afirma que esse é o tipo de filme sobre o qual mudamos nossa apreciação ao longo do anos, enxergando o personagem de Marcello Mastroianni de maneira diferente com o avançar da idade. E é verdade. A vontade de revê-lo foi imediata, mas ainda estou devendo. Para matar um pouco a vontade, revi no Youtube a sua sequência mais famosa, quando Silvya, a estrela interpretada por Anita Ekberg, adentra a Fontana de Trevi e convida Marcello para se banhar. Uma das cenas mais famosas de todos os tempos que nunca cansamos de rever. Veja abaixo (o video está dublado em português). E viva Fellini!




segunda-feira, 3 de junho de 2013

Faroeste Caboclo

A música é melhor


“Ei, Fábio, tem alguma notícia sobre o filme de Faroeste Caboclo?”. Ao longo de vários anos (nem me lembro exatamente quantos) ouvi muitas vezes essa frase de um amigo que, como eu, adorava a Legião Urbana e costumava me perguntar sobre a possível adaptação da música do saudoso Renato Russo para as telas de cinema (abraço, Luciano!). Na maioria das oportunidades, eu simplesmente não tinha informação nenhuma para dar e imaginava que esse era um projeto que nunca iria sair do papel. Cheguei a pensar que se tratava apenas de um boato divulgado pelo global Video Show, no tempo em que este programa ainda divulgava algumas notícias de conteúdo interessante e não apenas abobrinhas e futilidades sobre novelas e celebridades (faz uma tempão, né?). Pois bem, o tempo passou, meu amigo nem mora mais em Natal (como andam as coisas em Curitiba?) e, enfim, a canção-quase-roteiro da Legião estreou nos cinemas.

Composta ainda nos anos 70, durante a fase “Trovador Solitário” de Renato Russo (saiba mais assistindo a “Somos Tão Jovens”), o qual desejava fazer algo no estilo das canções de Bob Dylan (uma de suas maiores influências), “Faroeste Caboclo” só passou a ser conhecida do grande público com o álbum “Que País é Este?”, lançado pela Legião Urbana em 1987. Com seus quase 10 minutos de duração, ninguém imaginava que ela iria se tornar um hit radiofônico, mas foi o que sucedeu. Parece algo impensável, mas, diante dos pedidos dos ouvintes, a faixa era reproduzida inteira nas rádios, uma proeza ainda maior em uma época em que para ouvir música de graça só mesmo escutando as emissoras, as quais detinham um poder enorme sobre o que deveria ou não fazer sucesso. Se lembrarmos que a música não possui refrão, é pontuada por palavrões e não tem nada de politicamente correta – no contexto de um país que ainda estava desacostumado com a liberdade de expressão – o feito se torna ainda mais impressionante. Entretanto, realmente se trata de uma composição ímpar na música brasileira, narrando a ascensão e queda de um retirante que se torna traficante na Capital da República sob um pano de fundo sociopolítico aguçado.


 A direção do longa coube a René Sampaio, o qual se mostra bem competente para um diretor estreante. Ele sabe manter o ritmo e tem ótimas referências imagéticas, como o clímax no duelo entre João do Santo Cristo (Fabrício Boliveira) e o traficante Jeremias (Felipe Abib), onde usa das marcas do genial Sergio Leone, contrapondo closes e planos abertos para estabelecer a tensão do momento. Há também muito do estilo tarantinesco, com uma certa dose de hiperviolência que acaba soando pertinente diante do universo de criminalidade abordado. Contudo, o roteiro (de Marcos Bernstein, o mesmo de “Somos Tão Jovens”, e Victor Atherino, com participação de Paulo Lins, o autor de “Cidade de Deus”) realiza alterações no texto original que me incomodaram bastante.

Primeiramente, nota-se que a adaptação quase eliminou da narrativa as origens de João do Santo Cristo. Não sabemos quase nada sobre sua infância, restando apenas as informações de que vivia na miséria e o pai foi morto a tiros por um policial. Só. Seus sonhos e expectativas com uma vida diferente da que levava, tão bem delineados por Renato em sua letra, são podados do enredo do longa, o que é uma pena. Afinal, a trama concebida pelo músico é uma versão pop da velha história do retirante que busca na cidade grande uma vida melhor, onde suas aspirações podem se tornar realidade. A partir desta concepção, o fim de João, em um duelo televisionado, torna-se ainda mais trágico e irônico. Algo semelhante ao fim de Zé do Burro em “O Pagador de Promessas”, a peça de Dias Gomes mais tarde transformada em filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes por Anselmo Duarte, o qual sempre me pareceu ser uma das fontes em que Renato bebeu para conceber o texto de “Faroeste”. É a tragédia do homem simples transformada em espetáculo midiático. Ao retirar de João o seu passado e sua ingenuidade, uma vez que no roteiro da película ele não vai a Brasília para “falar com o presidente”, Sampaio praticamente o coloca tão somente como um bandido comum, alguém que entrou na criminalidade por mera ambição e oportunidade, empobrecendo o personagem. É possível imaginar que a opção de diretor e roteiristas foi atribuir um tom menos fantástico que desfecho original, este talvez com um efeito poético condizente apenas com a linguagem musical e que causaria estranheza nas telas. Contudo, pensar de tal forma apenas resulta em estabelecer limites artificiais à linguagem do cinema, fronteiras estas que na realidade não existem (já imaginaram se Fellini ficasse adstrito a “padrões”?).


Se João não se torna apenas mais um lugar-comum entre os criminosos de filmes de gangster, isso se deve em muito à atuação de Fabrício Boliveira. Ele está ótimo, conferindo uma aura introspectiva ao emigrante e, tendo em vista que se trata de um ator negro, contribuindo para que a questão racial se torne ainda mais forte no filme do que na música (e isso é um elogio), já que o tema étnico é apenas pincelado por Renato na sua letra. Aliás, não só Boliveira, mas todo o elenco se apresenta com garra e competência. Ísis Valverde encarna Maria Lúcia com alma, mostrando que pode ir muito além dos papeis de “periguetes” que fizeram a sua fama recentemente na TV. Além disso, temos as boas participações de Antônio Calloni, como um policial corrupto, e Marcos Paulo como o senador pai de Maria Lúcia, em uma de suas últimas aparições nas telas, seja do cinema ou da televisão. Somente Felipe Abib, no papel de Jeremias, destoa do restante do elenco, trazendo alguns excessos a um tipo que tem muito do Tony Montana de “Scarface” (1983, de Brian De Palma).

Nos créditos finais, quando finalmente ouvimos a canção adaptada, a impressão que tive foi a de que Renato Russo conseguiu contar melhor a história de João de Santo Cristo em 10 minutos de música e letra do que René Sampaio em 105 minutos de projeção. Advirto que não estou querendo ser irônico ou afirmando que o longa-metragem seja uma droga, mas, se sobra verve ao elenco e técnica na direção, faltou abordar com mais apuro a riqueza de um personagem que encarna várias facetas do povo brasileiro. Depois de tantos anos de espera, o gostinho de “poderia ser melhor” acabou deixando um certo incômodo.


Cotação:



Nota: 7,5

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Trilha Sonora # 27


Bem, estou quase de saída para assistir a "Faroeste Caboclo" ,  longa de René Sampaio que adapta a música-quase-roteiro de Renato Russo para as telas de cinema. É inevitável que eu esteja com ela na cabeça, rodando como um vinil antigo e arranhado com a agulha pulando para o mesmo ponto. E ela segue aí, em versão ao vivo,  para matar as saudades de quem viveu os anos 80 e, para aqueles que não viveram e não conhecem a música, vale como sinopse do filme.

Em breve, a resenha estará aqui no "Cinema com Pimenta".


sábado, 25 de maio de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

A Árvore da Vida
(The Tree Of Life, 2011)


Amor e Inteligência


Terrence Malick é um sujeito meio esquisito. Nos anos 70, desabrochou para o mundo cinematográfico com dois longas primorosos que se tornaram bastante influentes. São eles “Terra de Ninguém” (Badlands), realizado em 1973, e “Cinzas do Paraíso” (Days Of Heaven), de 1978. Depois disso, quando parecia que iria se tornar um dos grandes diretores do cinema norte-americano, simplesmente desapareceu de Hollywood sem deixar vestígios. Passou 20 anos sumido da vida pública e sem dirigir nada até 1998, quando retornou às telas com “Além da Linha Vermelha” (The Thin Red Line), filme de guerra com elenco estelar que o levou de volta aos holofotes. Indicado a sete Oscars, venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Mas ele não passou esse tempo todo sem fazer nada ou meditando em algum monastério budista. Na verdade, ele estava em Paris e se dedicou a escrever roteiros. Entre estes, começou a rascunhar um projeto para a Paramount que foi então denominado de “Q”, tendo por temática a origem da vida na Terra. Tratava-se do embrião daquele que seria o seu quinto longa-metragem: “A Árvore da Vida”, lançado quase quatro décadas depois.

Para entender a obra de Terrence Malick, faz-se necessário apontar alguns traços de sua personalidade e biografia que vão além de seu caráter misantropo. Ele é formado em Filosofia pela Universidade de Harvard e chegou a cursar doutorado em Oxford. Foi professor do Massachusetts Institute Of Technology, mais conhecido como MIT. Ou seja, Malick é um homem de sólida formação intelectual que usa o cinema como um modo de elaboração de suas ideias e teorias acadêmicas. Portanto, não é por acaso que seus filmes sejam tão reflexivos ou “filosóficos”, para usar um termo comumente adotado para designar o seu cinema. Não espere, portanto, que seus longas sejam fáceis, daqueles feitos na medida para comer pipoca no fim de semana. Ao que parece, muita gente imaginava isso aqui no Brasil durante o (curto) período em que “A Árvore da Vida” esteve em cartaz. Por contar com astros como Brad Pitt e Sean Penn no elenco, é possível que vários incautos tenham imaginado que se tratava de mais um blockbuster ou filme para levar a namorada e curtir uma sessão romântica, pois que, segundo circulava na internet, boa parte do público abandonava a sessão na metade.



O mais intrigante é que, após assistir ao filme recentemente, pude constatar que ele não é cansativo ou entediante, o que me faz pensar o quanto o público médio das salas de cinema está desacostumado a pensar minimamente. Tudo bem, há longas sequências puramente imagéticas, sem diálogos, sublinhadas apenas por uma trilha sonora que pode ser classificada como canto gregoriano pós-moderno. Contudo, é bom lembrar que “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odissey), do genial Stanley Kubrick (uma das nítidas influências de Malick), foi um sucesso de bilheteria quando de sua estreia em 1968 e talvez seja um filme ainda mais imagético do que “A Árvore da Vida”. A conclusão a que chegamos é a de que o público vem sofrendo um processo, desculpem-me a palavra, de emburrecimento continuo. Anda tão mergulhado nos baldes de pipoca que qualquer obra que fuja do lugar-comum causa estranheza e enfado. Uma pena isso acontecer diante de uma película que traz questionamentos e reflexões tão relevantes quanto perenes.

A narrativa se inicia com uma espécie de epígrafe, um trecho do Livro de Jó, um dos mais conhecidos textos da obra basilar da cultura judaico-cristã ocidental: a Bíblia. Como deve ser do conhecimento de muitos, o texto bíblico narra uma espécie de desafio proposto pelo diabo a Deus, qual seja, testar a fé de Jó, impingindo-lhe sofrimentos mil para que sua crença esmoreça. Jó era um homem justo, de bom coração e temente a Deus e não mereceria passar por tantas agruras, mas é o que sucede e, mesmo assim, sua fé permanece inabalável. Por mais que possa parecer nonsense a ideia de que Deus iria se prestar a uma espécie de um joguinho com o demônio, o Livro de Jó possui rara beleza por nos lembrar uma verdade irrefutável: as agruras da vida atingem não apenas os maus, mas também os bons e justos. Não existem “eleitos” livres do sofrimento. É justamente sobre esta verdade que, na trama engendrada por Malick, se debate a família O’Brien, a qual perdeu um filho com 19 anos. Como poderia Deus permitir que um jovem virtuoso morresse de uma forma estúpida? Como Ele pode faltar àqueles que sempre procuraram viver de acordo com suas palavras? Ou será que males acontecem a todos porque, em verdade, Deus não existe?

Estas são perguntas eternas da humanidade e que nunca serão respondidas plenamente, porém Malick não se furta a tentar respondê-las. Logo após a leitura do citado trecho bíblico, uma outra ideia surge e será central na película. A Sra. O’Brien (Jessica Chastain, ótima!), em seus pensamentos, relembra as palavras de uma freira, ensinando-lhe que na vida existem dois caminhos: o da natureza, que se propõe a suprir tão somente suas necessidades físicas e instintivas; e o da Graça, que se contrapõe ao primeiro e renega a satisfação egoísta de instintos para a vivência do amor altruísta. Na visão de Malick, os dois caminhos se complementam e são duas faces do mesmo Deus. Durante a narrativa, a estrutura da família O’Brien é posta de maneira arquetípica, passando-se no Texas dos anos 50, época em que ainda predominava a família de base fortemente patriarcal. O pai (Brad Pitt, em uma de suas melhores atuações), com sua dureza e disciplina, é visto pelos filhos com reverência, temor e, por vezes, revolta e amargor. Por sua vez, a mãe amorosa, afável e compreensiva é adorada pelos seus filhos. Em planos mais claros, o Sr. O'Brien representa a face mais dura e inflexível de Deus, o amor severo, enquanto a Sra. O'Brien é o espelho de seu amor terno, benevolente. O primeiro é natureza e a segunda é a Graça. Entre os dois lados, destaca-se o filho Jack (Hunter McCracken na infância e Sean Penn na fase adulta) como figura representativa da humanidade, cometendo o pecado original da desobediência ao fugir das regras estabelecidas pelo Pai.

Por outro lado, o diretor transporta esta perspectiva familiar para um contexto mais amplo. Toda a película é permeada por longas sequências em que a natureza mostra toda a sua indiferença e força inexorável. Acompanhamos toda a evolução do universo, até chegarmos a nós, macacos de cérebro crescido. Ao colocar a natureza de forma tão exuberante no longa, Malick parece questionar: “onde está a Graça?”. A Graça só pode surgir dentro de nós, humanos, os únicos seres com a capacidade de amar, de nutrir algo que vai além de meros instintos. Nós é que devemos representar a face afável de Deus, trazendo o Amor (assim, com letra maiúscula) a um mundo que pela própria essência já é muito áspero e indiferente. Dentro de cada ser humano sempre haverá o embate entre os caminhos da natureza (satisfações próprias, necessidades instintivas) e o da Graça (amor altruísta) e somos, irremediavelmente, produtos deste conflito. Tais indagações, ao contrário do que muitos talvez esperem, são sublinhadas por imagens incríveis (como de hábito nos filmes de Malick), resultado da fotografia deslumbrante de Emmanuel Lubezki e ainda auxiliada por uma trilha sonora que induz à reflexão (com seu teor de “canto gregoriano modernoso”, como dito mais acima), em um deslumbre visual e sonoro condizente com o contexto. Tipo de filme que já valeria à pena somente pelas imagens. Ademais, conta com elenco estelar em grandes interpretações. Até mesmo os garotos, intérpretes dos três filhos dos O’brien se mostram bastante naturais.


Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2011, “The Tree Of Life” talvez não seja “a” obra-prima de Terrence Malick (eu ainda gosto mais do citado “Além da Linha Vermelha”), mas certamente está entre os melhores filmes dos últimos anos. Instigante e distante de superficialidades, mostra mais uma vez o talento de um diretor-filósofo que busca usar a Sétima Arte como debate e expressão de ideias. Ou seja, seu cinema é primordialmente arte, um artigo que anda em falta no mercado. Importante ressaltar que as interpretações expostas acima são algumas dentre várias outras possíveis. E só filmes que nos atingem enquanto autênticas expressões artísticas são capazes de gerar múltiplas leituras. É possível que o verdadeiro intuito do cineasta ao elaborar uma obra tão permeada de interrogações seja justamente o de nos lembrar que somos muito além do que dinossauros, meros animais à deriva na natureza. Como humanos, somos, antes de mais nada, amor e inteligência.


Cotação:



Nota: 10,0

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Dica de Livro

Eu estava pensando em falar alguma coisa sobre a abertura do Festival de Cannes (que foi ontem, dia 15/05), mas acredito que a web já deve estar empilhada de notícias sobre o evento. Portanto, resolvi postar alguma coisa sobre um livrinho interessante que adquiri há pouco tempo. Trata-se de "101 Filmes - Tesouros Perdidos", de Ricardo Matsumoto e Roberto Pujol, colaboradores da revista Preview. Como diz o texto da própria capa, o livro se propõe a indicar ao leitor “uma seleção dos melhores filmes que você (provavelmente) nunca viu", realizando uma apanhando daquelas películas que, por um motivo ou outro, não foram bem de bilheteria ou foram relagadas a um segundo plano pela crítica, sempre sujeita a erros. A seleção de obras é bem eclética, abordando tanto filmes antigos como mais recentes, de diversas nacionalidades e gêneros. A apresentação se realiza de maneira semelhante ao consagrado "1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer" , com resenhas de uma página e fotos das produções. Vale à pena conferir. Há muitas dicas preciosas na lista escolhida. Boa leitura.

domingo, 12 de maio de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

Mother - A Busca Pela Verdade
(Madeo, 2009)


Suspense hitchcockiano sobre a maternidade


Ultimamente, ando afastado do cinema asiático. Um descaso bastante reprovável, tenho ciência disso, o que me levou a procurar resolvê-lo assistindo a algum representante do crescente e elogiável cinema coreano, considerado pela crítica internacional como o maior celeiro de criatividade atual. Confesso que, entre os representantes da produção coreana recente, eu havia visto apenas “Old Boy” (2003), a perturbadora saga de vingança concebida pelo diretor Chan-wook Park. Diante da proximidade do dia das mães, o que estava me motivando a postar algum texto relacionado à data (tudo bem, até o Cinema Com Pimenta às vezes acaba contaminado por essas datas que, no fundo, são comerciais), acabei optando pelo longa-metragem “Mother – A Busca Pela Verdade”, cujo diretor Bong Joon-Ho é um dos mais incensados da atual cena da Coreia do Sul. Ele é o mesmo cineasta de “O Hospedeiro” (Gwoemul, 2006), filme conhecido pela mistura de diversos gêneros, passeando do terror até a comédia e crítica social. Não vi “O Hospedeiro”, mas, a julgar por este “Mother”, o ecletismo parece mesmo ser uma marca do trabalho de Joon-Ho.

Em “Madeo” (título original do longa), o diretor consegue misturar com precisa eficácia gêneros como drama, suspense e policial, trazendo um resultado original e, até certo ponto, surpreendente. Um modo diferente de abordar uma narrativa que questiona até onde pode ir o amor materno. Na trama, Hye-Ja (papel da excelente atriz Kim Hye-Ja), comerciante que também realiza sessões de acupuntura clandestinamente, é mãe solteira de Do-Joon, uma rapaz que tem já os seu vinte e poucos anos, mas que tem um significativo retardo de desenvolvimento mental, comportando-se como uma criança. Após uma noite de bebedeira, Do-Joon acaba se tornando o principal suspeito do brutal assassinato de uma jovem de seu bairro. A super protetora Hye-Ja fará, então, de tudo para provar a inocência do filho, em um caminho tortuoso onde terá de enfrentar uma polícia ineficiente e advogados negligentes. Um percurso com surpresas e situações de choque e que levarão o espectador tanto ao espanto quanto à reflexão.


A estrutura básica de “Madeo” é a de um “whodunit”, aquele tipo de filme cujo mote central é descobrir quem cometeu um crime. Joon-Ho desenvolve o mistério utilizando estruturas inspiradas em Alfred Hitchcock, como a famosa premissa do “homem errado”, tão frequente na filmografia do cineasta britânico. Além disso, realiza uma interessante mistura de tons de suspense com elementos cômicos, uma das especialidades do velho Hitch. Contudo, se este utilizava uma superfície de mistério e suspense para realizar análises acerca da relação homem-mulher, dissecando a sedução e dominação presentes nos envolvimentos amorosos, Joon-Ho tenta entender aquela que talvez seja o mais instintivo, visceral e, ao mesmo tempo, belo e comovente dos sentimentos: o amo materno. A trajetória de Hye-Ja para proteger sua prole alcança pontos em que certos limites éticos e morais são ultrapassados, levando-nos a refletir sobre a aceitabilidade de suas condutas, além de fazer-nos questionar o quanto do ser humano pode ser condicionado pelos nosso instintos mais primitivos. Joon-Ho, todavia, não oferece julgamentos, seja condenando ou absolvendo a protagonista e está longe de enquadrá-la em uma visão santificada ou que procurasse ao menos justificar suas atitudes. De outra ponta, Joon-Ho demonstra uma forte preocupação em exibir a realidade da Coreia capitalista, muitas vezes vista nos Ocidente como exemplo de país que soube sair do subdesenvolvimento. A Coreia que vemos nos filme é repleta de semifavelas e demonstra possuir uma sociedade bem menos rica e pujante do aquela que a mídia globalizada costuma divulgar.


Tais questionamentos nos são trazidos por meio de um roteiro muito bem construído, atento a minúcias e com pistas falsas, muito embora algumas de suas reviravoltas, mormente a principal delas, se mostrem uma tanto previsíveis. Apesar de tais previsibilidades, a narrativa não deixa de ser envolvente e não só porque o roteiro é bem construído. As atuações contribuem poderosamente para o ótimo resultado final da película. O jovem intérprete do filho Do-Joon, o ator Bin Won, realmente convence como uma rapaz com problemas de desenvolvimento mental, em uma atuação muito natural. Além dele, Ku Jin, intérprete do amigo Jim-Tae, também trabalha com competência na construção de uma personalidade dúbia. Contudo, é mesmo Kim Hye-Ja que arrasa em sua performance como a mãe protagonista. Uma atuação perfeita que certamente levaria indicações e prêmios Oscar caso ela tivesse trabalhado em um longa hollywoodiano.

“Mother-A Busca Pela Verdade” tornou-se quase uma unanimidade perante a a crítica internacional e não impunemente. Trata-se de uma obra que demonstra, de fato, porque o cinema coreano é considerado o mais criativo da atualidade, abordando temas complicados de forma inteligente, mas sem tem medo de ser incômodo. Interessante, inclusive, constatar como a produção coreana consegue fugir do politicamente correto e até chocar o público, mas sem nunca deixar de envolvê-lo, em uma mistura de forma e substância à qual é impossível ficar indiferente. E Bong Joon-Ho é, indubitavelmente, um dos grandes representantes dessa escola cinematográfica singular, sendo “Mother” uma ótima forma de começar a conhecê-lo. Não sei se é exatamente uma longa para ser visto no dia das mães, mas que é um baita filme, isso é.


Cotação:



Nota: 9,0

terça-feira, 7 de maio de 2013

Somos Tão Jovens

Recorte de um tempo perdido


Eu sou um legionário. Sim, eu sou daqueles que sabem cantar todas as músicas da Legião Urbana, banda liderada pelo mito Renato Russo que atingiu sua apoteose na segunda metade dos anos 80 e início dos anos 90. Tenho todos os discos, já li obras sobre Renato, entrevistas e documentários. Estou fazendo essa advertência porque acredito que as seguintes linhas traçadas sobre “Somos Tão Jovens”, longa-metragem dirigido por Antônio Carlos da Fontoura que estreou em circuito nacional na última sexta-feira, podem sofrer a interferência da visão indissociável de fã que será apresentada. Para o bem ou para o mal, é importante sublinhar, pois que, se em alguns momentos minha empolgação pode ter falado mais alto, em outros o fato de conhecer bastante a história daqueles personagens pode ter elevado minha visão crítica.

“Somos Tão Jovens” é, antes de mais nada, um recorte de uma época. Mais precisamente, os anos da adolescência de Renato Manfredini Jr. (interpretado por Thiago Mendonça, o Luciano de “2 Filhos de Francisco”) em Brasília. Portanto, não vá ao cinema esperando encontrar uma apanhado biográfico de toda a vida do artista, incluindo sua maturidade e falecimento resultado do vírus HIV. Quem aparece no filme é o Renato do Aborto Elétrico - a banda do punk brasiliense formada por ele, o sul-africano Andre Pretorius e os irmãos Felipe (o Fê) e Flávio Lemos (hoje, no Capital Inicial) - e também a sua passagem como “Trovador Solitário”, quando deixou o Aborto devido aos desentendimentos constantes com Felipe. E também vemos Renato antes de participar de qualquer banda, aos 15 anos, quando ficou meses de molho em casa devido a uma doença que debilitou suas pernas, a epifisiólise. Esse período é o ponto de partida do longa, uma fase fundamental para a formação intelectual do futuro astro, uma vez que se dedicou a devorar livros e discos em seu quarto, surgindo então o sonho de se tornar “um astro do rock”. Daí em diante, o roteiro de Marcos Bernstein (o mesmo de “Meu Pé de Laranja Lima” e “Central do Brasil”) enfoca não apenas sua trajetória musical, mas também seu relacionamento com os amigos da turma da “Colina” (como eles eram conhecidos na capital do país), com a família e com Ana Cláudia, uma amiga/namorada fundamental em sua juventude.


Seria injusto acusar a película de “mitificar” Renato. É certo que o roteiro faz aparecer muito da persona artística do músico na sua adolescência, o que talvez seja um equívoco. Entretanto, quem já ouviu comentários e entrevistas de outros participantes do denominado “Rock Brasília” sabe que Renato era idolatrado por amigos e colegas ainda na adolescência, demonstrando desde cedo que sabia ser uma personalidade midiática. Ademais, seu temperamento intempestivo é bastante abordado, além de serem “denunciadas” algumas de suas atitudes cretinas, como o hábito nada louvável de gravar conversas com os amigos, sem o conhecimento destes, para depois servir de inspiração para composições. Portanto, “mitificar” não é o verbo certo para definir os resultados alcançados pela produção. A maior carência de “Somos Tão Jovens” reside em sua pouca propensão em buscar os “porquês” da trajetória do astro, limitando-se quase tão somente a exibir “como” ele desenvolveu esse caminho. Vemos na tela alguns de seus sentimentos de inadequação, como as dúvidas e angústia relativa à sua sexualidade, mas são apenas pinceladas que se tornam insuficientes para compreender sua mente. Não há muito que denuncie que aquele garoto de músicas rebeldes iria anos mais tarde compor canções introspetivas como “Há Tempos”. Além disso, várias passagens, como os problemas com a polícia, o consumo de drogas e os relacionamentos homossexuais são abordados de forma mais leve e pouco disposta a causar desconforto no público médio (diferindo significativamente, neste aspecto, da cinebiografia “Cazuza – O Tempo Não Para”, de Sandra Werneck e Walter Carvalho). Incomoda, ainda, uma certa vontade de pontuar os diálogos com frases das músicas da Legião, como se a cada momento surgisse uma inspiração para futuras composições.

Contudo, é inegável que o longa é feliz em transmitir o clima juvenil daqueles tempos, impactado pelo movimento punk e buscando formas de extravasar seu tédio e inconformismo diante de um governo militar arbitrário. O longa respira rock 'n roll e não apenas porque está recheado de músicas do próprio Renato Russo e de bandas famosas (como o Sex Pistols), mas também por trazer a sensação de estar presente naqueles dias, como se fôssemos mais um daqueles jovens pulando ao som pesado emitido por caixas de som em volume máximo. Para isso colaboram opções técnicas como o uso da câmera em primeira pessoa nas cenas de shows, fazendo com que o espectador se sinta no meio da agitação da plateia ou nas pistas de dança. A ótima edição também proporciona um ritmo tão agitado quanto aqueles dias de rock, contribuindo para que nem cheguemos a sentir o tempo passar. Tudo bem, são 114 minutos, não é um filme longo, mas a sensação ao final é de ainda estarmos na metade (a julgar pela reação do público da sessão, não fui o único a ter essa impressão).



E Thiago Mendonça? Consegue dar conta do recado ao interpretar um personagem tão complexo? A resposta é: mais ou menos. Não seria mentira ou chatice afirmar que ele baseou sua performance na versão midiático-estilizada criada pelo próprio Renato Russo. De fato, sua interpretação possui vários cacoetes. Entretanto, ela se encaixa perfeitamente nas aparições durante shows, levando-nos, nestes momentos, a esquecer que aquele é um ator e não o verdeiro cantor. Também vale mencionar o seu esforço em ser verdadeiro em ditas sequências, uma vez que aprendeu a tocar violão para o longa-metragem e consegue cantar no mesmo tom de Renato sem desafinadas muito aparentes (e convenhamos, é difícil cantar no mesmo tom do líder da Legião Urbana). O resto do elenco não tem muito o que desenvolver. A lista de personagens é extensa, fazendo com que nenhum deles tenha muito tempo de cena. A exceção é Ana, a mencionada “amiga/namorada” que exerce uma grande influência sobre o roqueiro. A atriz Laila Zaid consegue lhe conferir ótima presença em cena, além de delinear com competência e sensibilidade a sua personalidade.

Este é um filme para jovens e preocupado, como já assinalado, em captar a atmosfera de um um tempo que, como diz a famosa canção do compositor, parece perdido, distante e esquecido. Talvez o grande mérito do diretor Fontoura seja, mesmo diante de algumas inconsistências, recuperar esse espírito de contestação e inconformismo que parece estar sendo esquecido pelos cada vez mais conservadores e anódinos jovens contemporâneos, todos iguais em suas preocupações pequeno-burguesas. Em sua canção “Geração Coca-Cola”, Renato já cantava que ele fazia parte de uma geração apática e individualista, “burgueses sem religião”. Pelo que vemos, a situação apenas se agravou, pois que aquela geração possuía uma autocrítica que não se vê na atual. Todavia, ao ver a sala repleta de uma rapaziada universitária, as esperanças se renovaram. Tomara que ela tenha saído da sessão contaminada pelo espírito rock 'n roll vivenciado pelo jovem Renato Frandeni Jr.


Cotação: 



Nota: 8,0

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

A Noviça Rebelde
(The Sound Of Music, 1965)


Alegre como o ano novo


Eu nunca fui muito adepto de festas de réveillon. Sempre considerei uma celebração meio sem sentido. Afinal, não é porque o planeta Terra iniciará mais uma volta em torno do Sol que a vida de ninguém vaia mudar. Nós é que devemos fazer com que as coisas mudem e não ficar esperando transformações devido a uma alteração no calendário. Sendo assim, costumo passar as entradas de ano em família, se não na minha própria, casa passo em casa de parentes. Nada de badalações em praias, bares, clubes etc. O fato de passar os réveillons próximo a uma televisão sempre me possibilitou verificar quais os primeiros filmes exibidos pelas emissoras em cada ano (tudo bem, realmente acho que isso é coisa de cinéfilo maluco). Há algum tempo, a Globo costumava exibir como primeiro filme do ano um clássico absoluto entre os musicais, o qual, com sua sequência de abertura característica, era de fácil identificação. Tratava-se da tomada aérea que mostrava as belas montanhas da Áustria em um longo plano-sequência que culminava com a aparição de Julie Andrews cantando “The Sound Of Music”. Sim, você já deve ter percebido qual o filme em questão. Trata-se de “A Noviça Rebelde”, um dos mais populares musicais de todos os tempos.

Dizer que este longa-metragem é um dos musicais mais populares já realizados não é uma hipérbole. Ele é o terceiro filme com maior número de ingressos vendidos, ficando atrás apenas de “...E o Vento Levou” (Gone With The Wind, 1939) e “Star Wars – Episódio IV” (1977). Em valores corrigidos, sua arrecadação atingiu quase US$ 1 bilhão apenas nos Estados Unidos. Estima-se que mais de um bilhão de pessoas ao redor do globo já viram a história da família Von Trapp levada à tela grande em 1965 por Robert Wise, um cineasta normalmente relegado ao segundo plano pela crítica, mas que aos poucos vem tendo sua reputação devidamente restabelecida. Apesar de não ser exatamente sua especialidade, Wise foi responsável por dois musicais de extrema importância no cinema hollywoodiano. Antes de “A Noviça Rebelde”, dirigiu em 1961, ao lado de Jerome Robbins, “Amor, Sublime Amor” (West Side Story), outro exemplar do mais autêntico musical representativo do antigo studio system. É possível, inclusive, enxergar “A Noviça Rebelde” como o canto do cisne dessa “era de ouro” do gênero. Lembre-se que o cinema norte-americano estava às vésperas de uma revolução que mais tarde seria conhecida como “Nova Hollywood”.



Wise não só foi o diretor do longa-metragem, mas também o seu produtor, o que lhe garantiu total controle sobre o projeto, uma adaptação para a tela grande de um musical da Broadway, cuja trama se baseia na história real da família de cantores Von Trapp. Ou seja, como acontece com frequência no gênero musical (a exemplo do citado “West Side Story”), temos aqui uma adaptação da adaptação. Torna-se importante ressaltar que a história a ser contada é a da família, pois o título em português pode levar muitos a imaginarem que o foco da narrativa é a noviça Maria (Julie Andrews). Ela realmente possui um papel predominante na primeira metade da trama, (com roteiro de Ernest Lehman) centrada na maneira como se desenvolveu o romance entre a espevitada noviça e o Capitão Georg Von Trapp (interpretado por Christopher Plummer), um viúvo pai de sete filhos que controla com regras militares. Maria, que não consegue se adequar à rigidez do convento (1), vai trabalhar como governanta no casarão da família e as crianças, inicialmente resistentes (como sucedia com todas as governantas), vão se afeiçoando e se encantando com seu jeito alegre e amoroso. Ela e o capitão acabam se apaixonando e ele desfaz o noivado com uma rica baronesa (Eleanor Parker) para se casar com Maria. Já na segunda metade da projeção, vemos a invasão nazista em território austríaco e a recusa do Capitão em colaborar, dado o seu perfil antinazista. A família então se vê forçada a fugir para outro país, atravessando a pé a fronteira com a Suíça (na história real, posteriormente eles emigrariam para os EUA).

Opa, sei que acabei contando toda a história do longa. Spoiler gigante? Pode ser, mas, sinceramente, o encanto da película não está exatamente na história narrada, de resto já bastante conhecida, mas na forma como ela é contada, repleta da magia que só os grandes musicais sabem proporcionar. O poder das canções concebidas pela famosa dupla de compositores Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II é atemporal, ainda mais quando interpretadas por uma Julie Andrews em estado de graça e um sensacional elenco infantil de crianças bonitinhas e carismáticas. Christopher Plummer está divertidíssimo como o patriarca Von Trapp (e olha que o primeiro a ser cogitado para o papel foi Yul Brynner) e todo elenco de apoio também se encontra especialmente inspirado, vide as ótimas participações de Richard Haydn como o impagável Tio Max e Eleanor Parker como a Baronesa Elsa. Mas não é só o elenco e as músicas que impressionam em “The Sound Of Music”. A sua mise-en-scène é admirável, com um direção de arte soberba e uma fotografia inesquecível (de Ted McCord), vide a mencionada cena de abertura, de beleza ímpar, que foi filmada seis vezes a partir de um helicóptero. No mesmo nível de qualidade encontra-se a edição, a qual imprime um ritmo perfeito para uma produção com 174 minutos.


Vencedor de 5 Oscars (melhor filme, diretor, edição, som e trilha sonora), “A Noviça Rebelde” é um verdadeiro espetáculo tanto para os olhos quanto para os ouvidos e o fato de ser um filme tão querido até hoje é o maior indício de sua excelência. O American Film Institute o coloca, merecidamente, entre os cinco melhores musicais estadunidenses de todos os tempos. Ao revê-lo recentemente, entendi o porquê de sua exibição constante em viradas de ano. Além de sua alegria latente, é uma obra que exala otimismo. O final, com a família Von Trapp atravessando a pé a fronteira com a Suíça, através dos Alpes, enaltece de forma emotiva e eficiente a força dos laços familiares e de solidariedade, valores estes lembrados coletivamente nas festas de fim de ano. Sendo sincero: para um cinéfilo, assistir a “The Sound Of Music” pode ser bem mais interessante e recompensador do que certas festas de réveillon. Ah, e não estranhe se depois de vê-lo as suas canções permanecerem pegajosamente na sua memória. Comigo aconteceu a mesma coisa...


Cotação:



Nota: 10,0


(1) Segundo informação que consta da edição brasileira em blu-ray, a própria Maria afirmava que sua indisciplina no convento era bem maior do que a mostrada no filme.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Meu Pé de Laranja Lima

Sem sorrisos


Ainda lembro do meu prazer infantil ao ler “Meu Pé de Laranja Lima”, romance de teor fortemente autobiográfico publicado por José Mauro de Vasconcelos em 1968. As travessuras do protagonista Zezé, um menino traquino que a família e vizinhança afirmavam “ter o diabo no corpo”, traziam-me aquele sorriso aberto que só as crianças possuem e chegavam a me “inspirar” para as próprias traquinagens a serem praticadas em casa ou na escola. Ao mesmo tempo, sua páginas me faziam chorar, pois que a história de Zezé possuía contornos pra lá de tristes, capazes de gerar lágrimas em qualquer um, sendo criança ou não. Um livro marcante e bastante imaginativo, apto a cativar qualquer garoto e que também possuía um relevante contexto social que não escapava nem mesmo à minha apreciação imatura. O travesso protagonista era um garoto pobre, filho de um pai alcoólatra e desempregado que lhe batia com frequência. As diabruras do menino eram, mais do que qualquer outra coisa, uma forma de chamar a atenção para a sua carência. E o “pé de laranja lima” do título era o amigo que alçava a imaginação do garoto para além dos limites sofridos de sua realidade.

È verdade que o livro sempre foi visto com reservas pela crítica, a qual o acusava de apelar para o sentimentalismo. De forma inversa, foi um grande sucesso de público, alçando números de best-seller e logo sendo alvo de adaptações para outras mídias. Sua primeira versão cinematográfica, dirigida por Aurélio Teixeira, data de 1970 e no mesmo ano acabou virando novela na extinta TV Tupi, sendo ainda levado à televisão mais duas vezes, em 1980 e 1998, ambas na TV Bandeirantes. O sucesso editorial aliado à diversidade de veículos fez com que “Meu Pé de Laranja Lima” acabasse por ser assimilado pelo inconsciente coletivo brasileiro. Pelo menos entre as pessoas da minha geração, é difícil encontrar alguém que nunca tenha sequer ouvido falar do romance. Contudo, a ausência na mídia nas últimas duas décadas fez com que a história de Zezé se tornasse desconhecida pelas novas gerações, uma falha que precisava ser corrigida e que a produtora Kátia Machado e o diretor e roteirista Marcos Bernstein (eles escreveu o roteiro de “Central do Brasil”) resolveram suprir.



É possível afirmar que essa adaptação de 2013 foi bem sucedida, apesar de possuir um tom que destoa do original e que, até certo ponto, acabou me incomodando. Na trama, vemos o autor do livro (vivido na fase adulta por Caco Ciocler), já com este lançado comercialmente, viajar até sua cidade natal e relembrar os dias que o inspiraram a escrever sua obra. Assim, em flashback, vemos o dia a dia sofrido do garoto Zezé que, além de viver nas limitações da pobreza, ainda levava surras constantes não só do pai (viciado em álcool, como já mencionado), mas também da mãe e irmã mais velha. Sua grande amiga é a fruteira do título, para quem faz confidências e viaja por mundos imaginários, férteis em sua mente infantil. Uma amizade real é posteriormente estabelecida com o português Manuel Valadares, o “Portuga” (papel de José de Abreu), um homem solitário que vê no garoto a oportunidade de resgatar sentimentos paternais. Não vou revelar mais do enredo para quem não o conhece, mas um dos temas centrais da obra de Vasconcelos é a perda. Perder alguém, seja de que forma for, através da morte ou por desentendimentos ou desencontros da vida, é algo que nunca será fácil de lidar, ainda mais na infância. Claro que isso significa afirmar que a narrativa em questão possui contornos inegavelmente tristes, como já sublinhado ateriormente, mas Bernstein exagera na pegada dramática, tornando a trajetória de Zezé um sofrimento quase sem fim, divergindo das cores lúdicas presentes no texto de Vasconcelos. Por outro lado, não se pode negar que o longa emociona no seu último terço, tal como aconteceu com gerações de leitores e espectadores de suas adaptações.

Vale ressaltar, porém, que este é apenas o segundo longa-metragem dirigido por Bernstein (o anterior foi “O Outro Lado da Rua”, de 2004), o qual também escreveu o roteiro em parceria com Melanie Dimantas. Para um diretor ainda “verde”, Bernstein demonstra segurança, imprimindo um bom ritmo, muito embora ainda falhe em alguns aspectos, principalmente na condução do elenco ou talvez até na escolha dele. O ator mirim que interpreta Zezé, João Guilherme Ávila, desenvolve uma atuação bastante oscilante, alternando boas cenas com outras realmente medíocres, o que me leva a acreditar que sua escolha para o papel teve como origem o fato dele ser filho do cantor Leonardo. Não se quer aqui dizer que o garoto é um desastre. Ele tem boa presença nas cenas mais dramáticas e esse é justamente o maior problema, uma vez que não consegue ser expressivo nas sequências que pedem mais leveza, contribuindo decisivamente para o mencionado tom carregado da narrativa. Em contrapartida, José de Abreu está ótimo na pele do grande amigo português de Zezé, destacando-se como a melhor presença cênica. Tivesse um elenco mais homogêneo, fatalmente a película poderia atingir níveis de excelência.



Embora se mostre um saudável respiro em relação ao padrão “Globo Filmes” que costuma dominar o circuito comercial brasileiro, o caráter excessivamente dramático desta nova versão de “Meu Pé de Laranja Lima” possivelmente irá afugentar aquele público que deveria ser o seu maior alvo, o infantil, mas isso também não significa falta de qualidade. A força da obra literária permanece em boa medida e as travessuras e desventuras de Zezé tocarão o público, mesmo que seja o adulto. Destarte, essa circunstância provavelmente levará a produção a se tornar um fracasso de bilheteria, uma vez que muitos adultos poderão deixar de pagar o ingresso por imaginar se tratar de um filme para crianças. Uma pena que o resgate de um livro tão bem quisto na cultura nacional esteja fadado a passar em brancas nuvens nas salas de exibição.


Cotação:



Nota: 8,0

terça-feira, 16 de abril de 2013

Oblivion

A continuação de “Guerra dos Mundos”


Na atual crise de criatividade do cinema norte-americano, é um alívio assistir a um filme pipoca que não seja sequência ou remake de outro. Tudo bem, “Oblivion” é baseado em uma HQ, mas não é uma daquelas publicadas pela Marvel Comics, com seus super-heróis que, em boa medida, já estão cansando na tela (ou alguém está realmente empolgado com a breve estreia de “Homem de Ferro 3”?). A graphic novell adaptada é de autoria do próprio diretor do longa, Joseph Kosinski (que escreveu a HQ ao lado de Arvid Nelson) e, talvez por essa circunstância, a trama é salpicada de referências cinematográficas a outros longas de ficção científica, algo que, como demonstra a carreira do genial Quentin Tarantino, pode trazer ótimos resultados.

Vamos admitir: Kosinski não atinge o nível de excelência tarantinesco na sua mistura de referências, mas é prazeroso assistir a um filme que relembre aquele que telavez seja o melhor curta-metragem de todos os tempos, “La Jetée”, dirigido por Chris Marker em 1962. A sequência inicial de “Oblivion” remete a esse último e a lembrança de “La Jetée” me atingiu de tal forma que me distraiu um pouco das cenas subsequentes. Mas nada que viesse a comprometer o entendimento da trama, na realidade mais uma ficção pós-apocalíptica, só que desta vez os responsáveis pela destruição do planeta Terra foram os alienígenas. Afinal, vale lembrar que o mercado estadunidense pós-crise econômica está em baixa e Hollywood depende cada vez mais do mercado internacional para fechar suas contas. Portanto, não pega bem inventar guerras nucleares com altranos e sicranos (leia-se, russos, árabes e afins) que levariam a uma hecatombe. Nesse quadro, melhor atribuir o “fim do mundo” a perigosos micro-organismos (como no caso de “Eu Sou a Lenda”, de Francis Lawrence) ou a extraterrestres, muito embora, neste último caso, os alienígenas não deixem de representar a eterna xenofobia ianque.


Na trama, narrada em primeira pessoa e protagonizada por Tom Cruise (que está cada vez mais assumindo um perfil de astro de filmes de ação), Jack Harper é um dos poucos humanos sobreviventes após a guerra dos mundos que tornou boa parte da Terra inabitável, o que me leva a imaginar que “Oblivion” poderia ser uma continuação do “Guerra dos Mundos” de Steven Spielberg (até o ator é o mesmo). Enquanto a maior parte da humanidade não vive mais no planeta, residindo no espaço e na lua de Saturno chamada Titan, Harper e sua companheira Victoria (Andrea Riseborough) permanecem na Terra exercendo uma função de vigilância, evitando que os “saqueadores” - aliens ainda resistentes em solo terrestre - destruam os drones (robôs patrulheiros). Além disso, passa as horas vagas resgatando as “relíquias” de um passado glorioso da humanidade, como discos, bonecos e livros (remetendo bastante a “Wall-E”, famosa animação da Pixar vencedora do Oscar). As coisas começam a mudar quando a humana Julia (Olga Kurylenko) é encontrada por Harper em uma cápsula criogênica após a queda de uma nave na região que controla. Ela lhe desperta vagas memórias, de um passado que não sabe exatamente se viveu, e acabará por lhe trazer revelações e descobertas acerca de sua própria existência.

Eu não assisti a “Tron – O Legado” (Tron – Legacy, 2010), trabalho anterior de Kosinski, mas, a partir da experiência com “Oblivion”, percebe-se que ele sabe manter o ritmo da ação sem que haja pressa no desenrolar dos fatos e apresentação dos personagens. Fazer um filme de ação não significa que seu enredo tenha de ser mal contado e Kosinski demonstra entender muito bem tal aspecto, mesmo que sua mise-en-scène seja tradicional, não apresentando nem mesmo ângulos diferenciados. A trama resta bem contada e isso se torna um elogio ainda maior diante de algumas “reviravoltas” que ela apresenta em sua segunda metade. Pena termos que colocar a palavra “reviravoltas” entre aspas, já que várias delas são até esperadas. Os problemas do longa são justamente esses artifícios do roteiro, previsíveis em vários aspectos. Ademais, as citadas referências vão se tornando cada vez mais óbvias, chegando a tornar incômodas. É o que sucede no seu desfecho, quando “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odissey, 1968) é referenciado de forma tão ostensiva que chega a se tornar constrangedor (não vou contar como para não escrever um “spoiler” gigante). Outro problema é que a mencionada narração em primeira pessoa se perde ao longo da projeção, sendo quase que esquecida no seu último terço.


Entre as atuações, as mulheres, mesmo em minoria, mostram-se mais interessantes e comprometidas do que a ala masculina do elenco. Tanto Andrea Riseborough, intérprete de Victoria, quanto Olga Kurylenko, que encarna Julia, apresentam boas atuações. Já o superastro Tom Cruise não faz nada de significativamente diferente dos seus últimos papeis. Talvez esteja aqui um pouco mais “sério” do que de costume, com menos aparições do seu tradicional sorriso “colgate”, mas, de toda forma, seria estranho se um personagem de um mundo devastado ficasse abrindo sorrisos por qualquer coisa. Outro nome do primeiro escalão, Morgan Freeman, atua em piloto automático, tornando-se um coadjuvante de luxo.

O longa conta, ainda, com uma bela direção de arte (algo natural vindo de cineasta que é arquiteto por formação), fator que contribui bastante para a imersão do público, além de uma trilha sonora pop repleta de clássicos do Rock (de Led Zepellin a Procol Harum) Entretanto, não espere de “Oblivion” mais do que ele pode dar. Trata-se tão somente de uma boa diversão. Com neurônios, é importante frisar, mas nada mais do que isso. Para usar a comparação com o referido filme de Stanley Kubrick, “Oblivion” não irá gerar décadas de debates, estudos e discussões a respeito de suas verdadeiras pretensões e interpretações. A não ser no que se refere ao título. Terminada a projeção, eu não entendi por que a película leva esse nome. Será que minha surpresa com as referências a “La Jetée” me distraíram o suficiente para passar batido nesse detalhe?


Cotação:



Nota: 8,0

Em tempo: consultando o tradutor do Google acabei descobrindo que "oblivion" é um termo em inglês que significa "esquecimento" (não conhecia a palavra), o que possui, sim, relação com a trama. Ok. Então o erro foi da distribuidora no Brasil que decidiu permanecer com o título original, o que pode deixar nosso público voando.

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Aviso: O "Cinema Com Pimenta" estará em recesso por cerca de 10 dias, pois este blogueiro curtirá um merecido descanso em uma das praias do litoral aqui do Rio Grande do Norte. Um abraço a todos e até a volta!

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

À Espera de Um Milagre
(The Green Mile, 1999)


Filme para deixar saudades


Frank Darabont, diretor e roteirista francês radicado há anos nos EUA, é um cineasta que parece ter um enorme talento para adaptar os livros de Stephen King para a tela grande. Em sua estreia na direção com “Um Sonho de Liberdade” (The Shawshank Rendemption, 1994), ele já demonstrava grande competência para contar histórias, aliando sofisticação na direção com uma certa habilidade para tocar o público médio dos cinemas sem parecer piegas, algo especialmente surpreendente vindo de alguém que estava debutando por trás das câmeras. E são essas mesmas aptidões que ele coloca em relevo com “À Espera de Um Milagre”, o seu segundo longa-metragem e segunda adaptação de uma obra de King (lançada em 1996 e originalmente dividida em 6 partes) , um autor muito adaptado, mas nem sempre com a mesma eficiência. Em mãos inábeis, uma trama como a de “The Green Mile” poderia resultar em uma autêntica bomba. Sua originalidade é latente e até mesmo por isso fica difícil encontrar o tom correto para ser abordada. Felizmente, mesmo com alguns percalços, Darabont atingiu o equilíbrio, tendo realizado um filme memorável em vários aspectos.

Convém lembrar, conforme escrevi tempos atrás em resenha sobre “O Nevoeiro” (The Mist, 2008) - outra transposição de Darabont para uma obra de King – que este cineasta aparenta certa predileção por ambientes claustrofóbicos. Tal como no mencionado “Um Sonho de Liberdade”, a narrativa de “À Espera de Um Milagre” se desenvolve quase inteiramente dentro um presídio, sendo aqui mais precisamente no corredor da morte a que os carcereiros atribuem o apelido de “milha verde”, devido ao chão de cerâmicas esverdeadas (daí o título original do longa). É lá que trabalhou Paul Edgecombe (Tom Hanks, no auge da forma), um ex-agente penitenciário que narra em flashback os acontecimentos estranhos e mágicos que sucederam na “milha” no já longínquo ano de 1935. Sua função, ao lado de outros carcereiros, era não apenas a de vigiar os detentos, mas também a de lhes conferir um tratamento diferenciado, mais humano do que o normalmente adotado para os outros presos. Afinal, os reclusos da “milha” estão com os dias contados e é necessário manter a dignidade e sanidade daqueles que irão pagar a mais alta dívida com a sociedade. Nesse contexto, chega mais um condenado, um homem gigantesco chamado John Coffey (Michael Clarke Duncan). Aparentemente assustador, até pelo crime pelo qual foi condenado (o estupro e assassinato de duas meninas), Coffey aos poucos vai se mostrando uma pessoa dócil, de coração puro, solidária e que possui um estranho e mágico poder que espanta a todos que o cercam.



É possível enxergar “The Green Mile” com um libelo contra a pena de morte, esse anacronismo estúpido ainda existente em alguns países. Nos Estados Unidos, mesmo que vários estados já a tenham abolido, a pena capital ainda perdura em alguns mais atrasados. A humanização dos personagens detentos realizada por Darabont se presta exatamente a nos fazer refletir sobre essa atrocidade sempre incensada quando um crime mais bárbaro choca a sociedade. No decorrer da trama, vamos conhecendo cada um dos tipos que estão no corredor da morte e é impossível ficar indiferente ao terror psicológico a que são submetidos os condenados no momento da execução. Neste ponto em particular, o diretor se vale de sequências sem concessões, onde a morte dos executados é mostrada em toda a sua crueza e desumanidade. Observe-se, ademais, que o roteiro se furta a mostrar quais os crimes cometidos por alguns dos presos, fazendo-nos enxergá-los tão somente como seres humanos, evitando que o espectador, assim, ofereça julgamentos. É verdade que, diante de tal manobra de Darabont, seu filme possa ser apontado como manipulador. Entretanto, quando se trata de defender um ponto de vista é natural apresentar os argumentos que lhe dão respaldo, em detrimento dos desfavoráveis, e não existe qualquer problema em um artista abraçar uma causa, ainda mais quando se consegue apresenta-la de maneira tão interessante e inteligente quanto aqui.

O grande trunfo de Darabont é desenvolver sua história sem qualquer pressa, apresentando cada um dos personagens com cuidado. As nuances de cada um deles são tão bem delineadas que às vezes parece que estamos a ler uma obra literária e não assistindo a um filme. E assim, vamos conhecendo o perfil não apenas do protagonista Edgecombe, como também dos outros guardas, dentre os quais se destacam Brutal (David Morse, ótimo), o emotivo Dean Stanton (Berry Pepper, de “O Resgate do Soldado Ryan”) e o mau caráter Percy (Doug Hutchison), além de outros prisioneiros como Eduard “Del” Delacroix (Michael Jeter) e o nefasto “Wild Bill” (Sam Rockwell). Até mesmo um ratinho de habilidades especiais, apelidado de “Mr. Jingles”, ganha destaque e tem participação importante no decorrer da trama. Vale dizer que Daranbont soube extrair o melhor de cada ator e não há um deles que esteja caricato ou apático em suas performances. Por outro lado, falhou ao atribuir características unidimensionais aos “vilões” Percy e Wild Bill, tornando-os tão somente “homens maus” e incorrendo em um maniqueísmo indesejável. Os personagens, contudo, não deixam de ser extremamente marcantes e John Coffey, o imenso presidiário de bom coração de Michael Clarke Duncan, com certeza é um dos tipos mais marcantes da história do cinema. Não por acaso rendeu ao ator uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante e fez com que ele se tornasse, por esse único e marcante papel, um nome lembrado com carinho pelo grande público (tanto que sua morte, com apenas 54 anos, foi noticiada com destaque em todas as mídias). Ademais, Tom Hanks estava ainda em grande fase, entregando mais uma de suas memoráveis atuações.


Com uma edição precisa, a qual faz com que as longas três horas e oito minutos de projeção não sejam percebidas, “À Espera de Um Milagre” é um daqueles filmes que nos deixam saudades quando terminam. A imaginativa trama criada por Stephen King pode ser vista, inclusive, como uma alegoria sobre a vida de Cristo, [SPOILER] dado que John possui os mesmos poderes milagrosos de Jesus e também é condenado e executado injustamente (poderíamos até imaginar que Edgecombe faria o papel de Pilatos na trama) [FIM DE SPOILER]. Destarte, para além de possíveis interpretações e significados ocultos, são seus personagens fortes e cativantes que ficarão na memória do espectador por muito tempo. A série “Filmes Para Ver Antes de Morrer” normalmente é dedicada a películas que atingem um nível de excelência à prova de falhas, o que, como já apontado mais acima, não é bem o caso presente, tendo em vista a presença de certo maniqueísmo e manipulações em favor de um ponto de vista. Entretanto, a força de sua narrativa, a qual torna impossível a indiferença do público, coloca este longa como essencial e digno de figurar entre aqueles a que devemos assistir pelo menos uma vez na vida.


Cotação:



Nota: 9,5