quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Django Livre

A escravidão segundo um artista pop


Não há dúvidas de que Quentin Tarantino é um cineasta controverso. Muitos o amam, alguns o odeiam, mas, em geral, este é o preço se paga quando se desenvolve um trabalho extremamente autoral. O adjetivo “controverso” também pode ser aplicado a nomes como Jean-Luc Godard, por exemplo. Contudo, mesmo os críticos de Gordard devem reconhecer a sua importância para a linguagem cinematográfica. E Tarantino, com o seu processo de reciclagem-liquidificador de referências cinéfilas, tem prestado um enorme serviço à Sétima Arte nas últimas duas décadas. Uma das críticas que pairam sobre a obra de Tarantino é seu o excesso de violência. Em alguns casos, acredito que a crítica é válida. Gosto de citar a famosa cena da orelha em “Cães de Aluguel” (Reservoir Dogs, 1992) como exemplo de violência gratuita em sua obra. Entretanto, cabe lembrar que este último foi o seu primeiro longa-metragem na direção, o que nos faz compreender alguns excessos da imaturidade. Por outro lado, em “Django Livre”, seu último filme já em cartaz no circuito comercial brasileiro, há muita violência, mas, pelo menos em boa parte da projeção, não me pareceu gratuita.

Apesar de ser uma mancha presente na história norte-americana, tal como na brasileira, o cinema ianque pouco filmou a escravidão negra, muito embora o tema do preconceito racial seja recorrente em suas produções (como no caso do recente “Histórias Cruzadas”). Uma elipse temática significativa, principalmente quando lembramos que o holocausto promovido pelos nazistas conta com inúmeras produções que retratam seus horrores, uma disparidade que provavelmente é resultado da influência que judeus e afrodescendentes exercem na indústria cultural hollywoodiana. Os primeiros possuem um enorme controle e influência sobre a produção cinematográfica ianque – basta lembrar que Steven Spielberg, por exemplo, é judeu - enquanto negros, em geral, são excluídos do processo de produção e criação, um óbvio reflexo duradouro do passado. Assim, “Django Livre” acaba por se revestir de uma importância bem maior do que de um mero faroeste repleto de tiroteios e cenas violentas. Mostra-se, antes de tudo, como uma tour de force do diretor e roteirista para nos deixar revoltados diante dos horrores da escravidão. Muitos se enganam ao pensar que Tarantino sempre faz cinema apenas sobre Cinema e este me parece o caso mais emblemático em sua carreira que atesta tal afirmação. “Django Unchained” é, primordialmente, um filme sobre escravidão, mesmo que esteja revestido pelo subgênero western spaghetti que tanto influenciou o cineasta.

Começando pelo título e nome do protagonista, o mesmo da película estrelada por Franco Nero em 1966, quase tudo no longa em questão remonta ao subgênero consagrado nas mãos de nomes como Sergio Leone, desde a trilha sonora, até as formas de enquadramento, elementos do roteiro, edição, fotografia e design de produção. Tarantino é fã confesso do faroeste spaghetti (ele já declarou em entrevistas que considera “Três Homens Em Conflito”, de Leone, como o filme mais bem dirigido de todos os tempos) e em ocasiões anteriores, mormente em “Kill Bill vols. 1 e 2” (2003, 2004), já havia demonstrado tal apreço, chegando agora o momento de realizar um trabalho específico do gênero. Se com o mencionado “Kill Bill” ele realizou o seu “filme de artes marciais” e com “Bastardos Inglórios” (Inglourious Basterds, 2009), nos presenteou com seu “filme de Segunda Guerra”, agora é a vez do western, misturando, além da ação típica do bang-bang, uma boa dose de romance.

Mais do que o desejo de liberdade, é o amor que leva Django (personagem de Jamie Foxx, ótimo) a sair da sua condição de escravo para mover montanhas em busca de sua amada. Ele é libertado por um caçador de recompensas, o alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz, impecável!), o qual se compromete a ajudá-lo a encontrar sua esposa, Brunhilde (papel de Kerry Williams), caso Django também o ajude a encontrar criminosos foragidos. Depois de um bom tempo, em que Django se torna um exímio pistoleiro, eles chegam às propriedades de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio, também excelente!), um tiranete obcecado por lutas mortais entres negros escravos, os chamados “mandingos”. É lá que está a sua Brunhilde e é de lá que eles tentarão salvar a moça e escapar com vida.

Curiosamente, o alemão Schultz é o personagem mais esclarecido em relação ao horror da escravidão, rejeitando a ideia de que homens sejam propriedade de outros homens. Além disso, Tarantino pescou referências na mitologia germânica para compor seus personagens. Na lenda alemã, Brunhilde é uma valquíria que foi isolada em uma montanha e de lá foi resgatada pelo bravo Siegfried. Seria uma aceno de Tarantino aos alemães depois de vilanizá-los no referido “Bastardos Inglórios”? Talvez, mas não deixa de ser também um atestado de suas múltiplas fontes de inspiração, que não se limitam apenas ao próprio cinema ou à cultura pop descartável. Ao mesmo tempo, Django se mostra um personagem que em nenhum momento se envergonha da própria altivez, possuindo uma consciência inata de que nada o difere dos homens de cor branca. Ele toma as rédeas de seu próprio destino, o que denota a visão do autor de que os negros não foram passivos na luta pela sua liberdade e igualdade, não constituindo suas conquistas apenas uma benesse dos brancos, como por vezes faz supor a ideologia tradicional.

A violência extrema, que exige bastante estômago em certos momentos, apresentada em algumas sequências parece funcionar, acima de tudo, como elemento catalisador que nos gera a consciência do absurdo do processo escravocrata. Todavia, é claro que Tarantino recheia seu filme de plástica, ação e seu peculiar humor, destilado, principalmente, através de seus costumeiros diálogos afiados. Nunca os tiroteios de um bang-bang cinematográfico jorraram tanto sangue na tela, mas também é provável que nunca tenha existido um personagem do gênero western com um discurso tão convincente e elaborado quanto o do Dr. Schultz. A mistureba típica de Tarantino acaba nos levando a uma montanha-russa de sensações, fazendo o público passar da tensão ao riso com facilidade. Pena que o longa acabe se perdendo um pouco no seu último terço. Seu clímax ocorre cerca de 30 minutos antes do fim da projeção, fazendo com que o seu desfecho reste apagado e descontinuado, uma espécie de enchimento de linguiça desnecessário.


Por outro lado, Tarantino mostra-se, como de costume, excelente na direção de atores. O elenco está coeso, entregando atuações memoráveis de Waltz (já premiado com o Globo de Ouro), DiCaprio, estranhamente esquecido pela Academia de Hollywood, e do protagonista Jamie Foxx, também deixado de lado nas premiações do ano. Entretanto, o caso mais estranho parece ser o de Samuel L. Jackson, antigo parceiro de Tarantino. Ele tem aqui sua melhor atuação em muitos anos, na pele de um repugnante caseiro que é o mais racista dentre todos os tipos da narrativa, vivendo na “casa grande” e oprimindo os demais escravos (aqui no Brasil, podemos traçar uma convergência com os feitores negros que perseguiam e torturavam escravos). Não obstante, sua atuação vem sendo pouco comentada até mesmo pela crítica. Uma injustiça que carece de boas explicações. No mais, Tarantino preenche a projeção, como de hábito, com participações especiais, como a de Jonah Hill (hilária, por sinal), e ainda a de Franco Nero, perguntando a Django como se pronuncia o seu nome. Dentre os aspectos habitualmente marcantes na obra do cineasta, a trilha sonora é a que se mostra menos inspirada, apesar de contar com o tema original de Ennio Morricone para o Django dos anos 60. Não que a trilha seja ruim, mas talvez estejamos mal acostumados com o uso excepcional da música em outras oportunidades, e aqui ela não se mostra tão especial.

“Django Livre”, com certeza, não é o melhor filme de Quentin Tarantino. Teria se saído melhor se tivesse sua metragem reduzida em uns 30 minutos como já destacado. Contudo, trata-se da obra em que o diretor deixa mais claro ao espectador sua verdadeira pretensão, que, no caso, é a de nos fazer lembrar que a escravidão foi uma passagem terrível da história da humanidade e, tal como os horrores da Segunda Guerra Mundial, jamais deverá ser esquecida. Tarantino pode ser um cinéfilo viciado, mas não um alienado que usa sua arte apenas para referenciar a própria cultura pop. Aqui, ele se revela um engajado cheio de talento. Um virtuose da imagem que retira a poeira de uma temática difícil em um país que, apesar de hoje ter um presidente negro, ainda precisa curar suas feridas.


Cotação:
Nota: 9,0

domingo, 20 de janeiro de 2013

Cinemúsica

La Bamba
(La Bamba, 1987)



Rigorosamente meteórico


Se você gosta de música, mais especificamente de rock, já deve ter ouvido falar do “dia em que o rock morreu”. A alcunha foi atribuída ao dia 03 de fevereiro de 1959, data em que um avião fretado caiu depois de enfrentar uma tempestade de neve. Entre os passageiros estavam três jovens astros ascendentes na música pop: Buddy Holly, Big Bopper e o mais novo deles, Ritchie Valens, então com apenas 17 anos. Valens teve uma carreira rigorosamente meteórica. Desde que foi descoberto pelo produtor Bob Keane até o fatídico acidente aéreo, transcorreram apenas 8 meses durante os quais ficou famoso ao lançar sucessos como “Come On Let's Go”, “Donna” e a versão rock 'n roll para a tradicional música mexicana “La Bamba”, a qual também acabou se tornando o título da cinebiografia do cantor produzida em 1987 e que acabou se transformando em um dos clássicos oitentistas, dada a grande popularidade que alcançou.

Escrito e dirigido por Luis Valdez, diretor eminentemente de filmes televisivos, o longa-metragem conta de forma redonda a vida do astro (interpretado por um inspirado Lou Diamond Phillips), cujo nome verdadeiro era Ricardo Esteban Valenzuela Reyes, estadunidense de ascendência mexicana nascido em Pacoima, distrito de Los Angeles. Apesar de sua origem latina, Valens pouco falava espanhol e possuía uma identidade cultural mais ligada aos Estados Unidos, sendo perceptível a enorme influência de Elvis Presley em sua breve carreira. Entretanto, mais do que o aspecto profissional, é sobre a vida pessoal do rapaz que o roteiro se debruça, esmiuçando sua vida familiar e o conturbado relacionamento com o irmão, Bob (Esai Morales), rapaz-problema que não consegue sair da delinquência. A vida marginal poderia ser o mesmo destino de Ritchie caso ele não fosse apaixonado pela música o suficiente para acabar não nutrindo outros interesses. Sua única outra fonte de atenção era Donna Ludwig (papel da desconhecida Danielle Von Zerneck), seu amor de colégio que inspirou a composição do mencionado hit “Donna” (e que canção pegajosa, hein?) 


Curioso como, ao longo da projeção, algumas cenas possuem tamanha força que elas continuam em nossa memória mesmo depois de muitos anos sem vermos o filme. Em “La Bamba”, a sequência em que Valens apresenta sua composição “Donna” para a própria musa inspiradora (que hoje ainda é viva), de violão em punho em uma cabine telefônica, nunca me saiu da mente e é de um romantismo pra lá de eficiente. Da mesma forma, a sua primeira apresentação cantando “La Bamba” é memorável, jogando na tela toda a energia roqueira da versão de Valens, que transformou a canção folclórica em um sucesso mundial até hoje. E ainda temos os momentos no aeroporto antes da partida do avião, quando o protagonista pega o voo depois de disputar a sorte na moeda com um outro possível passageiro. Percebe-se, assim que Valdez é hábil com as imagens e ótimo em construir o clima narrativo, aproximando-nos do astro e nos fazendo sentir como um parente seu. Ou seja, o envolvimento com a narrativa é inevitável, mesmo que você já saiba como a história terminará.

Entretanto, Valdez acaba se deixando levar por armadilhas clichês, principalmente nas derradeiras cenas, onde adota elementos como imagens em câmera lenta de Valens, um dos mais pobres recursos típicos da televisão, caindo em uma pieguice desnecessária. Ademais, o elenco mostra-se muito oscilante. É certo que Lou Diamond Phillips tem aqui a grande atuação de sua carreira, que estava ainda em um momento de ascensão. No ano seguinte, inclusive, ele seria indicado ao Oscar de ator coadjuvante por “O Preço do Desafio” (Stand and Deliver, 1988) e ainda participou de sucessos como “Os Jovens Pistoleiros” (Young Guns, 1988). Contudo, acabou enfrentando uma declínio não muito explicável e hoje se limita a fazer papeis coadjuvantes em séries de TV. Outro que mostra talento é Esai Morales na pele do irmão problemático de Valens. Por outro lado, Danielle Von Zerneck é uma atriz fraquinha, fraquinha e entendemos logo porque ela não teve muito futuro depois deste longa, mesmo com um papel de destaque.


Mas, vale ressaltar: ao fim do longa é quase impossível não se consternar com o destino daquele rapaz cheio de vida e que teve sua trilha de sucesso tristemente encurtada. O nosso Raul Seixas, inclusive (outro nome da música que morreu antes do que deveria), ressaltava que no fatídico dia da queda do avião, a música não perdeu apenas três jovens astros, mas também toda a produção posterior que eles certamente iriam legar, tanto em termos quantitativos quanto em influência para os artistas seguintes. Talvez por isso, mesmo que frequentemente obras como “La Bamba” se mostrem imperfeitas, elas ao mesmo tempo são muito relevantes ao buscar preservar a imagem e revigorar o legado de artistas que já se foram há algum tempo e merecem que seu talento seja visto por novas gerações. Aliás, não sei porque alguém ainda não teve a ideia de fazer um filme sobre Buddy Holly, morto no mesmo acidente e ainda mais influente no meio musical do que Valens.


Cotação: 



Nota: 8,0

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Comentários Sobre o Globo de Ouro 2013


Antes de tudo, convém ressaltar um aspecto. Nós temos a mania de analisar as premiações que antecedem o Oscar como “termômetros” para este, como se tais prêmios não fossem independentes da Academia de Hollywood e não tivessem um valor próprio. Considero esta forma de pensar um erro. Cada prêmio tem seu próprio valor e merecimento. No caso do Globo de Ouro é o reconhecimento dos jornalistas estrangeiros que trabalham no meio cinematográfico, possuindo nuances e características próprias e que não necessariamente busca se configurar como uma “prévia” do Oscar. “Argo”, de Ben Affleck, levou o Globo na categoria de melhor filme em drama, o que não quer dizer que esta seja a tendência da Academia. Basta lembrar que, nos últimos 10 anos, em apenas 4 deles houve coincidência, na referida categoria, entre os vencedores do Globo e do Oscar. É possível que o Globo de Ouro influencie alguns votantes? Sim, mas isso está longe de ser determinante. Se eu votasse no Oscar não deixaria de votar em “As Aventuras de Pi” porque “Argo” levou o Globo de Ouro (muito embora este último também seja um ótimo filme).

Dito isto, vamos a alguns breves comentários:

- A Associação de Imprensa Estrangeira é mesmo fã de carteirinha de George Clooney, um dos produtores de “Argo”. Nunca perdem a oportunidade de premiá-lo (ano passado, foi como melhor ator);

- A dupla de apresentadoras, Tina Fey e Amy Poehler , soltou piadas pra lá de ácidas (uma delas dizendo que Kathryn Bigelow passou três anos de tortura quando estava casada com James Cameron), mas tinham muito mais empatia do que o insuportável Rick Gervais;

- O mais chato do Globo de Ouro é ter de acompanhar as premiações de TV. Um saco...;
- Um dos grandes momentos da noite foi a presença do ex-presidente Bill Clinton para promover “Licoln”. Uma bela jogada de marketing de Spielberg (Clinton é amigo dele) visando o Oscar, claro;

- Outro grande momento da noite, sem duvida, foi o prêmio Cecil B. De Mille para Jodie Foster. Ou melhor, o discurso dela, um dos mais francos, abertos e categóricos que já vi em premiações. Sem máscaras ou hipocrisias e, ao mesmo tempo, sem ferir ninguém. Só é estranho ela receber um prêmio pelo “conjunto da obra” com 50 anos...;


- Eu sempre fico feliz vendo Adele receber prêmios. É a vitória da verdadeira música em detrimento da exploração deslavada da imagem e sexualidade para vender. Ela é uma diva pop com espírito de rock ‘n roll;

· Convenhamos que é sempre sensacional ver o Tarantino sendo premiado;

- Mesmo levando em consideração o que foi dito acima (Globo de Ouro não é prévia do Oscar), Christoph Waltz saiu na frente na disputa pelo Oscar de melhor ator coadjuvante. Este ano a categoria está disputadíssima e será decidida nos detalhes;

- Daniel Day-Lewis está na mesma condição que Meryl Streep ano passado: imbatível!;

- “Amor” é, de fato, o filme estrangeiro do ano em qualquer premiação. A consagração definitiva de Michael Haneke;

- Jennifer Lawrence está mesmo destinada a ser uma das grandes estrelas do cinema. A premiação no Globo de Ouro só confirma o que todo mundo já desconfiava, mesmo com aquela piadinha sem graça sobre a Meryl Streep;

- Anne Hathaway também confirmou seu status de queridinha de Hollywood. Aliás, quem diria, “Os Miseráveis” saiu como grande vencedor da noite, com 3 globos, já que Hugh Jackman levou como melhor ator em comédia ou musical e o filme foi o melhor no mesmo gênero.

 - Adorei o prêmio de trilha sonora para “As Aventuras de Pi”. Merecido!;

Bem, é isso! E o Oscar é dia 24 de fevereiro! Até lá, muitas águas vão rolar.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi

Como fazer um filme de arte para as massas


Ante de tudo, vamos abrir parênteses para um assunto tangente ao filme do qual trataremos nas linhas abaixo. Eu tenho um ranço com relação à obra literária “A Vida de Pi” (Life of Pi), do canadense Yann Martel, vencedora do Booker Prize anos atrás. Martel plagiou uma ideia concebida pelo escritor brasileiro Moacyr Scliar na sua novela “Max e os Felinos”, onde narrou a estória de uma náufrago que sobrevivia em um bote juntamente com um jaguar. Desde que o livro de Martel venceu o prêmio, a hipótese de plágio foi levantada, gerando um enorme constrangimento. Cavalheiro, Scliar refutou a insinuação de plágio e Martel acabou por dizer que a “centelha” para o seu livro surgiu a partir de uma resenha negativa sobre “Max e os Felinos”, afirmando que ideia havia sido mal aproveitada. O canadense, inclusive, passou a incluir nas edições posteriores um agradecimento a Scliar pela “faísca” que lhe foi dada. Recentemente, vi uma matéria de um jornalista brasileiro afirmando que o livro de Martel realmente seria melhor e que põe em relevo a tal ideia negligenciada por Scliar, que tratava na sua obra, metaforicamente, apenas de uma história de imigração que seria a da sua própria família. Bem, eu li o livro de Scliar e posso dizer que a afirmação me pareceu - e vou ser sincero – ou simplória ou estúpida. Nenhum autor é obrigado a atender às expectativas de ninguém, criando tramas que não aquelas que deseja contar. Scliar colocou no livro um tema caro às suas origens e não tinha nenhuma obrigação de tratar de Deus, fé ou qualquer outro tema similar, como o fez Martel. Agora, tomar a ideia de um outro escritor e colocar como sua, assim, como quem não quer nada, é que fica, no mínimo, feio.

Dito isto, cabe dizer também que Ang Lee, um dos grandes e mais versáteis diretores do cinema contemporâneo, não tem nada a ver com a celeuma e em “As Aventuras de Pi” entrega um dos seus melhores trabalhos, o que não é pouco se recordarmos o seu retrospecto de excelência. Baseado no livro do referido Martel, ele nos leva a uma jornada lindamente filmada que encanta não apenas por seu visual, mas também pela sua enorme capacidade de unir o artístico ao comercial, algo que, convenhamos, está longe de ser fácil. Impressiona a maneira como o diretor, mesmo tendo boa parte da sua narrativa presa a um bote com um rapaz, um tigre de Bengala, uma zebra, um orangotango e uma hiena, consegue estabelecer ritmo, tensão e interesse, por mais que a situação apresentada pudesse nos levar a um possível tédio ou repetição. Diversamente, “As Aventuras de Pi” jamais se mostra cansativo, alcançando a reflexão e passando longe do hermetismo ou algo que se poderia definir como “filme de crítico”.

Na trama, adaptada com roteiro de David Magee, somos apresentados ao protagonista Piscine Molitor Patel desde a sua infância na Índia. Vemos explicado o seu nome, uma homenagem do seu pai a uma piscina de Paris e o porquê do garoto adotar o número irracional “pi” como alcunha. Sua família é dona de um zoológico, fazendo com que Pi conviva desde a mais tenra infância com diversas espécies de animais. Entre eles está o tigre Richard Parker, que passa a conviver com o protagonista, já adolescente, em um bote depois que o navio onde viajava com sua família para o Canadá naufraga. Mais do que os mencionados orangotango, hiena e zebra, é Richard Parker que irá se tornar o foco das atenções de Pi. Cumpre ressaltar que Piscine é uma rapaz religioso, ou melhor, triplamente religioso. Sua crença é pra lá de ecumênica e ele se diz ao mesmo tempo hindu, católico e muçulmano, pois afirma encontrar nas três religiões elementos que o aproximam de Deus. Sua jornada em alto mar será pautada, desta forma, pelas suas crenças e nelas ele encontrará alívio e força para enfrentar o seu desafio. Ademais, a jornada lhe trará algumas respostas, respostas estas que não conseguia encontrar anteriormente.

Desta forma, a vivência de Pi nos mares mostra-se como uma grande metáfora repleta de analogias religiosas. O tigre Richard Parker aparece, em uma visão cristã, como uma representação de nós, seres humanos, inconstantes na nossa fé e ingratos com o que nos foi dado. Piscine surge, então, como a figura do próprio Cristo, que despendeu inúmeros esforços por aqueles que amava (os seres humanos), os quais, no entanto, deram-lhe as costas. Sob tal ótica, Ang Lee, com a sensibilidade que é, talvez, sua grande marca cinematográfica, permeia vários momentos da projeção com referências bíblicas. É possível identificar passagens como a do milagre dos peixes, morte e ressurreição, além do Livro de Jó, quando Pi pergunta a Deus o que ele quer, já que havia perdido tudo o que tinha e passado por demasiado sofrimento. Acredito, inclusive, que existam referências não só ao Cristianismo, mas também às outras duas religiões de Pi, Hinduísmo e Islamismo, mas esta apreciação me restou prejudicada devido ao pouco conhecimento que possuo de tais crenças.


A busca existencial, por outro lado, é destacada por uma experiência imagética ímpar, como já frisado mais acima. A fotografia, de Claudio Miranda, é simplesmente espetacular, oferecendo uma paleta de cores vivas que realçam ao mesmo tempo a beleza, a força e a indiferença da natureza diante dos homens. O aspecto fotográfico ainda é complementado por efeitos visuais soberbos. É quase inacreditável que o tigre visto na tela seja, em quase todas as cenas, moldado em computadores, um verdadeiro triunfo digital. Tais aspectos técnicos, contudo, não existem sem finalidade, servindo à narrativa como uma forma de enriquecê-la e tentar trazer para o espectador a sensação de também estar à deriva no oceano, em contato com as forças mais selvagens e, ao mesmo tempo, estar mais próximo de Deus. Cabe destaque, ainda, para Suraj Sharma, intérprete do jovem Pi, ótimo em todas as cenas e melhor do que Irfran Khan, que representa o personagem na fase adulta.

Indicado a 11 estatuetas da Academia, “Life Of Pi” se coloca como uma experiência única dentro do que podemos denominar cinema “comercial”, um filme “de arte” para as massas que nos traz o desejo imediato de vê-lo novamente e que gera aquele gostoso debate sobre seu conteúdo após o término da sessão. Ang Lee, mais uma vez, dá uma aula de como construir uma filme reflexivo, filosófico e autoral sem ser pretensioso ou resvalar no hermetismo soberbo, algo que costuma afastar, por vezes, até mesmo o público cinéfilo de algumas produções. Seria ótimo que seu exemplo fosse seguido, mas, sabem como é, não são todos que possuem tanto talento.


Cotação:
 


Nota: 10,0

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Indicados ao Oscar 2013



Segue abaixo a lista de indicados  ao Oscar 2013, que me deixou muito aliviado. Com a exclusão de Kathryn Bigelow na categoria de direção, as chances de "A Hora Mais Escura" ser premiado como melhor filme foram reduzidas a algo próximo a 0%. Vibrei com as 11 indicações para "As Aventuras de Pi" e, mesmo ainda não tendo assistido a "Amor", de Michael Haneke, é um alívio ver um filme como este ser indicado em várias categorias, entre elas filme e direção. Parabéns para a Academia. A entrega acontece no dia 24 de fevereiro.


Filme
"Lincoln"
"O Lado Bom da Vida"
"Django Livre"
"A Hora Mais Escura"
"Os Miseráveis"
"Argo"
"As Aventuras de Pi"
"Indomável Sonhadora"
"Amor"

Direção
David O. Russell, "O Lado Bom da Vida"
Steven Spielberg, "Lincoln"
Ang Lee, "As Aventuras de Pi"
Benh Zeitlin, "Indomável Sonhadora"
Michael Haneke, "Amor"

Ator
Daniel Day-Lewis, "Lincoln"
Hugh Jackman, "Os Miseráveis"
Joaquin Phoenix, "O Mestre"
Denzel Washington, "O Voo"
Bradley Cooper, "O Lado Bom da Vida"

Atriz
Jennifer Lawrence, "O Lado Bom da Vida"
Jessica Chastain, "A Hora mais Escura"
Quvenzhané Wallis, "Indomável Sonhadora"
Emmanuelle Riva, "Amor"
Naomi Watts, "O Impossível"

Ator coadjuvante
Christoph Waltz, "Django Livre"
Philip Seymour Hoffman, "O Mestre"
Robert De Niro, "O Lado Bom da Vida"
Alan Arkin, "Argo"
Tommy Lee Jones, "Lincoln"

Atriz coadjuvante
Sally Field, "Lincoln"
Anne Hathaway, "Os Miseráveis"
Jackie Weaver, "O Lado Bom da Vida"
Helen Hunt, "As Sessões"
Amy Adams, "O Mestre"

Roteiro original
"Django Livre"
"A Hora Mais Escura"
"Moonrise Kingdom"
"Amor"
"O Voo"

Roteiro adaptado
"Lincoln"
"Argo"
"As Aventuras de Pi"
"O Lado Bom da Vida"
"Indomável Sonhadora"

Animação
"Valente"
"Detona Ralph"
"Frankenweenie"
"ParaNorman"
"Piratas Pirados"

Filme estrangeiro
"Amor", de Michael Haneke (Áustria)
"War Witch", de Kim Nguyen (Canadá)
"No", de Pablo Larraín (Chile)
"O Amante da Rainha", de Nikolaj Arcel (Dinamarca)
“Kon-Tiki", de Joachim Rønning e Espen Sandberg (Noruega)

Trilha sonora
Mychael Danna, "As Aventuras de Pi"
John Williams, "Lincoln"
Dario Marianelli, "Anna Karenina"
Alexandre Desplat, "Argo"
Thomas Newman, "007 - Operação Skyfall"

Canção original
"Before My Time", "Chasing Ice"
"Everybody Needs a Best Friend", "Ted"
"Peace Lullaby", "As Aventuras de Pi"
"Suddenly", "Os Miseráveis"
"Skyfall", "007 - Operação Skyfall"

Fotografia
"Anna Karenina"
"Django Livre"
"As Aventuras de Pi"
"Lincoln"
"007 - Operação Skyfall"

Figurino
"Anna Karenina"
"Os Miseráveis"
"Lincoln"
"Espelho, Espelho Meu"
"Branca de Neve e o Caçador"

Documentário
"Five Broken Cameras"
"The Gatekeepers"
"How To Survive a Plague"
"The Invisible War"
"Searching for Sugarman"

Curta de documentário
"Inocente"
"Kings Point"
"Mondays at Racine"
"Open Heart"
"Redemption"

Edição
"Argo"
"As Aventuras de Pi"
"Lincoln"
"O Lado Bom da Vida"
"A Hora Mais Escura"

Maquiagem
"Hitchcock"
"O Hobbit: Uma Aventura Inesperada"
"Os Miseráveis"

Direção de arte
"Anna Karenina"
"O Hobbit: Uma Aventura Inesperada"
"Os Miseráveis"
"As Aventuras de Pi"
"Lincoln"

Curta de animação
"Adam and Dog"
"Fresh Guacamole"
"Heads over Heels"
"Maggie Simpson in 'The Longest Daycare'"
"Paperman"

Curta-metragem
"Asad"
"Buzkashi Boys"
"Curfew"
"Death of a Shadow"
"Henry"

Edição de som
"Argo"
"Django Livre"
"As Aventuras de Pi"
"Operação 007 - Skyfall"
"A Hora Mais Escura"

Mixagem de som
"Argo"
"Os Miseráveis"
"As Aventuras de Pi"
"Lincoln"
"Operação 007 - Skyfall"

Efeitos visuais
"O Hobbit"
"As Aventuras de Pi"
"Os Vingadores"
"Prometheus"
"Branca de Neve e o Caçador"

domingo, 6 de janeiro de 2013

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Um Corpo Que Cai
(Vertigo, 1958)


Amor Obsessivo


Não é fácil escrever sobre um filme como “Um Corpo Que Cai” (Vertigo, 1958), uma das obras máximas de Alfred Hitchcock, para muitos o seu melhor filme. É o tipo de película sobre qual muito já se falou, escreveu, revirou-se, homenageou-se etc. etc. etc. Mas também é irresistível vê-lo mais uma vez e não tecer alguns comentários, por mais pobres ou redundantes que sejam, sobre o prazer de ver um filme tão genialmente importante.

Como muitos devem saber, Hitchcock foi um dos precursores no que hoje conhecemos como “cinema autoral”, idolatrado pela turma da Nouvelle Vague (François Truffaut era seu fã confesso) e hoje reverenciado como “mestre do suspense”. Entretanto, para além do gênero, Hitchcock foi um mestre na arte de filma, capaz de engendrar tramas com variadas paletas sob uma superfície de thriller. “Um Corpo Que Cai” constitui-se em um dos exemplos mais claros desta afirmação, uma vez que, por trás de uma trama de mistério com nuances policialescas e até mesmo “espíritas”, o que vemos é a história de um amor obsessivo que na verdade se coloca como uma metáfora para a relação homem-mulher onde, infelizmente com frequência, um procura transformar o outro para que atenda às suas idealizações. Baseado no livro “D'Entre Le Morts”, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac (os mesmo autores de “As Diabólicas”), trata-se de um romance-drama impressionante que discute a natureza da personalidade humana e que aponta a crueldade das relações amorosas.



Nela, vemos James Stewart, em seu quarto e último filme com o diretor (Hitchcock aparentemente aceitou os comentários dos críticos de então, que afirmavam que Stewart estava velho para o papel), interpretar o policial de São Francisco John “Scottie” Ferguson, afastado de sua função por ter, indiretamente, causado a morte de um colega devido à sua acrofobia (medo de altura - daí o título original que significa “vertigem” em português). Trabalhando como detetive particular, Ferguson é contratado por um antigo amigo, Gavin Elster (Tom Helmore), para investigar sua esposa, Madeleine (Kim Novak, talvez no papel mais lembrado de sua carreira), a qual anda obcecada com a ideia de que é a reencarnação de uma antepassada, Carlota Valdes, que suicidou-se pulando na baía de São Francisco. Ferguson acaba se apaixonando pela mulher, que por sua vez repete a história de suicídio ao se atirar de um campanário. Tempos depois, acaba conhecendo uma mulher que lembra muito a falecida, Judy Barton (novamente Kim Novak), nutrindo agora o desejo perturbador de transformá-la em uma espécie de nova Madeleine.

Essa relação perturbada é exatamente o foco de Hitchcock, tal como em “Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954), ocasião em que ele usou uma trama de assassinato para apresentar uma alegoria sobre o jogo do casamento, onde Grace Kelly tentava mostrar a um fotógrafo solteirão (o mesmo Stewart) que ela era a mulher ideal para ele se casar. Em “Vertigo”, entretanto, o jogo não é de sedução. Tal etapa já não é mais importante para Hitchcock. Aqui, ele volta os olhos para a dominação existente entre os parceiros, ideia cristalizada na cena em que Judy Barton cede aos apelos de Scottie a aparece finalmente transmudada em Madeleine, uma cena de tamanha força emocional que muitos à comparam ao assassinato de Marion Crane em “Psicose” (Psycho, 1960), o que não é nada absurdo. Afinal, Judy Barton anula sua própria personalidade para que seja aceita pelo homem que ama, o que não deixa de ser a representação de uma morte em vida, morte entendida como destruição da própria persona. Ademais, o velho Hitch parece colocar a vertigem de altura do protagonista como uma representação do medo de se envolver em um relacionamento. Assim, a tentativa frustrada de subir as escadas do campanário para tentar impedir a morte de Madeleine revela, em uma análise mais apurada, a dificuldade que Ferguson tinha de assumir estar apaixonado por ela.


Para nos mostrar tal narrativa, o diretor se valeu do seu conhecido virtuosismo técnico, o qual pode ser observado desde os créditos iniciais concebidos pelo mestre Saul Bass, que já induzem o espectador a uma sensação semelhante à vertigem, algo explorado também ao longo da projeção através de novos e inventivos recursos, como o “zoom in e zoom out” ou “contra-zoom”, uma invenção do cameraman Irmin Roberts (a quem não foram dados os devidos créditos posteriormente). Acompanhando as imagens (este é um dos filmes mais imagéticos do diretor) e ditando o ritmo e o tom da ação, temos a trilha sonora experimental, mas também genial, de Bernard Herrmann, escandalosamente não premiada com um Oscar, o que hoje soa totalmente irônico, já que a Academia recentemente premiou a trilha de “O Artista” (The Artist, 2011) que usou temas deste trabalho de Herrmann com a desculpa de “homenagem”. Até mesmo o figurino de Novak, concebido por Edith Head, contribui para sua aparência um tanto fantasmagórica e auxilia no clima sombrio da película. Novak, apesar do seu bom desempenho, principalmente como Judy Barton, não teve boas relações com Hitch, talvez porque este tivesse pensado primeiramente em Vera Miles (de “Psicose”) para o papel, mas foi possível devido à gravidez da atriz. Dizem as más línguas que ele nutria uma especial crueldade com Novak, chegando a obrigá-la a pular diversas vezes na água durante as filmagens da sequência em que Madeleine se atira na baía de São Francisco. Já Jimy Stewart, um dos mais carismáticos atores da história do cinema, mais uma vez cativa o público e convence perfeitamente como o detetive obsessivo e perturbado.

Em recente eleição realizada por uma publicação britânica entre críticos e diretores, “Um Corpo que Cai” foi considerado o melhor filme de todos os tempos, deixando para trás “Cidadão Kane” (Citzen Kane, 1941), o filme de Orson Welles que rotineiramente ocupava o primeiro posto nas listas. Provavelmente, o resultado se mostra como consequência da enorme influência que Alfred Hitchcock exerce sobre os cineastas contemporâneos (Brian De Palma, por exemplo, teve inspiração direta nele para realizar “Dublê de Corpo”) e também porque o filme passou anos fora de circulação, uma vez que seus direitos estavam na mão de Hitch e ele o deixou trancado no armário durante mais de duas décadas ( e sabemos que críticos adoram filmes pouco vistos). Pessoalmente, gosto mais dele do que do longa-metragem de Welles, muito embora não se possa negar que este possua mais inovações narrativas. Entretanto, mesmo com o seu desfecho para muitos insatisfatório – [SPOILER] o “ vilão”, se assim podemos definir, sai impune no final [FIM DE SPOILER] – o que gerou críticas na época do seu lançamento (com as quais não concordo) – este longa-metragem é mesmo um dos melhores exemplos da arte de um gênio que foi um dos responsáveis por definir o cinema como o entendemos e apreciamos hoje. Uma obra poderosamente imagética e perturbadora que lhe trará um provável desejo de retorno.


Cotação e nota: Obra-prima.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Os 7 Melhores Filmes de 2012

Abaixo, segue a lista dos 7 melhores filmes exibidos no circuito comercial brasileiro em 2012, na opinião do Cinema Com Pimenta. Confesso que não considerei 2012 um bom ano e os filmes que seguem entraram na lista sem ser necessário fazer "escolhas de Sofia" para chegar a ela. Confiram.


7) 007 - Operação Skyfall (Skyfall, de Sam Mendes);



6) Argo (Idem, de Ben Affleck);



5) Os Descendentes (The Descendants, de Alexander Payne);



4) Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, de Christopher Nolan);




3) Moonrise Kingdom (idem, de Wes Anderson);



2) A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, de Martin Scorsese);



1) As Aventuras de Pi (Life Of Pi, de Ang Lee) - resenha em breve no Cinema com Pimenta.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Sindicato dos Produtores 2013 - Indicados



O Producers Guild of America (PGA) anunciou na noite desta quarta-feira os indicados ao prêmio de melhor do ano, nas categorias de cinema e televisão. A maior "surpresa", se assim podemos dizer, é a presença de "007 - Operação Skyfall" entre os indicados. Bem, ao menos para este que vos escreve, não é surpresa, pois o filme é ótimo. Confiram a lista dos indicados para cinema logo abaixo. Os vencedores serão revelados no próximo dia 26.

Melhor Filme

Argo (Warner Bros.)

Indomável Sonhadora (Fox)

Django Livre (The Weinstein Company)

As Aventuras de Pi (Fox)

Lincoln (DreamWorks)

Os Miseráveis (Universal)

Moonrise Kingdom (Focus Features)

O Lado Bom da Vida (The Weinstein Company)

007 - Operação Skyfall (Sony Pictures)

A Hora Mais Escura (Sony Pictures)



Melhor Filme em Animação

Valente (Disney/Pixar)

Frankenweenie (Walt Disney Studios)

ParaNorman (LAIKA/Focus Features)

A Origem dos Guardiões (DreamWorks Animation)

Detona Ralph (Walt Disney Animationa Studio




Melhor Documentário

A People Uncounted
The Gatekeepers
The Island President
The Other Dream Team
Searching for Sugar Man

domingo, 30 de dezembro de 2012

O Impossível

Manipulação competente


Ainda me lembro da ocasião em que soube da notícia do tsunami que devastou a vários países da Ásia no final de 2004. Eu estava em um encontro de final de ano com antigos amigos da faculdade e um deles comentou: “vocês viram o que está acontecendo na Ásia? Um onda gigante está destruindo tudo por lá...”. Eu ainda não sabia e achei a notícia estranha. Quando cheguei em casa, era só isso que se divulgava nos noticiários de TV, com as imagens e números cada vez maiores de vítimas. O maior desastre natural a que já tinha visto na vida. Um horror sem tamanho que colocou a palavra “tsunami” na boca do povo e que fez qualquer morador de uma cidade litorânea (Natal, no meu caso) ficar assombrado.

Anos depois, o cinema começou a levar às telas este tema, o tipo de drama universal que toca qualquer ser humano. O primeiro a que pude assistir foi “Além da Vida” (Hereafter, 2010), do gênio Clint Eastwood, filme que até recebeu indicação ao Oscar de efeitos especiais somente pela cena em que a onda gigante atinge a praia. Agora, temos em exibição nos cinemas “O Impossível”, produção espanhola dirigida pelo também espanhol Juan Antonio Bayona (de “O Orfanato”) que explora ao máximo o potencial lacrimogêneo de uma história passada nessas circunstâncias limite. Afinal, são duas vertentes reunidas em um mesmo filme que costumam atrair bilheteria: catástrofe e sofrimento familiar. Ou seja, um pacote completo para fazer você sair da sala de exibição dizendo que caiu um cisco no olho. E Bayona se mostra, realmente, um manipulador competente para atingir tal objetivo.


Primeiramente, a adaptação de uma história real passada no mencionado evento alterou a nacionalidade dos envolvidos. A família espanhola verídica foi substituída por uma família anglo-saxã, um recurso para fazer com que o público norte-americano pudesse ir aos cinemas assistir ao filme (era provável que eles não o fizessem se a família no filme fosse realmente ibérica). E aí vemos a narrativa nos mostrar pai (Ewan McGregor), mãe (Naomi Watts) e três filhos britânicos que vivem no Japão e estão de férias na Tailândia. O roteiro, escrito por Ségio G. Sánchez, inicia naquele estilo “filme de aeroporto”, mostrando a viagem e as preocupações corriqueiras de uma família de classe média alta, o que pode até possuir uma conotação irônica, deixando transparecer entrelinhas o quanto esta mesma classe média parece se preocupar diuturnamente com questões de pequena importância que parecem assumir proporções gigantescas. Quando estão em um resort, vem a tão assombrosa onda que devasta toda a região e provoca a morte de milhares de pessoas. Pela força das circunstâncias, a família a é separada em dois grupos, sendo um com Maria (a mãe) e Lucas (Tom Holland), o filho mais velho, e outro com Henry (o pai) e os dois filhos menores (Samuel Joslin e Oaklee Pendergast). A tentativa de reencontro dos dois núcleos será o mote da ação.

Não vou aqui afirmar que não se trata de uma história emocionante. Claro que é e seria impossível (ops, perdão pelo trocadilho) que a emoção não transbordasse na tela. Há algumas sequências de fazer um rinoceronte se sensibilizar e confesso que uma em especifico, [SPOILER] quando os irmãos se reencontram [FIM DE SPOILER], bate fundo. Além disso, o realismo (algo muito buscado pelo público contemporâneo) imprimido por Bayona impressiona em várias passagens, deixando todo o terror dos acontecimentos transbordar na tela em cores vivas. Entretanto não se pode negar que o cineasta espanhol também se valeu de elementos manipuladores para induzir o público a uma catarse ainda maior. A trilha sonora (de Fernando Velázquez), invasiva e repleta de excessos, é um claro exemplo de tal aspecto. Além disso, vários desencontros vistos na trama, principalmente na sua segunda metade, parecem mais invenções de roteirista, propícias par aumentar o suspense, do que realidade factual.


Por outro lado, o drama da catástrofe não deixa de ser terreno fértil para boas atuações. Se Ewan McGregor me pareceu apenas correto, não convencendo muito em algumas cenas mais dramáticas, Naomis Watts entrega uma belíssima atuação que deverá lhe garantir uma indicação ao próximo prêmio da Academia de Hollywood (já lhe rendeu uma indicação para o Sindicato de Atores e também ao Globo de Ouro). Ela realmente está ótima, provavelmente em sua melhor atuação até hoje, exibindo uma performance cheia de alma a cada cena. Contudo, ainda melhor do que Naomi me pareceu o elenco infantil. Os garotos são simplesmente sensacionais e acredito que Tom Holland, intérprete do mais velho, merecia também uma indicação ao Oscar, tamanha a sua desenvoltura e naturalidade na tela.

A despeito da citada manipulação, pode-se afirmar que “O Impossível” é um bom filme, mesmo que o seu final traga uma visão ocidentalizada de que este episódio na vida da família tenha se resumido a um espécie de “férias frustradas”, esquecendo o sofrimento daqueles que lá permaneceram (ou seja,da população local). De qualquer forma, se você for daqueles(las) que choram fácil as lágrimas estarão garantidas e mesmo os mais durões não escaparão de algumas inevitáveis emoções (na sala onde vi, muitas pessoas batiam palmas no fim da película). Basta lembrar dos fatos reais para se sensibilizar e imagino que daqui a algum tempo também veremos nos cinemas filmes sobre o tsunami do Japão.


Cotação:



Nota: 8,0


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 Obs. Este foi o último post de 2012. Um feliz 2013 para todos! Grande abraço!

domingo, 23 de dezembro de 2012

Quero Ver Novamente #21


"O Cinema Com Pimenta" já teve a oportunidade de publicar uma resenha sobre "A Felicidade Não Se Compra" (It's a Wonderful Life), provavelmente o maior clássico natalino de todos os tempos. Um filme maravilhoso que jamais canso de rever, tamanha a força deste conto sobre um homem (James Stewart) que, na noite de Natal, deseja morrer porque detesta sua vida e acredita que ele não faria qualquer falta no mundo. É então que um anjo é enviado para convencê-lo a mudar de ideia e resolve mostrar como seria a vida das pessoas que o cercam se ele não existisse. Brilhante e emocionante, a sequência abaixo é o desfecho dessa obra-prima de Frank Capra. Se não viu o filme, não assista ao video, mas proveite para vê-lo inteiro neste Natal. Se já viu o longa, relembre-o com esta passagem maravilhosa. Um feliz Natal para todos, repleto de harmonia, paz e alegria! Que Deus abençoe a todos!


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

A Terra Média sucumbe ao mercado


Este filme já havia se tornado uma lenda urbana, tamanhas foram as idas e vindas ao longo de seu processo de produção, o qual passou por conflitos com os interesses dos herdeiros de J.R.R. Tolkien, a falência da MGM, detentora dos direitos de adaptação, além da troca no comando criativo do filme, uma vez que inicialmente a direção estava nas mãos de Guillermo del Toro e acabou passando para as de Peter Jackson, já sabidamente veterano nas transposições do universo de Tolkien para a tela grande (Del Toro acabou assinando como co-roteirista). A novela , enfim, foi concluída e tivemos sua estreia em circuito comercial na última sexta-feira 14, numa clara intenção de concorrer às estatuetas da Academia de Hollywood. Se a expectativa por prêmios é normal, já que a trilogia “O Senhor dos Anéis” abocanhou nada menos que 17 carecas dourados, desta vez, contudo, ela não deverá ser correspondida. “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” (The Hobbit: An Unexpected Journey) não está à altura de seus predecessores, infelizmente, e acredito que tal circunstância se deve principalmente a razões mercadológicas.

Afinal, foi devida às tais razões de mercado que ocorreu a divisão da trama em três episódios, algo incongruente com o material original, o primogênito dos livros de Tolkien, cuja primeira edição data de 1937 e que possui menos páginas do que qualquer um dos volumes da trilogia dos anéis. O material, entretanto, como é de conhecimento até das plantas, é uma mina de dinheiro e não quiseram perder a oportunidade de iniciar mais uma trilogia para arrancar grana dos fãs. O resultado dessa ideia é que aquele que poderia ser mais um belo filme baseado na obra de um grande escritor, tornou-se um longa arrastado, sem ritmo e que, se ainda consegue em alguns pontos envolver e tocar o espectador, é por mérito quase exclusivo do material original. Sim, quase exclusivo porque, como era de se esperar, a película tem aquele famoso impacto visual característico da saga dos anéis, o que se deve, indiscutivelmente, à notória competência de Peter Jackson nesse quesito. Vale frisar que aqui ele trouxe mais uma inovação, os tais “48 quadros por segundo”, a nova tecnologia que confere à película o dobro de resolução - já que tradicionalmente se usam 24 quadros por segundo (ou seja, fotos por segundo) para que o olho humano tenha a ilusão de movimento na tela. Essa inovação está sendo prometida como “a nova revolução no cinema” (mais outra), mas, devo registrar aqui, não gostei. Tive a oportunidade de ver o resultado em uma sala de exibição local e a sensação que tive foi a de estar vendo um making off, pois o excesso de resolução em um longa repleto de maquiagens e efeitos especiais não contribui para que vejamos os personagens como reais. Fica a impressão de estarmos enxergando exatamente efeitos especiais e trabalhos de maquiadores (algo “fake”, vamos dizer assim) e também não senti que afetou a sensação de imersão no 3D (continuo com a opinião de que a “A Invenção de Hugo Cabret” foi o longa-metragem que melhor usou, até hoje, o potencial das três dimensões).


Mas é claro que a trama tem seu encanto, principalmente para aqueles já conhecedores do universo de Tolkien. Não deixei de me envolver com a estória do hobbit Bilbo (Martin Freeman, quando jovem, e Ian Holm, quando idoso), tio de Frodo (Elijah Wood). É para este que Bilbo, já idoso, irá relatar a aventura que viveu 60 anos antes, quando o mago Gandalf (Ian Mckellen) chegou na porta da sua casa porque havia lhe escolhido para ajudar o anões a retomar o seu antigo lar, a Montanha Solitária, tomado dos mesmos pelo dragão Smaug. Em sua “jornada inesperada”, Bilbo, acostumado à pacata rotina dos hobbits, passará por diversos perigos ao lado do novos amigos e irá se deparar com um famoso anel e um outro personagem adorado pelos fãs que mais tarde seria conhecido como Gollum. Entretanto, mesmo que você não seja um “iniciado”, compreenderá perfeitamente toda a narrativa. Como já dito acima, este foi o primeiro romance de Tolkien a tratar da Terra Média e o fatos nele narrados são, logicamente, anteriores àqueles de “O Senhor dos Anéis”. Ademais, tudo é muito bem explicadinho, fazendo com que nenhum expectador se perca, sendo ele familiarizado ou não com a obra. Não é o esse teor, digamos, “didático” que incomoda, mas a extensão de certas sequências (a reunião de anões na casa de Bilbo poderia ser cortada pela metade) e mesmo a presença de algumas delas (totalmente dispensável toda a sequência com os trolls).


Há alguns momentos chave, todavia, que despertam emoção e nisso Jackson continua o mesmo, sabendo dosar sentimento e aventura como se estivéssemos realmente ouvindo uma história contada por nossos avós. Vale ressaltar, ademais, que o elenco (boa parte dele já familiarizado com seus papéis) está afinado, além de ser sempre um prazer rever Chritopher Lee (com mais de 90 anos!) como o mago Saruman e Cate Blanchett na pele de Galadriel. Howard Shore mais uma vez demonstra muita competência no elaboração da trilha sonora. A fotografia (de Andrew Lesnie), então, é um caso à parte. Nunca a Terra Média (Nova Zelândia, na realidade) foi tão linda e se tem algo em que os 48 frames ajudam é justamente no deslumbre das paisagens. Dá vontade de ir morar na terra dos hobbits.

O que se pode concluir é que a ambição de construir uma nova franquia foi o fator realmente determinante para que este novo longa não tenha apresentado o resultado brilhante dos anteriores. Tivessem feito apenas dois filmes, ou simplesmente reduzido a duração de cada um (quem disse que todos os filmes baseados na obra de Tolkien devem necessariamente ter cerca de 180 minutos de projeção?), e teríamos mais um provável vencedor de muitas estatuetas da Academia – algo que não deve acontecer agora em 2013, a não ser em óbvias categorias técnicas. De qualquer forma, este é o típico filme à prova de críticas, como bem demonstra a bilheteria que vem obtendo mundo afora (nos EUA, teve a maior estreia da história para o mês de dezembro). Eu mesmo, que considero a trilogia original como a melhor obra cinematográfica do presente século XXI , jamais deixaria de conferir “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” porque um metido a crítico de um blog qualquer disse que este é um filme “lento” e “sem ritmo”. “Que cara mais implicante!”.


Cotação:



Nota: 8,0

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Globo de Ouro 2013 - Indicados


Palhinha rápida aqui sobre a premiação da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood. Sua lista de indicados ao Globo de Ouro tem, como destaques, "Lincoln", que recebeu sete indicações (entre elas, melhor filme-drama, diretor e ator). "Django Livre" e "Argo" empataram com cinco indicações cada um e "A Hora Mais Escura", "Os Miseráveis" e "O Lado Bom da Vida" ficaram com quatro indicações.

A entrega dos prêmios acontece em 13 de janeiro, com apresentação de Tina Fey e Amy Poehler. Isso se o mundo não acabar dia 21 próximo, né? Veja a lista:

Melhor filme (drama)

Argo
Django Livre
As Aventuras de Pi
Lincoln
A Hora Mais Escura

Melhor filme (musical / comédia)

O Exótico Hotel Marigold
Os Miseráveis
Amor Impossível
O Lado Bom da Vida

Melhor ator (drama)

Daniel Day-Lewis - Lincoln
Richard Gere - A Negociação
John Hawkes - As Sessões
Joaquin Phoenix - O Mestre
Denzel Washington - O Voo

Melhor atriz (drama)

Jessica Chastain -A Hora Mais Escura
Marion Cotillard - Ferrugem e Osso
Helen Mirren - Hitchcock
Naomi Watts - O Impossível
Rachel Weisz - The Deep Blue Sea

Melhor ator (musical / comédia)

Jack Black - Bernie
Bradley Cooper - O Lado Bom da Vida
Hugh Jackman - Os Miseráveis
Ewan McGregor - Amor Impossível
Bill Murray - Um Final de Semana em Hyde Park

Melhor atriz (musical / comédia)

Emily Blunt - Amor Impossível
Judy Dench - O Exótico Hotel Marigold
Jennifer Lawrence - O Lado Bom da Vida
Maggie Smith - Quartet
Meryl Streep - Um Divã para Dois

Melhor ator coadjuvante

Alan Arkin - Argo
Leonardo DiCaprio - Django Livre
Philip Seymour Hoffman - O Mestre
Tommy Lee Jones - Lincoln
Christoph Waltz - Django Livre

Melhor atriz coadjuvante

Amy Adams - O Mestre
Sally Field - Lincoln
Anne Hathaway - Os Miseráveis
Helen Hunt - As Sessões
Nicole Kidman - The Paperboy

Melhor diretor

Ben Affleck - Argo
Kathryn Bigelow - A Hora Mais Escura
Ang Lee - As Aventuras de Pi
Steven Spielberg - Lincoln
Quentin Tarantino - Django Livre

Melhor roteiro

Mark Boal - A Hora Mais Escura
Tony Kushne - Lincoln
David O. Russell - O Lado Bom da Vida
Chris Terrio - Argo
Quentin Tarantino - Django Livre

Melhor filme em lingua estrangeira

Amour (Áustria)
A Royal Affair (Dinamarca)
Intocáveis (França)
Kon-Tiki (Noruega, Reino Unido, Dinamarca)
Ferrugem e Osso (França)

Melhor longa animado

Valente
A Origem dos Guardiões
Frankenweenie
Detona Ralph
Hotel Transilvânia

Melhor trilha sonora original

Mychael Danna -As Aventuras de Pi
Alexandre Desplat - Argo
Dario Marianelli - Anna Karenina
Tom Tykwer - A Viagem
John Willians - Lincoln

Melhor canção original

"For You" - Ato de Coragem
"Not Running Anymore" - Stand Up Guys
"Safe & Soud" - Jogos Vorazes
"Skyfall" - 007 - Operação Skyfall
"Suddenly" - Os Miseráveis

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Moonrise Kingdom

Eternas crianças


Esta foi minha primeira experiência com a obra do cineasta Wes Anderson. Sim, pode parecer estranho, mas nunca havia assistido nem mesmo aos seus filmes mais incensados, como “Os Excêntricos Tenenbaums” (The Royal Tenenbaums, 2001). Mas para tudo há uma primeira vez e, diante dos vários elogios ao seu trabalho mais recente, “Moonrise Kingdom”, resolvi que estava mais do que na hora de conhecer a obra deste diretor que divide opiniões, mas que, por outro lado, possui uma das filmografias mais autorais no atual momento do cinema norte-americano, algo que pude de fato constatar já na primeira imagem da película em questão.

Logo de imediato, percebi que Anderson possui um cuidado extremo com o aspecto imagético dos seus filmes. Cada cena aparenta ter sido minuciosamente pensada em sua direção de arte, utilizando-se de cenários com cores marcantes e uma fotografia que realça os tons dos ambientes, com uma estética similar aos dos filmes do gênio Stanley Kubrick, nitidamente uma de suas influências. Outro aspecto que me chamou a atenção foi o ritmo de quadrinhesco da ação vista na tela. A referida elaboração das cenas nos faz imaginá-las como destacadas umas das outras, trazendo um efeito semelhante ao que temos ao ler uma HQ. Mesmo os personagens parecem ser concebidos desta forma, alguns com características que beiram o caricatural, trazendo um leve tom cômico que permeia toda a projeção, mesmo que em nenhum momento sejamos levados ao riso aberto. Toda a trama de Moonrise Kingdom, escrita pelo próprio diretor em parceria com Roman Coppola, pareceu-me ser facilmente adaptável para uma graphic novell, caso algum autor de quadrinhos resolvesse levar a obra a um caminho inverso do que normalmente vem ocorrendo na cultura pop.

Entretanto, se mencionei acima o humor como um dos elementos que Anderson utiliza para contar sua história, não há dúvida que o forte em “Moonrise Kingdom” é seu aspecto dramático. Afinal, trata-se de um conto sobre dois pré-adolescentes, Suzy Bishop (Kara Hayward) e Sam Shakusky (Jared Gilman), um casalzinho que se apaixona e resolve fugir para viver um grande amor. O ano é 1965 e ambos vivem na pequena ilha de New Penzance, na Nova Inglaterra, um daqueles lugares pouco habitados com rios e florestas que povoam o imaginário norte-americano como referência de tranquilidade. Suzy é filha de Walt (Bill Murray) e Lara Bishop (Frances McDormand), um casal cujo distanciamento os leva a se tratar por “doutor e doutora”. A mãe, inclusive, mantém um relacionamento extraconjugal com o capitão Sharp (Bruce Willis, bem melhor do que de costume), o único policial da localidade. O garoto Sam, por sua vez, é um órfão acolhido por uma família que não lhe dá importância e que procura fazer amizades no grupo de escoteiros do qual participa, no acampamento Invanhoé, liderado pelo Escoteiro-Chefe Ward (Edward Norton). Após uma relação construída eminentemente através de trocas de correspondência, os dois partem para uma aventura onde se bastarão um ao outro, vivendo em uma espécie de paraíso onde não mais terão de interagir com um mundo que lhes é frio e indiferente.


Uma das propostas de Anderson com a narrativa é justamente confundir o mundo dos adultos e das crianças. Em vários momentos percebemos que os personagens adultos assumem comportamentos e tomam atitudes infantis e o inverso também é verdadeiro. Ou seja, no fundo seríamos eternas crianças buscando abrigo diante da aridez da sociedade em que vivemos e a formação de vínculos afetivos se coloca como a melhor maneira de atingir tal intento. É a busca desses vínculos que faz com que tanto o capitão Sharp quanto o Escoteiro-Chefe Ward desenvolvam um sentimento paternal em relação a Sam ao descobrirem que o menino é órfão. Da mesma forma, Sam acredita que todo o resto da humanidade é supérfluo, pois que, na sua visão, Suzy é a única pessoa que o ama. Ademais, a relação entre Sam e Suzy é a síntese de toda relação homem-mulher, onde o menino se vale de suas habilidades para dar as condições de sobrevivência à menina que ama. O paraíso proposto por Anderson parece se apresentar, assim, como o retorno aos papeis tradicionais do homem e da mulher, onde ambos viveriam de forma plena sua masculinidade e feminilidade, em um estado de pureza distante dos condicionamentos sociais. A maneira com que o diretor nos apresenta tais perspectivas mostra-se extremamente sensível e feliz, chegando a nos despertar o desejo de ter de volta a pureza e inocência de Sam e Suzy, de reviver as descobertas que eles vivem na tela.


Devo dizer, ainda, que Anderson realmente possui um senso de ritmo excelente, pois jamais a sua trama ameaça se tornar enfadonha e consegue contá-la sem buracos em apenas 94 minutos de película. Além disso, como em outras oportunidades, conseguiu reunir um elenco de peso, onde nomes como Edward Norton e Bill Murray nos entregam ótimas atuações. A direção de atores é tão eficiente que até Bruce Willis consegue sair das suas tradicionais caretas e nos faz esquecer um pouco que aquela figura na tela é ele, Bruce Willis. No mesmo sentido, também o casal de garotos demonstra talento, principalmente Kara Hayward, intérprete de Suzy. Por outro lado, de igual importância se mostra a trilha sonora, um elemento tão relevante no filme quando sua concepção imagética, marcando tanto seus créditos iniciais quanto finais.

Mas o melhor de tudo, todavia, mesmo diante de uma certa previsibilidade no desfecho, é a emoção que Anderson conseguiu gerar com este filme ao mesmo tempo adulto e infantil, o que me causou uma certa surpresa. Sempre li comentários acusando o diretor de criar obras emocionalmente frias, o que me trazia a impressão de que seu trabalho seria bastante semelhante ao dos Irmãos Cohen. Em verdade, acredito que seu cinema se coloca mais próximo do trabalho de outro grande realizador contemporâneo, Tim Burton, ao conceber um universo próprio e autoral, mas sem perder de vista de que o cinema deve tocar os corações daqueles que o admiram. Afinal, ao comprarmos o ingresso para uma sessão ou um DVD ou blu-ray par vermos em casa, o que pretendemos, em última análise, é sermos envolvidos por uma mágica que nos faça viajar e emocionar. E, da mesma forma que Sam consegue levar Suzy para o seu reino particular, Anderson carrega o espectador para dentro desta adorável fábula. Um feito admirável, sem qualquer dúvida. E concluo afirmando que minha primeira experiência com o cinema de Wes Anderson foi, inegavelmente, muito prazerosa.


Cotação:



Nota: 9,5

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Associação dos Críticos de Nova York elege seus favoritos


Pois é, minha gente. Começou a temporada de premiações que culminarão na festa do Oscar a ser realizada no dia 24 de fevereiro. A primeira delas, que possui relevância e certa influência na escolha dos indicados da Academia, foi a da Associação dos Críticos de Nova York. E o que ela revelou é que os norte-americanos parecem estar, como diria Fausto Silva, "mais do que nunca" olhando para o próprio umbigo. Os dois grandes premiados foram "A Hora Mais Escura" (Zero Dark Thirty) - levou três prêmios, incluindo filme e direção -  longa-metragem de Kathryn Bigelow baseado na caçada a Osama Bin Laden, e "Lincoln" (também levou três), o já muito falado filme de Steven Spielberg sobre o famoso presidente ianque. Ou seja, o recado está dado: a tendência é premiar filmes que falem sobre eles mesmos e ponto final. Não é à toa que "Argo", de Ben Affleck, também vem sendo muito cotado para estar ao menos entre os indicados da Academia. É isso. E assista quem quiser...

Segue abaixo a lista completa de premiados.

Melhor Filme: A Hora Mais Escura
Melhor Diretor: Kathryn Bigelow
Melhor Ator: Daniel Day-Lewis (Lincoln)
Melhor Atriz: Rachel Weisz (The Deep Blue Sea)
Melhor Ator Coadjuvante: Matthew McConaughey, por Magic Mike e Bernie
Melhor Atriz Coadjuvante: Sally Field, por Lincoln
Melhor Animação: Frankenweenie
Melhor Filme Estrangeiro: Amor
Melhor Roteiro: Lincoln
Melhor Primeiro Filme: How To Survive a Plague, de David France
Melhor Documentário: The Central Park Five
Melhor Fotografia: A Hora Mais Escura

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Quero Ver Novamente #20


"007 - O Espião Que Me Amava" (The Spy Who Loved Me, 1977), dirigido por Lewis Gilbert, é considerado por muitos (eu me incluo no coro) como o melhor filme do agente 007 protagonizado por Roger Moore. Inegavelmente, é um dos melhores longas não só da "era Moore", mas de toda a franquia James Bond, o décimo episódio com o personagem desde o primogênito "Contra o Satânico Dr. No" (Dr. No, 1962). As sequências arrebatadoras de créditos iniciais sempre foram uma marca da série e a do filme em questão é uma das melhores, principalmente devido à canção interpretada por Carly Simon, "Nobody Does It Better". Curta abaixo. E que venham mais 50 anos de 007, o espião à prova do tempo.