quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Associação dos Críticos de Nova York elege seus favoritos


Pois é, minha gente. Começou a temporada de premiações que culminarão na festa do Oscar a ser realizada no dia 24 de fevereiro. A primeira delas, que possui relevância e certa influência na escolha dos indicados da Academia, foi a da Associação dos Críticos de Nova York. E o que ela revelou é que os norte-americanos parecem estar, como diria Fausto Silva, "mais do que nunca" olhando para o próprio umbigo. Os dois grandes premiados foram "A Hora Mais Escura" (Zero Dark Thirty) - levou três prêmios, incluindo filme e direção -  longa-metragem de Kathryn Bigelow baseado na caçada a Osama Bin Laden, e "Lincoln" (também levou três), o já muito falado filme de Steven Spielberg sobre o famoso presidente ianque. Ou seja, o recado está dado: a tendência é premiar filmes que falem sobre eles mesmos e ponto final. Não é à toa que "Argo", de Ben Affleck, também vem sendo muito cotado para estar ao menos entre os indicados da Academia. É isso. E assista quem quiser...

Segue abaixo a lista completa de premiados.

Melhor Filme: A Hora Mais Escura
Melhor Diretor: Kathryn Bigelow
Melhor Ator: Daniel Day-Lewis (Lincoln)
Melhor Atriz: Rachel Weisz (The Deep Blue Sea)
Melhor Ator Coadjuvante: Matthew McConaughey, por Magic Mike e Bernie
Melhor Atriz Coadjuvante: Sally Field, por Lincoln
Melhor Animação: Frankenweenie
Melhor Filme Estrangeiro: Amor
Melhor Roteiro: Lincoln
Melhor Primeiro Filme: How To Survive a Plague, de David France
Melhor Documentário: The Central Park Five
Melhor Fotografia: A Hora Mais Escura

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Quero Ver Novamente #20


"007 - O Espião Que Me Amava" (The Spy Who Loved Me, 1977), dirigido por Lewis Gilbert, é considerado por muitos (eu me incluo no coro) como o melhor filme do agente 007 protagonizado por Roger Moore. Inegavelmente, é um dos melhores longas não só da "era Moore", mas de toda a franquia James Bond, o décimo episódio com o personagem desde o primogênito "Contra o Satânico Dr. No" (Dr. No, 1962). As sequências arrebatadoras de créditos iniciais sempre foram uma marca da série e a do filme em questão é uma das melhores, principalmente devido à canção interpretada por Carly Simon, "Nobody Does It Better". Curta abaixo. E que venham mais 50 anos de 007, o espião à prova do tempo.


terça-feira, 27 de novembro de 2012

Argo

De volta aos anos 70 (ou como Hollywood gosta de se ver no espelho)


Hollywood é reconhecida no mundo inteiro como uma fábrica de sonhos e ilusões, tanto no bom quanto no mal sentido da expressão. Pois bem. Com “Argo”, o ator que virou diretor Ben Affleck nos mostra que a indústria do cinema norte-americano é tão eficiente com sua ficção que já chegou até a enganar a vigilância de um país inimigo dos Estados Unidos para salvar alguns compatriotas que lá se encontravam. Um feito ocorrido no fim dos anos 70/início dos 80 e que foi revelado pelo governo norte-americano apenas em 1997, durante o mandato de Bill Clinton, e que realmente possui todos os ingredientes para se transformar naquilo em que Hollywood é a maior especialista do mundo em fazer: filmes.

Affleck retomou aqui um gênero cinematográfico que teve seu auge nos anos 70: o thriller político, dos quais são exemplos icônicos “Todos os Homens do Presidente” (All The Presidents Men, 1976), de Alan J. Pakula, e “Três Dias do Condor” (Three Days Of Condor, 1975), de Sidney Pollack, gênero este que perdeu espaço nas últimas décadas, principalmente nos anos 80 e 90, quando a população mundial, contaminada pelo estilo yuppie de ver o mundo, deixou-se submergir por uma apatia política que parece ter sido sacudida apenas depois dos eventos do 11 de setembro de 2001 e, mais recentemente, pela grave crise econômica global iniciada a partir de 2008. Nos anos 70, principalmente depois que o studio system sofreu fortes abalos com o advento dos jovens da “Nova Hollywood” e seu cinema autoral, a contestação politica e social era praticamente a regra, não a exceção. Neste longa, Affleck já optou por realizar, no início da projeção, uma autocrítica explícita raramente vista em filmes ianques ao passar em resumo a história recente do Irã, um dos países que mais sentiram o resultado desastroso do intervencionismo imperialista norte-americano. Ao apoiar o governo ditatorial do Xá Reza Pahlevi, como uma reação à nacionalização do petróleo promovida pouco antes pelo primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, os Estados Unidos, em boa medida, contribuíram diretamente para a posterior ascensão do Aiatolá Khomeini ao poder em 1979, durante a chamada “Revolução Islâmica”, o qual acabou por instaurar no país um regime teocrático avesso à cultura e modelos sociopolíticos ocidentais.


Foi durante os eventos de 1979 que a embaixada estadunidense acabou sendo tomada por revoltosos iranianos, fazendo como reféns os diplomatas e funcionários que lá se encontravam. Seis destes, contudo, conseguiram escapar e passaram a viver escondidos na embaixada canadense. Era preciso arrumar um forma de resgatá-los, mas a situação era complicadíssima. Várias ideias (ruins) surgiram, mas Tony Mendez (Ben Affleck no filme), um agente da CIA especialista em situações como esta, surgiu com uma ideia mirabolante: fingir a realização de um filme de ficção científica chamado “Argo” (daí o título do longa). A “produção” procuraria locações no referido país do Oriente Médio e o integrantes da “equipe” seriam justamente os seis enclausurados, que posteriormente deixariam o Irã como “cineastas”. Um plano tão maluco que não levantaria suspeitas. “Melhor do que fingirem ser professores ou fugir de bicicleta ao longo de muitos quilômetros”, disse Mendez. Para tanto, ele contou com a ajuda de verdadeiros profissionais do cinema, entre eles o maquiador vencedor do Oscar John Chambers (no filme vivido por John Goodman) e o produtor Lester Siegel (o sempre ótimo Alan Arkin), os quais se empenharam ao máximo em fazer com que a produção tomasse ares de verdade, realizando coletivas de imprensa, festa de lançamento do projeto, divulgando cartazes e outros procedimentos afins.

Vale ressaltar que Affleck resolveu fazer um filme setentista não apenas no gênero e no tema, como também em vários outros aspectos, como a fotografia granulada (de Rodrigo Prieto) e a trilha incidental, que nos recorda bandas poderosas como o Led Zeppelin. Interessante como ele vem mostrando bem mais competência como diretor do que como ator, ofício onde sempre apresentou desempenhos limitados. “Atração Perigosa” (The Town, 2010), seu longa anterior, já demonstrava uma direção segura e com ótimo ritmo, virtude que se mostraram ainda mais amadurecidas em “Argo”. A tensão é constante ao longo dos 120 minutos de projeção, fazendo com que o espectador se pegunte o tempo inteiro como terminará aquele plano. Astuto, Affleck soube inserir humor nos momentos certos para quebrar o clima tenso, jogando até piadas ácidas dirigidas ao sistema hollywoodiano do qual faz parte. Uma pena que dito sistema acabe por dominar a última terça parte do longa-metragem. Como é de conhecimento até do mundo mineral, Hollywood adora romancear histórias reais, talvez por acreditar que o público não se interessaria por essas mesmas histórias caso elas não fossem maquiadas ou hiperbolizadas. E aqui o jovem diretor também caiu na armadilha, transformando o desfecho do filme em uma correria típica de filmes de ação. Ademais, o final se apresenta permeado daquele patriotismo característico das terras de Tio Sam, algo que se mostra até contraditório diante do seu referido prólogo repleto de autocríticas.



Mesmo diante desses deslizes, “Argo” é um mais um passo adiante na carreira de Ben Affleck como cineasta. O longa já vem sendo cotado como um dos prováveis candidatos ao prêmio Academia de Hollywood e, acredito, ela não deixará passar sem estatuetas essa história surpreendente de como a indústria do cinema contribuiu decisiva e participativamente na resolução de um delicado problema diplomático que poderia ter consequências desastrosas nas relações dos EUA com o Oriente Médio. Como pudemos ver no ano passado, com a premiação de “O Artista” em várias categorias, Hollywood adora se ver na tela, mesmo quando são estrangeiros que a retratam. Que dirá quando é um dos seus próprios rebentos a traçar esta imagem positiva, narrando um dos seus feitos mais mirabolantes e até então desconhecido do grande público. O cinema norte-americano, como qualquer “Narciso”, adora se olhar no espelho.


Cotação:


 

Nota: 9,0

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer

A Vida dos Outros
(Das Leben Der Anderen, 2006)


A pior das vergonhas


A primeira vez que vi “A Vida dos Outros” (Das Leben der Anderen) foi com uma certa revolta. O ano era 2007 e ele tinha “roubado” o Oscar de melhor filme estrangeiro das mãos do meu favorito, “O Labirinto do Fauno” (El Laberinto del Fauno, 2006), a fábula dirigida por Guillermo del Toro que na minha opinião era “imbatível”. Assim, foi com curiosidade, mas também com vontade de encontrar defeitos na produção alemã, que resolvi conferi-la em uma sessão do Cineclube Natal, a convite de um amigo cinéfilo (abraço, Gian!). A verdade é que o meu esforço em buscar aspectos negativos no filme foi em vão e terminei a sessão completamente absorvido por aquela trama político-social inserida em um contexto belamente sensível que nos suga para dentro da vida daqueles personagens. Misturar observação politica com dramas individuais sem que nenhuma das vertentes saia prejudicada é algo bastante difícil de ser atingido, mas o diretor Florian Henckel Von Donnersmarck conseguiu a proeza. E o mais surpreendente é que este foi seu primeiro longa-metragem para o cinema.

Revendo o filme há poucos dias, a experiência mostrou-se igualmente sólida e envolvente. Em alguns momentos, senti-me tenso como se ainda não tivesse assistido ao seus 137 minutos de projeção (que não se sentem, diga-se de passagem). Impressionante um cineasta estreante atingir tal feito, mas isso não se deu por acaso. Donnersmarck fez uma vasta pesquisa nos arquivos da antiga República Democrática Alemã para compor seu roteiro, além de entrevistar várias pessoas que moravam no então lado oriental da Alemanha (o próprio diretor é filho de uma alemã oriental), vítimas das ações arbitrárias da Stasi, espécie de KGB local, polícia politica incumbida de monitorar e prevenir atividades consideradas subversivas ao Estado comunista. Apesar de contar com poucos recursos para a produção, conseguiu o máximo empenho do seu elenco, que aceitou recebeu suas remunerações com atraso e mesmo assim entregou belíssimas performances, principalmente Ulrich Mühe, intérprete do espião Wiesler, personagem central desta narrativa que mostra as terríveis consequências de uma sociedade dominada pela vigilância.


Na trama, Wiesler tem a missão de monitorar o dia a dia do dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Koch), um autor que conta com a simpatia do governo devido ao conteúdo socialista de suas peças. Entretanto, o ministro da cultura, Bruno Hempf (Thomas Thieme), está interessado na companheira de Dreyman, a bela Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), uma das mais conhecidas atrizes do país, razão pela qual é desencadeada uma operação para investigar supostas atividades anticomunistas de Dreyman. A observação constante de Wiesler faz com que este passe a, na verdade, admirar Dreyman e sua existência passional, cheia de entusiasmo pela literatura, música e vivendo uma relação tórrida com Christa-Maria, contrapondo-se à vida fria e solitária que resulta de sua atividade de bisbilhoteiro oficial. O diretor, inclusive, vale-se de uma comparação bem ajustada entre as práticas sexuais dos dois protagonistas para salientar as diferenças. Enquanto Dreyman vive quentes noites de amor com sua amada Christa, a vida sexual de Wiesler se limita a horas marcadas de sexo mecânico e impessoal com prostitutas, caracterizando o preenchimento da realidade do primeiro em contraposição ao vazio da existência do segundo. O próprio Wiesler percebe que ele nada mais é do que um voyeur chancelado pelo Estado, armado por um aparato tecnológico que o torna a apto a viver “a vida dos outros”, como diz o título perfeito da película, e isto passa a lhe trazer a pior das vergonhas: a vergonha de si mesmo, ainda mais potencializada quando percebe que suas ações estão servindo não a uma causa em que se possa acreditar, mas tão somente aos caprichos de um integrante das engrenagens estatais. O espião é a tradução individual de uma manifestação arcaica do poder estatal, eminentemente preocupado em impor limites aos seus cidadãos como uma forma de sustentação. Já Dreyman traduz o oposto, qual seja, a vida em liberdade, liberdade do pensar e do agir conforma sua autodeterminação.


Tais comentários políticos e existenciais, entretanto, poderiam se transformar em uma chatice se colocadas em mãos pouco habilidosas. Felizmente, não é o que sucede. Donnersmarck constrói um suspense que só aumenta ao longo da narrativa, desembocando em um clímax inesperado e contundente que deixa o espectador atordoado e que ainda é sucedido por uma conclusão de cunho emocional poderoso a que dificilmente você ficará indiferente. Aliado a este domínio do ritmo narrativo, ainda se destaca um direção de arte que se preocupou em reconstruir com precisão o ambiente da Alemanha Oriental dos anos 80, com suas cores estranhamente pálidas, desbotadas, suas paredes cinzentas e móveis angulosos que tornavam a vida tão fria e rigorosa quanto o aparato estatal então vigente. Juntando-se a este quadro temos a ótima performance do elenco. Se Martina Gedeck revela limitações na composição de sua Christa -Maria,. Sebastian Koch etá ótimo na pele do intelectual Dreyman, conferindo-lhe o tom sóbrio e ao mesmo leve bastante adequado a um homem das artes. Contudo, é inegável que a presença mais marcante em cena é de Ulrich Mühe, ele próprio nascido na RDA que faz aqui uma composição precisa, aliando contensão e emoção em igual medida e nos momentos certos. Uma pena que este ator tenha falecido meses depois das filmagens, vítima de um câncer no estômago, e não pudemos ter outras oportunidades de apreciar o seu trabalho.

“A Vida dos Outros” alcançou grande popularidade internacional, além de muito respeito diante da crítica. Contudo, alguns atacaram a obra por trazer uma visão “sensível e humanizada” de um agente da Stasi, algo semelhante às críticas que “A Queda – As Últimas Horas de Hitler” (Der Untergang, 2004) sofreu por mostrar uma suposta perspectiva “humanizada” do líder nazista. Porém, da mesma maneira que com o longa sobre os últimos momentos de Adolf Hitler, a crítica não procede, parecendo-me partir de pessoas que acreditam (ou precisam acreditar) em interpretações maniqueístas da História. O filme de Donnersmarck vai justamente no sentido oposto, fugindo de simplificações e nos apresentando personagens críveis, com suas contradições, virtudes, erros e redenções. E devo dizer: não foi nenhuma injustiça ele ter retirado o Oscar de melhor filme estrangeiro das mãos de “O Labirinto do Fauno”. Na realidade, foi um privilégio vermos dois filmes desta envergadura disputando o prêmio no mesmo ano, algo que nem acontece com frequência, infelizmente.


Cotação: 

Nota: 10,0

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Filmes Para Ver Antes de Morrer

Marty
(Marty, 1955)


Apologia do homem simples


Alguns dias atrás, estava eu naquele clima de preguiça, com o controle remoto da TV na mão, passeando pelos canais até que parei em um programa matinal de notícias. Poucos minutos depois, o telejornal exibe uma matéria sobre os “novos comportamentos” contemporâneos e mostra que os homens românticos hoje têm dificuldade de arrumar namoradas, enquanto os “galanteadores” acabam sendo preferidos pela “maior parte” das mulheres, porque, segundo uma das entrevistadas no interior de um bar, elas hoje preferem homens mais “práticos”. Na realidade, dizer que esse comportamento é “moderno” me parece ser ideia de quem não tem nada a dizer ou coisa de jornalista querendo extrair matérias das obviedades. Qualquer rapaz que já tenha passado pela adolescência na vida sabe que a maior parte das mulheres sempre preferiu os galanteadores, os descolados e populares, enquanto os românticos sonhadores e introvertidos acabam sozinhos nas festas, bailes, bares, baladas ou seja lá o que for. Em 1955, décadas atrás portanto, um filme denominado “Marty”, dirigido pelo pouco conhecido diretor Delbert Mann e protagonizado pelo eterno coadjuvante Ernest Borgnine, arrebatou 4 Oscars (filme, diretor, ator e roteiro) ao tratar de um desses “rejeitados”, um desses caras que não são especialmente agraciados com um tipo físico generoso ou não têm a autoconfiança necessária no jogo da conquista, mas que por dentro são bem mais interessantes do que os descolados das redondezas.

Uma das cenas da dita reportagem mostrava um homem, que já contava por volta dos seus 35 anos, sozinho no bar, ignorado pelas mulheres que por ali se achavam. Uma imagem que imediatamente me remeteu a Marty Piletti, o personagem do título, um homem de família italiana que mora apenas com a mãe (Esther Minciotti) em uma casa que já se tornou grande demais para os dois. Aos 34 anos, ele é o único entre os irmãos que ainda não se casou e é questionado diariamente por sua mãe quando irá arranjar um esposa. Ou melhor, não apenas por sua mãe, pois que todos lhe perguntam o mesmo, até as matronas que lhe compram carne no açougue onde trabalha. O único que não lhe faz tal questionamento é seu companheiro de noites solitárias de sábado, Angie (Joe Mantell), com quem divide a “falta do que fazer” ou vontade de não fazer nada. Na realidade, Marty está cansado de rejeições, está farto de não conseguir pares nos bailes ou de levar foras a cada oportunidade em que telefona para convidar alguma garota para ir ao cinema. Prefere não mais sofrer a tentar e passar por mais uma rejeição. Contudo, devido à insistência da mãe, ele acaba por ir a uma casa de dança da vizinhança, “um lugar cheio de gatinhas”, diz ela. E é lá que ele encontra Clara (personagem de Betsy Blair), uma garota que também possui um histórico amoroso bastante frustrado por não ser especialmente atraente no que se refere à beleza. E é partir de então que a vida ambos estará destinada a mudar.



Este é o único filme relevante de Delbert Mann, um diretor egresso da televisão e que adaptou para a tela grande esta apologia do homem simples oriunda de uma peça escrita para a TV por Paddy Chayefsky, em uma iniciativa dos produtores Harold Hecht e Burt Lancaster (Lancaster, inclusive, usou o seu prestígio apresentando o trailer da produção). Aliás, este é um dos raros casos em que um longa adaptado da televisão acabou levando um Oscar de melhor filme e, de quebra, direção. Mas é bom que se diga que o longa-metragem “Marty” está longe das perspectivas caricatas ou unidimensionais comuns na tela pequena. Sem melodrama acentuado, apenas percebemos que ele não tem sucesso com as mulheres e anda desiludido com a sua situação, sentindo-se socialmente deslocado. O roteiro (escrito e adaptado pelo próprio Chayefsky) não se esforça para que tenhamos “pena” do protagonista, aliás, não há nem tempo para tanto, dados os seus enxutos 91 minutos de duração, concentrando-se em mostrar ao espectador como o protagonista se livra dos seus medos e pressões para buscar a sua felicidade. Olhando para o contexto dos anos 50, quando se vivia a neurose da Guerra Fria, o drama propõe o relevante comentário de que a felicidade das pessoas comuns vai bem além de questões político-sociais, passando, antes disso, por sentimentos simples como o de sentir-se aceito na comunidade em que vive.



Interessante ressaltar que a própria carreira de Ernest Borgnine reflete muito do tema do longa. Talentoso, Borgnine pouco exerceu papéis centrais nas películas em que atuou, geralmente sendo relegado a personagens coadjuvantes. Tal circunstância nitidamente está relacionada com sua aparência física, pois que não era especialmente bonito e tinha um biótipo acima do peso considerado adequado pelos padrões de beleza vigentes. Ou seja, Borgnine foi uma espécie de “Marty”entre os atores, rotineiramente relegado a um segundo plano por motivos ligados a superficialidades. É importante frisar, ainda, que o Oscar de melhor ator lhe foi muito bem entregue, posto que seria fácil cair em exageros de caracterização e fazer de Marty um “coitadinho”. Ao contrário, Marty nunca perde a sua dignidade e Borgnine não apela para olhos chorosos ou outros recursos banais. Basta compará-lo à performance de Betsy Blair para vermos a diferença entre um grande ator e uma atriz apenas esforçada. Blair, embora não comprometa o conjunto, passa boa parte das suas cenas como o olhar marejado, quando não chorando mesmo, o que confere à sua Clara o ar de “coitadinha” que não está presente no protagonista.

Uma pérola que não perdeu sua atualidade, “Marty” é um filme tão especial que conquistou não só o prêmio da Academia de Holllywood, como também a Palma de Ouro no Festival de Cannes e, é bom esclarecer, uma produção levar esses dois prêmios é algo bem raro de se ver (por mais irônico que isso possa parecer). O fato de ter encantado tanto europeus quanto norte-americanos nas suas mais caras premiações é uma bela demonstração da força universal deste pequeno conto sobre um homem simples, seus sentimentos e sonhos, que nada mais são do que ter a vida justamente de uma pessoa comum, com um cônjuge, um lar e filhos para cuidar. Essas pequenas coisas que muitas vezes esquecemos de sua importância, mas que, na verdade, são as que nos tornam plenos.


Cotação:



Nota: 10,00

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Trilha Sonora #25



"Forrest Gump - O Contador de Histórias" (Forrest Gump, 1994) é um filme do tempo em que Tom Hanks era o melhor ator do mundo, encantando o público e recebendo prêmios a cada novo trabalho. Mas não só isso.  "Forrest Gump" é um ótimo filme, o ápice da carreira do diretor Robert Zemeckis (ao lado de "De Volta Para o Futuro"), inventivo, original e divertidíssimo. Ademais, faz um grande retrospecto da história da cultura e costumes norte-americanos nas últimas décadas, o que acaba por nos trazer uma trilha incidental extensa e de ótima qualidade, contando com composições excelentes como esta "Turn! Turn! Turn", canção da banda The Byrds que adapta um trecho do livro bíblico Eclesiastes. A música é um primor e as palavras são de uma sabedoria atemporal. Som na caixa!


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Gonzaga: De Pai Pra Filho

A dúvida “casmurra” de Gonzagão


Luiz Gonzaga e Luiz Gonzaga Jr. formam um incomum caso de talento que passou de pai para filho. O pai, o lendário Gonzagão, é um dos maiores gênios da nossa música popular, um dos responsáveis até pela construção de nossa identidade cultural, principalmente do Nordeste, que tem como “hino” extraoficial a canção “Asa Branca”, fruto de sua parceria com o advogado Humberto Teixeira. Já Gozaguinha é um dos expoentes do gênero que hoje se define como “MPB”, compositor socialmente engajado e dono de uma sensibilidade ímpar, capaz de emocionar mesmo o coração mais duro. O que nem todo mundo sabe é que pai e filho tiveram um relação complicadíssima, fruto da indiferença afetiva com que Luiz Gonzaga tratou seu filho durante a maior parte da vida. “Gonzaga: De Pai Pra Filho”, novo longa-metragem do diretor Breno Silveira, é, em boa medida, muito mais do que uma simples biografia do Rei do Baião. Trata-se de uma busca pelas motivações desse desentendimento, as razões que levaram os dois ao afastamento e posterior reconciliação.

Na verdade, este é um projeto antigo de Silveira, mais precisamente de 7 anos, iniciado logo após a estreia de “2 Filhos de Francisco”, a ótima cinebiografia dos cantores sertanejos Zezé Di Camargo e Luciano dirigida pelo mesmo em 2005. Baseado no livro Regina Echeverria e com adaptação da roteirista Patrícia Andrade, Silveira conseguiu algo improvável: coadunar com qualidade a história de vida do biografado sendo não somente didático, mas procurando analisar suas atitudes sem oferecer julgamentos e, ao mesmo tempo, conseguindo atingir uma veia emocional forte, que dificilmente deixará o espectador indiferente. Pode-se acusar o filme de romancear a vida de Gonzaga - o que, em parte, é verdade, principalmente no que diz respeito à sua primeira metade – bem como de amenizar algumas passagens pouco valorosas de sua vida (como seu apoio ao governo militar, ao menos no início) e de seu filho (o alcoolismo de Gonzaguinha é apenas sugerido). Contudo, é muito difícil condensar todo o histórico de vida de um ser humano em apenas duas horas e a abordagem escolhida pelo cineasta mostrou-se feliz em sua maior parte.


A história é narrada em estrutura de flashback, iniciando a partir do momento em que Gonzaguinha recebe um pedido de sua madrasta, Helena, para que vá até Exu, em Pernambuco, para encontrar seu pai, o qual está precisando de sua ajuda. Mesmo que relutante, Gonzaga Jr. empreende a viagem até a terra natal de seu genitor e, desde o primeiro encontro dos dois na tela, já percebemos o quão difícil era a relação entre ambos. É então que o filho resolve entrevistar o pai, usando para tanto um gravador (daqueles de fitas cassete bem oitentistas), buscando entendê-lo melhor a partir de suas memórias. E seguimos a vida de Gonzagão, desde a saída de Exu, fugindo de um coronel que não via com bons olhos o interesse de Luiz pela sua filha, passando a seguir por diversos episódios. Estão na tela sua vivência no exército; a chegada ao Rio de Janeiro; a ausência de sucesso ao iniciar sua vida de sanfoneiro tocando ritmos estrangeiros, como tango e fado, além de sua ascensão ao resolver investir na suas raízes e colocar no seu acordeon os ritmos do sertão nordestino.

É importante ressaltar que, mesmo relatando praticamente toda a trajetória do Rei do Baião, em nenhum momento Silveira perde o foco de tentar compreender a gênese dos seus atritos com o filho. Silveira, inclusive, optou por uma das versões da história do nascimento do garoto, aparentemente nunca inteiramente esclarecida. Se você fizer uma rápida pesquisa no nosso amigo Google, encontrará vária versões sobre a relação de Gonzaga com Odaleia Santos (no filme interpretada por Nanda Costa), alguns chegando a afirmar que ela já estaria grávida quando os dois se casaram e o músico teria assumido a paternidade do menino mesmo sabendo que não era o pai. A versão que vemos no filme é a da dúvida “casmurra” tornada célebre pelo nosso Machado de Assis. O Mestre Lua teria passado a vida com a dúvida sobre a paternidade daquele garoto que nem mesmo guarda semelhanças físicas com o genitor e que tinha como mãe uma mulher que trabalhava como dançarina de salão e tinha uma conduta “avançada” para a época. Desta forma, sugere-se que todo o abandono afetivo de Gonzagão por seu rebento tem suas origens nessa interrogação, algo que só iria crescer com tempo, principalmente a partir de seu segundo casamento com a secretária e contadora Helena Cavalcanti (papel de Roberta Gualda),a qual não conseguia engravidar e acusava Luiz de ser estéril, dando ainda mais força, portanto, à ideia de que Gonzaguinha não era seu filho. Sendo ou não a versão verídica dos acontecimentos, a opção narrativa se coloca como a maneira ideal de apresentar aquela história ao público.


Para o desenvolvimento de uma boa cinebiografia, boas atuações são importantes e é neste ponto que a produção se mostra oscilante. Nenhum dos três atores que interpretam Gonzaga nos oferecem grandes desempenhos, principalmente Chambinho do Acordeon, músico profissional que topou encarnar Gonzaga em sua fase adulta. Em várias de suas cenas, principalmente aquelas que mostram os shows de Luiz, ele se mostra artificial, quase caricato, embora tenha carisma. Entretanto, os outros dois intérpretes, Land Vieira e Adélio Lima, que fazem o Gonzaga adolescente e idoso, respectivamente, se não são brilhantes ao menos não comprometem o personagem, mostrando certa competência. O destaque interpretativo vai mesmo para Júlio Andrade interpretando Gonzaguinha em sua fase adulta. Ele simplesmente surge como uma espécie de reencarnação do cantor e compositor e não só no que se refere à semelhança física. Seus trejeitos, postura, o ar reflexivo e levemente arrogante de Gonzaguinha estão lá presentes e chegaram a impressionar até mesmo a família do músico (sua viúva chorou em uma sessão privada oferecida pela produção do longa). Curioso que Andrade conhecia bastante da vida e obra de Gonzaguinha antes mesmo de assumir o papel, pois seu pai é fã do músico e o ator cresceu ouvindo e vendo em casa a carreira da interpretado.

Pode-se concluir que “Gonzaga: De Pai Pra Filho” é um filme típico de Breno Silveira. Narra uma história de pai e filho muito cara à sua cinematografia (vide o citado “2 Filhos de Francisco” e o recente “À Beira do Caminho”), povoada por famosas canções de nossa música popular (no caso, ouvimos canções tanto do pai quanto do filho) e com uma catarse ao fim. Entretanto, vale dizer que seus filmes não soam repetitivos e, ao menos para este que vos escreve, este seu novo trabalho conseguiu atingir com força o coração. É verdade que talvez isto se deva às minhas origens nordestinas. Afinal, mesmo sendo um “rapaz do litoral” e da capital, acabo me identificando com grande facilidade tanto com os elementos culturais quanto sociais mostrados ao longo da projeção. Basta percorrer alguns quilômetros interior adentro aqui no Rio Grande do Norte para se deparar com as agruras da realidade tão bem espelhada por Gonzaga com sua música, bem como com suas alegrias e visão de mundo. Mas seria leviano taxar a película como uma obra “regional”. Certas histórias são universais e esta certamente é uma delas.


Cotação:
 


Nota: 8,5

domingo, 4 de novembro de 2012

Selo Versatile Blogger


A colega blogueira Márcia Moreira, do “Clássicos, Não Antigos”, destinou a este espaço o selo Versatile Blogger, o que deixou este que vos escreve bastante lisonjeado e agradecido. Bem, para usar o selo é necessário escrever 7 coisas sobre si mesmo. E vamos à tarefa então.




1 – Nasci e moro em Natal/RN, a Cidade do Sol, uma terra abençoada por Deus com uma beleza incomum, mas que vem sendo muito destratada pelos governantes. Tenho 34 anos e sou bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e pós-graduado pelo Fundação Escola Superior do Ministério Público do RN. Hoje sou servidor concursado do Tribunal de Justiça do RN, onde trabalho há 6 anos. Sou um "cara família" e nunca fui de viver muito em baladas. Gosto de ir a bons shows e, claro, cinema ;


2 – Como noticiei aqui mesmo no blog, casei-me há pouco mais de 6 meses com Sandra Patrícia, uma grande mulher, linda e companheira. Estamos muito “felizes juntos” (para usar o título de um filme de Kar-Wai), curtindo o presente e pensando em viver dias ainda melhores no futuro!

3 – Eu credito a meu pai e a Steven Spielberg a minha paixão pelo cinema. Explico. Quando eu tinha lá meus belíssimos 5 anos de idade, o Sr. Gaspar Carmo, meu pai, levou-me para ver “E.T – O Extraterrestre” no cine Rio Grande (que hoje é uma igreja evangélica...). Chorei exatamente como a criança que eu era no fim do filme e fiquei alucinado com toda aquela fantasia com amigos de outros planetas e bicicletas voadoras. Spielberg provavelmente é o cineasta mais manipulador que já existiu;


4 – Sou beatlemaníaco e isso implica dizer que escuto Beatles e suas respectivas carreiras solo com muita frequência. Também implica dizer que tenho posters, camisas, bottons, canecas e afins com temas da banda dentro de casa. Obviamente, também tenho a coleção completa dos seus discos. Ou melhor, duas coleções completas e mais alguns vinis. Ver o show de Paul McCartney com minha esposa durante a nossa lua-de-mel é algo que ficará para sempre na memória. Entretanto, isso não significa que não goste de outras bandas e gêneros musicais. Escuto muito Pink Floyd, Led Zeppelin, Rolling Stones, Elvis, Queen e outras bandas de rock clássico. Também adoro R.E.M, Nirvana, Radioehad, além das bandas de rock nacional. Sou fã da Legião Urbana (Renato Russo pautou muito da minha adolescência) e e também curto muito as outras banda do rock Brasil como Paralamas e Titãs. Também sou fã de jazz (tenho vários discos de Miles Davis) e MPB. Aliás, nossa música é prolífica em gênios como Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso entre outros. Bem, na verdade, na minha opinião só existem dois tipos de música: música boa e música ruim;



5 – Tenho uma paixão clubística pelo Botafogo de Futebol e Regatas. Podem me chamar de “sofredor” ou adjetivos similares, mas não vai adiantar. Torço pelo time estrela solitária desde pequenininho e costumo sair por aí com sua camisa com muito orgulho;




6 – Acredito que sempre devemos olhar a realidade com um viés crítico e duvidar (de forma salutar, mas não paranoica) do que nos é apresentado como “verdade” no nosso cotidiano. Boa parte das informações que nos chegam são filtradas e manipuladas na busca de proteger diversos interesses, mormente os dos detentores do poder econômico. Platão, milhares de anos atrás, já nos alertava sobre a visão distorcida que temos do real e isso se torna cada vez mais premente diante de um mundo dominado por uma mídia que atende, antes de tudo, a interesses privados;

 (Essa não é a minha coleção, é só para ilustrar o tópico)

7 – Possuo uma enorme coleção de filmes, discos e livros em casa. Sou daqueles que vivem aproveitando as promoções das lojas online e catando pechinchas nas Americanas, mas não compro qualquer coisa. Minhas coleções são de ótima qualidade. Só gostaria de ter mais tempo para usufruir delas.

Antes de finalizar, gostaria também de presentear os blogs abaixo com o mesmo selo. São todos espaços de qualidade que costumo acompanhar com interesse e curiosidade:

Grande abraço a todos e continuem acompanhando este espaço trabalhado com muita dedicação e carinho!

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

007 - Operação Skyfall

O velho e o moço


Pois é, já são 50 anos de James Bond nas telas de cinema. Ao logo dessas décadas, o agente 007 – os dois zeros antes do 7 significam que ele tem “permissão para matar” - tornou-se um ícone pop como poucos, um símbolo de masculinidade que foi se adaptando às mudanças dos costumes sociais e da própria profissão de espião, mas que continua povoando o imaginário popular e rendendo sempre ótimas bilheterias. Nos últimos anos, a franquia mais longeva do cinema vem passando por uma especial renovação, não apenas no que diz respeito ao ator que encarna o protagonista. Desde o reboot “Cassino Royale” (2006), o tom mais sisudo e realista, aliado a um estilo de ação influenciado pela trilogia Bourne, deu uma sacudida na série que agradou em cheio tanto o público quanto a crítica. Aliado a isso, veio o novo intérprete Daniel Craig, certamente o melhor James Bond desde o lendário Sean Connery. Eu mesmo me atrevo a dizer que Craig é tão bom quanto Connery, cada um fazendo o melhor pelo personagem em seus respectivos momentos históricos.

Para comemorar as bodas de ouro da franquia não haveria melhor opção do que mais um episódio com alto nível de qualidade. E, confesso, depois da experiência somente razoável de “Quantum Of Solace” (2008), dirigido por Marc Forster, temi pela escolha de Sam Mendes para assumir a direção. Gosto de Mendes, um grande diretor de filmes como “Beleza America” (American Beauty, 1999) e “Estrada Para Perdição” (Road To Perdition, 2002), mas ele não tinha experiência no comando de filmes de ação blockbuster como este. Contudo, ainda bem que minhas apreensões não se confirmaram. O que se vê em “007- Operação Skyfall” é realmente um dos melhores episódios da cinesérie, chegando próximo ao patamar do citado “Cassino Royale” e de clássicos como “007 Contra Goldfinger” (Goldfinger, 1964). E mais, o filme possui elementos da filmografia de Mendes que o tornam não apenas mais um longa em sua carreira, mas como verdadeiramente integrante de seu perfil autoral. Mendes desenvolveu com este “Skyfall” uma ótima metáfora do eterno conflito entre o novo e o antigo, entre as tradições e a vanguarda, um tema recorrente em suas obras que se encaixa à perfeição com o próprio momento da série do agente britânico, a qual, nos últimos episódios, vem justamente buscando um novo tom mais sintonizado com o mundo contemporâneo.


A trama desta nova película é uma das mais engenhosas concebidas para o espião. Nela, vemos Bond ser dado como morto logo no início da projeção, em consequência de uma atitude equivocada de M (Judi Dench)* no comando da missão. Diante de seus últimos insucessos e seguidas perdas de agentes em campo, o trabalho de M à frente da divisão de espionagem do Serviço de Inteligência britânico, o MI-6, começa a ser questionado por seus superiores, entre eles Gareth Mallory (Ralph Fiennes), que ameaça aposentá-la compulsoriamente. Para completar o quadro, a própria sede e sistema de dados do MI-6 são atacados por uma quadrilha de hackers comandada por Silva (Javier Bardem, sensacional!) um ex-agente que sentiu traído por M no passado, buscando vingança a qualquer custo. É nesse quadro que se coloca um especial desenvolvimento na relação entre Bond e sua superiora, em uma abordagem inédita na franquia. A partir desta linha principal, o longa é pontuado por vários momentos que emanam a questão da finitude. Uma das sequências, em que Bond se encontra com Q (agora interpretado pelo jovem Ben Whishaw) revela em poucas palavras e imagens o mote de toda a narrativa ao focar em uma pintura que retrata um velho navio de guerra prestes a naufragar. A própria relação de Bond com Q, o inventor das traquitanas tecnológicas que usa, reflete esse conflito entre “o velho e moço” (para citar uma música do Los Hermanos) que jamais cessará.


Mas não é só de papo-cabeça que vive “Operação Skyfall”. A ação está lá, quase desenfreada com sequências espetaculares muito bem dirigidas por Mendes (como é bom assistir a um filme de ação sem tremedeira na câmera!) e com um vilão certamente dos mais memoráveis da cinesérie, com motivações mais sinceras do que ideias mirabolantes de conquista e destruição do mundo. Impressionante como Javier Bardem não consegue atuar mal e rouba a cena em todas as circunstâncias. E olha que seu personagem, o tal Silva, só aparece lá para a metade da projeção. Outras boas atuações também são a de Judi Dench, finalmente com um espaço maior para desenvolver a sua M, e, claro, o próprio Daniel Craig, encarnando Bond de uma forma que hoje fica difícil imaginar o herói sem a sua imagem.

“Operação Skyfall”, entretanto, peca por uma certa previsibilidade a partir da metade da narrativa e suas duas bondgirls, tanto Naomie Harris como a francesa Bérénice Marlohe, não dizem muito a que vieram, neste ponto ficando a muitos quilômetros de distância da presença central e marcante da bondgirl de Eva Green em “Cassino Royale”. Mas é bom ressaltar que estes são problemas menores que, se contribuem para deixá-lo um pouco abaixo do nível obtido por Martin Campbell no longa de 2006, não chegam a realmente interferir em ótimos 146 minutos (que não se sentem) de apreciação. Sam Mendes, tal como Christopher Nolan com a franquia de Batman, mostra aqui que é possível, sim, colocar um viés artístico próprio mesmo em blockbusters feitos para levar milhões às salas. E, de quebra, ainda temos música de Adele ao longo dos ótimos créditos iniciais do longa-metragem. Tem coisa melhor do que comer pipoca com classe e inteligência? E que venha o próximo 007, como bem anunciado antes dos créditos finais.



Cotação:



Nota: 9,0



*Nota com SPOILER: corre a notícia de que o fim da personagem de M na franquia se deve a uma doença degenerativa nos olhos de Judi Dench que pode deixá-la cega.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Na Estrada

Viagem cansativa


De antemão, vou avisando que nunca li “On The Road”, a obra literária de Jack Kerouac agora adaptada pelo nosso Walter Salles para o cinema. Imagino que seja um bom livro, afinal nada nessa vida é impune e seu sucesso e respeito ao longo de décadas deve ter os seus méritos. Vamos falar aqui, portanto, apenas da obra cinematográfica, o filme enquanto filme, abstraindo o fato de ser uma adaptação. Sob esta ótica, posso dizer que o resultado final é, no mínimo, bastante discutível.

É verdade que Francis Ford Copolla, detentor dos direitos de adaptação para o cinema desde os anos 70, esperou todo esse tempo para por em prática o seu projeto porque nunca havia encontrado o diretor ideal (o que nos levar a imaginar que ele próprio se achava incapaz para a tarefa) até assistir a “Diários de Motocicleta” (2004), o road movie (ótimo, é bom lembrar) dirigido por Walter Salles que narra as viagens feitas por Ernesto Guevara de La Serna em sua juventude, ou seja, antes de ser mundialmente conhecido como “Che” Guevara. De fato, Salles mostrou-se um grande diretor de filmes de estrada não apenas por este trabalho, mas também por “Central do Brasil”, longa que tornou seu nome famoso ao receber duas indicações para o prêmio da Academia de Hollywood – melhor filme estrangeiro e melhor atriz (Fernanda Montenegro). Além disso, sempre foi um artista de grande sensibilidade, demonstrada ainda em outras obra como “Abril Despedaçado” (2001) e “Linha de Passe” (2008, juntamente com Daniela Thomas). Ao lado de Salles, outros nomes que figuram nos créditos de “Diários de Motocicleta” foram levados para o projeto, entre eles o roteirista Jose Rivera e o diretor de fotografia Eric Gautier. Adicione-se que o longa ainda conta com um baita elenco, salpicado por vários nomes famosos e competentes que fariam a alegria de qualquer diretor. Com tanta gente boa junta, este poderia ser considerado um projeto que não tinha como dar errado. Infelizmente, as coisas não correram tão bem assim. 


Não se pode negar que a fotografia de Gautier é muito bonita e que existe toda uma contextualização da vida daqueles jovens, integrantes da famosa geração “Beatnik,” que deve ser observada. Eles cresceram durante a Segunda Guerra Mundial e acabaram por desenvolver um visão de mundo existencialista bastante influenciada por nomes como Jean-Paul Sartre e Albert Camus. É nítido que suas viagens são a busca de um sentido para a vida, ou a crença na falta de tal sentido para a mesma. As drogas e o sexo transgressor, portanto, não são gratuitos na tela, assim como o fato de Sal Paradise (Sam Riley), alter-ego de Jack Kerouac, enxergar no inconsequente Dean Moriarty (Garrett Hedlund) um exemplo libertário soa, até certo ponto, natural. O problema é que, mesmo entendendo perfeitamente o contexto, o filme de Salles se mostra quase tedioso, uma sucessão sem fim de bebedeiras, viagens alucinógenas e orgias que não nos levam a qualquer empatia com os personagens.


A sensação de tédio pode ser realçada pelo caráter episódico da narrativa, a qual relata as viagens de Sal ao lado de Dean e a maluquete Marylou (Kristen Stewart, estranhamente bem no papel), numa relação que às vezes parece remeter a “Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois” (Jules et Jim, 1962), uma das grandes obras de François Truffaut. Vamos de viagem em viagem, de lá para cá, do Leste para o Oeste e vice-versa e acabamos com a impressão de que estamos vendo as mesmas cenas, principalmente diante dos injustificáveis 137 minutos de projeção. Sal, o protagonista, muitas vezes parece um maria-vai-com-as-outras, sempre seguindo Dean nas suas aventuras. Entretanto, não se pode negar que diante de tantas loucuras, surgem algumas sequências bem divertidas e alguns dos tipos que vão aparecendo são inegavelmente interessantes, como Old Bull Lee (que na realidade seria o escritor William S. Burroughs), interpretado com boa presença por Vigo Mortensen, ou Camille (Kirsten Dunst, ótima), que acaba se tornando esposa de Dean Moriarty. Da mesma forma, o desfecho se revela bem elaborado (imagino que bem adaptado), colocando em evidência as decepções de Sal com o seu amigo “libertário”, mas que no fundo vai se mostrando tão somente um irresponsável compulsivo, incapaz de levar qualquer relacionamento de forma madura, sendo levado a tomar toda e qualquer atitude tendo como único referencial o próprio ego.

Entretanto, suas virtudes acabam se mostrando poucas para um filme baseado em uma obra tão aclamada. Talvez a culpa seja do próprio livro, que muitos consideravam como inadaptável. Na película, são visíveis os esforços de todos os envolvidos no projeto para captar a essência, o espírito da obra de Jack Kerouac, mas tais esforços de mostraram aparentemente frustrados. Aparentemente, trata-se da primeira vez em que Walter Salles realmente errou a mão. Ou será que o livro adaptado é chatinho mesmo? Com a palavra, aqueles que já tiveram a oportunidade de ler suas páginas.



Cotação:
  


Nota: 6,5

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Para Ver Em Um Dia de Chuva



   

O Segredo da Porta Fechada

(Secret Beyond The Door, 1947)


A “má fase” de Fritz Lang


A carreira do genial cineasta austríaco Friedrich Anton Christian Lang, mais conhecido pelo nome artístico Fritz Lang, é mais lembrada hoje pela sua fase europeia e expressionista, quando concebeu obras-primas como “Metropolis” (1927) e “M – O Vampiro de Dusseldorf” (M - Eine Stadt sucht einen Mörder, 1931) do que pela sua fase nos Estados Unidos, país para o qual emigrou fugindo do nazismo. Muitos o acusaram de ter se vendido a Hollywood, realizando películas de viés comercial e pouca relevância artística. Trata-se, contudo, de uma visão apressada e injusta, já que, em Hollywood, Lang ajudou a criar o que hoje se convencionou chamar “cinema noir”, o tipo de filme que dominou a produção média estadunidense durante os anos 40, onde heróis de caráter nem sempre exemplar se envolviam com mulheres fatais e tramas policiais ou misteriosas. Há ainda uma vertente mais feminina do noir, que alguns denominam de “gótico feminino”, onde normalmente mulheres apaixonadas se veem diante de situações misteriosas ou possuem comportamento obsessivo. É o caso de clássicos como “Amar Foi Minha Ruína” (Leave Her To Heaven, 1945), de John M. Stahl; e “Rebecca, A Mulher Inesquecível” (Rebecca, 1940), de Alfred Hitchcock. “O Segredo da Porta Fechada”* (Secret Beyond The Door) é um dos filmes de Lang que se encaixam nessa definição de “noir feminino” e demonstram que seu talento estava longe de algo que se possa adjetivar como “em baixa”.

Esta foi a segunda e última produção da Diana Productions, empresa criada por Lang, o produtor Walter Wanger, sua então esposa e estrela Joan Bennett (Diana era o nome da filha do primeiro casamento de Bennett) e Dudley Nichols. Devido ao fracasso comercial do longa, a produtora acabou falindo, mas é difícil entender os motivos de seu insucesso. Afinal, trata-se de uma obra com um roteiro elaboradíssimo e uma direção que constrói um clima extremamente tenso que nos deixa vidrados na tela e grudados na poltrona. Inspirado pelo citado “Rebecca”, Lang acabou gerando um suspense que não fica nada a dever aos do mestre Hitchcock. Com seu tom onírico e subtexto freudiano, “O Segredo da Porta Fechada” antecipou ainda em décadas os suspenses psicológicos que teriam em Roman Polanski um dos seus maiores expoentes em filmes como “O Bebê de Romary” (Rosemary's Baby, 1968). Ou seja, mais uma obra dentre tantas que sofreu da incompreensão tanto do público quanto da crítica, mas que merecia um destino melhor.


Na trama, Joan Bennett – bela e com atuação convincente - vive Celia, uma rica, mas insegura mulher muito protegida por seu irmão mais velho. O falecimento deste lhe deixa sem um porto seguro e ela acaba se apaixonando e casando rapidamente com Mark Lamphere (Michael Redgrave), um milionário charmoso, mas que aos poucos vai se demonstrando misterioso em igual medida. Ele possui a estranha mania de colecionar quartos de mulheres vítimas de assassinato, todos devidamente alocados na sua enorme mansão. Só que um deste quartos, o sétimo, encontra-se permanentemente trancado e Mark se recusa a revelar o que há no seu interior. O mais interessante é que Celia, ao contrário do que se poderia banalmente supor, não se move a tentar descobrir o que há por trás da tal porta apenas por uma mera curiosidade ou o temor de estar diante de um psicopata ou algo do tipo. Seu motor é o amor que sente por Mark e o desejo de ajudá-lo a superar possíveis traumas que o levariam a ter esse comportamento estranho. Tal contexto traz um ótimo diferencial para a personagem de Bennett, sendo ainda mais reforçado pela narração em off da própria Celia, demonstrando que várias de suas atitudes, que poderiam parecer bobas à primeira vista, são tomadas depois de muita reflexão e angústia. Ademais, o recurso faz com que mergulhemos na subjetividade da protagonista, envolvendo-nos com suas dúvidas cada vez mais inquietantes.

A narrativa também se mostra ideal para que Lang ponha em prática suas teorias sobre a essência do ser humano. Para ele, todo homem é um criminoso em potencial. Dizem que ele chegava mesmo a perguntar às pessoas se elas já não tinham desejado matar alguém e ficava frustrado diante de respostas negativas, acreditando serem mentirosas. O personagem de Mark é justamente a representação dessas ideias. Será ele um criminoso de fato ou somente no plano imaginativo? Para Celia, a melhor resposta não seria nenhuma das duas, claro, mas, com o desenrolar dos acontecimentos, a segunda opção aparece como relativamente confortável.


Vale dizer que o suspense psicológico não seria tão eficiente sem a interação com a fotografia e a trilha sonora. Stanley Cortez, o mesmo diretor de fotografia de obras-primas como “O Mensageiro do Diabo” (The Night Of The Hunter, 1955), apresenta aqui mais um trabalho brilhante em p&b. A sequência em que Celia está prestes a desvendar o tal segredo atrás da porta é uma verdadeira aula de enquadramento e utilização do contraste entre luz e sombras. Da mesma forma, a inspirada trilha de Miklós Rózsa garante o tom certo para cada sequência, principalmente as mais tensas. As atuações também não deixam a desejar, principalmente a da ótima Joan Bennett, perfeita como uma heroína romântica, mas ao mesmo tempo inteligente, proativa e angustiada.

É verdade que o filme deixa de atingir o status de obra-prima devido ao seu desfecho meio apressado e até certo ponto insatisfatório. Entretanto, isso não significa dizer que é uma obra menor dentro da filmografia de um referencial da Sétima Arte. Trata-se de um belíssimo representante de um quase gênero (sim, pois o noir é mesmo um gênero?) dos mais cultuados e estudados da história do cinema e do qual Fritz Lang foi um dos criadores. Trazendo da Europa seus conceitos expressionistas, ele misturou suas origens com o formato hollywoodiano para criar um novo jeito de fazer cinema que ainda encanta mesmo décadas depois. Pois é, esta é a “má fase” (para usar uma expressão consagrada no futebol) de Fritz Lang. Mais uma prova de que os críticos erram, e muito, em suas avaliações imediatistas.


Cotação:



Nota: 9,5

*O filme possui outras duas versões em português para o seu título. São elas “O Segredo Atrás da Porta” e “O Segredo da Porta Cerrada”. Preferimos adotar no texto a tradução usada na recente edição lançada em DVD no mercado brasileiro.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Looper - Assassinos do Futuro


A primeira impressão é a que fica

Se fosse utilizar apenas um adjetivo para definir este “Looper – Assassinos do Futuro” com certeza seria “estranho”. Foi o que comentei com minha esposa aos sairmos da sessão no cinema, ainda meio atordoados por uma trama que mistura viagens no tempo com mutações genéticas que lembram os filmes dos X-Men e até mesmo “Akira”, a animação japonesa cult de Katsuhiro Otomo. No entanto, o adjetivo “estranho” merece ser visto aqui não como um demérito, mas antes como uma virtude do longa dirigido pelo pouco conhecido Rian Johnson. Tal como filmes como “Star Wars” ou “Matrix”, “Looper” tem o mérito de propor um universo ficcional com regras e nuances próprias, mesmo que, ao analisarmos mais detidamente, elas se mostrem como uma mistura de ideias já vistas em outros produtos pop.

A trama, meio confusa como normalmente sucede com longas sobre viagens no tempo, narra a vida de Joe (Joseph Gordon-Levitt), um “looper”, uma espécie de matador de aluguel encarregado de eliminar vítimas enviadas do futuro, devendo também se livrar dos seus corpos (tarefa fácil, já que o corpo é de alguém que nem existe no tempo em que se passa a narrativa). Os problemas começam quando o alvo enviado do futuro para execução é o próprio Joe algumas décadas mais velho (interpretado por Bruce Willis), o que irá gerar uma série de descontinuidades temporais bem ao estilo “De Volta Para o Futuro” (Back To The Future, 1985). Para tentar evitar o assassinato da sua esposa, o Joe “velho” vai tentar eliminar o futuro líder da máfia em questão, o qual parece ser um garoto com poderes mutantes telecinéticos descontrolados (acredito que semelhanças com “O Exterminador do Futuro” também não são mera coincidência).

O problema deste tipo de enredo é que, inevitavelmente, surgirão várias pontas soltas e seu final em aberto, denotando a intenção de construir uma franquia a partir deste, deixa a situação ainda pior. Mas não se pode negar que Johnson sabe conduzir seu material e o espectador, a partir de metade da projeção, já está totalmente envolvido pelo universo proposto, por mais estranho e absurdo que ele possa parecer (o que em geral acaba invariavelmente sucedendo com este subgênero de ficção científica). Jonhson consegue atribuir uma personalidade inesperada a um filme que poderia fracassar de maneira retumbante em mãos erradas ou apresentar apenas mais do mesmo. Além disso, o roteiro, escrito pelo próprio Rian Johnson, apresenta conotações sociais ao insistir constantemente na assertiva de que o caráter de um indivíduo em boa medida é moldado pelo meio onde ele vive. O próprio Joe se apresenta como vítima das circunstâncias, revelando um passado turbulento, comentado pelo mesmo ao longo da narrativa. Há ainda um clima de máfia japonesa no ar (mais uma referência), dadas a violência e crueldade com que agem os integrantes da máfia em questão.

Para a credibilidade do protagonista, por outro lado, contribui muito a participação decisiva de um ator de qualidade como Gordon-Levitt. Com mais uma boa atuação, Levitt chegou a usar próteses e uma competente maquiagem para ficar mais parecido com Bruce Willis, uma vez que ambos interpretam o mesmo personagem. Até as canasctrices de Willis são bem captadas por ele, numa perfeita simbiose que nos faz ter a sensação de realmente estarmos diante do mesmo personagem. Emily Blunt como Sara, mãe do garoto que passa a ser ponto central dos acontecimentos, também aparece com boa presença. Em outra vertente, a fotografia, com tons escuros, e a trilha sonora são outros fatores que ajudam a criar a tensão e o suspense, principalmente a partir da segunda metade da projeção.

Contudo, o que realmente compensa em “Looper”, a despeito de seu bom aparato técnico-artístico, é a sensação de estarmos vendo algo novo, mesmo que este “novo” aponte fortes referências de obras predecessoras. Ele não é baseado em livros ou HQs, não continuação, remake, prequel ou qualquer coisa que o valha. Trata-se de um filme em que um cineasta resolveu contar uma história que simplesmente lhe passou na cabeça e isso, diante da pouca inspiração do cinemão pipoca dos últimos anos, é um grande trunfo que nos faz olhar para ele com uma primeira impressão de simpatia. Dizem por aí que “a primeira impressão é a que fica”. E, ao menos com este que vos escreve, a primeira impressão de estar diante de uma agradável estranheza foi a que ficou.


Cotação:
Nota: 8,0