terça-feira, 5 de março de 2013

Curtindo o Curta #6


"The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore" foi a animação vencedora do Oscar de melhor curta-metragem em animação de 2012. Realizado usando diversas técnicas, como miniaturas, computação gráfica e o desenho tradicional, o curta se constitui em uma espécie de declaração de amor aos livros e à literatura, com seu grande potencial de nos fazer viajar sem sair do lugar. Os diretores Brandon Oldenburg e William Joyce (este também autor do roteiro) tiveram como inpirações declaradas para a concepção do curta o ator Buster Keaton, o furacão Katrina, o clássico "O Mágico de Oz" e, claro, o amor pelos livros. Interessante como a essa categoria do Oscar é menosprezada por muitos, mas, com frequência, ela nos revela ótimas experiências e talentos. Os 15 minutos do video abaixo não serão perdidos, caso você decida vê-los. Bom curta!



sábado, 2 de março de 2013

Indomável Sonhadora

Uma flor no pântano


Uma das boas iniciativas da Academia de Hollywood tem sido a de pinçar filmes independentes para lhes conferir indicações importantes na festa anual do Oscar, dando assim uma maior visibilidade a produções, cineastas e atores que poderiam ficar restritos circuitos cinéfilos caso não tivessem seus nomes indicados àquele que é considerado o prêmio máximo do cinema. Nos últimos anos, para citar exemplos, tivemos “Pequena Miss Sunshine” (Little Miss Sunshine, 2006), “Juno” (idem, 2007), “Inverno da Alma” (Winter's Bone, 2010) e até mesmo “Guerra Ao Terror” (The Hurt Locker, 2008), longa de orçamento limitado e fracasso de bilheteria que levou os prêmios de melhor filme e direção para Kathryn Bigelow, debancando a favorita superprodução “Avatar” (idem, 2009), de James Cameron. E eis que surge este “Indomável Sonhadora” como mais um exemplar de cinema alternativo conduzido aos holofotes devido às suas indicações ao Oscar 2013.

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance, o longa dirigido pelo estreante Benh Zeitlin (indicado ao Oscar de melhor diretor) põe em foco um recente desastre natural que abalou os Estados Unidos: a passagem do furacão Katrina pelo estado da Louisiana, evento que expôs não apenas uma série de problemas ambientais da região, como também chagas sociais que colocaram em evidência as divisões de classe e etnia norte-americanas. Na trama, o Katrina termina por atingir um comunidade que vive na “Banheira”, uma ilha fictícia e pantanosa onde a água, já ordinariamente, costuma subir às canelas e casas dos moradores. É lá que vive a pequena Hushpuppy (a incrível garotinha Quvenzhané Wallis, atriz mais jovem a ser indicada ao prêmio da Academia de Hollywood em todos os tempos), órfã de mãe e cujo pai, Wink (Dwight Henry), é um teimoso alcoólatra que está definhando com cirrose hepática e não desiste de viver na situação precária da ilha. Diante do grave estado de saúde do pai e dos caos instalado pelo furacão, Hushpuppy passará por uma jornada de formação e autoconhecimento, vencendo os obstáculos com auxílio de sua fértil imaginação infantil.



Talvez o conceito mais interessante de “Beasts Of The Southern Wild” seja justamente o de misturar o retrato de uma realidade dura, que é aquela vivida pelos habitantes da “Banheira”, com a abstração da imaginação infantil, que transforma animais de pinturas rupestres em símbolos de adversidades, remetendo-nos à infância sem se tornar uma obra infantilizada, muito pelo contrário. Para um diretor estreante, Zeitlin soube muito bem fugir de armadilhas melodramáticas (sempre fáceis quando se trata de temas relacionados à infância) e teve uma ótima sacada ao colocar Hushpuppy como narradora, contribuindo para pintar o quadro da realidade pelo prisma lúdico da garota. Realidade essa que, é importante frisar, o diretor conhece de perto, pois que ele costumava viajar para a Louisiana com a família na adolescência. Ante mesmo de filmar “Indomável Sonhadora” ele tocou no mesmo tema do desamparo da vítimas do Katrina em seu curta-metragem “Glory At Sea” (2008). Ou seja, este é um tema que lhe é caro e que por isso foi por ele desenvolvido com tanta propriedade. O roteiro, escrito pelo próprio diretor ao lado de Lucy Alibar, ainda toca na questão ambiental de maneira inteligente e sem resvalar na ecochatice, fazendo um “marketing ecológico” possivelmente mais eficaz do que várias das ações de entidades como o Greenpeace.

Outro ponto interessante se constitui na ética e costumes próprios da comunidade em questão, os quais possuem códigos muitos particulares, algo que geralmente sucede em grupos marginalizados. Fortes e solidários, as adversidades do meio não permitem espaço para afloramento das emoções, algo que se revela até mesmo nos funerais, onde o choro parece ser proibido e o ritual de despedida dos mortos se assemelha mais a uma comemoração do que a um velório. Neste sentido, também se observa uma espécie de menosprezo à feminilidade, vista pelos moradores e ensinada na escola local como fraqueza, fazendo-nos lembrar o quanto a hostilidade do ambiente recrudesce o machismo. Não por acaso, em uma situação de dificuldade em que o pai já se mostra sem forças, Hushpuppy declara que agora ela é “o homem da casa”. Em situações limite, há pouco espaço para o feminino e o dia a dia do moradores da Banheira parece ser sempre o de uma situação limite.

Entretanto, o filme não seria o mesmo sem a presença de Quvenzhané Wallis, uma menina escolhida dentre várias concorrentes locais (aliás, o elenco é formado inteiramente por habitantes locais) que mentiu a idade para poder ganhar o papel (ela disse ter 6 anos, idade mínima para a concorrência, quando na realidade tinha 5), mas que demonstra uma assombrosa naturalidade em cena. Ela praticamente domina a tela sozinha ao longo dos 93 minutos de projeção, justificando inteiramente sua precoce indicação ao prêmio da Academia. Espero que não tenha o mesmo destino de tantos atros infantis que, quando crescem, acabam sendo relegados ao ostracismo pelo show businnes.

Não se pode dizer que “Indomável Sonhadora” seja uma película arrebatadora. Mesmo diante de sua curta duração (93 minutos, como já mencionado), o filme possui alguns problemas de ritmo, alternando ótimas sequências com outras mais cansativas. Chega-se a ter a sensação de que ele é maior do que realmente é. Por outro lado, mostra-se um ótimo début tanto para seu diretor Behn Zeitlin como para sua pequena estrela. Uma lufada de energia em um cinema cada vez mais entorpecido pelas regras da indústria e que se faz importante não somente por tratar de temas políticos em pauta (exclusão social, ecologia), como também para mostrar que não é necessário se fazer uma obra “realista” para se tratar da realidade. O que se passa na imaginação de Hushpuppy é tão ou mais relevante do que aquilo que se passa no seu exterior. Muito de nós pode ser resultado de nosso meio, mas não é o meio que ditará a nossa essência. Hushpuppy vive em um pântano, mas nem por isso deixa de ser uma flor.


Cotação: 



 Nota: 8,5

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Oscar 2013: Impressões



Doze pílulas sobre  o Oscar desse ano:

1) A pior coisa que pode acontecer a um apresentador é querer se transformar na estrela da festa e foi exatamente isso que sucedeu com Seth MacFarlane. Foram 18 intermináveis minutos até ele parar com aquela apresentaçãozinha boba na abertura da transmissão. O Capitão Kirk tinha razão: pior apresentador de todo os tempos (depois de James Franco, claro);

2) O prêmio de ator coadjuvante para Christoph Waltz foi justo. Muito justo. Foi justíssimo! E olha que a concorrência era forte;

3) Meio capenga a homenagem à série 007. Como bem disse o Rubens Ewald Filho, poderiam ter convidado todos os intérpretes do personagem para aparecerem juntos no palco, uma vez que estão todos vivos. Baita falta de criatividade;

 
4) “Valente” levou porque adoram premiar a Pixar. Só isso justifica;

5) Se “As Aveturas de Pi” não ganhasse em efeitos visuais, Richard Parker iria devorar alguém da Academia;

6) A categoria de edição de som apresentou, ao menos para este que vos fala, algo inédito: um empate entre “A Hora Mais Escura” e “Skyfall”. Nunca tinha visto isso acontecer antes. Segundo informações colhidas na net, foi o sexto empate na história do prêmio;

7) As apresentações em homenagem aos musicais foram dos grande momentos da noite. O público aplaudiu de pé e eu também achei bacana. Foi interessante ver o elenco inteiro de “Os Miseráveis” no palco, até o desafinado Russell Crowe;

8) Fiquei até surpreso, mas também muito satisfeito, com a premiação de Ang Lee como melhor diretor. Pode até ter sido uma injustiça Ben Aflleck não ter sido indicado ao Oscar de melhor diretor, mas acho que seria demais premiá-lo. Assim como foi muito para “Argo” ter levado o prêmio de melhor filme. Não que ela seja fraco. É um bom filme, mas tanto “As Aventuras de Pi” como “Amor” mereciam mais;


9) Jennifer Lawrence está se especializando em micos nas premiações. No Globo de Ouro foi o vestido rasgado. Agora no Oscar, foi o tombo na escada, o que meio que obrigou o público a aplaudi-la de pé, em um gesto de educação. Aproveitando: quem merecia era Emmanuelle Riva. O mundo inteiro achava isso. E é provável que vários dos votantes do Oscar estejam arrependidos agora;

10) Daniel Day-Lewis foi o primeiro ator a levar 3 prêmios na categoria melhor ator. O homem é, hoje, sem dúvida, o melhor ator do mundo;

11) E Adele ganhou o Oscar de melhor canção, absurdamente o primeiro nesta categoria para a série James Bond;

12) Eu não vi o “showzinho” de MacFarlane no fim. Aliás, alguém aqui no Brasil se deu a esse trabalho às duas da madrugada?

Em 2014 teremos mais. Abraço a todos!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Amor

Polêmico, jamais superficial


Antes de adentrarmos especificamente na análise dos aspectos de “Amor”, filme de Michael Haneke vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes, traçarei um breve relato de uma história que se passou próxima a mim. Acompanhei de perto o desenrolar de um caso de Alzheimer em uma família. Foi um processo lento e doloroso, no qual a paciente foi perdendo, gradativamente, suas funções cognitivas e mesmo fisiológicas. Por mais que tenhamos conhecimento e noções de como se desenvolve uma doença degenerativa, a experiência real com um portador de um mal de tais proporções é impactante, triste e extremamente desgastante. Era consternador ver filha e netos se dedicando com o máximo de empenho àquela velha senhora cujo destino já estava lamentavelmente traçado. Talvez o lado mais triste do processo seja justamente este: a certeza de que o esforço em cuidar do doente, procurando proporcionar a este um mínimo de dignidade, não reverterá o quadro e que a falência do organismo é algo que se avizinha. Um turbilhão de emoções se avolumavam e se tornavam cada vez mais difíceis de controlar, desde a alegria ao ver a convalescente reagir a estímulos, até a tristeza e impaciência ao não conseguir fazer com que ela tomasse apenas um copo de água. Um desafio que leva os cuidadores ao limite.

Assim, foi com um envolvimento acentuado que assisti a “Amor”, longa que trata justamente deste processo degradante que a atinge as vítimas de doenças degenerativas do sistema nervoso central. A narrativa nos apresenta um casal de octogenários, Anne, interpretada por Emmanuelle Riva (a lendária atriz de “Hiroshima Meu Amor”), e Georges, personagem de Jean-Louis Trintignant (outro ator de muita história cinematográfica). Eles têm uma bela relação, baseada no respeito e companheirismo e no cultivo de interesses comuns, como a música. Levam um cotidiano tranquilo, morando em um apartamento em Paris sem muitos luxos, mas que traduz perfeitamente o espírito erudito do casal, com artes nas paredes, móveis antigos e um cômodo que é um misto de biblioteca e sala de música. Vale dizer que o apartamento é colocado pelo diretor Michael Haneke também como um personagem da trama, até porque esta se passa quase em sua totalidade nos limites de sua residência. A referida tranquilidade é abalada quando Anne sofre um AVC, o que acaba por desencadear um posterior processo degenerativo que se assemelha ao mal de Alzheimer (embora em nenhum momento fique definida qual a doença que acomete Anne). Daí em diante, Anne passa a sofrer de limitações cada vez maiores e Georges, com inteira dedicação, faz o máximo possível para conferir qualidade de vida à sua esposa.


Percebe-se que a narrativa poderia dar margem a uma imersão no melodrama, mas não é o que acontece nas mãos de Haneke, um diretor famoso por se distanciar de emoções fáceis. Seus filmes costumam levar o espectador à reflexão através do choque, característica que faz seus detratores por vezes taxarem sua obra como apelativa ou marcada por impactos gratuitos (aliás, um dos seus filmes bem conhecidos se chama justamente “Violência Gratuita”). Em “Amor” ele nos conduz por um caminho repleto de sofrimento, mostrado de forma crua e direta, sem floreios, mas ao mesmo tempo gerando uma enorme consternação no espectador. Colocando em minúcias o processo de demência iniciado pela doença, desde os momentâneos “apagões” da mente da enferma até seus últimos estágios, como a rejeição à comida e água (o que com frequência leva pacientes de Alzheimer a necessitarem de sondas para alimentação), Haneke, mesmo sem se valer de truques melodramáticos (como trilha sonora melancólica ou diálogos carregados de açúcar), emociona ao nos mostrar, de uma só tacada, a inevitabilidade da morte e o amor como forma de nos afastar dela. Entretanto, o encanto e identificação com os personagens é quebrado por uma atitude inesperada de Georges que nos leva ao choque e também a questionar: “afinal, o que é o “amor” do título?”. É uma questão para a qual existirão várias respostas e fico com aquela que entende o amor como um sentimento que vai além de meros egoísmos e percebe que o caminho a ser seguido por vezes pode não ser aquele que nos seja mais reconfortante.

Apesar de não concordar com a visão de Haneke, torna-se inegável a força de seu argumento e a maneira extremamente artística como ele é desenvolvido.“Amour”, inclusive, foge de algumas características da filmografia do diretor. Nenhum dos seus filmes é tão lírico e poético quanto este. A título de exemplo, cite-se a cena em que Anne revê um álbum com fotos antigas e exclama “como é linda!”. Ao que Georges pergunta: “o que?”; e ela responde : “a vida”. Uma sequência simples, mas de muita beleza e que vale mais do que tomos e mais tomos de filosofia a respeito do que seja a existência. Interessante que, mesmo se passando quase unicamente dentro do apartamento do casal, o filme nunca se torna cansativo. Pelo contrário, imergimos junto com Georges no seu dia a dia solitário e desgastante, dividido apenas com uma enfermeira que comparece em três dias da semana, pois que a filha do casal, Eva (interpretada por Isabelle Huppert, outra unanimidade francesa), revela-se fria e distante durante boa parte da trama, demonstrando apenas eventualmente uma indignação conveniente diante da forma como Georges conduz os cuidados com Anne.


Até por conta do seu espaço exíguo e dos poucos personagens em cena, as atuações seriam primordiais para que se mantivesse o interesse no longa. O que sucede é um verdeiro show do casal Trintignant e Riva. Ele nos entrega uma performance emocionalmente perfeita e ela incorpora de tal maneira o personagem que por vezes esquecemos que quem está na tela é uma atriz e não uma pessoa realmente acometida por uma doença degenerativa. A Academia de Hollywood deveria aproveitar a oportunidade e render a melhor das homenagens com um Oscar para essa estrela já bastante idosa que marcou o Cinema com sua participação em longas de enorme relevância. Fosse um prêmio francês, Isabelle Huppert talvez fosse indicada ao prêmio de atriz coadjuvante, uma vez que mesmo com poucas participações ela consegue mostrar muito da personalidade de Eva, fazendo com que o espectador possa conceber uma perfil da relação entre pais e filha.

Apesar do incômodo provocado pela última meia hora de projeção, a qual deixa o público tão desnorteado quanto reflexivo, “Amor” é uma obra de profundidade ímpar, atributo inquestionável mesmo para aqueles que discordem dos rumos traçados por Haneke em seu roteiro. Até por isso, vem sendo continuamente premiado em tudo que participa e já se tornou barbada para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Um filme, antes de mais nada, humano, que questiona nossas mais profundas entranhas, nossos limites, esperanças, perspectivas, sendo capaz de nos revoltar e comover ao mesmo tempo. Pode-se atribuir muitos adjetivos para a obra de Michael Haneke, menos que ela seja “superficial”. Polêmica, sim; superficial, jamais.


Cotação:



Nota: 10,0

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Eu Quero Esse Pôster #22

Esta semama, a Academia de Hollywood divulgou uma série de posters exclusivos para cada um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme. Os trabalhos ficaram de primeira e dou destaque para os que seguem abaixo, de "As Aventuras de Pi", "Os Miseráveis""O Lado Bom da Vida" e "Amor". E continuamos esquentando os tamborins para a festa do dia 24.








sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis

Apesar das dificuldades


Em meu recente texto sobre “O Lado Bom da Vida”, mencionei o longa protagonizado por Bradley Cooper e Jennifer Lawrence como exemplo de filme do qual esperamos muito e as expectativas acabam se confirmando. Pois bem, “Os Miseráveis”, novo trabalho do diretor vencedor do Oscar Tom Hooper (por “O Discurso do Rei”), resultou para mim como uma experiência talvez ainda mais gratificante. Trata-se daquele caso de filme do qual não esperava muito, mas, talvez até por isso, terminou por ir além das minhas expectativas e me atingindo de maneira inesperada. Até por ser um musical – e o gênero musical é o que menos me agrada dentre todos os gêneros cinematográficos – eu esperava uma obra cansativa e redundante, principalmente diante de seus 158 minutos. Contudo (e felizmente), as impressões negativas, em sua maior parte, foram se dissipando ao longo da projeção e a sensação que tive no seu término foi a de ter visto um belo espetáculo que vence a mera distração e que possui um força emocional que permanece para além da sessão, algo que afirmo até diante das circunstâncias peculiares a que assisti ao longa, as quais poderiam ter influenciado negativamente na sua apreciação.

Eu me minha esposa fomos ao cinema na última sexta-feira, dia 08 de fevereiro, e pegamos a sessão das 20:30h de “Os Miseráveis” (que estava surpreendentemente cheia para uma sexta-feira de carnaval). Com mais ou menos 30 minutos de exibição, o projetor da sala pifou e saímos frustrados por pagarmos caro (todos sabemos que os preços dos ingressos andam nas alturas) e simplesmente voltarmos pra casa sem ver a continuação do filme. A gerência nos disponibilizou convites para assistirmos a qualquer outra sessão, em dia e horário a nossa escolha, e voltamos nesta terça-feira, dia 12, para concluirmos o longa. Escolhemos a sessão das 17:20h, mas qual não foi a nossa surpresa e irritação quando, ao chegarmos próximos dos guichê da bilheteria, depois de enfrentar uma fila enorme, descobrimos que os ingressos para a sessão escolhida já estavam esgotados e tivemos que trocar os convites por ingressos da sessão das 20:30h. Foram mais três horas de espera e já estávamos impacientes, esperando que o filme realmente valesse à pena todo esse esforço. Ou seja, entramos na sala próximo às 20:30h (que desta vez atingiu sua lotação completa, não cabia mais ninguém ali). Eu já estava bem contrariado e torcendo para não me decepcionar. E, realmente, não me decepcionei.


Não que “Os Miseráveis” não tenha suas falhas. Elas estão lá e algumas até visíveis mesmo para o espectador médio que não costuma estar muito atento a detalhes técnicos. Tom Hooper não é um grande diretor (sua premiação pela Academia em 2010 foi um tanto equivocada) e aqui ele comete vários equívocos, principalmente nos enquadramentos utilizados, repletos de close-ups que por vezes cansam a imagem dos atores e se mostram ainda mais equivocados diante da bela reconstituição de época operada pela direção de arte. A edição é outro aspecto que se mostra trôpego, principalmente no início da projeção, o que soa estranho em um filme extenso como é o caso (convenhamos que a edição se torna mais complicada quanto menor for a duração de um longa). Além disso, o elenco se mostra oscilante e um dos personagens mais destacados, o inspetor de polícia Javert, conta com uma das interpretações mais equivocadas da carreira de Russel Crowe, um ator oscarizado que vem se perdendo cada vez mais.

Entretanto, a força da narrativa concebida originalmente por Victor Hugo, que tem como protagonista o ex-prisioneiro Jean Valjean (interpretado aqui por Hugh “Wolverine” Jackman), é mesmo atemporal. Hugo levou cerca de 30 anos concebendo o romance que dividiu originalmente em 5 volumes. Publicado em 1862, ele foi um sucesso de imediato, vendendo milhares de exemplares em Paris durante apenas 24 horas. Traduzido para dezenas de línguas, tornou-se uma das obras mais adaptadas para o cinema e a televisão, além de espetáculos teatrais (existem adaptações japonesas e até indianas do livro). Uma obra de apelo universal, portanto. No caso deste “Os Miseráveis” de Hooper, a matriz é o espetáculo musical francês concebido em 1980 por Claude-Michel Schönberg (compositor), Alain Boublil e Jean-Marc Natel (letristas). Depois do sucesso em terras francesas, ele foi adaptado para o inglês em 1985 (com tradução de Herbert Kretzmer) e caiu no gosto popular também em Londres. Hoje é um dos musicais mais populares de todos os tempos. Várias de suas canções se tornaram bastante conhecidas, sendo o caso clássico “I Dreamed a Dream”, música que foi regravada por estrelas como Aretha Franklin e recentemente esteve na paradas de sucesso depois que Susan Boyle, participante de um reallity show britânico, cantou-a no programa de TV e impressionou o mundo todo com sua interpretação. Em síntese: este “Os Miseráveis” atualmente em cartaz é uma adaptação da adaptação, algo frequente dentro do gênero musical (como é o caso de clássicos como “Amor ,Sublime Amor”, por exemplo).



Na trama, o citado Jean Valjean passa 19 anos na cadeia, incluindo trabalhos forçados, por ter furtado um pedaço de pão para sua irmã e sobrinhos com fome. Ele é finalmente posto em liberdade condicional, mas acaba se tornando foragido após mudar o nome para começar vida nova. Torna-se, então, um cidadão respeitável, dono de uma fábrica e prefeito local. No entanto, o inspetor de polícia Javert nunca desiste de encontrá-lo, desenvolvendo uma verdadeira obsessão pela caçada a Valjean. Este último, por sua vez, acaba adotando Cosette (interpretada na infância por Isabelle Allen e na juventude por Amanda Seyfried), filha de Fantine (Anne Hathaway em estado de graça!), uma desventurada costureira de sua fábrica. Cosette, por sua vez, acaba se apaixonando por Marius (Eddie Redmayne), um jovem nobre que se envolve no movimento revolucionário que culminaria nas revoltas parisienses de 1832. Tal como na vida, Hugo colocou na mesma panela questões sociais e sentimentais, dando à sua obra uma força que ultrapassou o tempo e as fronteiras. Da mesma forma, Hooper, a desfeito de suas falhas, consegue transpor a barreira do gênero e fazer de “Les Misérables” um longa apreciado por qualquer espectador, um espetáculo épico belo e envolvente.

Deve-se frisar, por outro lado, que boa parte do feito se deve às músicas, várias delas lindas e marcantes. E elas ganham ainda maior relevância diante da ótima interpretação da maior parte do elenco. Sabe-se que Hooper deixou de lado as gravações das canções em estúdio (recurso comum nos musicais) para fazer com que seu elenco as interpretassem “ao vivo”, no próprio set de filmagens. É certo que, se tal expediente gera algumas sensíveis desafinadas na tela, por outro lado ele proporciona uma interpretação mais verdadeira e visceral dos atores. Hugh Jackman demonstra bem tal afirmação com uma boa performance para Valjean, fazendo valer a sua indicação ao Oscar de melhor ator (já levou o Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical). Temos também boas surpresas como Samantha Barks, intérprete de Eponine, personagem feminina que nutre um amor não correspondido por Marius. Entretanto, não há como negar o assombro da presença de Anne Hathaway no longa. Com cerca de 30 minutos durante a projeção, ela rouba a cena e arrebenta como Fantine. A sequência em que ela interpreta a citada “I Dreamed a Dream”é, desde já, histórica, algo que dificilmente será igualado por qualquer outra atriz que venha a interpretá-la.


Apesar de suas dificuldades, Hooper conseguiu trazer para a tela uma bonita visão do clássico francês, algo que não deixará o espectador indiferente, por mais que possa ter resistência ao gênero em questão. Uma visão que não suaviza a miséria, nem se propõe a traçar painéis sociológicos e que deixa uma ótima impressão ao fim da sessão. Eu, apesar das dificuldades para ver o longa, desde a minha resistência a musicais até os contratempos com a exibição, senti-me recompensado com sua bela imagem final (minha esposa, registre-se, gostou ainda mais, já que ela adora musicais). Tendo em vista os aplausos ao fim da sessão, o público presente também sentiu da mesma forma e, vamos convir, não é comum um musical fazer as pessoas aplaudirem espontaneamente sua conclusão.

Cotação:



Nota: 9,0

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Trilha Sonora #26



Nestes tempos de Oscar, é comum lembrarmos das famosas "injustiças" da premiação da Academia de Hollywood. Se tem algo que nunca entendi é como "Mrs. Robinson", música de "A Primeira Noite de Um Homem" (The Graduate, 1967), não levou o prêmio de melhor canção. Realmente inexplicável! Curta abaixo este clássico de Simon e  Garfunkel composta para um filme também já clássico e excelente protagonizado por Dustin Hoffman. Desde então, ele se tornou uma estrela (leia a resenha aqui).



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Lado Bom da Vida

Dramédia romântica para ver e rever


Sabe aquele filme do qual você está esperando muito e, após vê-lo, suas expectativas se confirmam plenamente? Este é bem o caso deste “O Lado Bom Da Vida”, o filme de David O. Russell que vem sendo elogiado quase à unanimidade tanto pela crítica quanto pelo público. Um longa-metragem que pode ser classificado como “comédia romântica”, mas que oferece muito mais do que meras risadas em torno de um casal que já sabemos que irá terminar junto. Raramente você verá uma CR com personagens tão tridimensionais quanto neste aqui, além de uma carga dramática que passa longe de superficialidades. Aliás, taxar essa película de “comédia romântica” acaba por se tonar algo supérfluo. Sua classificação em “gêneros” pode resultar desastrada e talvez o termo “dramédia” lhe seja mais adequado. Ou, melhor ainda, mais preciso é dizermos que se trata de uma “dramédia romântica”, o que já deixa clara a insuficiência de tais classificações limitadas.

Russell adora tratar de relações familiares em suas obras. Seu trabalho anterior, “O Vencedor” (The Fighter, 2010), focava em uma família onde um dos seus elementos causava uma grande instabilidade no núcleo (personagem que inclusive rendeu Oscar de ator coadjuvante para Christian Bale). Em “O Lado Bom da Vida”, a estrutura é similar, mas há uma relevante distinção. Se em “O Vencedor” a fonte de instabilidade reside em um personagem coadjuvante, aqui o drama familiar é gerado pelo protagonista, um professor portador de transtorno bipolar. E mais: seu “par romântico” na trama também apresenta transtornos de personalidade. Ou seja, não estamos diante de um casal convencional. Ele é Patrick Solitano (papel de Bradley Cooper), um professor internado em um hospital psiquiátrico após quase matar um colega em uma explosão de agressividade (se quer saber as circunstâncias factuais que o levaram a isso, assista ao filme). Ela é Tiffany (interpretada por Jennifer Lawrence), uma jovem que também enfrentou um momento difícil após perder o marido muito cedo e de maneira estúpida. Pat ainda nutre esperanças de que sua ex-esposa, Nikki (Brea Bee), ainda volte pare ele e possam levar um vida juntos, situação que para Tiffany é impossível, já que ela é viúva, não divorciada. É natural que, por conseguinte, ela acabe tomando a iniciativa da relação, uma circunstância atípica, por mais que vivamos hoje em uma sociedade onde as mulheres se tornaram independentes, ainda se apresentando como peculiar.


A dupla de protagonistas é formada, antes de tudo, por indivíduos com quem decididamente não é fácil conviver. Extremamente instáveis e com momentos intempestivos de agressividade, Pat e Tiffany são o tipo de pessoa que é evitado por muitos e acabam por desenvolver amizade apenas com outas pessoas que também são vítimas de algum tipo de transtorno. Eles são o maior ponto de desequilíbrio em suas famílias, muito embora essas também não sejam formadas por tipos convencionais. O pai de Patrick (Robert De Niro, depois de muitos anos em momento inspirado) é um fanático por futebol americano que possui sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo, enquanto a irmã e cunhado de Tiffany formam uma casal disfuncional onde ela comanda a relação com arrogância e autoritarismo e ele, dono de uma personalidade fraca e submissa, parece apenas “cumprir ordens”. Entretanto, talvez por conta da agressividade, eles acabam por ser, digamos assim, as “ovelhas negras da família”.

Pela descrição acima, seria de esperar um filme pesado, onde o espectador sentiria o drama de vidas complicadas a cada cena. Contudo, não é isso que sucede. “Silver Linings Playbook” é um longa bastante engraçado, arrancando risos do público em situações improváveis. É bom ressaltar que ele é baseado no livro de Matthew Quick, um escritor que também passou por períodos de frustração e isolamento antes de alcançar o sucesso. Quick era professor como Patrick e largou o emprego para seguir a carreira literária, só que, como era de se supor, o caminho não foi fácil. Passou por depressão e, diante das dificuldades financeiras, chegou a viver na casa dos sogros. É provável que, devido às suas próprias vivências similares, ele soube perfeitamente extrair comédia das dificuldades e Russell (com o auxílio de um roteiro redondo de sua própria autoria), ao contrário de vários cineastas que tentam o mesmo, acabou se saindo muito bem na adaptação para a telona. O romance também se faz presente, mas, ao contrário do que se imaginaria, sua força só é mais sentida nos minutos finais, quando o longa acaba por assumir alguns quase inevitáveis clichês.


Como já havia demonstrado no mencionado “O Vencedor”, Russell é um ótimo diretor de atores, algo essencial em longas que têm o cerne em relações familiares. O resultado desta conjunção entre um diretor que privilegia as atuações e um roteiro propício para tanto é um elenco extremamente entrosado e com espaço para que todos tenham seu brilho. Bradley Cooper, um ator subestimado por muitos, revela todo o seu potencial na pele de Pat Solitano, entregando uma composição equilibrada e emocional para um personagem que poderia facilmente cair na caricatura. O mesmo se pode falar de Jennifer Lawrence, favorita para o Oscar depois de vencer o Globo de Ouro e o prêmio do Sindicato de Atores por este papel. Ela realmente parece destinada a se tornar a melhor atriz de sua geração e, ouso dizer, talvez seja a sucessora de Meryl Streep, dada a sua versatilidade e energia com que encarna as personagens. Entretanto, possivelmente a maior satisfação para qualquer cinéfilo seja a atuação de Robert De Niro, uma lenda viva do cinema que andou cometendo várias bobagens nos últimos anos, mas aqui recupera sua boa forma e chega a roubar a cena em sequências divertidíssimas. É uma pena ter que escolher entre ele e Christoph Waltz no Oscar. A Academia bem que poderia abrir uma exceção e premiar os dois. Outro ponto alto da projeção é a trilha pop, um passeio sonoro que vai de Led Zeppelin a Frank Sinatra, sempre com canções perfeitamente relacionadas com as situações vistas na tela.

É certo que, como já sublinhado acima, o filme acaba por assumir algumas situações clichês. Há momentos que também trazem a recordação de outros filmes, como a reta final, que lembra “Pequena Miss Sunshine” (Little Miss Sunshine, 2006) – por sinal, outro filme ótimo sobre relações familiares. Mas nada obscurece a humanidade daqueles tipos que por vezes nos fazem esquecer que são apenas personagens de um filme. O envolvimento é inevitável e, sim, às vezes nós precisamos de finais felizes para que continuemos a ter a esperança em finais felizes também fora da ficção, como bem ressalta Pat ao terminar de ler, revoltado, um dos romances de Ernest Hemingway. “O Lado Bom da Vida” é uma daquelas produções que sempre nos deixam com vontade de ver mais um pouquinho, por mais que, no futuro, ela venha a ser reprisada à exaustão na televisão. E não tenho dúvidas que tais reprises incessantes deverão acontecer em um futuro próximo. A audiência vai pedir.


Cotação:



Nota: 9,5

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Lincoln

História

Os norte-americanos têm um apreço especial por seus políticos. É algo que faz parte da cultura deles e nunca entendi muito bem o porquê. Se a média dos brasileiros enxerga apenas deméritos em seus representantes (e aí não dá para entender o porquê de alguns deles continuarem sendo reeleitos ano após ano), os estadunidenses parecem agir em sentido contrário, respeitando o estadistas até que alguma prova apareça mostrando o contrário (como aconteceu com Richard Nixon). Neste sentido, era de se esperar que um filme sobre Abraham Lincoln, uma espécie de semideus nos Estados Unidos da América, obtivesse sucesso tanto junto ao público quanto junto à crítica. E é exatamente o que está acontecendo com “Lincoln”, o longa-metragem de Steven Spielberg (o cineasta que melhor representa hoje o cinema hollywoodiano) sobre o 16º presidente estadunidense.

Olhando com maior cuidado, fica difícil definir “Lincoln” como uma cinebiografia. Spielberg, em verdade, concentrou-se somente em um curto período de tempo, os meses decisivos da Guerra Civil entre os estados do norte e do sul ocorrida em virtude da questão escravagista. Portanto, não espere algo como o brasileiro “Lula – O Filho do Brasil”, de Fábio Barreto, longa que procura captar um largo período da vida do ex-presidente. Caso fosse esta a escolha de Spielberg, o filme restaria com o principal defeito da película nacional, transformando-se em uma narrativa episódica que relata vários momentos da trajetória do biografado, mas sem que se chegue a um resultado coeso e sem que possamos compreender um pouco mais da figura histórica. O cineasta norte-americano poderia facilmente cair nessa tentação, pois que a biografia de Lincoln, tal como a de Lula, é repleta de altos e baixos, cheia de momentos de perseverança e superação. Entretanto, fez uma ótima opção ao retratar a batalha política pela aprovação no Congresso da 13ª Emenda à Constituição, aquela que garantiu a abolição da escravidão no território ianque.


Este é o primeiro dado peculiar a ser apontado para o espectador médio sobre “Lincoln”. Trata-se de um filme eminentemente político e que se apega a detalhes históricos. Não é por acaso que as cópias exibidas fora dos Estados Unidos contam com uma introdução para situar o espectador no contexto histórico, já que seria complicado fazer o público compreender a ação sem que certos pormenores fossem elucidados. Não é uma obra para as massas no sentido estrito da expressão. Alguns poderão considerá-lo até aborrecido e, se não tiverem um pouco mais de paciência, abandonarão a sala de exibição (como vi alguns fazendo na sessão a que assisti). Contudo, caso você tenha paciência, desfrutará de uma bela abordagem a respeito do estadista e, sim, haverá também os momentos de tensão e emoção. Afinal, Spielbeg é um mestre na manipulação e sempre sabe jogar para a plateia. E também conhece o caminho das pedras para fazer a ligação entre o passado e o presente.

As relações feitas entre o momento histórico vivido pelo republicano Abraham Lincoln e o presente do democrata Barack Obama são claras. Da mesma forma que Obama precisou gastar muito de seu capital político para aprovar a reforma no sistema de saúde dos EUA (e ainda precisará para aprovar medidas como um maior controle no comércio de armas e o casamento entre homossexuais), Lincoln teve de empenhar todo o seu imenso prestígio popular para aprovar a citada 13ª Emenda, e não sem muitas dificuldades, conchavos, trocas de favores, compra de votos, além do simples convencimento das consciências dos parlamentares. Sim, a política é podre no mundo todo e na terra de Tio Sam não é diferente. Nós, brasileiros, é que nos deixamos iludir por uma mídia que no faz acreditar que o partido que atualmente ocupa nossa presidência é o mais corrupto de todos os tempos. Como o roteiro, escrito por Tony Kushner (e baseado no livro "Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln", Doris Kearns Goodwin) realça, Lincoln precisou usar de vários expedientes para alcançar seu objetivo, inclusive os menos elogiáveis. Aliás, não só ele. O deputado Thadeus Stevens - interpretado por Tommy Lee Jones em grande atuação - um abolicionista por convicção na igualdade plena entre os homens, acaba por renegar seus valores para que seus discurso soasse mais convincente perante os deputados em dúvida. O fins justificam os meios? Spielberg parece sustentar que, ao menos em alguns casos, os fins, sim, justificam os meios, uma posição que pode soar polêmica, mas que se mostra defensável diante das circunstâncias exibidas no longa.


Ressalte-se que a produção é repleta de toda a perfeição técnica costumeira nos filmes do cineasta, aqui acompanhado de seus velhos parceiros, como Janusz Kaminski na fotografia, a qual prima por paletas escuras e focos de luz concentrados nos personagens, e John Williams na trilha sonora (muito embora não seja das mais inspiradas, ainda é assim é competente), além de um figurino impecável nas mãos de Joana Johnston. Contudo, o desempenho do elenco é mesmo algo à parte. Sally Field, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante, entrega uma ótima atuação na pele da esposa de Lincoln, uma mulher perturbada pela perda de um dos filhos do casal, mas que tem uma influência marcante sobre as decisões do presidente. Tommy Lee Jones, como já frisado acima, mostra que realmente está em boa fase, sendo também indicado ao Oscar como ator coadjuvante. Mas não se pode negar que é mesmo Daniel Day-Lewis o principal catalisador das atenções. Day-Lewis é um daqueles atores que parecem incapazes de ter uma má atuação. Em uma composição perfeitamente equilibrada, ele traz Lincoln de volta com seu tipo desengonçado, caipira, mas também um contador de causos cheio de sabedoria. Além disso, faz o espectador sentir a solidão que o poder confere a um homem responsável por tantos destinos. Impressionante sua naturalidade, mesmo nos momentos mais emocionais, onde ele nunca extrapola para a super atuação. Não resta dúvida que ele é a versão masculina de Meryl Streep este ano. Está levando todos os prêmios por sua performance (no último domingo, levou o Sindicato de Atores) e é virtualmente imbatível.

Este é um dos filmes de Steven Spielberg que se filiam à sua vertente mais “sóbria”, digamos assim, juntando-se a obras como “A Lista Schindler” (Schindler’s List, 1993) e “Munique” (2005). Entretanto, está um pouco abaixo do patamar alcançado com os mencionados filmes (sim, eu considero “Munique” um longa injustiçado e um de seus melhores trabalhos). Há momentos em que “Lincoln” adquire um certo tom hagiográfico, principalmente na conclusão, onde é retratado o discurso de Getysburg e o personagem é mostrado como aquele presente nas cédulas de 5 dólares (algo que Spielberg disse que desejou evitar). Ademais, o longa realmente carece de ritmo em alguns momentos, deixando-nos meio que perdidos em meio aos emaranhados políticos. Todavia, tais problemas não tiram dele sua relevância e, decididamente, este é o melhor registro do seu diretor em vários anos (mais precisamente, desde o citado “Munique”). E, se você gosta de Cinema e História (assim, com “h” maiúsculo), “Lincoln” se coloca como um filme obrigatório.


Cotação:



Nota: 9,0

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Comentários sobre o SAG 2013, a premição do PGA e uma tragédia anunciada




Breves considerações sobre a premiação do Sindicato de Atores:

- O prêmio de ator coadjuvante para Tommy Lee Jones lhe dá força para o Oscar, mas é bom lembrar que Christoph Waltz estranhamente não foi indicado ao SAG (será que ele não é filiado ao Sindicato?). A disputa pelo prêmio da Academia ainda está em aberto, portanto;

- Já entre as mulheres, está praticamente garantida a premiação para Anne Hathaway;

 - Tal como no Globo de Ouro, é chato ter de acompanhar as premiações de televisão no SAG;

 - Jennifer Lawrence já virou barbada para a noite de 24 de fevereiro, assim como Daniel Day-Lewis (definitivamente imbatível);

 - O prêmio de melhor elenco para “Argo” dá ainda mais força para o filme no Oscar, muito embora ele me pareça ser uma grande contradição do Sindicato. Se “Lincoln” venceu em duas categorias (ator e ator coadjuvante) e ainda foi indicado em outra (atriz coadjuvante), como pode “Argo” ter o melhor elenco? Acho que quiseram distribuir os prêmios, mais do que qualquer outra coisa.




Sobre o Sindicato de Produtores:

Argo venceu e, sinceramente, não sei mais o que vai acontecer no Oscar. O certo é que raramente um filme que não foi indicado para melhor diretor venceu na categoria principal. Esse vai ser um ano muito difícil para previsões em melhor filme, é a única certeza que temos. Vamos aguardar. Já “Detona Ralph”, ao levar o PGA, se tornou favorito ao Oscar de melhor animação.


Fazendo uma pausa no cinema, sinto-me compelido a manifestar minha consternação e solidariedade pelas vítimas e famílias da tragédia ocorrida neste último domingo em Santa Maria – RS. É muito triste tomar conhecimento de histórias como a de uma das meninas mortas, encontrada com o celular onde constavam 104 ligações de sua mãe. Ou a do rapaz que tinha saído com os amigos para comemorar seu aniversário de 20 anos. Todos vítimas de uma irresponsabilidade dos proprietários e do poder público, o qual permitia o funcionamento de uma boate cheia de irregularidades. Pena que no Brasil as tragédias só sirvam para fazer as pessoas chorarem e nunca para mudar a atitude dos responsáveis e tentar evitar que tragédias como essa nunca mais aconteçam.

Que Deus abençoe a alma destes jovens e que console suas famílias.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Django Livre

A escravidão segundo um artista pop


Não há dúvidas de que Quentin Tarantino é um cineasta controverso. Muitos o amam, alguns o odeiam, mas, em geral, este é o preço se paga quando se desenvolve um trabalho extremamente autoral. O adjetivo “controverso” também pode ser aplicado a nomes como Jean-Luc Godard, por exemplo. Contudo, mesmo os críticos de Gordard devem reconhecer a sua importância para a linguagem cinematográfica. E Tarantino, com o seu processo de reciclagem-liquidificador de referências cinéfilas, tem prestado um enorme serviço à Sétima Arte nas últimas duas décadas. Uma das críticas que pairam sobre a obra de Tarantino é seu o excesso de violência. Em alguns casos, acredito que a crítica é válida. Gosto de citar a famosa cena da orelha em “Cães de Aluguel” (Reservoir Dogs, 1992) como exemplo de violência gratuita em sua obra. Entretanto, cabe lembrar que este último foi o seu primeiro longa-metragem na direção, o que nos faz compreender alguns excessos da imaturidade. Por outro lado, em “Django Livre”, seu último filme já em cartaz no circuito comercial brasileiro, há muita violência, mas, pelo menos em boa parte da projeção, não me pareceu gratuita.

Apesar de ser uma mancha presente na história norte-americana, tal como na brasileira, o cinema ianque pouco filmou a escravidão negra, muito embora o tema do preconceito racial seja recorrente em suas produções (como no caso do recente “Histórias Cruzadas”). Uma elipse temática significativa, principalmente quando lembramos que o holocausto promovido pelos nazistas conta com inúmeras produções que retratam seus horrores, uma disparidade que provavelmente é resultado da influência que judeus e afrodescendentes exercem na indústria cultural hollywoodiana. Os primeiros possuem um enorme controle e influência sobre a produção cinematográfica ianque – basta lembrar que Steven Spielberg, por exemplo, é judeu - enquanto negros, em geral, são excluídos do processo de produção e criação, um óbvio reflexo duradouro do passado. Assim, “Django Livre” acaba por se revestir de uma importância bem maior do que de um mero faroeste repleto de tiroteios e cenas violentas. Mostra-se, antes de tudo, como uma tour de force do diretor e roteirista para nos deixar revoltados diante dos horrores da escravidão. Muitos se enganam ao pensar que Tarantino sempre faz cinema apenas sobre Cinema e este me parece o caso mais emblemático em sua carreira que atesta tal afirmação. “Django Unchained” é, primordialmente, um filme sobre escravidão, mesmo que esteja revestido pelo subgênero western spaghetti que tanto influenciou o cineasta.

Começando pelo título e nome do protagonista, o mesmo da película estrelada por Franco Nero em 1966, quase tudo no longa em questão remonta ao subgênero consagrado nas mãos de nomes como Sergio Leone, desde a trilha sonora, até as formas de enquadramento, elementos do roteiro, edição, fotografia e design de produção. Tarantino é fã confesso do faroeste spaghetti (ele já declarou em entrevistas que considera “Três Homens Em Conflito”, de Leone, como o filme mais bem dirigido de todos os tempos) e em ocasiões anteriores, mormente em “Kill Bill vols. 1 e 2” (2003, 2004), já havia demonstrado tal apreço, chegando agora o momento de realizar um trabalho específico do gênero. Se com o mencionado “Kill Bill” ele realizou o seu “filme de artes marciais” e com “Bastardos Inglórios” (Inglourious Basterds, 2009), nos presenteou com seu “filme de Segunda Guerra”, agora é a vez do western, misturando, além da ação típica do bang-bang, uma boa dose de romance.

Mais do que o desejo de liberdade, é o amor que leva Django (personagem de Jamie Foxx, ótimo) a sair da sua condição de escravo para mover montanhas em busca de sua amada. Ele é libertado por um caçador de recompensas, o alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz, impecável!), o qual se compromete a ajudá-lo a encontrar sua esposa, Brunhilde (papel de Kerry Williams), caso Django também o ajude a encontrar criminosos foragidos. Depois de um bom tempo, em que Django se torna um exímio pistoleiro, eles chegam às propriedades de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio, também excelente!), um tiranete obcecado por lutas mortais entres negros escravos, os chamados “mandingos”. É lá que está a sua Brunhilde e é de lá que eles tentarão salvar a moça e escapar com vida.

Curiosamente, o alemão Schultz é o personagem mais esclarecido em relação ao horror da escravidão, rejeitando a ideia de que homens sejam propriedade de outros homens. Além disso, Tarantino pescou referências na mitologia germânica para compor seus personagens. Na lenda alemã, Brunhilde é uma valquíria que foi isolada em uma montanha e de lá foi resgatada pelo bravo Siegfried. Seria uma aceno de Tarantino aos alemães depois de vilanizá-los no referido “Bastardos Inglórios”? Talvez, mas não deixa de ser também um atestado de suas múltiplas fontes de inspiração, que não se limitam apenas ao próprio cinema ou à cultura pop descartável. Ao mesmo tempo, Django se mostra um personagem que em nenhum momento se envergonha da própria altivez, possuindo uma consciência inata de que nada o difere dos homens de cor branca. Ele toma as rédeas de seu próprio destino, o que denota a visão do autor de que os negros não foram passivos na luta pela sua liberdade e igualdade, não constituindo suas conquistas apenas uma benesse dos brancos, como por vezes faz supor a ideologia tradicional.

A violência extrema, que exige bastante estômago em certos momentos, apresentada em algumas sequências parece funcionar, acima de tudo, como elemento catalisador que nos gera a consciência do absurdo do processo escravocrata. Todavia, é claro que Tarantino recheia seu filme de plástica, ação e seu peculiar humor, destilado, principalmente, através de seus costumeiros diálogos afiados. Nunca os tiroteios de um bang-bang cinematográfico jorraram tanto sangue na tela, mas também é provável que nunca tenha existido um personagem do gênero western com um discurso tão convincente e elaborado quanto o do Dr. Schultz. A mistureba típica de Tarantino acaba nos levando a uma montanha-russa de sensações, fazendo o público passar da tensão ao riso com facilidade. Pena que o longa acabe se perdendo um pouco no seu último terço. Seu clímax ocorre cerca de 30 minutos antes do fim da projeção, fazendo com que o seu desfecho reste apagado e descontinuado, uma espécie de enchimento de linguiça desnecessário.


Por outro lado, Tarantino mostra-se, como de costume, excelente na direção de atores. O elenco está coeso, entregando atuações memoráveis de Waltz (já premiado com o Globo de Ouro), DiCaprio, estranhamente esquecido pela Academia de Hollywood, e do protagonista Jamie Foxx, também deixado de lado nas premiações do ano. Entretanto, o caso mais estranho parece ser o de Samuel L. Jackson, antigo parceiro de Tarantino. Ele tem aqui sua melhor atuação em muitos anos, na pele de um repugnante caseiro que é o mais racista dentre todos os tipos da narrativa, vivendo na “casa grande” e oprimindo os demais escravos (aqui no Brasil, podemos traçar uma convergência com os feitores negros que perseguiam e torturavam escravos). Não obstante, sua atuação vem sendo pouco comentada até mesmo pela crítica. Uma injustiça que carece de boas explicações. No mais, Tarantino preenche a projeção, como de hábito, com participações especiais, como a de Jonah Hill (hilária, por sinal), e ainda a de Franco Nero, perguntando a Django como se pronuncia o seu nome. Dentre os aspectos habitualmente marcantes na obra do cineasta, a trilha sonora é a que se mostra menos inspirada, apesar de contar com o tema original de Ennio Morricone para o Django dos anos 60. Não que a trilha seja ruim, mas talvez estejamos mal acostumados com o uso excepcional da música em outras oportunidades, e aqui ela não se mostra tão especial.

“Django Livre”, com certeza, não é o melhor filme de Quentin Tarantino. Teria se saído melhor se tivesse sua metragem reduzida em uns 30 minutos como já destacado. Contudo, trata-se da obra em que o diretor deixa mais claro ao espectador sua verdadeira pretensão, que, no caso, é a de nos fazer lembrar que a escravidão foi uma passagem terrível da história da humanidade e, tal como os horrores da Segunda Guerra Mundial, jamais deverá ser esquecida. Tarantino pode ser um cinéfilo viciado, mas não um alienado que usa sua arte apenas para referenciar a própria cultura pop. Aqui, ele se revela um engajado cheio de talento. Um virtuose da imagem que retira a poeira de uma temática difícil em um país que, apesar de hoje ter um presidente negro, ainda precisa curar suas feridas.


Cotação:
Nota: 9,0

domingo, 20 de janeiro de 2013

Cinemúsica

La Bamba
(La Bamba, 1987)



Rigorosamente meteórico


Se você gosta de música, mais especificamente de rock, já deve ter ouvido falar do “dia em que o rock morreu”. A alcunha foi atribuída ao dia 03 de fevereiro de 1959, data em que um avião fretado caiu depois de enfrentar uma tempestade de neve. Entre os passageiros estavam três jovens astros ascendentes na música pop: Buddy Holly, Big Bopper e o mais novo deles, Ritchie Valens, então com apenas 17 anos. Valens teve uma carreira rigorosamente meteórica. Desde que foi descoberto pelo produtor Bob Keane até o fatídico acidente aéreo, transcorreram apenas 8 meses durante os quais ficou famoso ao lançar sucessos como “Come On Let's Go”, “Donna” e a versão rock 'n roll para a tradicional música mexicana “La Bamba”, a qual também acabou se tornando o título da cinebiografia do cantor produzida em 1987 e que acabou se transformando em um dos clássicos oitentistas, dada a grande popularidade que alcançou.

Escrito e dirigido por Luis Valdez, diretor eminentemente de filmes televisivos, o longa-metragem conta de forma redonda a vida do astro (interpretado por um inspirado Lou Diamond Phillips), cujo nome verdadeiro era Ricardo Esteban Valenzuela Reyes, estadunidense de ascendência mexicana nascido em Pacoima, distrito de Los Angeles. Apesar de sua origem latina, Valens pouco falava espanhol e possuía uma identidade cultural mais ligada aos Estados Unidos, sendo perceptível a enorme influência de Elvis Presley em sua breve carreira. Entretanto, mais do que o aspecto profissional, é sobre a vida pessoal do rapaz que o roteiro se debruça, esmiuçando sua vida familiar e o conturbado relacionamento com o irmão, Bob (Esai Morales), rapaz-problema que não consegue sair da delinquência. A vida marginal poderia ser o mesmo destino de Ritchie caso ele não fosse apaixonado pela música o suficiente para acabar não nutrindo outros interesses. Sua única outra fonte de atenção era Donna Ludwig (papel da desconhecida Danielle Von Zerneck), seu amor de colégio que inspirou a composição do mencionado hit “Donna” (e que canção pegajosa, hein?) 


Curioso como, ao longo da projeção, algumas cenas possuem tamanha força que elas continuam em nossa memória mesmo depois de muitos anos sem vermos o filme. Em “La Bamba”, a sequência em que Valens apresenta sua composição “Donna” para a própria musa inspiradora (que hoje ainda é viva), de violão em punho em uma cabine telefônica, nunca me saiu da mente e é de um romantismo pra lá de eficiente. Da mesma forma, a sua primeira apresentação cantando “La Bamba” é memorável, jogando na tela toda a energia roqueira da versão de Valens, que transformou a canção folclórica em um sucesso mundial até hoje. E ainda temos os momentos no aeroporto antes da partida do avião, quando o protagonista pega o voo depois de disputar a sorte na moeda com um outro possível passageiro. Percebe-se, assim que Valdez é hábil com as imagens e ótimo em construir o clima narrativo, aproximando-nos do astro e nos fazendo sentir como um parente seu. Ou seja, o envolvimento com a narrativa é inevitável, mesmo que você já saiba como a história terminará.

Entretanto, Valdez acaba se deixando levar por armadilhas clichês, principalmente nas derradeiras cenas, onde adota elementos como imagens em câmera lenta de Valens, um dos mais pobres recursos típicos da televisão, caindo em uma pieguice desnecessária. Ademais, o elenco mostra-se muito oscilante. É certo que Lou Diamond Phillips tem aqui a grande atuação de sua carreira, que estava ainda em um momento de ascensão. No ano seguinte, inclusive, ele seria indicado ao Oscar de ator coadjuvante por “O Preço do Desafio” (Stand and Deliver, 1988) e ainda participou de sucessos como “Os Jovens Pistoleiros” (Young Guns, 1988). Contudo, acabou enfrentando uma declínio não muito explicável e hoje se limita a fazer papeis coadjuvantes em séries de TV. Outro que mostra talento é Esai Morales na pele do irmão problemático de Valens. Por outro lado, Danielle Von Zerneck é uma atriz fraquinha, fraquinha e entendemos logo porque ela não teve muito futuro depois deste longa, mesmo com um papel de destaque.


Mas, vale ressaltar: ao fim do longa é quase impossível não se consternar com o destino daquele rapaz cheio de vida e que teve sua trilha de sucesso tristemente encurtada. O nosso Raul Seixas, inclusive (outro nome da música que morreu antes do que deveria), ressaltava que no fatídico dia da queda do avião, a música não perdeu apenas três jovens astros, mas também toda a produção posterior que eles certamente iriam legar, tanto em termos quantitativos quanto em influência para os artistas seguintes. Talvez por isso, mesmo que frequentemente obras como “La Bamba” se mostrem imperfeitas, elas ao mesmo tempo são muito relevantes ao buscar preservar a imagem e revigorar o legado de artistas que já se foram há algum tempo e merecem que seu talento seja visto por novas gerações. Aliás, não sei porque alguém ainda não teve a ideia de fazer um filme sobre Buddy Holly, morto no mesmo acidente e ainda mais influente no meio musical do que Valens.


Cotação: 



Nota: 8,0

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Comentários Sobre o Globo de Ouro 2013


Antes de tudo, convém ressaltar um aspecto. Nós temos a mania de analisar as premiações que antecedem o Oscar como “termômetros” para este, como se tais prêmios não fossem independentes da Academia de Hollywood e não tivessem um valor próprio. Considero esta forma de pensar um erro. Cada prêmio tem seu próprio valor e merecimento. No caso do Globo de Ouro é o reconhecimento dos jornalistas estrangeiros que trabalham no meio cinematográfico, possuindo nuances e características próprias e que não necessariamente busca se configurar como uma “prévia” do Oscar. “Argo”, de Ben Affleck, levou o Globo na categoria de melhor filme em drama, o que não quer dizer que esta seja a tendência da Academia. Basta lembrar que, nos últimos 10 anos, em apenas 4 deles houve coincidência, na referida categoria, entre os vencedores do Globo e do Oscar. É possível que o Globo de Ouro influencie alguns votantes? Sim, mas isso está longe de ser determinante. Se eu votasse no Oscar não deixaria de votar em “As Aventuras de Pi” porque “Argo” levou o Globo de Ouro (muito embora este último também seja um ótimo filme).

Dito isto, vamos a alguns breves comentários:

- A Associação de Imprensa Estrangeira é mesmo fã de carteirinha de George Clooney, um dos produtores de “Argo”. Nunca perdem a oportunidade de premiá-lo (ano passado, foi como melhor ator);

- A dupla de apresentadoras, Tina Fey e Amy Poehler , soltou piadas pra lá de ácidas (uma delas dizendo que Kathryn Bigelow passou três anos de tortura quando estava casada com James Cameron), mas tinham muito mais empatia do que o insuportável Rick Gervais;

- O mais chato do Globo de Ouro é ter de acompanhar as premiações de TV. Um saco...;
- Um dos grandes momentos da noite foi a presença do ex-presidente Bill Clinton para promover “Licoln”. Uma bela jogada de marketing de Spielberg (Clinton é amigo dele) visando o Oscar, claro;

- Outro grande momento da noite, sem duvida, foi o prêmio Cecil B. De Mille para Jodie Foster. Ou melhor, o discurso dela, um dos mais francos, abertos e categóricos que já vi em premiações. Sem máscaras ou hipocrisias e, ao mesmo tempo, sem ferir ninguém. Só é estranho ela receber um prêmio pelo “conjunto da obra” com 50 anos...;


- Eu sempre fico feliz vendo Adele receber prêmios. É a vitória da verdadeira música em detrimento da exploração deslavada da imagem e sexualidade para vender. Ela é uma diva pop com espírito de rock ‘n roll;

· Convenhamos que é sempre sensacional ver o Tarantino sendo premiado;

- Mesmo levando em consideração o que foi dito acima (Globo de Ouro não é prévia do Oscar), Christoph Waltz saiu na frente na disputa pelo Oscar de melhor ator coadjuvante. Este ano a categoria está disputadíssima e será decidida nos detalhes;

- Daniel Day-Lewis está na mesma condição que Meryl Streep ano passado: imbatível!;

- “Amor” é, de fato, o filme estrangeiro do ano em qualquer premiação. A consagração definitiva de Michael Haneke;

- Jennifer Lawrence está mesmo destinada a ser uma das grandes estrelas do cinema. A premiação no Globo de Ouro só confirma o que todo mundo já desconfiava, mesmo com aquela piadinha sem graça sobre a Meryl Streep;

- Anne Hathaway também confirmou seu status de queridinha de Hollywood. Aliás, quem diria, “Os Miseráveis” saiu como grande vencedor da noite, com 3 globos, já que Hugh Jackman levou como melhor ator em comédia ou musical e o filme foi o melhor no mesmo gênero.

 - Adorei o prêmio de trilha sonora para “As Aventuras de Pi”. Merecido!;

Bem, é isso! E o Oscar é dia 24 de fevereiro! Até lá, muitas águas vão rolar.