sábado, 6 de abril de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

À Beira do Abismo
(The Big Sleep, 1946)


Divertidamente confuso


O Noir é o gênero cinematográfico que provavelmente mais desperta a curiosidade e atenção dos cinéfilos ao longo das décadas. Se é que podemos definir o “noir” como um gênero, é importante ressaltar. Talvez seria mais correto defini-lo como um estilo de criação cinematográfica, já que alguns filmes ditos “noir” pendem mais para o drama, outros para o policial, suspense e até comédia. De qualquer forma, a iconografia do cinema noir, com seus personagens fumantes, vestindo sobretudos ou vestidos provocantes, envoltos em tramas geralmente misteriosas, é algo que já faz parte do inconsciente coletivo mundial e, em boa medida, serve de atestado da força do cinema Hollywoodiano na cultura popular. Entretanto, dentro da fluidez do conceito de cinema noir – na verdade uma definição elaborada pela turma francesa da Nouvelle Vague – existem aqueles filmes que se aproximam mais ou menos de seus padrões característicos. “À Beira do Abismo!, longa-metragem dirigido pelo mestre Howard Hawks em 1946, com certeza está entre aqueles que mais realçam os traços roteirísticos e imagéticos desse estilo tão estudado, charmoso e idolatrado.

Baseado em um romance policial de Raymond Chandler, o filme tem fama de possuir um roteiro muito confuso, dado o excesso de nomes e reviravoltas que vão acontecendo no seu desenrolar. É verdade. Tanto que o próprio Raymond Chandler admitiu que seu livro era confuso e, ao terminarmos de assistir à adaptação cinematográfica - que teve o roteiro assinado por ninguém menos que William Faulkner (Nobel de literatura em 1949) - a sensação é de não termos entendido boa parte do que se passou. Entretanto, isso nem de longe significa afirmar que “À Beira do Abismo” é um filme ruim. Sua narrativa complicada, repleta de diálogos ágeis e personagens que vão entrando e saindo sem que se perceba sua real importância, não deixa de ser muito divertida, espirituosa e inteligente. Aliás, em geral são assim os filmes dirigidos por Hawks, um daqueles cineastas que, mesmo dentro do chamado “studio System”, quando os diretores não tinham muito controle sobre a obra, conseguia imprimir aspectos autorais em seus trabalhos.


Aqui, ele repetiu a dose com o casal central, interpretados por Humphrey Bogart e Lauren Bacall, os mesmos de “Uma Aventura na Martinica” (To Have and Have Not, 1944), realizado dois anos antes. A dupla tinha efeito enorme sucesso junto ao público, dada a ótima química em cena. Na verdade, a química entre os dois era tão boa que eles já estavam vivendo um romance também fora das telas e se casariam apenas seis meses depois da filmagens de “The Big Sleep”. Com o respaldo da boa bilheteria, Hawks então se sentiu à vontade para deixar fluir os diálogos espirituosos e insinuantes entre a dupla, além de preencher os vários coadjuvantes com tipos característicos de sua filmografia. As mulheres, por exemplo, são as costumeiras “atiradas”, comuns nos longas de Hawks. Philip Marlowe, o detetive interpretado por Bogart, é alvo de “cantadas” mais ou menos diretas de praticamente todas as mulheres que surgem ao longo da narrativa, até mesmo de uma motorista de táxi e da proprietária de uma livraria (esta última sendo uma ótima presença de Dorothy Malone). Essas fêmeas pró-ativas de sua obra, que atingiriam o ponto máximo com Marilyn Monroe em “Os Homens Preferem as Loiras” (Gentlemen Prefer Blondes, 1953), possivelmente representam as fantasias do cineasta, denotando que este era o seu perfil preferido de mulheres.

Mas não é só no campo das metáforas que está presente a mão do diretor. O longa é imageticamente impecável e, como já frisado mais acima, apresenta todos os elementos estéticos típicos do cinema noir. Desde os créditos iniciais os cigarros estão presentes, destoando completamente do perfil antitabagista da Hollywood contemporânea. O detetive Marlowe passa quase toda a projeção vestindo sobretudo; a trama se passa praticamente inteira durante o período noturno e a fotografia em preto e branco de forte contraste complementa o tom soturno da projeção, a qual, no fundo, gira em torno de uma menina mimada, Carmen Sterwood (Martha Vickers), a dor de cabeça do pai, o General Sternwood (Charles Waldron). É o general que contrata Marlowe, um detetive acostumado a enfrentar o submundo, para investigar Arthur Geiger, credor de enorme quantia em dívidas de jogo assumidas por Carmen. Na mesma oportunidade, ele é abordado por Vivian Rutledge (Bacall), irmã mais velha de Carmen, a qual acredita que a origem dos problemas está no desaparecimento de um empregado e amigo do pai, um tal de Shawn Regan. A partir de então, sucedem-se assassinatos, charadas e romances que se misturam, deixando o espectador ligado em um enredo divertidamente confuso.


Como frisado mais acima, Bogart e Bacall sustentam um ótimo jogo amoroso ao longo da projeção. Ele com seu estilo cínico, sempre dono da situação, e ela com seu olhar e maneiras imponentes, os quais a faziam parecer mais bonita do que realmente era. Todavia, cabe apontar que o elenco coadjuvante é bastante eficiente. Alguns afirmam, inclusive, que boa parte das cenas de Martha Vickers teriam ficado de fora da edição final devido à competência de sua interpretação para Carmen Sternwood, ofuscando o brilho da estrela Lauren Bacall. Não vi a versão do diretor presente na edição brasileira lançada pela Versátil e, sendo assim, não pude aferir a veracidade de tal afirmação. De qualquer forma, na versão original exibida nos cinemas, Martha Vickers realmente rouba as cenas das quais participa, mesmo que não sejam muitas, atribuindo uma condição perturbada à personagem de Carmen. Outro ponto relevante é a trilha sonora de Max Steiner (o mesmo compositor das trilhas de nada mais, nada menos que “Casablanca” e “...E o Vento Levou"), conferindo um boa dose de suspense nos momentos-chave da trama.

É possível que você, leitor, ao assistir “À Beira do Abismo”, fique com sensação de não ter entendido muita coisa. Por outro lado, também é provável que deseje repetir a experiência para tentar montar esse quebra-cabeças. É assim que o longa de Hawks deve ser encarado: um quebra-cabeças que lhe trará 114 minutos de diversão, auxiliado pela presença luxuosa de dois grandes astros do cinema norte-americano, complementada pela direção sofisticada e inteligente desse grande cineasta. Além, claro, de se ter uma bela aula sobre o que foi o cinema noir, com seus mistérios, mulheres fatais e detetives durões.


Cotação:



 Nota: 9,0

domingo, 31 de março de 2013

Quero Ver Novamente #22



Em outra oportunidade, o Cinema Com Pimenta publicou uma lista de sete filmes religiosos essenciais. No topo estava "Rei dos Reis" (King Of Kings, 1961), longa-metragem dirigido por Nicholas Ray - um dos cineastas mais importantes de Hollywood - que narra, mais uma vez, a "maior história de todos os tempos" (para citar o título de uma outra produção sobre Cristo, esta de George Stevens). O diferencial de "Rei dos Reis", em relação a outras adaptações da vida de Jesus, é justamente a direção primorosa de Ray, responsável por uma impecável fotografia em cinemascope, além de ângulos diferenciados e uma bela condução do elenco sem grandes estrelas. Quando criança, eu vi e revi "Rei dos Reis" várias vezes durante a Semana Santa e nunca esqueci de sua belíssima passagem do famoso Sermão da Montanha. De fato, esta é, provavelmente, a melhor "pasagem-de-sermão-da-montanha" já filmada, impecável em sua fotografia e encenação. Abaixo, segue o vídeo com dita sequência em que Jesus (interpretado por Jeffrey Hunter), além de discursar, ensina seus seguidores a rezar, sendo a origem da oração do "Pai Nosso".

Aproveito para desejar uma Feliz Páscoa aos leitores. Que Deus ilumine a todos. Grande abraço!



quarta-feira, 27 de março de 2013

Para Ver Em Um Dia de Chuva

9 ½ Semanas de Amor
(9 ½ Weeks, 1986)


Quero ser Bernardo Bertolucci


Sempre imaginei que o grande sonho do diretor britânico Adrian Lyne era o de ter dirigido “Último Tango em Paris” (Ultimo Tango a Parigi, 1972), a obra-prima de textura erótica realizada em 1972 por Bernardo Bertolucci. Um filme que marcou época e exerceu extrema influência sobre os cineastas posteriores que se prestaram a tratar de sexo em suas películas. “9 ½ Semanas de Amor” (9 ½ Weeks), um dos mais lembrados longas da década de 80, é a tentativa de Lyne de realizar o seu “último tango”, chegando a beirar o plágio. Entretanto, muito embora não seja um filme ruim, tampouco corre o risco de igualar a película de Bertolluci em importância e expressão artística.

Ambos os filmes têm premissas bastante similares: mulher conhece homem misterioso e os dois passam a se encontrar para realizar jogos sexuais. Ela, aos poucos, deseja algo mais do que isso, vislumbrando uma relação afetiva, enquanto ele quer que as coisas permaneçam do mesmo jeito, ou seja, uma brincadeira erótica que lhe sirva de escapismo. Aqui, sai de cena a jovem inexperiente vivida por Maria Schneider no filme de Bertolucci e entra Elizabeth, papel de Kim Basinger no auge de sua beleza. A personagem feminina é caracterizada de maneira mais adequada aos anos 80. Elizabeth é uma curadora de museus divorciada, independente e experiente que se envolve, por meio de um recurso de roteiro uma tanto vagabundo (eles se encontram por acaso duas vezes no meio de uma metrópole como Nova York), com o yuppie John (Mickey Rourke no tempo em que era galã), um investidor da bolsa sobre o qual não sabemos o passado – e nem Elizabeth sabe. E, mais do que qualquer outra fragilidade narrativa da película, é o personagem masculino que se mostra o seu maior ponto fraco.



Se “Último Tango em Paris” tem um dos tipos masculinos mais complexos, tridimensionais e marcantes da história do cinema, encarnado por Marlon Brando de forma visceral e impactante, o John de Rourke mais parece um boneco risonho que não tem nada a dizer. Em 90% das cenas ele está com um sorriso maroto estampado no rosto, em um recurso interpretativo paupérrimo. Fica difícil até acreditar que é o mesmo de outras ótimas atuações, como em “Coração Satânico” (Angel Heart, 1987, de Alan Parker) e no recente “O Lutador” (The Wrestler, 2008, de Darren Aronofsky) e, no caso deste último, a diferença não é só com relação à sua aparência física. No auge da beleza e charme durante os anos 80, antes de deformar seu rosto lutando boxe e de afundar nas drogas, Rourke se esqueceu que precisava atuar e passa o filme inteiro batendo na mesma tecla. Entretanto, vamos convir, a culpa não é só dele. As características do personagem são jogadas na tela de forma aleatória e inconsequente. Em dado momento, a protagonista bisbilhota o guarda-roupas de John e descobre que ele é muito metódico, com várias camisas milimetricamente organizadas. Além disso, parece ter algum tipo de TOC, já que todas as camisas são brancas e os ternos são todos escuros. Contudo, momentos como esse são apenas lampejos de construção do personagem, uma vez que não servem para nada. Ok, John é uma cara metódico, mas... E daí? Isso não explica em nada suas obsessões e o desejo premente de ver Elizabeth transformada em uma espécie de escrava sexual.

Por outro lado, Kim Basinger tem aqui uma de suas melhores interpretações. Além da beleza e sensualidade que confere a Elizabeth, ela assume a personagem com alma, sabendo atribuir-lhe as doses certas de dúvida e insegurança. Basinger convence perfeitamente como uma mulher incerta com relação aos seus próprios sentimentos e desejos. Ela, em verdade, foi uma atriz subestimada e estigmatizada devido à sua beleza, o que acabou lhe rendendo papéis repetitivos ao longo da carreira (algo semelhante aconteceria com Sharon Stone depois de “Instinto Selvagem”). A estrela quase leva “9 ½ Semanas de Amor” nas costas, tamanha a disparidade entre sua performance e a de Mickey Rourke.


Usei o termo “quase” porque Adrian Lyne sabe trabalhar no campo imagético e foi justamente este aspecto que transformou a película em uma espécie de clássico oitentista, com seu erotismo que não se tonou démodé, mas ao mesmo tempo se distancia do pornô *. Plasticamente, o trabalho se mostra muito acima da média e, não por acaso, várias de suas cenas de alta voltagem erótica passaram a fazer parte do imaginário popular, como a conhecida sequência que une sexo e degustação de quitutes, além do famoso strip-tease de Elizabeth, considerado por muitos como o melhor da história do cinema. De fato, trata-se de uma sequência poderosamente filmada, aliando perfeitamente imagem e música, no caso a canção “You Can Leave You Hat On”, de Joe Cocker. Aliás, a trilha sonora pop é outro dos pontos fortes do longa, permeada por músicas até hoje tocada nas rádios, como “Slave To Love”, cantada por Bryan Ferry.

No entanto, é possível que o maior problema de “9 ½ Weeks” seja sua pretensão de se transformar em uma espécie de marco pós-moderno do gênero romance. Há nele uma aparente ambição de se tornar um tratado sobre as novas formas de relacionamento pós revolução sexual. Mas, é bom que se diga, não consegue alcançar tal intuito. Adrian Lyne gostaria de ser Bernardo Bertolucci, mas só conseguiu ser Adrian Lyne, um diretor oscilante capaz de cometer bons filmes como “Atração Fatal” (Fatal Attraction, 1987) ou bobagens como “Proposta Indecente” (Indecent Proposal, 1993). Os altos e baixos de “9 ½ Semanas de Amor”, portanto, acabam por sintetizar, em 117 minutos, toda a carreira do cineasta.


Cotação:



Nota: 7,5

* Essa linha tênue é exemplificada hoje pela série literária “50 Tons de Cinza”, a qual, como se vê, não tem suas origens em “9 ½ Semanas de Amor”, como muitos imaginam, mas na obra setentista de Bernardo Bertolucci.

quarta-feira, 20 de março de 2013

A Busca

Estrada com buracos


Há poucos dias, o amigo Celo Silva, do excelente blog “Espectador Voraz”, havia alertado em sua critica que o filme “A Busca” não era lá grande coisa. A opinião dele havia diminuído bastante minhas expectativas com relação a este longa-metragem estrelado por Wagner Moura, provavelmente o grande ator brasileiro em atividade, além de carregar, na produção, o nome de Fernando Meirelles, cineasta que sempre desperta atenção no meio cinéfilo em qualquer projeto que se envolva. Contudo, lendo outras resenhas, observei que as percepções sobre o filme eram conflitantes, o que me levou a conferi-lo na sala escura para tirar as minhas próprias conclusões, as quais passo a expor a seguir.

O “road movie” parece ser um subgênero cinematográfico caro aos cineastas nacionais. Walter Salles meio que já virou um especialista na estrutura clássica de tais películas, as quais geralmente focam em personagens que empreendem uma viagem que se transforma em um processo de autoconhecimento. Com resultados melhores (como “Central do Brasil” e “Diários de Motocicleta”) ou piores (o recente e tedioso “Na Estrada”), essa já se tonou uma de suas marcas registradas. Agora, vemos o estreante na direção Luciano Moura iniciar sua filmografia também com um filme de estrada, o qual, infelizmente, está longe de fugir do lugar-comum do subgênero. O próprio título, se olhado com cuidado, já deixa entrever que a tal “busca” irá redundar em uma procura por si mesmo, uma jornada de autodescoberta que levará o protagonista a enxergar sua vida por outro prisma. E é justamente esta série de lugares comuns, meio que inseridos a fórceps durante a narrativa, o que mais incomoda nessa produção que tinha tudo para dar certo, mas resultou em uma experiência no máximo mediana.


A trama narra a história de um casal recém-separado, Theo e Branca (Wagner Moura e Mariana Lima), cujo filho adolescente, Pedro (o estreante Brás Antunes, filho do músico Arnaldo Antunes) foge de casa depois de uma discussão barra pesada com o pai. Desesperado para encontrar o garoto, Theo empreende então uma viagem para Salvador ou Espírito Santo (os dois prováveis destinos do filho) que o levará a questionar sua própria história familiar e a maneira como está conduzindo sua vida. Como é de se esperar em um road movie, no caminho encontrará os mais diversos tipos e é justamente neste ponto que Luciano Moura começa a cometer erros relevantes. Vários dos personagens apresentados soam inverossímeis em um roteiro que cria situações à base de artificialismos. Chega-se a imaginar uma comunidade onde (pasmem!) só há apenas um telefone celular. E não, não é alguma comunidade indígena no meio da floresta amazônica. Na mesma linha, o encontro com o morador de uma casa flutuante, que ajudará Theo a atravessar um rio com seu carro, soa muito non sense para um filme que tem como foco um pesado drama familiar.

Outro problema que se apresenta é algo comum ao subgênero dos filmes de estrada, normalmente centrados em apenas um personagem ao redor do qual orbitam os variados tipos que surgem no decorrer da trajetória. É bom que se diga que tais narrativas de viajantes remontam à Idade Antiga, com a “Odisseia” de Homero. Em uma análise abrangente, os protagonistas de películas estradeiras seriam simulacros de Ulisses e, para que uma obra cinematográfica com tal premissa tenha êxito, essencial se faz que seu intérprete principal dê conta do recado. No caso, é óbvio que Wagner Moura tem perfeitas condições para assumir a tarefa. Ele é hoje, possivelmente, o único ator brasileiro capaz de arrastar público para as salas de cinema. Entretanto, infelizmente, Wagner não tem aqui um grande momento interpretativo. Há passagens em que ele perde a mão com o personagem, atribuindo-lhe reações que destoam de um pai à procura de um filho desaparecido. Quando nos lembramos do astro em filmes como “Tropa de Elite” ou mesmo “O Homem do Futuro” é que sua presença em “A Busca” se torna ainda mais pálida.


Contudo, justamente pelo fato de abordar um drama familiar, a trama ainda consegue manter o interesse do espectador. Mesmo que em alguns momentos ela se mostre previsível, há muita verdade na tela e Theo é mesmo um personagem de muita tridimensionalidade. Acredito que muitas pessoas irão se identificar com o protagonista em diferentes medidas e imagino que seja exatamente por tal identificação que o longa esteja despertando diferentes opiniões tanto entre a crítica quanto no público. Ademais, se há uma virtude no roteiro é a de não ser apressado, tornando a iminência do encontro final algo a ser desejado pela plateia.

Apesar de algumas virtudes, “A Busca” se mostra tão oscilante que se torna difícil atribuir-lhe o adjetivo de “recomendável”. Para usar uma metáfora sem vergonha, parece uma estrada com vários buracos que tornam o tráfego complicado. Sua apreciação está excessivamente ligada às experiências individuais de cada um. Claro que toda apreciação artística está e sempre estará vinculada às nossas distintas vivências, mas uma obra se torna problemática quando depende unicamente das experiências do espectador para se tornar relevante ou se fazer entender. Percebe-se que Luciano Moura tem potencial e que pode vir a ser um bom cineasta, algo que ainda não é. Por enquanto, só posso recomendar mesmo que, caso você também queira tirar a prova dos nove e vá pegar uma sessão na sala mais próxima, não deixe de conferir os ótimos créditos finais sublinhados por uma bela canção de Arnaldo Antunes.


Cotação:



Nota: 6,5

sexta-feira, 15 de março de 2013

Restaurando a Película

Coração Prisioneiro
(Caught, 1949)


Conto de fadas às avessas


Segundo a primeira dama da crítica cinematográfica mundial, Pauline Kael, em seu livro “1001 Noites no Cinema”, o cineasta alemão Max Olphüs teria realizado “Coração Prisioneiro” (Caught, 1949) como uma espécie de vingança contra o magnata Howard Hughes, o qual havia comprado uma significativa porcentagem das ações dos estúdios RKO e se tornado seu principal executivo. Hughes teria feito Olphüs perder tempo em produções inacabadas, além de xingar o diretor de “paspalho”. Verdade ou não (mas não acredito que Kael teria inventado tal história), essa “fofoca” ajuda muito a entender a película, a penúltima obra de Olphüs em sua fase hollywoodiana (a última foi “Na Teia do Destino”, também de 1949).

“Coração Prisioneiro” é, antes de tudo, uma crítica forte e direta a uma sociedade pautada em aparências, superficialidades e dinheiro. Trata-se de uma espécie de conto fadas às avessas, onde uma cinderela encontra um tipo de príncipe que logo vira sapo. No roteiro, escrito por Arthur Laurents baseado em um romance de Libbie Block, a tal gata borralheira é Leonora Eames (papel de Barbara Bel Geddes), modelo que sonha em casar com um homem rico que a tire da vidinha sem luxos que leva. Depois de passar por aulas de etiqueta para se desenvolver na sua profissão, ela é vista e convidada para uma festa por um tal de Franzi (Curt Bois), espécie de “secretário geral” do milionário Smith Ohlrig (personagem de Robert Ryan). A festa vai acontecer em um iate, mas, quando ela está no cais, o próprio Ohlrig desce em pessoa e lhe dá carona para outro destino. Ou melhor, quer levá-la para sua mansão para fazer aquilo que você deve estar imaginando, mas ela recusa a proposta, o que acaba por deixá-lo perturbado (para um homem como ele, ouvir um “não” devia ser algo bem raro). Então, meio que por capricho, até para desafiar seu psicanalista, ele casa com Leonora e é partir daí que esta, aos poucos, vai percebendo a personalidade tirânica do agora marido. Depois de muito maltratada, Leonora vai procurar emprego e encontra vaga de recepcionista na clínica do médico pediatra Larry Quinada (James Mason), homem íntegro que reúne várias qualidades que Ohlrig não possui. Entretanto, ela se descobre grávida do ricaço e tem medo de perder a guarda da criança caso resolva deixar o marido para viver seu amor com o médico.



Saber que o personagem de Smith Ohlrig foi inspirado em Howard Hughes nos leva a entender o porquê de alguns aspectos de sua caracterização. Na tela, vemos um magnata que, além de autoritário e infantilizado (ele passa boa parte do tempo jogando pinball em sua residência), é hipocondríaco ao extremo, chegando a ter “crises cardíacas” quando contrariado. Quem ao menos já assistiu a “O Aviador” (The Aviator, 2004), a cinebiografia de Hughes dirigida por Martin Scorsese, sabe que o magnata era, de fato, um hipocondríaco de marca maior, algo que posteriormente o levaria a desenvolver um sério transtorno que o deixaria em total isolamento. Contudo, Olphüs, um diretor que pouco errou em sua brilhante carreira, comete aqui equívocos maniqueístas ao colocar os dois homens do triângulo amoroso como vértices opostos. Se Ohlrig é posto como um tipo de encarnação do mau caratismo, o Larry Quinada de James Mason é visto como a versão terrena do altruísmo, da dedicação e do cavalheirismo. Sem ser especialmente bonito ou rico, ele é o sapo que vira príncipe ao olhos da desventurada Leonora. Esta última, por sua vez, revela-se como a personagem mais rica e ambivalente da trama, com nuances de comportamento que a distanciam do padrão “moça recatada”. Por vezes, lembra uma garota de programa de luxo. Afinal, quem aceitaria um convite para ir sozinha à festa de um milionário solteirão que não conhece? E ainda mais dentro de um iate?

Por outro lado, se Olphüs pecou na construção dos personagens masculinos, ele mais uma vez deu uma aula de estética cinematográfica com sua bela fotografia em preto e branco e enquadramentos geniais que iriam influenciar profundamente os cineastas posteriores. De família judia, Max Olphüs foi um daqueles diretores que, fugindo do nazismo, ajudariam a definir o que hoje se conhece por “cinema noir”. Aqui, mais especificamente, ele nos entregou uma película que poderíamos classificar como parte do “gótico feminino”, estilo que explorava melodramas onde heroínas se envolviam em tramas misteriosas ou perturbadas (semelhante ao Fritz Lang de “O Segredo da Porta Fechada”). Econômico em suas narrativas (o filme possui apenas 88 minutos), o cineasta também era dotado de uma precisa percepção de ritmo. Seus filmes jamais eram monótonos ou cansativos e “Coração Prisioneiro” mostra-se sempre interessante para o espectador.



O filme também se destaca por ser um dos poucos em que Barbara Bel Geddes, uma atriz de talento e de beleza discreta, atuou como protagonista. Uma injustiça, diga-se de passagem. Em “Caught” ela realiza uma ótima composição de personagem e é uma pena que nunca tenha se tornado realmente uma estrela. Hoje ela é certamente mais lembrada como a amiga de Scottie Ferguson em “Um Corpo Que Cai” (Vertigo, 1958), uma das obras-primas de Alfred Hitchcock, na ocasião ficando à sombra da estrela Kim Novak. Em 1949, ano de produção do longa, o maior astro era James Mason, mas aqui ele meio que faz um samba de uma nota só, mesmo porque o seu personagem é bastante unidimensional. O mesmo se pode de dizer de Robert Ryan, um ator canastrão que, nessa ocasião, não fez muito diferente do que sempre fez.

“Coração Prisioneiro” não está entre as obras-primas de Max Olphüs, como é o caso do anterior “Carta de Uma Desconhecida” (Letter From An Unknown Woman, 1948). Entretanto, possui relevância não só pela curiosidade de atacar uma personalidade famosa como Howard Hughes, mas por desenvolver uma crítica social pertinente e ainda atual. Um longa que, mesmo após décadas, não se tornou datado. Acima, afirmei que ele pode ser visto como um conto de fadas às avessas. Pois bem, tal como os contos de fadas trazem temas atemporais, Olphüs deixou aqui também um recado que, infelizmente, não envelheceu ao longo dos anos.


Cotação:



Nota: 8,0

terça-feira, 5 de março de 2013

Curtindo o Curta #6


"The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore" foi a animação vencedora do Oscar de melhor curta-metragem em animação de 2012. Realizado usando diversas técnicas, como miniaturas, computação gráfica e o desenho tradicional, o curta se constitui em uma espécie de declaração de amor aos livros e à literatura, com seu grande potencial de nos fazer viajar sem sair do lugar. Os diretores Brandon Oldenburg e William Joyce (este também autor do roteiro) tiveram como inpirações declaradas para a concepção do curta o ator Buster Keaton, o furacão Katrina, o clássico "O Mágico de Oz" e, claro, o amor pelos livros. Interessante como a essa categoria do Oscar é menosprezada por muitos, mas, com frequência, ela nos revela ótimas experiências e talentos. Os 15 minutos do video abaixo não serão perdidos, caso você decida vê-los. Bom curta!



sábado, 2 de março de 2013

Indomável Sonhadora

Uma flor no pântano


Uma das boas iniciativas da Academia de Hollywood tem sido a de pinçar filmes independentes para lhes conferir indicações importantes na festa anual do Oscar, dando assim uma maior visibilidade a produções, cineastas e atores que poderiam ficar restritos circuitos cinéfilos caso não tivessem seus nomes indicados àquele que é considerado o prêmio máximo do cinema. Nos últimos anos, para citar exemplos, tivemos “Pequena Miss Sunshine” (Little Miss Sunshine, 2006), “Juno” (idem, 2007), “Inverno da Alma” (Winter's Bone, 2010) e até mesmo “Guerra Ao Terror” (The Hurt Locker, 2008), longa de orçamento limitado e fracasso de bilheteria que levou os prêmios de melhor filme e direção para Kathryn Bigelow, debancando a favorita superprodução “Avatar” (idem, 2009), de James Cameron. E eis que surge este “Indomável Sonhadora” como mais um exemplar de cinema alternativo conduzido aos holofotes devido às suas indicações ao Oscar 2013.

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance, o longa dirigido pelo estreante Benh Zeitlin (indicado ao Oscar de melhor diretor) põe em foco um recente desastre natural que abalou os Estados Unidos: a passagem do furacão Katrina pelo estado da Louisiana, evento que expôs não apenas uma série de problemas ambientais da região, como também chagas sociais que colocaram em evidência as divisões de classe e etnia norte-americanas. Na trama, o Katrina termina por atingir um comunidade que vive na “Banheira”, uma ilha fictícia e pantanosa onde a água, já ordinariamente, costuma subir às canelas e casas dos moradores. É lá que vive a pequena Hushpuppy (a incrível garotinha Quvenzhané Wallis, atriz mais jovem a ser indicada ao prêmio da Academia de Hollywood em todos os tempos), órfã de mãe e cujo pai, Wink (Dwight Henry), é um teimoso alcoólatra que está definhando com cirrose hepática e não desiste de viver na situação precária da ilha. Diante do grave estado de saúde do pai e dos caos instalado pelo furacão, Hushpuppy passará por uma jornada de formação e autoconhecimento, vencendo os obstáculos com auxílio de sua fértil imaginação infantil.



Talvez o conceito mais interessante de “Beasts Of The Southern Wild” seja justamente o de misturar o retrato de uma realidade dura, que é aquela vivida pelos habitantes da “Banheira”, com a abstração da imaginação infantil, que transforma animais de pinturas rupestres em símbolos de adversidades, remetendo-nos à infância sem se tornar uma obra infantilizada, muito pelo contrário. Para um diretor estreante, Zeitlin soube muito bem fugir de armadilhas melodramáticas (sempre fáceis quando se trata de temas relacionados à infância) e teve uma ótima sacada ao colocar Hushpuppy como narradora, contribuindo para pintar o quadro da realidade pelo prisma lúdico da garota. Realidade essa que, é importante frisar, o diretor conhece de perto, pois que ele costumava viajar para a Louisiana com a família na adolescência. Ante mesmo de filmar “Indomável Sonhadora” ele tocou no mesmo tema do desamparo da vítimas do Katrina em seu curta-metragem “Glory At Sea” (2008). Ou seja, este é um tema que lhe é caro e que por isso foi por ele desenvolvido com tanta propriedade. O roteiro, escrito pelo próprio diretor ao lado de Lucy Alibar, ainda toca na questão ambiental de maneira inteligente e sem resvalar na ecochatice, fazendo um “marketing ecológico” possivelmente mais eficaz do que várias das ações de entidades como o Greenpeace.

Outro ponto interessante se constitui na ética e costumes próprios da comunidade em questão, os quais possuem códigos muitos particulares, algo que geralmente sucede em grupos marginalizados. Fortes e solidários, as adversidades do meio não permitem espaço para afloramento das emoções, algo que se revela até mesmo nos funerais, onde o choro parece ser proibido e o ritual de despedida dos mortos se assemelha mais a uma comemoração do que a um velório. Neste sentido, também se observa uma espécie de menosprezo à feminilidade, vista pelos moradores e ensinada na escola local como fraqueza, fazendo-nos lembrar o quanto a hostilidade do ambiente recrudesce o machismo. Não por acaso, em uma situação de dificuldade em que o pai já se mostra sem forças, Hushpuppy declara que agora ela é “o homem da casa”. Em situações limite, há pouco espaço para o feminino e o dia a dia do moradores da Banheira parece ser sempre o de uma situação limite.

Entretanto, o filme não seria o mesmo sem a presença de Quvenzhané Wallis, uma menina escolhida dentre várias concorrentes locais (aliás, o elenco é formado inteiramente por habitantes locais) que mentiu a idade para poder ganhar o papel (ela disse ter 6 anos, idade mínima para a concorrência, quando na realidade tinha 5), mas que demonstra uma assombrosa naturalidade em cena. Ela praticamente domina a tela sozinha ao longo dos 93 minutos de projeção, justificando inteiramente sua precoce indicação ao prêmio da Academia. Espero que não tenha o mesmo destino de tantos atros infantis que, quando crescem, acabam sendo relegados ao ostracismo pelo show businnes.

Não se pode dizer que “Indomável Sonhadora” seja uma película arrebatadora. Mesmo diante de sua curta duração (93 minutos, como já mencionado), o filme possui alguns problemas de ritmo, alternando ótimas sequências com outras mais cansativas. Chega-se a ter a sensação de que ele é maior do que realmente é. Por outro lado, mostra-se um ótimo début tanto para seu diretor Behn Zeitlin como para sua pequena estrela. Uma lufada de energia em um cinema cada vez mais entorpecido pelas regras da indústria e que se faz importante não somente por tratar de temas políticos em pauta (exclusão social, ecologia), como também para mostrar que não é necessário se fazer uma obra “realista” para se tratar da realidade. O que se passa na imaginação de Hushpuppy é tão ou mais relevante do que aquilo que se passa no seu exterior. Muito de nós pode ser resultado de nosso meio, mas não é o meio que ditará a nossa essência. Hushpuppy vive em um pântano, mas nem por isso deixa de ser uma flor.


Cotação: 



 Nota: 8,5

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Oscar 2013: Impressões



Doze pílulas sobre  o Oscar desse ano:

1) A pior coisa que pode acontecer a um apresentador é querer se transformar na estrela da festa e foi exatamente isso que sucedeu com Seth MacFarlane. Foram 18 intermináveis minutos até ele parar com aquela apresentaçãozinha boba na abertura da transmissão. O Capitão Kirk tinha razão: pior apresentador de todo os tempos (depois de James Franco, claro);

2) O prêmio de ator coadjuvante para Christoph Waltz foi justo. Muito justo. Foi justíssimo! E olha que a concorrência era forte;

3) Meio capenga a homenagem à série 007. Como bem disse o Rubens Ewald Filho, poderiam ter convidado todos os intérpretes do personagem para aparecerem juntos no palco, uma vez que estão todos vivos. Baita falta de criatividade;

 
4) “Valente” levou porque adoram premiar a Pixar. Só isso justifica;

5) Se “As Aveturas de Pi” não ganhasse em efeitos visuais, Richard Parker iria devorar alguém da Academia;

6) A categoria de edição de som apresentou, ao menos para este que vos fala, algo inédito: um empate entre “A Hora Mais Escura” e “Skyfall”. Nunca tinha visto isso acontecer antes. Segundo informações colhidas na net, foi o sexto empate na história do prêmio;

7) As apresentações em homenagem aos musicais foram dos grande momentos da noite. O público aplaudiu de pé e eu também achei bacana. Foi interessante ver o elenco inteiro de “Os Miseráveis” no palco, até o desafinado Russell Crowe;

8) Fiquei até surpreso, mas também muito satisfeito, com a premiação de Ang Lee como melhor diretor. Pode até ter sido uma injustiça Ben Aflleck não ter sido indicado ao Oscar de melhor diretor, mas acho que seria demais premiá-lo. Assim como foi muito para “Argo” ter levado o prêmio de melhor filme. Não que ela seja fraco. É um bom filme, mas tanto “As Aventuras de Pi” como “Amor” mereciam mais;


9) Jennifer Lawrence está se especializando em micos nas premiações. No Globo de Ouro foi o vestido rasgado. Agora no Oscar, foi o tombo na escada, o que meio que obrigou o público a aplaudi-la de pé, em um gesto de educação. Aproveitando: quem merecia era Emmanuelle Riva. O mundo inteiro achava isso. E é provável que vários dos votantes do Oscar estejam arrependidos agora;

10) Daniel Day-Lewis foi o primeiro ator a levar 3 prêmios na categoria melhor ator. O homem é, hoje, sem dúvida, o melhor ator do mundo;

11) E Adele ganhou o Oscar de melhor canção, absurdamente o primeiro nesta categoria para a série James Bond;

12) Eu não vi o “showzinho” de MacFarlane no fim. Aliás, alguém aqui no Brasil se deu a esse trabalho às duas da madrugada?

Em 2014 teremos mais. Abraço a todos!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Amor

Polêmico, jamais superficial


Antes de adentrarmos especificamente na análise dos aspectos de “Amor”, filme de Michael Haneke vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes, traçarei um breve relato de uma história que se passou próxima a mim. Acompanhei de perto o desenrolar de um caso de Alzheimer em uma família. Foi um processo lento e doloroso, no qual a paciente foi perdendo, gradativamente, suas funções cognitivas e mesmo fisiológicas. Por mais que tenhamos conhecimento e noções de como se desenvolve uma doença degenerativa, a experiência real com um portador de um mal de tais proporções é impactante, triste e extremamente desgastante. Era consternador ver filha e netos se dedicando com o máximo de empenho àquela velha senhora cujo destino já estava lamentavelmente traçado. Talvez o lado mais triste do processo seja justamente este: a certeza de que o esforço em cuidar do doente, procurando proporcionar a este um mínimo de dignidade, não reverterá o quadro e que a falência do organismo é algo que se avizinha. Um turbilhão de emoções se avolumavam e se tornavam cada vez mais difíceis de controlar, desde a alegria ao ver a convalescente reagir a estímulos, até a tristeza e impaciência ao não conseguir fazer com que ela tomasse apenas um copo de água. Um desafio que leva os cuidadores ao limite.

Assim, foi com um envolvimento acentuado que assisti a “Amor”, longa que trata justamente deste processo degradante que a atinge as vítimas de doenças degenerativas do sistema nervoso central. A narrativa nos apresenta um casal de octogenários, Anne, interpretada por Emmanuelle Riva (a lendária atriz de “Hiroshima Meu Amor”), e Georges, personagem de Jean-Louis Trintignant (outro ator de muita história cinematográfica). Eles têm uma bela relação, baseada no respeito e companheirismo e no cultivo de interesses comuns, como a música. Levam um cotidiano tranquilo, morando em um apartamento em Paris sem muitos luxos, mas que traduz perfeitamente o espírito erudito do casal, com artes nas paredes, móveis antigos e um cômodo que é um misto de biblioteca e sala de música. Vale dizer que o apartamento é colocado pelo diretor Michael Haneke também como um personagem da trama, até porque esta se passa quase em sua totalidade nos limites de sua residência. A referida tranquilidade é abalada quando Anne sofre um AVC, o que acaba por desencadear um posterior processo degenerativo que se assemelha ao mal de Alzheimer (embora em nenhum momento fique definida qual a doença que acomete Anne). Daí em diante, Anne passa a sofrer de limitações cada vez maiores e Georges, com inteira dedicação, faz o máximo possível para conferir qualidade de vida à sua esposa.


Percebe-se que a narrativa poderia dar margem a uma imersão no melodrama, mas não é o que acontece nas mãos de Haneke, um diretor famoso por se distanciar de emoções fáceis. Seus filmes costumam levar o espectador à reflexão através do choque, característica que faz seus detratores por vezes taxarem sua obra como apelativa ou marcada por impactos gratuitos (aliás, um dos seus filmes bem conhecidos se chama justamente “Violência Gratuita”). Em “Amor” ele nos conduz por um caminho repleto de sofrimento, mostrado de forma crua e direta, sem floreios, mas ao mesmo tempo gerando uma enorme consternação no espectador. Colocando em minúcias o processo de demência iniciado pela doença, desde os momentâneos “apagões” da mente da enferma até seus últimos estágios, como a rejeição à comida e água (o que com frequência leva pacientes de Alzheimer a necessitarem de sondas para alimentação), Haneke, mesmo sem se valer de truques melodramáticos (como trilha sonora melancólica ou diálogos carregados de açúcar), emociona ao nos mostrar, de uma só tacada, a inevitabilidade da morte e o amor como forma de nos afastar dela. Entretanto, o encanto e identificação com os personagens é quebrado por uma atitude inesperada de Georges que nos leva ao choque e também a questionar: “afinal, o que é o “amor” do título?”. É uma questão para a qual existirão várias respostas e fico com aquela que entende o amor como um sentimento que vai além de meros egoísmos e percebe que o caminho a ser seguido por vezes pode não ser aquele que nos seja mais reconfortante.

Apesar de não concordar com a visão de Haneke, torna-se inegável a força de seu argumento e a maneira extremamente artística como ele é desenvolvido.“Amour”, inclusive, foge de algumas características da filmografia do diretor. Nenhum dos seus filmes é tão lírico e poético quanto este. A título de exemplo, cite-se a cena em que Anne revê um álbum com fotos antigas e exclama “como é linda!”. Ao que Georges pergunta: “o que?”; e ela responde : “a vida”. Uma sequência simples, mas de muita beleza e que vale mais do que tomos e mais tomos de filosofia a respeito do que seja a existência. Interessante que, mesmo se passando quase unicamente dentro do apartamento do casal, o filme nunca se torna cansativo. Pelo contrário, imergimos junto com Georges no seu dia a dia solitário e desgastante, dividido apenas com uma enfermeira que comparece em três dias da semana, pois que a filha do casal, Eva (interpretada por Isabelle Huppert, outra unanimidade francesa), revela-se fria e distante durante boa parte da trama, demonstrando apenas eventualmente uma indignação conveniente diante da forma como Georges conduz os cuidados com Anne.


Até por conta do seu espaço exíguo e dos poucos personagens em cena, as atuações seriam primordiais para que se mantivesse o interesse no longa. O que sucede é um verdeiro show do casal Trintignant e Riva. Ele nos entrega uma performance emocionalmente perfeita e ela incorpora de tal maneira o personagem que por vezes esquecemos que quem está na tela é uma atriz e não uma pessoa realmente acometida por uma doença degenerativa. A Academia de Hollywood deveria aproveitar a oportunidade e render a melhor das homenagens com um Oscar para essa estrela já bastante idosa que marcou o Cinema com sua participação em longas de enorme relevância. Fosse um prêmio francês, Isabelle Huppert talvez fosse indicada ao prêmio de atriz coadjuvante, uma vez que mesmo com poucas participações ela consegue mostrar muito da personalidade de Eva, fazendo com que o espectador possa conceber uma perfil da relação entre pais e filha.

Apesar do incômodo provocado pela última meia hora de projeção, a qual deixa o público tão desnorteado quanto reflexivo, “Amor” é uma obra de profundidade ímpar, atributo inquestionável mesmo para aqueles que discordem dos rumos traçados por Haneke em seu roteiro. Até por isso, vem sendo continuamente premiado em tudo que participa e já se tornou barbada para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Um filme, antes de mais nada, humano, que questiona nossas mais profundas entranhas, nossos limites, esperanças, perspectivas, sendo capaz de nos revoltar e comover ao mesmo tempo. Pode-se atribuir muitos adjetivos para a obra de Michael Haneke, menos que ela seja “superficial”. Polêmica, sim; superficial, jamais.


Cotação:



Nota: 10,0

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Eu Quero Esse Pôster #22

Esta semama, a Academia de Hollywood divulgou uma série de posters exclusivos para cada um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme. Os trabalhos ficaram de primeira e dou destaque para os que seguem abaixo, de "As Aventuras de Pi", "Os Miseráveis""O Lado Bom da Vida" e "Amor". E continuamos esquentando os tamborins para a festa do dia 24.








sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis

Apesar das dificuldades


Em meu recente texto sobre “O Lado Bom da Vida”, mencionei o longa protagonizado por Bradley Cooper e Jennifer Lawrence como exemplo de filme do qual esperamos muito e as expectativas acabam se confirmando. Pois bem, “Os Miseráveis”, novo trabalho do diretor vencedor do Oscar Tom Hooper (por “O Discurso do Rei”), resultou para mim como uma experiência talvez ainda mais gratificante. Trata-se daquele caso de filme do qual não esperava muito, mas, talvez até por isso, terminou por ir além das minhas expectativas e me atingindo de maneira inesperada. Até por ser um musical – e o gênero musical é o que menos me agrada dentre todos os gêneros cinematográficos – eu esperava uma obra cansativa e redundante, principalmente diante de seus 158 minutos. Contudo (e felizmente), as impressões negativas, em sua maior parte, foram se dissipando ao longo da projeção e a sensação que tive no seu término foi a de ter visto um belo espetáculo que vence a mera distração e que possui um força emocional que permanece para além da sessão, algo que afirmo até diante das circunstâncias peculiares a que assisti ao longa, as quais poderiam ter influenciado negativamente na sua apreciação.

Eu me minha esposa fomos ao cinema na última sexta-feira, dia 08 de fevereiro, e pegamos a sessão das 20:30h de “Os Miseráveis” (que estava surpreendentemente cheia para uma sexta-feira de carnaval). Com mais ou menos 30 minutos de exibição, o projetor da sala pifou e saímos frustrados por pagarmos caro (todos sabemos que os preços dos ingressos andam nas alturas) e simplesmente voltarmos pra casa sem ver a continuação do filme. A gerência nos disponibilizou convites para assistirmos a qualquer outra sessão, em dia e horário a nossa escolha, e voltamos nesta terça-feira, dia 12, para concluirmos o longa. Escolhemos a sessão das 17:20h, mas qual não foi a nossa surpresa e irritação quando, ao chegarmos próximos dos guichê da bilheteria, depois de enfrentar uma fila enorme, descobrimos que os ingressos para a sessão escolhida já estavam esgotados e tivemos que trocar os convites por ingressos da sessão das 20:30h. Foram mais três horas de espera e já estávamos impacientes, esperando que o filme realmente valesse à pena todo esse esforço. Ou seja, entramos na sala próximo às 20:30h (que desta vez atingiu sua lotação completa, não cabia mais ninguém ali). Eu já estava bem contrariado e torcendo para não me decepcionar. E, realmente, não me decepcionei.


Não que “Os Miseráveis” não tenha suas falhas. Elas estão lá e algumas até visíveis mesmo para o espectador médio que não costuma estar muito atento a detalhes técnicos. Tom Hooper não é um grande diretor (sua premiação pela Academia em 2010 foi um tanto equivocada) e aqui ele comete vários equívocos, principalmente nos enquadramentos utilizados, repletos de close-ups que por vezes cansam a imagem dos atores e se mostram ainda mais equivocados diante da bela reconstituição de época operada pela direção de arte. A edição é outro aspecto que se mostra trôpego, principalmente no início da projeção, o que soa estranho em um filme extenso como é o caso (convenhamos que a edição se torna mais complicada quanto menor for a duração de um longa). Além disso, o elenco se mostra oscilante e um dos personagens mais destacados, o inspetor de polícia Javert, conta com uma das interpretações mais equivocadas da carreira de Russel Crowe, um ator oscarizado que vem se perdendo cada vez mais.

Entretanto, a força da narrativa concebida originalmente por Victor Hugo, que tem como protagonista o ex-prisioneiro Jean Valjean (interpretado aqui por Hugh “Wolverine” Jackman), é mesmo atemporal. Hugo levou cerca de 30 anos concebendo o romance que dividiu originalmente em 5 volumes. Publicado em 1862, ele foi um sucesso de imediato, vendendo milhares de exemplares em Paris durante apenas 24 horas. Traduzido para dezenas de línguas, tornou-se uma das obras mais adaptadas para o cinema e a televisão, além de espetáculos teatrais (existem adaptações japonesas e até indianas do livro). Uma obra de apelo universal, portanto. No caso deste “Os Miseráveis” de Hooper, a matriz é o espetáculo musical francês concebido em 1980 por Claude-Michel Schönberg (compositor), Alain Boublil e Jean-Marc Natel (letristas). Depois do sucesso em terras francesas, ele foi adaptado para o inglês em 1985 (com tradução de Herbert Kretzmer) e caiu no gosto popular também em Londres. Hoje é um dos musicais mais populares de todos os tempos. Várias de suas canções se tornaram bastante conhecidas, sendo o caso clássico “I Dreamed a Dream”, música que foi regravada por estrelas como Aretha Franklin e recentemente esteve na paradas de sucesso depois que Susan Boyle, participante de um reallity show britânico, cantou-a no programa de TV e impressionou o mundo todo com sua interpretação. Em síntese: este “Os Miseráveis” atualmente em cartaz é uma adaptação da adaptação, algo frequente dentro do gênero musical (como é o caso de clássicos como “Amor ,Sublime Amor”, por exemplo).



Na trama, o citado Jean Valjean passa 19 anos na cadeia, incluindo trabalhos forçados, por ter furtado um pedaço de pão para sua irmã e sobrinhos com fome. Ele é finalmente posto em liberdade condicional, mas acaba se tornando foragido após mudar o nome para começar vida nova. Torna-se, então, um cidadão respeitável, dono de uma fábrica e prefeito local. No entanto, o inspetor de polícia Javert nunca desiste de encontrá-lo, desenvolvendo uma verdadeira obsessão pela caçada a Valjean. Este último, por sua vez, acaba adotando Cosette (interpretada na infância por Isabelle Allen e na juventude por Amanda Seyfried), filha de Fantine (Anne Hathaway em estado de graça!), uma desventurada costureira de sua fábrica. Cosette, por sua vez, acaba se apaixonando por Marius (Eddie Redmayne), um jovem nobre que se envolve no movimento revolucionário que culminaria nas revoltas parisienses de 1832. Tal como na vida, Hugo colocou na mesma panela questões sociais e sentimentais, dando à sua obra uma força que ultrapassou o tempo e as fronteiras. Da mesma forma, Hooper, a desfeito de suas falhas, consegue transpor a barreira do gênero e fazer de “Les Misérables” um longa apreciado por qualquer espectador, um espetáculo épico belo e envolvente.

Deve-se frisar, por outro lado, que boa parte do feito se deve às músicas, várias delas lindas e marcantes. E elas ganham ainda maior relevância diante da ótima interpretação da maior parte do elenco. Sabe-se que Hooper deixou de lado as gravações das canções em estúdio (recurso comum nos musicais) para fazer com que seu elenco as interpretassem “ao vivo”, no próprio set de filmagens. É certo que, se tal expediente gera algumas sensíveis desafinadas na tela, por outro lado ele proporciona uma interpretação mais verdadeira e visceral dos atores. Hugh Jackman demonstra bem tal afirmação com uma boa performance para Valjean, fazendo valer a sua indicação ao Oscar de melhor ator (já levou o Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical). Temos também boas surpresas como Samantha Barks, intérprete de Eponine, personagem feminina que nutre um amor não correspondido por Marius. Entretanto, não há como negar o assombro da presença de Anne Hathaway no longa. Com cerca de 30 minutos durante a projeção, ela rouba a cena e arrebenta como Fantine. A sequência em que ela interpreta a citada “I Dreamed a Dream”é, desde já, histórica, algo que dificilmente será igualado por qualquer outra atriz que venha a interpretá-la.


Apesar de suas dificuldades, Hooper conseguiu trazer para a tela uma bonita visão do clássico francês, algo que não deixará o espectador indiferente, por mais que possa ter resistência ao gênero em questão. Uma visão que não suaviza a miséria, nem se propõe a traçar painéis sociológicos e que deixa uma ótima impressão ao fim da sessão. Eu, apesar das dificuldades para ver o longa, desde a minha resistência a musicais até os contratempos com a exibição, senti-me recompensado com sua bela imagem final (minha esposa, registre-se, gostou ainda mais, já que ela adora musicais). Tendo em vista os aplausos ao fim da sessão, o público presente também sentiu da mesma forma e, vamos convir, não é comum um musical fazer as pessoas aplaudirem espontaneamente sua conclusão.

Cotação:



Nota: 9,0

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Trilha Sonora #26



Nestes tempos de Oscar, é comum lembrarmos das famosas "injustiças" da premiação da Academia de Hollywood. Se tem algo que nunca entendi é como "Mrs. Robinson", música de "A Primeira Noite de Um Homem" (The Graduate, 1967), não levou o prêmio de melhor canção. Realmente inexplicável! Curta abaixo este clássico de Simon e  Garfunkel composta para um filme também já clássico e excelente protagonizado por Dustin Hoffman. Desde então, ele se tornou uma estrela (leia a resenha aqui).



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Lado Bom da Vida

Dramédia romântica para ver e rever


Sabe aquele filme do qual você está esperando muito e, após vê-lo, suas expectativas se confirmam plenamente? Este é bem o caso deste “O Lado Bom Da Vida”, o filme de David O. Russell que vem sendo elogiado quase à unanimidade tanto pela crítica quanto pelo público. Um longa-metragem que pode ser classificado como “comédia romântica”, mas que oferece muito mais do que meras risadas em torno de um casal que já sabemos que irá terminar junto. Raramente você verá uma CR com personagens tão tridimensionais quanto neste aqui, além de uma carga dramática que passa longe de superficialidades. Aliás, taxar essa película de “comédia romântica” acaba por se tonar algo supérfluo. Sua classificação em “gêneros” pode resultar desastrada e talvez o termo “dramédia” lhe seja mais adequado. Ou, melhor ainda, mais preciso é dizermos que se trata de uma “dramédia romântica”, o que já deixa clara a insuficiência de tais classificações limitadas.

Russell adora tratar de relações familiares em suas obras. Seu trabalho anterior, “O Vencedor” (The Fighter, 2010), focava em uma família onde um dos seus elementos causava uma grande instabilidade no núcleo (personagem que inclusive rendeu Oscar de ator coadjuvante para Christian Bale). Em “O Lado Bom da Vida”, a estrutura é similar, mas há uma relevante distinção. Se em “O Vencedor” a fonte de instabilidade reside em um personagem coadjuvante, aqui o drama familiar é gerado pelo protagonista, um professor portador de transtorno bipolar. E mais: seu “par romântico” na trama também apresenta transtornos de personalidade. Ou seja, não estamos diante de um casal convencional. Ele é Patrick Solitano (papel de Bradley Cooper), um professor internado em um hospital psiquiátrico após quase matar um colega em uma explosão de agressividade (se quer saber as circunstâncias factuais que o levaram a isso, assista ao filme). Ela é Tiffany (interpretada por Jennifer Lawrence), uma jovem que também enfrentou um momento difícil após perder o marido muito cedo e de maneira estúpida. Pat ainda nutre esperanças de que sua ex-esposa, Nikki (Brea Bee), ainda volte pare ele e possam levar um vida juntos, situação que para Tiffany é impossível, já que ela é viúva, não divorciada. É natural que, por conseguinte, ela acabe tomando a iniciativa da relação, uma circunstância atípica, por mais que vivamos hoje em uma sociedade onde as mulheres se tornaram independentes, ainda se apresentando como peculiar.


A dupla de protagonistas é formada, antes de tudo, por indivíduos com quem decididamente não é fácil conviver. Extremamente instáveis e com momentos intempestivos de agressividade, Pat e Tiffany são o tipo de pessoa que é evitado por muitos e acabam por desenvolver amizade apenas com outas pessoas que também são vítimas de algum tipo de transtorno. Eles são o maior ponto de desequilíbrio em suas famílias, muito embora essas também não sejam formadas por tipos convencionais. O pai de Patrick (Robert De Niro, depois de muitos anos em momento inspirado) é um fanático por futebol americano que possui sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo, enquanto a irmã e cunhado de Tiffany formam uma casal disfuncional onde ela comanda a relação com arrogância e autoritarismo e ele, dono de uma personalidade fraca e submissa, parece apenas “cumprir ordens”. Entretanto, talvez por conta da agressividade, eles acabam por ser, digamos assim, as “ovelhas negras da família”.

Pela descrição acima, seria de esperar um filme pesado, onde o espectador sentiria o drama de vidas complicadas a cada cena. Contudo, não é isso que sucede. “Silver Linings Playbook” é um longa bastante engraçado, arrancando risos do público em situações improváveis. É bom ressaltar que ele é baseado no livro de Matthew Quick, um escritor que também passou por períodos de frustração e isolamento antes de alcançar o sucesso. Quick era professor como Patrick e largou o emprego para seguir a carreira literária, só que, como era de se supor, o caminho não foi fácil. Passou por depressão e, diante das dificuldades financeiras, chegou a viver na casa dos sogros. É provável que, devido às suas próprias vivências similares, ele soube perfeitamente extrair comédia das dificuldades e Russell (com o auxílio de um roteiro redondo de sua própria autoria), ao contrário de vários cineastas que tentam o mesmo, acabou se saindo muito bem na adaptação para a telona. O romance também se faz presente, mas, ao contrário do que se imaginaria, sua força só é mais sentida nos minutos finais, quando o longa acaba por assumir alguns quase inevitáveis clichês.


Como já havia demonstrado no mencionado “O Vencedor”, Russell é um ótimo diretor de atores, algo essencial em longas que têm o cerne em relações familiares. O resultado desta conjunção entre um diretor que privilegia as atuações e um roteiro propício para tanto é um elenco extremamente entrosado e com espaço para que todos tenham seu brilho. Bradley Cooper, um ator subestimado por muitos, revela todo o seu potencial na pele de Pat Solitano, entregando uma composição equilibrada e emocional para um personagem que poderia facilmente cair na caricatura. O mesmo se pode falar de Jennifer Lawrence, favorita para o Oscar depois de vencer o Globo de Ouro e o prêmio do Sindicato de Atores por este papel. Ela realmente parece destinada a se tornar a melhor atriz de sua geração e, ouso dizer, talvez seja a sucessora de Meryl Streep, dada a sua versatilidade e energia com que encarna as personagens. Entretanto, possivelmente a maior satisfação para qualquer cinéfilo seja a atuação de Robert De Niro, uma lenda viva do cinema que andou cometendo várias bobagens nos últimos anos, mas aqui recupera sua boa forma e chega a roubar a cena em sequências divertidíssimas. É uma pena ter que escolher entre ele e Christoph Waltz no Oscar. A Academia bem que poderia abrir uma exceção e premiar os dois. Outro ponto alto da projeção é a trilha pop, um passeio sonoro que vai de Led Zeppelin a Frank Sinatra, sempre com canções perfeitamente relacionadas com as situações vistas na tela.

É certo que, como já sublinhado acima, o filme acaba por assumir algumas situações clichês. Há momentos que também trazem a recordação de outros filmes, como a reta final, que lembra “Pequena Miss Sunshine” (Little Miss Sunshine, 2006) – por sinal, outro filme ótimo sobre relações familiares. Mas nada obscurece a humanidade daqueles tipos que por vezes nos fazem esquecer que são apenas personagens de um filme. O envolvimento é inevitável e, sim, às vezes nós precisamos de finais felizes para que continuemos a ter a esperança em finais felizes também fora da ficção, como bem ressalta Pat ao terminar de ler, revoltado, um dos romances de Ernest Hemingway. “O Lado Bom da Vida” é uma daquelas produções que sempre nos deixam com vontade de ver mais um pouquinho, por mais que, no futuro, ela venha a ser reprisada à exaustão na televisão. E não tenho dúvidas que tais reprises incessantes deverão acontecer em um futuro próximo. A audiência vai pedir.


Cotação:



Nota: 9,5